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quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Poesia. Palavras Mal Ditas. Pedro Barroso. «A da vergonha imensa de que tudo seja insensibilidade assim. Camuflada por um qualquer parágrafo e artigo legal que juridicamente desculpará o impropério. O insulto dos vivos na febre invisível dos dias insensatos e indiferentes»

jdact e wikipedia

Quero viver numa cidade
«Quero viver numa cidade
onde o dia seja brando
onde a noite seja branca
e um rio vá deslizando...
Onde a vida seja calma
a segurança vulgar
e os jardins sejam longos
e as tardes de vagar...
E onde a História me relembre
entre lendas de além-mar
de heroísmos e bravuras
e romances de encantar.

Quero viver numa cidade
com a montanha a espreitar
casas mistério, tão alto
penduradas, a pensar
quero praias, quero rios
um sorriso em cada porta
um afago em cada mão
um abraço que conforta.

Quero viver numa cidade
com as taxas moderadas:
quanto baste para a saúde
quanto baste para as estradas!
Onde a morte seja a lua
com as estrelas ao vento
ao fim de duzentos anos
ainda saudáveis, sem sofrimento.


Quero viver numa cidade
com operários construtores
mulheres de sonho na boca
homens de pedra aos amores
monumentos para a memória
obeliscos para o prazer
coisas do gozo e da glória
volúpias sem ter vergonha
sem medo de acontecer.

Quero viver numa cidade
com casas lindas ao sol
como palácios ao vento
ou castelos de Almourol
parques frondosos e largos
onde os amantes se recolhem
com beijos doces e amargos
tendo o céu como lençol.

Quero viver numa cidade
nem nua nem pardacenta
onde cada qual trabalhe
no que gosta de fazer;
eu canto, tu dás-me o pão
e assim decorre o viver
mesmo o trânsito nas ruas
decorre, modéstia à parte,
fluente e sem acidente
não há pressa nem enfarte
e só chegar é urgente!
Há tempo de passear
e, já agora, a cidade
como enorme novidade!...
Tem espaço p'ra se estacionar.

Quero viver numa cidade
onde há gente sorridente
que te acolhe em cada loja
com o prazer de ajudar-te
e onde vais poder comprar
em vez de drogas e punhos
pedaços de poesia
numa galeria d'arte!

Quero viver numa cidade
com gosto, respeito e espaço
com autocarros humanos
tocando em fundo Vivaldi
e tempo para andar a passo.

Quero viver numa cidade
grande como a terra inteira
onde caiba todo o campo
todo o mundo, todo o encanto
tu e eu e toda a gente
passageiros de primeira
numa cidade diferente
que mesmo sendo modesta
é uma cidade imponente
onde viver é uma festa
pelo sorriso, pela gente
aqui mesmo à minha beira...»
Poema de Pedro Barroso, in ‘Palavras Mal Ditas’

JDACT

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Ribatejo. Menina, Tejo. Pedro Barroso. «… aprendi nos ‘Esteiros’ com Soeiro aprendi na ‘Fanga’ com Redol tenho no rio grande o mundo inteiro e sinto o mundo inteiro no teu colo aprendi a amar a madrugada que desponta em mim quando sorris…»

jdact

Menina dos olhos de Água
«Menina em teu peito sinto o Tejo
e vontades marinheiras de aproar
menina em teus lábios sinto fontes
de água doce que corre sem parar
menina em teus olhos vejo espelhos
e em teus cabelos nuvens de encantar
e em teu corpo inteiro sinto o feno
rijo e tenro que nem sei explicar
se houver alguém que não goste
não gaste, deixe ficar
que eu só por mim quero-te tanto
que não vai haver menina p'ra sobrar
aprendi nos Esteiros com Soeiro
aprendi na Fanga com Redol
tenho no rio grande o mundo inteiro
e sinto o mundo inteiro no teu colo
aprendi a amar a madrugada
que desponta em mim quando sorris
és um rio cheio de água levada
e dás rumo à fragata que escolhi
se houver alguém que não goste
não gaste, deixe ficar...,
que eu só por mim quero-te tanto
que não vai haver menina p'ra sobrar»
Poema de Pedro Barroso, in ‘Cantos da Borda D’Água, 1985


