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quinta-feira, 24 de novembro de 2022

A Obra Poética. José Pina Martins. «Os dois pastores do diálogo discordam de critério, quanto às virtudes a preferir na mulher, já que um opta pela beleza e outro mais solidamente pelos bens materiais…»

 

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«(…) Pessimismo antropológico e cosmológico até, mas nem sempre expresso através das formas literárias consuetas, dos achadilhos conceituosos da tese e da antítese, como em Petrarca e nos petrarquistas, da afirmação e da negação, da dúvida e da fé, da ilusão e da sua consciência lúcida (desilusão), da aceitação e da atitude inconformista, do crer e do duvidar. É talvez especificamente melódico o recurso à expressividade de um humorismo transcendente para significar a problemática da dor pelo próprio sujeito experimentada. A vocação do moralista ergue-o na passagem do concreto para a reflexão sentenciosa, mas sem um divórcio temático do aforístico em relação ao vivencial ou ao religioso.

Não raro, as fontes clássicas insinuam na palavra poética o recurso a uma erudição profundamente assimilada, mas porque o poeta sabe colocá-la no seu verdadeiro plano de arte ou de artifício, nunca a cultura abafa a experiência, e por isso nunca o artifício sábio ou técnico se sobrepõe à arte. Mas estamos em crer que os sonetos mais artisticamente valiosos de dom Francisco Manuel são os de tema predominantemente religioso, como Antes da Confissão. Já num outro estudo tivemos oportunidade para relevar os elementos essenciais de valorização estética desta composição e não vamos aqui repetir-nos. A palavra poética, nesta parte de As Segundas Três Musas, assume, como na Retórica renascentista, a plenitude de um valor directamente ligado ao humano. Não há dúvida de que uma tal poesia exprime, na arte, o próprio homem.

As Éclogas.

A Sanfonha de Euterpe, segunda parte de As Segundas Três Musas, é formada por éclogas e cartas. Já se observou que falta às primeiras o ambiente genuinamente pastoril que deveria caracterizar o género, mas nisto, como aliás na própria substância doutrinal, o Melodino segue a lição e o exemplo de Sá de Miranda, seu modelo também nas cartas.

A écloga Casamento, que integra o cap. II de PEM, é talvez, neste domínio, o exemplo mais representativo. O tema era muito do agrado do nosso autor, que o tratou também na Carta de Guia de Casados.

Os dois pastores do diálogo discordam de critério, quanto às virtudes a preferir na mulher, já que um opta pela beleza e outro mais solidamente pelos bens materiais. O cura, discreto e avisado segundo o cânone do ideal normativo da época, concilia as duas opiniões de acordo com um ideal de equilíbrio e moderação. A lição do meio termo é igualmente preconizada nas éclogas Temperança e Rústica. Mediano, aliás, é o nome de um dos interlocutores de Temperança, cujo conselho, de resto, pode resumir-se nos dois versos que, com outros, se encontravam gravados no templo aonde os dois pescadores (Afouto e Medroso) são levados por Mediano: Caminha sempre a um justo fim direito, / fugindo todo extremo perigoso. E assim como, em Basto, Gil exprime as ideias de Sá de Miranda, na écloga Rústica, por exemplo, Cremente tem palavras cujo tom de pessimismo profundo e sentido reflecte a experiência dolorosa de dom Francisco Manuel de Melo. A lição de moralidade, que informa o suco didáctico das éclogas, não apagou o sinete autêntico de transposição da vida vivida na palavra poética. Mas as cartas são, a este respeito, ainda mais interessantes.

[...]» In José Pina Martins, A Obra Poética de D. Francisco Manuel de Melo, HALP 31, Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, ISSN 1645-5169.

