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terça-feira, 5 de abril de 2022

O Monumento de Mafra de A a Z. Manuel J. Gandra. «Designação partilhada por um chafariz e por uma fonte (n. 30) da Segunda Tapada ou Tapada do Meio, também denominados do Casal do Abade»

Cortesia de wikipedia e jdact

«…) 1. O Monumento de Mafra de A a Z organiza-se por ordem alfabética; 2. Os nomes de personagens históricas e autores devem ser procurados sempre pelo seu primeiro nome; 3. Os eventos, sucessos históricos, bem como locais (chafarizes, fontes, minas, poços, etc.) e dependências monásticas, quando expressos por um substantivo e um determinativo ou qualificativo, devem ser procurados nestes últimos: Abrantes, Marquês de; Actos Escolares, Sala dos; etc.; 4. O asterisco (*) indica a remissão da palavra assinalada para outra entrada ou para artigo específico do Catálogo-guia; 5. Com o objectivo de facilitar a leitura e tornar acessíveis os documentos e fontes incluídas, procedeu-se à actualização da sua grafia e pontuação. Quando não for esse o caso e se tratar de inéditos, serão referenciadas as cotas e os respectivos Arquivos ou Bibliotecas.

Aarão Lacerda (1890-1947)

Formou-se com distinção em Direito e, depois, em Ciências Históricas e Geográficas, na Universidade de Coimbra. Discípulo de Joaquim Vasconcelos, suceder-lhe-ia na regência da cátedra de História de Arte na Academia de Belas-Artes do Porto, tendo, posteriormente, aceite o convite para leccionar a cadeira de Estética e História de Arte na Faculdade de Letras do Porto. Foi ainda: professor de História da Música no Conservatório do Porto e director da Escola de Belas Artes da mesma cidade, tendo sido provido como catedrático da cadeira de Estética e História de Arte na Faculdade de Letras de Coimbra, vaga, por morte do professor Virgílio Correia; vogal da Academia Nacional de Belas Artes, membro da Academia Portuguesa de História e comendador da Ordem de Santiago de Espada. Autor de vasta e erudita obra, a sua consagração definitiva chegaria com a edição de O Fenómeno Religioso e a Simbólica (1924). Para enfatizar a importância cultural do reinado de dom João V, abona-se no programa escultórico de Mafra, referindo-se às estátuas encomendadas pelo Magnânimo em Itália em termos encomiásticos: O italianismo barroco movimenta-se em Mafra na estatuária solene, declamatória, exultante, profusa em efeitos de claro-escuro, dramática nas expressões ou decorativa nos planeamentos, esculpidos pelos artistas educados naquela linguagem de alma plasmada por Bernini numa teoria estupenda de figuras, bem grifadas pelo seu génio que soube, como raros, dominar a pedra, volatilizá-la, podíamos quase dizer, tão maleável e dúctil se tornou nas suas mãos demiúrgicas. Sublinharia também o carácter excepcional da obra de Alexandre Giusti, bem como o seu ascendente compositivo sobre os discípulos, caso, designadamente, de Machado Castro (cf. Arte: escultura, pintura e artes decorativas, in História de Portugal, Barcelos, 1934, p. 608-609).

Chafariz e Fonte do Abade

Designação partilhada por um chafariz e por uma fonte (n. 30) da Segunda Tapada ou Tapada do Meio, também denominados do Casal do Abade. A fonte fica situada um pouco abaixo das ruínas do dito casal e mesmo à beira do caminho que conduz à ponte da Cuba e ao vale da Guarda. A nascente é pouco abundante, porém a água é de excelente qualidade. Dom Pedro V era grande apreciador do chá feito com a água desta fonte. O chafariz do Abade acha-se à beira da Rua da Boa Vista, um pouco adiante da ponte da Enxóvia, na encosta onde se implantava o antigo casal; dispõe de tanque e possui manancial abundante de boa água que serve para dessedentar o gado bovino e a caça grossa.

