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terça-feira, 2 de novembro de 2021

Uma Certa Paz. Amós Oz. «Agora, aos vinte e seis anos, com seu jeito contido ou pensativo, despertara-lhe finalmente o desejo de estar só, sem os outros, de verificar o que mais existia…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Um dia um homem se levanta e muda de um lugar para outro. O que ele deixa atrás de si para trás e só lhe vê as costas. No Inverno de 1965, Ionatan Lifschitz resolveu abandonar sua mulher e o kibutz onde nascera e crescera. Decidiu sair e começar uma nova vida. Nos seus anos de infância, e na sua juventude, na época em que servia no Exército, sempre estivera cercado por um círculo próximo de homens e mulheres que não paravam de se intrometer na sua vida. Cada vez mais, sentia que esses homens e mulheres o cerceavam, e que bastava de concessões. Na sua linguagem peculiar, eles falavam frequentemente de um processo positivo ou de manifestações negativas, e ele quase deixara de entender o significado dessas palavras. Se estava sozinho à janela no meio do dia e via pássaros voando nas sombras do crepúsculo, aceitava tranquilamente no seu íntimo a ideia de que esses pássaros finalmente morreriam todos. Se o locutor do noticiário no rádio relatava o surgimento de sinais preocupantes, Ionatan sussurrava para si mesmo: Que diferença isso faz? E se saía sozinho à tarde para caminhar junto aos ciprestes queimados pelo sol numa das extremidades do kibutz e um chaver cruzava com ele e perguntava o que estava fazendo lá, respondia sem vontade: Nada, só estou dando uma volta. E de novo perguntava a si mesmo, com assombro: O que faz aqui? Um excelente rapaz, diziam dele no kibutz, só que muito fechado; uma dessas almas sensíveis, diziam. Agora, aos vinte e seis anos, com seu jeito contido ou pensativo, despertara-lhe finalmente o desejo de estar só, sem os outros, de verificar o que mais existia; pois às vezes era assaltado pela sensação de que sua vida transcorria dentro de um quarto fechado, cheio de conversas e de fumaça, onde se desenrolava, sem parar, uma discussão cansativa e muito barulhenta sobre um tema esquisito. E ele não sabia o que era, nem queria se envolver, e sim se levantar e sair e ir para um lugar onde talvez o estivessem esperando, mas não para sempre, e se ele chegasse atrasado seria tarde demais. Que lugar era aquele, Ionatan Lifschitz não sabia, mas sentia que não podia mais demorar. Benia Trotsky , Ionatan nunca o vira na vida, nem em retrato.

Benia Trotsky, que fugira do kibutz e do país em 1939, seis semanas antes do nascimento de Ionatan, era um jovem intelectual, um entusiasmado estudante da cidade de Kharkov que por opção própria se fizera operário de pedreira na Galileia Superior. Ele passara algum tempo em nosso kibutz e, contrariamente a seus princípios, se apaixonara por Chava, mãe de Ionatan; apaixonou-se à moda russa, com lágrimas e juramentos e confissões febris. Apaixonou-se por ela tarde demais, depois de ela já ter engravidado de Iulek, pai de Ionatan e de ter ido morar com ele no seu quarto no barracão mais afastado. Esse escândalo aconteceu no fim do Inverno de 1939 e terminou da pior maneira possível: depois de muitas complicações, cartas, uma declaração de suicídio, gritos na noite atrás do palheiro, esclarecimentos, esforços das instâncias do kibutz para acalmar os ânimos, apaziguar e encontrar uma solução lógica, após muita raiva e ressentimento e um discreto tratamento médico, chegou finalmente a vez de esse Trotsky fazer a guarda nocturna no kibutz. Recebeu então a antiga pistola parabélum e ficou de guarda no seu posto a noite inteira, e somente ao alvorecer, atacado de uma só vez por um desespero total, foi emboscá-la junto ao barracão da lavandaria, de repente pulou de dentro dos arbustos, atirou de perto na sua amada grávida e saiu de lá correndo, e com um uivo pungente, um uivo de cão ferido, correu às cegas até ao estábulo e disparou duas balas em Iulek, pai de Ionatan, que estava terminando a ordenha da noite, e atirou no nosso único touro, que se chamava Stakhanov. Por fim, quando os espantados chalutzim, os pioneiros, ao ouvir os tiros começaram a acudir e a persegui-lo, o infeliz projetou-se atrás do monte de esterco e disparou a última bala, apontada para a própria testa. Todos esses tiros erraram o alvo e não se derramou uma só gota de sangue.

Mesmo assim, o apaixonado fugiu do kibutz e do país e, por fim, após complicados vaivéns, acabou se tornando uma espécie de rei da hotelaria em Miami, na costa leste da América. Uma vez enviou uma grande contribuição, do próprio bolso, para a construção de uma sala de música no kibutz e uma outra vez escreveu uma estranha carta em hebraico na qual ameaçava ser, ou pretendia ser, ou talvez se propunha voluntariamente a ser, o verdadeiro pai de Ionatan Lifschitz. No quarto de seus pais, numa estante de livros, escondida entre as folhas de um antigo romance em hebraico chamado Har Hatsom, de Israel Zarchi, o jovem Ionatan encontrou uma folha de papel amarelada e nela um poema de amor bíblico que aparentemente fora escrito por Biniamin Trotsky . No poema, o apaixonado chamava-se El’azar de Marsha, e o nome de sua amada era Azuva bat Shilchi. Nome do poema: Mas o coração deles não estava certo. E ao pé da folha, a lápis, tinham sido acrescentadas algumas palavras numa caligrafia a um pouco diferente, uma escrita redonda e tranquila, mas que Ionatan não pôde decifrar porque eram letras cirílicas.

Todos aqueles anos seus pais haviam mantido total silêncio sobre o caso do amor e da fuga de Biniamin T., e só uma vez, durante uma briga séria, Iulek usou as palavras Tivui komediant, e Chava respondeu num fervilhante sussurro: Ti zabuio. Ti mordertsu. Os veteranos do kibutz diziam às vezes: Isso é fantástico. Uma distância de no máximo um metro e meio, que palhaço, nem no touro conseguiu acertar a uma distância de um metro e meio.

No seu pensamento, Ionatan buscava um lugar diferente, que lhe fosse adequado, uma nova possibilidade de trabalhar no que quisesse e de descansar sem estar cercado de gente. Seu plano era viajar para tão longe quanto possível, para um lugar que não se parecesse com o kibutz, que não se parecesse com os acampamentos do movimento juvenil ou com as bases do Exército, ou com as pousadas das excursões ao deserto, que não se parecesse com as estações nas encruzilhadas, castigadas pelo vento do deserto e onde sempre havia um odor de espinheiros, de suor e de poeira, e a acidez de urina seca. Era preciso chegar a um ambiente diferente em tudo, talvez a uma cidade grande de verdade, que lhe fosse estranha, que tivesse um rio com pontes, que tivesse torres, túneis, chafarizes esculpidos como monstros de pedra a esguichar, uns sobre os outros, jactos d’água, e essa água todas as noites iluminada das profundezas por luzes eléctricas, e às vezes lá estaria uma mulher desconhecida e sozinha, o rosto voltado para a luz da água, de costas para a praça calçada com lajes de pedra lapidadas; um lugar entre os lugares distantes nos quais tudo é possível e tudo pode acontecer, uma súbita conquista, amor, perigos, estranhos encontros». In Amós Oz, Uma Certa Paz, 1982, Companhia das Letras, ISBN 978-858-086-291-1.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

JDACT, Amós Oz, Literatura, Israel, 

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Os Templários e a Arca da Aliança. Graham Phillips. «O historiador judeu Josephus, fazendo seu trabalho por volta de 90 d.C, dá os detalhes da estrondosa magnitude do projecto»

Cortesia de wikipedia e jdact

Segredos do Templo

«(…) Quando Salomão morreu, por volta de 925 a.C., a maioria das tribos israelitas, a tribo de Judá, separou-se das demais tribos e fundou seu próprio reino independente, escolhendo Jerusalém como sua capital. Grosso modo, circundando a área que hoje é o sul de Israel, esse reino era conhecido como Judá, mais tarde vindo a ser chamado de Judeia pelos romanos, e seu povo ficou conhecido como os judeus. Foi o povo de Judá que desenvolveu os primeiros preceitos da religião hebraica, que viria a ser o Judaísmo, e transformou o Templo de Jerusalém no santuário mais sagrado da religião judia por mais de trezentos anos, até que a cidade foi invadida pelos babilónios. Na época, milhares de judeus foram escravizados e guiados para o exílio na cidade da Babilónia (próximo à moderna Bagdad), e em 597 a.C. o rei babilónio, Nabucodonosor, ordenou que o Templo fosse saqueado e destruído. Entretanto, em 539 a.C, quando os persas, do que hoje é o Irão, derrotaram os babilónios, foi que os judeus tiveram permissão para voltar a Jerusalém. Logo depois, o Templo foi reconstruído em uma escala menor, mas quando os romanos tomaram a cidade em 63 a.C, o santuário estava num estado avançado de ruínas. Paradoxalmente, a ocupação romana de Judá, na verdade,

trouxe grande prosperidade para a região; algo muito maior do que vivera durante séculos de existência. Quando o judeu aristocrata Herodes foi empossado pelos romanos como um rei fantoche, ele usou a sua nova riqueza para reerguer o Templo numa escala ainda maior do que a original. O trabalho foi iniciado por volta de 19 a.C, e quando o concluíram em 64 d.C, o novo Templo era uma das maiores e mais impressionantes estruturas em todo o Império Romano, e conferiu a seu patrono o título de Herodes, o Grande.

