Mostrar mensagens com a etiqueta Alexandre Honrado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alexandre Honrado. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 18 de março de 2016

Os Venturosos. Alexandre Honrado. «… passado muito tempo, ao saber de tudo isto, El-Rei chamou-lhe traidor, como sempre fazia aos que, depois de por ele ignorados, se distinguiam em serviços alheios. Magalhães terá sabido e deu de ombros»

jdact

«(…) Se havia quem conhecesse o Mundo, esse era Fernão, o Magalhães, que lhe dera a volta inteira. Nascera em Sabrosa e crescera por 1á, e depois tornara-se notável e servira ao outro rei, o dito Perfeito, antes deste dito grande El-Rei, o Venturoso. Magalhães fora pajem da outra rainha, e El-Rei tornou-o como escudeiro, mas ninguém caía nas boas graças de El-Rei, daí mil desventuras. Saiu, por se sentir agastado em corte, Fernão para a Índia com a frota do Almeida. E fez expedições a Sofala e a Quíloa. Andou na conquista de Malaca com Afonso e, com Serrão. Foi às Molucas e a Banda.
Cheirou o cravo e a noz-moscada na fonte das riquezas especiarias, ali em Ternate, deslumbrou-se. Voltou ao reino e não teve grandes graças, a não ser dos seus que o estimavam. El-Rei não quis saber do que lhe disse, e o que lhe disse foi que nas Molucas se podia estabelecer um grande comércio para compra e venda de produtos celebrados e a partir dali partir e prosperar.
El-Rei mandou-o bugiar e ele bugiou para casa dos sogros católicos de El-Rei, que, esses sim, o acolheram com tino e lhe fizeram boas graças e fortuna que agora desenvolvia. Propôs o descobrimento da especiaria e de outras terras ricas, e aceitaram-no, e com grande ambição foi-se a fazer a primeira viagem ao redor da Terra, na qual o acompanharam muitos homens adestrados em guerra e marinharia, todos cheios de confiança nele.
Com ele foram outros ainda dos que El-Rei desprezara. e todos de grande valimento. Foram, entre esses e assim: Duarte Barbosa que muito sábio livro escrevera dando relação do que se viu e ouviu no Oriente, e os famosos cartógrafos Rui e Francisco, os Faleiros, e os pilotos Gomes, Mesquita e Carvalho, todos três peritos na navegação do Atlântico e do Índico, e de igual modo foram experientes e mui experimentados nautas, como Estêvão e Afonso e muitos outros mais.
Passado muito tempo, sabendo de seus feitos, que tendo saído de Sanlúcar de Barrameda correu mundo, por todos os mares, até o novo Pacífico, correndo das latinas ou dos Ladrones ou Mindanau até Zamar e até Cebu e até aonde antes era fim de mundo e que ninguém sabia..., passado muito tempo, ao saber de tudo isto, El-Rei chamou-lhe traidor, como sempre fazia aos que, depois de por ele ignorados, se distinguiam em serviços alheios. Magalhães terá sabido e deu de ombros. Ninguém trai aqueles que nunca o souberam ter, terá dito enquanto navegava mais para diante». In Alexandre Honrado, Os Venturosos, Círculo de Leitores, Braga, 2000, ISBN 972-42-2392-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Os Venturosos. Alexandre Honrado. «… mas, e os reis? Os reis sabiam sempre tudo e de tudo, mesmo o que ignoravam sabiam-no melhor do que ninguém… Os reis podiam nascer anormais, ou doidos, ou feios como bodes, podiam ser íntegros, desbragados…»

jdact e rosa ramalho

«(…) Dizem que o vício de Ataíde não é raro cá pelo reino, declarou espantosamente um frade de voz aflautada que raras vezes falava. Como sabeis?, quis um outro saber. Ouvi contar que num convento... O relato foi, de pronto, interrompido pelo cardeal: … bom, e adiante, que frei Nicolau fale com el-rei que eu tomarei outras medidas. Rachem-me o coiso a esse enrabad…, ouviu-se gritar. Que linguagem desbragada usam estes santos homens, pensou o cardeal. Nem parecem homens de saber que até falam latim e citam, autorizados, palavras divinas. É melhor avisar os do paco que vão resguardando seus c…, sentenciou frei Nicolau. E a reunião foi dada como finda. Simão Cordovil, alheado da discussão, dava tudo para poder sentar-se.
Em todas as latitudes, longitudes e lugares há verdadeiros imbecis, apreciava el-rei em seu pensar mais profundo. Alguém lhe contara, ou melhor, lhe espevitara a memória contando-lhe uma história que ouvira muito mais que trezentas vezes repetida, esquecendo-a depois, que memória de rei não tem os caprichos de memória vulgar. A história era esta: o navegador Vasco chegara a um lugar cheio de primitivas criaturas, umas alimárias fedorentas sem jeito nenhum e a quem chamavam Bosquímanos, e resolveu tratá-los como se fossem gente ou como se a alma tivessem e dela fossem hábeis no usar.
Com deferência, Vasco mostrou-lhes ouro, pérolas, e, mais preciosas coisas ainda, como o cravinho e a canela. As grandes bestas índias nem se emocionaram, nem palpitaram, pareciam ver coisa banal ou mesmo nada verem, uma inquietação desesperante. Quando Vasco, insistente, lhes estendeu frivolidades, contas de vidro, anéis de estanho, guizinhos sonoros e barretes vermelhos desses que os marinheiros usam a bordo e que certa gente do povo aproveita para usar para seu dormir aconchegado com sonhos aquecidos e cabeças isentas de relentos, então, e só então, ficaram os idiotas maravilhados.
As bestazinhas índias, felizes da vida e das oferendas, foram buscar brincos de conchas e rabos de lobo ou de chacal, alguns amarrados a canos de madeira, e ofereceram-nos a Vasco e aos seus, que se fingiram contentes com tamanhos alarves e suas alarvidades... El-rei recordava a história e ria. Tinha razões para rir. Satisfeito com o tratamento da bruxa, o monarca gozava mais e melhor os seus lazeres, as chagas doíam-lhe menos, ouvia histórias, contava-as, e ganhara o estranho hábito de pensar.
Nessa tarde, el-rei pensava. Pensava, por exemplo, que ser senhor de um grande reino é coisa tão fácil como ser dono de um quintal comn três galinhas. E que os homens são tão estúpidos porque nascem estúpidos e não há luz no mundo que os torne espertos senão a luz imaculada que faz com que alguns nasçam reis e, portanto, sem esforço sempre sábios e sempre autorizados.
Os padres sabiam latins e citações; os astrónomos sabiam de estrelas; os índios só de conchas, do luar, ou de outras parvoeiras; os físicos de pústulas e achaques e muito pouco de varizes…; mas, e os reis? Os reis sabiam sempre tudo e de tudo, mesmo o que ignoravam sabiam-no melhor do que ninguém… Os reis podiam nascer anormais, ou doidos, ou feios como bodes, podiam ser íntegros, desbragados, gostar de homens, de mulheres, odiarem tudo e todos, que os respeitariam... Diante do espelho, el-rei contemplou-se e sorriu. Que bela imagem, que porte o de um rei assim, mesmo com faces de coirão irremediável. Afagou o ventre, rodeando-o depois com seus braços desmesurados. Gostava de si, isso bastava-lhe. E é que gostava mesmo muito... Irra, que ventura!» In Alexandre Honrado, Os Venturosos, Círculo de Leitores, Braga, 2000, ISBN 972-42-2392-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Os Venturosos. Leituras. Alexandre Honrado. «Um agostinho, apesar de culto, não recordando ao certo o que diziam de coitos e coitados os textos sacros, arriscou: as Sagradas Escrituras falam do espírito e da alma, da moral...»

