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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Os filhos do Graal. Peter Berling. «Os montanheses limitaram-se a manter a cabeça-de-ponte conquistada. No entanto, o poder de suas máquinas não alcançava nada além da barbacã, a potente defesa exterior do Montségur. Impossível aproximar-se da murada do castelo!»

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Montségur. 1243
«(…) Seu riso soava sarcástico e eu continuava tão ignorante como antes, embora agora pudesse imaginar onde estava situado o Roc de la Tour: na ponta mais extrema da parte noroeste do pog, onde o dorso da montanha desce, deixando novamente em liberdade o rio Lasset. Por que não atravessamos a garganta, que parece o caminho mais curto? Muito simples, porque ali já estão instalados os templários, e terão avisado os de cima de nossa chegada! Mas os templários são cavaleiros cristãos, retruquei indignado. Como pode pensar que se relacionam com os hereges? Não tinha perguntado pelo Graal, jovem franciscano? Pois essa é a resposta!, e acelerou seus passos dando-me a entender que não diria mais nada. Chegamos rapidamente ao pé da rocha onde acampava o grupo que vinha de Camon. A recepção foi fria, para não dizer pouco amistosa. Cumprimentaram formalmente o senescal e ignoraram os bascos. Traidores, escutei-os vociferar entre dentes. A noite estava chegando. O senescal proibiu que fossem acesas fogueiras para evitar sermos descobertos, mas esta ordem não ajudou a melhorar o ambiente. Por cima de nós, escondendo-se detrás de nuvens desgarradas que deslizavam com rapidez, erguia-se o peitoril da fortaleza dos hereges, em noite sem lua. Os montanheses haviam pintado os rostos morenos com fuligem para escurecê-los ainda mais e não levavam armaduras ou armas pesadas, apenas casacos cintados, de couro, e punhais de fio duplo cujos cabos se viam por cima do ombro ou pelo cano das botas.
O senescal ordenou-me que desse a bênção a cada um deles, e quando foi a vez de Gorka, sussurrei-lhe, ao colocar-lhe o sinal-da-cruz: que a Mãe de Deus o proteja... Mas ele, sem mover-se, tirou da cintura uma pata negra de gato e murmurou: cospe em cima disso, por favor. Simulei um acesso de tosse e fiz o que ele me pediu. Os montanheses moviam-se, de facto, como gatos selvagens, entendiam-se por meio de sons de animais, e tão logo enfiaram-se entre as rochas, desapareceram de nossas vistas. Passei o resto da noite bebendo em companhia do senescal. Mantivemo-nos calados e atentos a qualquer ruído que pudesse chegar até nós. Não sei agora se foi invenção minha ou se eu me achava ainda sobre o efeito das palavras de Gorka; de qualquer forma, eu via através de minha imaginação o que acontecia como se o estivesse presenciando: os montanheses alcançaram rapidamente as alturas do Roc de la Tour e ali ficaram presos às escarpadas rochas, imóveis, até que chegou a madrugada. A vanguarda da fortaleza eram besteiros catalães que passaram a noite com o olhar fixo na escuridão, e não se escondeu deles a chegada dos bascos. Quando o dia finalmente clareou, parecia-lhes que tinham superado o perigo. Relaxaram a tensão das pálpebras e assim transcorreu, em meio a um silêncio traiçoeiro, o tempo que se leva para rezar uma avé-maria, e então os montanheses atacaram os defensores esgotados enquanto se apossavam de seus punhais. Ouviram-se gritos, gemidos, o barulho da queda de alguns corpos e o silvo das bestas, enquanto desprendiam-se pedras das rochas, até que os catalães decidiram retirar-se pelos bosques e refugiar-se atrás dos muros protectores do castelo. Os bascos não se atreveram a segui-los. A certa distância, tinham os besteiros mais oportunidade de defender-se, mas como ainda reinava um certo claro-escuro, desistiram de afugentar os montanheses de novo.