O historiador judeu Josephus, fazendo seu trabalho por volta de 90 d.C, dá os detalhes da estrondosa magnitude do projecto. As dimensões das paredes externas mediam aproximadamente 250 por 1.000 metros, criando um perímetro externo inacreditável de quase dois quilómetros e meio. As paredes tinham quase 30 metros de altura e eram feitas de pedras, muitas delas com peso de quase cinquenta toneladas. Na entrada principal da ala sul do complexo que parecia uma cidade, largas escadarias conduziam as pessoas até aos portões do Pórtico Real, um grande corredor com colunas, que dava acesso ao amplo pátio externo. De acordo com Josephus, os pilares sólidos que sustentavam o telhado do pórtico eram tão grandes que eram necessários quatro homens com os braços esticados para circundá-los. O pátio externo era grande o suficiente para abrigar o equivalente a treze campos de futebol moderno e era cercado de todos os lados por colunatas.

Em baixo dessas passagens cobertas, que proporcionavam uma sombra do sol escaldante, os visitantes podiam se reunir, e professores e alunos podiam se sentar para debater questões religiosas. Brilhando no meio do pátio ficava o complexo do Templo interno, construído na parte de cima de uma plataforma de pedra gigantesca com aproximadamente 1 metro de altura. Suas paredes mediam algo em torno de 150 a 300 metros e tinham cerca de 30 metros de altura, com pequenas torres de defesa em pontos estratégicos. Em diversos degraus intercalados havia estruturas que se elevavam até à plataforma dando acesso a oito portas enormes revestidas com placas de ouro e prata. A metros de altura, suas portas duplas de bronze eram tão pesadas, eram tão pesadas que, de acordo com Josephus, vinte homens eram precisos para fechá-las.

Qualquer pessoa podia entrar no Pórtico Real e o no pátio externo, mas somente os judeus tinham permissão para entrar no complexo central. Placas de aviso escritas em grego e latim diziam a todos os não judeus para não entrarem, sob pena de morte. Pelo Portão Coríntio, adoradores entravam num pátio externo, com cerca de 70 metros quadrados, também cercados por passagens cobertas. Esse pátio era conhecido como o Pátio das Mulheres, porque além desse lugar, as mulheres não tinham permissão para entrar em lugar nenhum. Somente os homens podiam subir um lance de escadas a mais e passar por um último portão para frequentar num pátio interno anterior ao Templo em si, uma reconstrução exacta do Templo original de Salomão, conforme relatado nas escrituras antigas.

O Templo de Salomão tinha cerca de 50 metros de altura e algo em torno de 300 metros quadrados. Suas paredes eram sustentadas por colunas e o telhado cercado por estacas douradas para impedir que os pássaros se empoleirassem ao longo de suas guarnições. Dentro do Templo, havia um santuário externo, onde ficavam braseiros para os sacrifícios de animais, exigidos pela lei religiosa contemporânea, e o altar superior, que dava base para o menorah, o candelabro de sete velas que simbolizava a presença de Deus. Finalmente, além dele, ficava o santuário mais secreto chamado de Sagrado dos Sagrados: uma câmara escura, sem janelas, construída para guardar a relíquia sagrada que todo o Templo foi erguido para abrigar, a Arca da Aliança». In Graham Phillips, Os Templários e a Arca da Aliança, 2004, Madras Editora, 2005, ISBN 978-857-374-965-6.

Cortesia de MadrasE/JDACT

JDACT, Graham Phillips, Israel, Religião, Conhecimento, Literatura,

segunda-feira, 27 de março de 2017

O Tesouro do Templo. Eliette Abécassis. «Havia ali mil e cem túmulos profanados, com ossadas alinhadas num eixo de norte para sul, em que os esqueletos se achavam estendidos sobre as costas»

jdact e wikipedia

«(…) A sul, Sodoma, destruída pelo fogo celestial, testemunha do cataclismo que, um dia, castigara a região. O cheiro a enxofre e as formas tenebrosas, esculpidas na areia e na rocha, revelam o império da destruição, o princípio do fim. Fora por isso que, dois mil anos antes, os essénios se haviam refugiado neste deserto, que se estende, a leste de Jerusalém, até à grande depressão do Ghor, onde o rio Jordão desagua no mar Morto, um deserto calmo e silencioso no qual se pode crer no fim dos tempos. A sul do nosso deserto, estende-se um outro, e a sul desse um outro ainda, onde Moisés recebeu as Tábuas da Lei. Em cada um desses desertos existem pastores imemoriais, testemunhas dos tempos, e os homens retiram-se do mundo para ir habitar o nosso deserto e deixar-se habitar por ele. Ao meio-dia, cheguei ao local do crime. O calor era sufocante. Passara em frente das grutas onde foram descobertos os restos de cerca de mil manuscritos, alguns remontando ao século III a.C., que tinham pertencido à nossa seita. Fora em 1947 que havia sido encontrado o primeiro jarro e assim começara a estranha história dos manuscritos do mar Morto, a descoberta arqueológica mais extraordinária de sempre. Desde os tempos em que aquele local era visitado em peregrinação, acreditava-se que nada de novo existia sob o solo da Judeia. Ao longo de dois milénios, os homens passavam ao lado daquele tesouro, ignorando que aqueles rolos de manuscritos, milagrosamente conservados em jarros, datavam da época de Jesus e se encontravam escondidos nas grutas de Qumran, em pleno deserto da Judeia, perto do mar Morto, a trinta quilómetros de Jerusalém.
Quando, em 1999, o grande sacerdote Osée, que participara na descoberta, fora encontrado crucificado na igreja ortodoxa de Jerusalém, a minha história pessoal cruzara-se com a dos manuscritos do mar Morto. Fora-lhe roubado um dos rolos e Shimon Delam, comandante do exército israelita, procurara meu pai, para lhe pedir que o ajudasse nas investigações. E eu, Ary, seu filho, havia-o acompanhado. Naquelas mesmas grutas, eu descobrira que, ao longo de inúmeras gerações, homens tinham vivido ali, sem que ninguém o soubesse, guardando e copiando os rolos de pergaminhos que constituíam os seus textos sagrados. Após mais meia hora de caminhada, alcancei a margem do mar Morto, e dirigi-me ao penhasco onde se achavam as ruínas de Khirbet Qumran. O local, selado pela polícia, estava deserto, aquela hora em que o Sol atingia o zénite. Passando por baixo do cordão que cercava o local do crime, avancei até ao cemitério contíguo às ruínas. Meu Deus! Como desejaria não me aventurar naquele vale de lágrimas, como gostaria de poder afirmar: não, não estive aqui, nada sei nem quero saber, nada vi, para não ser forçado a contemplar a terrível visão que se me deparou. Havia ali mil e cem túmulos profanados, com ossadas alinhadas num eixo de norte para sul, em que os esqueletos se achavam estendidos sobre as costas, com as cabeças viradas para sul. Existia ali um vale de ossadas expostas e eu ignorava porquê. Não soprava a menor brisa e, no entanto, parecia-me escutar como que um murmúrio: eram vozes, as vozes dos mortos, que se erguiam, na minha direcção, como se saíssem dos túmulos. As vozes de antepassados, atraídas pela santidade, pela pureza do acto e da intenção, que habitavam o último refúgio das suas aspirações, onde os homens zelavam ardentemente pelo cumprimento da lei de Moisés, onde aqueles essénios, os últimos dos últimos, cuja derradeira morada fora o deserto árido, tentavam, para lá dos seus túmulos, inspirar a Judeia, para que nunca se rendesse. A imensa progenitura de Judá e de Benjamin, tudo fazia por espalhar a mensagem e preservar a história de um povo. Foi então que reparei numa pequena cruz, perto de um aglomerado de pedregulhos e, quando ergui a cabeça, avistei o altar de pedra, erigido no meio do cemitério profanado, onde se procedera ao sacrifício. Uma faixa de plástico vermelho contornava-o e fora traçada, com giz branco, a silhueta de um homem. Tinham-lhe atado os pés e as mãos, antes de o matar, e degolado, como se fosse um cordeiro, em cima do altar, e sacrificado pelo fogo, que lançara o odor infame daquele homem em direcção ao Senhor. Havia sido necessário amarrá-lo firmemente, de modo a que ficasse completamente imobilizado e com o corpo retorcido, antes de lhe segurarem, com força, o pescoço e de lhe abrirem com um punhal de lâmina afiada. Fora preciso deixar que o seu sangue escorresse, a sua carne ardesse, até o fumo se elevar no ar. Por baixo, viam-se vestígios do lume, cinzas a toda a volta e, no altar, sete marcas de sangue». In Eliette Abécassis, O Tesouro do Templo, 2001, tradução de Catarina Lima, Círculo de Leitores, ISBN 972-423-086-4, Editora Livros do Brasil, Colecção Suores Frios, 2003, ISBN 978-972-382-671-5.