Dom ABADE

Do aramaico, abba, latinizado em abbas, abbatis, com o significado de pai espiritual. As três ocorrências no Novo Testamento reportam-se a Deus, mas na Igreja a designação aplica-se a varões fazendo as vezes de Cristo, cujo magistério, carisma, virtude e ancianidade, atraindo as almas, tenha originado comunidades sob a sua direcção. A denominação, primitivamente apanágio dos Padres do Deserto, foi aclimatada ao Ocidente por São Bento e adoptada por Santo Isidoro e São Frutuoso cujas Regras, conjugadas com a Regula Communis, moldaram o monaquismo visigótico hispânico até à invasão muçulmana. A instituição ressurgiria com Cluny durante a reconquista. Até meados de quinhentos, exceptuando o primeiro, geralmente nomeado pelo fundador do mosteiro, os Abades seriam escolhidos vitaliciamente pelos monges pertencentes a cada comunidade. O Concílio de Trento obrigaria os mosteiros a reunirem-se em congregações presididas por um Abade Geral ou dom Prior, eleito trienalmente em Capítulo. Uma vez extintos os abades Regulares, no ano de 1834, subsistiram apenas os Abades seculares (párocos), em resultado da transformação dos mosteiros em igrejas paroquiais. O báculo foi desde sempre o símbolo da sua autoridade pastoral». In Manuel J. Gandra, O Monumento de Mafra de A a Z, 1º Volume, Colecção Mafra de Bolso, Wikipédia.

Cortesia de CMafraB/JDACT

JDACT, Mafra, Manuel J. Gandra, Conhecimento, 

domingo, 5 de setembro de 2021

O Monumento de Mafra de A a Z. Manuel J. Gandra. «O acervo actualmente patente no Palácio Nacional de Mafra foi organizado pela iniciativa, proficiência e depurado sentido estético do seu primeiro Director, Ayres Carvalho…»

Cortesia de wikipedia de jdact

«É a designação adoptada pelo subscritor para aludir ao complexo formado pelo Palácio-Convento de Mafra, Jardim do Cerco e Tapada. De resto, à imagem do que sucedeu até à implantação da República, de cuja acção e negligência resultou o actual estado de coisas: o desmembramento de um todo coerente, delineado e concretizado sob a direcção do Magnânimo, Fidelíssimo e Luso Rei Sol, dom João V. Julgo ser este o momento oportuno para expor informações, ideias, reflexões e sugestões que o meu conhecimento documentado das diversas facetas do seu quotidiano desde as origens parece autorizar. E, deste modo, dar o meu contributo para uma célere candidatura do Monumento de Mafra à classificação como Património Mundial. O acervo actualmente patente no Palácio Nacional de Mafra foi organizado pela iniciativa, proficiência e depurado sentido estético do seu primeiro Director, Ayres Carvalho, há mais de cinquenta anos. As opções museológicas então adoptadas, e são anacrónicas todas as discussões hodiernas acerca da sua legitimidade ou adequação, deveram-se a um conjunto de circunstâncias conjunturais em que avultaram: 1. a imperiosa necessidade de rapidamente tornar condigno um monumento, autêntico ex-libris do barroco português, praticamente abandonado à sua sorte desde a implantação da República, em 1910; 2. a circunstância de não existir no edifício mobiliário e adereços em quantidade e qualidade para povoar de forma adequada o tão avultado número de salas e divisões por onde os visitantes eram encaminhados para a Biblioteca, a única pérola verdadeiramente genuína do diadema.

Confrontado com a contingência de não lograr cumprir a incumbência para que havia sido nomeado, Ayres Carvalho viu-se, assim, compelido a angariar todos os trastes que jaziam em depósitos e armazéns estatais, valorizando-os tanto quanto possível, e dispondo-os mais consoante as suas próprias características do que tendo em consideração o quotidiano palaciano de Mafra, de resto, até então, só muito incipientemente investigado. Inúmeras salas vazias passaram a dispor de acervos alheios e, com a chegada e arrumação destes, adquiriram designações e funções que nunca tinham tido, tornando-se, quiçá, agradáveis aos sentidos, mas, igualmente, palco para cenografias e reconstituições de fantasia. Talvez o exemplo que melhor retrata a situação descrita tenha sido a mudança dos aposentos da Rainha, primitivamente no torreão Sul, para o torreão Norte, onde se haviam situado os aposentos do Rei, e vice-versa, prejudicando doravante a adequada leitura e compreensão da mensagem panegírica dos frescos parietais de Cirilo Volkmar Machado… Não será difícil invocar mais casos, existindo salas onde todos os objectos expostos são oriundos de outros edifícios, nomeadamente dos Palácios da Ajuda, das Necessidades e de Sintra, ou ainda algumas onde só uns quantos ali se acham originários de Mafra, caso da Sala da Audiência, à qual apenas o trono pertence.

