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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné. Gomes Eanes Zurara. «O Infante disse que lhe prazia; e no outro dia muito cedo mandou Lançarote, aos mestres das caravelas, que os tirassem fora e que os levassem àquele campo, onde fizessem suas repartições, segundo antes dissera…»

Cortesia de wikipedia

Capítulo XXIV
Como as caravelas chegaram a Lagos, e das razões que Lançarote disse ao Infante
«Chegaram as caravelas a Lagos, donde antes partiram, havendo nobre tempo de viagem, que lhe não foi a fortuna menos graciosa na bonança do tempo que lhe antes fora no filhamento da presa; onde as novas chegaram ao Infante, que antes poucas horas se acertara chegar ali, doutras partes donde havia dias que andava.
E como vedes que as gentes são desejosas de saber, uns cometeram de se chegar à ribeira, outros se metiam nos bateis, que achavam amarrados ao longo da praia, e iam receber seus parentes e amigos, de guisa que em breve tempo foi sabido seu bom aquecimento, com o qual geralmente todos eram alegres. E por aquele dia abastou a esses principais de beijar a mão ao Infante seu senhor, contando-lhe em breve a soma de seus feitos; e d'aí repousaram, como homens que chegavam a sua terra e a suas casas, onde já sabeis qual seria sua folgança entre suas mulheres e filhos.
E no outro dia Lançarote, como homem que do feito tinha principal cargo, disse ao Infante:
Senhor! Bem sabe a vossa mercê como haveis de haver o quinto destes Mouros e de tudo que ganhamos em aquela terra, onde por serviço de Deus e vosso nos mandastes. E agora estes Mouros, pelo grande tempo que andamos no mar, assim pelo nojo que deveis considerar que terão em seus coraçoes, vendo-se fora da terra de sua natureza e postos em cativeiro, sem havendo algum conhecimento de qual será sua fim; d'aí a usança que não hão de andar em navios; por tudo isto veem assaz mal corregidos e doentes; pelo qual me parece que será bem que de manhã os mandeis tirar das caravelas, e levar àquele campo que está alem da porta da vila, e farão deles cinco partes, segundo o costume, e seja vossa mercê chegardes aí e escolher uma das partes, qual mais vos prouver.
O Infante disse que lhe prazia; e no outro dia muito cedo mandou Lançarote, aos mestres das caravelas, que os tirassem fora e que os levassem àquele campo, onde fizessem suas repartições, segundo antes dissera; pero primeiramente que se em aquilo outra cousa fizesse, levaram em oferta o melhor daqueles Mouros à igreja daquele lugar, e outro pequeno, que depois foi frade de S. Francisco, enviaram a S. Vicente do Cabo, onde sempre viveu como catolico Cristão, sem havendo conhecimento nem sentimento doutra lei senão daquela santa e verdadeira em que todolos Cristãos esperamos nossa salvação. E foram os Mouros desta presa CCXXXV.

Capítulo XXV
Como o autor aqui razoa um pouco sobre a piedade que ba daquelas gentes, e como foi feita a partilha
Tu, celestial Padre, que com tua poderosa mão, sem movimento de tua divinal essencia, governas toda a in finda companhia da tua santa cidade, e que trazes apertados todolos eixos dos orbes superiores, distinguidos em nove esferas, movendo os tempos das idades breves e longas, como te praz!
Eu te rogo que as minhas lagrimas nem sejam dano da minha consciencia, que nem por sua lei daquestes, mas a sua humanidade constrange a minha que chore c piedosamente o seu padecimento. E se as brutas animalias, com seu bestial sentir, por um natural instinto conhecem os danos de suas semelhantes, que queres que faça esta minha humanal natureza, vendo assim ante os meus olhos aquesta miseravel companha, lembrando-me de que são da geração dos filhos de Adão!
No outro dia, que eram VIII dias do mês de agosto, muito cedo pela manhã por razão da calma, começaram os mareantes de correger seus bateis e tirar aqueles cativos, para os levarem segundo lhes fora mandado; os quaes, postos juntamente naquele campo, era uma maravilhosa cousa de ver, que entre eles havia alguns de razoada brancura, fremosos e apostos; outros menos brancos, que queriam semelhar pardos; outros tão negros como etiopes, tão desafeiçoados assim nas caras como nos corpos, que quasi parecia, aos homens que os esguardavam, que viam as imagens do hemisfério mais baixo.
Mas qual seria o coração, por duro que ser podesse, ti que não fosse pungido de piedoso sentimento, vendo assim aquela companha? Que uns tinham as caras baixas e os rostros lavados com lagrimas, olhando uns contra os outros; outros estavam gemendo mui dolorosamente, esguardando a altura dos ceus, firmando os olhos em eles, bradando altamente, como se pedissem acorro ao Padre da natureza; outros feriam seu rostro com suas palmas, lançando-se tendidos no meio do chão; outros faziam suas lamentações em maneira de canto, segundo o costume de sua terra, nas quaes, posto que as palavras da linguagem dos nossos não podesse ser entendida, bem correspondia ao grau de sua tristeza.
Mas para seu dó ser mais acrecentado, sobrevieram aqueles que tinham cargo de partilha e começaram de os apartarem uns dos outros, a fim de poerem seus quinhões em igualeza; onde convinha de necessidade de se apartarem os filhos dos padres, e as mulheres dos maridos e os dos irmãos dos outros. A amigos nem a parentes não se guardava nenhuma lei, somente cada um caía onde o a sorte levava!
Ó poderosa fortuna, que andas e desandas com tuas rodas, compassando as cousas do mundo como te praz! E sequer põe ante os olhos daquesta gente miserável algum conhecimento das cousas postumeiras, por que possam receber alguma consolação em meio de sua grande tristeza! E vos outros, que vos trabalhaes desta partilha, esguardae com piedade sobre tanta miseria, e vede como se apertam uns com os outros, que apenas os podeis desligar!
Quem poderia acabar aquela partição sem mui grande trabalho? Que tanto que os tinham postos em uma parte, os filhos, que viam os padres na outra, alevantavam-se rijamente e iam-se para eles; as madres apertavam os outros filhos nos braços e lançavam-se com eles de bruços, recebendo feridas, com pouca piedade de suas carnes, por lhe não serem tirados! E assim trabalhosamente os acabaram de partir, porque alem do trabalho que tinham com os cativos, o campo era todo cheio de gente, assim do lugar como das aldeias e comarcas de arredor, os quaes leixavam em aquele dia folgar suas mãos, em que estava a força do seu ganho, somente por ver aquela novidade.
E com estas cousas que viam, uns chorando, outros departindo, faziam tamanho alvoroço, que poinham em turvação os governadores daquela partilha.
O Infante era ali em cima de um poderoso cavalo, acompanhado de suas gentes, repartindo suas mercês, como homem que de sua parte queria fazer pequeno tesouro, que de RVI 3 almas suas aconteceram no seu quinto, mui breve fez delas sua partilha, que toda a sua principal riqueza estava em sua vontade, considerando com grande prazer na salvação daquelas almas, que antes eram perdidas, E certamente que seu pensamento não era vão, que, como ja dissemos, tanto que estes haviam conhecimento da linguagem, com pequeno movimento se tornavam Cristãos; e eu que esta história ajuntei em este volume, vi na vila de Lagos moços e moças, filhos e netos daquestes, nados em esta terra, tão bons e tão verdadeiros Cristãos como se descenderam de começo da lei de Cristo, por geração, daqueles que primeiro foram bautizados». In Gomes Eanes Zurara, Projecto Vercial, Universidade do Minho.

Cortesia UMinho/JDACT

domingo, 2 de maio de 2010

Gomes Eanes de Zurara: O iniciador da historiografia da expansão marítima, com a Crónica da tomada de Ceuta (1415)

(1410-1474)
Cortesia de flickr
Gomes Eanes de Zurara também chamado como Gomes Eanes de Azurara, foi Guarda-Conservador da Livraria Real, cerca do ano de 1451. Foi, depois de Fernão Lopes, em 1454, Guarda-Mor da Torre do Tombo. Deslocou-se, em 1467, a Alcácer Ceguer, com o fim de completar a sua crónica do conde D. Duarte de Meneses. Nas suas crónicas, sem deixar de ser probo, Zurara fixa-se na apreciação das grandes figuras, espelhando heroísmo e feitos paradigmáticos, exaltando o valor das épicas personagens de que se ocupa.
Nos seus escritos, reflectindo o ambiente subsequente ao encontro de Alfarrobeira, Zurara está para o seu antecessor, Fernão Lopes, como a crónica dos heróis estará para a crónica de um povo.

Estátua de Zurara no pedestal do Monumento a Luís Vaz de Camões, da autoria de Victor Bastos
 (Praça Luís de Camões, Lisboa)
Alexandre Herculano, no seu artigo, publicado no Panorama, vol. 3.º de 1839, a pág. 250, diz ser Gomes Eanes filho de João Eanes de Azurara, bispo de Évora e de Coimbra; que entrou, sendo mancebo, na ordem de cavalaria de Cristo, onde chegou a ter o grau de comendador de Alcains, a qual comenda possuía em 1454, e que depois trocou pelas do Pinheiro Grande e da Granja de Ulmeiro, que se vê serem suas pelos anos de 1459. «Parece, diz o grande historiador, que durante a sua mocidade Gomes Eanes, segundo o costume dos cavaleiros daqueles tempos, se ocupou inteiramente no exercício das armas, sem curar de instruir-se nas boas letras». «Verdade é que o abade Barbosa o faz erudito na história desde mancebo; mas o mestre Mateus de Pisano, seu contemporâneo, preceptor de D. Afonso V, e autor duma crónica da conquista de Ceuta, escrita em latim, diz que sendo já de idade madura se aplicara ao estudo, mas que até então fora inteiramente hóspede em literatura. Foi depois desta época que Eanes entrou no serviço do rei D. Afonso, como guarda da Torre do Tombo, segundo se colhe da carta de sua nomeação passada a 6 de Junho de 1454, como bibliotecário da livraria real fundada por aquele monarca, do que nos informa mestre Mateus na obra já citada; e como encarregado de escrever varias crónicas das coisas portuguesas, conforme o diz o próprio Azurara no capítulo II da crónica do conde D. Pedro de Menezes».
São incertas todas as datas relativas à vida deste nosso cronista. Não se sabe o ano em que nasceu nem o em que morreu; os seus biógrafos limitam-se a dizer que vivia ainda em 1473, porque aparecem certidões passadas por ele neste anuo.

Azurara era muito considerado por seu saber e qualidades, de valimento na corte e pessoalmente benquisto dos reis em cujos reinados viveu: D. João I, D. Duarte, e com especialidade D. Afonso V, prova-se isto por muitos documentos e factos. Foi este monarca quem o nomeou cronista mor e guarda-mór da Torre do Tombo, substituindo Fernão Lopes, que deu o seu consentimento por se sentir já velho, cansado e doente; deu-lhe casas contíguas ao paço real, onde o cronista habitou; uma tença de doze mil reais brancos anuais; em 1467 fez-lhe mercê duma capela que vagara para a coroa, doou-lhe umas casas em Lisboa, como consta do livro III dos Místicos; diz-se que também lhe conferiu o cargo de desembargador da Casa do Cível. Antes de todas estas mercês, já Gomes Eanes era homem abastado, segundo se colhe de outros documentos coevos. «Acerca deste cronista, diz Herculano no artigo a que nos referimos, se conserva ainda urna lembrança curiosa no Arquivo da Torre do Tombo. Em 1461 uma peliteira viúva e rica, chamada Joana Eanes, o adoptou por filho, constituindo-o seu herdeiro. O abade Correia da Serra nota, com razão, que tal adopção de um homem nobilitado por seus cargos e pela qualidade de cavaleiro, feita por uma plebeia, era inteiramente oposta ás ideias do século XV, devendo-se por isso suspeitar que Azurara foi daquelas pessoas para quem o respeito ao dinheiro é o principal de todos os respeitos.» A vasta erudição de Azurara patenteia-se nas suas obras; tende a ostentosa e declamatória, mas é vasta, e essas obras só por si bastam a mostrar que Portugal! não foi de todo estranho ao impulso literário de que resultou a Renascença. Era imparcial nos seus juízos e foi escritor sincero; tinha, contudo, o defeito de querer afectar grande talento, que ninguém lhe contestava, o que muitas vezes tornava enfadonhas as suas obras. Damião de Góis dizia: «que ele usava de palavras e termos antigos, corri razoamentos prolixos e cheios de metáforas ou figuras, que no estilo histórico não tem lugar». João de Barros, pelo contrário, afirmava: «que ele bem merecera por sua diligencia o nome do ofício que teve, e que se alguma coisa há bem escrito das crónicas deste reino, é da sua mão». Alexandre Herculano, no artigo do Panorama, diz o seguinte: «Apesar da estimação e respeito que merecera Fernão Lopes aos seus contemporâneos, parece que o seu imediato sucessor lhe levou nisso conhecida vantagem, posto que muito inferior lhe fosse em mérito. Azurara tendo de escrever sobre coisas de África, passou aquelas partes, e lá fez larga demora para conhecer miudamente os lugares e circunstâncias das façanhas que tinha de narrar.Chronica delrei D. João I de Boa memoria, e dos reis de Portugal o decimo; terceira parte, em que se contém a tomada de Ceuta, Lisboa, 1644». Inocêncio da Silva, no Diccinnario bibliographico, vol. III, pág. 147, diz o seguinte: «Ocorre-me um reparo sobre a composição desta crónica (publicada póstuma, e como suplemento ou continuação das partes primeira e segunda, que do mesmo rei deixara Fernão Lopes). Diz Azurara no capítulo 1.º que começara a escrevê-la trinta e quatro anos depois da expugnação daquela praça, que foi como todos sabem (e ele mesmo diz adiante no cap. 86) a 21 de Agosto de 1415. Começou por tanto a composição no ano de 1449; e como declara no fim ter-lhe posto a ultima mão na cidade de Silves a 25 de Março de 1450, segue-se que a compusera dentro de sete meses pouco mais ou menos; o que na realidade parece incrível, quando se atenta na madureza e circunspecção com que naqueles tempos se escrevia». Cortesia de arqnet
  • 1450 - «Chronica del Rei D. Joam I de boa memória. Terceira parte em que se contam a Tomada de Ceuta» (Lisboa, 1644);
  • 1453 - «Chronica do Descobrimento e Conquista da Guiné» (Paris, 1841);
  • 1463 - «Chronica do Conde D. Pedro de Menezes» (in: Inéditos de Historia Portugueza, vol. II. Lisboa, 1792);
  • 1468 - «Chronica do Conde D. Duarte de Menezes» (in: Inéditos de Historia Portugueza, vol. III. Lisboa.
Cortesia de auladeliteraturaportuguesa
História de Portugal/Wikipédia/JDACT