Dessa forma, ao menos pelo que sabíamos, foi cortada a última comunicação dos sitiados com o mundo exterior, e o cerco em torno do Montségur fechou-se. Dias depois, voltei a encontrar Gorka no acampamento e ele contou-me o resto do ocorrido. Em baixo, no vale, o hábil monsenhor Durand, que na realidade era bispo de Albi, estava entregue à tarefa de desmontar as suas famosas catapultas de lançamento, que os bascos começaram a subir peça por peça com a ajuda de cordas. Mas os defensores puderam equilibrar essa vantagem graças à inventiva de outro genial catapultador, Bertrand Beccalaria. Este engenheiro de Capdenac, quando soube da situação de emergência pela qual passavam seus amigos, não hesitou em abandonar espontaneamente a construção da catedral de Montauban, obra que então dirigia, e conseguiu, no último minuto, chegar secretamente à fortaleza com seus ajudantes. Suas catapultas transportáveis estavam instaladas no Pas de Trébuchet, e responderam tão efectivamente aos atacantes que não cabia pensar em algum ulterior avanço. O alto do monte era coberto pelo bosque e atravessado por sendeiros que ficavam ocultos no meio das rochas, ora passando por baixo ora por cima do terreno; um conjunto de pedras e terra que, além do mais, mostrava-se esburacado por covas com saídas secretas, seguiam em poder dos catalães. Os montanheses limitaram-se a manter a cabeça-de-ponte conquistada. No entanto, o poder de suas máquinas não alcançava nada além da barbacã, a potente defesa exterior do Montségur. Impossível aproximar-se da murada do castelo! E por que não enviar reforços, eu queria saber, ao mesmo tempo que me sentia como deve se sentir um eminente estrategista, e acabar de uma vez com esse ninho de víboras do Inferno? Gorka rangiu os dentes e respondeu: porque nem o senhor senescal nem o senhor arcebispo, e muito menos seus medrosos mercenários, são bons alpinistas!, e pôs-se a rir. Além disso, já cumprimos com nossa tarefa! E, de facto, a partir daquele dia foi possível escutarmos como as máquinas de monsenhor Durand arrojavam cegamente, dia e noite, suas pedras assassinas por cima do bosque, em direcção às muralhas dos últimos baluartes exteriores, para grande felicidade do legado. Esses hereges morrerão na barbacã como se estivessem sendo esmigalhados num morteiro, alegrava-se Gorka». In Peter Berling, Os filhos do Graal, 1991, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1996, ISBN 978-972-231-982-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Os filhos do Graal. Peter Berling. «No final do Outono, chegou o corpo de montanheses procedente do distante país basco. Meu senhor, o senescal, não quis que acampassem entre os outros, por isso conduziu-os pessoalmente…»

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Montségur. 1243
«(…) Por favor, Pierre-Roger, a jovem colocou a mão em seu ombro, não espere nada do mundo exterior, pois que só o que se consegue assim é fechar os olhos diante da visão das portas do Paraíso. O Paraíso é a certeza que ninguém pode nos tirar! E despediu-se com um sorriso alegre. Entretanto, o Montségur ficara envolto nas trevas da escuridão nocturna, ao mesmo tempo que as estrelas luziam com um brilho mais claro. Em baixo, no vale, as fogueiras ardiam, mas as canções obscenas, os gritos das prostitutas e as blasfémias dos soldados entretidos no jogo de dados e com a bebida não chegavam até o alto da montanha. O ambiente no acampamento deixava muito a desejar. Aproximava-se o Outono. Há mais de meio ano estavam acampados naquele lugar, e embora nos primeiros dias alguns atrevidos tivessem pretendido assaltar o monte, confiando em suas próprias forças, fracassaram em todas as tentativas. Sua situação estratégica e as poderosas defesas da fortaleza vinham resistindo durante mais de duas gerações a todos os ataques. O senescal sabia disso e mantinha-se na expectativa apesar das contínuas pressões do legado, mas também Hugues des Areis mostrava-se cada vez mais irritado conforme transcorriam os entediantes dias de espera ao pé do pog. Ordenou aos seus capelães que rezassem missa várias vezes ao dia, como se suas orações pudessem melhorar a situação militar. Certa noite em que se apresentara ao franciscano, para rezar com ele, teve uma súbita revelação. Caçadores da montanha do país basco!, alfinetou William, que, obedecendo ao costume, já ajoelhara. Deveríamos contratá-los de imediato, ainda que nos custem muito dinheiro, mesmo que seja quase impossível que entrem num acordo antes de terem recolhido suas colheitas. Santificado seja o nome do Senhor e da Santíssima, começou William. Levanta esse traseiro flamengo, retrucou o senescal, e dê-me a jarra. A ideia merece um brinde!