JDACT

Palavras Mal Ditas. Poesia. Pedro Barroso. «… e o código começou e tu me ofereces o máximo que alguém nos pode dar e a guerra não tem hoje nem tabus são duas vontades grandes que ali estão e mais que as mãos e a boca e o Futuro…»

jdact e wikipedia

Excesso
«Há amores estranhos fundos sem razão
- são secretos vivem na cumplicidade
indizíveis nas palavras que aqui vão
são impróprios de viver em liberdade
levaram a ternura ao exagero
e a um excesso saboroso a nossa pele
só compreende quem sente o latejar
bem mais dentro que os olhos do olhar,
há amores que não posso aqui explicar
pois quer queiram quer não inda vivemos
na pré-História de um Futuro de cem mil anos
nas grutas de um sentir que não sabemos

há uma palavra escandalosa e proibida
quando se fecha a porta e começa a fantasia
e me sento no sofá e desligo-me da vida
e fico Senhor completo do teu corpo
e o código começou e tu me ofereces
o máximo que alguém nos pode dar
e a guerra não tem hoje nem tabus
são duas vontades grandes que ali estão
e mais que as mãos e a boca e o Futuro
e o vício de dois corpos seminus
amarro em ti a vida que me escapa
e acordas-me explicando o mundo todo
e cedo a esta raiva que me mata


e sinto em ti Mulher, Mulher de mais
e houvesse aqui, agora, já, um altar
e eu casava-me contigo poro a poro,
casava-me contigo em todos os rituais
se é que não estou exactamente assim casando
o ontem com o presente e o infinito
e a cada jogo beijo salto ou grito
pressinto o chão fugir e o mundo longe
e há um abuso consentido que não peço
e tu olhas-me plácida e tremente raiva e calma
e a tormenta desabrocha e sai de nós
pela porta escancarada do excesso»
Poema de Pedro Barroso, in ‘Palavras Mal Ditas’

JDACT

Poesia. Revolta. Pedro Barroso. «… mantenham com cuidado as árvores e estradas pr'a gente poder ver, p'ra gente circular que eu basta-me saúde e o sonho tão distante e a boca perturbante que tu me sabes dar e a festa de viver e o gozo e a paisagem…»

jdact

Poema do lavrador. De palavras aos políticos
não me perguntem coisas daquelas que eu não creia
não me perguntem coisas daquelas que não sei
remeto para os senhores as decisões do mundo
tais como governar, fazer decretos lei

no meio da tempestade no meio das sapiências
se poeta nasci, poeta morrerei
nem homem de gravata nem homem de ciências
apenas de mim próprio, e pouco, serei rei

das decisões do mundo lerei o que entender
que dentro de mim mesmo às vezes nasce um rio
e é esse desafio que nunca hei-de esquecer
e é essa a diferença que faz o meu feitio

mas digam por favor de onde nasce o sol
que eu basta-me o calor - para lá me voltarei
e saibam já agora que se eu lavrar a terra
me bastará que chova que o resto eu o farei
e digam por favor se o céu inda nos cobre
e bastará o azul
que em ave me tornei


mantenham com cuidado as árvores e estradas
pr'a gente poder ver, p'ra gente circular
que eu basta-me saúde e o sonho tão distante
e a boca perturbante que tu me sabes dar

e a festa de viver e o gozo e a paisagem
desta curva do Tejo, soprando a brisa leve
e na tranquilidade assim desta viagem
parar-se o tempo aqui, eterno, fresco e breve

que eu voo por toda a parte mas noutro horizonte
e vivo as coisas simples e rio-me da ambição
e ao fim de tanto ver, escolherei um monte
de onde assistirei, sorrindo, ao vosso enfarte

da ânsia de possuir, da ânsia de mostrar,
da ânsia da importância, da ânsia de mandar

e digam por favor de onde nasce o sol
que eu basta-me o calor - para lá me voltarei
e saibam já agora que se eu lavrar a terra
me bastará que chova que o resto eu o farei
e digam por favor se o céu inda nos cobre
e bastará o azul
que em ave me tornei
Poema de Pedro Barroso

JDACT