jdact

«(…) Mas desde quando anda esse Bosta a tresfoliar? De quando lhe vem essa tremenda vontade de cus e outros orifícios de pecado?, perguntava nessa altura um franciscano interessado. Ninguém o sabe ao certo. A coisa, ao que parece, dura há muito, a julgar por tantas vítimas encontradas... Frei Nicolau, sempre o mais complacente nessas e noutras, expôs a sua tese que, ao grupo ouvinte, soou como a mais descarada defesa de enrabador. Irmãos, faço notar que Ataíde, a quem El-Rei com muito acerto trata por Bosta, nunca teve a virilidade de quaisquer outros homens do reino. As Sagradas Escrituras, aliás, não promovem em exclusivo o que é viril. Falam antes as Escrituras de castidade e essa sempre referida ao coito e com a raça fêmea.
Um agostinho, apesar de culto, não recordando ao certo o que diziam de coitos e coitados os textos sacros, arriscou: as Sagradas Escrituras falam do espírito e da alma, da moral..., não podendo ter espaço para paneleiri…, se bem entendo. Isso seria a pena do Diabo a escrever por entre as linhas dedicadas a Deus. No grupo de homens santos sussurrava-se opiniões contrárias. Frei Nicolau continuou: irmãos, faço notar que Ataíde sendo macho no nascer sempre evitou comportar-se como tal. Sempre foi um adamado, um tímido, enrubescendo por dá cá aquela palha e parecendo sempre alheio a sexos ou para a função em que, sendo homem laical, podia empregar, livre e justamente, suas partes pendentes. Nunca foi homem de homens, como é sabido serem alguns que o rodeiam e que não achando graça em fêmea viram as costas a machos... Mas, nem por isso, foi homem de mulheres, put… ou cortesãs mais acessíveis, nem mesmo das mais recatadas e dissimuladas. Nunca se lhe viu descer mão em regaço ou subi-la em saiote disponível. E como sabeis, nada disso falta em este reino e com fartura, graças a Deus que pode não concordar mas que também nada há para que se não permita essa vida airada.
Uma vozearia tremenda alevantou-se. Serenada, deu ocasião a frei Nicolau para continuar: vi muitas vezes Bosta, perdão, Ataíde ser humilhado pelos demais, apenas por não se desbraguilhar como todos. E a nenhum se virou. Se na parte das bragas nunca teve inchaço, faltava-lhe alguma coragem que agora tomou não se sabe como, e esse como bem pode o diacho, o fero demo, ter descoberto... E por não encarar no passado tais impulsos, terá Ataíde agora decidido pôr-se em dia com o esburacar da carne alheia, assim de uma só empreitada?, quis saber, em tom indignado, um velho clérigo de olhar jovem. O que vos digo, irmãos, continuou frei Nicolau, é que Ataíde se anda vingando em homens e mulheres do que antes nunca conseguiu por vontade natural. Fura cus e outros ocos, a esmo, a coberto das sombras, porque à luz do dia só sofreu reprovações. Faz justiça, talvez, com a pequena adaga, já que não lhe chega o saber para furar os provocantes com outra espada.
A confusão entre os homens de Deus. O cardeal desejou, fervoroso, que a Inquisição (maldita) não tardasse a instalar-se no reino. De momento, muito lhe agradaria passar pelas chamas o endemoninhado do panele… Quanto a mim, declarou um dos frades mais moralistas do grupo, Ataíde está possuído pelo demónio e, ao dizê-lo, benzeu-se três vezes, desenhando uma enorme cruz sobre o seu corpo tenso. Será de boa monta exorcizá-lo!, ouviu-se exclamar. Eu próprio falarei com El-Rei!, disse frei Nicolau. E, se for preciso, com o arcebispo. O arcebispo é que não!, gritou, em desespero, o cardeal, que andava às avessas com o arcebispo Martinho, até por este ser tolerante, por exemplo, em casos de sexo tresloucado. Dizia-se que o arcebispo tivera vida muito dissoluta. O cardeal desconfiava até que a mantivesse ainda, diferente da de Ataíde é certo, mas não menos activa e folgazona». In Alexandre Honrado, Os Venturosos, Círculo de Leitores, Braga, 2000, ISBN 972-42-2392-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

sexta-feira, 6 de março de 2015

O Príncipe Perdido. Alexandre Honrado. «Temporalizar a mágoa? E o que resta do intrépido desígnio de pulsar a vida? Vale a pena lutar pela novidade, pensou Astor. Sentiu um formigueiro nos dedos e uma força débil que crescia…»

jdact

Cogito
«(…) Astor sentia sempre aquele tremor de febre a alojar-se-lhe nas rótulas, ao ver a Avó e os seus afazeres. Não podia evitá-lo. E assim era desde que se conhecia, já que a Avó repetia o seu secreto labor dia após dia, tendo parado apenas no meio século do Banquete, em que profanara todo o bom senso e se instalara na cabeceira de uma longa mesa e se fartara e se tornara obesa comendo sempre melancias, seu eleito manjar. Um após outro, foram-se sucedendo os peregrinos. E Astor divagou a vê-los desfilar, crentes no desespero, na razão irracional de coisa alguma. Astor meditou:

Com os olhos cheios do mar (que é uma mulher)
a navete inquieta do tempo
presa nos dentes,
um resquício, ainda, de vida
nas entranhas de um sopro.
A lágrima
e o amor no caos das descobertas?
Tanto utérculo nos olhos doutra manhã.

Astor mirou a Avó, o seu ar coruscante, a ignomínia de um coruchéu desapiedado. A Avó, juiz da fome de muitas almas famintas, a esflorar a natureza daquela gente corticenta, que tanto confiava. E Astor sentiu uma repulsa, geeiro, a extensão de uma raiva que seria ódio num momento. E os sintomas de cólera-morbo, de que era tantas vezes possuído, voltaram-lhe; o colírio de uma vez rara a coliquar a visão, e desceu escuro sobre a sua boa vontade, um sarmento, prostado e volúvel, a contrariar-lhe a dor, a consolidar-lhe a tempérie, a defini-lo. Temporalizar a mágoa? E o que resta do intrépido desígnio de pulsar a vida? Vale a pena lutar pela novidade, pensou Astor. Sentiu um formigueiro nos dedos e uma força débil que crescia. Juntar as desinências em desgarre, afrontar a indolência e o embuste daquela paisagem lúgubre... Mais não queria em força, desejou Astor. E ficaram-lhe os intentos a pairar, um balão lento fixado, uma vontade de desgornir os murmúrios para desfrute de um tempo novo e sem cadeias. A Avó era um queixume corrosivo e o mundo inteiro sofreria a sua iniquidade.
No dia em que Astor fizera quinze anos, a Avó, já cega então, pegara nele ao colo. Dera-lhe colheradas de um xarope estranho e contara-lhe, pela primeira vez, a historia do Príncipe Perdido. Astor ouvira-a, e invadira-se de uma febre, dormente, enquanto a escutava. As órbitas amarelas da cega irradiavam uma luz de vela solitária. Virando a cabeça, Astor distinguiu na parede da cozinha, distinta, a feição rosada e o ar sublime do Príncipe.

As armas, os modos,
necessitava aniquilar a razão
dos novos,
e era novo
na castração das faces.
Irradiante sim,
como se pedisse o tributo
à sua beleza frígida,
o terror de uma virgindade anil
pousada no borrão aceso
de uma fogueira perversa.
E o galgo, os olhos de cão,
a arreata de prata fustigante
e o fato, armadura de polimento recente
e o chicote nas mãos,
o chicote,
o chicote...

O Príncipe meneou os caracóis loiros e, de cabeça erguida, falou. Astor, bom Astor, não cuides que morri, só os néscios e os rouxinóis assim o pensam, disse sorridente. E a Avó sacudiu o corpo em estertores de epilepsia e os olhos redobraram a força-lume de vela solitária e as mãos como garras destroçaram o frasco de xarope. Astor saltou-lhe do colo, correu desenfreado e o corredor da casa fazia-se infinito, insensatez, debaixo dos seus pés e ouvia todos os relógios em badaladas imensas e tropeçou repetidas vezes até cair num charco de suor e soro e sangue derramado das veias que deixara em rasgos abertos por cair no chão. Estivera cinco dias, cinco noites sem falar. Naquele estado, só ficara quando soubera da guerra grande que a Avó fizera na lonjura das matas coloridas. A guerra suja que nunca esqueceria, como nunca esqueceria, por igual nojo, a beleza mórbida do Príncipe Perdido, ilusão amarga sustentada pela Avó, recriada nos seus fiéis, nem se esqueceria dos olhos ocos e em labareda miúda da sua Avó cega». In Alexandre Honrado, O Príncipe Perdido, colecção O Chão da Palavra, Vega, Lisboa, 1986, ISBN 978-972-699-155-7.

Cortesia de Vega/JDACT

quinta-feira, 5 de março de 2015

Os Venturosos. Leituras. Alexandre Honrado. «Simão Cordovil pedira ao cardeal que interviesse junto de Deus e dos seus representantes para reparar a sua honra perdida. Pensava Simão, para logo se arrepender de assim se desbocar em pensamento tão ingrato…»

jdact e wikipedia

«(…) El-rei não anda sendo só mecenas para a construção de edifícios, mas deu-se em doador à casa-mãe da Ordem Jerónima das várias alfaias necessárias ao culto: paramentos de uso, panos pintados pagos a suas expensas, e tapeçarias do credo que tardam muito em fazer-se, e alfaias litúrgicas em metal precioso, como a rica custódia, e até a música, pois encomendou mais de quarenta livros de coro, enormes e todos bem iluminados, como aliás, os sete volumes de uma Bíblia, a fazer-se na oficina de Attavanti, da Florença... Aliás, de Itália, el-rei quer esculturas de Della Robbia, veja-se o luxo. Os da Ordem de Cristo diziam que o lugar de Santa Maria era deles, e vai el-rei já muito enfadado, entre gritaria e murraças na mesa, deu-lhes a casa grande, que era a sinagoga dos judeus, e mais cinquenta mil reais de renda em foros de casas no lugar da judiaria grande, e os tais de Cristo lá se acalmaram, fazendo agora da sinagoga uma igreja de N. S. da Conceição, que aos judeus irrita e aos cristãos surpreende e a N.ª S.ª parece ser de grande indiferença, pois lá a casa onde habita é aos homens que a deve e saberá que nos homens não há assim grande acerto nem confiança. Estes de Jerónimo vestem diferente: de hábito, túnica branca e escapulário castanho.
Há ainda os cónegos de S. João Evangelista, os Lóios, que nasceram para combater os vícios da sociedade, que tantos são, como é sabido, embora estes agora nem sempre combatam e alguns até se deixam viciar. Não se pode esquecer a gente da Ordem da Santíssima Trindade que sempre se dedicou ao resgate dos cativos; os eremitas de Santo Agostinho e os da serra de Ossa, que são os mais recatados de todos. De modo geral, todavia, são todos muito relaxados, acusando o abuso das comendas, o excessivo número de fundações, e a falta de escrúpulo no recrutamento de religiosos, isso é que é verdade. Quem o pode, defrauda o património monástico e arruína a observância e o espírito regular. Era então arcebispo Martinho e papa, já foi dito, o tal leão X.
O cardeal coordenava. Mas o grande escândalo da reunião foi rebentado por um frade menor, jovem muito bem apessoado que, por ser protegido de frei Nicolau, confessor e companheiro das pândegas de el-rei, passara a frequentar o palácio. O frade menor, de seu nome Simão Cordovil (assim chamado pela desgraça de um dia ter sido encontrado, por outros frades que o tomaram a cargo, menino tenro, recém-nascido, dentro de uma alcofazita, precisamente à sombra de uma oliveira dessas a que o povo chama cordovesas), Simão Cordovil queixara-se de queixa segura e mostrara até os danos. Mostrara-os primeiro ao cardeal que, perante tamanhos estragos e evidências, não pudera ficar indiferente, e depois, por insistência, mostrara-os a toda a plateia que dele se apiedou. O trabalho feito sobre e no frade menor fora sem dúvida bem-feito, mas doloroso e vil; há sete dias e sete noutes que Simão Cordovil vivia de pé, chorava e orava de pé, penitência involuntária e muito moída…
Simão Cordovil pedira ao cardeal que interviesse junto de Deus e dos seus representantes para reparar a sua honra perdida. Pensava Simão, para logo se arrepender de assim se desbocar em pensamento tão ingrato, que, apesar de tudo, fora essa a vontade de Deus, estranhas vontades pode Deus às tantas desenvolver... Perante factos tão exuberantemente factuais, o cardeal providenciara inquérito por conta sua. Pusera bufos a coscuvilhar, pagos pela sua própria bolsa. Ouvira em consequência relatos de bocas espantadas e confessas que o deixaram tão de espanto petrificado como muito percorrido de preocupações justificadas. Até ver, pelo menos quarenta mancebos, entre fâmulos e guardas do paço, um outro frade menor e um ajudante de cozinha, esses provados que havia pelo menos mais uma dúzia de suspeitos, para não falar de uma trintena de donzelas incapazes de o confessar, tinham sofrido os mesmos tratos. E a carnificina parecia não t parar tão cedo». In Alexandre Honrado, Os Venturosos, Círculo de Leitores, Braga, 2000, ISBN 972-42-2392-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Os Venturosos. Leituras. Alexandre Honrado. «Os mais estranhos serão esses Capuchos castelhanos que se estabeleceram na antiga Ermida de Nossa Senhora da Piedade. Como não traziam pecados visíveis, vai de andar à sarrafada entre eles...»