Em suma, quem após visitar o Palácio Nacional de Mafra se julgue, e não serão poucos os visitantes equivocados, ciente da forma como aí se desenrolava a vida cortesã, mais não fez do que passear-se por ambientes recriados segundo critérios estéticos e museológicos, senão já obsoletos, pelo menos destituídos da autenticidade histórica exigida pela maioria dos actuais utentes, para já não referir a sua mais completa incompatibilidade com a vertente didáctica que um monumento da envergadura física e ideológica deste, obrigatoriamente, tem de assumir, sob pena de um divórcio completo com a comunidade. Nesta conformidade, o Palácio Nacional de Mafra terá, a breve trecho e inexoravelmente, de reformular-se museograficamente, integrando quer a imensa panóplia de dados históricos, culturais e científicos já disponíveis, quer as especificidades locais e regionais, inclusivé ao nível da sua gestão, porquanto este particular Palácio é, em primeira instância, património mafrense… Ao disponibilizar o primeiro volume (letra A) do presente Catálogo-guia, sob a forma de uma enciclopédia organizada alfabeticamente, proponho um périplo compreensivo que, creio, abrange todo o espectro das vivências e actividades representativas no Monumento de Mafra, a saber: a Intimidade; a Corte e a Governação; a Religiosidade; a Cultura e a Instrução; as Artes; o Lazer e as Diversões». In Manuel J. Gandra, O Monumento de Mafra de A a Z, 1º Volume, Colecção Mafra de Bolso, Wikipedia.

Cortesia de CMafraB/JDACT

 JDACT, Manuel J. Gandra, Conhecimento, Mafra,

sábado, 19 de junho de 2010

Beatriz Costa: A «Menina da Franja». Uma actriz de teatro e de cinema, sendo um «ícone da cultura popular lusa»

