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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Margarida Ribeiro: Tulhas de Pedra. Subsídios para estudo da tecno-economia rural portuguesa


Cortesia de tsf 
Com a devida vénia a Margarida Ribeiro.
Tulhas de Pedra
Subsídios para estudo da tecno-economia rural portuguesa.

«Na bacia superior do Zêzere e junto às ribeiras da Sertã e de Proença-a-Nova, cuja região é constituída pelo complexo gresoso das Beiras, encontram-se, com frequência, isoladas ou praticadas em série, as construções que o povo designa por «Tulhas».
Vêem-se, geralmente, adjuntas a um lagar e utilizam-se, como se prevê, para nelas depositar a azeitona que, depois de acamada com um maço de madeira, a fim de, pela compressão, se evitar o bolor, é coberta com lajes, que ficam ajustadas sobre ela.

Cortesia de tsf
Apresentam uma capacidade variável, em função da colheita de cada agricultor, pois são, como se inculca, propriedade individual. São constituídas à superfície do solo e segundo a técnica de sucessivas camadas paralelas de pedra, imperfeitamente aparelhada, ou aproveitada na sua forma natural, mostrando a introdução de pequenos fragmentos nos interstícios, a fim de nivelarem as superfícies e obstruírem as fendas.
As tulhas de maiores dimensões são providas de uma abertura lateral, em forma de porta e que é tapada, quando necessário, com grandes lajes.

Cortesia de tsf
A experiência tornou esta abertura perfeitamente justificada, pois a sua utilização promoveu a rapidez do trabalho de esvaziamento e economia de esforço humano na remoção total da azeitona depositada e que se encontra já composta ou na sezão, isto é, no estado de amolecimento indispensável para ser prensada.
A superfície interior das tulhas apresenta-se, na maioria dos casos que estudámos, rebocada com a pasta comum, obtida pela adjunção de areia, cal e água.

Vêem-se, também, construções afins de planta quadrangular, tendo-nos sido informado de que são de edificação mais recente, exceptuando os exemplos de planta circular que foram recuperados ou totalmente realizados segundo o sistema antigo. A associação de duas ou mais tulhas de planta circular e de idêntica capacidade, formando, exteriormente, um corpo único, observa-se, também, com relativa frequência.

Cortesia de tsf
O lagar é accionado pela força da água de um ribeiro, de uma sua derivação artificial, ou pela água de um veio, captado para tal fim. O ónus requerido pelo lagareiro ou lagareiros corresponde à maquia estabelecida por cada medida de azeite ou de azeitona, de acordo com o costume de cada família, ou contrato realizado no acto da entrega da colheita.

Cortesia de tsf
Vale de Urso, da freguesia de Proença-a-Nova, reúne as características indispensáveis para demonstração do que expusemos. Associadas a este tipo de construção de pedra seca, encontram-se outras de planta quadrangular e de capacidade homogénea, geralmente praticadas em grupos e ligadas à vida agrícola dos autóctones. Funcionam de reservatórios das água escoantes das chuvas ou de pequenas nascentes, as quais são captadas e conduzidas pelo sistema arcaico que consiste na abertura de regos, ao longo do solo e a profundidades variáveis, ou por meio de aproveitamento de depressões naturais». In Margarida Ribeiro, BMPortalegre, nº 32664, 908(469.51) RIB-tul, Lisboa 1969, Separata de O Arqueólogo Português, Série III, Vol. II.

Cortesia de tsf

Cortesia de Margarida Ribeiro/BMCMPortalegre/JDACT

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Margarida Ribeiro: Um Filho de Camões? Comunicação apresentada à Secção Luis de Camões em 19 de Maio de 1995.

(1911-2001)
Portalegre
Cortesia da cm-Coruche 

Com a devida vénia a Margarida Ribeiro, Américo da Costa Ramalho e Justino Mendes de Almeida.
Um artigo interessantíssimo de Margarida Ribeiro referente ao livro «Vida Ignorada de Camões» do Prof. Hermano Saraiva.