Cortesia de CL/ELBrasil/JDACT

sexta-feira, 24 de março de 2017

O Tesouro do Templo. Eliette Abécassis. «Com o dedo, indicou uma passagem: a mão do Senhor pousou-se em mim; fez-me sair pelo Espírito Santo e depositou-me no meio do vale»

jdact e wikipedia

«(…) Assim falara o meu pai e, por trás da dialéctica daquele sábio, não podia impedir-me de reconhecer o padre Cohen. Dois anos antes, eu descobrira que ele fora um essénio, até que decidira sair das grutas, aquando da fundação do Estado de Israel, para ir viver na cidade, e compreendi por que motivo aquele homem, de uma força e de uma estatura imponentes, conferidas pelo saber, pela coragem e pela fidelidade, tinha o carisma e o porte de um patriarca, com os seus cabelos castanhos, o seu corpo magro mas musculado, os seus olhos negros como dois archotes, num rosto iluminado por um sorriso quase mágico, que exprimia, simultaneamente, a vida do espírito que o inspirava e a serenidade conferida pelo estudo dos textos antigos. Era, sem dúvida, por isso, que meu pai não tinha idade, ou antes, aparentava todas as idades, personificando a memória dos tempos.
És novo, podes combater, insistiu ele. Possuis os conhecimentos e a força necessários para deslindar este enigma. A menos que queiras fazer como o profeta Jonas e fugir à tua missão... São assuntos deles, respondi. Enganas-te. Não são deles, mas, sim, um assunto que te diz respeito. Aquele homem foi sacrificado aqui perto, vestido com os vossos trajos rituais. E, se não agires, fica a saber que a investigação se encaminhará na vossa direcção. Acabará por descobrir-se a vossa existência secreta, e chegar-se-á, talvez mesmo, ao ponto de vos acusarem do crime, para vos obrigarem a sair das grutas, e prender-vos-ão, desta vez para sempre. Por isso mesmo, não se trata de um combate, mas da vossa salvação! Está escrito que devemos afastar-nos dos caminhos do mal. Foi então que meu pai se aproximou do rolo que eu começara a copiar. Decifrador de textos antigos, interessava-se pelas formas individuais das letras, para determinar em que época os textos haviam sido escritos e, apesar de a paleografia não ser propriamente uma ciência exacta, uma vez que nenhum manuscrito pode servir de referência absoluta, conseguia distinguir, nos textos que lia, a evolução das formas das consoantes mais recentes em comparação com as mais tardias. Memorizava tudo o que decifrava, reparava atentamente nas características de cada fragmento que estudava, mas também na qualidade do couro, na sua preparação e, até, no estilo do escriba, na tinta, no vocabulário e nos assuntos redigidos. As suas competências linguísticas permitiam-lhe ler, com igual desenvoltura, o grego e o semítico, analisar as tábuas cuneiformes bem como os bicos das flechas cananéias, com que se gravavam textos em documentos fenícios, púnicos, hebraicos, edomitas, aramaicos, nabateus, palmirenos, tamadeus, safaíticos, samaritanos ou cristo-palestinianos.
Com o dedo, indicou uma passagem: a mão do Senhor pousou-se em mim; fez-me sair pelo Espírito Santo e depositou-me no meio do vale; estava cheio de ossadas. Está escrito, desde o século II, que isto aconteceria no fim dos tempos, comentou. Acompanhei meu pai até à saída da gruta. À nossa frente, um grupo de homens aguardava. Anoitecera e, à luz do luar, podia avistar-se o maciço rochoso escarpado que nos separa do resto do mundo. Ao longe, no horizonte sombrio, recortavam-se os rochedos calcários, que formam a paisagem lunar do mar Morto. Num banco formado por rochas, à saída das nossas grutas, reconheci os membros do Conselho Supremo: Issakar, Pérèc e Yok, os padres Cohamin, Ashbel, Ehi e MoouPim, os Levis, bem como Guéra, Naamâne e Ard, filho de Israel, acompanhados de Levi, o padre que havia sido o meu instrutor, um homem de idade avançada, cabelos sedosos e grisalhos, pele encarquilhada e tisnada pelo sol, lábios finos e porte altivo. Aproximando-se de meu pai, disse: não te esqueças, David Cohen, de que estás dentro do segredo. Meu pai aquiesceu, em silêncio, e, pelas fissuras das rochas, iniciou a árdua descida que leva ao mundo conhecido. No dia seguinte, ao amanhecer, despi as minhas vestes rituais e enverguei os meus antigos fatos de hassídio em que não tocava há dois anos: uma camisa branca e calças pretas. Só depois parti.
Avancei pelo deserto solitário, sob um calor opressivo, com o rosto em brasa e os olhos encandeados pela luminosidade, seguindo, por entre as fissuras das rochas e pelas ravinas, o caminho secreto e perigoso que apenas os essénios conhecem. À minha frente, brilhava o grande lago de sal que se estende a quatrocentos metros abaixo do nível do mar, e onde o calor é tanto que a água se evapora, tornando o mar Morto ainda mais amargo. Chamam-lhe assim em virtude de as suas águas, pouco propícias a qualquer forma de vida, não consentirem peixes, algas ou embarcações e onde raramente se avistam homens». In Eliette Abécassis, O Tesouro do Templo, 2001, tradução de Catarina Lima, Círculo de Leitores, ISBN 972-423-086-4, Editora Livros do Brasil, Colecção Suores Frios, 2003, ISBN 978-972-382-671-5.

Cortesia de CL/ELBrasil/JDACT

O Tesouro do Templo. Eliette Abécassis. «Então, foi a minha vez de perguntar, quais são as notícias do exterior? A notícia, corrigiu meu pai. Foi perpetrado um crime no deserto da Judeia, a poucos quilómetros daqui»

jdact e wikipedia

«(…) Naquela noite de 16 do mês de Nissan de 5761, meu pai, David Cohen, dirigiu-se às grutas de Qumran e encontrou-me no scriptorium, onde me dedico à minha profissão. É uma gruta um pouco maior do que as outras, onde se acham, lado a lado, vários pergaminhos de tamanhos diferentes, assim como rolos sagrados, muitos jarros de dimensões gigantescas, cacos e pratos partidos. misturados com fragmentos rochosos..., uma amálgama de objectos antigos numa desordem secular, que eu nunca ousara perturbar. Havia mais de um ano que não via meu pai. Os seus olhos brilhavam de emoção. Os seus cabelos escuros eram ainda abundantes, mas a sua testa alta apresentava-se marcada por rugas, como se fosse um pergaminho onde as letras se haviam acumulado, com o passar dos anos. Uma, acentuara-se, desde a última vez que eu vira meu pai: lamed, que significa aprender e ensinar. Esta letra, a mais alta do alfabeto hebraico, a única em que a haste ultrapassa a linha em direcção ao alto, assemelha-se à escada de Jacob pela qual os anjos sobem e descem, e que lhes permite estudar e, por outro lado, transmitir os seus ensinamentos. Não tecera qualquer comentário, mas eu era o seu único filho e, embora respeitasse o caminho que eu escolhera, levado, em parte, pela força das circunstâncias dramáticas, e aceitasse a minha opção, por ser esse o meu percurso de vida, meu pai sofria por o ter deixado. Preferiria que vivesse mais perto dele, em Jerusalém, apesar de eu haver saído de casa, depois de cumprir o serviço militar, para ir viver no bairro ultra-ortodoxo de Mea Shearim. E se, em virtude das circunstâncias, não morasse com ele, ainda assim ser-lhe-ia menos penoso que eu residisse em Telavive, como qualquer outro israelita moderno, em vez de me refugiar nas grutas de Qumran. Creio mesmo que meu pai ficaria mais satisfeito se eu tivesse decidido viver num kibutz, quer a sul, quer a norte de Israel, ou, melhor dizendo, numa localidade onde pudesse visitar-me e não naquele refúgio secreto, de difícil acesso, onde levava uma vida de asceta. Quanto a mim, de tempos a tempos, perguntava-me quando iria voltar a vê-lo e, por isso, sentia como aquele momento era raro. Sem me aperceber, as lágrimas afloraram-me aos olhos.
Estou feliz por te ver de novo, exclamou meu pai. A tua mãe manda-te um beijo. Como está ela? Está bem. Já a conheces... É uma mulher forte! Eu sentia grande ternura por minha mãe, mas, desde que me convertera, uma espécie de barreira de incompreensão erguera-se entre nós. Para ela, que era de nacionalidade russa e não praticava qualquer religião, eu não passava de um louco, um fanático, por ter aderido, há dois anos, a uma seita secreta, com rituais estranhos: a dos essénios. No século II antes do nascimento de Jesus, um grupo de homens retirou-se para o deserto da Judeia, mais exactamente para um maciço rochoso chamado Khirbet Qumran, onde construíram um acampamento. Ali estudaram, oraram e se purificaram pelo baptismo, preparando-se para o fim do mundo. Todavia, o fim do mundo não chegou e, após a morte de Jesus e a revolta dos judeus, a História perdeu o rasto daqueles homens. O campo de Khirbet Qumran foi incendiado, abandonado, e pensou-se que os essénios tivessem sido sacrificados ou deportados pelos Romanos. Na realidade, refugiaram-se nas grutas mais recônditas do deserto, onde vivem em segredo e onde continuam, sem que ninguém o saiba, a orar, a estudar e a copiar os textos antigos e, sobretudo, a esperar e a prepararem-se para o mundo do futuro.
Então, foi a minha vez de perguntar, quais são as notícias do exterior? A notícia, corrigiu meu pai. Foi perpetrado um crime no deserto da Judeia, a poucos quilómetros daqui. Tratou-se, de certa forma, de um sacrifício humano. Shimon Delam veio procurar-me e pediu-me que falasse contigo, Ary. Quer que tu te encarregues do caso. Afirma seres o único homem que é, ao mesmo tempo, um soldado e também um sábio, dado conheceres tão bem as Escrituras. Mas, repliquei, não sabes que a minha missão é aqui, nas grutas de Qumran? A tua missão? Que missão?, perguntou meu pai. Ontem, os essénios elegeram-me, tornaram-me o seu Messias. Eles elegeram-te..., repetiu meu pai, fitando-me com uma expressão estranha, como se não tivesse ficado surpreendido com aquela revelação. Julgam que sou o Messias por quem eles esperaram. Os textos dizem: o Messias revelar-se-á no ano de cinco mil seiscentos e setenta, e será chamado o Leão. Ora o leão sou eu, é esse o significado do nome que tu mesmo me deste. Então, estás a deixar o teu trabalho de escriba e a sair das grutas? Sou escriba, detetive. Dizes que os essénios te elegeram como seu Messias, e isso significa que a tua missão deixa de se basear na escrita e passa a reger-se pelo combate, na luta do bem contra o mal. Ora, na guerra travada entre os espíritos da luz e os filhos das trevas, o teu papel é o de encontrar o assassino e de combatê-lo». In Eliette Abécassis, O Tesouro do Templo, 2001, tradução de Catarina Lima, Círculo de Leitores, ISBN 972-423-086-4, Editora Livros do Brasil, Colecção Suores Frios, 2003, ISBN 978-972-382-671-5.

