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terça-feira, 19 de março de 2019

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa. «Senhora, guardai-vos de vós que de vós só vos vem veneno; guardai-vos de vós que de vós me guardo e me afasto, transbordando de pasmo por tanta malícia e ódio…»

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«(…)
Carta encontrada entre as páginas de um dos missais de Mariana Alcoforado
Senhora
Guardai o respeito que deveis a vós própria.
Melhor serve o silêncio e a dignidade o amor do que o queixume e a mentira. Pensai que conheço de mais vossos excessos, vossas raivas súbitas e vossos caprichos, por experiência. Bom será para ambos me afastar, não dando ouvidos nem crédito a estratagemas que mal vos fica usar, não sendo eles sequer, vede, de vossa condição e estado.
E se o amor e a paixão invocais, que provas me destes de paixão, senão daquela que alimentais por vós mesma em devoradora chama?
Senhora, guardai-vos de vós que de vós só vos vem veneno; guardai-vos de vós que de vós me guardo e me afasto, transbordando de pasmo por tanta malícia e ódio e egoísmo ter encontrado numa só mulher.
Preferível vos será aceitar o mundo como vos dão e a ele vos moldardes, pois nenhuma fuga vos é possível.
Muito me condoí de vossa vida, Mariana, muito me indignou vossa prisão atrás dessas grades que vos detêm cruelmente o sangue e o riso. Porém, ao conhecer-vos e ao me tomar de amor por vós, entendi que bom só será vos conservar presa e obrigada à recusa do mundo.
Donzela vos tive, não conhecendo no entanto mulher em mais depravado avanço de sentidos, êxtases, ânsias desvairadas. Sob poder me tivestes, e bem o sabíeis, doente de vossa febre que me incendiava o corpo. Desmaiada vos colhi em meus braços, desmaiado eu em vosso ventre, meu precipício e fim, meu absurdo princípio e morte todas as vezes mais rasgada e mais profunda onde me afundava e afundava sob vossos olhos firmes não toldados..., que nunca os olhos, Senhora, vos vi toldados...
Perdido me encontrei por vos amar e achado desamado à força de, mau grado, vos examinar, e em estado de razão me ver forçado a afastar-me, pois morte caberia a um de nós se tal não o fizesse.
Que despeito vos arrebata! Tão baixo por ele vos deixais ir, que usais de modos e fingimentos aprendidos por certo com vossa criada.
Não vos canseis, mais não me vereis, de vós fujo e o confesso, sem qualquer vergonha ou remorso, pois sei até onde me usastes sem em abandono vos entregardes jamais.
Como é possível perder-vos, recusar-me a vos ver, a vos ter, a vos amar...
Permiti que me vá, Mariana. Não estais ainda cansada de assim me atormentardes?
Culpado sou de quê?
Em mim vos vingais de injustiça que vossa mãe comete em violência vos exigindo sacrificada nesse convento...
Se em casa de Deus sereis obrigada a viver, confortai-vos com ele entregando-vos à piedade em vez de vos entregardes ao culto do ódio.
Secai essas lágrimas que sei de despeito e não de amor; recusai invenções de tão pouco engenho e arte que indignas são de vossa inteligência que muita é e de mais para mulher.
Mas se sinceras forem vossas palavras e temores, tranquilizai-vos: estais tão prenha de vós própria, Mariana, que jamais vosso ventre engendraria outra vida que não a vossa e a vossa ainda e sempre.
Atenciosamente
Noel
28/Mar/71

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa. «Gostaria que dissésseis a meu irmão, muito lhe agradecer o não me tornar a chamar ao parlatório; assim me pouparia a penosa resolução de me negar a vê-lo…»