jdact

«(…) O espiritual perdera todas as características primitivas. Apesar de tudo, continuava a respeitar-se as isenções e privilégios, especialmente o do foro. Havia em todas as ordens, além dos cavaleiros, clérigos-freires para o culto divino, são estes que encontramos aqui reunidos especialmente. Deviam estes viver conventualmente, sob a jurisdição do prior-mor, porém nem todos têm grande queda para recatos. Andavam, por assim dizer, quase sempre na giraldinha, em muito boa vida airada. El-Rei nomeara há pouco priores-mores para o Mosteiro de Santa Cruz. A Ordem de S. Francisco andava partida a meio, com conventuais para um lado e claustrais para o outro, que Leão X reconhecera, tornando definitiva a separação entre conventuais observantes e reunindo as várias congregações formadas por estes últimos, sob o título de Frades Menores da regular observância. Gente muito conflituosa que não consegue viver em boa harmonia. Os mais estranhos serão esses Capuchos castelhanos que se estabeleceram na antiga Ermida de Nossa Senhora da Piedade. Como não traziam pecados visíveis, vai de andar à sarrafada entre eles...
Os mosteiros beneditinos, já muito ricos e prósperos, andam cada vez mais decadentes, e S. Bento não parece ser muito popular. Os abades comendatórios é que mandam por lá, mas ordinariamente tratam mais de si que do espiritual e temporal em seus mosteiros. Os Cistercienses, ou de S. Bernardo, tratam-se com mais economia, gozando mercês e privilégios, têm rendas e figuras poderosas, são bem abastados por sinal. Os de S. Domingos têm também o fel ao pé da boca. São frades pregadores que pregam bem mas não entre si... Ali, na Nossa Senhora do Vencimento do monte do Carmo, vivem os Carmelitas, que trajam a uso o hábito de donato como foi imposto ao Condestável. São mais discretos.
Gente de saber e de poder, esses sim, são os de Jerónimo, que parecem vir desses discípulos de S. Tomás de Sena, o italiano. É a ordem de frei Tomás, .a quem o papa Gregório XI concedeu a regra de Santo Agostinho, modificada com algumas prescrições de S. Jerónimo. Muitos reis devem à Ordem muitos favores, e El--Rei não é excepção, andando a doar-lhes um mosteiro que fica pegado ao grande templo que mandou erguer no lugar da antiga Igreja de Santa Maria e onde El-Rei quer permanecer depois de finado (quer lá ficar sozinho, sepulto na capela-mor do mosteiro, fazendo da obra um lugar erguido à sua memória e aos grandes feitos que em seu nome o reino foi gerando). El-Rei, por grande capricho, quer mais, pois pediu ao papa autorização para fundar doze mosteiros para a Ordem, um deles numas ilhotas insalubres a que chamam Berlengas e onde os Jerónimos irão viver, pela certa, no meio de guano e gaivotas loucas. A coisa, claro, é muito discutida, a começar pela grande renovação do Convento de Cristo, que anda a desviar mão-de-obra e fundos do que se destinava ao tal grande Mosteiro de Santa Maria. O papa foi logo de concordar com a obra inteira deste grande mosteiro, pois tudo o que favoreça o aumento do culto divino, a salvação das almas e o florescimento da religião é sempre bem-vindo nestes tempos em que a fé vai escasseando. Mas o papa não foi de modas. Obrigou contrapartidas. Que se rezasse uma missa quotidiana por alma do Infante descobridor; que se atendesse de confissão os marinheiros e peregrinos em todos os casos não reservados à Santa Sé; que se lhes ministrasse a eucaristia, sem prejuízo, contudo, das igrejas paroquiais circunvizinhas... Lá se assinou bula, concedendo todos os privilégios, indultos, imunidades, liberdades, graças e concessões outorgadas ou a outorgar, coisas que são assim de grande comodidade». In Alexandre Honrado, Os Venturosos, Círculo de Leitores, Braga, 2000, ISBN 972-42-2392-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

domingo, 25 de janeiro de 2015

Os Venturosos. Leituras. Alexandre Honrado. «Ao que se sabe, não eram estas decisões obra firme de El-Rei que as não concebia, mas de um tal António que o servia para pensamentos sensatos de actos administrativos. E tudo isto só interessa, por ser António responsável por estes negócios, e amigo de há muito de Bosta…»

jdact

«(…) Pois tentaria ele mesmo um exorcismo. Iria ele, com alguns dos seus fiéis, e exorcizá-lo-ia. Nem que lhe arrancasse o diabo do corpo puxando-o à unha cá para fora. Ah, quem lhe dera já o Tribunal do Santo Oficio (maldito) a oficiar em terra sua, e os autos-de-fé, as fogueirazitas de bom crepitar e o povo em roda, temente, ora a aplaudir ora a rezar, ora a esperar vez para assar... Dos lados da câmara real soou um uivo prolongado que despertou a maior atenção de todos em geral e do cardeal muito em especial. Uiva que logo berras, pensou, alegre com a perspectiva, o cardeal. Depois, tornou-se apreensivo e mais alerta: Ou terá sido o berro de El-Rei, vitimado por estocadas de Bosta? Ao segundo uivo, sossegou-se. El-Rei tem outro berrar. Foi-se ao armário e abriu-o. Tirou dele um pote de água benta que o próprio papa abençoara; um crucifixo de ferro; uma chibatinha que, na ponta, deixava pender sete tiras de coiro e de cada uma destas uma bolinha, grossa, de ferro; um missal forrado a pele; uma clava com espinhos na extremidade do bater... Que bem lhe faria voltar a exorcizar! O terceiro uivo fendeu os ouvidos do cardeal e fê-1o persignar-se: Espera pela demora, ó piça do demónio!
O cheiro da pimenta dava-lhe inspiradas ajudas à pituitária, era melhor do que o da baunilha e o da canela, um gosto. Por isso, mandara-a buscar, em Março que é a melhor época, todos os anos, mais e mais especiarias dessas. E como era gosto dispendioso, para El-Rei não arriscar do seu, e porque não podia suprir tantos gastos, como cumpria em tantas e tão grossas armadas como se requeria, decidiu que cada ano se fizessem armações e contratos com ricos mercadores estrangeiros, que folgariam de contratar e armar para a Índia, o que seria somente com boas naus grossas, para bem carregar para seus fretes; pelo que ficava a El-Rei mor poder para a conquista que esperava fazer. El-Rei, por isso, moveu contratos com mercadores ricos que entre si fizeram armador-mor a um Bartolomeu florentino, homem de grossa fazenda, que fizeram seus apontamentos de seus proveitos que esperava muito mais proveito que de Flandres, nem outras muitas partes em que tratavam por todo o poente e levante, sobre o que assentaram contrato, que El-Rei armou duas naus, e os mercadores outras duas do seu dinheiro, de todos acabadas e postas à vela e amarinhadas com todos os oficiais que lhes pertenciam, que haviam de ser a contentamento de El-Rei, todos naturais do reino, e El-Rei os havia de armar de artilharia, armas, munições, e fazer os mantimentos para toda a viagem, e metia as mercadorias que se haviam de carregar de pimenta e de cada sorte de drogas, segundo o que a nau podia carregar; e o pagamento havia de ser em dinheiro de contado, descarregada e entregue a mercadoria na casa, emprestando-lhe logo a cada nau sobre seu frete oito mil cruzados.
Ao que se sabe, não eram estas decisões obra firme de El-Rei que as não concebia, mas de um tal António que o servia para pensamentos sensatos de actos administrativos. E tudo isto só interessa, por ser António responsável por estes negócios, e amigo de há muito de Bosta e que, por isso, lhe fornecia agora doses novas das boas drogas de que ele, viciado, andava cada vez mais a carenciar. Pobre Ataíde, conhecedor dos seus limites e alucinações, queria deixar tudo como antes e não podia. E oscilando entre a vontade de libertar-se e a triste doença de drogado, ia e vinha em mil contradições e, pelo intervalo, derrubava à todos os que podia. Foi num dia de maior mortificação que Ataíde decidiu. Como um eremita, exilar-se-ia na serra até as vontades acalmarem, mesmo que mil ressacas o batessem, sairia do triste espaço da alucinada morte em vida que sofria. Pegou nalguns pertences e fugiu, levando mais com ele a determinação do que coisas da sua fazenda...
O cardeal coordenava a reunião. Reuniam-se ali muitos homens mais ou menos sábios de várias ordens e diversas convicções religiosas e teológicas, todos tementes a Deus, mas cada qual à sua maneira, e que em pouco convergia. Havia, no vasto grupo, os militares, de Cristo, Santiago e Avis que, de há uns tempos a esta parte, não obedeciam a ninguém e, em vez de eleitos nos termos dos estatutos, tinham passado a ser nomeados pelo papa. Várias razões políticas, entre as quais os votos dos povos expressos em cortes aconselhavam a união dos mestrados à coroa, e El-Rei chegara a obter algumas concessões, porém muito débeis e pouco a gosto seu. Pouco antes, com o outro papa, o tal Alexandre VI, os cavaleiros de Avis e de Cristo haviam sido dispensados do voto de castidade, pelo que andavam sempre muito sorridentes e em serviço ocupado, dizia-se deles que arejavam a gónada, vá lá descobrir-se o que isso seja... Leão X fora mais longe, e dispensara-os do voto de pobreza, da recitação das horas canónicas, do uso do hábito e outros artigos de regra. Tornaram-se uns desbragados». In Alexandre Honrado, Os Venturosos, Círculo de Leitores, Braga, 2000, ISBN 972-42-2392-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A Montanha Russa de Deus. Alexandre Honrado. «Não há ainda nada na Constituição que proíba um homem de praguejar. O tipo não enganava: era mesmo um intelectual, dos piores, daqueles que têm a mania das escritas e tudo»

jdact

Ora viva!
«(…) O autor tem ainda duas iguanas-rinoceronte. Nome científico: Cyclura cornuta. Ordem: Squamata (subordem Sauria). Família: Iguanidae. Estas encontram-se no Haiti e na República Dominicana, confronte-se a nota nas páginas finais, em terrenos áridos, rochosos e com vegetação espinhosa (por isso dão-se bem com escritas e escritores). Têm cabeça grande, corpo compacto, pernas fortes e cauda longa achatada lateralmente. Possuem uma crista na linha médio-dorsal, desde o pescoço à extremidade da cauda. A pele é cinzenta, verde- azeitona ou castanha. Os machos apresentam três tubérculos (escamas transformadas) na extremidade do focinho, que se assemelham a pequenos cornos, coisa que entre animais é designação comum e que existindo tranquilizam os seus possuidores, defendendo-os, oposto do que se passa na complicada raça humana em que corno é sinónimo de inquietação. Podem atingir um comprimento de 120 cm. São principalmente diurnas, não chateiam, e alimentam-se essencialmente de matéria vegetal, mas também podem ingerir vermes e roedores, alguns editores, vá lá saber-se porquê, não se aproximam delas... São ovíparas, com posturas de 10-24 ovos que enterram no solo e deixam a incubar durante 15-17 semanas. Esta espécie está a ser substituída na sua área de distribuição pela iguana verde. Mas o autor fez as suas escolhas. Ele é que manda.
São animais diferentes, estes dois. Um deles, tão teimoso como afectuoso, come, uma vez por outra, o Original, que é, sabidamente, o filho amado do autor, deixando-o fora de si. Os narradores são os outros, aqueles que, pelo menos a partir do segundo capítulo, pela contagem tradicional, se assenhoram de tudo, se atiram à narrativa e tomam o trono do EU. Já reparaste neles? Estão ali e nem deixam o autor falar. O pássaro tornou a passar. Nem olhou para nós. A Yourcenar atirou-lhe com umas migalhas de pão, que ele recusou, altivo. Ah, repara...A Yourcenar vai-se embora. Já não precisas de aprender a falar francês. Sorte? Os narradores estão prestes a tomar a palavra. Parecem, vistos daqui obviamente, pessoas em quem se pode confiar. Não te ponhas com esse ar esfíngico, que podes vir a arrepender-te. Se a história não te afectar, se são esses os teus planos sentimentais, abandona já o teu posto e deita fora o livro, para sítio público onde alguém o encontre e faça dele utilidade. Os narradores olham-se de esguelha. A História não devia ser assim, parecem ambos pensar. E como um puzzle, um jogo..., que descrédito.
O pássaro foi-se embora, na direcção oposta em que seguiu Yourcenar... Estigma muito forte, reivindica o autor. E, refeito o seu ego, afasta-se prometendo voltar aqui mesmo sempre que lhe apetecer. Enfim, como verás, nada do que estiveste a ler interessa daqui para a frente…

O Taxista antes da História do Taxista
Às vezes, é raro mas acontece, um tipo fica assim. Nada o surpreende, poucas ou nenhumas coisas o emocionam, o rabo pelado insensível, a admiração feita em fanicos. Vagamente, passou-me pela cabeça: o gajo é mais um alucinado e o fatinho que veste já viu melhores dias. Até tem bom aspecto mas nunca fiando. Quando mostrou a carteira cheia sossegou-me. É um hábito, não é que precise, tenho mais na Suíça do que peixes há no mar ou ela por ela... Ando com o táxi porque me faz um bem enorme aos nervos. Lixa-me um bocado a coluna, que importa? É relaxante. Nos dias mais nervosos abro a janela. Não há ainda nada na Constituição que proíba um homem de praguejar. O tipo não enganava: era mesmo um intelectual, dos piores, daqueles que têm a mania das escritas e tudo. No fundo era boa pessoa. No fundo é boa pessoa. Um excelente companheiro para grandes viagens, ainda por cima. Quando falou em Sahara deu-me que Pensar... - Para onde? - Leve-me ao deserto, Sahara, Marrocos!» In Alexandre Honrado, A Montanha Russa de Deus, Editorial Bizâncio, 2001, ISBN 972-53-0114-5.

Cortesia de E. Bizâncio/JDACT

Os Venturosos. Leituras. Alexandre Honrado. «Pandorga foi-se a El-Rei e sem modos ou cerimónias deu-lhe um abraço que o sufocou, deixando-o roxo e meio gago... – ‘Lar...lar..ga-me’. “I...i...irra”! Pandorga soltou-o apenas quando se sentiu satisfeita»

jdact e wikipedia

«(…) El-Rei guardava dela boas recordações, as feições correctas, os trajos bonitos, os traços apetecíveis, por isso a mandara alindar assim... - Tendes ali a pu… de que necessitais, senhor, comunicou a El-Rei o moço de câmara. - Por mais pu… que fosse é hoje bem avisada, retorquiu El-Rei. Fê-la esperar um pouco, recordando-se dela e, finalmente, lá a mandou entrar. - Como está crescido o meu menino!, exclamou Pandorga que tinha uma memória exemplar. Dizia-se que nunca esquecera uma única cara, um único nome, um único... sexo dos muitos que conhecera. Pandorga foi-se a El-Rei e sem modos ou cerimónias deu-lhe um abraço que o sufocou, deixando-o roxo e meio gago... - Lar...lar..ga-me. I...i...irra! Pandorga soltou-o apenas quando se sentiu satisfeita. O rei respirou fundo e olhou-a: - Irra, que estás diferente! El-Rei não reconhecia em toda aquela carne a sedução iniciática que lhe ficara para rememorar. - A idade só perdoa aos que morrem no parto e na nascença, respondeu a pu… e El-Rei pensou na sua própria prole que tanto desejava, no filho que morrera à nascença e sem destino... E acabou por entender sabedoria nas palavras da velha. - Irra! Adiante que temos que fazer.
- O que quereis de mim?, quis saber a pançuda. - Tarefa fácil, porém requer muita cautela, siso, sabedoria, tacto... E, sobretudo, bom entendimento. - Sexo? Coisas de leito? Pois sabe que desisti há muito. O último que comigo esteve morreu sufocado debaixo destas carnes que se me intumesceram com o tempo. O malandrim deixou-me muito debilitada de espírito. Jamais tornei à fornicação..., meu rei. - Deixa-te de redondices. Não é para fornicações que te desejo. De ti já tive mais do que o suficiente e em época própria. Quero-te para te oferecer, como aia, como conselheira à nova rainha, ainda princesa mas que não tardo a tomar como esposa e a dar-lhe coroa. - Conselheira? - Isso, da tua arte, irra! Quero que a vás instruindo de como se fornica, e de como me agradar, pois. - Conselheira de coitos! Onde é que se viu? Pois só se eu... - Irra, que já entendeste. Mas ela que não se aperceba da artimanha. Quero que me deseje por conselho teu, mas que pense sempre que é por vontade própria de seu corpo. Não será difícil pensou a velha, recordando-se que em seu tempo até convertera bispos de vocação.
- Serás aia. E paga regiamente, nos dois sentidos em que se entende esta expressão, pois que sou rei e como rei te pagarei à altura... Os olhos de Pandorga brilharam de felicidade. Pé-de-meia em final de vida, a juntar a outro pé-de-meia que a vida lhe fora oferecendo... O rei esfregou as mãos de contente. O plano era brilhante. E seria. Seria brilhante se àquela mesma hora os judeus Isaac e Zacuto não estivessem já ao corrente dele... - Pai dos céus!, exclamou o cardeal ao ouvir o relato de mais um mártir de Bosta. Juro que o levo amarrado para Espanha e o atiro de vez a uma fogueira inquisidora! O martirizado juntou, em voz débil, que o sucesso ainda o abalava muito como se provava na sua tez exangue, juntou pormenores e pequenos detalhes requintados de precisão. Eram pormenores até ao momento apenas inéditos para o cardeal, pois era a notícia sensacional do momento em todo o palácio, mortificando-o. Nos últimos dias, Bosta ronda, de noute, a câmara de El-Rei e, esfregando-se na porta da antecâmara, solta uivos de lobo com cio... O cardeal ficou estupefacto. - El-Rei? Pois nem El-Rei escapa a esse demónio? Temo-la bonita!
Quando o mártir saiu, em passo lento e penoso que outro nem podia ter, o cardeal pôs-se em delicada e difícil ordenação de espírito: Porquê agora o rei? Porquê só agora? Até aqui, Bosta tem preferido moços galhardos e escorreitos, mais à mão que as moças e mesmo essas marcham quando ele as apanha..., e El-Rei, perdoe-me Deus e ámen, é feio que nem um perdido..., (é claro que o cardeal desconhecia que El-Rei usava agora o unguento da bruxa que, pelo seu conter, incomodava as narinas sensíveis do transtornado Bosta, as quais, ainda, por cima, andavam estimuladíssimas mas pelos pós das Índias... O cardeal tentava encontrar uma solução eficaz e duradoira. Mandara reunir comissões para estudar-se o caso e estas não chegavam a conclusão alguma. O rei dispensava conselheiros e mesmo com o traseiro ameaçado dificilmente faria algo que se visse. Dissera mesmo o monarca que deixassem Bosta em sua paz e remansos e nos seus afazeres, pois era mais activo agora como enraba… do que em toda a sua vida anterior, em que se parecia com um espectro ou com um moribundo... O Arcebispo estava fora de causa...» In Alexandre Honrado, Os Venturosos, Círculo de Leitores, Braga, 2000, ISBN 972-42-2392-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Os Venturosos. Leituras. Alexandre Honrado. «… língua acertada por corpo muito bem vivido e em muito boas companhias de espírito loquaz como o de um teólogo ou, mais subtil ainda, de um embaixador real perito em grandes intrigas e manhas…»

jdact e wikipedia

«(…) Todos os dias, antes da banhoca, o rei passeava os cães. Fazia-o de manhã, preferencialmente, visitando em sua companhia obras, as muitas em curso no reino. A tarde, punha-se de molho e de molho despachava decretos e outros assuntos necessários e insultava este ou aquele para seu agrado intenso. À noute, besuntava-se e sonhava com donzelas ignorantes de quaisquer pudores, mas muito sábias de artes maiores de outra avidez… É certo que o unguento não o curava. Aliviava-o um pouco em corpo e muito, mesmo muito em espírito. A pestilência já não fedia tanto, e os banhos de água ajudavam. Até as moscas se apartavam mais dele. Dava graças pela nova rotina... Enquanto D. Bosta, animadíssimo pelo cheiro do unguento, lhe uivava à porta, razão imediata para Gil, o camareiro, se trancar a sete chaves em outra ala do palácio, o rei dormia e sonhava e sonhando gozava fartamente.
As voltas pantomineiras que dá este mundo! Isto pensava Maria Pandorga, p… velha e pançuda como um barril, quando a vieram buscar explicando-lhe ao que vinham. Maria Pandorga há muito que não se ajeitava em leitos mas tinha passado suas artes de prazer para as mais requintadas de maldizer e comentar, de preferência com um bom bagaço novo para empurrar a quadrilhice. Nunca língua alguma se soubera tão ágil, sábia das coisas comezinhas desta vida e até das mais intrincadas, língua acertada por corpo muito bem vivido e em muito boas companhias de espírito loquaz como o de um teólogo ou, mais subtil ainda, de um embaixador real perito em grandes intrigas e manhas... Da fama de mulher mais bela do reino passara à de mais sabedora e acertada e os que outrora a procuravam para deleites de excitação, de cónegos a príncipes, voltavam, mais cedo ou mais tarde, agora para ouvir os seus conselhos profundos. Talvez por isso, a sua casa era a mais rica das pobres casas do bairro onde vivia.
Foram buscá-la, cumprindo ordens do rei, ao bairro mais velho da sombra do castelo, onde as ruas fediam e as casas se arruinavam desinteressadas, lugar onde, aliás, moravam muitas p… velhas e também arruinadas, algumas das quais eram agora parteiras, ou aconselhavam matrimónios fracos e comprometidos a troco de moedas muito pequenas ou mesmo de nacos de comer... Fora ela, Maria Pandorga, quem iniciara El-Rei e seu primo Afonso, eram os dois imberbes como castanhas prontas a assar e desconhecedores totais de quaisquer descaminhos da carne ou do que dela se projecta em reentrâncias, esconderijos, fluidos e palpitações gemidas. Era ela, então, já um pouco entrada nos anos, mas tão sabedora do seu oficio que El-Rei nunca se esqueceu da girândola desse sucesso, aliás, metade dos homens da Corte nunca esqueceram as peripécias com Pandorga. Mais recentemente, chegou ao conhecimento de El-Rei que sapiências e acerto ocupavam agora Maria Pandorga a outro nível diferente do da carne. Mandou-a chamar.
Cumprindo na íntegra as ordens de El-Rei, os guardas que foram por ela, e apesar dos protestos da mulher, deram-lhe tremendo banho numa selha, banho de despiolhar e desencascar, desencastoando-lhe a porcaria acumulada nos anos mais recentes. Deixaram-na um pouco assada, mas asseada. Vestiram-na depois com um vestido, requintado mas velho, que havia sido de aia. Em Pandorga parecia de rainha. Ajeitaram-lhe os cabelos com alguma, pouca, graça fêmea, esfregaram-na com carmim e aspergiram-na de aromas. Enfiaram-na depois numa carruagem e, meio escondida, introduziram-na no palácio e na antecâmara real». In Alexandre Honrado, Os Venturosos, Círculo de Leitores, Braga, 2000, ISBN 972-42-2392-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Os Venturosos. Leituras. Alexandre Honrado. «É certo que no palácio o julgavam menos são de espírito: o rei, de pernocas ao léu, num dos jardins do palácio, ainda por cima descalço até à cintura, para levar a bruxaria mais à letra, mergulhando por vezes até às coxas dentro de uma fonte! “Obra!”»

jdact e wikipedia

«(…) - E isto o que vem a ser? - perguntou El-Rei mirando e remirando um frasco e uma banha negra que o enchia. - Creme de túbaros de garanhão. Se o teu problema é o que eu julgo, e é mesmo, esta é a solução indicada. Reticente, muito céptico, El-Rei guardou o frasco com um desvelo infinito apesar do ar de cepticismo, e despediu a bruxa. Deu-lhe à saída metade das moedas que antes previra. - Se ficar bom, mas só depois e então, pagar-te-ei o resto. - Se não me pagares o resto nunca ficarás bom. Pensa nisso e adeusinho, ó rei - respondeu a bruxa, fazendo uma figa com a mão canhota e com a destra erguendo o dedo mínimo e o indicador a tourear descaradamente El-Rei. Ainda levava as mãos em tais posturas quando transpôs a porta principal do palácio, em companhia de Gil. Os soldados da guarda estranharam ver uma freira com tais modos. Só por pouco e porque Gil disse virem mandatados de ordens e incumbidos de tarefas de El-Rei os deixaram sair.
Mal El-Rei se besuntava com o bruxedo, adormecia tão profundamente que nem uivos nem trovões ou ruídos mais sonoros o despertavam. Pelo menos os sonhos. Sim, o monarca dava graças pelos sonhos, pois graças ao unguento da bruxa os pesadelos tinham diminuído, trocados pelos sonhos. Não que agora tivesse sonhos dignificantes, todos seriam melhores do que os habituais e alucinados pesadelos de outrora, lá isso não, que não dignificavam. Atreveu-se a contar um desses novos sonhos, e apenas um já escolhido e pensado, ao seu confessor, frei Nicolau, tido por complacente, farrista e um pouco, na medida da moral que nem cultivava muito, devasso até ao ponto em que o podia ser...
Frei Nicolau, apesar de tudo, ficou escandalizado com esse narrar: - Pois vós sonhais... isso?! O rei não era muito dado a rezas nem a penitências, mas frei Nicolau, desde esse sonho narrado, insistia em que o monarca orasse e se penitenciasse, chegando mesmo a dar-lhe uma corda grossa enodoada com grandes nós, para que com ela batesse nos costados, isto se tais visões, mesmo sonhadas a recato, o assaltassem uma outra vez. A verdade é que El-Rei, guardando a corda numa arca e jamais fazendo uso ou lembrança dela, e ignorando rezas penitentes, andava feliz da vida e ansioso pela hora do deitar e do adormecer em sonhos tão libertos quanto libertinos.
Os habituais pesadelos, sempre cruzados de morte e de sangue e de passado, tinham desaparecido para darem lugar a pequenas orgias oníricas, onde ele tomava grande e activa parte como personagem central e remexida, acordando com um sorriso besta e beato e uma paz incomparáveis. Punha o unguento, deitava-se e sonhava com as mais belas paródias de carne e amor carnal e desnudo, sonhava com coisas que nem em jovem, principalmente depois de ter visto a noiva de seu primo, mais tarde mulher daquele e, quando viúva, sua esposa também, ousara imaginar. Seguia os conselhos da bruxa, portanto. E, portanto, também os banhos de água fresca e corrente que ela recomendara tinham-se tornado seu novo passatempo de todas as tardes.
É certo que no palácio o julgavam menos são de espírito: o rei, de pernocas ao léu, num dos jardins do palácio, ainda por cima descalço até à cintura, para levar a bruxaria mais à letra, mergulhando por vezes até às coxas dentro de uma fonte! Obra! Ah, quem lhe dera ouvir uma única frase de desdém ou de despeito e ele próprio açoitaria de bom grado, pois que lhe agradava à função, o desavergonhado que a proferisse. Se pudesse, corria a escumalha inteira que o rodeava... correria todos a pontapé de tão bom grado...» In Alexandre Honrado, Os Venturosos, Círculo de Leitores, Braga, 2000, ISBN 972-42-2392-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O Príncipe Perdido. Alexandre Honrado. «A velha, impaciente, fez um gesto. A negra deixou de estrebuchar, despediu-se do galo vivo e partiu em sossego, tão diferente do que fora instantes atrás. A avó de Astor tirou o manto vermelho…»