Cortesia de FCGulbenkian/JDACT

JDACT, José Pina Martins, Isabel Allegro Magalhães, Poesia, D. Francisco Manuel de Melo, Século XVII,

terça-feira, 22 de novembro de 2022

A Obra Poética. José Pina Martins. «Os estudiosos mais sérios da nossa terra insistem em ver em As Segundas Três Musas de Melodino, insertas na segunda parte do grosso volume das Obras Métricas (Lyon, 1665)…»

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«Dom Francisco Manuel Melo (1608-1666) ocupa de há muito tempo, como prosador, um lugar eminente na história da literatura portuguesa. São poucos, porém, os críticos que tenham consagrado à sua obra poética a atenção que ela merece. Já alhures escrevemos que a minimização do valor poético de dom Francisco Manuel Melo é, não raro, o resultado de posições apriorísticas ou ideias preconcebidas. Os estudiosos mais sérios da nossa terra insistem em ver em As Segundas Três Musas de Melodino, insertas na segunda parte do grosso volume das Obras Métricas (Lyon, 1665), mais um produto do talento multiforme do autor, do que a expressão literária autêntica de uma experiência humana profundamente sentida e vivida. Estamos em crer que, salvo poucas e honrosas excepções, podem contar-se pelos dedos aqueles que algum dia tenham contactado, em convívio diuturno, o mundo poético do Melodino, pois, de contrário, ter-se-iam logo apercebido do valor estético ímpar de algumas composições. Entre aqueles que, entre nós, estudaram a poesia de dom Francisco Manuel, merecem ser distinguidos José Pereira Tavares que, em 1921, nos deu uma edição antológica das suas Rimas Portuguesas e Orações Académicas, e, mais recentemente, António Correia de A. Oliveira, que ao nosso autor consagrou vários estudos de valor excepcional. Outros  investidores se têm ocupado do Melodino, nomeadamente Hernâni Cidade e Maria de Lourdes Belchior, com invulgar argúcia e erudição: mas não em trabalhos monográficos, ex professo dedicados à sua poesia.

Não nos cabe, estudar mais ou menos detidamente As Segundas Três Musas, mas só dedicar-lhes um antelóquio superficial: a poesia apresentar-se-á por si mesma, no valor genuíno da sua significação humana e estética. Seja-nos, contudo, lícito pôr em relevo um ou outro aspecto temático e de técnica formal mais digno de realce, principalmente numa perspectiva de pesquisa dos valores de fidelidade artística da palavra significante à sua carga vital de significado. Corresponde, então, a poesia do Melodino às dores da experiência vivencial expressa poeticamente? Cumpre-nos aqui observar, in limine, que o prisioneiro da Torre Velha fez da sua vida um poema, ou melhor, a sua vida está toda ela, com o sinete de uma experiência dolorosa, nalguns dos seus poemas. Documentá-lo é, porventura, mais fácil do que enunciá-lo.

Os Sonetos

A primeira parte de As Segundas Três Musas é formada por 100 sonetos, alguns deles documentos interessantes de engenhoso conceptismo, com profusão de imagens requintadas e metáforas de elaboração aguda. Nascem, assim, obscuridades e ambiguidades intencionais, bem de acordo com os preceitos da doutrina barroca. Não obstante tudo isso, que é afinal o tributo pago pelo autor à moda do tempo, já um crítico de grande autoridade foi levado a escrever que o nosso poeta preanuncia, nesta parte da sua obra, a lira anteriana. Quer tratando o tema da liberdade individual, ele que se encontrava prisioneiro na Torre e bem conhecia os grilhões da vida cortesã, quer repetindo alguns tópicos do petrarquismo numa poesia amorosa que, apesar da imitação, ostenta o sinete de uma visível originalidade, dom Francisco Manuel consegue superar os esquemas artificiais de uma arte toda voltada para a quinta essência do jogo dialéctico e do brinco subtil.