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«(…)
Carta de Mariana Alcoforado a sua mãe
Senhora Minha Mãe
Não vos podendo ver mais nesse martírio inventado de desgosto e dúvida por mim, vos escrevo logo após vossa partida (hoje precipitada a senti e em desprendimento me foi clara: pois pensais acaso que não?) a dar desta vossa filha conhecimento e das causas que me trazem neste cruel e profundo abatimento ou medo.
Talvez de amor vos fale ou de morte; de clausura (aquela a que desde menina me votastes, tão bem paramentada, em sossego posta), de hábito: aquele que visto e aquele adquirido de mim e através de mim também de outrem, mesmo agora criada tanta distância. Tendo o mar entre nós penso inevitável ser esquecida, eu o esqueça, me esqueça. Deixais de vez vosso susto que já nada mais me pode acontecer neste mundo senão o viver sozinha a imaginar-me, lamentando-me de sorte tão adversa (de braços de homem passei aos meus e talvez por minha única culpa, que mulher não o soube aprisionar, ou repelir a tempo), enganando-me em cartas que tanto mais entendo de meu engenho que de paixão, construídas todas elas em língua não materna (assim vos recuso, de vós me liberto um pouco, ó vingança, ó riso...) tão doce e amarga tornada, desde que da boca dele a ouvi em proveito de meu uso.
Sabei Senhora Mãe: nada do que é vosso me importa, nem pensamentos, nem costumes. Costumes que apesar de tudo e todavia, continuo a aceitar, de lei e cobardia, aceitando este estado onde de acordo com meu pai me pusestes por homem não ter nascido e entrave fazer a meu irmão e minha irmã, de dote, podendo ela assim arranjar marido que a receba apesar de feia, não vos custando eu mais que parto e raivas acesas ao me saberdes por amada e possuída de corpo contra vossas ordens, mando, vontades; apesar mesmo de vossas ameaças.
Mas tranquilizai que abandonada me encontro e isso, sei, vos dá alegria, a verdade foi, enraivecida não me terdes perdoado usufruir da vida o que da vida jamais usufruístes. Agora, inquieta encontro vossa atenção por minha saúde e desgosto por minha apatia..., nada mais me restando senão aceitar essas atenções, fingindo não ver nelas a secreta alegria de me encontrardes repelida, logo vós vingada de minha ousadia em recusar o que generosamente meus pais me haviam dado ao me mandarem para este convento..., castigo sofro por me ter entregue: amante de homem por prazer; entrega nomeada de amor e de amor me haja perdido, diz dona Brites.
Embora..., de prazer me dei e conquistei, desafiando de aparência o mundo e a mim mesma nesse desafio de coragem, inconsciência ou grande tentação de fuga, a única que desde sempre se me deparou. Minha trégua, paz. Limite de mim própria, Senhora Mãe.

Que mulher vós nunca fostes nem eu jamais o serei...
Pouco vos escondo e em nada vós me entendeis. Com esta carta sei apenas conseguir reacender raivas, orgulhos e sentidos de posse sobre mim. Bem me podeis executar, quem me defende? A lei? A que dá aos pais todos os direitos de mordaça, aos machos primazia e à mulher somente o infinitamente menos nada, com dádivas de tudo?
Olhai que não me iludo, Senhora, este convento será meu túmulo, guardião feroz em morte como jamais o foi em meses de fala e agasalho. Que isso lhe é alheio. Me alheio. Permiti-me apenas alheada ficar, só isso peço: deixai-me fiar os dias que me restam com seus fios tecidos hora a hora, em fuso de memória. Assim me encontrastes e quisestes saber os motivos com a certeza deles, primeiro falando-me com azedume, depois com certa brandura, tentando tirar por astúcia aquilo que de mim afinal não consigo esconder. Prefiro o azedume, Senhora Minha Mãe, que a ele estou mais habituada partindo de vossa mercê.
Que mal vos fiz nascendo?
É como se a vossas entranhas tivesse sido obrigada e me gerásseis de culpa, quem sabe..., e bem contrariada, por certo. Gostaria que dissésseis a meu irmão, muito lhe agradecer o não me tornar a chamar ao parlatório; assim me pouparia a penosa resolução de me negar a vê-lo, ou, com total precisão: a ouvi-lo. Os seus assomos de cólera deixam-me num estado de nervos deplorável, não queira ele tornar sua irmã mais desgraçada.
Soubesse ser por amizade que ele o faria..., porém apenas é seu nome que defende, invocando princípios de honra que ora me convencem, ora me aterrorizam.
Comunicai-lhe que o cavaleiro de Chamilly jamais voltará ao nosso país e como de lhe escrever larguei para sempre, não preciso mesmo de meu irmão licença para o fazer, como até aqui; assim ando eu ao mando e ao uso de todos...

Beijo-vos a mão, Senhora Minha Mãe, como prova de grande consideração
Vossa filha dedicada
Mariana
28/Mar/71

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa. «Fortíssimo perante só o onde ganhar guarida e atingir redondo que o vértice inseguro bem sustenha»

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Sela e Cela
«(…) Eu defendo que na ordem do corpo
o sinal posto brando e alto entre as coxas
não deve levantar-se contra nada.

Palo acendido seco ou mosto (mastro) derramado
as fendas que revolve sempre sangram
e não é nisso o mal.

Exposto é o macho e pode ser de flora sua altura
bolbos de vida tenros os testículos (água de leite vindo)
e tão humildes que a mão os tolhe ou pode decepar.

Fortíssimo perante só o onde
ganhar guarida e atingir redondo
que o vértice inseguro bem sustenha.

Dar de alimento não é ser devorado
e não se volvam por nome do inteiro
a boca de mulher e sua fala em fauces.

Eu defendo
que em tudo está inscrito cunha e cova
na haste e crosta crespa a gota tenra
no redondo do seio o gume de perdê-lo
alguma breve hora.

Assim vos coludindo acaso
esta não sei se ácida per juris causa nostra
baga nova
imponho (tábua ou rosa?):

Amar de amor alguém
côncavo ou exposto
bom montador ou casa (entranha) clausa
é ter em mãos suspensa a sua outra face.
27/Mar/71

Bilhete de Mariana Alcoforado ao cavaleiro de Chamilly
Senhor
Desculpai se vos escrevo sabendo, a razão e o coração mo dizem, quanto alívio sentis em vos afastardes de mim.
Já mar não vos sou nem mesmo mar–iana... nem meu ardor te lembra de fêmea este alentejo aceso ao qual me comparavas o corpo onde passeavas teus dedos em extenuadas tardes...
Porquê meu amor o silêncio a que me votas (de voto estou eu já presa: mordaça posta), silêncio que devoro de angústia. Se de ti não me alimento, que me aguarda?
Desculpai o desvario, desculpai-me a ânsia, não era essa a função deste bilhete, nem foi ele ditado por amor, mas antes imposto pela urgência de pedir que me venhais ver por coisa tão urgente e grave que mais não posso esperar, pois cada dia passado de maior susto me tomo, sem saber como resolver uma situação que não só a mim cabe resolver.
Espero-vos, então, esta noite. Podeis vir tranquilo que não vos aborrecerei com lágrimas ou abraços. Evitarei, juro, as súplicas, a ironia, a memória, meu amor.
Como sempre, esperai junto às grades, dona Brites vos conduzirá até meu quarto, onde aguardarei calma, esperançada que me possais salvar ainda, ou para sempre me condenardes à ira da minha família.
27/Mar/71

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa. «Senhora Mãe que te achaste sem o saber emprenhada, o ventre vendo crescer…»

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Proposta de mim ao trio
«(…) Meu tudo sei ou sou
de casa e pão
alimento de mim
claridade

Hábito que não visto
de uso ou grão
semente de água pois se de uma
ave

Terra que por posta
vos darei
sabendo bem que dela só se parte
e nada nela cresce se não nasce

Viagem que de mim
vos dou a arte
onde de mim não sei já ser disfarce
24/Mar/1971

Brinco de Freira
mariana ama (o) mal
maria sabe a mar
contra a maré de mariana
quem amaina o sal?

a salto tresmariam malhas
e emigram (dela)
amando mariana queda e mal
marias maridadas cada qual

isolla bella (isolda?) e
teresa da mão leda e
fátima da ácida azinheira

lêem escritos (vaga casa) escrevem marejados
e por ou contra mariana
(asinha como estando com (o) vento
sua cal mareiam.

qual moireja o mal de beja
(paz de jus)
e sua o sal real
a lei das se(i)smarias
léu de povo-rei?

o caldo marinando à vela
desveladas rainhas ramos vigis (por ora) perorando

mariana no horto dado
marias mouras ilhas (telas)
neste sopro de (com) vento airado
dado.
24/Mar/71

Cantiga de Mariana Alcoforado a Sua Mãe

Senhora Mãe eu me sei
em vosso ventre
gerada

gosto de gozo ou silêncio
vossas entranhas gastei
nelas entrando enganada

Ó sina de mágoa imensa
Ó meu labor recordado

Ó sua agonia intensa
Ó vosso parto adiado

medo tristeza e sustento
teu ombro de minha infância

Ausência que foi doendo
como uma pedra engastada
de anel em vosso dedo

Que filha posta em convento
não se quer em sua casa
Senhora Mãe que te achaste
sem o saber
emprenhada

o ventre vendo crescer
sem te sentires
habitada
27/Mar/71

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

domingo, 22 de janeiro de 2017

O Círculo Virtuoso. Contos. Maria Isabel Barreno. «O cofre estava aberto, com a porta escancarada para trás. Nada mais desaparecera senão o anel. Caído no chão, junto à porta do aposento, estava o dono da casa, misteriosamente morto»

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O diamante roubado
A Estória
«Ansiosamente procurava o fim da estória. Escrevera-a quase de um só jacto, como se uma inspiração tivesse descido dos céus e lhe tivesse mostrado aquele desenrolar de enredos. Assim fora durante três dias: como de costume se levantara cedo, durante esses três dias, e aguardara a saída do marido e dos filhos com impaciência. Deixada só no silêncio da casa, sentara-se, rápida, na sua mesa de trabalho, não se arrastando pela casa, como frequentemente fazia, inventando pretextos para retardar o começo do trabalho. Isso acontecia quando ela não sabia o que escrever. Quando previa que, sentando-se, teria de prosseguir num esforço árduo, numa invenção laboriosa. Havia dias em que pensava que já não havia mais estórias para contar, que poucos contos diferentes existiam. Existiriam, quando muito, uns dez ou onze modelos, dizia dez porque era um número que toda a gente citava, a certa dezena; dizia onze porque era um número de que muito gostava. Haveria uns dez modelos de estórias, mais certamente onze, e depois todas as estórias eram versões desses modelos, no fundo com poucas variantes. E por isso havia dias em que a sua escrita lhe dava um enjoo quase insuperável, e ela inventava toda a espécie de tarefas urgentes antes de se sentar à mesa e começar o trabalho diário. Mas surgira-lhe então aquela estória radiante, descida do céu; prontinha, como se alguém lha sussurrasse ao ouvido. Afadigara-se três dias inteiros, tentando acompanhar o ritmo rápido com que a narração se lhe revelava. Helena escrevera e escrevera, antevendo o prazer dos seus eventuais leitores: uma estória onde instalara uma heroína bela e enigmática, com nome igual ao seu.

O Roubo da Jóia
O cofre estava aberto, com a porta escancarada para trás. Nada mais desaparecera senão o anel. Caído no chão, junto à porta do aposento, estava o dono da casa, misteriosamente morto. O médico legista observava-o.Veloso, o detective encarregue do caso, sentou-se numa poltrona, defronte da viúva. Esta tinha um olhar angustiado, mas em tudo o mais mantinha a calma: nos gestos, nas mãos suaves pousadas sobre o regaço. Talvez um pouco determinadas de mais, essas mãos, como se agarrassem os joelhos, para não tremer? Para ocultar receios, ou culpas? Recapitulemos, disse Veloso. O cofre contém vários outros valores: dinheiro, jóias, papéis. Sim, respondeu a dona da casa, em voz baixa. Só desapareceu o anel, com o diamante Nur, famoso em todo o mundo pela sua água puríssima e pelo seu valor? Sim, repetiu a bela Helena; hesitou, depois acrescentou, sempre em voz quase sussurrada. No mundo, ele é apreciado sobretudo pelo valor em dinheiro que lhe foi atribuído. Mas eu e o meu marido apreciávamo-lo sobretudo pela sua beleza. Pela sua transparência absoluta. Havia qualquer coisa de estranho naquela frase que Veloso não conseguiu identificar. Como sempre fazia em casos semelhantes, memorizou-a letra por letra, para depois a analisar mais tarde, também letra a letra, som a som, nas mais ínfimas inflexões de voz, deitado na cama, olhando o tecto. A posição horizontal inspirava-o particularmente, e o escuro, e o silêncio da noite. Tudo tem um significado, acreditava, tanto no comportamento das pessoas como nos factos que nos rodeiam, tudo se interliga e nada acontece por acaso. Firme nestas convicções continuou perscrutando solidamente o rosto da sua interlocutora». In Maria Isabel Barreno, O Círculo Virtuoso, Contos, Editorial Caminho, 1996, ISBN 978-972-211-063-1.

Cortesia deECaminho/JDACT

sábado, 21 de janeiro de 2017

Os Sensos Incomuns. Maria Isabel Barreno. «Era o que sentia: aquilo era como uma gota de óleo, que insidiosamente se alastraria a toda a sua vida, contaminando-a»

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(…) Sentindo-se infeliz, passou de guloso a glutão, de rechonchudo a gordo. Sobressaltava-se com as gargalhadas dos outros, corava, fugia. A sua vergonha e o seu ridículo mais foram aguçando a agressividade dos outros rapazinhos. Aos doze anos foi violado por um grupo de colegas. Eram cinco ou seis, dois deles corpanzudos, de virilidade precoce. Um buço escuro acentuava-lhes já a expressão estúpida, declarando seu desenvolvimento praticamente completo: era mesmo aquilo que eles iriam ser, não havia mais esperança de crescimento. Esses dois lideravam os outros, excitando-lhes mais a burrice do que o sexo. Encurralaram num canto o rapazinho gordo, baixaram-lhe as calças e as cuecas. O rapazinho gordo ficou aterrado, paralisado, incapaz de reagir. Dar-nos-ás a cada um momento de prazer, disse um dos matulões enquanto lhe (…) o (…). E o rapazinho gordo teve, nesse momento, uma erecção. Mais aumentou o gáudio dos outros, olha pra ele, ele está a gostar, está a gostar. Um resto de dignidade se interpôs, se ofendeu, o seu sexo murchou. Nada se consumou para ele, nesse dia, a não ser um negro sentimento de culpa. E uma dúvida. Estás a ver o meu problema, disse ele, muito baixo. Nunca contei isto a ninguém. E a primeira vez que sou capaz. Eu senti prazer naquele momento, senti um desejo que só posso chamar perverso porque eu próprio me comprazia ao ver-me reduzido a mero objecto de prazer dos outros. Isto era apenas resultado do terrível estado de humilhação em que então vivia? Ou sou, de
facto, um homossexual? Até hoje, nunca consegui aproximar-me de nenhuma mulher, com receio de ser um homossexual reprimido; e nunca me aproximei dos homens, porque eles me lembram esse horrível sentimento de humilhação, de abjecção. És o meu primeiro amigo.
Contigo, não sei porquê, sinto que posso estar completamente à vontade. Por isso te contei tudo. Manuel ouviu, primeiro com interesse. Simpatizava com aquele seu colega de emprego, gordo e calado, sempre perdido na contemplação de alguma coisa, e que ele imaginava fazendo versos às escondidas de todos, talvez até de si próprio. Quando percebeu o rumo dos acontecimentos, no passado do seu gordo confidente, o interesse transformou-se em mal-estar; não lhe agradava ficar assim, inesperada e profundamente, envolvido na vida de alguém. Depois veio o terror. O horror, quando sentiu uma súbita erecção ao ouvir relatada a frase dar-nos-ás a cada um momento de prazer, relatada a penetração que a acompanhou. Foi como se tivesse ficado repentinamente irmanado com o seu gordo amigo, pior, como se intimamente tivessem partilhado uma experiência, como se tivessem feito amor juntos. Manuel nunca tivera, até então, qualquer dúvida sobre a sua sexualidade. Gostava bastante de si próprio, apreciava-se nas suas qualidades, julgava conhecer todos os seus defeitos, arranjava namoradas sem dificuldade, tinha êxito e prazer com elas. E agora chegava aquela confidência, aquela nojenta gota de óleo. Era o que sentia: aquilo era como uma gota de óleo, que insidiosamente se alastraria a toda a sua vida, contaminando-a.
E assim se passou o futuro imediato de Manuel: olhares ansiosos sobre corpos de mulheres, súbitas interrupções do acto de amor dizendo não sei o que tenho hoje, olhares de soslaio para corpos de homens, interrogações sombrias, solitário, num bar, em casa, com um copo de uísque na mão. E fugindo do gordo violado a sete pés, inventando desculpas porque não gostava de ser malcriado nem agressivo». In Maria Isabel Barreno, Os Sensos Incomuns, 1993, colecção Campo da Palavra, Grande Prémio do Conto, Editorial Caminho, 2008, ISBN 978-972-210-886-7.

Cortesia ECaminho/JDACT

Os Sensos Incomuns. Maria Isabel Barreno. « Sorriu, era uma terna imagem. Querida, disse, eu entendo o teu entusiasmo pela ficção científica, e a tua convicção de que a análise racional…»

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(…) Assim Dezembro se enchera de festas: primeiro esse culto gélido da semente germinando em berço escuro, promessa discreta e ameaçada de tesouros futuros. Depois a antecipação, tão cara ao género humano, trouxera algumas abundâncias enganosas: presentes que enchiam os olhos das crianças, podendo-se neste ponto argumentar com a inocência da infância, festas celebradas com fritos quentes e frutos secos, também aqui se podendo invocar em desculpa a imitação das naturais armazenagens, os régios e mágicos açúcares e gorduras que do cerne da semente vinham a caminho, seguindo a estrela da vida, cheios já de presentes, ainda que simbólicos. Tudo isto era invocável, embora com algum esforço. Mas posteriormente haviam acumulado os ruídos, as luzes, muitas e piscantes, as trocas, as invejas e as ambições, e o dinheiro, tornando-se símbolo totalitário, tapara de vez as superiores energias, suas simbolizadas. Era esta alternância que urgia endireitar, enterrar os ruidosos faustos, extrair do ventre da terra os tesouros silentes. Fora esta a tarefa que ele fora enviado a cumprir, para que o tempo perdesse a perigosa curva que ameaçava rompê-lo no próximo decénio.
Ele ouviu a voz sussurrada da mulher, entrou no quarto do filho, viu-a lendo esforçadamente, na penumbra, os cabelos caídos ocultando-lhe a face, viu a criança na sua pequena cama de grades. Sorriu, era uma terna imagem. Querida, disse, eu entendo o teu entusiasmo pela ficção científica, e a tua convicção de que a análise racional é sempre exigível, de que todo o maravilhoso deve ser mostrado na mais chã e ancestral de suas origens, mas não achas esse conto pesado demais para uma criança de dois anos? De forma alguma, disse a mulher, vê como ele já dorme, tão tranquilo. Acordará em Setembro, a caminho de Dezembro, quando o ruído se tornar excessivo e ele tiver que abandonar o sonho.

O mártir e o redentor
Era um rapazinho rechonchudo, frequentemente distraído em densos pensamentos, muito seus. Enquanto viveu inteiramente em casa, inteiramente sob a alçada da mãe e das empregadas, foi uma criança bem disposta, risonha e gulosa. O mundo era pouco maior do que a cozinha e o quarto de dormir. Quando entrou para a escola tornou-se o alvo favorito das graçolas e agressões dos outros. Chorava em casa, primeiro, contando aos pais. O pai zangava-se, era um homem iracundo: ficava pálido, rangia os dentes de fúria. Gritava: defende-te, tens que aprender a ser homem, eu com a tua idade. Virava-se para a mulher e continuava a gritar: fizeste dele um inútil, um maricas. O rapazinho deixou de contar em casa as suas desgraças. Para não afligir a mãe, para não irritar o pai. Sentiu-se sozinho no mundo, tornou-se absolutamente vulnerável. Continuava inclinado às suas densas reflexões, que o distraíam, que o tornavam ausente e desajeitado, e lhe impediam os reflexos de defesa. Passara a sentir-se culpado por esses densos pensamentos, que, no entanto, eram sempre relativos à beleza do mundo e ao subtil funcionamento das coisas, passara a sentir-se indigno de qualquer amor». In Maria Isabel Barreno, Os Sensos Incomuns, 1993, colecção Campo da Palavra, Grande Prémio do Conto, Editorial Caminho, 2008, ISBN 978-972-210-886-7.

Cortesia ECaminho/JDACT

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Um Imaginário Europeu. Maria Isabel Barreno. «E assim regresso à vergonha. Exagero, quando a enuncio? Todas as crianças querem ser iguais aos seus pares, todos os emigrados têm essa dor de identidade fragmentada?»

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Primeiro andamento
«(…) Um país pode ser terceiro-mundista e ter uma excelente literatura e meia dúzia de bons cineastas. O passadismo torna-se incontornável quando tentamos algum tema mais englobante: papel de Portugal na história europeia e mundial, características essenciais da cultura portuguesa. Ou o turismo. Ou a identidade nacional. Em todos estes temas fazemos a festa com os descobrimentos, os monumentos históricos e o fado, juntando um pouco da fundação do país e do sebastianismo, se a ementa necessitar de mais alguns condimentos. Duas simples perguntas: por que não há cartazes do ICEP com obras de Siza Vieira? Por que é que de todo o nosso património arquitectural moderno o único monumento figurando em cartazes do ICEP é o monumento das Descobertas? O problema de fundo é que não nos estimamos. Não nos estimamos (ainda) no presente, não nos estimamos suficientemente para termos de nós, portugueses, uma imagem positiva e afirmativa.
E assim regresso à vergonha. Exagero, quando a enuncio? Todas as crianças querem ser iguais aos seus pares, todos os emigrados têm essa dor de identidade fragmentada? Não exagero certamente quando digo que essas crianças, nas suas visitas a Portugal, pouco ouvirão que as encoraje a ter algum orgulho de suas raízes portuguesas. O tom dominante em Portugal é (ainda) o lamento, a autoflagelação, o lá fora é que é bom, neste país nada presta. Apesar de termos quebrado o nosso isolamento, de conhecermos mais sobre o mundo, de nos termos tomado menos provincianos. A vergonha tem várias gradações e formas. Para além da vergonha sem disfarces das crianças, crescem a raiva, a timidez, a introspecção obsessiva e acusadora. Com o passar do tempo, tive frequentes oportunidades de analisar as muitas e desvairadas reacções dos portugueses aqui residentes a essa imagem negativa de Portugal, as minhas incluídas. Uma generalizada mistura de indignação contra a arrogância e o egocentrismo franceses e de, surpresa?, autoflagelação. Uma autoflagelação onde parecem coexistir estranhamente a impotência total, somos assim, não há nada a fazer, com a mais irreal ilusão de omnipotência, nós (ou Portugal, ou o governo) é que temos a culpa, culpa de tudo, aí incluída a ignorância francesa. A partir deste ponto, dividem-se as reacções por classes. Todos os que dispõem de um nível cultural e económico confortável tratam de desligar-se da imagem negativa pelas formas de afirmação individuai mais variadas. Os outros, as concierges e os maçons, defendem-se fechando-se num colectivo, a comunidade, as associações reinventando folclores e tradições, confundindo identidade nacional com microcosmos regionais, sonhando com um Portugal que já não existe. E aqui cheguei a um dos pontos nevrálgicos da motivação para a escrita deste livro: o sofrimento.
A motivação para tentar transformar notas dispersas e de objectivo incerto num texto de reflexão e vivência, de razão e sentimento. O sofrimento dos emigrantes, no qual poucos parecem reparar. A sua perda de identidade. Os seus esforços patéticos para juntar os pedaços que espalharam pela estrada no seu ir e vir de desassossego. Fui convidada pelas autoridades francesas a assistir a uma atribuição de prémios que se passava num hospital pediátrico. Turmas de alunos de várias escolas francesas tinham feito trabalhos sobre um país europeu, à escolha. Essa iniciativa envolvia também uma componente de solidariedade com as crianças hospitalizadas, por isso fora o hospital escolhido como local da festa. Uma turma de crianças que fizera um trabalho sobre Portugal (com um professor francês) ganhou um prémio. No final fui felicitar a classe. Por que escolheu Portugal?, perguntei ao professor. Já eu estava em França havia mais de um ano. perguntei sem grande esperança de receber respostas animadoras ou interessantes. Porque tenho muitos alunos de origem portuguesa respondeu-me, e eles têm uma auto-estima tão baixa! Achei que este trabalho poderia ajudá-los. Olhei os meninos, que iam saindo da sala, terminada a sessão. Caras tristes, premiadas e tristes. Tão tristes como a tristeza daquele hospital de crianças doentes». In Maria Isabel Barreno, Um Imaginário Europeu, Editorial Caminho, 2000, ISBN 978-972-211-365-8.

Cortesia de ECaminho/JDACT

Um Imaginário Europeu Maria Isabel Barreno. «Mas na imagem de Portugal que os franceses re-transmitem são também reconhecíveis os traços dessa imagem que foi delineada e exportada pela ideologia da ditadura salazarista…»

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«Um espaço de nada
Por íntima deslocação do sujeito
para espaços de outrem
nascem as catástrofes humanas
e as maravilhosas aventuras

entre catástrofe e aventura
um espaço de nada
um nada de tempo
variações de ser»

Primeiro andamento
«Como ensinar português a crianças que têm vergonha de ser portuguesas? Como lhes retirar essa vergonha se ela é simultaneamente incutida pela sociedade francesa, onde nasceram e crescem, e pela sociedade portuguesa, que visitam e escutam através de familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos? Exagero, dirão muitos. Ou equaciono a questão pelo seu lado mais negativo. A maioria das crianças portuguesas ou lusodescendentes que vivem em França não terá, ou já não terá, vergonha de suas origens portuguesas, diz-se. Mesmo quando a auto-estima é baixa, e os resultados escolares fracos. As crianças já ouvem falar de Portugal, ou já o conhecem, de uma outra forma, diz-se. É muito possível. Mas, chegada a Paris em 1997, para dirigir os serviços da Coordenação do Ensino de Português, rapidamente me dei conta, como acontece com todos os que para aqui vêm trabalhar, da imagem negativa de Portugal vigente nestas paragens gaulesas. Uma imagem cujo conteúdo é ainda predominantemente fornecido pelos estereotipos construídos com base na emigração maciça dos anos sessenta e setenta, sem nenhuma actualização posterior: país inteiramente rural, de pobreza e resignação extremas, do qual as pessoas têm que fugir para conseguir padrões de vida menos terceiro-mundistas.
É evidente que atrás desta imagem estão duas razões que, a merecer a vergonha de alguém, não seria certamente a das crianças portuguesas (ou lusodescendentes): o tradicional chauvinismo francês, com a correspondente tendência para ignorar tudo o que se passa fora da França, e a tendência geral de todos os grupos humanos para a formação de estereotipos sobre outros grupos humanos. Mas na imagem de Portugal que os franceses re-transmitem são também reconhecíveis os traços dessa imagem que foi delineada e exportada pela ideologia da ditadura salazarista, a ruralidade, a pobreza contentinha, a humildade, o fado imagem que até hoje perdura porque nós, portugueses, ainda não produzimos nenhuma outra sobre nós próprios. Esta última afirmação pode parecer injusta, e inexacta. Tem havido, ao longo dos últimos dez ou quinze anos. um esforço de divulgação da cultura portuguesa no estrangeiro, em particular da literatura. Esse esforço deu já alguns frutos. Paradoxalmente, ou sintomaticamente, só aos franceses tenho ouvido louvar a política portuguesa de divulgação cultural. Porque, evidentemente há franceses que conhecem a literatura, a história, a cultura portuguesas. Há cátedras de português em França, pesquisadores e especialistas. Mas, obviamente, todos estes sabedores, na maioria académicos, alguns outros jornalistas ou pessoas de intensa curiosidade, são uma minoria praticamente invisível no meio dos sessenta milhões de franceses, e os artigos ou livros que eles escrevem uma gota de água no oceano de palavras editadas em França. E, obviamente também, os esforços feitos para a divulgação da cultura portuguesa têm sido fragmentados (ressalvando algumas perspectivas mais globais, recentes e ainda episódicas) e, frequentemente, com tendências redutoras e passadistas.
Fragmentados porque não há ainda uma política comum aos diferentes organismos que representam ou apresentam Portugal no estrangeiro, muito menos a consciência da necessidade duma imagem global. Trabalham os organismos económicos e turísticos para um lado, os que assinam acordos internacionais em áreas educacionais, científicas e tecnológicas para outro, os culturais para um terceiro. Os culturais tendem a reduzir a cultura aos seus aspectos mais clássicos (em particular a literatura, como referi; e algum cinema. Nos últimos anos acrescentem-se alguns ciclos de conferências ou exposições sobre aspectos históricos e sociais, sobre arquitectura e, timidamente, um ou outro pintor ou músico. Por estas vias ainda estreitas os coloco entre aspas. O design em geral e o design de moda em particular, por exemplo, ainda não saíram da zona comercial do ICEP, ainda não foram promovidos a cultura o que é uma segunda forma de fragmentação, a qual produz, enfim. uma ausência de lugar onde se possa inserir e divulgar a cultura portuguesa actual na sua totalidade. Forma de fragmentação, e forma de passadismo também: damos de nós uma imagem antiquada com esta apresentação predominantemente clássica da nossa cultura». In Maria Isabel Barreno, Um Imaginário Europeu, Editorial Caminho, 2000, ISBN 978-972-211-365-8.

Cortesia de ECaminho/JDACT

domingo, 25 de dezembro de 2016

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa, (As Três Marias). «Ouve Isabel as pedras são antigas desmerecido temos o seu trato de basalto macio ou irisado quartzo»

jdact

Novas Cartas Portuguesas. Ou de como Maina Mendes ôs ambas as mãos sobre o corpo e deu um pontapé no cu dos outros legítimos superiores
«(…)
Considerai, irmãs minhas, cá hoje e ensoalhada a febra por este  brando sol se repartindo e bem rendido, turista o dar e o brotar para esta novidade literária que há-de vender-se, eu vos asseguro, ó seis patinhas sonsas de nós três caminheiras, considerai cá hoje e abrivos, nós para nós e eles. Considerai a cláusula proposta, a desclausura, a exposição de meninas na roda, paridas a esconsas da matriz de três. Moças só meio meninas bem largadas da casa de seus pais e arrematados já seus dotes em leilão de país. Nem vai ser isto, pois não é? Que vai ser de nós e Mariana depois desta partida, choro de ausência, de alguma falta, falha de Mariana ou quem, ou dela querer sabê-la? Só que Beja ou Lisboa, de cal ou de calçada, há sempre uma clausura pronta a quem levanta a grimpa contra os usos: freira não copula mulher parida e laureada escreve mas não pula (e muito menos se o fizer a três) com a Literatura, LITERATURA, não se faz rodinhas, porém, ledores, haveis comprado Mariana e nós, tendo ela montado o cavaleiro e bem no usado para desmontar suas / doutras razões de conventuar.
E nós, e nós, de quem, a quem o rumo, os dizeres que nem assina assinados vão, o trio de mãos que mais de três não seja e anónimo o coro? Oh quanta problemática prevejo, manas, existiremos três numa só causa e nem bem lhe sabemos disto a causa de nada e por isso as mãos nos damos e lhes damos, nos damos o redondo da mão o som agudo, a escrita, roda de saias-folhas, viração de quê? Garantia porém a quem folheia, o tema é de passagem, de passionar, passar paixão e o tom é compaixão, é compartido com paixão. 3/3/71

Teresa
De rosas tu teresa e a voz de vidro
prestes e libelinha do quebrar-se e nunca
de leve astuciando os ditos gastos esgotas
e travo tenro trevo fica; um silvo (tu de silves),
plácido um sulco gravemente meneado
sobre alguma cal, um equilíbrio manso
o fácil contornado pela ponta da boca
dado de anca leda barca e pétala
polpa de embalo ao eixo aceso, não corrupto
estame em luz
único de um fio e de um metal de ti teresa. 6/3/71

Isabel
Ouve Isabel as pedras são antigas
desmerecido temos o seu trato
de basalto macio ou irisado quartzo.
Revéns do que as sustenta até areias peso.
Não do granito digo ou não apenas
de todas trazes signo e majestade
mesmo de areias.

Ouve de areias digo e risco
reduto mineral cristal de rocha branca saibas
que o som tem o metal e ar também
e entre gotas de ar se afia a música palavra.

Tu tens intacta a ordem na figura da carne
e recuado gesto
ordem da pedra imposta e recortada
transparecente ou de vedada cor
safira seixo colina rosa aurora
só a fala areada te desgasta.

Ouves
como as águas maninhas te corroeram porte
e nome de isabel contorna ilha coral alto
e a detém.

Antes azálea foras
flor de pedra o nome e arredio.
Não por inerte mole entendo que chegaste
ou te devolvo
perigas onde o suporte é estreito
e sulco fere o acto separado
contigo o tempo exacto gasta te tem por vã o olho astuto sílex
talhando no polido face e aresta rosácea
despojo posto em guarda pacto sombra
desmerecida a rocha iluminada.

Ouve Isabel por baças e antigas
como de pedra luz são escassas as que estão
e dão sinal
consente o que moldado está por belo
a carnadura suave e alevantada. 6/3/71»
In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT