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segunda-feira, 24 de abril de 2023

A Cruz de Esmeraldas. Cristina Torrão. «Enquanto sacudia a areia da túnica, Johann acrescentou: O próprio pai a vendeu à dona da espelunca, apenas a uma semana da nossa chegada ao Porto»

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«(…) Konrad levantou-se de um salto, pousando os olhos esbugalhados no irmão: Ainda és mais pacóvio do que o que eu pensei, pivete! Que queres dizer com isso?, replicou Johann, enquanto se levantava. Não era de esperar uma coisa dessas? Uma rameira sabe muito bem o que tem de fazer para... Não a chames assim!, gritou-lhe o mais novo. Há três meses que ela é a minha noiva. Não me digas! E a criança também é tua? Ignorando o ferimento do irmão, Johann lançou-se a ele, que, apanhado desprevenido, caiu ao chão. Os dois rolaram sobre a areia, mas, embora Konrad não estivesse nas melhores condições, depressa forçou o outro a deitar-se de costas. Sentou-se em cima dele, como se montasse, e segurou-lhe os braços. O moço tentava libertar-se, berrando: Larga-me! Só quando prometeres respeitar o teu irmão mais velho. Onde já se viu, abalroar-me assim, sem mais nem menos? Sem mais nem menos? Não perdes uma oportunidade de insultar a Ausenda. O que tens contra a rapariga? Toda a gente sabe que ela não se meteu com mais ninguém, desde que deixou o maldito bordel. Konrad caiu em si. Ainda há poucas horas ele confirmara esta afirmação. Largou o rapaz e levantou-se, sem uma palavra. Enquanto sacudia a areia da túnica, Johann acrescentou: O próprio pai a vendeu à dona da espelunca, apenas a uma semana da nossa chegada ao Porto. Pelo jeito dela, até pode ser verdade. Mas não te deixes levar pela pena que ela... Não se trata de ter pena dela. Mesmo que não estivesse prenhe, eu ficaria aqui e casaria com ela. Santo Deus, tu és de origem nobre! Quando é que vais meter nessa tua cabeça que não podes casar com uma moça qualquer? Só podes casar com uma fidalga. O que aliás não te impede de assumires a paternidade da criança da Ausenda e sustentá-la... nem tão-pouco de teres a rapariga sempre que te apetecer...

Acaba com isso! Estou cheio de te ouvir falar dos nossos antepassados com pergaminhos. Do que é que isso me adianta? Sou tão miserável quanto a Ausenda. Recuperaremos a nossa honra na Terra Santa! Para te ser sincero, deixei de acreditar nisso. Ora essa! Porquê? Pensas que lá vai ser muito diferente daqui? Continuaremos a batalhar em cercos destes, meros instrumentos nas mãos dos poderosos! E só com muita sorte sobreviveremos à trapalhada. A nossa própria vida é a nossa única e verdadeira riqueza! Konrad respirou fundo e replicou: Eu não desistirei! Regressarei a Colónia como cavaleiro honrado e rico e vingar-me-ei de todos aqueles que nos viraram as costas!

Alimentar desejos de vingança não está de acordo com a nossa religião. Jesus Cristo era avesso a ideias dessas. Disse que nos amássemos uns aos... Não me venhas com o teu latim de convento! Como queiras, suspirou Johann e acrescentou: Faz o que achas que tens de fazer. Mas sem mim». In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

 

Cortesia de Ésquilo/JDACT

 

JDACT, Cristina Torrão, História, Cultura e Conhecimento, Lisboa,

domingo, 23 de abril de 2023

A Cruz de Esmeraldas. Cristina Torrão. «Diz lá, o que se passa? Eu sei que mal podes esperar para seguir viagem... Bem o podes dizer... conquanto sobrevivamos a esta história! Johann respirou fundo e anunciou: Não irei contigo!»

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«(…) Mas não terás febre? Com a fome que tenho?! Os outros riram-se aliviados. Muitas vezes, uma ferida aparentemente inofensiva poderia conduzir à morte, caso infectasse, alastrando o seu veneno a todo o corpo. Ausenda mexia com uma colher de pau o conteúdo de uma panela de ferro de três pernas pousada à beira do lume e Konrad perguntou: O Tomé tornou a mandar-nos sopa? Sim, respondeu a rapariga, com toucinho. Cheira tão bem! Já comiam, quando Konrad comentou: Mais uma mina que falhou. Quem haveria de dizer que os mouros resistiriam tanto tempo?, replicou Gunther. E hoje não deram só cabo do nosso túnel, acrescentou Nadwig. Também neutralizaram um ataque português à alcáçova. É mesmo?, admirou-se Konrad. Os portugueses tornaram a trepar às muralhas? Não, respondeu Johann. Desta vez atacaram a porta perto da torre da cisterna. E o que é que falhou? Ainda não sabemos, respondeu Hadwig. Mas, ou muito me engano, ou os nossos dois amigos nos virão informar, depois da ceia.

Assim aconteceu. Julião, e Tomé vinham agitados, clamando que naquele dia tinha morrido um herói! Contaram uma história curiosa sobre um grupo de portugueses que, ao notarem que os mouros tentavam fazer uma surtida pela porta da alcáçova, os atacaram. Ao verem-se descobertos, os muçulmanos logo regressaram ao seu refúgio. E preparavam-se para fechar a porta, quando um cavaleiro português, de nome Martim Moniz, não se conformando com o desfecho da refrega, se precipitou sozinho para o meio dos infiéis. Ao mesmo tempo que lutava com uma horda deles, assim contavam Julião e Tomé, atravessou-se na porta, impedindo que esta se fechasse e permitindo que alguns dos seus companheiros entrassem na alcáçova...

Acabou por morrer esmagado. E os portugueses que já haviam entrado não tiveram muito melhor sorte. O seu acto, porém, juravam Julião e Tomé, servia de exemplo a todos os guerreiros. Os dois estavam convencidos de que, durante todo o cerco, ainda não tinha havido um herói como Martim Moniz!

A Konrad, que naquele dia também enfrentara perigos, salvando vários companheiros da morte certa, não lhe apetecia continuar a ouvir os elogios com que os dois portugueses enchiam o tal cavaleiro. Sentindo-se com forças, depois de matar a fome, levantou-se, lançou a sua capa pelos ombros e, com o punhal enfiado no cinto, caminhou até à margem do rio. Preparava-se para se sentar na areia, quando olhou para a sua direita. Archotes iluminavam o cimo das muralhas, junto à Porta de al-hammã.

De novo atingido por aquela atracção estranha, foi-se aproximando da cidade. Apercebia-se dos movimentos das sentinelas mouras, mas a escuridão à sua volta impedia que o inimigo o descobrisse. Quando se encontrava a uns cinquenta passos de distância da Porta de al-hammã, sentou-se no chão.

Apesar de, ao contrário dos seus companheiros, não acreditar no tesouro subterrâneo, não se conseguia livrar do pressentimento de que esta cidade tinha algo de importante para lhe oferecer. Tinha quase a certeza de que um dia atravessaria uma das portas de Lusbuna, a fim de encontrar algo que lhe pertenceria! Mas o quê? Esta ideia era tão absurda, porquanto ele considerava este cerco uma perda de tempo que o impedia de alcançar a Terra Santa.

Nesta noite, sentado sozinho no meio da escuridão, estes pressentimentos iam ainda mais longe: algo lhe dizia que ele não mais deixaria Portugal! Os cabelos da nuca arrepiaram-se-lhe, pois só encontrava uma explicação para isso: acabaria no cemitério dos cruzados alemães e flamengos, na colina a leste de Lusbuna!

Ouviu passos atrás de si e pôs-se de pé num salto, enquanto desembainhava o punhal. Mas deparou apenas com Johann. Que estranho o rapaz vir ter com ele! À noite, não se separava nunca da sua amada Ausenda. Preciso de falar contigo, anunciou Johann, de olhos postos no chão. Desconfiado, Konrad tomou a sentar-se, no que foi seguido pelo irmão. Esperava pelas palavras do rapaz, mas este emudeceu, enquanto fazia desenhos na areia com um pauzito. Ausenda ter-se-ia queixado? Konrad amaldiçoou-se por aquele seu momento de fraqueza. A última coisa que pretendia, seria causar um desgosto ao Johann. Mas responderia pelo seu acto e, como o rapaz não se resolvia a falar, ele decidiu encorajá-lo:

Diz lá, o que se passa? Eu sei que mal podes esperar para seguir viagem... Bem o podes dizer... conquanto sobrevivamos a esta história! Johann respirou fundo e anunciou:  Não irei contigo! Que estás para aí a dizer? O rapaz pousou finalmente os olhos castanho-claros nos do irmão e insistiu: Ficarei aqui. Depois de uma curta hesitação, Konrad inquiriu: Mas porquê? Disse ou... fiz alguma coisa que te aborrecesse? Johann olhou-o cheio de espanto: Tu? Não, que ideia. Tem mais a ver com a Ausenda. Pensei em levá-la comigo, mas... A viagem seria perigosa demais para ela...