Cortesia de CL/ELBrasil/JDACT

A Última tribo. Eliette Abécassis. «E, levando o seu exército, ele irá a Jerusalém, entrará pela Porta Dourada, reconstruirá o Templo»

jdact

«(…) Aquando de uma investigação que levava a cabo com o meu pai, descobri que os Essénios, que todos julgavam desaparecidos, mortos pelos romanos, varridos da História, ainda existiam. Sem que ninguém soubesse, tinham contudo sobrevivido, vivendo secretamente nas grutas do deserto da Judeia. Então, caminhei sobre a rocha árida à beira do Mar Morto, respirei longamente o ar do deserto e meditei ao Sol. No maior segredo, encontrei os Essénios nesse local duro e selvagem, impiedoso. E vi os que consagravam a vida à purificação, na preparação para a batalha do Apocalipse e com eles combati as forças das Trevas. E descobri que o meu pai, que julgava ateu, era um deles, e eles disseram-me que esperavam o Messias e que esse Messias era eu, Ary Cohen, Ary, o soldado, o estudante, o religioso, Ary, filho de David, da linhagem dos sumos sacerdotes da Bíblia. A minha estrada, semeada de ciladas, foi longa. Fiz uma aliança com o povo do deserto e prometi que a glória do Senhor estabelecer-se-ia na Terra, que o Templo de pedra, duas vezes construído, duas vezes destruído, seria erigido em Jerusalém, na esplanada das Mesquitas. Acompanhei os Essénios e subi a Jerusalém.
Vivia então no sonho do Templo, finalmente reencontrado, finalmente reconstruído. Queria um local para O ver, para lhe oferecer holocaustos puros, holocaustos pelos pecados, que apagariam os pecados. Tal como David se lavou antes de entrar na Casa de Deus, banhei-me; tal como os Essénios que, de manhã, e mais ainda a tarde, entravam nas águas puras como num santuário sagrado, eu estava purificado. Desde a época de Jesus, os Essénios tinham um sonho, um projecto: tirar Jerusalém das mãos dos sacerdotes ímpios e construir um Templo para as gerações futuras, onde o sacrifício divino seria executado pelos sacerdotes da seita, os descendentes de Zadoc, segundo o calendário solar ao qual a seita aderia. E os que permaneciam secretamente no deserto em Qumran, nas costas do Mar Morto, evocavam o admirável edifício de pedra, ouro e madeiras preciosas, várias vezes reconstruído e embelezado. Por fim, chegou o dia que tanto esperavam. Esperavam pela chegada daquele que combateria os Filhos das Trevas. Diziam:

ele irá a Jerusalém,
entrará pela Porta Dourada,
reconstruirá o Templo.
Tal como lhe revelou a sua visão,
e o Reino dos Céus,
tão esperado,
virá por ele,
o salvador,
que será chamado
o Leão.

E eu era Ary, o leão, o Messias dos Essénios. e o meu coração, como o pássaro que perdeu o ninho, suspirava, ansiava pelo adro do Templo. Não parava de endereçar as minhas preces a Jerusalém. Nas minhas grandes preces da manhã, do meio-dia e da tarde, suplicava pelo regresso dos exilados e pelo restauro da Cidade da Paz. Os meus dias de jejum e os meus dias de luto eram aniversários dos nossos desastres nacionais e os serviços mais solenes do nosso ritual acabavam pela invocação: no próximo ano, em Jerusalém. Nos momentos mais arrebatadores das minhas alegrias, rezava pela Jerusalém desfeita, a Jerusalém enlutada pela destruição da sua Casa». In Eliette Abécassis, A Última Tribo, 2004, tradução de Carlos Oliveira, Editora Livros do Brasil, Colecção Suores Frios, Lisboa, 2005, ISBN 972-382-763-8.

Cortesia ELBrasil/JDACT

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A Última Tribo. Eliette Abécassis. «De tanto estudar as letras, tornara-me uma letra, o Vau. O Vau conversivo, aquele que faz do futuro um passado e do passado um futuro»

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«(…) Sou Ary, o escriba, mas deixei de o ser. Tinha abandonado tudo e deixara de procurar a sabedoria. Endossara as roupas citadinas e era como vós. Já não conhecia os tormentos e os transes, os pavores daquele que busca Deus. Deus! Como estava longe da religião que invadira as menores fibras do meu ser! Trazia os Essénios na pele, as letras gravadas no meu rosto, o nome de Deus tatuado no meu coração. Era Ary, o Messias, mas deixara tudo para trás, até a minha própria essência deixara longe de mim, e sentia-me leve, tão leve... De tanto estudar as letras, tornara-me uma letra, o Vau. O Vau conversivo, aquele que faz do futuro um passado e do passado um futuro. Renegara a religião, tornara-me praticante da apostasia e posso dizer-vos que comia o que se me apresentava. Caminhava livre e satisfeito, finalmente anónimo, sem o peso terrível do eleito, sem esse privilégio que é um fardo. E dizia para comigo: a mim, o mundo, a mim, a vida! E escrevi: a mim, o amor. Tenho um utensílio pontiagudo e, com a tinta, desenho as colunas e as linhas. Escrevo com a pluma e a resina, utilizo óleo e água, concluo o meu trabalho em pequenas peças de couro; as letras abordam as linhas como dançarinas microscópicas, valsando em conjunto, ligando-se e dobrando-se uma e outra vez, curvando-se em grandes arabescos para vos saudar, para vos desejar as boas-vindas, para vos levar para algum lado, para longe, neste mundo, e para vos revelar o seu mistério, assim seja. Na tua boca pus as palavras, na palma da minha mão te acolhi.

Na falésia existem grutas, umas feitas pela mão do homem, outras naturais. Nas escavações que aí se efectuaram, em 1947, foram encontrados rolos e fragmentos que representam documentos judeus essenciais, dezenas de milhar de fragmentos, uma verdadeira livraria que data do tempo de Jesus, a maior descoberta arqueológica do século XX. Os manuscritos encontrados nesse ano estavam habilmente conservados em jarros, envoltos em panos, ao abrigo da humidade. Os Essénios escreveram esses rolos: é uma seita judia, oriunda dos sacerdotes do Templo, que se retirara para o Mar Morto esperando pelo fim dos tempos, purificando-se, banhando-se na água pura e clara para se prepararem para o seu advento. Quando chegasse esse tempo, os maus seriam destruídos e os bons seriam vitoriosos. Os Essénios viam-se a si próprios como os Filhos da Luz que combatiam os Filhos das Trevas. Desconfiavam da mulher sedutora, cujo coração é uma serpente, cujas roupas são enfeites e que desviavam o homem justo do seu caminho: Lilith, segundo o mito bíblico. Um demónio que voa de noite para perverter os homens. O meu destino está ligado ao dos manuscritos. Contudo, não era predestinado. Na minha juventude fui soldado: cumpri o serviço militar na terra de Israel e combati noites inteiras para defender o meu país. A minha família não era religiosa: o meu pai, paleógrafo, consagrara a sua vida ao estudo dos textos antigos, mas de um ponto de vista científico, pelo menos era o que eu pensava. Quanto a mim, depois do exército encontrei a religião: ela acolheu-me numa manhã de Primavera, graças ao encontro com um rabino no quarteirão de Mea Shearim, em Jerusalém. Era o Rabi: foi ele quem me ensinou os preceitos da Tora, as discussões do Talmude e até certos mistérios da Cabala que só os iniciados conhecem. Tornou-se o meu mestre, o meu mentor, e eu tornei-me o seu discípulo. Graças a ele, descobri um mundo diferente daquele em que vivia, um mundo habitado por uma alma, um mundo com o traje do esplendor e eu próprio vesti a sobrecasaca escura dos estudantes da Lei.
Dediquei-me ao estudo de todo o coração, procurei a sabedoria com toda a minha alma e com todos os meus poderes, e encontrei-a, pois li muito, aprendi muito e, nas danças misteriosas dos hassidim ao dealbar da madrugada descobri tanta graça e tanta beleza que não mais os quis deixar. Então abri asas e afastei-me da minha família, ateia e julgava eu, despreocupada, longínqua. Nunca mais comi em casa da minha mãe pois a sua cozinha não era casher, e vi o meu pai, que tanto amava, de longe em longe, até ao momento em que, sem querer, me vi implicado numa investigação policial. Deste modo, eu, Ary Cohen, o oficial, o estudante, o escriba, tornei-me detective». In Eliette Abécassis, A Última Tribo, 2004, tradução de Carlos Oliveira, Editora Livros do Brasil, Colecção Suores Frios, Lisboa, 2005, ISBN 972-382-763-8.