(1907-1996)
Charneca do Milharado, Mafra
Cortesia de citi
Beatriz Costa, pseudónimo de Beatriz da Conceição foi uma actriz de teatro e de cinema, sendo um ícone da cultura popular lusa.
Estreou-se no teatro de revista aos quinze anos, como corista em Chá e Torradas (1923), no Éden Teatro. No ano seguinte, em 1924, actua pela primeira vez no Teatro Maria Vitória (Parque Mayer) na revista Rés Vés, após o que ingressa na companhia do Teatro Avenida estreando-se, no mesmo ano, no Rio de Janeiro onde é felicitada pela imprensa e pelos espectadores, nomeadamente nas revistas Fado Corrido e Tiro ao Alvo.
De regresso a Lisboa (1925) ocupa um lugar de destaque ao lado de Nascimento Fernandes em Ditosa Pátria, no Teatro da Trindade. Em Agosto do mesmo ano a Companhia do Trindade segue para o Porto apresentando-se no Sá da Bandeira e Beatriz faz a sua primeira ida como artista à cidade Invicta.
Em Outubro de 1925 integra uma Companhia de operetas sediada no Teatro São Luiz. De regresso à revista, passa pelos teatros Éden e Maria Vitória nas revistas Fox Trot, Malmequer, Olarila, Revista de Lisboa e Sete e Meio.
Em 1927, traduzindo uma moda cinéfila, aparece pela primeira vez de franja e estreia-se no cinema em papéis episódicos de filmes de Rino Lupo - O Diabo em Lisboa - e, ainda no mesmo ano, havia dançado um tango em Fátima Milagrosa (do mesmo realizador) ao lado de Manoel de Oliveira.
Passou pelo Teatro Apolo, transferindo-se depois com a Companhia de Eva Stachino para o Trindade. Aí se fez Pó de Maio , onde conheceu o maior êxito de popularidade com o celebrado número D. Chica e Sr. Pires ao lado de Álvaro Pereira.
Cortesia de tertuliadogarcia
Na sua segunda digressão ao Brasil (1929), com a Companhia de Eva Stachino, ao Rio de Janeiro, foi recebida sobre as mais efusivas manifestações e relembrada a sua revelação como actriz nos grandes órgãos de imprensa da América do Sul. Após breve incursão aos palcos de São Paulo, Beatriz é convidada por Procópio Ferreira, comediante de relevo no teatro brasileiro, para ficar a trabalhar no Rio de Janeiro integrando o elenco da sua Companhia de comédias; mas a proposta seria recusada.
De volta ao Continente, e ainda neste ano, Beatriz Costa aparece no documentário Memória de uma Actriz (com base nos artigos que já escrevia para O Século a contar episódios da sua carreira). Em 1930 participa no filme Lisboa, Crónica Anedótica, de Leitão de Barros. Em Dezembro de 1930, durante a visita de Ressano Garcia, gerente da Paramount em Lisboa, recebe um convite de Blumenthal e San Martin para um contrato muito vantajoso para o papel da protagonista de A Minha Noite de Núpcias (da versão original Her Wedding Night de Frank Tuttle e que na versão portuguesa foi dirigida por Alberto Cavalcanti), o terceiro fonofilme em português, a realizar-se em França.
Recebendo sempre provas de apreço desde o pessoal dos estúdios à mais considerada vedeta destaca das suas colegas estrangeiras Olga Tsehekova e Camila Horn.
Deixa a Companhia e é contratada por Corina Freire para participar nos êxitos de revistas como A Bola, Pato Marreco, O Mexilhão ou Pirilau. Em 1937 Beatriz ganha, ao lado de Vasco Santana, os votos de preferência dos cinéfilos portugueses e são eleitos «príncipes do cinema português». Dois anos depois, em 1939, protagoniza A Aldeia da Roupa Branca, de Chianca de Garcia, aquele que seria o seu último filme. É a partir da década de 1960 que começa a viajar por todo o mundo, assistindo a festivais de teatro, de Ocidente a Oriente. Conheceu personalidades como Salvador Dali, Pablo Picasso, Sophia Loren, Greta Garbo, Edith Piaf ou o Rei Hassan II de Marrocos.
Cortesia de citti
Depois da Revolução dos Cravos - quando já vivia no Hotel Tivoli, onde viveu até morrer - começou a publicar livros sobre a sua espantosa vida, aconselhada e incentivada por Tomás Ribeiro Colaço. Ela que aprendera a ler aos 13 anos de idade e sozinha, seguindo a sua ambição de saber, começou a sua alfabetização à mesa do Café A Brasileira, rodeada por figuras como Almada Negreiros, Gualdino Gomes, Aquilino Ribeiro, Vitorino Nemésio, entre outros.
Após o seu reaparecimento num espectáculo da Casa da Imprensa que decorreu no Coliseu dos Recreios foi sistematicamente solicitada pelos órgãos de comunicação social e espantou-se com as óptimas reacções do público leitor em relação a essa outra faceta da sua vida - escrever.


Cortesia de artesetima
«Recorde-se que a irreverente «menina da franja», como é conhecida, nasceu na localidade de Charneca do Milharado, Concelho de Mafra, onde passou os primeiros anos da sua infância. Contudo, a artista nunca renegou as suas humildes origens rurais, tanto mais que as suas ligações afectivas ao Concelho de Mafra foram constantemente reafirmadas. A 24 de Setembro de 1934, inaugurou o Cine-Teatro Beatriz Costa na Malveira, facto de que muito se orgulhava. Por volta de 1950, contribuiu para a construção da escola primária da Charneca do Milharado, sua terra natal. As suas visitas ao concelho eram regulares; durante anos consecutivos assistiu à volta em bicicleta “As Cinco Voltas a Mafra”; foi convidada de honra em vários cortejos dos Bombeiros de Mafra, a que presidia na qualidade de madrinha; visitou frequente e entusiasmadamente a Aldeia-Museu do mestre barrista José Franco, bem como as oficinas de outros oleiros, assim como foi convidada para madrinha do Rancho Folclórico do Milharado; em 1993, inaugurou o Auditório Municipal Beatriz Costa. A existência de um museu no Concelho com o seu nome, albergando artefactos alusivos à sua pessoa, é um testemunho do seu amor pelos seus conterrâneos. O espólio aí exibido foi doado pela actriz, ainda em vida, ao povo da Malveira, integrando o Museu Popular Beatriz Costa que, actualmente, está sedeado na Casa de Cultura da Malveira e cuja tutela pertence à Câmara Municipal». In CMMafra.


