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quinta-feira, 9 de junho de 2022

O Segredo da Bastarda. Cristina Norton. «O primeiro baralho possuía tantas cartas quantas letras tem o alfabeto, escritas em minúscula, e a senhorita Felícia começou a mostrar as vogais a Eugénia enquanto pronunciava o som…»

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A Curiosidade de Eugénia

«(…) Dois meses depois, precedida por cartas de recomendação fiáveis, chegou uma mestra disposta a experimentar o original sistema com uma criança de apenas cinco anos. A senhorita Felícia Macedo apresentou-se vestida com uma saia rodada de cor cinzenta e uma blusa pérola de gola rente ao pescoço, que deixou Maria José logo encantada porque não conseguia habituar-se à moda licenciosa de camisas tão largas e decotadas que, na maioria das vezes, ao mínimo gesto deixavam a descoberto os ombros ou a curva de um seio, como se não fosse uma parte do corpo que um pudor natural levasse qualquer mulher a ocultar.

Apresentaram a mestra à filha para que recebesse a primeira aula, e Eugénia, mesmo sem mexer um único músculo da cara, demonstrou claramente não ter ficado entusiasmada com a recém-chegada. Mas, quando esta mandou a pupila sentar-se à mesa da salinha e tirou da sacola de pano que trazia pendurada no cinto quatro baralhos de cartas, e todos os membros da família Meneses que assistiam a prudente distância soltaram um Ah!, de espanto e não resistiram a pôr-se em círculo à volta delas, Eugénia pareceu conquistada.

A Bastarda

Assim que voltou ao quarto da filha, depois de acompanhar o médico à porta, Eugénia Maria não conseguiu reprimir o seu desagrado pelo modo pouco amável como Isabel Maria o tratava em cada visita que este lhe fazia. Minha filha, nem sempre a primeira impressão que temos de alguém é a melhor. Não simpatizas com o médico, nem fazes o menor esforço para o dissimular. Desde que te auscultou pela primeira vez que desconfias dele, mas, acredites ou não, é o melhor especialista em doenças de pulmões que temos, não é em vão que as pessoas com tísica vêm à Madeira tratar-se com ele, além do clima, que é muito bom, precisas da sua ajuda. Não me ralhe. Se não confio nele é porque cada dia estou pior. Ninguém sabe o que se passa dentro do meu corpo nem se apercebe das pequenas mudanças que só eu sinto. As forças deixam-me aos poucos. Tenho medo de morrer. Isabel Maria... Com pensamentos tão pessimistas não podes lutar contra a doença. Tem fé em Deus, minha querida. Olha, a propósito de não gostares do médico, lembrei-me de uma coisa. Sabes que, no dia em que a minha mãe conheceu a senhorita Felícia, ela não lhe caiu nada bem? Achou-a demasiado alta e magra, quase seca, no seu olhar pareceu-lhe descobrir uma rigidez espartana e ficou aterrorizada só de pensar que se pudesse desvanecer como um sonho a sua tão prezada liberdade. Com o tempo percebeu que era igualmente exigente com ela como consigo própria e que os olhos que lhe tinham parecido de um brilho de lâmina eram, afinal, penetrantes para melhor lerem nas almas. Foi no momento em que a senhorita Felícia pegou no molho de cartas e começou a mexer nelas com gestos precisos de ilusionista que a tua avó se sentiu atraída por essa mulher, que acabou por ser a sua melhor amiga.

A Senhorita Felícia

O primeiro baralho possuía tantas cartas quantas letras tem o alfabeto, escritas em minúscula, e a senhorita Felícia começou a mostrar as vogais a Eugénia enquanto pronunciava o som que correspondia a cada uma delas, até a pequena aluna conseguir decorá-las. Depois tirou da bolsinha as cartas dos algarismos, desenhados com pena grossa, do 0 ao 9, fazendo o que fizera com o das letras e incitando Eugénia a colocá-las por ordem em cima da mesa. Nos dias seguintes, apresentou-lhe as consoantes em pequenos grupos para não a confundir e, quando conseguiu que as reconhecesse a todas, ensinou-a a brincar com as cartas dos dois baralhos, alinhando-as de maneira a poder ler o nome do pai, da mãe e dos irmãos todos, completando o jogo com as idades de cada um ao lado. Com o tempo, aumentou o grau de dificuldade e saíram do bolso da senhorita Felícia os últimos baralhos, o das letras maiúsculas e, no fim, o das letras de imprensa. Só quando Eugénia as soube ler sem soletrar teve direito a uma folha de papel, uma pena, um canivete e um tinteiro, que a mãe lhe ofereceu com a solenidade de quem outorgava um privilégio real porque, ainda que algumas mulheres soubessem ler, poucas eram as que aprendiam a escrever por se acreditar ser uma coisa inútil e até perigosa para o sexo feminino». In Cristina Norton, O Segredo da Bastarda, 2002, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-231-047-3.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, Cristina Norton, Literatura, 

quarta-feira, 8 de junho de 2022

O Segredo da Bastarda. Cristina Norton. «Sempre me serviu o dom da ubiquidade, essa arte de me tornar leve ao ponto de me deixar conduzir por uma brisa suave, que me vinha buscar à hora marcada com uma pontualidade de andorinha…»

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Brasil

«(…) Enquanto os irmãos tinham aulas com o preceptor, Eugénia passeava-se com a escrava Miló, que tentava entretê-la com as canções que sabia, misturando modinhas conhecidas com outras, africanas, que cantava, acompanhando-as com o ritmo das suas mãos batendo uma na outra num movimento largo e lento dos braços. Também lhe contava histórias de panteras, bandidos e piratas, intercalando-as com algumas mais tristes, que falavam da caça aos pretos no mato africano, de viagens infindáveis atafulhados em barcos onde faltava água e comida, mas nunca as chicotadas ou os ferros com que eram acorrentados. A filha do governador ouvia atentamente, porque um tremor na voz da sua escrevinha lhe revelava que eram histórias verdadeiras, e não lendas para distrair crianças. Mesmo assim, achava as manhãs demasiado longas e, no fim de cada relato, perguntava quanto tempo faltava para que o preceptor dos irmãos se fosse embora. Ao meio-dia em ponto, já não continha a impaciência e corria, arrastando Miló atrás de si, para se juntar aos rapazes num recreio de três horas que sempre lhe parecia demasiado curto, comparado com as manhãs inteiras dos meses anteriores.

A Madrinha

Sempre me serviu o dom da ubiquidade, essa arte de me tornar leve ao ponto de me deixar conduzir por uma brisa suave, que me vinha buscar à hora marcada com uma pontualidade de andorinha; e não como os ventos fortes, que abomino, porque só sabem andar com a pressa de uma má notícia. Quase sem dar por isso, cheguei ao Brasil, onde tinha várias afilhadas a quem fui dar uma olhadela rápida, pois nesse momento devia intervir na vida de Eugénia, por não me parecer bem que passasse os dias a vaguear pelos jardins, enquanto os irmãos estudavam. Porque não havia ela de ser letrada, se recebera a bênção de uma inteligência igual ou até superior à dos rapazes? Eram tantas as vidas que vira no mapa dos destinos que as tinha um pouco baralhadas, ou não fosse eu mulher do meu tempo, pouco dada a geografias, e já não me lembrava bem se era Eugénia ou Albertina quem iria ter um grande desgosto por causa do pai de um filho seu. Preferi, então, apostar no celibato, que era a única maneira de impedir desavenças conjugais. Por isso, juntei à família Meneses uma outra afilhada minha, uma rapariga órfã que precisava de dar um rumo diferente à sua vida e endireitar as finanças. Com uma Eugénia culta, sabedora de letras, números e outras tantas matérias, somadas ao gosto pela liberdade e a uma ponta de rebeldia, tinha a certeza de que nenhum homem quereria casar-se com ela.