Um filho de Camões ?
«A obra «Vida Ignorada de Camões», da autoria de José Hermano Saraiva, apareceu, depois de variadas intervenções publicitárias, alcançando êxito comercial. Contudo, graves erros cometidos por aquele Autor chamaram a atenção do Prof. Américo da Costa Ramalho que, na sua «Recensão Crítica», tratou de repor a verdade histórica e científica de importantes temas da Obra, que apelidou de biografia romanceada.

Cortesia de wook
Seria estulta arrogância de minha parte retomar a crítica daquele sapiente e autorizado Professor. Modestamente e ao meu nível, desejo apenas abordar alguns temas não tratados por aquele douto Professor, pelo muito que ferem a sensibilidade de quem respeita os valores da Pátria e o Homem-Poeta que nos legou uma herança imortal, sempre viva em todos os tempos. Erguer a voz onde disserta superiormente o nosso maior camonista, Prof. Justino Mendes de Almeida, é já ousadia. Porém, é precisamente aqui que devo apresentar os comentários sugeridos por aqueles temas, os quais me fizeram reflectir sobre aspectos da vida de Camões, da sociedade quinhentista e sobre a grande e profunda sabedoria do nosso Épico. Rogo me perdoem a redundância. Impôs-se à minha consciência repassar assuntos já muito discutidos com rigor científico e notabilíssima autoridade. Exige-o a narrativa do Dr. Hermano Saraiva, a fim de atingir a inopinada questão com a qual intitulo estes apontamentos. E pena que o faça tão tarde. Motivos imperiosos a tal obrigaram».

Cortesia de pauloborges
O Autor de «Vida Ignorada de Camões» afirmou que o nosso maior Poeta não frequentou a Universidade de Coimbra, sem admitir a hipótese de perda ou falta de registo de matrícula'.Aditou que o nosso Épico não teve a noção do modelo clássico da Poesia Épica com a intromissão da sua vida pessoal numa epopeia impessoal. Como exemplo desta última afirmação citou o corte das estâncias que se seguiriam à estrofe 40 do Canto VI, na qual se refere a intervenção de Lionardo, que propôs aos companheiros de viagem falar de amores pera passar o tempo (...), o que não era senão a oportunidade de Camões falar dos seus próprios amores. O ínclito Autor justifica, ainda, que teria sido um cristão-novo quem aconselhou o Poeta a suprimir aquela sua confissão amorosa ou talvez a censura o houvesse exigido uma coisa ou outra sem qualquer prova. Considerou, ainda, a cópia manuscrita de «Os Lusíadas», com letra do século XVI, uma versão judaizante.
( ... )
A estas hipóteses junta-se a força da tradição que chegou aos nossos dias de que Camões tenha permanecido ou até nascido em Coimbra, não estando provado este último facto. Há, ainda, na inspirada e emotiva estrofe 97, Canto III, na qual o Poeta compara Coimbra com Atenas, um intelegível orgulho e subjacente saudade:

Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
O valeroso ofício de Minerva;
E da Helicona as Musas fez passar-se
A pisar do Mondego a fértil herva.
Quanto pode de Atenas desejar-se
Tudo o soberbo apoio aqui reserva.
Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
Do bácaro e do sempre verde louro.

Uma realidade abonatória sobre a provável estada de Camões na Universidade resulta da impossibilidade de se adquirir uma excepcional cultura sem uma base de instrução que haja desenvolvido a capacidade intelectiva, tornando-a apta para os grandes võos de espírito.
( ... )
Cortesia de commons
No Canto VII, Estâncias 78-87, o Poeta relata, ele próprio admirado, como a experiência o advertiu do que não soubera antes e a determinação que impôs a si próprio. Invoca então as Ninfas do Tejo e do Mondego, a quem roga a força insana e poderosa que o não deixe vacilar. Diz:

Um ramo na mão tinha … Mas ó cego.
Eu, que cometo, insano e temerário,
Sem vós, Ninfas do Tejo do Mondego,
Por caminho tão árduo, longo e vário!
(… )
E mais adiante:
Dai-me só vós, que eu tenho jurado
Que não mo empregue em quem o não mereça:
Nenhum ambicioso, que quisesse
Subir a grandes cargos cantarei.

