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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Uma Mulher de Poder no Coração da Europa Medieval. Isabel de Portugal. Daniel Lacerda. «… constatava-se cada vez mais que a mão do rei se escondia atrás das acções dos bandos de esfoladores (écorcheurs) comandados por Rodrigue Villandrando…»

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Duquesa de Borgonha. O caso de Calais
«(…) Estes acordos puseram fim à crise que ameaçava os Países Baixos flamengos depois das destruições e das pilhagens das tropas do duque de Gloucester, provocando a suspensão do comércio com a Inglaterra, de onde provinha a lã que alimentava a poderosa indústria dos panos nestas cidades. O comércio e a actividade dos portos de Bruges e de Antuérpia temiam pelo futuro. As manufacturas do pano, em que os artesãos flamengos haviam adquirido uma notável mestria, estendiam-se ao campo e abasteciam todas as regiões da Europa. Os portos em causa estabeleciam trocas comerciais muito apreciadas pelos congéneres do Norte, reagrupados nas Hansas, através do transporte de mercadorias para os portos nórdicos e até aos da Rússia.

A libertação de Carlos Orleães e as negociações com Carlos VII
Carlos Orleães, sobrinho de Carlos VI, prisioneiro dos ingleses depois de Azincourt (1415), dedicou-se à poesia durante o seu longo cativeiro. Dado o impasse dos acordos de paz, a duquesa negociou a sua libertação separadamente. Ao seu irmão Duarte I, rei de Portugal, tinha já solicitado que interviesse junto dos ingleses. Dona Isabel havia obtido do cardeal de Winchester a garantia de que seria ele a encarregar-se do caso. O cardeal havia experimentado algumas dificuldades em obter esta libertação. Os ingleses exigiam 80 000 escudos para libertar o refém e o dobro desta soma ao cabo dos seis meses seguintes. A duquesa apelou um pouco por todo o lado, aos nobres como aos burgueses, para reunir a importante soma, ajuntando a essas mais de um terço provenientes das suas próprias economias. No fim de Outubro, os 80 000 escudos foram remetidos aos interessados. O duque Orleães foi então conduzido a Calais acompanhado por muitos senhores e depois a Gravelines, onde foi recebido em 11 de Novembro de 1440 pela duquesa e pelos embaixadores de França. O duque juntar-se-lhes-ia mais tarde. Dona Isabel mostrou-se de uma particular amabilidade para com o recém-libertado e, depois de uma primeira entrevista, jantaram no interior da tenda do cardeal Beaufort. Antes de deixar a Inglaterra, onde passou 25 anos, o príncipe prometeu sob juramento trabalhar para restabelecer a paz entre as duas Coroas e deixou a sua marca nas negociações. Para festejar a libertação de Carlos e o seu casamento com Marie de Clèves, que pertencia à família do duque, foram organizados encontros jubilatórios com grande pompa duas semanas depois. Ao inaugurar as cerimónias, o duque de Borgonha ordenou a leitura do tratado de Arras, que o duque de Orleães jurou observar, de mão sobre o Evangelho, diante do arcebispo de Reims; o conde de Dunois, seu irmão, fez o mesmo juramento.
Filipe, o Bom, celebrou o regresso do primo com magnificência, dispensando grande cortesia aos senhores estrangeiros presentes. Lorde Cornwalis e outros senhores ingleses foram convidados a ficar para as festas. Belas justas disputaram-se diante das damas incumbidas da entrega dos prémios. Das cidades vizinhas chegaram grandes quantidades de provisões destinadas ao sustento de grupo tão extenso de convidados. A 30 de Novembro, o duque Filipe fez reunir em Saint-André o sexto capítulo do Tosão de Ouro e impôs ao duque de Orleães o colar de cavaleiro, bem como a João II, duque de Alençon, João V, duque da Bretanha, e Mathieu Foix, conde de Comminges. As festividades, aquando da entrada em Bruges de Carlos e da duquesa de Orleães, permitiram ao duque reconciliar-se com os notáveis de Bruges que tinham vindo convidá-lo a Saint-Omer. Filipe pensava que no futuro Carlos se apoderaria do reino e por isso lhe prodigalizou dinheiro e permitiu que os gentis-homens dos seus Estados o servissem. Mas o rei fazia uma apreciação diferente do facto de os duques terem estado na origem da libertação do duque de Orleães e de assim terem estreitado os seus laços com os borgonheses.
Na sequência do envolvimento de dona Isabel como mediadora, a duquesa voltou a encontrar-se em Laon com Charles VII, mas a pressa do rei na obtenção da paz não era a mesma. A paz na Flandres e a liberdade de comércio negociada com os ingleses, a estabilidade e o reforço do poder real, apareciam como uma ameaça para a Borgonha. No fundo, constatava-se cada vez mais que a mão do rei se escondia atrás das acções dos bandos de esfoladores (écorcheurs) comandados por Rodrigue Villandrando que, depois de 1437, foram autores de violências no Hainaut e na Picardia. Na Sabóia e em Estrasburgo, os Armanacs semeavam o terror atravessando o Reno por Frankfurt. Mas as comunas da Suíça evitaram que eles perturbassem o Concílio de Basileia onde o rei de França conseguiu fazer aprovar a Pragmática-sanção retirando aos papas o poder de colação de bispos e arcebispos, que ficavam sob eleição dos capítulos. Filipe, o Bom, opondo-se, apoiou o papa no conflito que o opunha aos padres reunidos em Basileia tendo mandado embaixadores ao Concílio de Florença». In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