jdact

Cogito
«(…) Donaciana apenas lamentava o seu brilho de fosforo encadeante. Pobre mãe, pensou Astor. A doença do pai e o castigo que a avó lhe infringiu, lavar a enorme, desmesurada panela do banquete, tarefa árdua para muitos, muitos anos de esforço, haviam-na transformado numa velha decrépita. Quem lhe reconhecia a graça na remendadíssima sotaina de algodão, nas madeixas em flocos de cabelo branco? Nada há de obscuro, oculto, invisível, em certas criaturas. A mesquinhez da forma como, às vezes, se concretiza a vida é cruel, pensou Astor. Pobre mãe, enfeitiçada na mobilidade, insegura duração de um trajecto sem tempo. Donaciana, tendo recuperado o marido para o leito conjugal, dava, apesar de tudo, graças pelo seu regresso e encomendava rezas por tão estranha ocorrência. Vivemos rodeados de gente absurdamente agradecida, pensou Astor. Grata por grilhetas.
Agora, há três dia e três noites que Agnelo não saía do laboratório, encantado decerto com alguma promessa de vitória sobre os fantasmas escorregadios que perseguia. Astor abandonou a janela. Entrou na cozinha e não se surpreendeu com Dulcineia, que recitava palavrões obscenos em voz baixa. Assim fazia todas as manhãs. Astor serviu-se de pão. Tirou um frasco de compota de cenoura do frigorífico e uma faca de madeira de um complicado móvel de cozinha com tampo de mármore e cabides para pegas atarrachados numa das portas. Voltou à sala de jantar. Sentou-se à cabeceira da enorme mesa deserta e comeu, compassadamente. Deixou, depois, o frasco de compota, a faca de madeira e um grupo desleixado de migalhas em cima da mesa. Que saudade, no futuro, da singeleza daquelas banalidades. Voltou a janela e ergueu um pouco, entre os dedos da mão esquerda, a veneziana.
O quintal mudara de aspecto. Meia centena de pessoas fazia bicha diante de uma cadeira de baloiço, onde uma velha de vestido de veludo verde se movimentava mansamente. Era uma velha desempenada, de ar arguto e firme, as costas muito direitas e os cabelos grisalhos bem arranjados e vistosos. A avó de Astor. Quase benigna numa primeira e desassombrada vista. Dir-se-ia que escutava cada qual com a mesma atenção. A cada um que avançava, concedia conselhos e qualquer objecto, a seu ver recomendável, que tirava de um dos dois enormes cestos de vime entrançado que a rodeavam. Dois cestos muito altos, guardados a coberto de um manto vermelho, O seu manto vermelho, pensou Astor e procurou na cada vez mais longa bicha de peregrinos alguma cara reconhecida daqueles caminhos. A avó escutava, balouçando a cabeça, deitando os pensamentos num navegar de cárabo ressequido. Havia gente de todas as idades e aspectos, pensou Astor. A avó parecia distanciar-se cada vez mais na sua fama. Chegou-se à avó uma mulher com uma capulana colorida; e os seus pés negros, descascados de pele e nús, sobressaíam na relva molhada do quintal. A mulher fez uma vénia à avó, deitou um galo vivo para dentro do cesto de vime, à direita, e desatou-se num rol de queixumes ensaiados cuidadosamente. A velha escutou-a com demora. Mas parecia indiferente, baça. A capulana volteava, deitava rasgos de mulher aqui e acolá, brechas de males sofridos caíam nos ouvidos dos presentes. Astor, na trincheira da janela, adivinhava a aflição da capulana e seu recheio. Via-a gesticular, metódica, semelhante a raios pendurados num poste de alta tensão. A velha, impaciente, fez um gesto. A negra deixou de estrebuchar, despediu-se do galo vivo e partiu em sossego, tão diferente do que fora instantes atrás. A avó de Astor tirou o manto vermelho de cima dos cestos e atirou-o com juventude sobre os ombros. Da bicha adiantou-se logo um engenho de homem, magro e sombreado, com uma gigantesca gadanha em riste. Trazia nos olhos um leve bréu, uma distância sofrida e antiga. Ofertou a gadanha. E há nos actos mudos confissões sonoras. Antes que abrisse a boca, a velha tirou do cesto, à sua esquerda, um frasco de vidro e do frasco um molho de ervas. Estendeu as ervas na palma da mão aberta e o homem tirou-lhas com sofreguidão. Em seguida, o homem transpôs o portão do quintal. Mas não levava a sombra que trouxera». In Alexandre Honrado, O Príncipe Perdido, colecção O Chão da Palavra, Vega, Lisboa, 1986, ISBN 978-972-699-155-7.

Cortesia de Vega/JDACT

A Montanha Russa de Deus. Alexandre Honrado. «O autor tem uma amante que o ama, que vem nos momentos exactos, e que o arranca da patinagem das fantasias para a dura realidade do ‘no fim de semana não vamos a casa da minha mãe nem ao cinema e ficamos aqui um com o outro e os vizinhos vão protestar e...’»

jdact

Ora viva!
«(…) Agora que sabes a que eles se referiam as linhas lá de cima, repara: Marguerite Yourcenar está sentada em cima de uma pedrinha e recita-se, em francês. E aqui começa logo um dos problemas desta(s) história(s), pois é reconhecido que a esmagadora maioria dos habitantes do Mundo não fala francês. Je sais que je tombe dans l’inexplicable, quand j’affirme que la realité, cette notion si flottante, la connaissance la plus exacte possible des êtres est notre point de contact, et notre voie d’accès aux choses qui dépassent la realité. Diz ela. É perigosíssimo citá-la agora, temos consciência, agora que nada ainda começou. Os leitores perdem-se com muita facilidade, como se perdem canetas que estimamos, isqueiros, a paciência..., amem o que nunca se verá duas vezes, dizia o poeta. Mas, suspirando, confessa-se que são citações de mais. Pelo menos para começar.
Ah, é verdade, a senhora está sentada numa pedrinha, o campo à sua volta está florido, a tarde é amena, de amena Primavera assumida. Um pouco mais longe estão três homens. Sentados no chão. Há uma estrada que acaba um pouco mais adiante e na sua berma está um táxi mal estacionado. Trata-se de um velho Mercedes 180 que só há poucos dias tem um potentíssimo motor novinho em folha, facto que para ti, é absolutamente inútil, a menos que apanhes o táxi em questão num dos próximos dias... Quem são? O autor e os rarradores (pelo menos, os narradores principais, como acabarás por reconhecer). O autor é o mais pálido. Tem a palidez de todos aqueles que vivem escondidos e ele esconde-se como um proscrito por trás de narradores e personagens, narradores e personagens que nas histórias por vezes são multidões, cada cabeça sua sentença e todos os que participam nas histórias têm, é claro, alguma coisa para narrar...
Interrompe-se aqui o que se contava só para dizer que passou um pássaro. A curiosidade é que não voava. Passou com passinhos de bailarina, olhou sem curiosidade para os três homens, desconheceu a Yourcenar que, entretanto, come uma sandes de queijo fresco, e afastou-se. Convém dizer-se já, relatando o fio que apruma a história: o leitor és tu. Pobre estatuto. Falta-te um valor essencial na vida moderna: reconhecimento. Ninguém te conhece deste lado. Podes estar nu, exibindo o teu mais sincero despudor, o teu mais mesquinho desprezo por nós que nunca o saberemos. Pegaste na história por acaso, estás a lê-la e neste preciso instante..., vês? Paraste e interrogaste-te se deves continuar ou desistir e ligar a televisão que te hipnotizará mais facilmente pelas próximas horas. Não o faças. Esta é uma história interactiva. Ora carrega agora neste ponto final. Sentiste? O pássaro acaba de regressar e ignora-nos. Continuemos.
Não penses, lá porque sem ti não vivem nem autores/escritores/editores/narradores, que podes andar por aí impune. O teu retrato-robot está pendurado nos escritórios de autores/escritores e narradores e há ainda uma versão cravada de setas em cada editora de livros. E desfeito que está, deste modo, o teu ego, vamos às apresentações. O autor é, pois, o das feições amarelecidas. Muitas horas às voltas com canetas, lápis, borrachas, computadores, impressoras, ainda com o revisor, mas olhe que no prontuário não vem a palavra Quiasma, onde raio foi descobrir essa? - e, muito pior, com o editor, cuja mor sabedoria literária se resume na expressão … esse título não me parece muito comercial. O autor é ainda afectado, daí a sua palidez, pelo facto de se esquecer muitas vezes das horas e trocar o almoço com o jantar, já sem falar que, uma vez por outra, atira com a roupa lavada, distraidamente, para o caixote do lixo e reveste-se com as roupas sujas com que anda há três dias... O autor tem, para o compensar, uma amante que o ama, que vem a sua casa nos momentos exactos, e que o arranca da patinagem artística das suas fantasias para a dura realidade do no fim de semana não vamos a casa da minha mãe nem ao cinema e ficamos aqui um com o outro e os vizinhos vão protestar e...» In Alexandre Honrado, A Montanha Russa de Deus, Editorial Bizâncio, 2001, ISBN 972-53-0114-5.