Contudo, Hermano Saraiva afirmou na sua citada Obra que o episódio do Adamastor, que exorna «Os Lusíadas», e é uma das mais belas e impressionantes criações do Poeta, não é mais do que a explosão do ciúme e desespero de Camões, provocados pelo abandono a que o votou uma dama, de nome Violante de Andrade, casada com D. Francisco de Noronha, ali confundida com Dóris. Tal confusão, afirma aquele Autor, obrigou a censura a omitir a estrofe 55 do Canto V na edição de 1584. Não é este o derradeiro equívoco (?) do sr. Dr. Hermano Saraiva, nem a última ignomínia. Depois do adultério de Violante, sua filha Joana, que nunca existiu, torna-se, por incesto praticado por Camões, uma rival. Aquele explícito Autor vê esta jovem no anagrama Aónia e nos criptónimos Ana, Diana e Iana.

Cortesia de anossaescola
Em 1549, respondendo à mobilização militar ordenada por D. João III, Camões partiu para Ceuta, regressando dois anos depois,  em 1551; em 1553 foi servir na Índia. Diogo de Couto dá-nos um testemunho claro desta infeliz mudança. O «Soldado Prático» lá consigna que a fidalguia estava representada por bastardos sem educação, que íam à Índia monarquiar em poucos dias. Outrora, era costume (...) buscar homens para os cargos e não cargos para os homens. Mas Camões partiu em busca da experiência. Foi conhecer o perigo do mar, os lugares onde tantos heróis tombaram e os homens desleais à Pátria, que regressavam fantasiando combates e requerendo mercês que não haviam conquistado com a espada.
Dezassete anos depois, chegou a Lisboa, em Abril de 1570.
A fama do seu grande poema havia-o precedido. Por intercessão de D. Manuel de Portugal, Camões obteve o alvará do Rei D. Sebastião para a publicação do seu Poema Máximo, que viria a ser exaltado em toda a Europa culta. Bem depressa o poeta começou a subir a Costa do Castelo para entrar na oficina de António Gonçalves, a fim de rever as provas, pois a isso o obrigava o seu pundonor e a honra como cavaleiro - fidalgo da Casa Real com a tença anual de quinze mil reais brancos. Não entendeu assim o Dr. José Hermano Saraiva.

Trata-se de pôr em causa a pudidícia de outra Joana Noronha de Andrade, esta verdadeira e filha dos segundos condes de Linhares, que viveu no convento da Anunciada, sem tomar hábito, mas onde tinha irmãs mais velhas como freiras.
(...)
Diogo Barbosa Machado
Cortesia de wikipédia

O Dr. José Hermano Saraiva pôs em dúvida a dignidade desta Joana, cujos anos seriam poucos, segundo os dados que nos dá de outros filhos e filhas de Violante. Camões só viria a conhece-la, se é que a conheceu, quando regressou do Oriente. Todavia, aquele citado Autor escreveu que ela seria a provável mãe de um filho do Poeta, de nome Pedro Noronha de Andrade, conforme os apelidos maternos. Acrescenta que este Pedro foi um poeta do inicio do século XVII, como registou o Abade Diogo Barbosa Machado, na sua «Biblioteca Lusitana», omitindo o tomo em que leu o registo.
( ... )

Cortesia de tertuliabibliofila
Pergunto: Porquê, indigitar Camões como possível pai daquele filho de provável mãe ?...
Pela minha parte, sondei todos os Cantos de «Os Lusíadas» à procura de um filho bem guarnido de mimos poéticos, que me pudesse abonar aquela imprevista suspeita. O nome comum filho ocorre 104 vezes em «Os Lusíadas». Porém, o excerto que penso ser apropriado é aquele em que um filho se lamenta por ver-se desfavorecido da sorte - rogo me perdoem transformar o apelo do invejoso Baco numa imaginária reflexão do nosso Poeta:

E eu só, filho do Padre sublimado,
Com tantas qualidades generosas,
Hei-de sofrer que o Fado favoreça
Outrem, por quem meu nome se escureça ?
Canto I, estância 74.