Não raro o tom vagamente preceptivo e normativo identifica-se com o epigramático: aliás o poeta hauria a lição em fontes autênticas, como são as da sabedoria popular que exprime o mais saboroso do seu suco em provérbios e ditos exemplarmente concisos. Também a consciência do tempo breve, da fugacidade da vida, da efemeridade das coisas, na certeza de que viver é peregrinar na terra do exílio, tem em dom Francisco Manuel um intérprete inspirado, a despeito da dificuldade de um tal tratamento poético, já então exemplarmente fixado em obras-primas consagradas como as de Sá Miranda e Camões, para só referirmos dois nomes da literatura portuguesa que lhe serviram de modelos e de mestres». In José Pina Martins, A Obra Poética de D. Francisco Manuel de Melo, HALP 31, Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, ISSN 1645-5169.

Cortesia de FCGulbenkian/JDACT

JDACT, José Pina Martins, Isabel Allegro Magalhães, Poesia, D. Francisco Manuel de Melo, Século XVII, 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Apólogos Dialogais e diálogos alegóricos. Francisco Manuel Melo. Pedro Serra. «… até um livro me dizem que saiu agora que chamam ‘Hora de Todos’, que, com galantaria digna de seu autor…»

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«(…) Para Giacinto Manuppella, um dos mais documentados estudiosos destes textos, são quatro obras-primas, repassadas de imperecível vitalidade artística. Com Os Apólogos Dialogais, Francisco Melo insere-se numa tradição de textos cujo modelo português das primeiras décadas do século XVII é a Corte na Aldeia, de Rodrigues Lobo. Por outro lado, é o próprio Francisco a estimular a aproximação comparativa com outros textos peninsulares afins.
O nome que imediatamente se nos afigura comparável é o de Francisco Quevedo, de resto amigo e correspondente de Francisco Melo. Em Os Relógios Falantes, a Fonte Velha faz referência a La hora de todos e fortuna con seso do autor espanhol: até um livro me dizem que saiu agora que chamam Hora de Todos, que, com galantaria digna de seu autor, se esmera muito em provar, com discursos e exemplos, esta verdade. Mais ainda, na Dedicatória de A Visita das Fontes, a Cristóvão Soares Abreu, Francisco recordaria uma vez mais o poeta espanhol: neste estado me acolheu esta leve ilusão que agora vos comunico. Não foi sonho, pois não é de juro e herdade que hajam de sonhar todos os Dons Franciscos. Sonhou o de Quevedo, porque tinha ou Fama ou Sorte sobre que podia dormir seguro. Mas eu, que há tantos anos que não repouso, mais depressa, de muito desvelado, escreverei, antes que sonhos, dilírios! Uma comparação, na verdade, marcada pela ironia. Francisco Melo, ao distinguir sonhos de delírios, demarca os seus textos dos de Quevedo, que constituem um horizonte intertextual feito de diferenças e de convergências. Note-se que o comentário do autor de A Visita das Fontes é bastante rico de sentido. Se o onirismo quevediano é marcado, na óptica do nosso moralista, por uma existência segura, o delírio pressupõe o auto-reconhecimento de que as tribulações existenciais imprimem uma especificidade ao seu texto. O factor biográfico, além de explícito num autor que reconhece que os textos e os livros que cita são a experiência e a memória, é uma presença implícita nos apólogos. Esta constatação não é de somenos importância. O valor moralístico nasce de um conjunto de circunstâncias vitais que funcionam como motor da escrita. Um bom exemplo é o ataque à lentidão da aplicação da justiça em Os Relógios Falantes: Francisco padeceu, como bem sabemos, os reveses de uma perseguição pessoal que o levou ao encarceramento e ao exílio. Simultaneamente, o passo é revelador do modo como Francisco lida com possíveis influências. A relação com os Sueños de Quevedo é pouco ou nada ansiosa. A configuração genológica sonho (de Quevedo) é adaptada à subjectividade do autor português. Descentrando o seu texto, não há que esquecer que Francisco Melo classificou os Apólogos, no conhecido elenco bibliográfico que antecede as Obras Morales, como obras exquisitas, o autor de O Fidalgo Aprendiz dá fortes indícios de uma relação com a categoria género, e com a auctoritas dos que o cultivam ou dele são paradigmas, algo lassa. Um bom exemplo é a Carta de Guia de Casados, texto onde convergem a epistolografia, a tratadística, ou, talvez melhor, o ensaísmo, e, porque não, a autobiografia. Voltando ao passo antes citado, ele deve ser entendido num século e num sistema literário que permeabilizam e fecundamente interpenetram os géneros literários. O rigorismo genológico é apanágio de outros programas literários, anteriores e posteriores a Francisco Melo. Estes aspectos devem ser tidos em linha de conta quando partimos para a comparação de qualquer dos Apólogos com textos afins. [...]» In Pedro Serra, Apólogos Dialogais e diálogos alegóricos, Francisco Manuel Melo, Apólogos Dialogais, Os Relógios Falantes, A Visita das Fontes, Coimbra: Angelus Novus, 1998, Fundação Calouste Gulbenkian, Halp 31, 2004.