Cortesia de E.Bizâncio/JDACT

Os Venturosos. Leituras. Alexandre Honrado. «E sabes o que é um rei? Um rei é, apenas, um homem. Se não fosses um simples, um mero, um desgraçado de um homem, estavas realmente acima de tudo, e não tinhas varizes..., nem cheiravas a porco cevado como cheiras...»

jdact e wikipedia

«(…) Explicou: - A vela também não tem nada a ver com a função, mas dá uma outra claridade ao aposento. Não faz, portanto, parte do feitiço... Ao contrário do que dizem os vossos padrecas, as bruxas não gostam de trevas nem de chamas que queimem, só de luzes que alumiem... A bruxa voltou a arregaçar as saias e tirou da bolsa oculta um saquinho de cetim e deste umas ervas de aspecto amarelado e ainda castanhos, pequenos, galhos de árvore enigmática. Tomou-os nas mãos e disse umas palavras ininteligíveis, assim a modo que quase parecia benzê-los. Passou depois os galhos e as ervas para as mãos do rei, que estava muito compenetrado da função, e ordenou-lhe que os atirasse para dentro da água da bacia. El--Rei obedeceu e a bruxa inclinou-se para ver o efeito que a ervanária fazia a boiar e soltou um assobio estridente sobressaltando El-Rei que, debruçado por cima dela, também espreitava. - Vou ter de fazer algumas perguntas, ó rei. - Lá para fora - berrou o monarca e Gil, a quem a ordem se dirigia, obedeceu, maldizendo a espessura enorme da porta da câmara real.
A bruxa baixou a voz e El-Rei viu-lhe uma dança de diabos passar-lhe pelos olhos que não eram já azuis mas cor de um céu muito embruxado. - Então, que se passa? A maga declarou: - Não tens mau-olhado anormal numa figura como a tua, que deve odiar-se por tradição e fazer-se amar por função e esforço... Mas és tu quem olhas pior, ó rei… Que mau-olhado votas ao pobres dos teus vassalos e até a ti o deitas, pobre criatura que te enredas no teu feitio perdido... O rei deu de ombros perante o silêncio de interrogação da bruxa, mas como se este se prolongasse, viu-se obrigado a esclarecer: - Coisas de rei não se justificam; fazem-se.
 - Os ovos da galinha são para comer, o que não significa que não possam apodrecer. Entendes, ó rei? - Mas…, começou, calou-se El-Rei. - E sabes o que é um rei? Um rei é, apenas, um homem. Se não fosses um simples, um mero, um desgraçado de um homem, estavas realmente acima de tudo, e não tinhas varizes..., nem cheiravas a porco cevado como cheiras... - Cuidadinho com a língua, ó bruxa! Irra, modera-te e pergunta..., com tino. Estou moderada, ó rei. E sempre fui atinadinha… A bruxa fez urna pausa e disparou: - Há quanto tempo não forni… coisa que se veja? O rei engasgou-se. - Queres dizer?... - Ah, pois quero. Lí isso quero, ó rei. Há quanto tempo não te pões em uma?...
 - A última em que me pus, ó bruxa, foi a rainha que já faleceu vai para... E isso foi muito antes dela morrer. Até emprenhou da dita uma de que te falo... Enquanto o rei cismava, a bruxa tornou a agitar a água da bacia, desta vez com um raminho de salgueiro. Franzia o sobrolho... - Uma coisa é certa: não podes, nunca mais, pôr-te nas pu…, ó rei. Se te queres curar, só fornica… ordenada, em forma de lei, bem vista por todos... Casa-te! E mais: a nova rainha tem de desejar o sexo contigo. Coito forçado é lança em saco de farinha, não conta para a cura e é um desperdício... - Já tenho aí qualquer coisa em vista disse El--Rei e foi buscar a uma arca o retrato de pintor de uma princesa cheia de folhos. - Mas, dizem-me, é tão católica que desdenha sequer pensar em coisas de carne..., como essas.
 - É porque ainda não teve macho que lhe despertasse as verdades. Se é realmente mulher, já terá escondidinhas as virtudes, à espera da arte certa que as deixe em labaredas... A boda está para próximo? Deixa, eu vejo... A bruxa tornou a remexer com o graveto. - Falta mais tempo do que seria bom. Pelo menos do que seria bom para ti e para as tuas pernas. E neste casar não vejo coisa que se aproveite... - Criatura aziaga, irra! - Bom, coisas de sorte por vezes mudam, ó rei. Não te apoquentes... - Entretanto, o que é que eu faço para além de penar? - Mergulha as pernas em água fresca de fonte corrente. E à noute..., à noute besunta-te com isto…, a bruxa estendeu-lhe um frasco retirado dos segredos das saias». In Alexandre Honrado, Os Venturosos, Círculo de Leitores, Braga, 2000, ISBN 972-42-2392-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Os Venturosos. Leituras. Alexandre Honrado. « “Irra”, safa, que custa mais a descobrir que a entaipá-las! – Que maldita pestilência, que rebuliço que aqui vai. Há que lavar já as gambas com água de rosas. Não melhora nada mas deixa-lhes outro cheiro. ‘Cáspite’, que pivete»

jdact

«(…) A carinha era assim a modos que de querubim, menos do que de maga... Por freira não passava sem que algum atrevido suspirasse por tão mal empregue ter sido a sua sorte... Bruxa engraçadinha, pensava Gil, e só não a beliscou com medo de feitiços de vingança... - Vamos a andar, toca a mexer, dizia Gil e mirava-a no andamento... A bruxa tinha, porém, mais com que se preocupar. Percorreu o palácio em sobressaltos outros que não do pânico que lhe poderia advir de uma investida de Gil. Tão amedrontada estava que só desprendeu língua diante do monarca, e, na presença de El-Rei, começou por desabafar: - Venho borrada de pavores, meu rei. - Irra, que linguagem foi a contra-saudação real. A bruxa acalmou-se.
Retirou o toucado depois de mandatada a fazê-lo sob um gesto brusco de Gil, descobriu-se por fim, por fim revelou-se, bruxa de arzinho prazenteiro, pensou o rei, depois a mulher bufou e só por fim olhou o monarca com uma curiosidade em que nada havia de obediência ou respeito hierárquico. - Sois vós então o rei? Estava em crer-vos mais gordo... Que fraca figura!
O rei não gostou mas conteve-se, pois querendo o que queria parecia-lhe mais atilado mostrar-se complacente, e a criatura era bruxa, de tudo seria capaz. Fingiu: - Gordo era o outro. O rei meu primo, já se finou. Se não se finasse e outros como ele, entretanto, nem eu era rei nem tu aqui estavas a ganhar a vida, ó bruxa. E já agora, irra que basta de explicações.
 - Ao outro também eu conheci, replicou a feiticeira. E, depois de pausa a recordar: - E conheci aos beliscões que me dava nas bochechas do rabo para me conhecer melhor... Pois faltava conhecer-vos. Tenho agora a sabedoria mais repleta. - Vamos ao que interessa e cuida que não me interessam beliscões mas outros serviços mais complicados. - Eu é que digo o que interessa e quando, castigou a bruxa em tom severo. E voltou a carregar: - E quanto a beliscões ou apalpadelas em cu bem provido, fica sabendo, ó rei, que conduzem vulgarmente a serviços mais complicados do que julgas - disse a bruxa com tanta autoridade que o facto de pôr-se a atuar El-Rei incomodou mais o camareiro que seguia a conversa do que o próprio soberano.
Gil deu um salto quando a bruxa se virou para ele, ordenando: - Trazei-me uma bacia limpa e cheia de água sem turvações. Também um círio de bom arder com pavio de estopa clara e, é claro, luminária com que se ponha aceso. E uma frada de alhos... Se houver presunto e pão, traze uma perna de um e um bom naco do outro. - Pão? Alhos? Presunto? Julguei que as bruxas não se davam com os alhos e que... - As bruxas dão-se com tudo e com todos os que não lhes incomodem a vida, o que vai deixando de ser o teu caso, ó linguarudo... Gil ia replicar, deteve-se. A bruxa continuou, a esclarecer:
 - Aliás, os alhos e o presunto não são para feitiçarias; carecem-me lá em casa. O pão, trinco-o agora e de pronto assim que o trouxeres, pois que tenho as vísceras coladas às ossadas. Que fome, cáspite!
- Ah! - exclamou El-Rei compreensivo, e ordenou: - Assim sendo, prepara-lhe um farnel completo e que não falte nem um garrafão de clarete. Fica tudo por paga do incómodo. Pois isso é que é falar, ó rei. Mas paga a valer quero-a em moedas prometidas, dessas que soam. - Serás paga depois do trabalhinho, ó bruxa. Quando El-Rei disse isto a bruxa amuou, mas amuada conformou-se: - Então, vai de trabalhar. O rei mostrou-lhe as pernas, depois de falar da apoquentação, e a pedido dela teve de as desembrulhar das muitas fitas de pano, húmidas de icor, que as envolviam.
 - Irra, safa, que custa mais a descobrir que a entaipá-las! – Que maldita pestilência, que rebuliço que aqui vai. Há que lavar já as gambas com água de rosas. Não melhora nada mas deixa-lhes outro cheiro. Cáspite, que pivete. Gil foi pelas encomendas. Bruxa e rei nada disseram entretanto, medindo-se de alto a baixo, estudando-se. Gil regressou com o círio, um desses enormes, desmesurados círios pascais ornamentado com motivos santos. Ao vê-lo, a bruxa gritou um bem berrado Cruzes, canhoto!, que deve ter ecoado por todo o palácio.
Gil trazia ainda uma bacia de barbeiro cheia de água mais ou menos clara. Não se esquecera de um grande pão escuro, embrulhado em toalhinha de linho. A bruxa tomou o pão e nele se pôs a trincar com gosto. Findo o pão guardou, por baixo das saias, numa bolsa enorme de pano, a toalhinha de linho, o que deixou Gil em grande indignação mas que em nada incomodou o rei.  - Irra, despachai-vos, bramou El-Rei. - Muito bem, aprovou a bruxa, arrotou, desculpou-se declarando-se empanturrada, e passou a acender o círio». In Alexandre Honrado, Os Venturosos, Círculo de Leitores, Braga, 2000, ISBN 972-42-2392-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Sátira no 31. Os Venturosos. Leituras. Alexandre Honrado. «El-Rei borrou-se, rebentou de varizes, tremeu de medo pânico. E mal chegou aos seus aposentos, correu ao cofre dos cilícios, fez desaparecer seu frasquinho de arsénico entre a colecção de venenos que tinha. Porque o fez a ninguém disse»

