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sábado, 17 de junho de 2023

A Rosa dos Ventos. Gonzalo Torrente Ballester. «… depois de me dar as boas-vindas e um abraço, disse-me, em confiança: Tu não és tonto como dizem, pois não Ferdinando?, mas eu pedi-lhe que guardasse segredo e ele, não só ficou silencioso a esse respeito, como continua a chamar-me tonto quando eu não estou presente»

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«Talvez se tenham consolado com a esperança, não de todo impossível, de virem a almoçar com o meu primo, que se proclamou a si mesmo guarda-mor florestal sem necessidade de trâmites. Não espero que nenhum destes acontecimentos passe à História mas, a definição que deu de mim o tão citado vencedor (a quem, a partir de certa página, chamarei, de preferência, a Águia do Leste), por se ter infiltrado nos meios diplomáticos de toda a Europa e pelo facto de o texto da carta figurar, tanto nos comunicados confidenciais, como nos arquivos da coroa, o cognome de tonto é do domínio comum e não haverá já quem se atreva a arrebatar-mo. Nem destronado o perdi. É certo que, no dia em que me expulsaram da minha casa e me acolheu no seu reino o meu bom vizinho Christian, este último, depois de me dar as boas-vindas e um abraço, disse-me, em confiança: Tu não és tonto como dizem, pois não Ferdinando?, mas eu pedi-lhe que guardasse segredo e ele, não só ficou silencioso a esse respeito, como continua a chamar-me tonto quando eu não estou presente. Christian comporta-se como um amigo leal; devo-lhe o meu pão e a terra que piso, a liberdade com que me movo e a anonímia em que me permite viver: Christian tem a suprema galanteria de não contar comigo para nada, evitando-me, assim, o tão penoso papel dos príncipes destronados nas cortes caritativas. O pobre Ferdinando Luís, tonto como era! Pois, até nem o fazia nada mal, apesar de ser tonto. Como podia ele fazer alguma coisa mal, se não fazia nada...? Não seja injusta, minha senhora. Fez pelo menos duas filhas. Acredita que sim, marquês?

Duvida-se que a segunda seja dele. Ah, sim? Não me diga! Há quem pense que é de Lizst, o músico, mas todos julgam que é de Bismark. Bismark! Mas, sobre isto, ainda não há nada escrito. As crianças das escolas daquele que foi o meu país estudam História em livros onde sou referido (sempre em notas de pé de página) como Ferdinando Luís, O Tonto, sem referências à minha vida privada e, como tal, sou dado como morto. Mas, como o meu país já não é sequer um país, mas sim uma parte esquecida do país do meu primo, os livros de História do ensino obrigatório são elaborados na longínqua Corte Imperial, a mais imperial de todas as cortes do mundo, incluindo a de Tombuctu e, os súbditos dessa extremidade do mundo não têm nada a dizer: por alguma razão não somos mais do que uma Finisterra, isso que, noutros tempos, era ser alguma coisa, pelo facto de ter tão à mão o Mistério mas, hoje, se nos conhecem, é pelo nome de um cabo: o Mistério caiu em desuso. Chamam-me O Tonto? Está bem, e depois? Não fiz outra coisa na vida (não convém exagerar: na minha vida fiz um pouco mais do que isso) a não ser organizar e preparar a difusão, entre os que representam a opinião de todos, desse embuste tão cómodo como é a minha tolice. O facto de ser assim chamado nos livros de História, por muito que os seus textos sejam elaborados com as piores intenções pelos esbirros intelectuais do meu primo, constitui o meu triunfo: secreto, mas de íntimas satisfações.

Não sei porquê, parece-me que vou ter que contar várias vezes a história do meu destronamento, ainda que, espero, de modo diferente de cada uma delas; quero dizer, as mesmas coisas com distintas palavras e a partir de pontos de vista variados; se calhar ainda me engano, porque não tenho muito claro aquilo que vou contar. Na realidade, neste caderno não se encerra senão a recordação, um tanto arrevesada, do meu destronamento, ainda que esse não seja o facto mais importante dentre os que aqui se contam e, sim, o seu pretexto e a sua trama. Mas convém não esquecer que o narrador sou eu, e que conto como me apetece: ainda que isso não tenha importância, às vezes gosto de fazer crer que sou aquilo a que se chama uma personagem histórica ou de me dar ares disso, ainda que das de menor vulto, muito abaixo dos imperadores. Não é possível desempenhar um papel suficientemente digno quando nos encontramos, pelo nascimento, em categorias tão intermédias e estou até persuadido de que semelhante papel não só se pode como se deve fazer: mesmo que isso acarrete consigo o risco de o representar com dignidade idêntica e a mesma solenidade que os verdadeiros protagonistas da História e que, inclusivamente, possa acontecer que o secundário supere o principal nesses matizes de estilo: tenho visto cada príncipe consorte...! O meu primo Carlos Frederico Guilherme passeia pela Europa com todas as plumas que o seu capacete de guerreiro pode suportar para se sentir alto; uma vez fotografámo-nos juntos e eu excedia-o nas plumas e na distinção». In Gonzalo Torrente Ballester, A Rosa dos Ventos, 1995, Difel, ISBN 972-290-326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