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

Apólogos Dialogais e diálogos alegóricos. Francisco Manuel Melo. Pedro Serra. «A ‘editio princeps’ dos quatro diálogos imaginários data da centúria de setecentos e só nos finais do século passado se deu a conhecer ‘A Feira dos Anexins’»

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«Os Apólogos Dialogais, de que conservamos quatro completos, Os Relógios Falantes, O Escritório Avarento, A Visita das Fontes e O Hospital das Letras, o esboço de um outro, A Feira dos Anexins, e o indício de que um sexto terá ficado por realizar, O Cabido dos Coches, não foram editados em vida de Francisco Manuel Melo. A editio princeps dos quatro diálogos imaginários data da centúria de setecentos e só nos finais do século passado se deu a conhecer A Feira dos Anexins. Não são excepções, a este respeito, no conjunto da vastíssima obra do autor da farsa O Fidalgo Aprendiz. Seja como for, isso não significa que os diferentes textos, em conjunto e em separado, não tivessem circulado com feliz fortuna. Quando Francisco Manuel Melo escreve os Apólogos tinha já atrás de si obras sobremaneira importantes no âmbito do barroco peninsular. Em castelhano, escrevera a Historia de los movimientos y separación de Catalunya, obra dada à estampa em Lisboa em 1645, com o pseudónimo de Clemente Libertino. É, sem dúvida, o livro que lhe granjeou mais fama em Espanha. Juan Luis Alborg, no capítulo referente ao Barroco da sua conhecida Historia de la literatura española, recorda as palavras encomiásticas de Cayetano Rosell, para quem o texto historiográfico de Francisco Melo é la joya de más precio que brilla en todo nuestro tesoro histórico e, ainda, el modelo más perfecto de aquel siglo. O próprio Alborg se pronuncia em termos elogiosos: Melo, evidentemente, maneja un perfecto castellano y posee extraordinarias dotes para narrar y describir; sus imágenes son tan poderosas como certeras, y lo mismo los personajes que los hechos son definidos con una robusta y gráfica energía que nos parece lo más sobresaliente de la obra. Em 1650 redige a Carta de Guia de Casados, a sua primeira obra em prosa escrita em português, texto que se destaca da tradição moralística peninsular sobre o casamento, publicando-o por primeira vez em 1651. E, claro está, há que mencionar obrigatoriamente O Fidalgo Aprendiz, escrito à volta de 1646, caso singular no panorama depauperado do teatro português coevo. Três textos que, por si sós, reservam a Francisco Melo um lugar cimeiro na República das Letras de seiscentos. Contudo, e esta é matéria de consenso, os Apólogos superariam esses conseguimentos, já de si notáveis. Do Hospital das Letras, por exemplo, dirá um Alexandre Herculano que é certamente por todos os títulos o melhor e mais claro testemunho da vasta lição de Francisco Manoel, bem como da clareza do seu juízo em matérias literárias. Rodrigues Lapa refere-se à constância do consenso crítico em relação aos Apólogos quando, na apresentação da sua edição de Os Relógios Falantes, afirma serem na opinião da maioria, a sua melhor obra, a que resume na verdade as prendas do seu espírito: a prontidão do chiste, a rica fantasia e a observação moral da vida e dos homens». In Pedro Serra, Apólogos Dialogais e diálogos alegóricos, Francisco Manuel Melo, Apólogos Dialogais, Os Relógios Falantes, A Visita das Fontes, Coimbra: Angelus Novus, 1998, Fundação Calouste Gulbenkian, Halp 31, 2004.