Os montanheses. Montségur, Inverno de 1243-44
No final do Outono, chegou o corpo de montanheses procedente do distante país basco. Meu senhor, o senescal, não quis que acampassem entre os outros, por isso conduziu-os pessoalmente para além do pog, debaixo do Roc de la Portaille, onde a parede rochosa ascende tão verticalmente que de baixo apenas se pode antever a grande torre central do Montségur. Ao chegar, permitiu que descansassem. Fui o único escolhido para acompanhá-los, o que provocou inveja em meus companheiros. À tarde voltámos a empreender a marcha, deslizando um por um debaixo da parede norte, protegidos de qualquer olhar devido aos altos pinheiros do bosque de Serralunga, cujos limites chegam até o mesmo rochedo. Caminhando atrás de Gorka, um dos chefes bascos, a duras penas conseguia manter-me ao ritmo de seus passos e ao mesmo tempo sustentar uma conversa na qual nos servíamos de uma mistura de vozes italianas e latinas. Não tinha a mínima ideia da direcção que tomava nossa expedição secreta. Roc de laTour, informou-me Gorka sem mais rodeios. Ofegante, eu tropeçava pelo caminho. Para quê? Para cortar o chouriço, é preciso atá-lo primeiro. Parece que se esqueceram desse detalhe. Calei-me. Por um lado, porque suas palavras me fizeram sentir fome imediatamente, e por outro também porque a mesma ideia da comida me fez pensar de imediato no Santo Graal, de quem todos estavam falando no acampamento, mas sobre o qual ninguém conseguia dar uma resposta minimamente satisfatória. Devia tratar-se de alguma coisa superior a um tesouro, de uma espécie de bebida reconfortante que já não fazia sentir sede nunca, de um maná celestial que livraria um pobre frade como eu de toda fadiga terrena. Não estamos buscando um tesouro, o tal do Graal?, prossegui, indagando com certo recato, pois me dava vergonha não saber melhor das coisas e porque vira diversas vezes as reacções mais estranhas de enfado quando um de nós perguntava pelo motivo real daquela cruzada. Pois não, William, sorriu Gorka. Vamos à conquista de um monte de pedras que não valem nada, com que até a presente data ninguém se preocupou, razão pela qual elas se converteram, para os defensores do Montségur, numa cómoda abertura pela qual recebem as suas provisões. Mas nós somos o gato que a partir de agora vigiará essa ratoeira!» In Peter Berling, Os filhos do Graal, 1991, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1996, ISBN 978-972-231-982-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Os filhos do Graal. Peter Berling. «Quanto tempo durará isso?, falou Esclarmonde, dirigindo-se novamente ao visconde. O comandante da fortaleza parecia mergulhado em profunda reflexão. Frederico não nos abandonará à nossa sorte...»

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Montségur. 1243
«(…) Leve-a você mesmo! Se continuar soprando à medida que subir para o castelo, e se a Virgem Santíssima lhe emprestar seu alento, não se apagará! Como o legado não fizesse o gesto de aceitar o ramo, o senescal devolveu-o à fogueira e retirou-se. Seus súbditos, já acostumados a tais rompantes, reprimiam o riso a duras penas. Com o entardecer, eram acesas fogueiras por todo lado. As cantineiras enchiam os caldeirões, e os soldados faziam girar a carne trespassada; haviam conseguido muitas peças com a caça nos bosques de Corret e o saque das fazendas de Taulat. Não fosse essa sorte grande, teriam de conformar-se com as glandes de carvalho e com as castanhas, e o pão seco que os forrageadores repartiam. A tropa compunha-se em sua maioria de mercenários. Os cavaleiros templários, seus senhores, eram nobres procedentes do norte do país e que não viam de que forma se opôr ao desejo de seu soberano Luís; havia os que lá estavam para conseguir favores do rei; e também simples aventureiros que, depois de perderem seus feudos e benefícios, prometiam a si mesmos algum lucro procedente dos saques ou outras vantagens, já que além do mais a Igreja prometera, a cada participante, o perdão por seus pecados. As muralhas do Montségur, cujo flanco mais pronunciado formava um ângulo obtuso bem em cima do acampamento, douravam-se com os raios de sol em seu ocaso.