A argúcia do Dr. José Hermano Saraiva entenderá a alteração simbólica das figuras e o expressivo significado daquela reflexão. Camões admirou algumas damas. Como esteta, exigiu que fossem belas e, como grande Poeta e Humanista, também quis que fossem cultas, conhecessem a Arte e a estimassem. Por isso as amou.
( ... )

Cortesia de cpas
Feita a justa reposição dos Linhares na linha do brio e honra da Pátria, resta-me agradecer ao Senhor Doutor Arnaldo de Mariz Rozeira o obséquio de facultar-me a cópia de todos os Cantos de «Os Lusíadas», em cujas estrofes figuram os nomes comuns que previu serem-me necessários, facilitando-me enormemente este modestíssimo trabalho.
Muito obrigada. In Margarida Ribeiro, Um Filho de Camões?; Comunicação apresentada à Secção Luis de Camões em 19 de Maio de 1995.

Notas.
  • Américo da Costa Ramalho, Recensão Crítica, Vida Ignorada de Camões, Separata de Humanitas, XXIX-XXX, Coimbra, 1977-1978;
  • José Hermano Saraiva, Vida Ignorada de Camões, Lisboa, 1983.
Cortesia da Secção Luis de Camões da SGde Lisboa/U. de C./BMP 908(469.51)Rib-fil/JDACT

domingo, 5 de setembro de 2010

Margarida Ribeiro: Uma pedagoga por formação, antropóloga, arqueóloga de reconhecidos méritos. «Estojo de prata do séc. XVII com a imagem de N. Sra. da Conceição de Vila Viçosa». Senha dos Conspiradores de 1640

Cortesia da BCMPortalegre

Com a devida vénia a Margarida Ribeiro e ao seu artigo «Estojo de prata do século XVII com a imagem de N. Srª da Conceição de Vila Viçosa», Lisboa, 1972, Biblioteca Municipal Portalegre nº 32674, 9081469.51/RIB.est.

«Há cerca de oito anos, ao consultarmos a obra de Vitorino de Almada, «Elementos para um Díccíonario de Geografia e Historia Portuguesa. Concelho d'Elvas e extínctos de Barbacena, Villa Boim e Villa Fernando, T. II, Elvas, 1889, p. 62», deparámos, acidentalmente, com a breve referência a um pequeno objecto de prata com a imagem de Nª Srª da Conceição, que serviu de «senha» aos conspiradores de 1640. Verificámos que essa referência foi repetida por Eurico Gama (encontra-se no Museu de Elvas a lápide, que cobria a sepultura de D. Antão de Almada, Sep. da Revista «Independência», Ano XXVII n. 38, Lisboa, L968, p. 6) e pelo ilustre Conde de Almada, que a enriqueceu com uma esclarecedora nota, declarando ali que a referida «senha» se encontrava na posse da Condessa de Ficalho. Apesar desta importante referência, a pesquisa foi trabalhosa e demorada. O estojo de prata já não se encontrava na posse dos titulares de Ficalho. Em vão procurámos na bibliografia do acontecimento histórico de 1640 qualquer gravura ou descrição pormenorizada da peça de prata que, apesar do seu reconhecido interesse histórico e da sua alta significação espiritual, havia escapado à observação dos estudiosos. A perseverança nesta busca, dificultada pela sucessiva transmissão de heranças dos Ficalhos e pelo presumível melindre, que só um procedimento judicioso poderia acautelar, liga-se ao estudo, que ainda intentamos levar a cabo, sobre a difusão de pendentes e de medalhas de Nª Srª da Conceição e consequente origem e filiação artística das pequenas estatuetas de ouro, que serviram, simultâneamente, para colocar em oratórios ou usar suspensas de fitas e de colares.

Os museus e os coleccionadores estrangeiros não foram esquecidos na pesquisa que desenvolvemos. A raridade do objecto não deixaria de cativar a atenção destes últimos. Chegámos a pensar que a peça se tivesse eventualmente perdido em França, em virtude da Condessa de Ficalho se ter refugiado em Paris e em St. Jean de Luz, talvez do final de 1911 a 1914.

Cortesia da BMPortalegre
Imprevistamente, decorridos vários anos, foi graças à actuação de Isabel Sousa de Macedo, neta, por linha varonil, da falecida Condessa de Ficalho, que a «senha» foi encontrada na posse de Helena Costa da Câmara, residente em Cascais. Por solicitação nossa, o objecto foi-nos prontamente cedido para estudo com a alta compreensáo, a magnanimidade e a gentileza fidalga que sempre distinguiram os Ficalhos.
Fica lavrado aqui o nosso reconhecimento pelo nobre gesto, pelo contributo dado à Cultura e pela honra de podermos estudar uma relíquia tão directamente ligada à gesta da Restauração.
A notícia da «senha», inédita e considerada única, até este momento, foi apresentada numa das sessões de trabalho das II Jornadas Arqueológicas, ocorridas de 13 a 15 de Outubro do ano corrente, por iniciativa da veneranda Associação dos Arqueólogos Portugueses, como constará das respectivas actas.

O estojo de cujo estudo nos ocupamos tem forma cilíndrica e é constituído por duas peças fundamentais:
  • a caixa propriamente dita, de prata lavrada;
  • a imagem de Nossa Senhora da Conceição, de barro muito fino ou terracota policromada.
Não apresenta punção de ourives, nem marca de contraste. Está muito danificada na parte superior mais saliente, por esmagamento, e muito gasta na zona central do corpo. Como se trata de um objecto totalmente executado à mão, algumas linhas apresentam pequenas irregularidades. Nas medições de estudo verifica-se um acréscimo de 2 a 3 milímetros, em relação à altura total da peça, por aquela circunstância.

Dímensões e peso:
  • Alt. total: 13,45 cm;
  • Diâmetro: 4,4 cm;
  • Peso total: 186 g.
Elementos artísticos e formais
A peça descrita situa-se, cronologicamente, na primeira metade do século XVII. O cinzelado baixo que caracterizou o trabalho português daquela época e o estilo predominantemente geométrico, suavizado com a ornamentação vegetal a preencher os campos, demonstram a ilação (Sobre o cinzelado baixo indo-português, em oposição ao cinzelado baixo de tipo português, cercado a cinzel para ganhar volume sobre as massas do fundo, vide João Couto, Alguns subsídios para o estudo técnico das peças de ourivesaria no estilo denominado indo-português, Lisboa,. 1938, Sep. das «Actas» do I Congresso da História da Expansão Portuguesa no Mundo, Lisboa, 1938).

Cortesia da BMPortalegre
A ausência de marca e o ensaio visual da prata conferem também ao objecto a cronologia indicada. Sabemos que só depois de 1688, por lei de D. Pedro II, as pratas levaram os punções dos contrastes e dos ourives, e só a partir de 1887 se usaram nas ligas da prata as percentagens de 833 e 916 milésimas. Às dimensões gue apresenta são consideràvelmente superiores àquelas que foram atribuídas à «senha» dos conspiradores, cerca de 8 cm de comprimento e 2 cm de diâmetro. 
O provável número limitado de exemplares, as restrições impostas à divulgação de cópias e o próprio significado da inscrição que o objecto possui obstaram a que chegasse ao completo conhecimento público, em todos os pormenores.

A «senha» gravada na chapa da gaveta e o próprio invólucro trabalhado são causas aparentes. O que se legislou, festejou, memorou e ficou na tradição constitui na verdade o factor essencìal, Nossa Senhora da Conceição.

Alcançada a vitória, a peça repousou no decoro e no segredo em que vivera antes, embora conservada como memória dos eventos históricos de uma família, cujas recordações mais vivas se vão atenuando também com o decorrer do tempo.

Cortesia de BMPortalegre
Conclusões finais
A peça estudada esteve desde sempre na posse da Família Ficalho e desde sempre se conservou na memória do acontecimento histórico que restaurou a soberania portuguesa. É a peça que esteve na posse do Marquês de Ficalho, como Vitorino de Almada registou, e na posse da Condessa de Ficalho, como declarou o Conde de Almada. Por consequência, o objecto a que se referem as citações literárias anotadas. Provam-no as características que apresenta e assim no-lo confirma o fiel testemunho de uma fidalga de 80 anos. A relíquia foi sempre conhecida pela designação de Nossa Senhora dos Conspiradores, designação que lhe foi transmitida por sua ilustre mãe, a falecida Condessa de Ficalho. 
Resta averiguar quem foi o antepassado dos Ficalhos que esteve directamente ligado à conjuração de 1640. A tarefa não é facll. Os Mellos de Serpa não se deixaram seduzir pela política palaciana, nem pelos deslumbramentos da corte. Impõe-se, portanto, uma perseverante busca no arguivo da Casa, a cuja ordem e conservação a Marquesa de Ficalho tem dedicado especial atenção. A relação dos conjurados não está completa. O exemplo de João de Sanches Baena, asseguram que um melhor e mais atento estudo do movimento e da organizaçáo da conjura deverá trazer à luz nomes que foram esquecidos, mas cuja dignidade impediu qualquer tentativa de reivindicação.

Cortesia de BMPortalegre
Nascida em Évora, a ânsia de liberdade da Pátria conquistou a nobreza e os espíritos mais cultos da época. António Ferrão, baseado nas obras cie Teobaldo Fischer, Jean Brunhes e Silva Teles, analisa as causas geográficas e étnicas da nossa existência nacional, «A Restauração de 1640. Como se perdeu e se reconquistou a independência (1580-1668). Discurso, seguido de notas justificatitvas. Lisboa, Tip. Emp. do Diário de Notícias, 1919». A própria legitimidade da Restauração, defendida por Francisco Velasco de Gouveia no momento da restituição do Reino à soberania portuguesa, constituíu doutrina que os defensores da Restauração aproveitaram para legitimar pelo direito natural e público a deposição do rei intruso. Uma importante achega sobre a tese da hierarquia é o conhecimento que temos da acção de Francisco de Mello, residente em Santarém, que colaborou na conjuração por meio de mensagens escritas.
À clarividente inteligência e preparação dos Jesuítas, à sua arte de educar e instruir, à sua disciplina mental se deve o auxílio que permitiu à nobreza fiel e militante de Portugal contar com as vontades e estar no pleno conhecimento da política de dois reinos. A análise do Ratío Studiorum revelou que tal sistema, ao contrário de ser um tratado teorético sobre a arte de ensinar e educar, foi um antes um métoclo pedagógico e prático de que os Jesuítas dispuseram para esclarecer os discípulos, impedindo-os de leituras prejudiciais à crença católica (Obra cit.,T.2.º, vol. II, Porto, 1939, pp. 18-46). O auxílio dos jesuítas é, pois, matéria conhecida.
A organização do plano da conspiração e a forma de o pôr em prática dentro de uma área territorial tão vasta e a coberto de toda a suspeita continua, porém, por esclarecer completamente.