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

terça-feira, 2 de outubro de 2012

FCG. A Obra Poética de Francisco Manuel de Melo. José Pina Martins. «Autor multifacetado, polígrafo, e seguramente um dos maiores da literatura portuguesa seiscentista. Os dois pastores do diálogo discordam de critério, quanto às virtudes a preferir na mulher, já que um opta pela beleza e outro mais solidamente pelos bens materiais»


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Autor multifacetado, polígrafo, e seguramente um dos maiores da literatura portuguesa seiscentista. Segundo Menéndez y Pelayo, a seguir a Quevedo, a maior figura da literatura da época. E não apenas pela dimensão da Obra, escrita tanto em português como em castelhano, mas sobretudo pela sua diversidade e qualidade literária’. Obras Morales, de 1664); textos de natureza historiográfica social e política (além de outras, Historia de los movimientos y separación de Cataluña, de 1645, O Eco Político, de 1649, as cinco Epanáforas de Vária História Portuguesa, de 1660). Escreveu ainda um tratado sobre a Cabala judaica – Tratado da Ciência Cabala, de 1724 – e algumas biografias, de João IV, por exemplo’. In Isabel Allegro de Magalhães.

As Éclogas
«A Sanfonha de Euterpe, segunda parte de As Segundas Três Musas, é formada por éclogas e cartas. Já se observou que falta às primeiras o ambiente genuinamente pastoril que deveria caracterizar o género, mas nisto, como aliás na própria substância doutrinal, o Melodino segue a lição e o exemplo de Sá de Miranda, seu modelo também nas cartas.
A écloga Casamento, que integra o cap. II de PEM, é talvez, neste domínio, o exemplo mais representativo. O tema era muito do agrado do nosso autor, que o tratou também na Carta de Guia de Casados.
Os dois pastores do diálogo discordam de critério, quanto às virtudes a preferir na mulher, já que um opta pela beleza e outro mais solidamente pelos bens materiais. O cura, discreto e avisado segundo o cânone do ideal normativo da época, concilia as duas opiniões de acordo com um ideal de equilíbrio e moderação. A lição do meio termo é igualmente preconizada nas éclogas Temperança e Rústica. Mediano, aliás, é o nome de um dos interlocutores de Temperança, cujo conselho, de resto, pode resumir-se nos dois versos que, com outros, se encontravam gravados no templo aonde os dois pescadores (Afouto e Medroso) são levados por Mediano: 

‘caminha sempre a um justo fim direito,
fugindo todo extremo perigoso’.

E assim como, em Basto, Gil exprime as ideias de Sá de Miranda, na écloga Rústica, por exemplo, Cremente tem palavras cujo tom de pessimismo profundo e sentido reflecte a experiência dolorosa de Francisco Manuel de Melo. A lição de moralidade, que informa o suco didáctico das éclogas, não apagou o sinete autêntico de transposição da vida vivida na palavra poética. Mas as cartas são, a este respeito, ainda mais interessantes». In José Pina Martins, D. Francisco Manuel de Melo, Lisboa: Ed. Verbo, 1969, Fundação Calouste Gulbenkian, HALP, 2004.