Quantos devem ser?, perguntou Esclarmonde Perelha, a jovem filha do senhor e dono do castelo, que, se aproximando sem medo algum da encosta da muralha, deteve-se para observar o vale. Seis mil? Dez mil? O visconde Pierre-Roger Mirepoix, cunhado de Esclarmonde e comandante da fortaleza, sorriu. Isso não deverá preocupar-nos, enquanto eles não forem capazes de fazer subir mais de cem nestas muradas. Mas vão nos deixar morrer de fome... Até o momento, cada um desses senhores armou a barraca como bem quis, bem separados uns dos outros, e Mirepoix apontou na direcção do prado, montanha e vales. Essa arrogância estúpida, aliada a um território acidentado e pouco visível e à escuridão dos bosques, para os que temem, têm para nós uma consequência favorável: o cerco a que pretendem submeter-nos tem mais buracos que o queijo dos Pirenéus que recebemos fresco toda semana. Era evidente que desejava fazer-se de importante. O nome de baptismo de Esclarmonde o obrigava a considerar o exemplo daquela outra cátara, a mais famosa de todas, chamada também irmã de Parsifal, que há quarenta anos restaurara e reabilitara a fortaleza de Montségur. Como ela, a jovem Esclarmonde era uma parfaite, uma virgem pura. Se a montanha da salvação não resistisse, correria o maior perigo. Mas não parecia gostar de riscos. Jamais conhecerão o Santo Graal, retrucou em voz baixa, externando assim sua única preocupação ao visconde
Jamais cairá em suas mãos. Duas crianças pequenas tinham chegado vagarosamente. O rapaz rodeou com seus bracinhos as pernas da jovem, enquanto a menina, de estatura pequena e delicada, aproximou-se com bastante atrevimento da encosta do muro. Lançando uma pedra ao abismo, escutou com atenção e entusiasmo o barulho que anunciava o fim de seu voo. Foi esse barulho que atraiu a atenção do comandante. Vou proibi-los de vir até aqui em cima, exclamou enquanto já via a aia subindo pela íngreme escada de pedra que seguia pelo pátio interior do castelo. Depois de dar uma leve palmada na menina, agarrou-a pelo pescoço e entregou-a à criada. Esclarmonde acariciou o cabelo do rapaz, que seguiu, obediente, à menina. Quanto tempo durará isso?, falou Esclarmonde, dirigindo-se novamente ao visconde. O comandante da fortaleza parecia mergulhado em profunda reflexão. Frederico não nos abandonará à nossa sorte..., mas sua voz não conseguia esconder de todo a dúvida. O germano não duvidaria em pisotear o que fosse de mais sagrado, replicou a menina com cepticismo, mas sem amargura, em seu próprio proveito ou de sua estirpe. Não devem confiar nele, pelo bem dessas crianças!, e lançou um olhar em direcção às duas crianças, que faziam o quanto podiam para dificultar a descida da aia pela íngreme escada de pedra. Mas posso dizer com toda certeza que existe um poder superior, e posso jurar-lhe, Esclarmonde, de que eles se salvarão! Venha aqui! Aproximou-se do lado oriental, onde estava o observatório coberto. Por este lado, onde o rio Lasset atravessa os montes Tabor, onde suas águas cortam o desfiladeiro profundo, não há vigilância nem pode haver. Esclarmonde uniu as palmas das mãos para saudar os anciãos, vestidos de branco, parfaits como ela, que da plataforma observavam o curso dos astros cujas luzes iam se acendendo. Além da pouca disciplina que caracteriza nossos inimigos, prosseguiu Mirepoix, favorece-nos também o facto de que muitos dos mercenários, no fundo, simpatizam connosco. Por exemplo, os de Camón, que são antigos vassalos de meu pai, e que estão acampados exactamente debaixo do Roc de la Tour, buscava assim dar ânimo à jovem. Enquanto esta rocha estiver em nossas mãos, a comunicação com o mundo exterior não será interrompida, e assim sempre poderemos ter esperanças...». In Peter Berling, Os filhos do Graal, 1991, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1996, ISBN 978-972-231-982-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

Os filhos do Graal. Peter Berling. «Faidits!, resmungou o arcebispo. Traidores infiéis e rebeldes! Sem falar do senhor feudal desta região, o visconde de Foix, a quem não pareceu sequer necessário apresentar-se para cumprimentar-nos»

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Montségur. 1243
«Montségur é uma rocha cnica de encostas escarpadas que´se ergue de uma planície tortuosa, a ponto de à primeira vista parecer uma ilusão longínqua, qualquer coisa não pertencente a este mundo. Parece estar lá para acolher os exércitos de anjos que, de sua perspectiva seráfica, talvez sejam capazes de descobrir aquele palmo de patamar plano onde possam apoiar uma escada celestial. O invasor humano que se aproxima a partir do norte parece ter o monte ao alcance da mão, como um capacete que alguém retirou da cabeça, mas que, depois, uma mão mágica vai elevando mais e mais à medida que os pés do caminhante se aproximam de algum de seus flancos. Caso chegue do leste, abandonando-se ao engano de um suave declínio da montanha, o escudo erguido do Roc de la Tour o fará retroceder, quiçá arrojar-se sem mais nem menos à espumosa garganta do rio Lasset, tão profundamente cortada na rocha que de lá em baixo sequer se vê o cume da montanha e menos ainda o castelo. Apenas pelo sudoeste se oferece, após ultrapassar um declive harmonioso, uma encosta coberta por bosque; mas, no momento em que o alpinista arquejante abandone a protecção da mata selvagem, verá que a parede restante, composta por uma pedra nua, ascende quase verticalmente. Verá, então, os muros da fortaleza assomarem-se por cima dele, seu coração se entregará a um galope selvagem, sua respiração se tornará mais difícil, o ar escasseará; no alto dos Pirenéus, uma luz violeta e azulada iluminará o caminho, mostrando seus picos que, naquele verão de San Martin, de 1243, apareciam já cobertos de neve. O vento sacode ruidosamente as folhas do buxal. O invasor não chegará a ouvir o silvo da flecha que lhe abrirá a garganta deixando-o pregado ao tronco de um arbusto, e o sangue brotará da ferida como faria a fonte refrescante que tanto desejava encontrar durante a subida. Acompanhando as batidas de seu coração, que desfalece, o sangue continuará jorrando, até que as acinzentadas rochas lá de cima confundam-se com as muralhas, enchendo-se de uma luz clara como o céu, e os sentidos o abandonarão antes que caia de costas em direcção ao verde-escuro do bosque, do qual nunca deveria ter se afastado. A ordem era montar acampamento no prado cuja suave encosta situava-se a uma boa distância do penhasco, suficientemente longe para evitar as bestas. No centro do acampamento foram armadas as barracas para os dois capitães: a de Pierre Amiel, arcebispo de Narbona e enviado do papa que, possuído de um feroz fanatismo, tinha por objectivo destruir aquela sinagoga de Satanás; e, a uma conveniente distância, embora sem especial intenção, a de Hugues des Areis, senescal de Carcassone, a quem o rei nomeara chefe militar da missão. Como fazia a cada manhã, o senescal havia oficializado a missa diante do exército completo, embora tivesse preferido assaltar rapidamente a fortaleza dos hereges, encabeçando seus homens, munidos de escadas e torres de assalto; e novamente ajoelhara-se diante de sua barraca, também como sempre, enquanto tocavam os sinos do Angelus, rodeado dos três capelães de campanha, entre os quais William de Roebruk. O arcebispo, considerando que rezavam muito e lutavam pouco, esperou com enorme impaciência o fim daquela prece: deveriam buscar o bem de vossas almas não tanto na paz com Deus, mas na luta contra seus inimigos! O senescal preferiu ainda não levantar o joelho, que mantinha fincado na terra, e permaneceu com os olhos fechados e as mãos juntas, os punhos apertados até mostrar os nós dos dedos, mas não respondeu. Já faz muito tempo que o conde de Tolosa sustenta essa espécie de cerco atenuado, e meu senhor, o papa... Eu sirvo ao rei de França, interrompeu-lhe nesse instante Hugues des Areis, que tinha conseguido restabelecer seu equilíbrio interior e não hesitou em fazer sentir a seu concorrente sacerdotal, sem perturbar-se nem um pouco, o desgosto que lhe provocava sua presença, e, se Deus assim o quiser, executarei fielmente suas ordens: conquistarei o Montségur!

Levantou-se e dispensou seus capelães com um gesto brusco de mão. A perseguição dos hereges que tanto afecta seus corações deve seguir submetida à primazia de minhas ordens. Esperar que o conde de Tolosa cumpra essa tarefa revela uma pobre visão política, posto que os defensores do castelo são seus antigos vassalos, inclusive em muitos casos seus parentes próximos. Faidits!, resmungou o arcebispo. Traidores infiéis e rebeldes! Sem falar do senhor feudal desta região, o visconde de Foix, a quem não pareceu sequer necessário apresentar-se para cumprimentar-nos. O senescal iniciou a retirada: faz tempo que designou sucessor: Guy de Levis, filho do companheiro de armas do grande Monfort. Pretende-se ser este que lhe tire do fogo... Pierre Amiel seguiu-o bem de perto, espumando de raiva. Falam de fogo? Isso é o que vocês devem prender lá em cima: incendeiem esse ninho de víboras malignas, e que a fumaça e as chamas os carreguem ao Inferno! O senescal, muito calmo, inclinou-se para tirar um ramo que queimava numa das fogueiras. A tocha da Inquisição (maldita)!, disse, ironizando, entregando a madeira que ardia ao surpreso arcebispo». In Peter Berling, Os filhos do Graal, 1991, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1996, ISBN 978-972-231-982-9.



Cortesia de EPresença/JDACT