Perigosa? Ela é magrinha, mas rija. É das poucas pessoas em todo o acampamento que ainda não teve que se ver com uma diarreia das fortes. Não me deixaste acabar. Ela... está prenhe!» In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

 

Cortesia de Ésquilo/JDACT

 

JDACT, Cristina Torrão, História, Cultura e Conhecimento, Lisboa, 

quarta-feira, 29 de abril de 2020

A Cruz de Esmeraldas. Cristina de Torrão. «Fazem sempre assim, replicou alguém ao lado dele. Destroem as minas, matam uns quantos dos nossos e tornam a barricar-se na cidade. Pelos vistos, completou Hadwig, o teu adversário…»

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«(…) O mouro era ágil e rápido, Konrad sabia que dificilmente lhe poderia causar ferimentos letais. Além disso, via-se obrigado a usar a sua própria espada mais como arma de defesa do que de ataque. As forças começaram-lhe a faltar, mas entretanto os seus companheiros tinham-se tornado a distanciar. E o túnel haveria de chegar ao fim. Desta vez, revelava-se-lhe difícil arranjar uma oportunidade para virar costas à luta. Arriscou um ataque, descurando a própria defesa. Deu certo: o mouro teve que cobrir a cabeça com o escudo e Konrad aproveitou para lhe virar as costas. Mas pelos vistos não foi suficientemente rápido. O outro avançou de espada em punho e atingiu-lhe o braço. A dor lancinante fez com que as pernas de Konrad lhe fraquejassem. Mas, se ali caísse, era o seu fim. O desespero deu-lhe forças que ele não imaginava ter e viu-se a correr a toda a velocidade. O sangue escorria-lhe do braço direito e a dor roubava-lhe o discernimento. Não fazia ideia seja estava perto dos seus companheiros, nem se o mouro o alcançava. Ficou tonto, sentia-se desmaiar. Já não corria, cambaleava de encontro às paredes da mina... Até que caiu ao chão. Contava a todo o momento que o mouro lhe desse o golpe de misericórdia. Mas, fosse porque milagre fosse, isso não aconteceu. O outro parecia ter-se diluído no ar! Gritou por socorro, a saída do túnel não podia estar longe. Depois, arranjou forças para se levantar. E lá foi cambaleando, à procura da saída e gritando por ajuda. A luz do sol já se fazia notar, quando viu homens a virem ao seu encontro. Ajudaram-no a sair da mina, em cuja entrada uma pequena multidão o esperava. Johann pendurou-se-lhe ao pescoço, de lágrimas nos olhos: Konrad! Estás vivo, graças a Deus! Também Hadwig e Gunther se regozijavam. Konrad balbuciou, entre golfadas de ar: o mouro..., deixou..., de me seguir?
Fazem sempre assim, replicou alguém ao lado dele. Destroem as minas, matam uns quantos dos nossos e tornam a barricar-se na cidade. Pelos vistos, completou Hadwig, o teu adversário contentou-se em infligir-te esse ferimento no braço. Anda, disse Johann. Tratemos disso, antes que te esvaias em sangue. Konrad estava deitado na sua tenda e Ausenda envolvia-lhe a ferida do braço com uma compressa de flores de camomila. As tendas eram pequenas e apertadas, só os fidalgos tinham direito às grandes, redondas, com um mastro no meio, no cimo do qual se içava uma bandeira. Os dois nunca tinham estado tão próximos um do outro. E estavam sozinhos, Johann tido ido apanhar lenha para a ceia.
Ausenda nunca lhe parecera tão bonita. Ajoelhada a seu lado, tinha a saia levantada acima dos joelhos, para melhor se poder mover. Curvava-se sobre o braço dele, dando a ver um pouco dos seios no decote redondo do vestido de linho. Os lábios, que eram um pouco grossos e de um vermelho vivo, estavam entreabertos. Os cabelos negros, amarrados num rabo-de-cavalo, emanavam um leve aroma a alfazema. Ao apertar a compressa, ela fez com que o braço esticado de Konrad se movesse e as costas da mão dele tocaram-lhe na pele bronzeada e quente da coxa. Apesar de ferido e fraco, Konrad excitou-se. Depois de um dia de tantas agruras, ansiava por um pouco de consolo. Deu-se conta que, desde que partira nesta aventura, nunca tinha desejado tanto uma mulher como desejava agora a rapariga meiga dos olhos amendoados. Não resistiu à tentação de, com as costas dos dedos lhe afagar a coxa. Estava expectante quanto à reacção dela. Há mais de três meses que ela se dedicava exclusivamente a Johann, mas tinha sido afinal uma rameira.
Ausenda, porém, se se apercebeu das suas intenções, deu a entender o contrário. Não o encarou uma vez que fosse e, assim que terminou a sua tarefa, deixou a tenda, sem proferir palavra. Sozinho, Konrad deu-se conta do fresco que o fim de tarde trazia e que a sua ferida latejava. Puxou a manta até ao pescoço, invejando o irmão, que tinha uma moça tão bonita a adoçar-lhe as noites. Lembrou-se de Hildrun, a filha do ferreiro Otmar e pela primeira vez arrependeu-se de não ter casado com ela. Sonhara com uma vida gloriosa de cavaleiro, mas as cruzadas revelavam-se bem diferentes daquilo que ele imaginara. Deixara a sua terra natal há quase meio ano e nem sequer pousara ainda os pés na Terra Santa! E a ferraria de Otmar, a melhor de Colónia, bom dinheiro dava... Amargurado, Konrad notou que estava cansado demais para conjecturas dessas. Fechou os olhos e adormeceu.
Acordou ao som de gargalhadas mornas e do crepitar do lume. Sentia-se muito fraco, mas conseguiu sair da tenda. Havia como sempre fogueiras por todo o acampamento. Também Johann, Ausenda, Hadwig e Gunther se encontravam sentados à volta das chamas, onde a ceia era preparada. Assim que o viu, o irmão veio ao seu encontro: não precisas de te levantar. Eu levo-te a comida à tenda. Ora essa! Seria preciso mais do que um arranhão no braço para me pôr de cama». In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sábado, 18 de abril de 2020

Afonso Henriques. O Homem. Cristina Torrão. «Ela insistia naquele seu jeito distante e frio, mostrando desprezo pelos desejos dele. O que o punha vulnerável. Afonso sentia-se a lutar contra o desequilíbrio, como um acrobata…»

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«(…) Porque não vos pondes do meu lado? Sois tão cego que não vedes que todos estes meus esforços acabarão por vos favorecer a vós, o meu herdeiro? Alargando os meus domínios, aumento a vossa própria herança. Essa vossa estratégia lisonjeadora talvez funcionasse com vossa irmã. Mas não comigo! Julgais que Fernão Peres me deixaria o caminho livre, caso morrêsseis antes dele? Dona Teresa não respondeu logo e empalideceu ainda mais. Acabou por dizer: é claro que deixarei em testamento... Afonso interrompeu-a, furioso: e julgais que intimidais a trupe de vosso amante com um pedaço de pergaminho? Eu prefiro a força da espada, a única língua que eles entendem! Dona Teresa fulminou-o com o olhar: dizei finalmente o que quereis! Qual o verdadeiro motivo para exigirdes esta conversa a sós? Afonso esforçou-se por soar despreocupado: pretendo dar-vos uma oportunidade. Só podeis estar, ou do meu lado, ou do lado de Fernão Peres. Teresa encarou-o com um divertimento desdenhoso, como um adulto olha para uma criança que disse um disparate: ouvi bem?
Ela insistia naquele seu jeito distante e frio, mostrando desprezo pelos desejos dele. O que o punha vulnerável. Afonso sentia-se a lutar contra o desequilíbrio, como um acrobata em cima de uma corda a dez pés de altura. Exijo que vos separeis dele! Indiferente ao esforço que esta frase lhe custara, sua mãe soava mais divertida do que nunca: vós exigis? Com que direito? Sou o vosso único filho varão. Afonso perdeu as estribeiras, berrou: posso exigir-vos seja o que for! Ela manteve-se calada, limitava-se a fixá-lo, trocista. O príncipe insistiu: aguardo a vossa resposta. Sim ou não? Não! A palavra soou fria como o ferro e clara como a água. Afonso lutava agora contra a vontade de desatar em pranto. Porque é que sua mãe continuava a ignorá-lo? Enxotava-o de si, como o fazia, tinha ele quatro anos. Virou-lhe as costas.
Chegada ao seu aposento, dona Teresa livrou-se brusca das aias que a rodeavam e sentou-se à lareira, esgotada e com falta de ar. Mas já acalmara, quando Fernão Peres surgiu, cínico: Então? Correu bem a prosa entre mãe e filho? Teresa levantou-se e apoiou-se no friso da lareira, observando as chamas. Ao sentir o calor nas faces, recuperou alguma força. Como se o seu espírito e o seu corpo se recusassem a ficar no fundo do poço, escalando, num último esforço, as paredes húmidas e escorregadias. Iria com a sua luta até ao fim. Vou marcar mais um encontro com o meu sobrinho, em Zamora. Fernão quedou-se em silêncio por longos momentos, até perguntar: pensas que o podes pôr do teu lado, depois de tudo o que se passou? Tentarei convencê-lo de que o primo cometeu traição. Traição? Em relação a quem? A mim, à rainha! Afonso vem exercendo o poder no condado sem me ter tida nem achada. Depois de uma curta reflexão, Fernão Peres remoeu, entredentes: um argumento mal-amanhado... E que faremos depois? Se mais nada nos restar, apelaremos à luta e atacaremos Afonso, em Guimarães! Teremos alguma hipótese de vitória? Não sei. Mas jogaremos a nossa última cartada.

Naquele dia de São João Baptista, do ano 1128 do nascimento de Cristo, Afonso assistia à missa na igreja de São Miguel do castelo, em Guimarães, na companhia dos barões do norte, que haviam respondido ao seu apelo. Preparavam-se para enfrentar as hostes de dona Teresa. Depois de um encontro com Afonso VII, em Zamora, que não dera em nada, a rainha juntara cerca de trezentos guerreiros, entre cavaleiros de Coimbra, Porto e Baião e as hostes galegas de Fernão Peres e de Gomes Nunes.
Afonso tinha, do seu lado, a fina-flor de Entre Douro e Minho: os três irmãos Moniz, com os dois filhos mais velhos de Egas; Soeiro Mendes Grosso Sousa, com os irmãos Gonçalo e Garcia; Paio Soares Maia, sobrinho do arcebispo de Braga; as hostes galegas do conde Afonso Nunes Celanova, que assim se juntava ao irmão Sancho Nunes; até o conde de Límia, Rodrigo Peres Veloso, outro nobre galego, se passara para o lado do príncipe e trouxera consigo o irmão bastardo do próprio Fernão Peres. Seguindo um costume da época, o conde Pedro Froilaz Trava dera àquele filho ilegítimo o nome do seu primogénito. E, da fidelidade deste segundo Fernão Peres, a quem chamavam o Cativo, Afonso não duvidava, pois o galego tudo faria para afrontar o seu meio-irmão, herdeiro do pai. O infante contava ainda com o apoio de Fernando Mendes Bragança, uma surpresa de última hora. A fronteira entre o condado Portucalense e o reino de Leão corria mal definida, nas terras rudes de Bragança, cujas gentes sentiam mais afinidades com as populações à roda de Astorga e Zamora, do que com as de Entre Douro e Minho». In Cristina Torrão, Afonso Henriques, O Homem, Edição Ésquilo, 2008, ISBN 978-989-809-249-6.

Cortesia de EÉsquilo/JDACT

A Cruz de Esmeraldas. Cristina de Torrão. «Pior que isso, retorquiu um dos outros, aterrorizado. Acho mas é que os mouros tornaram a... Não acabou a frase. De um momento para o outro, a parte final do túnel desabou…»

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«(…) Este já era o quarto túnel que alemães e flamengos construíam. Sabe-se lá porque artes do diabo, os infiéis descobriam constantemente em que direcção os cruzados escavavam. E construíam contra--minas. Defendiam a sua cidade tão afincadamente como no início. As tropas cristãs não vislumbravam o fim do cerco. Não obstante os rumores de fome e pestilência na cidade, ninguém sabia se os mouros ainda teriam provisões suficientes para que mais de vinte mil pessoas sobrevivessem ao Inverno. Por seu lado, os cruzados começavam a preocupar-se com a falta de pão e de vinho. No início, parecera-lhes que o conteúdo das matamorras duraria eternamente, mas trinta mil almas já o tinham desbastado. Além disso, ninguém se preocupara em cuidar dos pomares e das hortas. Havia figos para colher e uvas para vindimar, tarefas que as mulheres lá iam cumprindo, mas quem se iria ocupar da confecção do vinho? O que beberiam? A água provocava muitas vezes diarreias e febre, que já tinham causado as suas vítimas. Também o gado, de que os cruzados se tinham apoderado, já fora quase todo consumido. Felizmente, iam-se caçando lebres e patos bravos, houvesse tempo. E podia-se pescar todos os dias, que o peixe não acabava.
Naquele dia, Konrad fora logo pela manhã apoderado de um mau pressentimento e entrara no túnel de dentes cerrados. Já tinham atingido os fundamentos das muralhas e havia que substituí-lo por traves de madeira, às quais mais tarde se chegaria o fogo. Mas o terreno entre a Porta de al-hammã e o porto era muito instável e algo dizia a Konrad que a mina desabaria. Rezava o tempo todo, pedindo a Deus que lhe permitisse sair dali vivo. Atingiu-se felizmente o meio do dia sem ameaças de desabamento. Konrad e os homens que com ele trabalhavam no fim do túnel fizeram uma pausa para comer. Não estavam autorizados a sair, comiam mesmo ali as merendas que outros lhes traziam. Cheio de fome, Konrad fez um esgar de descontentamento perante o caldo de nabos frio e o pedaço de pão duro que lhe coubera em sorte. Mas era melhor que nada e ele lá fez por engolir aquilo. A refeição ia a meio, quando fios de terra começaram a cair do tecto. Konrad sentiu o medo nas entranhas e praguejou: com mil raios! Será que o diabo da mina irá mesmo desabar? Ele mal tinha acabado de falar, quando se aperceberam de ruídos surdos sobre as suas cabeças.
Pior que isso, retorquiu um dos outros, aterrorizado. Acho mas é que os mouros tornaram a... Não acabou a frase. De um momento para o outro, a parte final do túnel desabou por cima de meia dúzia de homens. Konrad, que felizmente se encontrava afastado o suficiente para não ser atingido, pôs-se de pé num salto, olhando horrorizado para o espaço onde os seus companheiros jaziam enterrados. Será que o resto também desabaria? Não teve tempo para perder com essa conjectura. Do tecto, de onde a terra tinha caído, surgiram-lhes quatro mouros armados até aos dentes. Os cruzados largaram as suas malgas e deitaram a correr, pois não estavam suficientemente armados para lhes dar luta. Konrad trazia a sua espada à cinta e o elmo na cabeça, mas não tinha, nem a cota de malha, nem o escudo, que só o atrapalhariam nas escavações. Pelo túnel fora, o inimigo atrás deles, gritavam aos outros que escoravam a mina noutros pontos mais sensíveis: os mouros descobriram-nos! É fugir! Mas quantos mais homens fugiam à sua frente, mais devagar se movia a fila. Os que estavam mais para trás, como Konrad, bem incitavam os companheiros para que acelerassem. Era difícil porém coordenar uma fuga espontânea num túnel tão apertado.
Konrad não era o último da fila, dois cruzados corriam atrás dele. E ele apercebeu-se de como o último era aniquilado. Desembainhou a sua espada para o que desse e viesse, enquanto gritava para a frente: mais depressa, com mil raios! Atacam-nos! Deu-se conta como o companheiro imediatamente atrás dele caía, com um gemido. E os que corriam à sua frente não eram suficientemente rápidos. Tinha que se virar e lutar. Não só se defenderia a si próprio, como possibilitaria a fuga aos seus companheiros. Deu meia-volta. As velas ao longo da mina, que ainda não se tinham apagado com a deslocação do ar, chegavam para ver o vulto do inimigo de espada em punho, envergando uma cota de malha e segurando um escudo redondo na mão esquerda. Konrad lançou-se a ele com um grito de raiva, tentando atingi-lo na cabeça com a sua espada que segurava com as duas mãos. O mouro, que não contava com ataque tão repentino, quase caiu, mas teve o reflexo de levantar o escudo, contra o qual bateu a arma de Konrad. E logo respondeu ao ataque. Konrad defendia-se como podia, em clara situação desvantajosa, por não estar tão bem armado. Não aguentaria muito tempo. Deu-se entretanto conta que se formara um grande espaço entre ele e os que fugiam à sua frente. Assim que a luta o permitiu, tornou a virar-se e correu o mais que podia. Quanto faltaria até chegar ao fim do túnel? Há algumas semanas que ele o percorria pelo menos duas vezes por dia e conhecia, por assim dizer, os cantos à casa. Mas tinha perdido qualquer noção de espaço. E quando se aproximou dos seus companheiros em fuga, mais lentos, teve que se lançar mais uma vez à luta». In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

quinta-feira, 16 de abril de 2020

A Cruz de Esmeraldas. Cristina de Torrão. «Depois, ajoelharam-se sobre os tapetes, viradas a leste, e curvaram-se, até a cabeça tocar o chão, enquanto murmuravam: Allahu Akbar! Alá é grande…»

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«(…) Estavam sozinhos, mas o irmão olhou mesmo assim à sua volta e respondeu num sussurro: não digas a ninguém, mas tenho para mim que o alcaide se deveria render! Achas que seria mais seguro? Pelo menos ele estaria assim em condições de negociar com o rei português e talvez este prescindisse do saque. De qualquer maneira, teríamos que entregar tudo. Ficaríamos sem nada? Claro. E seríamos expulsos da nossa casa, como é costume. E é isso que te dá esperança?! O tio Yussuf ajudar-nos-ia a recomeçar as nossas vidas..., em Batalyaws. Aischa olhou-o em silêncio e exalou depois: em Batalyaws, com o tio Yussuf! São esses então os planos do pai? São. Desde que Alá Altíssimo nos permita sair daqui vivos! Aischa acordou com o chamamento do muezim para a oração da manhã, ao nascer do sol. Custou-lhe a levantar-se, depois do sono curto, mas não queria perder uma única oportunidade de rezar. Não o fazia só para suplicar a Alá que protegesse a sua família nestes tempos difíceis. Havia outros assuntos que a atormentavam e lhe pesavam na consciência. Receava viver em pecado, por esconder de seu pai a existência da cruz de esmeraldas... Mas não só! Pouco depois da morte de Zubaida, Aischa encontrara uma chave da porta da casa entre as coisas da mãe, o que a espantou. A única mulher autorizada a possuir uma chave dessas era Tarube, a primeira esposa do mercador. De resto, havia sempre criados ou escravos em casa e, depois do anoitecer, nenhuma mulher estava autorizada a sair, sem o fazer na companhia de pelo menos um dos homens da família.
Aischa lembrou-se então de um acontecimento de há vários anos. Cassima, a segunda mulher de Malik Ibn Danaf, acusara Zubaida de frequentar missas cristãs em segredo, na igreja de Santa Maria de Alcamim. Zubaida negara tal comportamento diante do marido, que aliás não conseguia imaginar que à mulher fosse possível escapulir-se de casa. Mesmo assim, revistara os pertences dela, sem contudo encontrar a chave ou qualquer outro objecto suspeito. Uma das mulheres mentira. Mas quem? Na altura, Aischa pensou que Cassima levantara, por inveja, falsos testemunhos... Até que encontrou a chave! Mas se Zubaida realmente conseguira de vez em quando ausentar-se de casa sem ninguém notar, a fim de exercer tal pecado, levara o segredo para o túmulo, pois nem na sua última conversa com a filha o confessara.
O primeiro impulso de Aischa tinha sido ir ter com o pai e dar-lhe a chave. Mas perguntou-se: valeria a pena manchar a memória de sua mãe para sempre? A verdade não seria nunca descoberta, pois, embora alimentasse a suspeita, a chave não provava que Zubaida tivesse assistido às missas. Por outro lado, Cassima, já de si cheia de presunção, sentir-se-ia vencedora e essa satisfação Aischa não lha queria dar. A jovem escondera o objecto polémico no seu cofrezinho de marfim trabalhado, junto com as suas jóias. Mas a consciência pesava-lhe e, sempre que rezava, pedia a Alá compreensão e misericórdia, para si e para a sua falecida mãe. Lembrava o Todo-Poderoso de que fora a infelicidade de Zubaida que a levara a cometer certas excentricidades. Assim se juntou Aischa naquela manhã às outras mulheres. Com a mesquita transformada em hospital, rezava-se em casa, o que não apresentava grande problema para os muçulmanos. O mais importante era que o lugar das rezas, assim como o próprio corpo, estivessem limpos. As mulheres começaram com as lavagens rituais: rosto, mãos, antebraços e pés. Depois, ajoelharam-se sobre os tapetes, viradas a leste, e curvaram-se, até a cabeça tocar o chão, enquanto murmuravam: Allahu Akbar! Alá é grande. Não há outro Deus a não ser Alá e Maomé é o Seu enviado e Profeta!
Quantas vezes Konrad se vira regressar rico e poderoso à sua terra, um cavaleiro imponente, segurando as rédeas da sua montada garbosa, recompensado pelo seu próprio rei? Sorriu amargamente, pois havia semanas que se limitava a ser uma toupeira na semi-escuridão, vivendo com o medo permanente de ser enterrado vivo. Apesar de os homens irem escorando o túnel com traves de madeira, os desabamentos faziam parte da ordem do dia. Os cemitérios dos cruzados cresciam. O rei português até lá mandara construir capelas, onde todos os dias se rezaria pelas almas dos mortos.
Konrad dava graças a Deus por Johann ter sido escalado para trabalhar à entrada do túnel: recolhia a terra e transportava-a até ao atoleiro preparado. Era, sem dúvida, um trabalho pesado. Mas estava-se em fins de Setembro, o sol já não queimava tanto e labutar ao ar fresco sempre era melhor do que entupir os pulmões de terra húmida, à luz de umas velas raquíticas». In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Afonso Henriques. O Homem. Cristina Torrão. «Dos olhos verdes de Fernão Peres Trava emanava uma mistura de raiva e desespero. Deixámo-nos antecipar. El-rei, com aquela cara de sonso, saiu-nos melhor do que a encomenda»

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«(…) Além disso, o facto de el-rei se contentar com uma solução que salvava a honra das partes, sem resolver o problema de fundo, agradava a Afonso, fazia-o sentir-se em vantagem, neste primeiro contacto entre eles sem a interferência de terceiros.

A viagem dos dois primos à Galiza ficou marcada pela boa disposição. E foi com sincera satisfação que Afonso Henriques, a 13 de Novembro de 1127, confirmou com a sua assinatura três importantes diplomas de seu primo el-rei Afonso VII, em Santiago de Compostela. Era o seu primeiro acto de soberania como representante do condado Portucalense, relegando a sua mãe e Fernão Peres para uma posição secundária.

Dos olhos verdes de Fernão Peres Trava emanava uma mistura de raiva e desespero. Deixámo-nos antecipar. El-rei, com aquela cara de sonso, saiu-nos melhor do que a encomenda. Selou amizade com o teu filho, que lhe confirmou documentos importantes. O que, por sua vez, animou Afonso, pois vem exercendo actos de soberania, elaborando forais e cartas de couto de sua própria iniciativa, sem nos ter tidos nem achados. Nem a nossa confirmação ele procura obter! Dona Teresa sentia-se fatigada, naquele serão invernoso, e nem a fogueira a aquecia. O prestígio de Afonso aumentava de dia para dia. Como se não lhe bastasse o apoio dos barões portucalenses, também o conde galego Afonso Nunes Celanova o apoiava agora abertamente. E, embora o irmão deste, cunhado do próprio Fernão Peres, continuasse do lado deles, o terceiro irmão, Sancho Nunes, governador da terra de Ponte de Lima e casado com Sancha Henriques, filha de dona Teresa, mantinha-se aliado dos ricos-homens de Entre Douro e Minho.
Promoveste a investidura de cavaleiro de teu filho, acrescentou Fernão Peres, julgando que, por um lado, o cativavas e que, por outro, impressionavas el-rei teu sobrinho. Pois, acabaste em casamenteira! Os dois primos perderam-se de amores um pelo outro! Dona Teresa esfregava as mãos geladas. Como se não chegassem todos estes contratempos, sentia-se mal, desde o início daquele Inverno tão frio. O cansaço e o nervosismo provocavam-lhe, por vezes, falta de ar. O que a assustava, como se o seu fim estivesse próximo... Ainda não falara disso a ninguém, nem sequer a Fernão, pois não se deixaria abater. E, se os aliados lhe fugiam, iria ao encontro deles: tentemos chegar a acordo com Afonso! Perante o olhar de assombro do amante, acrescentou: já recuperei aliados julgados perdidos em situações bem mais adversas. E, quanto mais não fosse, poderíamos levá-lo a assinar um pacto de não-agressão, o que nos permitiria ganhar tempo. Depois de uma curta reflexão, ele reconheceu: nada temos a perder...

O Inverno parecia não ter fim, nem o aproximar da Primavera exercia influência no tempo. Em pleno mês de Março, nevava em Vila Nova de Paiva, perto de Viseu, o local escolhido para o encontro entre os representantes das duas partes. Afonso veio acompanhado dos conselheiros habituais: Soeiro e Gonçalo Mendes, Ermígio e Egas Moniz, Lourenço e Afonso Viegas. Dona Teresa tinha do seu lado o seu mordomo-mor, Egas Gosendes Baião, e alguns cavaleiros de Coimbra, fiéis a Fernão Peres. Tomaram-se medidas governativas em comum, elaborando um documento confirmado por representantes de ambas as partes. Mas as conversações decorriam frias e os barões portucalenses hesitavam em assinar um pacto de não-agressão.
Afonso observava a sua mãe, cujo semblante não lhe agradava. Nunca a vira tão pálida. E os olhos cansados não irradiavam o brilho habitual. Fosse por o cansaço dela o comover, fosse por a achar vulnerável, disposta a aceitar o que ele lhe impusesse, pediu para falar a sós com ela. Uma vez sozinhos, Afonso teve a impressão de que a rainha tentava ensaiar um sorriso. Sem o conseguir. Teresa parecia incapaz de disfarçar a frieza com que sempre encarava o filho. O príncipe aclarou a garganta e declarou: bem podemos assinar documentos em comum e trocar palavras amáveis. Estas soarão sempre ocas, serão sempre de circunstância... O problema de fundo permanece. Porque fizestes amizade com vosso primo? Porque Guimarães e as suas gentes sofriam, enquanto vós e o vosso amante se encontravam a salvo, em Coimbra. Olvidastes as minhas exigências quanto à Galiza?» In Cristina Torrão, Afonso Henriques, O Homem, Edição Ésquilo, 2008, ISBN 978-989-809-249-6.

Cortesia de EÉsquilo/JDACT

Afonso Henriques. O Homem. Cristina Torrão. «Num primeiro momento, Afonso descarregou a sua fúria, amaldiçoando Egas Moniz por ter ido falar a el-rei sem o seu conhecimento e pela promessa feita. Mas aquilo que, à primeira vista…»

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«(…) Levai-me à presença d'el-rei! As duas sentinelas levaram-no até junto da maior tenda, a única com dois mastros, e pediram-lhe que aguardasse. Desapareceram no interior e tornaram a surgir acompanhados de um escudeiro que conduziu Egas Moniz pela abertura. O jovem Afonso VII encontrava-se sentado no seu trono de campanha, que se resumia a um cadeirão de madeira. Trazia a espada à cinta e três cavaleiros da sua escolta quedavam-se de pé, junto dele. Folgo em rever-vos, Egas Moniz. Ou deveria dizer, em conhecer-vos? Afinal, da última vez que vos vi, ainda o conde Henrique vivia e eu era novo demais para que o vosso rosto me tivesse ficado na lembrança. É, para mim, uma honra ser recebido por vós, meu rei e senhor. Egas tossicou e acrescentou: seria pedir demais que proseássemos a sós? Afonso olhou para os cavaleiros, indeciso. O senhor de Ribadouro acrescentou: encontro-me desarmado. Abriu a capa que o cobria: se vos quiserdes certificar... Por Deus, Egas, lançou o rei e ordenou aos cavaleiros: aguardai lá fora! Os homens dirigiram-se contrariados para a saída. Alteza, começou Egas, é minha intenção evitar um mal-entendido, que pode ter consequências catastróficas. E, no fundo, tudo isto é escusado... Escusado?, ecoou o monarca indignado.
Bem, escusado no sentido em que viestes cercar a cidade errada, não é verdade? Era impressão de Egas Moniz, ou Afonso ruborizava ligeiramente? O jovem soberano reflectiu por uns momentos e retorquiu: são por demais conhecidas as intenções rebeldes dos senhores portucalenses. E é vosso primo o regente do condado? Não. Mas chegou-me aos ouvidos que ele é venerado pelos mais poderosos. E que se intitula infante, ou mesmo príncipe! Com que direito? Ele será, no máximo, um conde, e isso, só quando substituir sua mãe. Ficará, para sempre, um vassalo da coroa leonesa, como o seu pai antes dele. É isso mesmo que pretendo que fique claro entre nós. Aclarando a garganta, Egas retorquiu: aqui entre nós, alteza, vosso primo é um infanção versado, de bom coração, a quem meu irmão Ermígio e eu próprio demos uma educação esmerada. Mas é também orgulhoso e, desculpai-me a franqueza, casmurro que nem um asno! Reconheço que as cousas andam enredadas, no nosso condado. Mas recordo que a regente é dona Teresa. Vosso primo não tem autoridade para assumir o compromisso da vassalagem. Prestando-vos agora homenagem, poderia, mais tarde, anular a validade do juramento. El-rei quedou-se pensativo, tamborilando com as pontas dos dedos no braço do cadeirão. Depois, declarou: há verdade nas vossas palavras, Egas Moniz. Esqueçamos a homenagem! Fiquemo-nos por uma prova da sua amizade, como primos, ambos netos do falecido imperador. Ficai a saber que prezo muito meu primo e nada me daria mais satisfação do que gozar da sua amizade, assegurando a sua colaboração, em tempos vindouros.
Muito bem, alteza. E de que guisa seria dada essa prova? Gostaria que meu primo me acompanhasse no regresso à Galiza, para que nos conhecêssemos melhor... Ele até poderia subscrever alguns dos meus diplomas, provando a sua afeição. Egas respirou fundo: se eu vos prometer que ele irá convosco, poreis fim ao cerco? Imediatamente. Dou-vos, então, a minha palavra, meu rei e senhor.

Num primeiro momento, Afonso descarregou a sua fúria, amaldiçoando Egas Moniz por ter ido falar a el-rei sem o seu conhecimento e pela promessa feita. Mas aquilo que, à primeira vista, parecia significar uma submissão da sua parte, poderia assumir contornos favoráveis para si. Principalmente, depois de Soeiro Mendes Sousa considerar que o facto de seu primo fazer questão da sua amizade era a prova de que o jovem monarca considerava a causa de dona Teresa perdida. Afonso reflectiu. E julgou perceber o que levara seu primo a pôr cerco a Guimarães. Dona Teresa insistia em considerar a Galiza como sua parte da herança. Ora, se Afonso VII conseguisse captar a fidelidade do infante, matava dois coelhos com uma cajadada: livrava-se das exigências da tia e assegurava um colaborador. Por seu lado, Afonso só tinha a ganhar com esta história: convencia o primo das suas boas intenções, sem, ao mesmo tempo, lhe prestar vassalagem, pois ainda não possuía autoridade para tal. Uma simples promessa de amizade não tinha qualquer valor legal». In Cristina Torrão, Afonso Henriques, O Homem, Edição Ésquilo, 2008, ISBN 978-989-809-249-6.

Cortesia de EÉsquilo/JDACT

Afonso Henriques. O Homem. Cristina Torrão. «Depois de dois dias de combates, as hostes de Afonso VII, com as suas armas de arremesso, haviam matado vários guerreiros e habitantes de Guimarães e provocado estragos nas muralhas»

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«(…) Por Deus, lançou Afonso. Não estamos preparados para um cerco. As provisões chegam, no máximo, para quatro dias. O povo está em pânico, bradou Lourenço, que só agora surgia. A presença de Belmira no aposento de Afonso perturbara-o e tinha ido procurar satisfação num bordel. Vi-me aflito para aqui chegar. Amanhecia. Afonso conseguia distinguir o vulto das pessoas pelas ruas, onde antes só via os movimentos desordenados dos fachos. E, de repente, os homens por sobre o adarve agitaram-se mais. Afonso apercebeu-se de que enviavam um mensageiro ao cimo da torre. Mas, ainda antes de este ter lá chegado, ouviam-se os gritos: el-rei! Hostes d’el-rei Afonso VII! Enquanto os nobres se olhavam estupefactos, Afonso agarrou o mensageiro pelas vestes e berrou-lhe: mas porque gritam esses doudos o nome de meu primo? Avistaram-se os estandartes d’el-rei, senhor. A fúria fervia dentro dele. Mas o que havia passado pela cabeça de Afonso Raimundes? El-rei há-de dizer-nos o que pretende com esta empresa, sentenciou Egas Moniz. Desçamos e esperemos pelo seu enviado!
Ao fim da manhã, abriram-se as portas da cidade e as do castelo, a fim de deixar entrar o mensageiro de Afonso VII. Perante o infante e os seus nobres, o homem declarou: el-rei exige que Afonso Henriques lhe jure a sua fidelidade de vassalo! Afonso explodia de fúria e indignação. E foi Egas Moniz quem se dirigiu ao mensageiro: pois sim. Diz a el-rei que lhe mandaremos recado! Assim que o homem desapareceu, Gonçalo Mendes confessou: por esta é que eu não esperava. Nem eu, concordou o Moço. El-rei de Leão e Castela dá-se ao trabalho de vir cercar Guimarães para que o filho da rainha lhe preste vassalagem? Não lembra ao diabo. Não blasfemes, meu filho! A Egas Moniz não agradava ouvir o nome do demónio ser mencionado na sua presença. Pois eu estou com meu irmão, atalhou Lourenço. Porquê tanta hostilidade? Não é com a nossa rainha que el-rei tem de se haver?
Aqui está a prova, bradou o Grosso de que já ninguém conta com dona Teresa, desertada pelos barões da nossa terra. Egas Moniz lançou um olhar preocupado a Afonso. Apresentava um semblante tão carregado, que, quem não o conhecesse, nunca lhe daria apenas dezanove anos. O senhor de Ribadouro acabou por dizer, encolhendo os ombros: talvez el-rei esteja a ser injusto connosco... Mas não temos escolha. Se quisermos salvar a cidade e viver em paz com ele, o nosso infante tem de lhe ir prestar vassalagem. Não me passa pela cabeça! Olharam-no estupefactos. Egas Moniz insistiu: Afonso VII é o vosso suserano, não lhe podeis recusar a vassalagem. Não sou eu que tenho de lhe prestar homenagem. Porque não vai meu primo pôr cerco a Coimbra? Tem medo da meia dúzia de gatos-pingados que ainda lambem as botas a Fernão Peres Trava? Eu é que não vou, de rabo entre as pernas, ajoelhar-me a seus pés, numa tenda de campanha!
Mas que casmurrice, insistiu Egas. Olvidais que, em menos de uma semana, haverá fome na cidade? Afonso olhou-o desafiante. Egas Moniz respirou fundo, desviando o olhar, mas só para o pousar nos restantes, dizendo: não aguentamos o cerco nem quatro dias, meus senhores. O nosso príncipe tem de obedecer ao seu suserano! Lutaremos, bradou o Grosso. Gonçalo e eu trouxemos homens connosco. A vossa meia centena de guerreiros contra as forças d’el-rei? Gozamos da protecção das muralhas. Com uma atitude destas, atalhou Afonso, meu primo prova que é, pelo menos, fraco de ideias. Quem nos diz que não o afugentaremos, se lhe dermos luta?

Depois de dois dias de combates, as hostes de Afonso VII, com as suas armas de arremesso, haviam matado vários guerreiros e habitantes de Guimarães e provocado estragos nas muralhas. Mas Afonso insistia em que não era ele que devia prestar vassalagem ao primo e, sim, sua mãe. Egas Moniz perguntava-se porque fazia el-rei tanto arraial à volta de Afonso Henriques? O infante era simplesmente um herdeiro, não regia sobre fosse o que fosse e nunca havia feito algo de surpreendente, nem sequer provara ainda ser bom guerreiro. Exceptuando os acontecimentos dos últimos dois dias, as únicas pelejas em que participara haviam sido os treinos e os torneios entre amigos. Teria o primo ficado realmente impressionado com ele, quando o vira, havia ano e meio, depois da investidura em Zamora? Se sim, dona Teresa tinha, pelo menos, atingido um dos seus objectivos. Mas Guimarães sofria, numa luta desigual. E, perante a teimosia do infante, Egas Moniz resolveu ir, em segredo, prosear com el-rei. O senhor das terras de São Martinho, Lamego e Neiva deixou a cidade sozinho, desarmado. Logo foi interceptado por duas sentinelas leonesas: quem sois e que pretendeis aqui? Chamo-me Egas Moniz de Ribadouro e pretendo falar a el-rei. Depois de um momento de estupefacção, os soldados curvaram-se numa vénia e um deles perguntou: vindes em representação de Afonso Henriques? Venho, mentiu o fidalgo». In Cristina Torrão, Afonso Henriques, O Homem, Edição Ésquilo, 2008, ISBN 978-989-809-249-6.

Cortesia de EÉsquilo/JDACT

terça-feira, 30 de abril de 2019

A Cruz de Esmeraldas. Cristina de Torrão. «Viu-se no meio da loja movimentada do pai, que lhe dizia: precisas de tecidos? Escolhe o que quiseres, minha filha! A frescura das sedas deslizava-lhe por entre os dedos...»

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«(…) Além disso, acrescentou Tomé, Afonso Henriques é de opinião que este pedido de ajuda só prova que os mouros aqui de Lisbona estão desesperados. Se calhar, até já se regateiam os preços das ratazanas lá no mercado deles, o tal suq! Riram-se todos, menos Konrad, que continuava a reflectir sobre o episódio da carta. Acabou por dizer: a questão é o que esse Ibn Wazir de Évora considera ser mais importante: manter a paz com Ibn Qasi, ou vir ajudar os seus irmãos de fé? Ninguém pode com toda a certeza responder a essa pergunta, admitiu Julião. Mas podemos rezar. E el-rei está confiante, o que nos sossega. A voz de Afonso Henriques é a voz de Deus, completou Tomé.

Aischa sabia que não conseguiria adormecer. Esperou que as outras mulheres se deitassem para se escapulir para o jardim. Agachou-se a um canto junto ao repuxo, que nestes tempos não era posto a funcionar, e deixou correr as lágrimas. Este dia de início de Setembro tinha sido um dos mais difíceis, desde que o cerco começara. Não que os cruzados tivessem levado a cabo algum ataque mais forte, mas Abdalah morrera, sem parar de balbuciar que o fim do mundo estava próximo. Passara as últimas duas semanas em casa de Malik Ibn Danaf, a pedido de Aischa, para que se pudesse tratar melhor dele. O que em princípio seria tarefa das criadas e escravas, mas Aischa fizera-o muitas vezes pessoalmente, quanto mais não fosse, para ter com que se ocupar. E gostava sinceramente do ancião, que tantas vezes a encantara com as suas histórias, considerava-o quase como um avô. Abdalah morrera na certeza que se reencontraria com o seu pai e que, no Paraíso de Alá, reviveria o esplendor do califado de al-Andalus. Mas Aischa arrepiava-se, ao pensar que o cadáver seria devorado pelo fogo, sem lhe fazerem o funeral. Esta era, no entanto, a melhor solução, pois o almocavar estava inalcançável.
Mas não se dava tal destino a todos os cadáveres. Morria tanta gente, que era impossível queimá-los todos e havia, além disso, o medo de incêndios. Assim se iam os cadáveres empilhando pelas ruas, lançando o seu odor pestilento. Doenças iam-se espalhando, o número de feridos em combate aumentava de dia para dia e houvera necessidade de improvisar um hospital na mesquita aljama, pois todos os outros já rebentavam pelas costuras. Agora, havia quem dissesse que seria melhor levar para lá também os cadáveres, a fim de evitar a propagação de mais doenças. Aischa, porém, atormentava-se com a ideia de que se chegasse ao ponto em que ninguém se prontificaria a ir lá tratar dos doentes, devido ao cheiro, deixando-os para lá a agonizar. Também ela e a sua família se arriscavam a morrer de fome. As refeições eram cada vez mais parcas. O pai dela possuía burros de carga e dois cavalos, mas nenhuns animais de criação. Sempre comprara a carne de cabrito, a mais apreciada entre os mouros, aos aldeões das redondezas. Muitos desses pastores haviam procurado protecção entre as muralhas, trazendo alguns animais, mas já quase não havia nenhum. Também as galinhas desapareceriam antes de começar o Inverno e os pescadores não podiam sair para deitar as suas redes ao rio. Ainda se poderiam alimentar dos burros ou dos cavalos, em último caso de cães e gatos. Já havia quem o fizesse e o estômago de Aischa revoltava-se perante tal pensamento. Felizmente, eles ainda tinham alguns grãos de trigo, frutos secos e azeite na cave, mas já eram racionados, o que não causava apenas problemas na alimentação. Os candis que antigamente se encontravam por toda a casa em nichos nas paredes, iluminando os quartos, corredores e até o jardim, limitavam-se agora às divisões onde estivessem pessoas.
Os dias iam ficando mais pequenos e a escuridão, a tristeza e a pestilência apoderavam-se de Lusbuna, outrora a cidade-luz. Aischa lembrou-se ainda daqueles que se rendiam aos cruzados, na esperança de ficarem ao seu serviço, a troco de comida. Mas alguns majus eram tão cruéis, que lhes decepavam pés e mãos e os devolviam à cidade. Os coitados acabavam por morrer junto às muralhas, apedrejados pelos próprios concidadãos, que os apelidavam de traidores. Aischa chorou até não ter mais lágrimas. Se não fosse tão tarde, iria buscar o seu alaúde e cantaria a melancolia que lhe atormentava a alma. Assim, fechou os olhos e começou a compor em silêncio uma cantiga sobre a Lusbuna que desaparecia: a multidão a regatear preços no suq, à sombra das coberturas de pano ou das esteiras de esparto, que se estendiam entre as casas, protegendo as ruelas do sol abrasador; o aroma da canela e dos cominhos, vindos de outras terras do Islão, através do Mar Mediterrâneo; o peixe prateado nos cestos dos pescadores; as lojas dos prateiros e dos ourives, das sedas e brocados, junto à bâb al-hammã...
Viu-se no meio da loja movimentada do pai, que lhe dizia: precisas de tecidos? Escolhe o que quiseres, minha filha! A frescura das sedas deslizava-lhe por entre os dedos... Um sopro de vento fez-lhe chegar um remoto odor pestilento às narinas, um gemido de dor fez-se ouvir ao longe, trazendo a moça de volta à realidade, ao seu canto escuro. Lusbuna nunca mais será a mesma, pensou, e eu não tornarei a ser feliz. Mais valia morrer antes que os cruzados tomassem a cidade e começassem a saquear, a matar os homens, a violar as mulheres... Ouviu passos e afligiu-se. Se Abu a descobrisse aqui, a esta hora... Mas não era o irmão mais velho que se aproximava dela, viu os olhos esverdeados de Rashid a luzir na escuridão. Aischa, que estás aqui a fazer ao frio? Ainda apanhas alguma febre. E qual era o mal? Ora, não chegues ao ponto de desejar a morte. Já não aguento mais, Rashid. Não é só toda esta miséria que me oprime. Tu, o pai e Abu correis grande perigo todos os dias. Que faríamos sem vós? Rashid suspirou: desde que o rei de Évora recusou a sua ajuda, pouca esperança haverá de... Como é que esse Ibn Wazír pode assistir impávido à miséria dos seus irmãos de fé?, inquiriu furiosa. Não quer melindrar o rei português? Esse Ibn Errik deve ter um pacto com o diabo! Não uses linguagem dessa, Aischa! Ainda tens esperança Rashid? Onde a vais buscar? Haverá maneira de nos salvarmos?» In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

A Cruz de Esmeraldas. Cristina de Torrão. «Os mouros pediram ajuda aos do Gharb, os territórios a sul do Tejo, começou Julião. Konrad e os outros trocaram olhares assustados. As nossas sentinelas descobriram um pequeno barco…»

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«(…) Ainda assim, geravam-se conflitos, alguns graves, que resultavam em mortes, quando os cruzados se apoderavam de galinhas, porcos ou cabras, saqueavam pomares e hortas e, muitas vezes, violavam mulheres. Num fim de tarde, Konrad, Johann e os seus dois amigos foram até ao rio, onde se lavaram e pescaram. Konrad observava o irmão e deu-se consigo a pensar que, pelo menos para o rapaz, já a viagem compensara. O moço perdera a palidez e os seus ombros tinham alargado. Para não falar do fim do seu celibato. Por outro lado, Johann estava cada vez mais ligado a Ausenda, o que não agradava ao mais velho. Chegaram ao acampamento cheios de peixe para fritar e onde Ausenda já os esperava com pão fresco. No fim da refeição, deleitavam-se com uvas-passas à luz das fogueiras, quando Julião e Tomé se lhes juntaram. Os quatro alemães estavam ansiosos por falar com estes dois, pois tinham ouvido dizer que as tropas portuguesas, que controlavam a margem sul, haviam, na noite anterior, atacado um pequeno barco mouro. Os comandantes Arnulf Aarschot e Christian Gistell sabiam talvez pormenores sobre o acontecimento, mas não transmitiam grandes informações aos soldados, o que os deixava desconfiados. Os quatro esperavam, porém, que os dois portugueses, com quem tinham travado amizade, os pusessem ao correr da situação. Konrad logo lhes perguntou: o que está por detrás dessa história do barco mouro? Também ele já se ia expressando na língua latina, aprendia muito nas suas conversas com Julião, no fundo, mais depressa do que ele imaginara. Johann até dizia que os dois deveriam ter herdado uma certa habilidade para aprender idiomas estrangeiros. E ao saber que Julião trabalhara igualmente numa ferraria, Konrad perdia serões com ele. Tomé, por seu lado, aprendera a cozinhar na taberna onde trabalhara e, não raro, presenteava-os com sopas e guisados.
Os mouros pediram ajuda aos do Gharb, os territórios a sul do Tejo, começou Julião. Konrad e os outros trocaram olhares assustados. As nossas sentinelas descobriram um pequeno barco que tentava alcançar a margem sul ao abrigo da escuridão. Atacaram-no e os mouros saltaram logo para a água. Os nossos puxaram o barco para terra e encontraram lá uma carta. Johann precisava, ainda assim, de traduzir parte da informação, principalmente a Gunther que sentia dificuldades em entender os portugueses. Julião acrescentou depois: na carta, os daqui pediam ajuda ao rei de Évora, de seu nome Abu Muhammad Ibn Wazir. Johann desabafou: Deus nos valha! Esse Ibn Wazir é poderoso? Para quê a preocupação?, retorquiu Gunther, antes que Julião pudesse responder. Os portugueses não apanharam a carta? El-rei e os seus fidalgos, replicou Tomé, pensam que os mouros enviaram várias cópias, para terem a certeza de que pelo menos uma atingiria o seu destino. Naturalmente, concordou Konrad. É esse o procedimento habitual em situações semelhantes. Temos que contar que esse rei de Évora receba o pedido de ajuda. Então, o melhor é fugirmos enquanto é tempo, opinou Hadwig.
Calma, retorquiu Julião. Lisbona já pertenceu ao reino mouro de uma cidade que fica a alguns dias de marcha, para nascente, chamada Batalós, ou coisa parecida. Mas há muitos anos que se tornou independente. Não há portanto grandes amizades entre o alcaide e esse Ibn Wazir ou qualquer outro rei infiel. Mas os infiéis não se quererão ajudar mutuamente?, inquiriu Hadwig. Provavelmente não, respondeu Tomé. El-rei Afonso selou amizade com um tal de Ibn Qasi, um muladi. E o que vem a ser isso de muladi?, quis saber Gunther. Assim se chama um cristão convertido ao Islão. Aqui nesta terra há traidores desses?, admirou-se o ruivo. Que haja, retorquiu Julião, encolhendo os ombros. Estes moçárabes podem ser cristãos, mas não são como nós, mais parecem mouros, até a linguagem deles entendem. E esse Ibn Qasi é uma espécie de chefe religioso, que mantém o Gharb sob a sua influência. Diz-se que o rei de Évora é seu discípulo». In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

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sábado, 16 de março de 2019

A Cruz de Esmeraldas. Cristina de Torrão. «Em fins de Agosto, a esperança foi regressando. Começaram-lhes a surgir fugitivos, que se escapavam da cidade para se lhes oferecer como criados, a troco de comida»

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«(…) Que diabo, soltou Gunther. Os mouros atacam-nos sem descanso! Konrad também se admirava com isso, pois os besteiros precisavam de um certo tempo para carregarem as suas armas e fazerem pontaria. Os mouros, porém, pareciam incansáveis, apesar de se encontrarem sob o ataque dos pedregulhos. As suas setas espetavam-se nas paliçadas e uma ou outra encontrava mesmo o seu caminho por cima destas, provocando baixas entre os cruzados. Esperemos que os ingleses alcancem depressa as muralhas com a sua torre, disse Hadwig. Que saltem lá para dentro e acabem com o diabo dos besteiros! Pois ainda não há sinal deles por sobre o adarve, retorquiu Konrad. Preparavam-se para lançar mais um pedregulho, quando ouviram os gritos dos seus companheiros que operavam outro dos cinco trabucos. Depressa descobriram o motivo de tal arraial: a paliçada deles ardia! Mas que raio..., começou Gunther, quando um dos homens gritou: os mouros disparam setas incendiárias! Abrigai-vos!,berrou Konrad, ao ver várias dessas setas virem na direcção deles.
Todos se baixaram. A maioria dos projécteis espetou-se na paliçada, mas um deles atingiu o trabuco, pegando-lhe o fogo. Dão-nos cabo dos engenhos, lamentou Johann. Água, depressa, gritaram vários. Logo muitos se dirigiram com os seus cantis ao rio, mas, como estes eram pequenos, alguns prontificaram-se a ir buscar barris ao acampamento. E foi aqui que começou a verdadeira desgraça. Ao terem que deixar os seus abrigos, os homens ficavam, mais do que nunca, à mercê das setas mouras. E os fogos consumiam-lhes as fundas baleares num abrir e fechar de olhos. Temos que fugir daqui, gritou Konrad. Nada podemos fazer para salvar os engenhos e ainda morremos queimados. Os mouros, animados pelo êxito e livres do arremesso dos pedregulhos, cada vez disparavam mais. Os cruzados fugiam debaixo da chuva de setas. Konrad era dos mais rápidos, mas Johann ia ficando para trás. Mais depressa rapaz, mexe-te! À sua volta caíam companheiros atingidos. Os feridos gemiam, suplicavam ajuda, mas quem se atrevia a parar? Ao ver que Johann perdia as forças, Konrad recuou e agarrou-o pela mão. Chegaram esgotados ao acampamento, mas vivos.
À medida que o mês de Agosto avançava, o moral dos cruzados ia baixando. A derrota do primeiro ataque era difícil de digerir, pois provava que os mouros, ao abrigo dos seus merlões, eram capazes de provocar o caos entre eles. As máquinas de guerra, que tanto trabalho tinham dado a construir, arderam totalmente, incluindo a torre dos ingleses, que nunca chegara às muralhas. O terreno junto ao porto não permitia o rolamento de tão grande e pesada construção. A torre atolara-se na areia e ali ardera. Pensara-se assim que as minas seriam a melhor solução. Pelo menos, debaixo da terra, os homens estariam ao abrigo das setas. Entre alemães, flamengos e ingleses, foram construídos três túneis..., em vão! Os sitiados, adivinhando a direcção que as escavações tomavam, construíam as chamadas contra-minas: novas galerias que iam de encontro às dos cristãos, atacando os invasores lá dentro, ou fazendo ruir os túneis, ao remover o travejamento.
Os cruzados estavam perplexos com as baixas que o inimigo já provocara entre eles. Alemães e flamengos organizaram um cemitério perto do acampamento e o mesmo fizeram franceses e ingleses, no lado oeste. Também os portugueses não tinham sorte junto à alcáçova. Ainda tentaram escalar os muros com a ajuda de escadas, mas também este perigoso empreendimento falhou. Os soldados atingiam o cimo dos muros individualmente e o inimigo logo os trespassava com as suas armas, além de que provocava a queda das escadas através de forquilhas, fazendo com que um bom número de homens rolasse desamparado pela encosta rochosa e abrupta, de quase trezentos pés de altura. Os portugueses achavam agora que talvez compensasse tentar abrir a porta que ligava a alcáçova ao exterior e que se situava perto da torre da cisterna do castelo, no pano norte da muralha. Antes disso, porém, os muçulmanos teriam que estar famintos e desmoralizados. Mas como conseguir isso, se os verdadeiros desmoralizados eram os cristãos?
Em fins de Agosto, a esperança foi regressando. Começaram-lhes a surgir fugitivos, que se escapavam da cidade para se lhes oferecer como criados, a troco de comida. Diziam já haver fome em Lusbuna, as gentes sem recursos tinham começado a comer cães e gatos. Os cruzados mais ferozes, porém, em vez de aceitarem a rendição e os serviços dos coitados, decepavam-lhes pés e mãos e devolviam-nos à cidade, a fim de desmoralizarem a população. E já se faziam novos planos: escavariam novos túneis, ingleses e franceses construiriam uma nova torre, mais pequena, para não ser tão pesada, e novas fundas baleares. Se era verdade que os sitiados já sentiam dificuldades em guarnecer as suas mesas, não se passava fome nos acampamentos. O rio estava cheio de peixe, as reservas das matamorras e dos alfolis ainda duravam e as mulheres moíam os grãos e faziam pão nas aldeias. Os habitantes moçárabes que não tinham procurado protecção entre as muralhas não se importavam que se usassem os seus moinhos e fornos». In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

A Cruz de Esmeraldas. Cristina de Torrão. «Debaixo do sol escaldante, os cruzados alemães e flamengos ocuparam as três semanas seguintes a construir cinco fundas baleares e os ingleses uma torre móvel com mais de noventa pés de altura»

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«(…) Estes cristãos arabizados explicaram aos flamengos e alemães que aquele bairro se chamava al-hammã, por estar aninhado na reentrância que as muralhas formavam entre a Porta do Almocavar e a Porta de al-hammã, já mais perto do rio, protegida por uma torre albarrã. Al-hammã era o nome árabe para termas e os banhos públicos de Lusbuna situavam-se naquela zona ribeirinha intramuros. Nas suas imediações, existia um pequeno bairro habitado por mercadores ricos, ali se situavam as lojas dos prateiros e ourives, das sedas e brocados. Konrad perguntava-se se era isso que parecia estar à sua espera em Lusbuna: as riquezas que os mercadores de al-hammã escondiam... Resolveu não abusar mais da sua sorte e regressar ao acampamento, situado no monte a oriente da cidade, o que lhes permitia vigiar, não só as Portas do Almocavar e de al-hammã, mas também a ribeira oriental. Também os portugueses tinham escolhido uma boa colina, que possuía ainda a vantagem de estar rodeada por duas ribeiras, uma defesa natural. Os ingleses e franceses, a ocidente, do outro lado do esteiro, controlavam a Porta da Alfofa, nome que os cristãos davam à báb al-khawkha, e a do Ferro, a grande Porta ocidental, assim chamada por dar acesso às ferrarias do bairro de Alcamim, além de ser chapeada em ferro. Lusbuna abria-se no entanto, e sobretudo, para o Tejo, que durante a maré-alta chegava mesmo a bater nas muralhas. A ribeira oriental, uma praia de pescadores, era servida por três portas. Para a ocidental, o porto por excelência, por possuir um cais de pedra do tempo dos romanos, abriam duas portas e dois pequenos postigos.
Debaixo do sol escaldante, os cruzados alemães e flamengos ocuparam as três semanas seguintes a construir cinco fundas baleares e os ingleses uma torre móvel com mais de noventa pés de altura. Serviam--se da madeira dos pinheiros que abundavam nas florestas circundantes. Também se planeava a construção de minas até aos fundamentos das muralhas. Estes seriam, então, substituídos por traves de madeira, às quais se chegaria o fogo, provocando a queda dos muros. As fundas baleares, também chamadas trabucos, usavam-se para lançar pedregulhos. Uma base servia de apoio a dois postes com sete a dez pés de altura. Entre estes postes, montava-se um eixo, que permitia mover o braço de arremesso. Num dos seus extremos, este braço possuía um recipiente, que, cheio de areia, serviria de contra-peso. No outro extremo, pendurava-se uma bolsa, dentro da qual se colocaria a rocha a lançar.
Konrad sabia que existiam fundas baleares enormes, capazes de arremessar rochas com mais de 50 arráteis de peso, mas para isso faltava-lhes o ferro. Tudo tinha que ser feito em madeira, incluindo o eixo que movia o comprido braço de arremesso, de maneira que estes cinco trabucos se limitariam a lançar pedras de, no máximo, 20 arráteis. Devido à situação da cidade, a torre dos ingleses só poderia ser utilizada junto ao rio, pois, noutros pontos, seria impossível galgar as rochas que serviam de alicerce às muralhas. A alcáçova, situada no ponto mais alto, apresentava o problema mais difícil de resolver. Os portugueses, que a controlavam, esperariam para ver no que dava o primeiro ataque dos cruzados, que, quanto mais não fosse, serviria para provocar baixas e desgastar o inimigo. Os cruzados escolheram o dia 3 de Agosto para o seu ataque. Com as fundas baleares posicionadas entre a torre albarrã, que protegia a Porta de al-hammã, e a ponta sudeste, junto à praia, flamengos e alemães esforçar-se-iam por abrir uma fenda na muralha. Por seu lado, os ingleses tentariam, com a sua torre móvel, alcançar as muralhas em frente ao porto, a zona entre a torre albarrã e uma das Portas do Mar.
Não só a construção dos engenhos fora trabalho pesado, também a sua utilização o era. Konrad, o irmão, os seus dois amigos e mais alguns homens preparavam o trabuco para o lançamento do pedregulho. Com a ajuda de cordas, puxavam o braço de arremesso para junto do solo. Carregavam o pedregulho para dentro da bolsa preparada para o efeito e, quando tudo estava a postos, o braço era largado e a pedra voava em direcção às muralhas. Para melhor se protegerem, os cruzados haviam construído paliçadas à volta das fundas baleares. As suas vestes acolchoadas, chamadas gibões, não resistiriam a um tiro certeiro de besta, que poderia mesmo perfurar a cota de malha de Konrad. A besta era bem mais eficaz do que o arco. Apesar de a sua cadência de tiro ser lenta, pois demorava a carregar, os projécteis atingiam distâncias mais longas e tinham muito maior poder de penetração. Maldito sol, praguejou Johann, limpando o suor do rosto com a manga. Konrad sorriu irónico. Eleja calculara que o sol seria de amaldiçoar, assim que começasse o trabalho duro. A ele até lhe custava menos a aguentá-lo, pois habituara-se durante três anos a suar à boca do forno do ferreiro. E já aprendera, observando os cavaleiros portugueses: vestia sempre uma túnica por cima da sua cota de malha, para evitar que o metal sobreaquecesse. Muitos dos cruzados já sofriam de insolação, nomeadamente aqueles que, durante a construção dos engenhos, haviam despido as suas vestes, um gesto espontâneo em gente que não estava habituada a tais calores». In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

quinta-feira, 14 de março de 2019

A Cruz de Esmeraldas. Cristina de Torrão. «Konrad, que vivera três anos em Colónia, estava habituado aos bairros labirínticos e às ruas estreitas das cidades, mas o arrabalde oriental de Lusbuna ainda assim espantava-o»

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«(…) Amir parecia incapaz de a contrariar. Guiou-a pelo adarve da alcáçova fora e passaram a curva na ponta noroeste, onde a couraça, o lanço de escadas fortificadas, fazia a ligação à torre albarrã. Continuaram até à torre na ponta nordeste, onde Amir constatou: os fugitivos aproximam-se do almocavar! E não os podemos ajudar? Na sua fúria, Aischa dirigiu-se aos soldados que estavam de guarda naquela torre: porque não se torna a abrir uma das portas, a fim de deixar entrar os coitados? Seria arriscado demais, respondeu um dos homens. Muitos cruzados poderiam aproveitar a oportunidade para se infiltrarem na al-qasbá. Os perseguidores não são tantos como isso, insistiu ela. A maior parte parece ter ficado no bairro de Alcamim, a fim de saquear as casas e os al-hurí. Além disso, acrescentou Amir, apoiando-a, os moçárabes parecem levar a melhor nos combates junto ao almocavar, põem muitos dos majus em fuga. Bem se podia abrir uma porta, enquanto não surgem mais... Tarde demais, retorquiu o soldado, apontando para a encosta da colina do acampamento português.
Aischa olhou para a sua esquerda e os olhos dilataram-se-lhe ao aperceber-se de que os homens de Ibn Errik vinham em ajuda dos seus aliados. E foi ali, junto ao almocavar, o cemitério islâmico onde estava enterrada a sua mãe, que deram o golpe de misericórdia naquele punhado de fugitivos moçárabes. A moça virou enfim as costas aos acontecimentos e encostou-se ao merlão, respirando às golfadas. O que mais a transtornava era porém a ideia de que a sua mãe teria contribuído para aquela desgraça. Tinha a certeza que Zubaida intercedera junto do seu Deus, para que os cruzados e os homens de Ibn Errik levassem a melhor na refrega.
Não devia ter-te trazido para aqui, murmurou Amir, afagando-lhe os ombros. Ele olhava-a tão preocupado, que ela se arrependeu de o ter convencido a isso. Eu é que fui a culpada. Devia ter-te dado ouvidos e... Mas o que vem a ser isto? Aischa estremeceu, perante o semblante furioso do seu irmão mais velho. Abu agarrou-a por um braço, arrancando-a das mãos de Amir: mas será que nunca aprendes? Os dedos dele apertavam-na tanto, que ela sentiu as lágrimas chegarem-lhe aos olhos. Sempre foste desobediente, sua desgraçada. Nem imaginas o que te faço, assim que chegarmos... A culpa foi minha, interrompeu-o Amir. Convencia de que não corria perigo. Não passas de um miúdo inconsciente! Não te atrevas a ofender-me! Esqueceste de quem sou filho? E de que, se não fossem todos estes contratempos, Aischa e eu já estaríamos casados? Abu resmungou algo incompreensível, mas não continuou a admoestar o filho de um ulama, braço direito do alcaide. Deu mais um puxão a Aischa e bradou: vamos! Em casa veremos o que... Eu acompanho Aischa a casa e falarei com o vosso pai, intrometeu-se novamente Amir. Pedir-lhe-ei desculpa, pois, ao contrário do que pensas, responsabilizo-me pelos meus actos.
Só muito contrariado, Abu largou a irmã. Aischa suspirou de alívio. Sabia que Abu não hesitaria em lhe dar uma sova, mas, com sorte, o pai ficaria por algumas palavras de advertência. Malik Ibn Danaf tinha um fraco por aquela filha e, além disso, Amir arcaria com a culpa. Quando já se encontravam fora do alcance do irmão, sussurrou enternecida: obrigada. Amir beijou-lhe o alto da face, que o véu descaído descobrira. Não me agradeças! Isto não foi nada, comparado com o que eu me prontificaria a fazer por ti. O dia do nosso casamento será o mais feliz da minha vida. Estas palavras deixaram Aischa sem respiração. Causavam-lhe porém mais desconforto do que alegria. Por mais que Amir lhe agradasse, ela acabava de se aperceber de que dificilmente conseguiria retribuir a densidade do amor que ele sentia por ela.

Konrad, que vivera três anos em Colónia, estava habituado aos bairros labirínticos e às ruas estreitas das cidades, mas o arrabalde oriental de Lusbuna ainda assim espantava-o. Com as suas casas implantadas nas rochas, as ruas, além de íngremes, mediam no máximo oito pés de largura. O que se lhe revelava agora uma vantagem, pois não lhe faltavam recantos e esquinas onde se esconder dos besteiros mouros que vigiavam as redondezas, ao abrigo dos merlões. Konrad percorria as ruelas sozinho. Mais uma vez, sentira o desejo irresistível de se aproximar de Lusbuna, como se andasse à procura de algo... Só não sabia o quê! Depois da ocupação do bairro de Alcamim pelos ingleses, os habitantes do arrabalde oriental haviam-no abandonado, receando um ataque por parte dos alemães e flamengos, acampados no monte em frente. Muitos desses pescadores e artesãos tinham-se rendido ao cruzados, alguns até se prontificaram a lutar ao lado deles, contra os mouros, por serem igualmente cristãos. Tratava-se dos tais moçárabes, que praticavam os velhos ritos visigóticos. Vivendo entre os muçulmanos, não tinham adoptado a nova liturgia romana, introduzida na Hispânia há cerca de sessenta anos por Afonso VI de Leão, o avô do rei português». In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT