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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Poesia. Prosa. Cantigas de Amor. Maria Tarracha Ferreira. «E, pois vos vós da cuita non nembrades, nen do afan que m'amor faz prender, por meu mal vivo mais ca vós cuidades e por meu mal me fezo Deus nacer e por meu mal non morri u cuidei como vos viss' e por meu mal fiquei vivo, pois vós por meu mal ren non dades»

jdact e cortesia de wikipedia

Cantigas de Amor
Ciclo pré-Alfonsino

A Bonaval quer'eu, mia senhor, ir
e, dês quand'eu ora de vós partir,
os meus olhos non dormirán.

Ir-m'ei pero m'é grave de fazer,
e, dês quand'eu ora de vós tolher,
os meus olhos non dormirán.

Toda via ben, será de provar
de m'ir, mais, dês quand'eu de vós quitar,
os meus olhos non dormirán.
Bernal de Bonaval, (CV 660, CBN 1003)


Tu, que ora vêes de Monte-Maior,
tu, que ora vêes de Monte-Maior,
digas-me mandado de mia senhor,
digas-me mandado de mia senhor,
ca, se eu seu mandado
non vir, trist' e coitado
serei, e gram pecado
fará, se me non val,
ca en tal ora nado
foi que, mao pecado!
amo-a endõado
e nunca end'ouvi al.

Tu, que ora viste os olhos seus,
tu, que ora viste os olhos seus,
digas-me mandado d'ela por Deus,
digas-me mandado d'ela por Deus,
ca, se eu seu mandado
non vir, trist' e coitado
serei, e gram pecado
fará, se me non val,
ca en tal ora nado
foi que, mao pecado!
amo-a endõado
e nunca end'ouvi al.
Gil Sanches, (CA 332, CBN 22)


Senhor fremosa, pois me non queredes
creer a cuita 'n que me ten amor,
por meu mal é que tan ben parecedes
e por meu mal vos filhei por senhor,
e por meu mal tan muito ben oí
dizer de vós, e por meu mal vos vi,
pois meu mal é quanto ben vós avedes.

E, pois vos vós da cuita non nembrades,
nen do afan que m'amor faz prender,
por meu mal vivo mais ca vós cuidades
e por meu mal me fezo Deus nacer
e por meu mal non morri u cuidei
como vos viss' e por meu mal fiquei
vivo, pois vós por meu mal ren non dades.

D'esta cuita'n que me vós tëedes,
em que oj' eu vivo tan sen sabor,
que farei eu, pois mia vós non creedes?
que farei eu, cativo pecador?
que farei eu, vivendo sempr' assi?
que farei eu, que mal dia naci?
que farei eu, pois me vós non valedes?

E, pois que Deus non quer que me valhades
nem me queirades mia coita creer,
que farei eu, por Deus que mi o digades?
que farei eu, se logo non morrer?
que farei eu, se mais a viver ei?
que farei eu, que conselho non sei?
que farei eu, que vós desamparades?
Martim Soares, (CA 46, CBN 130)

JDACT

sábado, 15 de setembro de 2012

Antologia Literária. Época Clássica. Século XVII. Maria Ema Ferreira. «Tudo é cheo de dor e de saudade, tudo de confusão, tudo é patranha, e tudo o que cá vemos é vaidade. Ó grande rico Reino Lusitano, em tam pequeno espaço hoje tam pobre, para que foi tal bem, para tal dano?»


jdact

Elegia’, poema de tonalidade melancólica (...), a que os poetas renascentistas adaptaram a composição em tercetos. In António José Saraiva, Literatura Portuguesa, Lisboa, 1966.

A, elegia é uma composição lírica, inspirada num assunto triste; os seus criadores foram os poetas latinos Tíbulo e Propércio. Na elegia, empregava-se a terça rima ou terza rima, designação atribuída ao esquema rimático que indica simultaneamente a estância, terceto, e a correspondência da rima (ABA-BCB-CDC-DED...). Geralmente o verso usado é o decassílabo heróico, acentuado na 6.ª e na 10.ª sílabas. A terza rima é uma criação de Dante; por isso é frequente a denominação de ‘terceto dantesco’.

À morte do Príncipe Dom João
O Príncipe Dom João de Portugal
é morto! Ouça-o a grande natureza
que no-lo dera em mostras d’imortal.

Como pôde cair tanta grandeza,
como puderam os pecados tanto,
que alcança a perda a toda a redondeza?

Eu digo os nossos, que no peito santo
nunca pecado entrou, nunca entrou erro
bem se vê da sua glória e nosso pranto.

Nesta, terra já não, antes desterro,
dai lágrimas sem fim ao mal infindo,
idade pouco há d’ouro, hoje de ferro.

Que mais vos pede a tea, que, em se urdindo,
cartada foi? Debuxo e obra tam prima
num só momento tudo à terra é vindo.

Ah! que das cousas de tamanha estima
não somos dignos! Mostram-se somente,
para subir por elas ao de cima.

Seus olhos alevanta então a gente
ao Céu co aquele espanto, ergue o sentido,
e cuida no porvir, deixa o presente.

NOTA: Com a morte do Príncipe, a felicidade desapareceu da Terra, tal como aconteceu no fim da Idade de Ouro. Ao mito da ‘Idade de Ouro’, sucedem-se outras ‘Idades’, que simbolizavam, para os Romanos, a corrupção e degradação progressivas da humanidade: a da ‘prata’, do ‘bronze’ e do ‘ferro’.