Cortesia de BMPortalegre 
Uma pesquisa no Arquivo da Casa Ficalho e nos arquivos particulares, a dim de se chegar a uma certeza histórica. A conjectura só é admissível quando a informação documental a abona ou a limita ao prazo dos documentos de que dispomos. Tal averiguação e estudo transcendem, porém, o nosso propósito. Limitámo-nos a apresentar uma peça inédita, cuja divulgação obrigará a uma justa reivindicação e consequente aditamento à lista dos conjurados, e à reflexão sobre o plano da conjura de 1640.
Muitos elementos faltam para o esclarecimento histórico de tão importante facto. Contudo, uma nova achega fica registada». In Margarida Ribeiro, Estojo de prata do séc. XVII com a imagem de N. Sra. da Conceição de Vila Viçosa.


Cortesia da Biblioteca Municipal de Portalegre/JDACT

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Margarida Ribeiro: Uma pedagoga por formação, antropóloga, arqueóloga de reconhecidos méritos, camonóloga profunda e muito dedicada, fundadora da secção de Luís de Camões da Sociedade de Geografia de Lisboa

(1911-2001)
Portalegre
Cortesia de cm-coruche
Margarida Rosa Cassola Ribeiro foi uma pedagoga por formação, antropóloga e etnológica internacionalmente admirada e consultada, arqueóloga de reconhecidos méritos, camonóloga profunda e muito dedicada, fundadora da secção de Luís de Camões da Sociedade de Geografia de Lisboa, de que foi a 1ª secretária da Direcção e depois Vice-Presidente. Apresentou estudos notáveis, em devido tempo publicados.
Evocar aqueles que admirámos e já não comparecem ao nosso convívio é uma maneira fraterna e frutuosa de os ajudar a libertarem-se daquela lei, infelizmente geral e que tão poucas excepções admite, à qual todos nós gostaríamos de escapar: a lei da morte.
«Ser imortal não é ser eterno, é ignorar a existência da morte», Jorge Luís Borges.

Colóquio Margarida Ribeiro: actas
Cortesia de cm-coruche
Actas do Colóquio Margarida Ribeiro, realizado em 15 de Março de 2006.
Contou com as comunicações de:
  • Arnaldo de Mariz Rozeira («Evocação de Margarida Ribeiro»);
  • Luís Sebastian («O sino de 1287 da Igreja de S. Pedro da vila de Coruche»);
  • Vasco Gil Mantas («Epigrafia romana no concelho de Coruche»);
  • Benedita Araújo («Fazer Christandade na Índia do séc. XVI»);
  • João Luís Cardoso e João Carlos Caninas («Materiais paleolíticos da região de Santo Estêvão (Benavente): novos achados»);
  • Aurélio Lopes («Chocalhar ou queimar as comadres»).
«Em Coruche, Margarida Ribeiro, é recordada como professora do ensino primário e ainda como mulher emancipada que ganhou a admiração de todos quando, na década de 50 do século XX, seu à estampa aquela que seria a primeira monografia, e ainda hoje insubstituível, que fixou a história desta terra». In Dionísio S. Mendes.

http://www.museu-coruche.org/newsletter_Fevereiro.pdf

Margarida Ribeiro, vida e obra
CMCoruche/Museu Municipal - 2005
Pequena brochura sobre a vida e a obra de Margarida Ribeiro

Cortesia de bradosdoalentejo
1965 – Monte do Pocinho, Estremoz. A portalegrense Margarida Ribeiro, etnóloga – que veio a Estremoz para um trabalho de estudo da cerâmica popular local – acompanhada por quatro 'rurais' numa pausa no trabalho de preparação de terrados de um olival. A foto pertence ao Centro de Documentação Margarida Ribeiro, do Museu Municipal de Coruche e foi-nos remetida de Coimbra pelo nosso assinante Vasco Gil Mantas.
 
Estudo histórico de Coruche
Margarida Ribeiro
CMCoruche - 1959

Cortesia da CMCoruche/JDACT