JDACT, Gonzalo Torrente Ballester, Literatura, 

A Rosa dos Ventos. Gonzalo Torrente Ballester. «Quanto teria gostado de ver como me marcariam rendez-vous estes animaizinhos debaixo de alguma bétula milenária! Mas, quando o expediente burocrático se encontrava a meio dos seus trâmites…»

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«Há uma carta do meu primo Carlos Frederico Guilherme dirigida ao meu igualmente primo Guilherme Frederico Carlos, na qual, com bastante cautela, ainda que, também, com a rude franqueza dos soldados, se diz de mim que sou o mais tonto dos príncipes reinantes e, inclusive, daqueles que nunca reinaram ou dos que nunca reinarão por não terem onde cair mortos. O meu primo Carlos Frederico Guilherme sempre foi muito amável comigo e, quando me expulsou do exíguo trono que me restava, ainda que por transmissão directa e milenária (e não como ele, bastardo vergonhoso de um embaixador turco), fê-lo observando todos os requisitos legais e sem me humilhar mais do que o necessário: foi assim que não enviou, para invadir o meu território, mais de cem soldados, tendo em conta que o meu exército, desde a passagem memorável de Napoleão pelos meus estados (demasiado rápida, por sorte), nunca excedeu os quarenta e nove, sargentos e oficiais subalternos incluídos: não incluo no cômputo os oficiais superiores porque, no meu grão-ducado, era oficial toda a gente, apesar de ninguém aparecer no quartel, entre outras razões válidas, porque a sua condição honorária quase não lhes dava outro direito além do de usar uniformes espectaculares, que era o que mais lhes interessava: tanto assim que, quando o meu primo me substituiu, as suas primeiras medidas legais foram no sentido de manter o direito dos comerciantes e dos industriais, que o haviam favorecido, a levar pendurada no ombro uma jaqueta profusamente ornamentada e de cores vivas, nos desfiles a cavalo. Que divertida minúcia histórica seria a de observar quanto se fez na Europa e quanto aconteceu no mundo, só para as pessoas poderem andar de uniforme, sobretudo aquelas a quem falta um direito razoável e não meramente imaginário!

O comandante do meu exército não era desses: tinha estudado nas melhores escolas e, ainda que também não pusesse os pés no quartel, fazia-o pelas mesmas razões pelas quais eu também lá não ia, e que têm que ver com essa definição de tonto, tão amável e tão cómoda, que deu de mim meu primo; mas, como hei-de falar outras vezes desse comandante, limitar-me-ei agora a dizer que perfazia o número cinquenta do exército efectivo e, se se me considerar a mim, também, como militar, enquanto chefe supremo, tal como costumam intitular-se todos os chefes de Estado, o número excede a meia centena, graças a essa mínima, solitária, universal, unidade que era eu, um príncipe um pouco tonto. Aconteceu que também a Polícia Municipal enquanto força armada, considerou que seria vistoso ter-me como chefe superior e vistosamente decorativo e não ao burgomestre, que era então um tal Fritz, com quem se armou um escândalo de ressonância amplamente ultramarina: no meu país, rodeado de mar por quase todos os lados, por pouco que alguém grite, os seus gritos de protesto, de dor ou de espanto chegam às costas do outro lado, que ficam longe; pois um redactor principiante do The Times veio coscuvilhar o que se passava e contou-o em Londres com notória falta de medida no tratamento verbal (já se sabe que os Ingleses têm um sentido de humor muito peculiar, sobretudo quando se trata de países que carecem de marinha de guerra) e, nas chancelarias mais atentas, temeu-se uma contenda civil, ao ponto de o meu primo ter chegado a enviar investigadores secretos. Chegamos a acordo, o burgomestre e eu, que o meu nome deixaria de figurar em ambas as nóminas, a do Exército e a da Polícia, com o que ficou contente, eu tive uma festa a menos a que assistir e os efectivos do Exército recuperaram o número de sempre, essa meia centena que, além de redonda é muito bonita: a minha idade de agora, por exemplo, o que se pode chamar a verdadeira flor da vida quando se é um tonto destronado. Os guardas florestais estiveram quase a alterar esse statu quo tão trabalhosamente acordado, porque se lembraram de me proclamar guarda-mor das pradarias e dos bosques, com jurisdição real sobre ursos, veados e doninhas. Quanto teria gostado de ver como me marcariam rendez-vous estes animaizinhos debaixo de alguma bétula milenária! Mas, quando o expediente burocrático se encontrava a meio dos seus trâmites, Carlos Frederico Guilherme lembrou-se de me destronar e, se eu perdi a ocasião de senhorear uns quantos plantígrados inofensivos, os guardas florestais sentiram-se muito defraudados nos seus desejos de me ter como colega e de almoçar comigo, pelo menos uma vez por ano». In Gonzalo Torrente Ballester, A Rosa dos Ventos, 1995, Difel, ISBN 972-290-326-8.

 Cortesia de Difel/JDACT

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