Cortesia ELBrasil/JDACT

A Última tribo. Eliette Abécassis. «Mas há um pequeno pormenor... Oual? Shimon observou-me como se estivesse profundamente incomodado com o que me ia dizer. Foi há dois mil anos, anunciou»

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«(…) E então?,-perguntei. Encontraram-no há doze dias. Há doze dias... Onde? No Norte do país? Numa sinagoga restaurada no Golan? Perto de Quioto, num santuário. Quioto? No Japão. Mas, exclamei, o que tem isso a ver... Comigo?, concluiu Shimon pegando num palito, o que, no seu caso, era sinal de grande tensão nervosa. Continua... É muito simples. Como já te disse, agora estou no Mossad. Não ficarás decerto surpreendido se te disser que faço parte da secção internacional... Os serviços secretos... Estás a ver onde quero chegar? Roeu o palito, com ar de reflectir intensamente. Mas e eu, Shimon?! Pensaste em mim? Não sou um espião. Não tenho essa formação. E, além disso, que tenho a ver com o Japão? Pelo contrário, pareces estar perfeitamente treinado. Aprendeste no terreno, como se diz. Em Paris, em Nova lorque e aqui, em Israel... Diria mesmo que tens a melhor formação possível para este tipo de missão..., no terreno. Prefiro prevenir-te desde já... Ouve, é muito simples, interrompeu-me. Vou explicar-te tudo. Olhei para a fotografia. Morreu assassinado, provavelmente... Sim, foi assassinado. Mas há um pequeno pormenor... Oual? Shimon observou-me como se estivesse profundamente incomodado com o que me ia dizer. Foi há dois mil anos, anunciou. Como? Que dizes? Podes repetir? Estou a dizer-te que este homem morreu há dois mil anos. Assassinado. Escuta, Shimon, disse, levantando-me. Podes explicar-me ao que estás a brincar? O frio e a neve preservaram-lhe os ossos e os tecidos. Foi examinado na scanner e os investigadores detectaram uma sombra suspeita sob o ombro esquerdo que, aparentemente, se deslocou. O exame confirmou que a sombra era a ponta de uma arma cortante, talvez uma seta. Estás a seguir-me? Não muito bem. A lâmina entrou no corpo e paralisou o braço, cortando uma veia. A identidade do criminoso permanece um mistério. Suponho que a do homem também.
Não inteiramente. Aparentemente era de pele branca, apesar de tisnada. O frio também conservou pedaços da túnica que trazia. Além disso, encontraram isto nas suas mãos, disse Shimon, entregando-me uma segunda foto. Devolvi-lha sem sequer olhar para ela. É inútil. Não faço parte do caso. Não vou andar à procura do assassino de um morto há três mil anos... Dois mil. Além disso, assinalo-te que ele já não existe. Ou talvez exista, mas sob a mesma forma que este homem e, nesse caso... Talvez não..., murmurou Shimon, pensativo. Talvez não?, exclamei. Mas que foi que te deu? Acreditas em fantasmas? Ou na imortalidade? Um dos monges do templo onde o homem foi encontrado, desapareceu. Repito-te: não vejo o que tenho a ver com tudo isso. Shimon não parecia minimamente desconcertado. Calmo, sereno, esperava, sem dizer palavra. Passado um momento levantei-me para lhe indicar a saída. Ainda há outra coisa, disse, levantando-se. Se queres falar-me de dinheiro, repito-te que... E a propósito de Jane... De que se trata? Sabes onde ela está? Acaba de receber uma mensagem da CIA. Peguei na folha que ele me estendia com as fotos. Uma ordem de missão..., para o Japão!
Shimon inclinou-se para mim e entregou-me um bilhete de avião. Despacha-te. Não há tempo a perder... Mas que irei dizer ao meu pai? Preveniste-o? Ele consultou o relógio. Esta tarde, às dezoito e cinquenta. Tens aproximadamente doze horas para te despedires de toda a gente. Só então o meu olhar caiu num dos clichés. Estupefacto, descobri um manuscrito hebraico. Um manuscrito de Qumran num templo de Quioto, no Japão. Qumran, a trinta quilómetros de Jerusalém, no deserto de Judeia. Era aí que devia fazer as minhas despedidas. Qumran, reino da beleza, coração da minha alma, imensidade celeste, vestígio imenso da origem, da criação do mundo, sítio tão baixo e profundo que, para quem sabe inclinar-se, é possível ver a crosta terrestre a partir da elevada plataforma de calcário, entre os rochedos da terra da Judeia, diante da grande baía que domina o mar Morto. Sob o céu de Qumran, o solo é árido e o Sol é rei. Faz calor entre as rochas, faz calor na terra. Não há vento, nem ruídos, pode ouvir-se o passo do lagarto e o deslizar da serpente por entre as covas profundas e os sulcos dos desfiladeiros. Mais longe, em Ain Feshka, uma corrente de água dá de beber à terra seca e as suas torrentes alimentam a camada freática de Qumran.
E aí que vivo, é aí que escrevo: chamam-me Ary, o escriba. De olhos fixos no pergaminho, a mão apertando a pluma, escrevo. Dia e noite, escrevo: para mim não há horas, estações, calendário, pois a escrita, tal como o amor, é um mundo onde o tempo se eterniza, onde a duração prolonga o instante e o dilata, onde ninguém sabe quando chega a luz e o dia. Sou Ary, o escriba: para mim não há outra vida para lá de escrever, a sombra, ao abrigo do calor tórrido do grande lago, do seu reflexo ofuscante sob o céu e dos dias e das noites daqueles que caminham ao Sol. Tenho trinta e cinco anos e já sou velho, tantas foram as aventuras que vivi, longe do turbilhão das necessidades da vida, tanto viajei e meditei, pois não procurei ganhar a vida e, frequentemente, perdi-me ao Sol. Depois, pus o mundo entre parênteses para escrever a minha história, essa história particular, imensa e ínfima, essa história singular da qual não sou responsável e que se mistura à própria História. Procurei desde sempre a união, até posso dizer que lhe consagrei a minha vida. Sim, durante muito tempo errei pelos meandros do mundo, pelas passagens estreitas e pelas vias mais largas e se me perdi tantas vezes não foi por ter deixado de tentar encontrar o meu caminho. Presentemente vivo longe de todos, numa gruta secreta, num local afastado e desértico, a alguns quilómetros de Jerusalém, o chamado deserto da Judeia. Aí se elevam falésias de calcário que dominam o local mais baixo da terra, o mais sulfuroso, o mais denso em sal, o que conserva a vida, o local mais original e mais longínquo, o mais pequeno, apesar de imenso, esse local estranho e único, quase irreal, chamado Qumran». In Eliette Abécassis, A Última Tribo, 2004, tradução de Carlos Oliveira, Editora Livros do Brasil, Colecção Suores Frios, Lisboa, 2005, ISBN 972-382-763-8.

Cortesia ELBrasil/JDACT

domingo, 6 de março de 2016

O Tesouro do Templo. Eliette Abécassis. «A vítima era um arqueólogo que procedia a escavações em Israel. Procurava o tesouro do Templo, seguindo indicações exactas de um manuscrito do mar Morto...»

jdact e wikipedia

«Foi no ano de 5761, a 16 do mês de Nissan, ou, para quem preferir, a 21 de Abril de 2000, trinta e três anos após o meu nascimento. Nas terras de Israel, mais precisamente no meio do belo deserto da Judeia, perto de Jerusalém, alguém encontrou o corpo de um homem assassinado em circunstâncias algo estranhas. Depois de amarrado e colocado sobre um altar de pedra, haviam-no degolado e queimado. A sua carne, parcialmente calcinada, deixava os ossos à vista. O que restara da sua túnica de linho branco e o turbante que lhe cobria a cabeça estavam manchados de sangue. Sobre o altar de pedra, viam-se sete linhas ensanguentadas, feitas pela mão do criminoso. Aquele homem fora sacrificado como um animal. Haviam-no deixado naquele estado, com os braços cruzados e o pescoço aberto. Shimon Delam, antigo general do exército israelita e actual director do Shin Beth, os serviços secretos para os Assuntos Internos, fora visitar meu pai, David Cohen, para lhe pedir auxílio. Meu pai, paleógrafo de rolos antigos, e eu Ary Cohen trabalháramos juntos para Shimon, dois anos antes, a fim de ajudá-lo a deslindar o enigma de um manuscrito desaparecido, a que estavam associadas misteriosas crucificações. Depois de lhe explicar a situação, Shimon dissera: David, se recorro novamente a ti, é porque..., é porque não sabes a quem mais pedir ajuda atalhara o meu pai. E porque os polícias pouco ou nada conhecem acerca de rituais que envolvam sacrifícios ou sobre o deserto da Judeia. Menos ainda quando se trata de sacrifícios de seres humanos... Tens de reconhecer que tudo isso nos remete para um período muito longínquo da História. Dito aquilo, Shimon estendera um pequeno saco de plástico preto a meu pai. É um revólver, comentara este, depois de examinar o conteúdo do saco de plástico, de calibre sete sessenta e cinco. Este caso pode levar-nos muito longe, e não estou a referir-me ao deserto da Judeia, nem tão-pouco à história dessa região. Falo da segurança do Estado de Israel. Podes ser mais explícito? Actualmente, existe grande tensão nas nossas fronteiras. Tivemos conhecimento de movimentos de tropas, no Sul da Síria. Avizinha-se uma guerra, mas não sei onde rebentará nem como. E este homicídio pode ser o primeiro sinal. O primeiro sinal..., murmurara meu pai. Ignorava que acreditavas em sinais... E não acredito, replicara Shimon. A CIA também não e, no entanto, estamos de acordo. Segundo as nossas investigações, o punhal, ou melhor, a arma do crime, que se achava perto do cadáver, terá sido feita na Síria, no século doze. No século doze..., repetira meu pai.
A vítima era um arqueólogo que procedia a escavações em Israel. Procurava o tesouro do Templo, seguindo indicações exactas de um manuscrito do mar Morto... Estás a referir-te ao Rolo de Cobre? Exactamente. Meu pai não pudera reprimir um sorriso. Sempre que Shimon empregava o advérbio exactamente, isso significava que a situação era grave. Sabemos que o objectivo secreto desse arqueólogo era construir o Terceiro Templo, e que tinha inimigos... Mas tu conheces-me: sou um militar e os motivos mais profundos deste crime ultrapassam-me. É melhor passares aos factos, aconselhara meu pai. Não é uma missão igual às outras. É por isso que preciso de um homem que conheça a fundo a Bíblia e que, se for necessário, não receie lutar. Preciso de alguém que seja, ao mesmo tempo, um sábio e um soldado. Shimon olhara para meu pai, em silêncio, durante alguns segundos e, enquanto mordiscava tranquilamente um palito, concluíra, por fim: Preciso de Ary, o Leão.

Primeiro rolo. O rolo do crime
«Sejam fortes e firmes, ó bravos soldados Não tremam! Não voltem as costas! Pois, atrás de vós, acha-se a comunidade do crime e nas trevas residem todos os seus actos e as trevas são a sua paixão a vaidade, o seu refúgio, mas o seu poder, tal como o fumo, desvanecer-se-á, todo o seu exército desaparecerá e o universo da sua essência depressa murchará. Sejam firmes para o combate pois é agora que advém a obra de Deus contra os espíritos do crime. Rolos de Qumran regulamento da Guerra».

Sou Ary, o escriba. Sou Ary Cohen, filho de David. Há alguns anos, vivia entre vós. Tal como os meus amigos, viajava até países distantes, saía à noite, frequentava os bares de Telavive e também cumpri o serviço militar na terra de Israel. Até que um dia larguei as minhas vestes citadinas e retirei-me para o deserto da Judeia, às portas de Jerusalém, mais precisamente para os penhascos de um local recôndito chamado Qumran. Na quietude do deserto, levo uma existência austera, alimentando o meu espírito, mas não o meu corpo. Sou escriba. Tal como os meus antepassados, trago à cintura um cinto, do qual pendem uma caixa de junco, com aparos e pincéis, e um canivete, que utilizo para raspar o couro. Aliso-o com esse canivete, para eliminar as manchas e as rugosidades e obter um polimento poroso, que absorverá a tinta sem a deixar espalhar-se. A fim de gravar as letras, uso penas de ganso, mais finas do que os meus aparos de madeira, já muito gastos. Escolho-as cuidadosamente por entre os despojos das aves que são criadas no kibutz mais próximo de Qumran. Prefiro as da asa esquerda, que deixo imersas em água várias horas até amolecerem, antes de ficarem secas e tornarem a endurecer nas areias escaldantes do deserto. Por fim, afio-as com o meu canivete. Pego, então, no meu tinteiro, que contém um recipiente para a água e outro para a tinta; misturo-as num frasco e começo: a minha vida é-me arrancada e levada para longe como a tenda de um pastor. Gravo cada letra em pergaminhos amarelecidos, como as páginas de livros ancestrais, lidas, tocadas, viradas, ano após ano, século após século, milénio após milênio. Escrevo todos os dias e também de noite. Agora, gostaria de contar a minha história, um episódio aterrorizador do qual fui o protagonista. Não se trata de um acaso se, no início da minha aventura, há uma citação da Bíblia, pois foi no Livro Sagrado que vi o amor e a marca de Deus, mas também a violência e, sim, o verbo ser. Ó filhos, escutai-me e tirar-vos-ei as vendas dos olhos para que vos seja possível ver e compreender os actos do Senhor». In Eliette Abécassis, O Tesouro do Templo, 2001, tradução de Catarina Lima, Círculo de Leitores, ISBN 972-423-086-4, Editora Livros do Brasil, Colecção Suores Frios, 2003, ISBN 978-972-382-671-5.

Cortesia de CL/ELBrasil/JDACT

A Última Tribo. Eliette Abécassis. «Sim, perfeito. Preciso de te falar a sós. Trata-se de trabalho. Mas, Shimon, sabes perfeitamente que isso está completamente fora de questão...»

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«O homem foi encontrado no santuário, sobre o vale. Chegava-se ao edifício passando por uma longa fileira de árvores. Ao seu lado, um areal enfeitado com alguns arbustos e ervas sem flores circundava a construção. Uma corrente serpenteava por entre as árvores para desaguar num riacho, numa fina cascata sobre as rochas cavas. As nuvens tinham-se acumulado depois do relâmpago que rasgara o céu. Escureciam, envolvendo com uma aura sombria as estrelas que anunciavam a noite. Fazia-se tarde no jardim com as suas árvores e as suas estreitas correntes de água à volta do templo, fazia-se tarde no vale de onde o fumo se elevava em volutas, fazia-se tarde em toda a terra. No entanto, a luz fraca do crepúsculo, era possível distinguir o homem na sala vazia. jazia estendido no solo, sem vida, braços dispostos em cruz, cabeça inclinada para o ombro, corpo coberto por um andrajo. Os seus cabelos sem cor esfiapavam-se como filamentos, e a pele, tão fina que parecia desaparecer, era furada pelos ossos. O rosto, inexpressivo, apresentava o trejeito característico da caveira. O vigor abandonara este corpo consumido pelo tempo, os rins tinham perdido força, a carne derretia como cera, o braço desprendera-se do ombro, os joelhos pareciam liquidificados. Os seus ossos deslocavam-se e as entranhas assemelhavam-se a um navio na fúria de uma tempestade. Diante dele, estava um fragmento de manuscrito coberto por uma escrita negra e cerrada, que ele parecia ter segurado na mão, há muito, muito tempo... Esta é a tua visão e tudo o que ela contém está prestes a advir no mundo... No meio de grandes sinais, a tribulação abater-se-á sobre esta terra. E depois de todas essas matanças e massacres, elevar-se-á um Príncipe das Nações».

O rolo de Ary
«Para vós, experimentarei então o meu sopro: dispensarei as minhas palavras, por meio de parábolas e enigmas, a todos os perscrutadores das raízes do discernimento e também aos seguidores dos mistérios do maravilhoso, aos caminhantes, aos cândidos e àqueles cujos actos não passam de intrigas sobre os tumultos das nações, para que possam discernir entre o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, para que apreendam os mistérios do pecado. Eles ignoram os segredos, nunca questionaram as crónicas, não sabem o que os espera. Não salvaram a sua alma, privados que estavam do segredo da existência». In Manuscritos do Mar Morto, O Livro dos Segredos.