Cortesia da CMMafra
«Actriz carismática, Beatriz Costa foi uma sedutora de plateias. Estreou-se como corista aos 15 anos, mas antes de alcançar o reconhecimento do público tinha sido ajuntadeira e bordadeira. Consolidou a sua imagem em “A Canção de Lisboa” e ganhou, ao lado de Vasco Santana, a preferência dos cinéfilos. Deixou para a posteridade a imagem de pessoa calorosa, maliciosa e irreverente - além do corte de cabelo que a tornou inconfundível. Depois do 25 de Abril começou a publicar livros sobre a espantosa história da sua vida. «Foi o Sol dos anos negros da ditadura», resume a escritora Inês Pedrosa». In RTP.

Os filmes em que participou:
  • A Aldeia da Roupa Branca, de Chianca de Garcia (1939);
  • O Trevo de Quatro Folhas, de Chianca de Garcia (1936);
  • A Canção de Lisboa, de José Cotinelli Telmo (1933);
  • Minha Noite de Núpcias, de E. W. Emo (1931);
  • Lisboa, de J. Leitão de Barros (1930);
  • Fátima Milagrosa, de Rino Lupo (1928);
  • O Diabo em Lisboa, de Rino Lupo (1926).
Os seus livros:
  • «Sem Papas na Língua» (1975);
  • «Quando os Vascos Eram Santanas… e Não Só» (1977);
  • «Mulheres Sem Fronteiras» (1981);
  • «Nos Cornos da Vida» (1984).

Cortesia do ranchodomilharado

Cortesia da CMMafra/JDACT

terça-feira, 27 de abril de 2010

Papa João XXI: Pedro Julião Rebelo, o Papa português do Séc. XIII, o «completo cientista físico e naturalista»

 Papa João XXI
188.º Papa
Cortesia Wikipédia
João XXI nascido Pedro Julião Rebelo, também conhecido como Pedro Hispano, ou Petrus Hispanus, assim cognominado em razão de, no século XIII, Hispania designar toda a Península Ibérica e Pedro Hispano Portugalense, é uma das figuras exponenciais da Escolástica do século XIII.
Foi Papa entre 20 de Setembro de 1276, até à data da sua morte, 20 de Maio de 1277. Além deste cargo nobilíssimo, foi um famoso médico, professor e matemático português do século XIII.
Pedro Julião Rebelo, ou Pedro Hispano, nasceu em Lisboa, no então Reino de Portugal, provavelmente na que é a actual freguesia de São Julião, em data não conhecida, seguramente antes de 1226 (quase todos os investigadores apontam entre 1205 e 1210), filho de Julião Rebelo, médico, e de Teresa Gil (embora Ribeiro Soares defenda que possa ter sido filho do chanceler de D. Sancho I, Mestre Julião Pais).
Começou os seus estudos na escola episcopal da catedral de Lisboa, tendo mais tarde estudado na Universidade de Paris (alguns historiadores afirmam que terá sido na Universidade de Montpellier) com mestres notáveis, como São Alberto Magno, e tendo por condiscípulos São Tomás de Aquino e São Boaventura, grandes nomes do cristianismo. Em Paris estuda medicina e teologia, dedicando especial atenção a palestras de dialética, lógica e sobretudo a física e metafísica de Aristóteles. Entre 1246 e 1252 ensinou medicina na Universidade de Siena, onde escreveu algumas obras, de entre as quais se destaca o Tratado Summulæ Logicales que foi o manual de referência sobre lógica aristotélica durante mais de 300 anos, nas universidades europeias. Este Tratado foi traduzido para grego e hebraico.

Prova da sua vastíssima cultura científica encontra-se na obra «De oculo», um Tratado de Oftalmologia, que conhece ampla difusão nas universidades europeias. Como exemplo, quando Miguel Ângelo adoece gravemente dos olhos devido ao árduo labor consumido na decoração da Capela Sistina, encontra remédio numa receita de Pedro Julião. De sua autoria, o «Thesaurus Pauperum», o Tesouro dos pobres, em que trata de várias doenças e suas curas, traduzido para 12 línguas.