Aquele real corpo bem nascido,
entendimento muito mais que humano
subitamente desaparecido!

Ó grande rico Reino Lusitano,
em tam pequeno espaço hoje tam pobre,
para que foi tal bem, para tal dano?

Vãmente os olhos buscam aquela nobre,
aquela só real mostra em verdade,
que escuríssima nuvem no-la encobre.

Tudo é cheo de dor e de saudade,
tudo de confusão, tudo é patranha,
e tudo o que cá vemos é vaidade.

A nossa grande e rica sorte estranha,
tal enveja te fez o fado duro!
Nossa não só, mas de toda esta Espanha.

A quem contra infiéis fora alto muro.
Ora envolveram-se as fontes e águas claras,
seja na terra tudo triste e escuro.

[…]
Cruel fado, por certo, que mudaste
üa tal claridade em noite escura,
porque contra nós tanto te assanhaste?

Aquela mais perfeita criatura
que nunca entre nós houve - ah! grave dor!
meteste-a em üa negra sepultura.

[…]
Assi me queixava eu, quando do Céu
me senti reprender, qual Job jazendo
com grave dor; mas dor mor me venceu.

De cima um ar singelo ir-se movendo
ouvi claro dizer: Ora que queres,
queixumes vãos vãmente ao ar perdendo?

Aquele entre os nascidos das mulheres,
príncipe santo, foi-se a seu lugar,
vossos nadas deixou, foi-se aos prazeres.

Vós lá debaixo que podeis julgar,
neste vale de lágrimas e dores,
onde o mais que sabeis é só chorar?
[…]

In Maria Ema Tarracha Ferreira, Antologia Literária. Época Clássica. Século XVI, Elegias, Editora Ulisseia,  Lisboa, 1988.

Cortesia de E. Ulisseia/JDACT

segunda-feira, 12 de março de 2012

Antologia Literária. Época Clássica. Século XVII. Maria Ema Ferreira. «A grandeza literária do nosso século XVII está na prosa; é a personalidade e a experiência humana de Vieira, a subtileza e o estilo de Bernardes e dos prosadores agora voltados para a biografia e a apologética, e daí para as notações da vida corrente e dos prodígios religiosos»

Cordesia de sannicolas

Século XVII
Escola Seiscentista ou Gongórica

«O espírito do século XVIII é simultaneamente de continuação do século anterior e de reacção contra ele. Continuação, ao extrair do bucolismo, do petrarquismo e dó neo-platonismo, do mesmo modo que do formalismo clássico, as últimas possibilidades estéticas. Reacção, ao opor à exuberância pagã do renascimento, o hábito da interiorização e da meditação moral (...); ao culto da nitidez e da simplicidade (...), a ânsia de evasão para outra realidade, em que tudo é imprecisão e misterioso». In A. Correia Oliveira, “Prefácio de As Segundas Três Musas”, Lisboa, 1945. 
«A grandeza literária do nosso século XVII está na prosa; é a personalidade e a experiência humana de Vieira, a subtileza e o estilo de Bernardes e dos prosadores agora voltados para a biografia e a apologética, e daí para as notações da vida corrente e dos prodígios religiosos». In Vitorino Nemésio, “Poesias Várias de Bocage” ,Lisboa, 1943. 
«Os poetas de Seiscentos são espíritos que procuram gozar, na quietude dos tempos, prazeres espirituais cuja delícia está na sua mesma inutilidade, e a poesia cultivam-na como agradável prenda de-sociedade. Exclui-se dela não só a gravidade da preocupação social, da comoção religiosa, mas até as efusões da emoção pessoal. Ela deve ser dirigida à inteligência, como seu gostoso manjar, e à memória, para seu fidalgo ornamento. Das dores mais profundas faz encantadoras charadas, artificiosas filigranas verbais». In Hernâni Cidade, “Lições de Cultura e Literatura Portuguesa, 1º vol., Lisboa, 1959.

jdact

A deformação do ideal clássico no sentido do cultismo e do conceptismo, o barroco e a sua interpretação.
«O barroco é o contrapolo da maneira clássica. O simples e claro dos -processos clássicos insinua-se discreta e lentamente, encantando a inteligência e a alma inteira pela graça inabalável de uma beleza nua; o que o barroco visa, pelo contrário, é a explosão do espanto; é o dom de surpreender e de aturdir o espírito à força de ornamentar e de rebuscar». In António Sérgio, “Ensaios” V, Lisboa, 1955. 
«Os elementos da arte barroca são essencialmente os mesmos da arte renascentista. Mas é diferente o modo como o poeta ou o artista deles se servem por ser diferente o sentimento estético que exprimem. (...) Com o mesmo espírito que leva o arquitecto a preencher de estilizações de motivos, como que dominado pelo horror do vazio, os espaços que a arte greco-latina deixava livres, o poeta seiscentista sobrecarrega o verso de elementos pictóricos e musicais, por vezes para suprir a escassez temática, ou com intuito meramente decorativo; mas, quando se trata de um autêntico valor, normalmente como meio de expressão de uma realidade interior que, ou impõe esse requinte, ou não é traduzível por meios puramente lógicos». In A. Correia Oliveira, “Prefácio de As Segundas Três Musas”, Lisboa, 1945. 

In Maria Ema Tarracha Ferreira, Antologia Literária. Época Clássica. Século XVII, Editorial Aster, Lisboa, exemplar nº 3368.

Cortesia de Aster/JDACT