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

domingo, 11 de dezembro de 2011

FCG. A Obra Poética de D. Francisco Manuel de Melo. José Pina Martins. «Quer tratando o tema da liberdade individual, ele que se encontrava prisioneiro na Torre e bem conhecia os grilhões da vida cortesã, […] apesar da imitação, ostenta o sinete de uma visível originalidade, consegue superar os esquemas artificiais de uma arte toda voltada para a quinta essência do jogo dialéctico e do brinco subtil»

(1608-1666)
Lisboa
Cortesia de forumdefesa

«D. Francisco Manuel de Melo ocupa de há muito tempo, como prosador, um lugar eminente na história da literatura portuguesa. São poucos, porém, os críticos que tenham consagrado à sua obra poética a atenção que ela merece. Já alhures escrevemos que «a minimização do valor poético de D. Francisco Manuel de Melo é, não raro, o resultado de posições apriorísticas ou ideias preconcebidas». Os estudiosos mais sérios da nossa terra insistem em ver em As Segundas Três Musas de Melodino, insertas na segunda parte do grosso volume das Obras Métricas (Lyon, 1665), mais um produto do talento multiforme do autor, do que a expressão literária autêntica de uma experiência humana profundamente sentida e vivida. Estamos em crer que, salvo poucas e honrosas excepções, podem contar-se pelos dedos aqueles que algum dia tenham contactado, em convívio diuturno, o mundo poético do Melodino, pois, de contrário, ter-se-iam logo apercebido do valor estético ímpar de algumas composições. Entre aqueles que, entre nós, estudaram a poesia de D. Francisco Manuel, merecem ser distinguidos José Pereira Tavares que, em 1921, nos deu uma edição antológica das suas Rimas Portuguesas e Orações Académicas, e, mais recentemente, António Correia de A. e Oliveira, que ao nosso autor consagrou vários estudos de valor excepcional. Outros investidores se têm ocupado do Melodino, nomeadamente Hernâni Cidade e Maria de Lourdes Belchior, com invulgar argúcia e erudição: mas não em trabalhos monográficos, ex professo dedicados à sua poesia.

Não nos cabe, neste prefácio, estudar mais ou menos detidamente As Segundas Três Musas, mas só dedicar-lhes um antelóquio superficial: a poesia apresentar-se-á por si mesma, no valor genuíno da sua significação humana e estética. Seja-nos, contudo, lícito pôr em relevo um ou outro aspecto temático e de técnica formal mais digno de realce, principalmente numa perspectiva de pesquisa dos valores de fidelidade artística da palavra significante à sua carga vital de significado. Corresponde, então, a poesia do Melodino às dores da experiência vivencial expressa poeticamente? Cumpre-nos aqui observar, in limine, que o prisioneiro da Torre Velha fez da sua vida um poema, ou melhor, a sua vida está toda ela, com o sinete de uma experiência dolorosa, nalguns dos seus poemas. Documentá-lo é, porventura, mais fácil do que enunciá-lo.

Cortesia de wikipedia

Os Sonetos
A primeira parte de As Segundas Três Musas é formada por 100 sonetos, alguns deles documentos interessantes de engenhoso conceptismo, com profusão de imagens requintadas e metáforas de elaboração aguda. Nascem, assim, obscuridades e ambiguidades intencionais, bem de acordo com os preceitos da doutrina barroca. Não obstante tudo isso, que é afinal o tributo pago pelo autor à moda do tempo, já um crítico de grande autoridade foi levado a escrever que o nosso poeta preanuncia, nesta parte da sua obra, a «lira anteriana». Quer tratando o tema da liberdade individual, ele que se encontrava prisioneiro na Torre e bem conhecia os grilhões da vida cortesã, quer repetindo alguns tópicos do petrarquismo numa poesia amorosa que, apesar da imitação, ostenta o sinete de uma visível originalidade, D. Francisco Manuel consegue superar os esquemas artificiais de uma arte toda voltada para a quinta essência do jogo dialéctico e do brinco subtil.

Não raro o tom vagamente preceptivo e normativo identifica-se com o epigramático: aliás o poeta hauria a lição em fontes autênticas, como são as da sabedoria popular que exprime o mais saboroso do seu suco em provérbios e ditos exemplarmente concisos. Também a consciência do tempo breve, da fugacidade da vida, da efemeridade das coisas, na certeza de que viver é peregrinar na terra do exílio, tem em D. Francisco Manuel um intérprete inspirado, a despeito da dificuldade de um tal tratamento poético, já então exemplarmente fixado em obras-primas consagradas como as de Sá de Miranda e Camões, para só referirmos dois nomes da literatura portuguesa que lhe serviram de modelos e de mestres. Pessimismo antropológico e cosmológico até, mas nem sempre expresso através das formas literárias consuetas, dos achadilhos conceituosos da tese e da antítese, como em Petrarca e nos petrarquistas, da afirmação e da negação, da dúvida e da fé, da ilusão e da sua consciência lúcida (desilusão), da aceitação e da atitude inconformista, do crer e do duvidar.
É talvez especificamente melodínico o recurso à expressividade de um humorismo transcendente para significar a problemática da dor pelo próprio sujeito experimentada.

Cortesia de wikipedia

A vocação do moralista ergue-o na passagem do concreto para a reflexão sentenciosa, mas sem um divórcio temático do aforístico em relação ao vivencial ou ao religioso. Não raro, as fontes clássicas insinuam na palavra poética o recurso a uma erudição profundamente assimilada, mas porque o poeta sabe colocá-la no seu verdadeiro plano de arte ou de artifício, nunca a cultura abafa a experiência, e por isso nunca o artifício sábio ou técnico se sobrepõe à arte.

Mas estamos em crer que os sonetos mais artisticamente valiosos de D. Francisco Manuel de Melo são os de tema predominantemente religioso, como Antes da Confissão. Já num outro estudo tivemos oportunidade para relevar os elementos essenciais de valorização estética desta composição e não vamos aqui repetir-nos. A palavra poética, nesta parte de As Segundas Três Musas, assume, como na Retórica renascentista, a plenitude de um valor directamente ligado ao humano. Não há dúvida de que uma tal poesia exprime, na arte, o próprio homem. 2. As Éclogas. A Sanfonha de Euterpe, segunda parte de As Segundas Três Musas, é formada por éclogas e cartas. Já se observou que falta às primeiras o ambiente genuinamente pastoril que deveria caracterizar o género, mas nisto, como aliás na própria substância doutrinal, o Melodino segue a lição e o exemplo de Sá de Miranda, seu modelo também nas cartas. A écloga Casamento, que integra o cap. II de PEM, é talvez, neste domínio, o exemplo mais representativo.

O tema era muito do agrado do nosso autor, que o tratou também na Carta de Guia de Casados. Os dois pastores do diálogo discordam de critério, quanto às virtudes a preferir na mulher, já que um opta pela beleza e outro mais solidamente pelos bens materiais. O cura, discreto e avisado segundo o cânone do ideal normativo da época, concilia as duas opiniões de acordo com um ideal de equilíbrio e moderação. A lição do meio termo é igualmente preconizada nas éclogas Temperança e Rústica. Mediano, aliás, é o nome de um dos interlocutores de Temperança, cujo conselho, de resto, pode resumir-se nos dois versos que, com outros, se encontravam gravados no templo aonde os dois pescadores (Afouto e Medroso) são levados por Mediano: «caminha sempre a um justo fim direito, / fugindo todo extremo perigoso». E assim como, em Basto, Gil exprime as ideias de Sá de Miranda, na écloga Rústica, por exemplo, Cremente tem palavras cujo tom de pessimismo profundo e sentido reflecte a experiência dolorosa de D. Francisco Manuel de Melo. A lição de moralidade, que informa o suco didáctico das éclogas, não apagou o sinete autêntico de transposição da vida vivida na palavra poética. Mas as cartas são, a este respeito, ainda mais interessantes». In José Pina Martins, D. Francisco Manuel de Melo, Fundação Calouste Gulbenkian, HALP, 2004.

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

D. Francisco Manuel de Melo: A nível literário é uma figura da cultura aristocrática peninsular do seu tempo. Versou sobre assuntos historiográficos, moralistas, políticos e militares

(1608-1666)
Lisboa
Cortesia de forumdefesa

D. Francisco Manuel de Melo, foi um escritor multifacetado, sendo considerado uma das personalidades portuguesas mais proeminentes do século XVII.

«De ascendência nobre, a sua formação realizou-se até aos 10 anos na corte, onde adquiriu as bases do respeitante à sua elevada posição social. Depois, os Jesuítas transmitiram-lhe não só uma alargada erudição classicista e um pouco de hebraico, como também o prepararam nos estudos matemáticos em que era particularmente bom. Antes de se tornar membro da Ordem de Cristo, serviu durante 5 anos as armadas espanholas.
Alternou este serviço com o recrutamento militar e a frequência da corte madrilena, tornando-se conhecido de Quevedo e de outras figuras literárias. Mais tarde, comandou as tropas portuguesas na Guerra dos Trinta Anos e combateu contra os Holandeses (1639). No ano seguinte ajudou a reprimir a revolta da Catalunha.


Cortesia de wikipedia 
Após um curto período de prisão por razões políticas, tomou partido a favor de D. João IV e, em 1641, dirigiu-se para Londres. Nesta cidade foi incumbido, como general da armada, de trazer uma frota da Holanda para Portugal. Seguiram-se algumas tarefas de menor importância e, em 1644, foi novamente encarcerado.
Foi durante o tempo de clausura que redigiu a maioria das suas obras e ao mesmo tempo lutou pela libertação. Em 1655 foi degredado para o Brasil. Passados 3 anos regressou à pátria e em 1660 animava a Academia dos Generosos. Seguiu-se o início da carreira diplomática, que lhe permitiu viajar pela Europa. Pouco antes da sua morte, com 57 anos, foi ainda deputado da Junta dos Três Estados.

A nível literário é uma figura considerável da cultura aristocrática peninsular do seu tempo.


Cortesia de wikipedia 
O seu trabalho bilingue comporta comédias, novelas, versos líricos e, pensa-se, algumas sátiras que se terão perdido. Versou sobre assuntos historiográficos, moralistas, políticos e militares.
No apólogo Hospital das Letras fez a primeira revisão crítica geral de autores literários antigos e modernos em português. Projectou uma Biblioteca Lusitana de Autores e também um Parnaso Poético Português.

De entre as obras que deixou merecem referência Epanáforas de Vária História Portuguesa (1651, como historiador), a farsa Auto do Fidalgo Aprendiz (provavelmente escrita antes de 1646 mas publicada somente em 1676, como dramaturgo), Obras Morales (1664, publicadas durante a sua missão como diplomata em Roma), Obras Métricas (1665, onde reuniu a sua poesia) e a famosa Carta de Guia de Casados (prosa)». In Infopédia Porto Editora, http://www.infopedia.pt/$d.-francisco-manuel-de-melo.

Bibliografia:
Aula Política, Cúria Militar;
Epístola Declamatória, Política Militar (1638);
Historia de los movimientos y separación de Cataluña (1645);
Obras Morales (1664; inclui El Mayor Pequeño, ed. 1647 e El Fenis de Africa, ed. 1648-49);
Obras Métricas (1665; inclui Doze sonetos, 1628; Las tres Musas del Melodino, 1649 e Pantheon, 1650);
Carta de Guia de Casados (1651);
Epanáforas de Vária História Portuguesa (1660);
Cartas familiares (1664);
Auto do Fidalgo Aprendiz (1676);
Apólogos Dialogais (1721);
Tratado da Ciência Cabala (1724);
Feira de Anexins (1875);
Tácito Português (1940);
D. Teodósio II (1944)

http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/7662.pdf
http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/dfmelo.htm

Cortesia de Infipédia/JDACT