O Tesouro dos pobres
Cortesia de viadeiportoghesi
Já no domínio da Teologia, é autor de Comentários ao pseudo-Dionísio e Scientia libri de anima. Segundo os historiadores, encontra-se por publicar a obra De tuenda valetudine, manuscrita em Paris e dedicada a Branca de Castela, esposa do rei Luís VIII de França, filha de Afonso IX de Castela.
Antes de 1261, ano em que é eleito decano da Sé de Lisboa, Pedro Julião ingressa na vida religiosa. O rei Afonso III de Portugal confia-lhe o priorado da Igreja de Santo André (Mafra) em 1263, posto o que é elevado a cónego e deão da Sé de Lisboa, Tesoureiro-mor na Sé do Porto e D. Prior na Colegiada Real de Santa Maria de Guimarães.

Após a morte de D. Martinho Geraldes, Pedro Julião é nomeado Arcebispo de Braga pelo Papa Gregório X, em 1273. Um ano depois, participa no XIV Concílio Ecuménico de Lião, altura em que Gregório X o eleva a Cardeal-bispo com o título de Tusculum-Frascati, da Diocese suburbicária de Frascati, o que permite ao pontífice poder contar com os serviços médicos do sábio português. Regressa ao Arcebispado de Braga, até ser nomeado o sucessor, D. Sancho. De volta á corte pontifícia, Gregório X nomeia-o seu médico principal (arquiatro) em 1275.
A eleição de Pedro Julião, em conclave realizado em Viterbo, após a morte do Papa Adriano V, a 18 de Agosto de 1276, decorre num período muito perturbado por tensões políticas e religiosas e com alguns cardeais a sofrer violências físicas. É eleito Papa a 13 de Setembro e coroado a 20 de Setembro de 1276, e adopta o nome de João XXI.
João XXI irá marcar o seu breve pontificado (de pouco mais de 8 meses) pela fidelidade ao XIV Concílio Ecuménico de Lião. Apressa-se a mandar castigar, em tribunal criado para o efeito, os que haviam molestado os cardeais presentes no conclave que o elegera. Embora sem grande sucesso, leva por diante a missão encetada por Gregório X de reunir a Igreja Grega à Igreja do Ocidente. Esforça-se por libertar a Terra Santa em poder dos turcos. Tenta reconciliar grandes nações europeias, como França, Alemanha e Castela, dentro do espírito da unidade cristã. Neste sentido, envia legados a Rodolfo de Habsburgo e a Carlos de Anjou, sem sucesso.

Pontífice dotado de rara simplicidade, recebe em audiência tanto os ricos como os pobres. Dante Alighieri, poeta italiano (1265-1321), na sua famosa «Divina Comédia», coloca a alma de João XXI no Paraíso, entre as almas que rodeiam a alma de São Boaventura, apelidando-o de «aquele que brilha em doze livros», menção clara a doze tratados escritos pelo erudito pontífice português. O rei aragonês Afonso X de Leão e Castela, o Sábio, avô de D. Dinis de Portugal, elogia-o em forma de canção no «Paraíso», canto XII. Mecenas de artistas e estudantes, é tido na sua época por «egrégio varão de letras», «grande filósofo», «clérigo universal» e «completo cientista físico e naturalista».
Mais dado ao estudo que às tarefas pontifícias, João XXI delega no Cardeal Orsini, o futuro Papa Nicolau III, os assuntos correntes da Sé Apostólica. Ao sentir-se doente, retira-se para a cidade de Viterbo, onde morre a 20 de Maio de 1277, com 51 anos de idade. É sepultado junto do altar-mor da Catedral de São Lourenço, naquela cidade. No século XVI, durante os trabalhos de reconstrução do templo, os seus restos mortais são trasladados para modesto e ignorado túmulo, mas nem aqui encontraram repouso definitivo. Através do contributo da Câmara Municipal de Lisboa, por João Soares então seu presidente, o mausoléu é colocado, a título definitivo, ao lado do Evangelho de Catedral de Viterbo, a 28 de Março de 2000.

Catedral de São Lourenço, de Viterbo, onde está sepultado o Papa João XXI
Cortesia de distoequeeugosto
(A obra filosófica e médica de Pedro Hispano (Papa João XXI)
Cortesia de Sebastião Gusmão/JDACT