jdact

«(…) Por entre alas de vultos negros, cada qual com sua tocha tremeluzente, o cadáver tremebundo. O ataúde segue pela nave sonora, detém-se na charola agora preparada com grandes panejamentos negros. Sobre o caixão, o escudo, o elmo e o pendão do próprio defunto. Um bispo faz elogio, exagera como manda a praxe, não conta a verdade deste rei feito de egoísmo e avareza, mas refere qualidades fingidas de generosas caridades impensáveis. Chamaram El-Rei adiante para que visse. El-Rei olhou. E borrou-se de pavor tão pânico e tanto se amedrontou que ia morrendo por seu turno. Foi nesse dia que se lhe arrebentaram ainda mais as pernas com varizes. É que viu: o tal João perdera as carnes sem se descompor, seco, enxuto, a epiderme perfeita, a barba branca e os cabelos brancos tão em seu lugar e à luz tremenda, mortiça e dançante de três lâmpadas de prata que o alumiam, parece respirar mansamente, um sono que adia justiças...
No caixão, o tal João dormia incorrupto. E só havia duas possibilidades: uma, a de ser santo, coisa que a ninguém parecia, pois nunca o fora, apunhalara até seu primo, mandara degolar a outro primo, e distribuíra a eito muito veneno para erradicar inimigos, e assim sendo, santo não seria. A outra possibilidade era que algum veneno entrara nele, para o despachar. E todos sabiam que o sintoma da intoxicação pelo arsénico era por vezes o mesmo: a carne secava, a pele engelhava, mas o corpo ficava depois da morte como que a denunciar...
El-Rei borrou-se, rebentou de varizes, tremeu de medo pânico. E mal chegou aos seus aposentos, correu ao cofre dos cilícios, fez desaparecer seu frasquinho de arsénico entre a colecção de venenos que tinha. Porque o fez a ninguém disse.

A bruxa entrou no palácio vestida de freira, modo engenhoso que Gil encontrou para a desaperceber a olhos indiscretos. Mais freira menos freira num mar de hábitos, ninguém suspeitaria... Não foi fácil convencê-la todavia a, salvo seja!, tomar o dito hábito. Alegava que a sua reputação sairia comprometida de tal aventura e que as raivas de padrecas e sorores se lhe colariam à pele para todo o sempre. No entanto, a heresia, múltipla heresia, acabou por cometer-se e nem o beneplácito régio salvaria a pobre se alguém da igreja assim a topasse. Tremia de medo dentro da fatiota e diante do palácio até soltou flatulências medrosas, tal era o pavor que a percorria.
Era uma mulher roliça, muito providinha de carnes até, nem tão velha que os cabelos já tivesse descoloridos, eram encaracolados e loiros naturalmente, vingando nela um olho azul perspicaz, combinação que fazia crer que algum labrego de paragens nórdicas se tinha posto em sua avó ou mãe, deixando-lhe tendências de fora e dotes de bruxaria no sangue misturado, nem tão nova que se julgasse moça, mas ainda muito própria de fazer pensar e querer». In Alexandre Honrado, Os Venturosos, Círculo de Leitores, Braga, 2000, ISBN 972-42-2392-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

domingo, 20 de abril de 2014

Os Venturosos. Leituras. Alexandre Honrado. «Sonhava El-Rei, também, que aquele “João”, que lhe aparecia em sonhos a perguntar então quando é que me mudas, “ó sensaborão”, quando é que cumpres meus desejos, “ó calaceiro?”»

jdact

«(…) Entraram a coberto de sombras no palácio, rodearam guardas e indiscretos, foram-se a uma câmara onde Maria esperava mortificada pela ansiedade da demora. - Porras, carugo!. Que tardavam! Júlio nem se incomodou, meteu as mãos na princesa, passou-lhe a língua pelos beiços, foi-se a ela como à aia, rapaz valente este Júlio e de potências infinitas. Maria sossegou-se nesta desinquietação calmante. E, finalmente sossegada, declarou o que lhe queria, e o que queria era levá-lo com ela, que ia casar-se e por isso ficaria muito só. Júlio estremeceu. Abandonar assim a boa farra de uma corte que tanto apreciava os seus favores?! Mas, cuidando bem na proposta, que paraíso não estaria do lado de lá das fronteiras? Decerto, em esse novo e estranho reino onde faria morada, muitas novas damas haveria a consolar... Findou-lhe de súbito a preocupação, disse: - Irei. Maria, em resposta, esbugalhou-se de sorrisos. - Assim é que é falar, carago, porras! Para festejo, Maria ficou com Júlio a tarde inteira, e o trovador saiu mais tarde, já a noute caía, muito reduzido de energias e a pensar que futuro seria o seu daí por diante.
João, aquele que se dizia pola ley e pola grey sendo mais de ley se fosse a sua, a quem o povo apelidara o Príncipe Perfeito, rei primo e cunhado de El-Rei, deixara escrito em testamento, pela mão sábia do redactor frei João da Póvoa, um desejo muito desejado: - Minha sepultura quero que seja em o Mosteiro de Santa Maria da Vitória no lugar e pela maneira que mais conveniente parecer a meu testamenteiro. El-Rei andava mortificado com a coisa. O tal João permanecia sepulto onde não queria, numa jazida humilde e muito fora de mão. Sonhava El-Rei, também, que aquele João, que lhe aparecia em sonhos a perguntar então quando é que me mudas, ó sensaborão, quando é que cumpres meus desejos, ó calaceiro?, sonhava que o tal João se alevantava do túmulo que não era seu definitivo, para lhe encher de varizes as pernas, para o perseguir... El-Rei, fazendo face, aprontou grande fausto. Convocou todos os bispos do reino e todos os grandes fidalgos da corte e mandou a maior procissão de cortejo jamais reunida até ali, ao lugar onde João restava. Iriam levá-lo, a seu desejo, a sepultar no dito mosteiro a que também chamavam da Batalha. Foi-se a procissão buscar o morto.
Reuniram-se à volta da urna em muitas rezas, e depois abriram-na para retirar ossadas e fazer a trasladação. Para grande assombro, o corpo estava intacto. João estava assim como que apenas adormecido, alguns temeram que se levantasse logo dali para dizer muito que não queriam ouvir. Milagre, disseram uns. É santo, gritaram outros. Pelo meio de muitas rezas, puseram o tal João num ataúde novo, forrado de brocado carmesim e colocaram-no num carro tirado por cavalos cobertos de panos de veludo preto. Foi o cortejo mais solene que alguma vez se viu, e o mais silencioso e temente. Iam o arcebispo, os bispos todos, o cardeal, oitenta capelães, revestidos dos seus mais preciosos paramentos, e muitos fidalgos e cavaleiros a marchar a pé atrás do féretro. Muitos tremiam de medo, quase todos de dúvidas.
Iam andando e parando em cada vila, e em cada vila fazia-se procissão local até à igreja da terra, e depois de rezada missa, e deixados, para assinalar, um paramento em seda e um cálice de prata em cada lugar, o cortejo continuava à vila próxima e de pronto o povo inteirava-se do sucesso e ficava igualmente amedrontado e em espanto, sem saber-se se ali levavam rei morto, posto ou vivo, se uma mensagem divina de que há lembranças impossíveis de apagar... Marcha lenta e muito solene, fatigante e demorada, até que finalmente o ataúde entrou no mosteiro, definitiva morada, e ia aos ombros agora da melhor nobreza, a mesma que ele derrubara por todos os processos, para que não fizesse frente, em orgulho e insolência, a rei algum digno desse título». In Alexandre Honrado, Os Venturosos, Círculo de Leitores, Braga, 2000, ISBN 972-42-2392-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT