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sábado, 15 de janeiro de 2022

Espuma dos Dias. Boris Vian. «Faça um cordão de cogumelos em torno da crosta, ponha uma pitada de sêmen de carpa no meio. Regue com a parte do molho que ficou reservada»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O ponteiro do forno eléctrico, ajustado para peru assado, oscilava entre quase e ao ponto. Logo, logo estaria na hora de tirar. Nicolas apertou um botão verde, que accionava o medidor sensitivo. Este penetrou sem encontrar resistência, e nesse momento o ponteiro marcou ao ponto. Num gesto rápido, Nicolas desligou o forno e ligou o aquecedor de pratos. Será que está bom?, perguntou Colin. Não tenha a menor dúvida, senhor!, afirmou Nicolas. O peru estava perfeitamente calibrado. Que entrada o senhor preparou? Meu Deus, disse Nicolas, para variar, não inovei coisa nenhuma. Limitei-me a plagiar Gouffé. O senhor poderia ter escolhido um mestre pior!, observou Colin. E que parte da obra dele vai reproduzir? Está na página 638 de seu Livro de cozinha. Vou ler a passagem em questão. Colin sentou-se num tamborete com assento capitoné de borracha alveolada, sob uma seda que combinava com a cor das paredes, e Nicolas começou nos seguintes termos: Faça uma crosta de patê quente para a entrada. Prepare uma enguia das grandes e corte-a em pedaços de três centímetros. Leve uma panela, com vinho branco, sal e pimenta, cebolas fatiadas, ramos de salsa, endro e louro, com um dentinho de alho. Não consegui amolar o dente como gostaria, disse Nicolas. A pedra de afiar está gasta. Vou mandar comprar outra, disse Colin. Nicolas continuou: Ponha para cozinhar. Retire a enguia da panela e ponha numa frigideira. Passe o molho por uma peneira de tecido, acrescente molho espanhol e deixe reduzir até que fique aderente à colher. Filtre novamente, cubra a enguia com o molho e deixe ferver por dez minutos. Acomode a enguia na massa. Faça um cordão de cogumelos em torno da crosta, ponha uma pitada de sêmen de carpa no meio. Regue com a parte do molho que ficou reservada.

Certo, aprovou Colin. Acho que o Chick vai gostar. Não tenho a vantagem de conhecer o senhor Chick, concluiu Nicolas. Mas, caso ele não goste, farei outra coisa da próxima vez, o que vai me permitir situar-me, com quase certeza, na ordem espacial dos seus gostos e desgostos. Zim!…, disse Colin. Vou embora, Nicolas. Vou pôr a mesa. Ele foi pelo corredor no outro sentido e atravessou a copa para chegar à sala de jantar-estúdio, cujo tapete azul-pálido e as paredes bege-rosadas eram um repouso para olhos abertos. Daquela sala, de uns quatro metros por cinco, via-se a avenida Louis Armstrong por duas grandes janelas. Espelhos sem aço escorriam pelos dois lados e permitiam a introdução dos odores da Primavera quando eles estivessem disponíveis do lado de fora. Do outro lado, uma mesa de carvalho macio dominava um dos cantos do ambiente. Dois bancos em ângulo recto correspondiam a dois lados da mesa, e cadeiras estofadas com almofadas de marroquim azul ornavam os dois lados livres. A mobília incluía, além disso, um móvel comprido e baixo, transformado em discoteca, uma vitrola hipermodulada e um móvel, simétrico ao primeiro, contendo estilingues, pratos, copos e outros utensílios de que o homem civilizado se serve para comer». In Boris Vian, Espuma dos Dias, 1946-1947, Editora Relógio D’Água, ISBN 978-972-708-644-3.

Cortesia de ERelógio d’Água/JDACT

JDACT, Boris Vian, Literatura, A Arte,

Espuma dos Dias. Boris Vian. «Sua realização material propriamente dita consiste, no essencial, numa projecção da realidade, em atmosfera enviesada e aquecida…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Na vida, o essencial é manter, sobre todas as coisas, julgamentos a priori. Parece, com efeito, que as massas estão erradas, e que os indivíduos sempre têm razão. É necessário ter cautela para não extrair disso regras de conduta: elas não precisam ser formuladas para que as sigamos. Existem apenas duas coisas: o amor, de todas as maneiras, com garotas bonitas, e a música de Nova Orleans ou de Duke Ellington. O resto deveria desaparecer, pois o resto é feio, e as poucas páginas de demonstração que vêm a seguir extraem toda a sua força do facto de que a história é totalmente verdadeira, pois eu a imaginei do começo ao fim. Sua realização material propriamente dita consiste, no essencial, numa projecção da realidade, em atmosfera enviesada e aquecida, num plano de referência irregularmente ondulado e que apresenta distorção. Vemos que se trata de um procedimento perfeitamente confessável». In Prólogo

«Colin terminava sua higiene pessoal. Estava enrolado, ao sair do banho, numa ampla toalha felpuda que deixava ver apenas suas pernas e seu torso. Pegou na prateleira de vidro o spray e aspergiu o óleo fluido e aromático nos cabelos claros. O pente de âmbar cortou a massa sedosa em longos sulcos cor de laranja, parecidos com os talhos que o alegre camponês faz, com um garfo, na geleia de damasco. Colin largou o pente e, armando-se do cortador de unha, aparou obliquamente os cantos das pálpebras foscas, conferindo mistério a seu olhar. Volta e meia precisava repetir o gesto, pois elas cresciam rápido. Acendeu a luz do espelho ampliador e se aproximou para verificar o estado de sua pele. Alguns cravos sobressaíam em volta das aletas do nariz. Ao se verem tão feios no espelho ampliador, eles logo entraram de volta na pele, e, satisfeito, Colin apagou a luz. Soltou a toalha que lhe cingia o quadril e passou uma das pontas por entre os dedos do pé, para absorver os últimos vestígios de humidade. No espelho, dava para ver com quem ele se parecia, com o louro que faz o papel de Slim em Um sonho em Hollywood. Tinha a cabeça redonda, as orelhas pequenas, o nariz arrebitado, a pele dourada. Volta e meia sorria, um sorriso de bebé, e, por força do hábito, aquilo lhe rendera uma covinha no queixo. Era bem alto, magro, com as pernas compridas, e muito gentil. O nome Colin mal se encaixava nele. Falava suavemente com as garotas e alegremente com os rapazes. Estava quase sempre de bom humor e, no resto do tempo, dormia.

Esvaziou a banheira fazendo um buraco no fundo. O chão do banheiro, revestido de ladrilhos hidráulicos amarelo-claros, era inclinado e levava a água para um orifício bem em cima da secretária do locatário do apartamento de baixo. Fazia pouco tempo que ele, sem avisar Colin, mudara a secretária de lugar. Enfiou os pés em chinelas de couro de morcego e envergou um elegante fato. Sua calça era de veludo cotelê de um verde-água bem profundo, e o casaco era de uma rara lã cor de nozes. Pendurou a toalha no toalheiro, pendurou o tapetinho do banheiro na borda da banheira e o salpicou de sal grosso, para que expelisse toda a água. O tapete começou a babar, fazendo cachos de bolinhas de sabão. Saiu do banheiro e foi para a cozinha, para supervisionar os felementos da refeição. Tinha convidado para jantar, como toda segunda à noite, o seu amigo Chick, que morava ali pertinho. Ainda era sábado, mas Colin estava com vontade de ver Chick e fazê-lo degustar o menu elaborado com uma alegria serena por Nicolas, seu novo cozinheiro. Chick também era solteiro. Tinha a mesma idade de Colin, vinte e dois anos, e gostos literários como os dele, mas tinha menos dinheiro. A fortuna de Colin era suficiente para viver com conforto, sem trabalhar para os outros, e Chick precisava ir todos os dias ao ministério para ver o tio e pedir dinheiro emprestado, pois o ofício de engenheiro não rendia o necessário para se manter no mesmo nível dos operários sob seu comando, e é difícil comandar gente mais bem vestida e mais bem alimentada do que nós mesmos. Colin ajudava como podia, convidando-o para jantar sempre que possível, mas o orgulho de Chick o obrigava a ser prudente, e a não mostrar, por favores frequentes demais, que a sua intenção era ajudar.

O corredor da cozinha era claro, com vidraças dos dois lados, e um sol brilhava de cada um dos lados, pois Colin gostava de luz. Havia torneiras de latão cuidadosamente polidas por todos os cantos. As brincadeiras do sol nas torneiras produziam efeitos feéricos. Os camundongos da cozinha gostavam de dançar ao som dos choques dos raios de sol nas torneiras e corriam atrás das bolinhas que os raios formavam ao se pulverizar no solo, feito jactos de mercúrio amarelo. Colin acariciou um dos camundongos ao passar, ele tinha compridíssimos bigodes pretos, era cinzento e magro, e milagrosamente lustroso. O cozinheiro os alimentava muito bem, sem deixá-los engordar muito. Os camundongos não faziam barulho durante o dia e só brincavam no corredor. Colin empurrou a porta esmaltada da cozinha. O cozinheiro Nicolas vigiava o painel de bordo. Estava sentado diante de uma pequena mesa, igualmente esmaltada de amarelo-claro e que tinha mostradores correspondentes aos diversos utensílios culinários alinhados pelas paredes». In Boris Vian, Espuma dos Dias, 1946-1947, Editora Relógio D’Água, ISBN 978-972-708-644-3.

Cortesia de ERelógio d+Água/JDACT

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