Cortesia de Presença/JDACT

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Uma Mulher de Poder no Coração da Europa Medieval. Isabel de Portugal. Daniel Lacerda. «Os ingleses cobiçavam toda a França até, ao Loire, mais a Guyenne e o Poitou. E os franceses não queriam ceder mais do que a Normandia e a Guyenne. As duas forças enfrentaram-se em Meaux»

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Duquesa de Borgonha. O caso de Calais
«(…) Nesta primeira conferência de Gravelines não se chegou mais longe que a um compromisso de realizar outras em Calais sob mediação do duque Carlos Orleães. As Conferências tiveram lugar em Oye, no limite das terras borgonhesas e da Marche de Calais, e chegaram ao fim, em Julho, com o restabelecimento da paz entre a Inglaterra e a França e também com um acordo comercial com os flamengos. Dona Isabel foi o coração da organização e da negociação ao conseguir por frente a frente os embaixadores dos dois reis, salvaguardando os interesses da Borgonha e dos flamengos, que lhe ficaram gratos. O duque Filipe veio juntar-se-lhe em princípios de 1440 e instalaram a corte em Saint-Omer, de onde a duquesa se deslocava a Gravelines para participar nas negociações, acompanhada do chanceler Nicolas Rolin e de outros conselheiros, no papel de mediadora do rei de França, Carlos VII, enquanto o cardeal Henri Beaufort representava Henrique VI de Inglaterra. O duque não participou, mas dona Isabel consultava-o amiúde.
No intervalo das conferências efectuou-se o casamento de Carlos, conde de Charolais, com Catarina de França, que tinha então dez anos. O rei de França fê-la acompanhar de um ilustre séquito, conduzido pelos condes de Vendôme e de Tonnerre, pelos arcebispos de Reims e de Narbonne, que viajaram com outros embaixadores franceses agregados às negociações. Depois de uma recepção em Cambrai dada pelos condes de Nevers e de Étampes, o chanceler da Borgonha e substancial número de senhores, a condessa de Namur e outras grandes damas acolheram-nos e acompanharam-nos até Saint-Omer, onde se encontrava o duque. Mal o casamento foi celebrado, a 11 de Junho, as festividades tiveram imediatamente lugar, começando por uma justa em que o senhor de Créqui foi o paladino (Catarina viria a falecer em Bruxelas, em 1446, com a idade de 18 anos, sem deixar descendência).
Logo depois, a duquesa de Borgonha dirigiu-se a Gravelines com os seus conselheiros, o bispo de Cambrai e os senhores de Crèvecoeur e de Santes. O rei fez-se representar pelos senhores que haviam acompanhado Catarina. A delegação inglesa, dirigida pelo cardeal de Winchester, era completada pelo duque de Norfolk e o conde de Essex. Estavam presentes igualmente delegados do concílio de Basileia, que o rei apoiava, e do conde de Armagnac. As negociações desenrolaram-se em tendas, ricamente decoradas com tapeçarias, que a duquesa havia ordenado que fossem armadas em Oye, próximo de Calais. Mal-grado a cumplicidade existente entre os dois parentes, dona Isabel e o cardeal, seu tio, que desenvolviam, finalmente, uma actividade para lá, da simples mediação, as negociações entre as duas Coroas prolongaram-se sem que para elas fosse encontrada uma saída. Os ingleses cobiçavam toda a França até, ao Loire, mais a Guyenne e o Poitou. E os franceses não queriam ceder mais do que a Normandia e a Guyenne. As duas forças enfrentaram-se em Meaux, e os ingleses, em número superior, quase chegaram a ameaçar Paris. Os franceses acabaram por arrebatar aquilo de que as conversações de Gravelines os haviam despojado. A duquesa e o cardeal Beaufort despediram-se, todavia, de boas relações.
Mais fácil foi o restabelecimento, a partir de 29 de Setembro, da liberdade comercial entre a Inglaterra, a Flandres, o Brabante e Malines. A pedido da duquesa, os embaixadores conseguiram que os direitos de pesca fossem alargados a outros portos da costa até junto do rio Somme. Ao longo dos anos seguintes, a duquesa interveio para pedir aos ingleses respeito pela liberdade de pesca a favor dos pescadores das margens da Mancha. Um novo tratado foi assinado em Dijon, a 23 de Abril de 1443, pelo seu representante João Luxemburgo, senhor de Haubourdin, estando dona Isabel de Portugal então na posse de delegação de poderes do duque Filipe». In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

Cortesia de Presença/JDACT

Uma Mulher de Poder no Coração da Europa Medieval. Isabel de Portugal. Daniel Lacerda. «Mas, mais do que isso, pela sua natureza generosa, exerceu uma função insubstituível enquanto elo de ligação e de reconciliação entre o duque, os seus vassalos e os administradores»

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Duquesa de Borgonha. O caso de Calais
«(…) A sublevação estendeu-se a Bruxelas, Lovaina e Malines. Piratas vindos da Holanda e da Zelândia unindo-se aos insurrectos de Calais, que continuava sob controlo inglês, arruinaram o comércio que se fazia por via marítima e desceram à Flandres para pilhar. O duque procurava, mas em vão, que estas acções não deteriorassem o comércio com os portos germânicos de Hamburgo, Lubeque e Bremen. Em Maio de 1437, uma nova insurreição, que vitimou dezenas de soldados ducais bem como o capitão Jean Villiers, senhor de Isle-Adam, pôs Filipe em dificuldade. As terras da Flandres atravessavam um período de penúria, miséria e fome, enquanto em Paris uma epidemia provocava mais de 50 mil mortos. Na sequência destes acontecimentos a duquesa foi solicitada a intervir junto do duque por deputações de magistrados e donatários dos ofícios enviados pela cidade de Bruges, que ela recebeu em Hesdin e Arras. Nesta cidade da Picardia fora concluído um tratado de paz que humilhava os habitantes de Bruges. Estes tiveram de aceitar uma dezena de execuções capitais, consumadas a 30 de Abril de 1438, uma pesada multa de 200 000 ridders e foi ainda acordado indemnizar a duquesa com várias somas em ouro por terem-na prendido e pelo seu papel de intermediária no tratado. Tocada na sua sensibilidade por este excesso, a duquesa prescindiu da última recompensa e, reconciliante, tornou a Bruges depois das decapitações, enquanto Filipe lá não voltaria senão em 1440.
Dona Isabel foi expressamente coagida pelo duque a aceitar a reparação de desobediência da parte das autoridades de Bruges, que pediram para vê-la, e comportou-se como uma mensageira de paz entre aqueles e Filipe. Implicada de novo nos meandros da violência guerreira, que regulava os conflitos de poder da época, a duquesa, com os dons da sua própria natureza, conseguia forjar novos equilíbrios que excluíam o excesso absoluto. As responsabilidades executivas de dona Isabel no seio da administração do ducado revestiam-se de vários aspectos segundo as circunstâncias, dadas as suas capacidades e qualidades. Em tempo normal, ocupava-se da gestão da economia; e dos assuntos da defesa, em que chegou a tomar decisões, por ocasião dos constantes afrontamentos guerreiros. Mas, mais do que isso, pela sua natureza generosa, exerceu uma função insubstituível enquanto elo de ligação e de reconciliação entre o duque, os seus vassalos e os administradores.
Os cronistas perguntaram-se durante muito tempo qual o modelo que a duquesa teria seguido nas múltiplas escolhas que alargaram consideravelmente o círculo de relações do ducado. Os estudos levados a cabo sobre sua mãe, a rainha dona Filipa, que abandonou a corte do duque de Lencastre em 1387 para se tornar mulher de João I de Portugal, esclarecem-nos em muitos pontos. Com efeito, ela notabilizou-se por ter impelido o rei a acções decisivas, em particular o seu envolvimento na expansão transatlântica e na perseguição aos mouros infiéis. Apoiando-se nos religiosos cristãos, fez adoptar pela força costumes litúrgicos ingleses. E, mantendo continuadamente relações com o seu país, conservou junto de si, em Portugal, um pessoal britânico numeroso, como dona Isabel fez com os portugueses.

O regresso às relações com os ingleses
Razões económicas estiveram na origem do rápido restabelecimento das trocas comerciais com os ingleses e dona Isabel, dada a sua posição privilegiada, desempenhou aí o seu papel. Enviou de facto vários mensageiros (Sanche Lalaing e, secretamente, o seu mordomo Louis Chantemerle), ao outro lado da Mancha para tomar contacto com o seu tio Henri de Beaufort, bispo de Winchester, onde foram encetadas as conversações de Gravelines. A duquesa negociou igualmente com as cidades têxteis flamengas o pagamento de um imposto sobre a lã importada de Inglaterra. Dona Isabel começou por ir ao encontro da embaixada de Beaufort, perto de Gravelines, no fim de Janeiro de 1439. Os ingleses mostraram-se conciliadores e prontos a libertar Carlos Orleães, feito prisioneiro com outros nobres na desgraçada batalha de Azincourt, em 1415, face ao desejo por ela manifestado de discutir as condições do restabelecimento de uma paz estável. A duquesa partiu acompanhada de sábios, conselheiros eclesiásticos e seculares; o duque preferiu a reserva. Ele acabava de obter uma reaproximação com França ao negociar o casamento do seu filho Carlos, conde de Charolais, com Catarina, filha do rei, acordo que foi assinado por Crèvecoeur, embaixador do duque, em Setembro de 1439, em Blois». In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

Cortesia de Presença/JDACT

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Isabel de Portugal. Duquesa de Borgonha. Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval. Daniel Lacerda. «Concedeu à duquesa uma renda de 4000 libras, assim como recompensou generosamente o chanceler Nicolas Rolin e vários cavaleiros do Tosão de Ouro…, a acção diplomática do marido, Filipe incumbi-la-á, mais tarde, de novas missões junto de Carlos VII»

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O nascimento do herdeiro Carlos
«(…) Com a honra restabelecida, o duque havia igualmente protegido e alargado os seus domínios. O cronista La Taverne conta que dona Isabel observou a cerimónia do quarto de um monge com vista para o coro da igreja. Esse monge, Antoine La Taverne, da mesma abadia manteve um diário das negociações do Tratado e legou-nos todos os pormenores. O envolvimento da duquesa nas complexas negociações que restabeleceram a paz nos territórios do Sul pertencentes ao ducado pode medir-se pela rapidez com que preveniu o irmão, o rei Duarte de Portugal, resumindo-lhe as cláusulas do tratado e sublinhando a mudança de atitude dos duques relativamente à sua aliança com o ocupante inglês e a consequente fidelidade à França. Do mesmo modo, o facto de a sua intervenção não ter favorecido os ingleses, mau grado os laços familiares com os representantes destes, está confirmado pelo reconhecimento demonstrado por Carlos VII que, em retribuição, concedeu à duquesa uma renda de 4000 libras, assim como recompensou generosamente o chanceler Nicolas Rolin e vários cavaleiros do Tosão de Ouro. Depois desta provação, em que a duquesa secundou, com a sua personalidade, a acção diplomática do marido, Filipe incumbi-la-á, mais tarde, de novas missões junto de Carlos VII.

O caso de Calais
O Tratado de Arras provocou grande descontentamento entre os ingleses, que tudo farão para enfraquecer o duque sublevando a Flandres. Pressionado pelos seus conselheiros e senhores das cidades vizinhas, Filipe toma a iniciativa e reúne fundos, homens e material para assaltar o porto de Calais, nas mãos dos britânicos, que o utilizam para introduzir no continente as lãs inglesas. A duquesa Isabel desdobra-se entre Gand e Bruges, secundando o duque nestes preparativos, continuando assim em oposição à sua família do outro lado da Mancha. Filipe desloca-se, em Abril de 1436, à Holanda, para recrutar navios. Apoiado pelo povo de Gand, põe em curso acções militares para arrancar Calais aos ingleses. Apesar da mobilização conseguida, o duque abandona o cerco, renunciando a invadir a cidade. O duque de Gloucester replicara, desencadeando operações de pilhagem numa parte da Flandres. Depois de ter falhado a tentativa de retomar a fortaleza de Crotoy na embocadura do rio Somme, o duque viu explodirem várias revoltas nas cidades flamengas, assoladas pela miséria. Nesse tempo, dona Isabel ocupava-se ainda da administração, reunindo o conselho em Gand. Mas foi forçada a implicar-se no apoio às operações militares, reunindo somas de dinheiro, mobilizando as forças dos nobres e preparando o envio de um reforço à frota de Écluse. Fundamentando-se na sua correspondência, M. Sommé relata o detalhe destas acções, que ocuparam a duquesa ao longo dos anos de 1436-1437, comparando-as às funções exercidas anos antes, durante a sua agitada permanência em Dijon. Depois da derrota diante de Calais, o duque encarregou a esposa de outras missões delicadas. De um lado, era preciso mobilizar o exército para rechaçar os ingleses que invadiam a região de Oostburg, e, do outro, convencer os flamengos a combatê-los. No princípio de Agosto, a duquesa reuniu-se em Gand e em Bruges com os deputados desta cidade e sem perda de tempo enviaram um contingente a proteger o porto de Écluse. Ela ocupava-se, pois, dos deveres árduos do momento, fosse no tocante a uma gestão atenta da diplomacia, fosse abrindo o saco das libras que a tropa esperava. As capacidades de organização e de negociação de dona Isabel, em substituição do duque, tornavam-se particularmente oportunas na medida em que os territórios do Estado borgonhês estavam a ser cobiçados pelos seus poderosos vizinhos.
Uma vez que os esforços de mobilização militar não se concretizavam, Bruges sublevou-se a 26 de Agosto de 1436. Os revoltosos mataram o bailio Tassart Brisse e capturaram o capitão do porto de Écluse, Roland de Uutkerque, que não havia acolhido as milícias no regresso de Oostburg. Dona Isabel, tendo junto de si o filho Carlos, viu-se obrigada a deixar Bruges a 28, não sem antes ter sido detida e enxovalhada, bem como outras damas do seu séquito como Marguerite de Commynes e Marguerite de La Trémoille. Acontecimentos violentos tinham, entretanto, abalado a confiança da duquesa: Carlos fora detido e retido pelos revoltosos de Gand na estrada de Calais e o almirante de Flandres, Jean Hornes, acabara ferido de morte por eles a 13 de Agosto. Dona Isabel ficou de tal maneira afectada que posteriormente virá a recusar vários convites dos administradores de Bruges para regressar à sua cidade; só lá voltará em 1438». In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

Cortesia de Presença/JDACT

sábado, 25 de outubro de 2014

Isabel de Portugal. Duquesa de Borgonha. Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval. Daniel Lacerda. «… perante a confusão da existência de dois reis de França (‘o inglês Henrique VI e Carlos VII’), os borgonheses começaram a entender-se com os franceses. O duque exigiu uma reparação pela morte de seu pai, João Sem Medo…»

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O nascimento do herdeiro Carlos
«(…) Face às queixas e inquietações das gentes de Mâcon, D. Isabel admitiu negociar uma trégua com os delegados do duque de Bourbon. Mas Filipe, o Bom, estando de volta à Borgonha a meio de Agosto de 1434, acaba por pôr fim a estas negociações, enfrentando em Nevers, em Fevereiro de 1435, os duques de Bourbon e de Richemont. Durante este tempo, a duquesa continuou activa na organização dos negócios da guerra, dirigindo a convocação dos homens de armas e o aprovisionamento das tropas. Isabel assumia estas responsabilidades completando-as com uma grande preocupação dispensada às relações com os diversos grupos sociais. Monique Sommé, que estudou detalhadamente a acção da duquesa durante este período, resume-a nestes termos: Isabel desempenhou um papel essencial no governo da Borgonha durante o tempo que durou a pacificação do país, com grande sentido de organização e dando provas de persuasão e de autoridade nas suas relações com os estados, as vilas e os oficiais ducais.
Num artigo, esta historiadora relata-nos a juventude de Carlos, fazendo uma descrição das instalações que seu pai para ele construíra e que ocupou desde o seu nascimento, frente ao castelo.Acompanham-no a sua ama-de-leite Simone Sauvegrain e Marguerite Villers La Faye, governanta da casa. Esta borgonhesa ficará dez anos ao seu serviço, tendo sob as suas ordens a ama-do-berço Isabeau de Morailles, um chefe de mesa, um criado de quarto e um escrivão. Na Primavera de 1435, os duques tomam o caminho da Flandres. Deviam organizar uma conferência na continuação do acordo de Nevers. A duquesa viajou em liteira com Carlos seguindo o duque Filipe, no meio das tropas e de uma centena de carros. Estacionaram em Auxerre a 8 de Abril e em Paris a 14. Os duques instalaram-se na residência de Artois, guarnecida de tapeçarias flamengas, onde Filipe recebeu os notáveis, os burgueses e os mestres universitários depois de ter assistido à missa da Páscoa em Notre Dame. Às raparigas e burguesas que tinham vindo implorar a Isabel que interviesse a favor da paz, ela assegurou-lhes ter disso o maior desejo e que dia e noite rezava ao senhor pelo grande bem que vejo daí resultar. Na quinta-feira seguinte, 21 de Abril, os duques voltaram a partir em direcção a Arras.

O Tratado de Arras
Filipe, o Bom, tinha encarregado o seu chanceler Nicolas Rolin de preparar as negociações de paz de Arras onde os duques, beneficiando de relações especiais com os ingleses, procuravam retirar vantagens para assegurar a protecção dos seus territórios do Norte. De resto, eles conseguiram ser reconhecidos e participar de parte inteira, ao lado dos delegados do rei de França e dos ingleses. Desde o princípio do mês de Julho até Setembro de 1435, os duques, acompanhados de Carlos, fixaram residência em Arras, porque as negociações do tratado exigiriam muitos contactos. Era raro ver reunidos tantos duques e condes. Esta reunião foi uma das mais importantes da época, reagrupando delegações de numerosos reinos. Participou igualmente uma delegação portuguesa.
A duquesa tomou aí parte nas negociações com os ingleses e obteve largas vantagens para o ducado. Ela presidiu também às recepções dadas em honra dos seus hóspedes. Antes das negociações, Filipe, o Bom, organizou manifestações cavaleirescas, designadamente um torneio entre os condes de Étampes, de Saint Pol e de Ligny e o conde de Suffolk. Os ingleses foram mal recebidos e, suspeitando da ruptura da aliança por parte do duque, não tardaram em retirar-se. Os plenipotenciários de Carlos VII estavam prestes a ceder-lhes definitivamente a Aquitânia e a Normandia se Henrique VI renunciasse ao título de rei de França. Em troca, exigiam de Carlos VII que se reconhecesse seu vassalo. Sem participar directamente nas negociações, a duquesa Isabel conduziu as entrevistas, primeiro, com um mediador nomeado pelo papa, o cardeal Albergati e, mais tarde, com o seu tio cardeal de Beaufort, bispo de Winchester. O cardeal inglês procurou garantir o apoio de Filipe, sem o conseguir. Desapontados, os ingleses acusaram Filipe de traição, considerando o seu volte-face indigno de um verdadeiro cavaleiro.
Com efeito, perante a confusão da existência de dois reis de França (o inglês Henrique VI e Carlos VII), os borgonheses começaram a entender-se com os franceses. O duque exigiu uma reparação pela morte de seu pai, João Sem Medo, assassinado em Montereau, e obteve ainda Auxerre, o Auxerrois, Bar-sur-Seine, Luxeuil, Boulogne-sur-Mer e as cidades da Somme, ao mesmo tempo que a libertação, em vida, da vassalagem ao rei de França. O tratado de paz concluído a 21 de Agosto entre o rei de França, Carlos VII, e o duque de Borgonha foi celebrado solenemente na Igreja de Saint-Vaast d’Arras, na ausência da duquesa, cuja intervenção a favor da paz foi considerável. Acção que o poeta Martin Le Franc reconhecia nestes versos:

Viva a senhora, e bendito seja
quem nos deu tal princesa!
Por ela a horrível guerra cesse
e volte o trabalho da paz».

In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

Cortesia de Presença/JDACT