«Era uma manhã de Primavera. O Sol levantava-se sobre Jerusalém, acariciava os telhados com o seu olhar castanho--avermelhado, esse olhar que só tem para ela. Os seus raios filtravam-se através da janela do meu hotel, envolvendo o quarto num halo amarelado. Alguém batia insistentemente a porta. Levantei-me, vesti-me rapidamente e fui abrir. Foi então que vi aquele cuja presença temera, o portador de notícias que sempre receava e cujas palavras tinham abalado tantas vezes os alicerces da minha vida. Ali estava ele, sempre igual a si mesmo, em todo o seu poder, na plenitude do seu ser. Incontornável. Modos descontraídos, cinquenta anos bem conservados, tez mate, cabelos escuros com fios de prata, vestido à militar, com um casaco e umas calças de grosso tecido bege. Shimon Delam, proferi, como que para mantê-lo à distância, ex-comandante do exército, actual chefe do Shin Beth, os serviços de informação interna de Israel... Não, Ary, acabo de ser nomeado para um novo posto, respondeu, esboçando um sorriso. Agora estou no Mossad. Parabéns. Muito me regozijo... Mas..., foi para me dares essa notícia que vieste aqui a esta hora tão matinal? Matinal..., ecoou Shimon, entrando e instalando-se confortavelmente numa das poltronas. Assinalo-te que, mesmo assim, já são sete horas. Deixei a porta escancarada. Ora, Shimon... Podemos ver-nos um pouco mais tarde, ou melhor..., nunca mais! Não queria incomodar-te, Ary, mas é um caso urgente, interrompeu-me, com ar falsamente desolado. Um caso urgente. Claro, é sempre um caso urgente...
Urgente talvez não seja a palavra adequada. Diria antes premente. Bem, bem…, qual é a diferença?, perguntei, continuando de pé, pois estava habituado às subtilezas de Shimon. O meu interlocutor pareceu satisfeito. Já não era sem tempo. Perfeito. Agora podes sentar-te. Obedeci automaticamente. Perfeito? Shimon tinha um dom único para se sentir em sua casa a qualquer hora e a qualquer momento e, também, para o dar a entender aos outros. Sim, perfeito. Preciso de te falar a sós. Trata-se de trabalho. Mas, Shimon, sabes perfeitamente que isso está completamente fora de questão... Fez um gesto para me indicar que não queria dizer mais. Franziu a sua testa burilada pelo sol, sinal de grande inquietação. Passou-me uma fotografia. Olhei para ela, sem compreender. Um homem jazia no solo, braços em cruz, aparentemente morto há bastante tempo: o seu corpo deixava os ossos à vista sob um pedaço da túnica clara, mal se lhe distinguiam os traços do rosto. Encontrava-se num local que se assemelhava vagamente a uma sinagoga antiga, ou melhor, a um templo». In Eliette Abécassis, A Última Tribo, 2004, tradução de Carlos Oliveira, Editora Livros do Brasil, Colecção Suores Frios, Lisboa, 2005, ISBN 972-382-763-8.

Cortesia ELBrasil/JDACT

domingo, 6 de dezembro de 2015

Origens do Totalitarismo. Hannah Arendt. «Dessas transformações resultou o desnudamento dos componentes, antes ocultos, de nossa história. Isso não significa que o que desabou na crise (talvez a mais profunda na história do Ocidente desde a queda do Império Romano) foi mera fachada…»

Cortesia de wikipedia

O antissemitismo como uma ofensa ao bom senso
«(…) Após a catástrofe final, isto é, após a aniquilação quase completa dos judeus da Europa, a tese do antissemitismo eterno tornou-se mais perigosa do que nunca, pois ela poderia levar até à absolvição os mais tenebrosos criminosos entre os antissemitas. Longe de garantir a sobrevivência do povo judeu, o antissemitismo ameaçou-o claramente de extermínio. Contudo, essa explicação do antissemitismo, tal como a teoria do bode expiatório, e por motivos semelhantes, sobreviveu ao confronto com a realidade, pois ela acentua a absoluta inocência das vítimas do terror moderno, o que aparentemente é confirmado pelos factos. Em comparação com a teoria do bode expiatório, ela tem até a vantagem de responder à incómoda questão por que os judeus e não outros? de maneira simplória: eterna hostilidade. É deveras notável que as doutrinas que ao menos tentam explicar o significado político do movimento antissemita neguem qualquer responsabilidade específica da parte dos judeus e se recusem a discutir o assunto nestes termos. Ao implicitamente recusarem abordar o significado da conduta humana, assemelham-se às modernas práticas e formas dos governos que, por meio do terror arbitrário, liquidam a própria possibilidade de acção humana. De certa forma, nos campos de extermínio nazistas os judeus eram assassinados de acordo com a explicação oferecida por essas doutrinas à razão do ódio: independentemente do que haviam feito ou deixado de fazer, independentemente de vício ou virtude pessoais. Além disso, os próprios assassinos, apenas seguindo ordens e orgulhosos de sua desapaixonada eficiência, assemelhavam-se sinistramente aos instrumentos inocentes de um ciclo inumano e impessoal de eventos, exactamente como os considerava a doutrina do eterno antissemitismo. Esses denominadores comuns entre a teoria e a prática não indicam, por si só, a verdade histórica, embora espelhem o carácter oportunista das opiniões popularmente propaladas, revelando e explicando porque elas são tão facilmente aceitáveis pela multidão. O historiador interessa-se por elas enquanto são parte da história de que tratam, e na medida em que se interpõem no caminho da sua busca à verdade. Mas, sendo contemporâneo dos eventos, o historiador é tão sujeito ao poder persuasório dessas opiniões como qualquer outra pessoa. Para o historiador dos tempos modernos é especialmente importante ter cuidado com as opiniões geralmente aceitas, que dizem explicar tendências históricas, porque durante o último século foram elaboradas numerosas ideologias que pretendem ser as chaves da história, embora não passem de desesperados esforços de fugir à responsabilidade.
Platão, na sua luta contra os sofistas, descobriu que a arte universal de encantar o espírito com argumentos nada tinha a ver com a verdade, mas só visava a conquista de opiniões, que são mutáveis por sua própria natureza e válidas somente na hora do acordo e enquanto dure o acordo. Descobriu também que a verdade ocupa uma posição muito instável no mundo, pois as opiniões, isto é, o que pode pensar a multidão, como escreveu, decorrem antes da persuasão do que da verdade. A diferença mais marcante entre os sofistas antigos e os modernos é simples: os antigos satisfaziam-se com a vitória passageira do argumento às custas da verdade, enquanto os modernos querem uma vitória mais duradoura, mesmo que às custas da realidade. Noutras palavras, aqueles destruíam a dignidade do pensamento humano, enquanto estes destroem a dignidade da acção humana. O filósofo preocupava-se com os manipuladores da lógica, enquanto o historiador vê obstáculos nos modernos manipuladores dos factos, que destroem a própria história e a sua inteligibilidade, colocada em perigo sempre que os factos deixam de ser considerados parte integrante do mundo passado e presente, para serem indevidamente usados a fim de demonstrar esta ou aquela opinião. É certo que seria difícil encontrar o caminho no labirinto dos factos desarticulados, se fossem abandonadas as opiniões e rejeitada a tradição. Contudo, essas perplexidades da historiografia são consequências ínfimas se forem consideradas as profundas transformações do nosso tempo e o seu efeito sobre as estruturas históricas do mundo ocidental. Dessas transformações resultou o desnudamento dos componentes, antes ocultos, de nossa história. Isso não significa que o que desabou na crise (talvez a mais profunda na história do Ocidente desde a queda do Império Romano) foi mera fachada que encobria esses componentes, embora não passassem de fachada muitas coisas que, há apenas algumas décadas, eram consideradas essenciais. A simultaneidade entre o declínio do Estado-nação europeu e o crescimento de movimentos antissemitas, a coincidência entre a queda de uma Europa organizada em nações e o extermínio dos judeus, preparado pela vitória do antissemitismo sobre todos os outros ismos que competiam na luta pela persuasão e conquista da opinião pública, têm de ser interpretadas como sério elemento no estudo da origem do antissemitismo. O antissemitismo moderno deve ser encarado dentro da estrutura geral do desenvolvimento do Estado-nação, enquanto, ao mesmo tempo, a sua origem deve ser encontrada em certos aspectos da história judaica e nas funções especificamente judaicas, isto é, desempenhadas pelos judeus no decorrer dos últimos séculos. Se no estágio final da desintegração os slogans antissemitas constituíam o meio mais eficaz de inspirar grandes massas para levá-las à expansão imperialista e à destruição das velhas formas de governo, então a história da relação entre os judeus e o Estado deve conter indicações elementares para entender a hostilidade entre certas camadas da sociedade e os judeus». In Hannah Arendt, The origins of totalitarianism, 1949, Origens do Totalitarismo, Mary McCarthy West, 1979, Wikipédia.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

Origens do Totalitarismo. Hannah Arendt. «Essa atitude decerto supersticiosa, relacionada com a fé na sua eleição por Deus e com a esperança messiânica, era fortalecida pelo real facto de ter sido a hostilidade cristã, para os judeus, autêntico factor que, durante muitos séculos…»

Cortesia de wikipedia

O antisemitismo como uma ofensa ao bom senso
«(…) Noutras palavras, se o número de pessoas que acreditam na veracidade de uma fraude tão evidente como os Protocolos dos sábios do Sião é bastante elevado para dar a essa fraude o foro do dogma de todo um movimento político, a tarefa do historiador já não consiste em descobrir a fraude, pois o facto de tantos acreditarem nela é mais importante do que a circunstância (historicamente secundária) de se tratar de uma fraude. A explicação tipo bode expiatório escamoteia, portanto, a seriedade do antisemitismo e da importância das razões pelas quais os judeus foram atirados ao centro dos acontecimentos. Igualmente disseminada é a doutrina do eterno antisemitismo, na qual o ódio aos judeus é apresentado como reacção normal e natural, e que se manifesta com maior ou menor virulência segundo o desenrolar da história. Assim, as explosões do antisemitismo parecem não requerer explicação especial, como consequências naturais de um problema eterno. É perfeitamente natural que os antisemitas profissionais adoptassem essa doutrina: é o melhor álibi possível para todos os horrores. Se é verdade que a humanidade tem insistido em assassinar judeus durante mais de 2 mil anos, então a matança de judeus é uma ocupação normal e até mesmo humana, e o ódio aos judeus fica justificado, sem necessitar de argumentos. O aspecto mais surpreendente dessa premissa é o facto de haver sido adoptada por muitos historiadores imparciais e até por um elevado número de judeus. Essa estranha coincidência torna a teoria perigosa e desconcertante. Em ambos os casos, o seu escapismo é evidente: como os antisemitas desejam fugir à responsabilidade dos seus feitos, também os judeus, atacados e na defensiva, ainda mais naturalmente recusam, sob qualquer circunstância, discutir a sua parcela de responsabilidade. Contudo, as tendências escapistas dos apologistas oficiais baseiam-se em motivos mais importantes e menos racionais.
O aparecimento e o crescimento do antisemitismo moderno foram concomitantes e interligados à assimilação judaica, e ao processo de secularização e fenecimento dos antigos valores religiosos e espirituais do judaísmo. Vastas parcelas do povo judeu foram, ao mesmo tempo, ameaçadas externamente de extinção física e, internamente, de dissolução. Nessas condições, os judeus que se preocupavam com a sobrevivência do seu povo descobriram, num curioso e desesperado erro de interpretação, a ideia consoladora de que o antisemitismo, afinal de contas, podia ser um excelente meio de manter o povo unido, de sorte que na existência de antissemitismo eterno estaria a eterna garantia da existência judaica. Essa atitude decerto supersticiosa, relacionada com a fé na sua eleição por Deus e com a esperança messiânica, era fortalecida pelo real facto de ter sido a hostilidade cristã, para os judeus, autêntico factor que, durante muitos séculos, desempenhava o papel do poderoso agente preservador, espiritual e político. Os judeus confundem o moderno antisemitismo com o antigo ódio religioso antijudaico. Esse erro é compreensível: na sua assimilação, processada à margem do cristianismo, os judeus desconheciam-lhe o aspecto religioso e cultural. Enfrentando o cristianismo em declínio, os judeus podiam imaginar, em toda a inocência, que o antissemitismo correspondia a uma espécie de retrocesso, à medieval e anacrónica Idade das Trevas. A ignorância, ou a incompreensão do seu próprio passado, foi, em parte, responsável pela fatal subestimação dos perigos reais e sem precedentes que estavam por vir. Mas é preciso lembrar também que a inabilidade de análise política resultava da própria natureza da história judaica, história de um povo sem governo, sem país e sem idioma. A história judaica oferece extraordinário espectáculo de um povo, único nesse particular, que começou na sua existência histórica a partir de um conceito bem definido da história e com a resolução quase consciente de realizar na terra um plano bem delimitado, e que depois, sem desistir dessa ideia, evitou qualquer acção política durante 2 mil anos. Em consequência, a história política do povo judeu tornou-se mais dependente de factores imprevistos e acidentais do que a história de outras nações, de sorte que os judeus assumiam diversos papéis na sua actuação histórica, tropeçando em todos e não aceitando responsabilidade precípua por nenhum deles». In Hannah Arendt, The origins of totalitarianism, 1949, Origens do Totalitarismo, Mary McCarthy West, 1979, Wikipédia.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Origens do Totalitarismo. Hannah Arendt. «O terror, contudo, assume a simples forma do governo só no último estágio do seu desenvolvimento. O estabelecimento de um regime totalitário requer a apresentação do terror como instrumento necessário para a realização de uma ideologia específica»

Cortesia de wikipedia

O anti-semitismo como uma ofensa ao bom senso
«(…) Contudo, o declínio dos judeus na Europa ocidental e central forma apenas o pano de fundo para os eventos subsequentes, e explica tão pouco esses eventos como o facto de a aristocracia ter perdido o poder explicaria a Revolução Francesa. Conhecer essas regras gerais é importante, para que seja possível refutar as insinuações do aparente bom senso, segundo as quais o ódio violento ou a súbita rebelião são necessariamente decorrentes do exercício de forte poder e de abusos cometidos pelos que constituem o alvo do ódio, e que, consequentemente, o ódio organizado contra os judeus só pode ter surgido como reacção contra sua importância e o seu poderio. Mais séria parece outra argumentação: os judeus, por serem um grupo inteiramente impotente, ao serem envolvidos nos conflitos gerais e insolúveis da época, podiam facilmente ser acusados de responsabilidade por esses conflitos e apresentados como autores ocultos do mal. O melhor exemplo, e a melhor refutação, dessa explicação, que é tão grata ao coração de muitos liberais, está numa anedota contada após a I Grande Guerra. Um anti-semita alegava que os judeus haviam causado a guerra. A resposta foi: Sim, os judeus e os ciclistas. Por que os ciclistas?, pergunta um. E por que os judeus?, pergunta outro. A teoria que apresenta os judeus como eterno bode expiatório não significa que o bode expiatório poderia também ser qualquer outro grupo? Essa teoria defende a total inocência da vítima. Ela insinua não apenas que nenhum mal foi cometido mas, também, que nada foi feito pela vítima que a relacionasse com o assunto em questão. Contudo, quem tenta explicar por que um determinado bode expiatório se adapta tão bem a tal papel abandona nesse momento a teoria e envolve-se na pesquisa histórica. E então o chamado bode expiatório deixa de ser a vítima inocente a quem o mundo culpa por todos os seus pecados e através do qual deseja escapar ao castigo; torna-se um grupo entre outros grupos, todos igualmente envolvidos nos problemas do mundo. O facto de ter sido ou estar sendo vítima da injustiça e da crueldade não elimina a sua co-responsabilidade.
Até há pouco, a falta de lógica aparente na formulação da teoria do bode expiatório bastava para descartá-la como escapista. Mas o surgimento do terror como importante arma dos governos aumentou-lhe a credibilidade. A diferença fundamental entre as ditaduras modernas e as tiranias do passado está no uso do terror não como meio de extermínio e amedrontamento dos oponentes, mas como instrumento corriqueiro para governar as massas perfeitamente obedientes. O terror, como o conhecemos hoje, ataca sem provocação preliminar, e suas vítimas são inocentes até mesmo do ponto de vista do perseguidor. Esse foi o caso da Alemanha nazista, quando a campanha de terror foi dirigida contra os judeus, isto é, contra pessoas cujas características comuns eram aleatórias e independentes da conduta individual específica. Na Rússia soviética a situação é mais confusa, já que o sistema bolchevista, ao contrário do nazista, nunca admitiu em teoria o uso de terror contra pessoas inocentes: tal afirmação, embora possa parecer hipócrita em vista de certas práticas, faz muita diferença. Por outro lado, a prática russa é mais avançada do que a nazista em um particular: a arbitrariedade do terror não é determinada por diferenças raciais, e a aplicação do terror segundo a procedência sócio-económica (de classe) do indivíduo foi abandonada há tempos, de sorte que qualquer pessoa na Rússia pode subitamente tornar-se vítima do terror policial. Não estamos interessados aqui na última consequência do exercício do domínio pelo terror, que leva à situação na qual jamais ninguém, nem mesmo o executor, está livre do medo; em nosso contexto, tratamos apenas da arbitrariedade com que as vítimas podem ser escolhidas, e para isso é decisivo que sejam objectivamente inocentes, que sejam selecionadas sem que se atente para o que possam ou não ter feito.
à primeira vista, isso pode parecer confirmação tardia da velha teoria do bode expiatório, e é verdade que a vítima do terror moderno exibe todas as características do bode expiatório: no sentido objectivo é absolutamente inocente, porque nada fez ou deixou de fazer que tenha alguma ligação com o seu destino. Há, portanto, uma tentação de voltar à explicação que automaticamente tira toda a responsabilidade da vítima: ela parece corresponder à realidade em que nada nos impressiona mais do que a completa inocência do indivíduo tragado pela máquina do terror, e a sua completa incapacidade de mudar o destino pessoal. O terror, contudo, assume a simples forma do governo só no último estágio do seu desenvolvimento. O estabelecimento de um regime totalitário requer a apresentação do terror como instrumento necessário para a realização de uma ideologia específica, e essa ideologia deve obter a adesão de muitos, até mesmo da maioria, antes que o terror possa ser estabelecido. O que interessa ao historiador é que os judeus, antes de se tornarem as principais vítimas do terror moderno, constituíam o centro de interesse da ideologia nazista. Ora, uma ideologia que tem de persuadir e mobilizar as massas não pode escolher sua vítima arbitrariamente». In Hannah Arendt, The origins of totalitarianism, 1949,  Origens do Totalitarismo, Mary McCarthy West, 1979, Wikipédia.

Cortesia de Wikipédia/JDACT