A Curiosidade de Eugénia

Rodrigo Meneses, ainda que os deveres da governação o mantivessem sempre ocupado, não deixava de reparar no aborrecimento da filha quando se aproximava da janela, procurando inspiração para ditar uma carta ao seu secretário. Via-a atravessar continuamente o jardim seguida da sua escrava, à procura de alguma coisa com que se entreter durante as horas em que os irmãos estavam nas aulas. Tinha ouvido falar, já nem sabia bem ao certo onde e a quem, de um método de ensino imaginado pelo bispo do Pernambuco, José Azeredo Coutinho. Deu ordens para que averiguassem se não havia ninguém que pudesse pô-lo em prática com Eugénia, em quem via uma tendência, rara nas mulheres, para se interessar pelo estudo dos irmãos e nunca esquecer o que estes lhe explicavam». In Cristina Norton, O Segredo da Bastarda, 2002, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-231-047-3.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

 JDACT, Cristina Norton, Literatura,

domingo, 15 de agosto de 2021

O Segredo da Bastarda. Cristina Norton. «Mas nem tudo podia pertencer ao mundo da fantasia. Gregório tinha chegado ao continente americano com algumas luzes, Pedro ainda sabia pouca coisa e Diogo, entre viagem, adaptação e os nascimentos…»

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Brasil

«(…) Antes de acabar a quarentena, engravidou outra vez. Desta teve enjoos, dores de cabeça, quebras de tensão e, no momento do parto, as coisas pareceram complicar-se de tal maneira que a parteira decidiu recorrer aos grandes remédios. Mandou uma escrava prevenir o padre, que por sua vez mandou o sacristão tocar o sino da igreja nove vezes, enquanto outras mulheres calcorreavam Vila Rica procurando nove meninas virgens chamadas Maria, que deviam rezar nove ave-marias para que tudo batesse certo e a mulher do governador pudesse dar à luz o seu filho sem risco de vida para nenhum dos dois. As escravas bateram a várias portas sem grande resultado, porque, ainda que encontrassem Marias com fartura, ou não possuíam hímen, ou não sabiam dizer as orações. O que se pensou que demorasse meia hora levou tanto tempo que o último filho, José Tomás, nasceu antes que conseguissem reunir as nove meninas. De qualquer forma, o expediente não teria resultado, porque o padre, convencido de que era mais fácil encontrar as meninas, apressou o acólito a dar as badaladas, e esse meio só era eficaz se tudo se fizesse ao mesmo tempo. Maria José, debilitada por três gravidezes em tão pouco tempo, viu-se obrigada a recorrer a uma ama, porque não tinha leite suficiente para dar de mamar a dois filhos e preferiu reservar o seu para o recém-nascido. Custou-lhe entregar Isabel ao peito de uma desconhecida, ainda que a sua condição lho permitisse, não só por uma questão de posses, mas porque a legislação concedia esse privilégio às fidalgas. Havia mulheres do seu meio que não prescindiam mesmo desse direito e secavam o leite pondo folhas de sabugueiro enxutas sobre os seios. Mas ela não partilhava dessas ideias nem achava que amamentar lhe estragasse o peito, pelo contrário, sentia-se mais perto dos filhos quando lhes dava de mamar e, sempre que Rodrigo assistia a esse momento quase mágico, um elo de ternura envolvia-os a ambos. Procurou saber tudo sobre as amas, escolhidas entre as brancas e portuguesas, desde o estado de saúde, não só do corpo como também da alma, até ao lugar onde tinham morado desde a infância e se eram felizes, porque achava que o leite devia azedar com as agruras da vida. Descartou as que não preenchiam os requisitos e contratou uma que caiu nas suas graças pelo sorriso amplo e o olhar luminoso, não tinha a opulência das outras, mas da alimentação se encarregariam na cozinha por ordens estritas suas, não fosse comer algo que desarranjasse os humores da sua filha.

Entretanto, Gregório, Pedro, Diogo e Eugénia sentiam que lhes tinham crescido asas nos braços e nas pernas e, de tanto andarem em liberdade, começaram a perder a cor branca de cera que tinham trazido do reino e adquiriram um suave tom dourado, porque, mesmo obrigados a usarem chapéu, o ar morno parecia bronzeá-los ao passar ao de leve pelos corpinhos que cresciam e espigavam como trigo. Conheceram o prazer de provar frutos exóticos, arrancados das árvores, ainda quentes do sol, o sumo a escorrer pelos bracinhos finos que iam lavar rapidamente ao riacho ou à fonte, para que ninguém suspeitasse de que passavam o dia a comer coisas proibidas, desrespeitando as horas impostas de intervalo entre o almoço, às nove da manhã, e o jantar, às três da tarde. O pior era quando tinham de esconder alguma dor de barriga ou a falta de apetite com a desculpa de que o sono os vencia, esperando que os mandassem dormir a sesta e só tivessem de voltar a sentar-se à mesa à hora do chá, pelas sete, quando o Sol se punha. Aprenderam a brincar com o que a natureza lhes proporcionava, faziam exércitos de escaravelhos, seguiam os trilhos das formigas, partiam à descoberta de aves raras de cores nunca vistas sem terem praticamente de se afastar da casa. Os macacos amestrados para lhes tirarem os piolhos, em vez de fazerem o seu trabalho, corriam atrás deles e roubavam-lhes insectos, folhas secas, vagens e sementes que eles guardavam em esconderijos como se fossem pequenos tesouros. Certos dias faziam de conta que o topo de uma árvore era a torre de vigia de um navio e davam ordens a uma armada imaginária que navegava nas ondas da floresta para que atacasse os barcos de piratas que tentavam invadir o seu reino.

Mas nem tudo podia pertencer ao mundo da fantasia. Gregório tinha chegado ao continente americano com algumas luzes, Pedro ainda sabia pouca coisa e Diogo, entre viagem, adaptação e os nascimentos dos irmãos mais novos, já passara da idade em que se começava normalmente a aprendizagem: sete anos. Ao tomar consciência de que tinha omitido no rol das suas obrigações essa parte importante da formação dos filhos, Rodrigo mandou o seu secretário procurar o melhor preceptor e que não demorasse a cumprir com o que lhe pedia. Nem incomodou a mulher com a escolha, via-a demasiado atarefada com bebés, amas e costumes aos quais tinha dificuldade em adaptar-se. Apresentou-se um homem com cartas de recomendação de famílias respeitáveis e, pelo trato e a maneira como respondia às suas perguntas, contratou-o de imediato». In Cristina Norton, O Segredo da Bastarda, 2002, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-231-047-3.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

Cristina Norton, Escrita, JDACT, Literatura, Narrativa, MLCT, MLAC,

O Segredo da Bastarda. Cristina Norton. «O calor e algumas moléstias obrigaram-na a ficar de cama no último mês de gravidez e, quando começaram as primeiras contracções, vieram ao seu quarto cinco mulheres para lhe darem assistência durante o parto»

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Brasil

«(…) Em Vila Rica descobriram, da janela do sótão do palácio, montes que se perdiam no horizonte e lhes lembravam o Minho e jardins onde viam meninos como eles a correrem seguidos pelos moleques, filhos de escravos que acompanhavam os senhozinhos nas brincadeiras. À hora do beija-mão, o mais velho dos irmãos pediu licença ao pai para falar, incitado pelos outros que esperavam ansiosos pela resposta, e perguntou se a eles também lhes seria permitido entreterem-se da mesma maneira que os meninos brasileiros. Rodrigo Meneses, tomado de surpresa, não soube o que dizer. Preferiu evitar dar o seu consentimento a algo de que mais tarde pudesse arrepender-se e adiou para outro dia a resposta, pois não conhecia ainda os costumes do país e queria aconselhar-se com alguém que lhe pudesse dar uma opinião. Não deixou de lhes lembrar que não eram meninos nascidos num berço qualquer, eram netos do marquês de Marialva e filhos do governador de Minas Gerais e deviam comportar-se como tal. Ao cabo de alguns dias, deu-lhes, porém, licença para brincarem como os outros e as crianças ficaram contentes por poderem experimentar um modo mais alegre e mais livre de viver.

Os pequenos Meneses trocaram a roupa justa e aperaltada, que só voltava a sair dos baús nos dias de missa e de festa, por outras mais leves, que lhes permitiam mexerem-se à vontade, e adaptaram-se rapidamente a um ritmo que tinha mais a ver com o percurso do Sol, o vento fresco dos montes e as chuvas. Partiam à descoberta desse mundo novo ao raiar do dia, os rapazes seguidos cada um do seu moleque, Eugénia acompanhada por uma pretinha poucos anos mais velha do que ela, chamada Miló, que se prestava tão bem a todas as brincadeiras que pareciam ter a mesma idade. Maria José agradecia a Deus poder ver da janela do seu quarto os filhos jogarem à apanhada entre as árvores, porque ainda amamentava o bebé que tinha nascido no barco e o seu ventre já se arredondava outra vez. Mesmo obedecendo à regra de abstinência sexual nos dias santos e na Quaresma, o calendário ainda lhes permitia muitos dias de liberdade e as consequências não demoravam a aparecer à vista de todos. Logo que se apercebia do seu estado, entregava o molho de chaves à velha criada para evitar que a criança nascesse com lábio leporino e guardava os fios e os brincos numa caixa própria. Assim, as marcas que as joias lhe deixavam nas orelhas e no pescoço não passariam para a pele do recém-nascido.

Na viagem de barco contentara-se com uma ração dupla de biscoitos enquanto estivera grávida, porque não podia pedir o impossível. Mas em terra aproveitou o seu estado interessante para exigir ao marido que mandasse vir do Rio de Janeiro todas as coisas que escasseavam em Vila Rica, com o pretexto dos inevitáveis desejos. Fez uma longa lista e, pouco tempo depois, viu a despensa encher-se de presunto do reino, vinho do Dão, ameixas secas, amêndoas, sidra, conservas de damascos e de ginjas, uvas frescas e maçãs pequenas. O governador lembrou-se de acrescentar umas tigelas de manteiga para barrar o pão cozido em forno de lenha, que um padeiro português instalado no Rio confeccionava para os que podiam matar as saudades estomacais. Foi o próprio Rodrigo que entrou na salinha onde a mulher passava as tardes, seguido de uma criada com um tabuleiro contendo a surpresa, que Maria José agradeceu de boca cheia, porque não resistiu à tentação de comer imediatamente um naco de pão barrado com a insólita manteiga.

O calor e algumas moléstias obrigaram-na a ficar de cama no último mês de gravidez e, quando começaram as primeiras contracções, vieram ao seu quarto cinco mulheres para lhe darem assistência durante o parto. Uma delas trazia as Tábuas da Lei para colocar no travesseiro, outra umas tesouras bentas que deviam ficar debaixo da cama durante o nascimento, a terceira uma taça com caldo feito com penas de perdiz, que Maria José teve de beber dissimulando o nojo que o sabor lhe causava. Entretanto, as restantes começaram a rezar o credo em voz alta e, quando as dores se tornaram menos suportáveis, todas começaram a gritar e a futura mãe com elas, como se não resistisse a fazer parte do coro de lamentos, não tanto porque sentisse rasgarem-se as suas entranhas, mas mais para cumprir com a obrigação de dar à luz com dor, que era como Eva tinha parido. Assim nasceu Isabel, a segunda menina, que foi logo lavada, enfaixada e vestida com camisas de rendas e fitas. Antes de sair nos braços da madrinha para ser imediatamente baptizada, a mãe passou-lhe pela cabeça um fio de algodão grosso com uma medalha e um escapulário para a proteger do mal. Maria José, cansada pela representação teatral do parto doloroso, quando era capaz de deitar os filhos ao mundo sem mais ajuda do que as orações, dormiu até à manhã seguinte». In Cristina Norton, O Segredo da Bastarda, 2002, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-231-047-3.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

Cristina Norton, Escrita, JDACT, Literatura, Narrativa, MLCT, MLAC, 

domingo, 15 de dezembro de 2019

O Segredo da Bastarda. Cristina Norton. «Eugénia Maria sentia-se impotente diante dos acessos de tosse que deixavam a filha num estado de prostração cada vez maior. Tentava, enquanto lhe limpava o suor do rosto…»

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Travessia do Atlântico
«(…) De tarde, o som dos batuques acordou-os da sesta. Rodrigo já tinha ouvido falar nessas indecências e proibiu os filhos de irem à varanda, para onde todos se tinham dirigido numa correria, arrastando os sapatos meio calçados e com as meias caídas. Obedeceram depressa e, sem barulho, foram esgueirar-se pelas janelas do sótão para verem o espectáculo do cortejo de pretos e mulatos, que se contorciam ao som dos tambores, vestidos de branco, quase todos descalços, levantando o pó da rua com os pés chatos que pouco ou nada se descolavam do chão, numa cadência sensual que tinha provocado escândalo nos eclesiásticos sem, no entanto, se conseguir a sua proibição, pela simples razão de que era contagiante e ninguém conseguia ficar sem se mexer ao vê-los passar. Assim, escravos e libertos celebravam a chegada do novo governador de Minas Gerais, que por breves minutos se manteve junto da porta de entrada da sua residência, acenando com a cabeça em jeito de agradecimento, sem um sorriso sequer. As comemorações não se ficaram por aí. Houve depois uma missa cantada por um coro de pretos dirigidos pelo compositor e regente Parreira Neves, mulato famoso que ensinava na escola de música de Vila Rica; e, ao anoitecer, foram a um espectáculo teatral com mímicas e danças.
Como estas recepções eram oficiais, os pequenos Meneses puderam assistir também. Eles nunca tinham ido a nenhuma representação, muito menos daquele género. Durante anos lembraram-se dessa noite e contavam-na aos irmãos mais novos, acrescentando sempre mais um detalhe. Ao voltarem para casa quando já era noite escura, ficaram encantados com os lampiões da rua, mesmo se deles saía um cheiro desagradável a peixe queimado. Como resposta à pergunta do porquê desse fumo nauseabundo, disseram-lhes que era do óleo de baleia que utilizavam para iluminar a vila. Acharam-na mais moderna do que Lisboa, que não tinha luzes nem à volta do Paço, porque ninguém queria pagar o imposto de iluminação.

A Bastarda
Eugénia Maria sentia-se impotente diante dos acessos de tosse que deixavam a filha num estado de prostração cada vez maior. Tentava, enquanto lhe limpava o suor do rosto, acalmar a angústia de ambas falando-lhe baixinho. A chegada ao Brasil provocou na minha mãe e nos irmãos mais velhos uma mistura de emoções. Medo da imensidão desconhecida, de um território que parecia não ter fronteiras, onde, se se perdessem, podiam acabar na barriga de um animal selvagem ou simplesmente desaparecer. Mas, ao mesmo tempo, esse espaço sem limites atraía-os, fazia-os sentirem-se invulneráveis. Nessa época, os costumes eram ali mais permissivos do que em Portugal. A primeira surpresa foi a recepção que lhes fizeram os pretos e que os deixou maravilhados, pois nunca tinham visto nada igual, eram crianças habituadas a uma seriedade quase monacal. Porquê? Antes viviam num convento? Não, Isabel Maria, viveram em Guimarães, na Casa do Arco, entre os muros do jardim, com pouco tempo e espaço para brincarem. Deus não quis ainda que conhecêssemos o Brasil, talvez um dia possamos ir. A tua avó Eugénia dizia sempre que era a melhor coisa que lhe tinha acontecido na vida.

Brasil
Maria José dedicou a primeira semana a familiarizar-se com os novos criados e escravos, arrumando ao seu gosto as salas e os quartos, mudando só às vezes a posição dos móveis, pondo aqui e ali alguns objectos pessoais trazidos na viagem; e encomendou colchões de pêlo de cabra e de cabelo para substituir os velhos, deixados pelos anteriores ocupantes do palácio. As crianças puseram-se a explorar os cantos à casa, procurando passagens secretas e outros divertimentos caseiros, porque por enquanto só conheciam brincadeiras curtas e espaços reduzidos por fronteiras de pedra e cal. Como todos os habitantes de Guimarães, também eles tinham vivido ao ritmo das horas canónicas, atentos aos sinos da igreja que chamavam a rezar as matinas, a tércia, a sexta e a noa, depois o angelus, as vésperas e as completas, quando não havia o toque de finados a meio da noite, que os impedia de continuarem a dormir. Esse compasso limitava os seus movimentos e, mesmo não sendo obrigados a parar de fazer o que tinham começado, havia um silêncio que respeitavam e uma quietude que se apoderava deles enquanto duravam as badaladas». In Cristina Norton, O Segredo da Bastarda, 2002, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-231-047-3.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

terça-feira, 5 de julho de 2016

O Segredo da Bastarda. Cristiana Norton. «Outras surpresas lhes reservava o caminho, entre elas animais estranhos que observavam, curiosos, o passar da caravana; rios com cascatas que pareciam gravuras de livro; ataques de mosquitos; chuvas torrenciais»

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«(…) Voltaram a embarcar e Maria José ficava todos os dias no seu camarote até à hora de jantar, depois voltava a fechar-se, saindo só com a aragem fresca da noite para dar uma volta pelo convés, apoiando-se no braço do marido. A morgada da Casa do Arco levava uma carga particular, que lhe dilatava a pele e afastava os ossos da bacia. Numa tarde em que os ventos sopravam a favor e a nave deslizava suavemente num mar que parecia de azeite, como se todos se tivessem afastado por respeito ao milagre da vida e não quisessem incomodar a parturiente, Maria José, acudida pelas suas duas criadas e uma ama oferecida pelo governador de Cabo Verde, deu à luz um menino a quem puseram o nome de Manuel. Nascido perto da costa brasileira, foi provavelmente por isso que esse mesmo mar se julgou com o direito de o reclamar quando já era um homem.
Um dos meus tios, a quem a minha mãe chamava o saudoso irmão, nasceu no alto mar. No mesmo oceano em que morreu quando a corte se mudou para o Brasil. Fez-me pensar na altura que, afinal, o mar sempre tinha um monstro devorador que se alimentava de jovens bonitos, como naquela lenda grega que te contei há muito tempo. A lenda do Minotauro? Essa mesmo, herdaste a boa memória do teu bisavô que, quando tinha a tua idade, quinze anos, deixava todos boquiabertos com a capacidade para fixar tudo o que ouvia. Mas ia dizer-te que a avó Eugénia não guardou boas recordações da travessia por lhe parecer demasiado longa. Provavelmente, essa foi a razão pela qual o nascimento do meu tio Manuel foi recebido com mais alegria do que era habitual, porque os distraía olhar para ele, seguindo os movimentos dos bracinhos e os seus sorrisos de anjo. A sua chegada ocorreu quase no fim da viagem, e o capitão, consciente de que as crianças não encontravam com que se entreter, tinha a simpatia de as avisar sempre que algumas espécies raras acompanhavam o barco. Parece que se debruçavam na proa e, com o vento na cara, viam os peixes voadores e os golfinhos saltarem junto à quilha como se fosse uma escolta marinha.
As ondas embalavam o recém-nascido e, nas raras vezes em que o mar ficava encapelado, os sustos e os enjoos de Maria José e dos filhos quebravam um pouco a monotonia de uma viagem que parecia nunca mais chegar ao fim. Rodrigo ocupava o tempo em longas conversas com o capitão e as outras pessoas que tinham o privilégio de se sentar à sua mesa e, entre as refeições, sonhava com a vida que os esperava, com um país do qual não conseguia medir a imensidão e com um pitoresco tropical que, por mais que se esforçasse, não lograva imaginar. Quando os ventos assim o quiseram, puderam desembarcar no Brasil, mas ainda lhes faltava a travessia por terra, que fizeram de carroção, e os solavancos eram ainda mais desagradáveis do que o movimento oscilante do barco, e só ao cair da tarde encontraram uma choça onde puderam pernoitar. Maria José ficou muito contrariada porque nunca tinha dormido debaixo de um telheiro de palha, aberto de todos os lados, mas acabou por descer e ordenar às crianças que fizessem o mesmo. Rodrigo, entretanto, fazia de conta que não ouvia as suas reclamações, estratagema usado por inúmeros maridos na mesma situação, e pedia aos tropeiros que armassem as redes depressa, assim a mulher e os filhos adormeciam e não protestavam mais. Depois de instalar suas senhorias, os homens descarregaram as mulas e soltaram-nas, para que pastassem nas redondezas, e deitaram-se na terra encostados aos fardos para descansarem melhor.
Outras surpresas lhes reservava o caminho, entre elas animais estranhos que observavam, curiosos, o passar da caravana; rios com cascatas que pareciam gravuras de livro; ataques de mosquitos; chuvas torrenciais e, talvez o pior, porque Maria José nunca tinha visto nada igual, uma família de índios em pelo, que se atreviam a sorrir-lhes e a dar-lhes as boas-vindas, como se a terra que pisavam lhes pertencesse. Foi tal o fascínio que a nudez provocou na morgada que esta não conseguiu desviar os olhos e se esqueceu de dizer aos filhos que fechassem os deles. Finalmente viram aparecer, por entre a vegetação luxuriante, Vila Rica de Albuquerque. Graças ao ouro que abundava nas minas, encontraram um lugar que lhes lembrava os do reino: ruas calcetadas, jardins com fontes, algumas casas com janelas de guilhotina e vidros pequenos, mesmo se a maioria só tinha umas ripas de madeira entrelaçadas para deixar passar a luz, parecendo ser esse o género preferido pelos brasileiros num clima que exigia arejamento. O Palácio do Governador estava pronto para os receber e, ao entrar nele, todos imaginaram antecipadamente o prazer de dormir em camas verdadeiras e em terra firme. Mas os corpos não se desabituaram numa noite à oscilação do barco e do carroção e todos sentiram o estranho efeito de que tudo era de uma imobilidade singular. Na manhã seguinte, ao pôr-se de pé, não houve um sequer que não sentisse o chão a fugir-lhe debaixo das solas dos sapatos. As pernas demoravam a habituar-se à quietude da terra e, titubeantes, procuravam o equilíbrio incerto a que se tinham acostumado nos meses passados no mar». In Cristina Norton, O Segredo da Bastarda, 2002, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-23-1047-3.

Cortesia de OLivro/JDACT

terça-feira, 31 de maio de 2016

Navegar no 31. O Segredo da Bastarda. Cristiana Norton. «Chegou o dia em que a família e as duas criadas que os acompanhavam desde Guimarães embarcaram num barco chamado Gigante para o Brasil. Navegavam mais dois navios junto ao deles…»

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«(…) Tiveram de fazer as visitas de cortesia e ir aos beija-mãos no meio de nuvens de poeira, mas valeu a pena porque Rodrigo foi nomeado governador e Capitão-General de Minas Gerais, Baía e Grão-Pará. A nova situação obrigou-os a começarem a preparar as coisas para a viagem que estava marcada para daí a três meses, mas dessa vez dividiram as tarefas. Maria José tratou da compra de panos de linho, de algodão, de seda fina e também de chita da Índia, de cores sóbrias, como lhe recomendou o marido ao mostrar-lhe uma bolsa com moedas pesadas que o ministro lhe dera pessoalmente para que pudesse fazer face às despesas. Uma parte do dinheiro foi enviada a um tio da morgada, para que resgatasse as pratas que tinham ficado em casa do prestamista em Guimarães. Eram objectos que estavam na família havia várias gerações e Rodrigo tinha-se comprometido a recuperá-los assim que a sua situação económica o permitisse.
A entrada da casa encheu-se de coisas que eram descarregadas continuamente e Maria José teve de destinar um quarto espaçoso para irem pondo as caixas. O rodopio aumentou quando começaram a aparecer as costureiras e os alfaiates e invadiram os quartos de vestir de adultos e crianças, onde empilhavam peças dos mais variados panos para prepararem um enxoval digno do cargo e do clima do Brasil, oposto, em temperaturas e chuvas, ao do Minho. Tomaram medidas, sugeriram modelos, fizeram provas de vestidos de corte e redondos para os bailes, sapatos, luvas e enfeites de cabeça. Para as crianças, trajes de sair e de ir à missa, mas sobretudo roupa leve para andar por casa. O futuro governador declarou, com uma presunção nunca vista, que precisava de uma capa de seda preta com bandas ricamente bordadas, de chapéu de penas brancas, casacos curtos e abertos, por causa do calor, calções de tecido da Holanda em tom cru, ceroulas e cabeleiras. O alfaiate mandou o seu aprendiz assentar essas vontades todas, mantendo-se imperturbável, como se lhe estivessem a encomendar um par de camisas, enquanto a sua mente registava os cifrões com uma precisão de contabilista. Chegaram meias de seda de cor preta e pérola, e também branca para uso diário, de todos os tamanhos porque as crianças iam crescer todos os meses e não deviam encontrar-se nessas terras incivilizadas coisas tão imprescindíveis e, principalmente, de acordo com os costumes do reino.
Enquanto Maria José tratava desses assuntos de menor importância, Rodrigo dispôs-se a organizar a botica portátil aconselhando-se com um dos médicos da corte, que lhe fez uma lista dos trinta e tal remédios que convinha levar, e a ajuda do boticário que, além de lhe fornecer os produtos, lhes juntou umas folhas escritas pelo seu punho e letra com a enumeração das virtudes e a maneira de utilizar as drogas. O que a princípio lhe pareceu uma tarefa ingrata, deixou de o ser ao descobrir como se entretinha a mexer nos frascos, nos pós e nos unguentos que foram ocupando o compartimento destinado a cada um numa caixa de madeira nobre que mandara fazer. Perante o olhar atónito da mulher, que não conseguia acreditar que os serões se tivessem transformado em aulas de farmacologia, o governador descrevia os poderes curativos da água de canela, boa para a digestão, expulsar flatos, fortificar a cabeça e o coração; do bálsamo católico, que tanto servia para as feridas como para a dor de dentes; do óleo de amêndoas doces, que se usava externamente para qualquer dor e internamente nas deflexões, para adoçar a acrimónia da linfa, que ofendia muito. Maria José ouvia tudo com uma atenção fingida, muito mais preocupada com o avesso do ponto cruz, que a ajudava a suportar as intermináveis explicações do marido.
Chegou o dia em que a família e as duas criadas que os acompanhavam desde Guimarães embarcaram num barco chamado Gigante para o Brasil. Navegavam mais dois navios junto ao deles, porque nenhum capitão se arriscaria a atravessar sozinho os mares, onde costumavam surgir corsários, temporais, doenças ou outra situação inesperada que não seriam capazes de enfrentar sem ajuda. Depois de navegar duas semanas, avistaram o porto de Santiago, em Cabo Verde, que era a paragem obrigatória para se abastecerem de água doce e comprarem alimentos frescos para armazenarem no porão dos barcos. A família aproveitou os momentos livres para passear pela ilha: a nova condição de governador obrigava-o a fazer visitas a altos funcionários da coroa, ávidos de notícias, de cartas e de algum mexerico com que amenizar as longas tardes em que o mar lhes trazia sempre o mesmo som das ondas a desfazerem-se na areia, num ramerrão que lhes amolecia o corpo e os sentidos. Depois de se terem informado das novidades do reino e de indagarem sobre a vida dos Meneses, o desejo íntimo dos brancos da ilha era que acabasse a estada de pessoas ilustres para poderem novamente fechar o círculo e voltar à rotina, cansados de tanta cerimónia, dos sapatos que lhes apertavam os joanetes e do peso de uma roupa que não tinha sido pensada para essas latitudes e que tinham de usar nessas ocasiões». In Cristina Norton, O Segredo da Bastarda, 2002, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-23-1047-3.

Cortesia de OLivro/JDACT

sábado, 16 de abril de 2016

O Segredo da Bastarda. Uma história de amor, traição e intriga. Cristiana Norton. «As criadas trabalhavam aos pares, desdobrando panos brancos para cobrirem os móveis, os quadros e os espelhos. Os lustres faziam parte do trabalho dos homens…»

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A Madrinha
«(…) Rodrigo dissimulava melhor, mas deixou de sorrir durante meses. O desgosto e talvez a inexperiência fizeram com que não soubesse administrar os bens que a mulher herdara. Não que delapidasse em futilidades os dobrões guardados em contadores com esconderijos secretos, imaginados para enganar ladrões, mas não conseguia equilibrar as parcelas do Deve e do Haver no seu caderno diário. Sentiu vontade de fechar a Casa do Arco e nunca mais lá voltar e tentou junto do pai um empenho para alguma boa situação onde pudesse ganhar o suficiente para sustentar a família. A sua mulher, como era de esperar, não lhe pediu contas; e ainda bem, porque ele não podia explicar como lhe tinham fugido das mãos bens e dinheiro: por mais voltas que desse aos números, o resultado ia dar sempre ao mesmo. Penhorou as pratas para pagar a viagem e a estada em Lisboa e disse ao jantar que iriam sair de Guimarães. Maria José acatou a decisão, sem pensar sequer em contrariar a vontade do marido, e deu ordens precisas a uma dezena de criadas para prepararem a mudança, com um vigor que a animou de repente, alimentado pela pueril ideia de que podia deixar a dor da perda do filho trancada no baú do quarto, juntamente com as roupas que ele usara.
As criadas trabalhavam aos pares, desdobrando panos brancos para cobrirem os móveis, os quadros e os espelhos. Os lustres faziam parte do trabalho dos homens, pelo medo das alturas próprio das mulheres e a inconveniência de, mesmo as mais velhas, poderem mostrar parte do tornozelo. Também os tapetes e as tapeçarias, depois de sobre eles serem colocadas bolsinhas com cânfora, eram enrolados e carregados pelos criados até à arrecadação. Quando a carruagem que os levaria até Viana do Castelo desceu as ruas de Guimarães, nem olharam para trás. Não quiseram ver a casa onde lhes tinha morrido, ainda menino, o filho António, nem pensar nas dívidas que deixavam, juntando num só canto do mundo tudo o que era má recordação, motivo de desassossego e sofrimento. Encontraram Lisboa em obras, o que lhes dificultou a descida do barco, porque para substituir os canos danificados da cidade foi preciso esventrar o pavimento até ao Palácio da Inquisição (maldita). Os pequenos Meneses viram as crianças da rua aproveitarem o caos para subirem ao alto dos montes de entulho, que com seis palmos de altura pareciam formigueiros gigantes.
Rodrigo adivinhou no olhar dos filhos uma pontinha de inveja por não poderem fazer o mesmo e disse-lhes que era perigoso para essas crianças correrem assim, porque podiam ser atropeladas por uma besta de carga; e, para lhes desviar a atenção, prometeu-lhes que fariam uma visita à cidade, onde descobririam as coisas mais surpreendentes. Aproveitou ele também para conhecer o novo Passeio Público, que ficava entre o Palácio da Inquisição e a Praça da Alegria. Comentou mais tarde com um amigo que a escolha do lugar não tinha sido feliz, ainda que não houvesse provavelmente outro melhor, porque, dependendo da direcção em que soprava o vento, podia chegar até ao Passeio o cheiro a queimado de algum auto de fé e, do outro lado, a vista podia transformar-se num horror, pois dali era possível ver o corpo de um justiçado a baloiçar na trave do cadafalso. De qualquer maneira, sempre era preferível do que passear os filhos pelo Cemitério dos Ingleses que, até então, era o único parque aberto aos lisboetas.

A Bastarda
Eugénia Maria aproximou-se da filha fazendo o menor ruído possível. Já estás acordada, Isabel Maria? Sim, mãe. Não consigo dormir mais. O repouso é muito importante para o tratamento. Passo os dias deitada neste cadeirão, não acha que descanso o suficiente? Pois é. Mas vai valer a pena o sacrifício, estes meses na Madeira vão curar-te. Se pudesse ter essas suas certezas... Não desanimes, minha filha. Tem razão, continue a contar-me a vida da avó Eugénia, é como se estivesse a ler-me um romance. Assim gosto mais. A minha mãe, provavelmente por ser na altura muito nova, recordava mais a confusão do que a beleza de Lisboa. Tinham desembarcado numa cidade em obras, a recompor-se lentamente do tremor de terra e dos incêndios, onde ainda havia muitos esqueletos de casas e palácios, atafulhados de escombros, e as pedras das ruas estavam levantadas para construírem uns esgotos gigantescos. O meu tio Gregório ficou tão perplexo com eles que o pai os levou a todos, alguns dias mais tarde, a visitar os canos, por onde andaram como se estivessem num túnel, tal era a altura. Assim, foram conhecendo com ele um pouco da cidade e chegaram a ir até Sintra, numa excursão que durou desde a madrugada até bem entrada a noite. A mãe não os acompanhou, saía pouco de casa por causa dos enjoos e tinha já de dissimular com vestidos largos o seu estado à frente de estranhos que a etiqueta da corte obrigava a ver». In Cristina Norton, O Segredo da Bastarda, 2002, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-23-1047-3.

Cortesia de OLivro/JDACT

domingo, 8 de março de 2015

O Segredo da Bastarda. Uma história de amor, traição e intriga. Cristiana Norton. «Dois anos depois do baptizado de Eugénia, nasceu outro menino na Casa do Arco, a quem chamaram António, mas dessa vez os padrinhos foram escolhidos entre os mortais e, por serem altas personalidades da corte…»

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A Madrinha
«(…) Achou melhor não partilhar o mistério com o marido, para evitar angustiá-lo sem motivo e também porque não iria acreditar em coisas que pareciam vindas do demónio. A sua juventude fez com que esquecesse no dia seguinte o aviso funesto. E quando, na hora da morte, passou em revista os momentos e as pessoas mais importantes da sua vida, entre as quais estavam os seus filhos, ao lembrar-se daquele sussurro esboçou um sorriso e disse à sua filha Eugénia: Morro sossegada, sei que está bem e nada faz prever que o seu destino mude.

A Bastarda
Naquele fim de tarde primaveril do ano de 1859, na ilha da Madeira, mergulhando o olhar nesse mar que lhe provocava um magnetismo de feitiço, Eugénia Maria Meneses Smith sentiu a necessidade de aliviar a sua mente do segredo da sua paternidade. Não havia espaço nela para nenhuma outra dor, porque ver morrer um pouco cada dia a única filha que lhe restava lhe ocupava o corpo todo. E aos 56 anos já lhe era insuportável conviver com o sentimento de indignação que a acompanhava desde a infância pela injustiça que fora cometida com a sua mãe e consigo própria. Tantas vezes ouvi a tua avó contar a história dos preparativos e da festa do seu baptizado exactamente como os descrevera a sua mãe que quase poderia reproduzir de memória os detalhes mais ínfimos, como o cheiro das flores e dos cozinhados, o tilintar dos copos e talheres, a voz grave do padre obeso e a satisfação da tua bisavó Maria José quando deitaram na cabeça da sua primeira menina a água do jarro de prata com que foram purificados todos os recém-nascidos da família Meneses (menos eu), porque ela, com os seus desvelos de pássaro, tinha mandado aquecer ligeiramente a água antes de ser benzida. A tua avó Eugénia soube, depois de muitos anos, que no fim dos festejos, quando a mãe a levantou do berço, não era a emoção do sacramento que a fazia tremer por dentro, mas sim uma necessidade urgente de esconjurar o presságio com o seu corpo, fundindo-se com a filha num abraço.
E a mãe foi baptizada como? Em circunstâncias diferentes, Isabel Maria. O meu nascimento foi ocultado durante bastante tempo. Não percebo, mãe, porquê? O meu nascimento ou a minha identidade, é a mesma coisa. Ainda hoje não sou quem deveria ser. Que confusão! Se te explicar as coisas desde o princípio, vais perceber. É o meu segredo. E é assim tão mau que só agora mo conta? O penoso é ser um segredo. Mas não me faças precipitar. Para entenderes o porquê de tudo o que se passou, tenho de começar pelo nascimento da minha mãe. É a única maneira de a história fazer algum sentido.

Novidades da Família
Dois anos depois do baptizado de Eugénia, nasceu outro menino na Casa do Arco, a quem chamaram António, mas dessa vez os padrinhos foram escolhidos entre os mortais e, por serem altas personalidades da corte, foram representados, como era costume, por um membro importante da família. As viagens eram tão difíceis e perigosas que até para os casamentos se recorria à procuração. A única menina da família assistiu à cerimónia do sacramento ao pé do irmão Gregório, um pequeno senhor de oito anos que já conhecia o seu papel de filho primogénito e ficava sempre orgulhoso de ser ele a segurar a mão da irmã, sobretudo nos momentos em que ela demonstrava uma maturidade pouco comum em crianças da sua idade.
Pedro e Diogo, de seis e cinco anos, mantinham-se direitos para não amarrotarem a roupa feita de propósito para estrearem nesse dia, olhando as fivelas dos sapatos novos com atenção ou seguindo o voo das moscas, que tinham ido refugiar-se dentro de casa para evitar que o calor desse final de Julho lhes derretesse as asas. Foi a última festa da família Meneses na Casa do Arco. Durante os poucos anos que ainda lá viveram, nada de bom lhes aconteceu para comemorar, bem pelo contrário. Geralmente, o tempo passava numa pacatez de província e os serões só se animavam com alguma visita imprevista ou um viajante que trazia novas da corte.
Chegaram por essa via, diluídos pela distância, os lutos rigorosos pela morte do rei José I. Mas outro luto cobriu o brasão da família, uma morte inesperada, muito mais próxima, justamente a de António, o filho mais novo de todos, aquele que não parecia frágil e, no entanto, não conseguiu resistir a uma doença comum. E, mesmo quando a boa educação a obrigava a ser recatada, Maria José não conseguia controlar as lágrimas, que lhe caíam dos olhos tão naturalmente que lhe davam a sensação de que um véu lhe toldava a vista. A dor instalou-se no seu corpo e no seu tempo, como se vivesse unicamente para sofrer». In Cristina Norton, O Segredo da Bastarda, 2002, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-23-1047-3.

Cortesia de OLivro/JDACT

O Segredo da Bastarda. Uma história de amor, traição e intriga. Cristiana Norton. «Ao terceiro dia, o andor voltou a ser colocado no seu lugar dentro do coche que ia levar N. S.ª da Madre de Deus de volta a Lisboa, de onde não voltaria a sair. Antes de partir, o pajem Damasceno entregou como presente de despedida da madrinha…»

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A Madrinha
«(…) As pessoas saíram às ruas para me receber, ajoelhando-se e benzendo-se à minha passagem, excepto os mais velhos e as crianças de colo, que me davam as boas-vindas das varandas. Quando passei por baixo da pequena janela no meio do arco que atravessava a rua, unindo as duas partes da casa, todos os que lá viviam, desde o senhor até ao aprendiz de criado, interromperam o que estavam a fazer para me prestar homenagem: não era todos os dias que uma santa de Lisboa percorria meio Portugal para ir ao batizado de uma menina. Maria José, morgada de Cavalleiros, senhora da Casa do Arco e mãe da minha afilhada, ficara órfã aos seis anos e, provavelmente por se sentir só, por vontade do meu Filho, ou porque a juventude a fazia prolífica, tivera uma criança quase todos os verões desde que se casara, aos dezasseis anos, com o filho mais novo do marquês de Marialva, Rodrigo Meneses, que contava dezanove anos no dia em que se tornara seu marido.
Ambos me esperavam na soleira da porta. Ele era um homem alto, de rosto anguloso e nariz aquilino, com um porte que não deixava a ninguém dúvidas sobre o berço em que nascera; mas descobri-lhe, por detrás do seu ar soberbo de filho de Marialva, pelo cabelo preto que, insubordinado, saía da peruca, tendências para o teatro e as grandes ideias. Ela era um pouco mais baixa, noutros tons, tudo claro desde os olhos e a pele, que mal deixava ver num vestido demasiado sóbrio para a idade, até ao cabelo; as formas eram redondas, bem torneadas, com qualquer coisa de acolhedor nos braços que descansavam no regaço e um sentido do dever desenhado no contorno da boca e do queixo. Não admira que se tivessem apaixonado depois do casamento, como acontecia quando era feliz a escolha da família. No olhar de cada um, um castanho-escuro de ave sonhadora, o dele um azul água de uma transparência de regato, o dela, consegui ler as palavras que, por respeitarem as regras da etiqueta, não disseram em voz alta: Que melhor madrinha poderíamos ter escolhido para a nossa primeira filha? Devo reconhecer que na altura concordei que ninguém poderia protegê-la tão bem como eu da doença, da morte e de outras coisas funestas que espreitavam, vorazes, os berços dos recém-nascidos. Mesmo enfaixada e enfiada num vestido que parecia engoli-la, Eugénia não deixava de ser uma menina muito bonita e prometi velar por ela até se tornar mulher.

O Baptismo
A cerimónia do baptismo teve a solenidade necessária para estar à altura dos ilustres padrinhos, sem, no entanto, fazer uso da pompa da corte, porque a sobriedade era uma das virtudes de Maria José. A comida foi de tal abundância que alguns convidados olhavam com inveja os cães, enfartados com os restos, a dormirem debaixo das mesas ou lá fora, onde houvesse uma sombra. Dois dias e parte de uma noite foi o tempo que demoraram os amigos vindos de vilas e cidades próximas a festejar a pureza da alma da menina, limpa da carga milenar do pecado original. Duas noites e boa parte dos dias os criados da casa não pararam de levar, trazer, lavar, cozinhar e também comer, beber e rir com os serviçais dos vizinhos e alguns trabalhadores das quintas que se lhes haviam juntado para os ajudar, como era costume em ocasiões daquelas.
Ao terceiro dia, o andor voltou a ser colocado no seu lugar dentro do coche que ia levar N. S.ª da Madre de Deus de volta a Lisboa, de onde não voltaria a sair. Antes de partir, o pajem Damasceno entregou como presente de despedida da madrinha uma réplica da santa em prata do tamanho do dedo mindinho da afilhada, que Maria José prendeu aos folhos bordados que forravam o berço e que mais tarde Eugénia levaria sempre presa à roupa interior para que a protegesse das desgraças terrenas. Os pais, de pé sob o arco, despediram-se da imagem e, mal os cavalos começaram a descer a rua de Santa Maria, o céu encheu-se de nuvens escuras e uma chuva espessa, primaveril, caiu de repente. A morgada da Casa do Arco teve um arrepio, porque algo invisível lhe sussurrou ao ouvido: Coitada da tua filha, que terrível destino! Não precisou de olhar em volta, sabia que ninguém, mesmo ninguém, além do seu marido, se aproximara dela. Era uma voz estranha, a voz premonitória, quase podia jurar que lhe faltava o som e talvez nem fizesse sentido». In Cristina Norton, O Segredo da Bastarda, 2002, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-23-1047-3.

Cortesia de OLivro/JDACT

quinta-feira, 5 de março de 2015

O Segredo da Bastarda. Uma história de amor, traição e intriga. Cristiana Norton. «O pajem Damasceno, os dois cocheiros e os homens da escolta lavaram a cara e as mãos no chafariz da vila depois de terem tirado a terra acumulada nas portas, assentos e janelas da carruagem»

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A Madrinha
«(…) Eu continuava bem encaixada no meu lugar; a única coisa que tinha saído do sítio era a pasta que continha os envelopes com as procurações passadas pelo infante Pedro, convidado para padrinho de Eugénia, que, por não poder deslocar-se, transmitira ao tio dela a honra de o representar, pois, sendo este eclesiástico, estaria à altura de um encargo tão importante. Damasceno resolveu deixar a pasta onde caíra e aproximar-se dos cocheiros para os ajudar a consertar a roda, chegando no preciso momento em que o homem mais velho dizia: Isto não é bom sinal, garanto-te eu. Partir uma roda transportando a imagem da Nossa Senhora da Madre de Deus é mau agoiro. Para quem, não sei, mas que daqui não vem nada de bom, isso garanto-te. Só vou ficar descansado quando regressarmos a Lisboa sem ter acontecido mais nada. Nem parece que levamos uma santa! Alto aí, que já começas a blasfemar e, se não fosse teu amigo e não estivéssemos num ermo onde ninguém nos ouve, ias parar à fogueira. Olhem o sol a querer queimar-nos vivos, disse Damasceno, que falava pouco e gostava de gracejar para arrefecer os ânimos. Ouvi o riso dos três que, tirando as casacas e arregaçando as mangas, se puseram a trabalhar. A escolta aproveitou o imprevisto para desmontar, descansar as pernas e esfregar as partes doridas do corpo, deixando que os cavalos comessem algumas ervas sem lhes soltar as rédeas, porque não convinha que se dispersassem, não fosse alguma quadrilha de salteadores ignorar as insígnias da casa real e aproveitar o momento para cair sobre eles. Algumas horas mais tarde, prosseguimos a viagem, guiados por uma lua clara e algumas estrelas que foram aparecendo, uma a uma ou em grupos, como se tivessem estado à espera do sinal para entrar no céu, como faziam todas as noites. Os cavalos desconheciam o caminho, mas seguiam o seu instinto para evitar novos acidentes, tentando adivinhar os perigos entre as sombras da noite.

A Afilhada
Na Casa do Arco, em Guimarães, trabalhava-se para o baptizado. As raparigas do campo, levadas à vila para aprenderem o ofício de servir mal deixavam de ser crianças, andavam de um lado para o outro muito direitas pelo hábito de carregarem tudo à cabeça. Enquanto umas passavam a ferro pela última vez a toalha de linho estendida sobre a mesa grande da casa de jantar, outras escolhiam dos cestos as flores e tufos de folhas para enfeitar o oratório, fazer o centro de mesa e os arranjos da entrada. Encheram os cantos escuros da casa com ramos de cores e cheiros variados, porque os pais queriam celebrar não só o baptizado, mas também a chegada da primeira menina, depois de três rapazes, nascida em 9 de Março de 1775: Eugénia. Os faqueiros e as travessas de prata tinham sido tirados das estantes e gavetões e já estavam a ser areados, e também as loiças finas e os copos de cristal guardados para os dias de festa nos armários eram limpos com panos gastos para que não largassem cotão até ficarem a brilhar. Nas cozinhas sombrias, quatro mulheres vestidas de preto com toucas e aventais brancos andavam de volta dos fogões: uma a atiçar o fogo; outra a bater gemas para o arroz-doce; a terceira a vigiar as peças de carne postas no forno de lenha a assar lentamente e que, depois de algumas horas, ficavam tão tenrinhas que se desfaziam na boca; a última polvilhando de açúcar e canela as filhós acabadas de fritar.
No pátio, os criados tinham montado um espeto de ferro apoiado noutros que acabavam em forma de forquilha, onde aloiravam dois leitões mortos na véspera. Já o borrego tivera um tratamento diferente, requintes como descansar dois dias e duas noites dentro de uma calda de vinha-d’alhos, para depois ser aberto e posto com as patas esticadas a apontarem os cantos da grade, fazendo crepitar os tições de carvão com a gordura. Grelhar a carne é trabalho de homem com sapiência. Mulher cozinha bem, mas só no aconchego do fogão, onde é rainha, repetia o velho escravo Teseu, que não era insensível aos aromas que lhe passavam rente às largas narinas, enquanto puxava lustro a botas, cintos e fivelas. Alheia a tudo o que acontecia por sua causa, Eugénia dormia num berço de pau-santo, forrado de rendas engomadas, entre lençóis suaves de cambraia. Estava longe de imaginar que o cheiro dos bolos e doces que pareciam prometer felicidade eterna fossem, na realidade, ilusões e lágrimas mascaradas com quilos de açúcar.
O pajem Damasceno, os dois cocheiros e os homens da escolta lavaram a cara e as mãos no chafariz da vila depois de terem escovado os cavalos e tirado a terra acumulada durante a viagem nas portas, assentos e janelas da carruagem. À hora anunciada, o coche que transportava a madrinha sagrada subia a rua de Santa Maria e brilhava como se fosse novo e tivesse acabado de sair do Paço. Nossa Senhora, desembaraçada do pano de veludo de seda que a cobria, mostrava o esplendor dos seus paramentos bordados a ouro e prata através dos vidros sem pó. Os habitantes de Guimarães, pouco habituados a tanto movimento, foram logo alertados pelo ruído de muitos cascos de cavalos a pisarem a calçada e, adivinhando quem estava a chegar, correram à rua principal para a ver passar. Um silêncio de recolhimento prendeu as pessoas aos seus lugares, como se tivessem sido hipnotizadas pelo brilho do cortejo e um sentimento redobrado de fé as fizesse sentir cheias de luz». In Cristina Norton, O Segredo da Bastarda, 2002, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-23-1047-3.

Cortesia de OLivro/JDACT

O Segredo da Bastarda. Uma história de amor, traição e intriga. Cristiana Norton. «O homem, num gesto espontâneo para proteger os olhos, deu sem querer um puxão nas rédeas que descontrolou os cavalos, fazendo com que a roda traseira batesse num bloco de granito»

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A Madrinha
«Imaginava que ninguém me levaria a fazer uma viagem sem o meu consentimento porque, sendo quem sou, um desejo real não podia ser mais importante do que a minha vontade. Não nego que por vezes a falta de luz me provoca uma nostalgia de águia e preciso de me elevar às alturas para sentir a imensidão do céu. Porém, nesse momento estava mais inclinada a ficar onde estava. Quando a mãe da recém-nascida me escolheu para ser madrinha de baptismo, não cheguei a recusar o convite, porque frei Anselmo, senhor da casa onde eu morava, pensou que eu não demonstrava qualquer entusiasmo por excesso de modéstia. Nada de menos verdadeiro. O motivo que me levava a não querer aceitar tomar a meu cargo a pequena Eugénia era conhecer, melhor do que ninguém, os limites que me impuseram ao assumir as minhas funções. E, assim, frei Anselmo, orgulhoso de me terem escolhido, apressou-se a agradecer a honra que nos faziam, antes de eu poder, não digo falar, que a mudez não me permitia dizer de viva voz o que pensava, mas pelo menos manifestar de alguma maneira o meu descontentamento. O consentimento foi interpretado como meu e provocou tanta alegria no palácio que as infantas se puseram a bordar o vestido que levei na cerimónia, falando dele como as suas melhores vestes, como se eu, se quisesse, não tivesse podido usar roupas celestiais. Um dia, paramentaram-me com aquelas sedas pesadas por serem debruadas a ouro, e frei Anselmo e o pajem Damasceno andaram durante duas horas à minha volta, suando pelo esforço de me encaixarem no banco do coche, obedecendo à ordem expressa das princesas de não me amarrotarem o dito vestido. Elas seguiam os preparativos através dos rectângulos de vidro das janelas do Paço, pondo-se em bicos de pés e fazendo tanto alvoroço que, no fim, confundiram o meu amuo com a paciência de uma santa.
Depois de encontrarem forma de me proteger, a mim e ao precioso trajo, pensei que finalmente iríamos partir, porque escasseava o tempo para chegar na data marcada para o baptizado. Mas não foi assim, o pajem e os cocheiros pediram licença para adiar a partida até à manhã seguinte por causa do calor, e passei a minha primeira noite fora de casa, expressão que o pajem Damasceno encontrou para não dizer às infantas que eu ficaria ao relento. Antes da madrugada, os dois cocheiros e o pajem atrelaram os cavalos no maior dos silêncios e saímos lentamente do Paço rodeados pela escolta, deixando atrás de nós um suave eco de cascos. Eu, que sempre me sentira bem na minha casa, olhando pelo portão de entrada os telhados prolongarem-se até ao rio, vi-me presa num cubículo de madeira, sofrendo os solavancos do caminho que me levava a Guimarães, coberta com um pano de veludo leve para me proteger do pó que o vento levantava nas estradas e penetrava pelas frinchas da carruagem. A minha viagem fora longamente discutida na corte, porque cada proposta levantava novas questões e não se conseguia acordo sobre a melhor maneira de me fazerem chegar ao meu destino. Pessoalmente, teria preferido um meio de locomoção mais rápido, numa das barcaças que faziam o percurso entre a capital e o Norte. Se os caminhos são longos e perigosos, argumentou alguém, têm a vantagem de poder oferecer refúgio durante uma tormenta, enquanto no mar o único recurso é rezar o terço. Quem pode assegurar-nos de que não vai ser engolida por uma onda?
Por decisão unânime, viajei por terra. Fizemos muitas horas de mau caminho, com poeira a entranhar-se na pele e nas narinas, secando tanto as gargantas dos cocheiros, do pajem e dos soldados que, mal viam ao longe uma estalagem, a sede parecia aumentar. Enquanto os tratadores secavam os cavalos suados, verificavam as ferraduras e os levavam a comer e a descansar na sombra do telheiro das manjedouras, os meus transportadores bebiam, comiam e de noite dormiam o sono dos justos, ao qual pecadores como eles também tinham direito. O coche tinha as armas reais pintadas em cada porta e a minha escolta sentia-se segura nesses caminhos de Deus e de ninguém, por onde, além das cobras e de algum rebanho de ovelhas, também passavam salteadores que, ao reconhecerem o brasão, mudavam de rumo. Não era porque devessem estar atentos que durante a viagem os homens falavam pouco, mas por respeito à minha pessoa; e eu preferia que assim fosse, ainda que nunca o tivesse dado a entender, para poder dormitar embalada pelo chiar das rodas e o passo dos vinte e dois cavalos. Antes de chegarmos ao Porto, as colinas começaram a dificultar o bom andamento do coche e obrigaram os cocheiros a seguir um percurso mais tortuoso para as contornar. Mais a norte, para evitar os enormes penhascos, o caminho começou a estreitar em alguns troços, mas o vento do fim da tarde soprou de repente com força, levantando a terra seca e cegando por momentos o cocheiro. O homem, num gesto espontâneo para proteger os olhos, deu sem querer um puxão nas rédeas que descontrolou os cavalos, fazendo com que a roda traseira batesse num bloco de granito. O eixo cedeu e o coche deteve-se de repente, caindo bruscamente do lado esquerdo da berma, sem apoio. Enquanto os homens maldiziam a sorte com palavras pouco próprias aos ouvidos de uma dama, o pajem debruçou-se no interior do meu compartimento para ver se tudo estava em ordem, como lhe tinham recomendado mil vezes as infantas». In Cristina Norton, O Segredo da Bastarda, 2002, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-23-1047-3.

Cortesia de OLivro/JDACT