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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O Juramento da Rainha. Isabel a Católica. CW Gortner. «Aliviada, percebi que Beatriz resolvera não fazer das suas, seguindo recatadamente ao meu lado. Mas quando íamos chegando a Arévalo, com o céu tingido de listas em tons de coral…»

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«(…) Estava apenas a pensar que, se Joana d’Arc se tivesse cruzado convosco, ter-vos-íeis juntado a ela sem hesitar. E teria mesmo. Beatriz ergueu-se, de um pulo. Teria atirado os meus livros e bordados pela janela e saltado para o primeiro cavalo livre que encontrasse. Como deve ser maravilhoso fazer o que se quiser, lutar pelo nosso país e viver só com o céu por tecto e com a terra por cama! Exagerais, Beatriz. As cruzadas envolvem mais sofrimentos do que nos conta a História. Talvez, mas pelo menos estaríamos a fazer qualquer coisa! Olhei-lhe para as mãos, que estavam cerradas como se ela estivesse a empunhar uma arma. Com essas vossas enormes mãos, sem dúvida que conseguiríeis manejar uma espada, gracejei. Ela ergueu o queixo. Sois vós a princesa e não eu. Seríeis vós a empunhar a espada. Senti-me cheia de frio, como se o dia tivesse dado lugar à noite, sem aviso. Estremeci. Não creio que alguma vez conseguisse liderar um exército retorqui em voz baixa. Deve ser terrível vermos os nossos compatriotas esquartejados pelos nossos inimigos e sabermos que a nossa própria morte poderá vir a todo o instante. Ergui a mão, antecipando-me ao protesto de Beatriz. Tão-pouco concordo que citeis Joana d’Arc como um exemplo a seguir. Ela lutou pelo seu príncipe e isso só lhe valeu uma morte cruel. Não desejaria tal destino a ninguém. Decerto não o quero para mim. por aborrecido que isso vos pareça, prefiro casar e ter filhos, como é o meu dever. Beatriz lançou-me um olhar penetrante. O dever é para os fracos. Não me digais que nunca pusestes tudo isso em causa. Devorastes aquele livro dos reis nas cruzadas que está na nossa biblioteca como se fosse maçapão. Forcei uma risada. Sois incorrigível. Nesse momento chegaram Alfonso e don Chacón, que parecia muito aborrecido. Vossa Alteza, minha Senhora de Bobadilla, não devíeis ter fugido a galope daquela maneira. Poderíeis ter-vos magoado, ou pior. Quem sabe o que espreita nestes campos ao anoitecer? Apercebi-me do medo na sua voz. Embora o rei Henrique tivesse entendido por bem deixar-nos em paz em Arévalo, isolados da corte, a sua sombra pairava nas nossas vidas. A ameaça de ser raptada era um risco a que há muito me habituara, tanto que passara a ignorá-lo. Mas Chacón era devotado à nossa proteção e relava muito a sério qualquer possibilidade de ameaça.
Perdoai-me, retorqui. Foi um erro. Não sei o que me deu. O que quer que tenha sido, estou impressionado, disse Alfonso. Quem vos teria imaginado uma tal amazona, querida irmã? Eu, uma amazona? De maneira nenhuma. Apenas quis testar o Canela. Ele saiu-se bem, não achais? É bem mais veloz do que o seu tamanho sugere. Alfonso abriu um sorriso. Pois é. E sim, de facto, saístes-vos muito bem. E agora temos de regressar, disse Chacón. Já é quase noite. Vinde, iremos pela estrada principal. E, desta vez, nada de arrancar a galope. Fui claro? De novo a cavalo, eu e Beatriz seguimos o meu irmão e Chacón, crepúsculo adentro. Aliviada, percebi que Beatriz resolvera não fazer das suas, seguindo recatadamente ao meu lado. Mas quando íamos chegando a Arévalo, com o céu tingido de listas em tons de coral, não pude evitar recordar a nossa conversa e, contra vontade, perguntar-me como seria ser-se um homem.
A torre de menagem estava deserta, o que era anormal àquela hora, e, mal entrámos no salão de banquete e vimos que a comprida e lascada mesa central ainda não fora posta para a refeição da noite, pressenti que algo se passava. Alfonso e Chacón estavam nos estábulos a desselar e a escovar os cavalos. Enquanto Beatriz me despia o manto, olhei para a lareira; nem tão-pouco fora acesa. A única luz era a dos archotes na parede, que iam cuspindo fagulhas. Onde estará toda a gente?, perguntei, massajando as mãos esfoladas pelas rédeas e tentando soar indiferente. Julguei que doña Clara fosse estar na torre de menagem à nossa espera, com a sua chibata e as suas reprimendas. Também eu. Beatriz franziu o sobrolho. Está tudo calmo demais. Perguntei-me se a minha mãe teria adoecido de novo enquanto andáramos a cavalgar. Senti uma pontada de culpa. Deveria ter ficado ali, em vez de sair de forma tão súbita, sem dizer uma palavra. A minha tutora entrou e veio apressadamente ter connosco. Aí vem ela, sussurrou Beatriz, mas eu percebi de imediato que a preocupação no rosto da minha aia não tinha a ver connosco. Se doña Clara ficara zangada com a nossa fuga, algo mais importante acabara entretanto por se sobrepor a isso. Até que enfim, disse ela, sem a severidade do costume. Onde vos metestes? Sua Alteza, a vossa mãe, tem estado a perguntar por vós. A minha mãe estivera a perguntar por mim. O meu coração acelerou e, como se de longe, ouvi Beatriz dizer: estávamos com Sua Alteza, o príncipe. Não vos lembrais, doña Clara? Dissemos que íamos...» In CW Gortner, O Juramento da Rainha, Isabel, a Católica, 2012, tradução de Miguel Romeira, Topseller, 20/20 Editores, 2013, ISBN 978-9879-862-627-1.

Cortesia de Topseller/JDACT

terça-feira, 5 de julho de 2016

Tudor. O Segredo. CW Gortner. «Tudo à minha volta pareceu recuar. Recordando o que o guarda no portão dissera, um disparate qualquer sobre a Princesa Isabel estar na cidade, senti uma pontada no coração quando a cavalgada acelerou»

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«(…) A multidão, um grupo de gente rude e de ar miserável, parou. Distraidamente, observei alguns miúdos de rua descalços que iam andando pé ante pé pelo meio daquela gente, com cães colados aos seus calcanhares; eram gatunos e, pelo aspecto, nenhum teria mais de nove anos. Era difícil olhar para eles sem me ver a mim mesmo, o desgraçado em que talvez me tivesse tornado caso os Dudley não me tivessem acolhido. Mestre Shelton fez uma carranca. Estão a bloquear-nos a passagem. Vai lá ver se descobres para onde é que esta gentalha está toda a olhar especada. Se puder ser evitado, preferia não ter de abrir caminho à força. Passei-lhe as minhas rédeas, tornei a desmontar e enfiei-me pela multidão, sentindo-me, por uma vez, grato pela minha constituição delgada. Insultaram-me, empurraram-me e acotovelaram-me, mas consegui chegar lá à frente. Pondo-me em bicos de pés para espreitar por cima das cabeças, vislumbrei a estrada principal, pela qual avançava uma cavalgada sem nada de particular. Estava prestes a virar costas àquela cena quando, abrindo caminho aos empurrões, uma mulher corpulenta veio pôr-se ao meu lado, agitando no ar um ramo de flores meio murchas. Deus vos abençoe, querida Bess!, gritou. Deus vos abençoe, Vossa Graça!
Lançou as flores ao ar. A multidão calou-se. Um dos homens que seguia na cavalgada recuou mais para o centro da mesma, como se para esconder algo, ou alguém, dos olhares. Foi então que reparei num cavalo de oficial malhado escondido por entre os cavalos maiores. Sabia apreciar cavalos; olhando ao seu pescoço arqueado, à musculatura suave e ao empertigado erguer dos cascos, reconheci tratar-se de um exemplar de uma raça espanhola raramente vista em Inglaterra e mais cara do que o conjunto que o duque tinha nas suas cavalariças. E então olhei para o cavaleiro. Percebi de imediato tratar-se de uma mulher, ainda que um manto com capuz lhe ocultasse as feições e que umas luvas de couro lhe escondessem as mãos. Ao contrário do que era costume, ela montava o cavalo com uma perna para cada lado; contra os lados da sela trabalhada em relevo, as suas vistosas botas chamavam a atenção, estava ali uma rapariga franzina, sem nada que a distinguisse à excepção do cavalo, mas que avançava como se determinada a alcançar o seu destino. Porém, sabia que estava a ser observada e ouviu a exclamação da mulher, porque voltou a cabeça. E então, para meu espanto, tirou o capuz e revelou um rosto longo e delgado, envolto numa auréola de cabelos acobreados. E sorriu.
Tudo à minha volta pareceu recuar. Recordando o que o guarda no portão dissera, um disparate qualquer sobre a Princesa Isabel estar na cidade, senti uma pontada no coração quando a cavalgada acelerou pela estrada fora, desaparecendo ao longe. A multidão começou a dispersar, embora um dos miúdos de rua tenha avançado furtivamente até à estrada para apanhar o ramo de flores. A mulher que o lançara mantinha-se imóvel, como se hipnotizada, as mãos sobre o peito e o olhar perdido na direcção da cavalgada que já desaparecera, com as lágrimas a brilharem-lhe nos olhos fatigados. Estendendo a mão, toquei-1he ao de leve no braço. Ela voltou-se para mim com um ar aturdido. Viste-la?, e, embora estivesse a olhar directamente para mim, tive a impressão de que não me via. Vistes a nossa Bess! Finalmente ela veio ter connosco, louvado seja Deus. Só ela nos pode salvar das garras de Northumberland, aquele demónio. Mantive-me imóvel, grato por trazer a libré no alforge. Era assim que os londrinos viam João Dudley, duque de Northumberland?
Eu sabia que o duque era actualmente o mais destacado ministro do rei, tendo chegado ao poder após a queda de Eduardo Seymour, o anterior protector do rei e também seu tio. Muitos na nação tinham amaldiçoado os Seymour pela sua avareza e ambição. Teria o duque incorrido no mesmo ódio?» In CW Gortner, O Segredo dos Tudor, 2011, tradução de Miguel Romeira, 20/20 Editora, Topseller, 2014, ISBN 978-989-862-643-1.

Cortesia de Topseller/20/20Editora/JDACT

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O Juramento da Rainha. Isabel, a Católica. CW Gortner. « Olhei para ela. Beatriz estava sempre a fazer perguntas para as quais não havia resposta simples e a tentar mudar aquilo que já era assim, antes de termos nascido»

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A Infanta de Arévalo
«(…) Beatriz de Bobadilla, será que, para vós, tudo tem de ser uma competição? Ela pôs-se de mãos nas ancas. Sim, quando se trata de provar o nosso valor. Se não formos nós a fazê-lo, quem o fará? Portanto, é a nossa força que desejais provar, concluí. Hum. Explicai-me isso. Deixando-se cair ao meu lado, Beatriz ficou a admirar o crepúsculo. Naquela altura do ano, o sol punha-se devagar em Castela, oferecendo-nos uma visão de tirar o fôlego, nuvens orladas a dourado e céus em tons violeta e escarlate. O incipiente vento do anoitecer revolveu-lhe os cabelos pretos todos emaranhados; os seus olhos expressivos, tão rápidos a revelar-lhe os pensamentos, tornaram-se melancólicos. Quero provar que somos tão capazes como qualquer homem e que por isso deveríamos ter os mesmos privilégios. Franzi o sobrolho. E para quê? Para podermos viver como quisermos sem termos de pedir desculpa por isso, tal como Sua Alteza. Alfonso não vive como quer. Ajeitei o meu capuz, enfiando os atilhos no corpete. Aliás, ele tem muito menos liberdade do que julgais. Tirando hoje, mal o tenho visto, de tão ocupado que anda com a esgrima, com o arco e flecha e com os torneios, já para não falar nos estudos. Ele é um príncipe. Têm muitas obrigações. Beatriz fez cara feia. Sim, obrigações importantes e não apenas aprender a costurar, a fazer manteiga e a levar as ovelhas para o curral. Se pudéssemos viver como homens, seríamos livres de correr mundo por causas nobres, como um cavaleiro andante ou como Joana d’Arc.
Escondi a excitação inesperada que as suas palavras me provocaram. Treinara-me para esconder o que sentia desde que a minha mãe, Alfonso e eu fugíramos de Valladolid naquela terrível noite há dez anos; com o tempo, ficara a compreender muito melhor o sucedido. Não estávamos tão isolados em Arévalo que eu não fosse sabendo aos poucos as ocasionais notícias que corriam a meseta vindas das residências reais em Madrid, Segóvia e Valladolid; a nossa criadagem trocava mexericos sobre tudo isso, e era fácil ouvi-los, bastava fingir que não se estava atento. Sabia que, com a subida de Henrique ao trono, a corte se tornara um lugar perigoso para nós, sendo governada pelos seus favoritos e pela sua avarenta rainha. Nunca esquecera o medo palpável que sentira na noite da morte do meu pai, nem a longa viagem por campos e florestas escuras, evitando as estradas principais não fosse Henrique ter enviado guardas atrás de nós. Essa memória ficara gravada em mim, uma lição indelével de que as mudanças ocorrem quer estejamos ou não preparados, e de que devemos tentar adaptarmo-nos protestando o menos possível. Joana d'Arc morreu na fogueira, acabei por dizer. É esse o fim grandioso a que devemos aspirar, minha amiga? Beatriz suspirou.
Claro que não; essa é uma morte horrível. Mas gostaria de pensar que, surgindo uma oportunidade, poderíamos liderar exércitos em defesa do nosso país, tal como ela fez. Como as coisas são agora, antes de vivermos já estamos condenadas. Estendendo os braços, exclamou: é sempre o mesmo, dia após dia, uma semana atrás da outra, um enfadonho mês atrás do outro! Será que todas as damas são educadas assim? Seremos tão burras que os nossos prazeres só possam ser receber convidados, agradar ao nosso futuro marido e aprender a sorrir entre dois pratos sem nunca darmos a nossa opinião? Nesse caso, mais vale saltarmos o casamento e os filhos e passarmos directamente à velhice e à santidade. Olhei para ela. Beatriz estava sempre a fazer perguntas para as quais não havia resposta simples e a tentar mudar aquilo que já era assim, antes de termos nascido. Desconcertava-me o facto de também eu andar ultimamente a pôr-me questões parecidas; jamais o admitiria, mas afligia-me uma inquietação semelhante. Não gostava da impaciência que me dominava ao pensar no futuro, pois sabia que até mesmo eu, uma princesa de Castela, teria um dia de me casar com quem me mandassem e de me conformar com a vida que o meu marido entendesse dar-me.
Casar e cuidar do nosso esposo e dos nossos filhos não é entediante nem nos rebaixa - afirmei. É isso o que cabe às mulheres desde o começo dos tempos. Estais apenas a recitar o que vos ensinaram, replicou Beatriz. As mulheres têm filhos e os homens garantem o sustento. Mas eu pergunto: porquê? Porquê só essa opção? Quem disse que uma mulher não pode empunhar uma espada, erguer a cruz e marchar sobre Granada para derrotar os mouros? Quem disse que não podemos tomar as nossas decisões ou gerir a nossa vida tão bem como qualquer homem? Não importa quem o disse; as coisas são assim e pronto. Ela revirou os olhos. Ora, Joana d’Arc não casou. Não fez limpezas, nem costura nem enxoval. Vestiu uma armadura e foi lutar pelo seu delfim. Que, então, a entregou aos ingleses, - recordei-lhe, fazendo depois uma pausa. Beatriz, Joana d’Arc foi chamada a servir Deus. Não podeis comparar o seu destino ao nosso. Ela foi escolhida por Ele e sacrificou-se pelo seu país. Beatriz bufou rudemente mas eu sabia que tinha marcado um ponto indiscutível nesta discussão que vínhamos travando desde a infância. Mostrei-me imperturbável, como sempre fazia quando Beatriz se punha a pontificar, mas, ao imaginar a minha entusiástica amiga vestida com uma armadura ferrugenta, a instigar uma companhia de nobres a lutar pela pátria, deixei escapar um risinho. E agora ris-vos de mim!, protestou ela. Não, não. Contive-me o melhor que consegui. Não fazia isso». In CW Gortner, O Juramento da Rainha, Isabel, a Católica, 2012, tradução de Miguel Romeira, Topseller, 20/20 Editores, 2013, ISBN 978-9879-862-627-1.

Cortesia de Topseller/JDACT

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Tudor. O Segredo. CW Gortner. «O poder absoluto, meu rapaz, tem o seu preço. Cerrou os maxilares. E agora, fica atento. Nunca se sabe quando é que nos vai aparecer pela frente…»

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«(…) A escumalha anda toda em polvorosa com os rumores da doença mortal de Sua Majestade e com um disparate qualquer sobre a princesa Isabel estar na cidade. Cuspiu para a terra. Idiotas. Até eram capazes de acreditar que a Lua é de seda, se houvesse gente suficiente a jurar-lho. Não se deu ao trabalho de verificar os documentos. Se fosse a vós, mantinha-me longe das multidões, aconselhou, fazendo-nos sinal para avançarmos. Ao passarmos sob a torre de vigia, ouvi, nas nossas costas, aqueles que tinham sido travados começarem a protestar aos gritos. Mestre Shelton tornou a guardar os documentos no alforge. Ao abrir o manto, revelou uma espada larga presa às costas. Ao vislumbrar aquela arma, fiquei momentaneamente fascinado. Disfarçadamente, levei uma mão à adaga que trazia embainhada no cinto, um presente de mestre Shelton quando eu fizera catorze anos. Sua Majestade, o rei Eduardo... está a morrer?, arrisquei perguntar. Claro que não, replicou ele. O rei tem estado doente, nada mais, e as pessoas culpam o duque por isso, da mesma maneira que o culpam por quase tudo o que acontece de mau na Inglaterra. O poder absoluto, meu rapaz, tem o seu preço. Cerrou os maxilares. E agora, fica atento. Nunca se sabe quando é que nos vai aparecer pela frente algum velhaco capaz de nos degolar só para nos ficar com a roupa. Não duvidei das suas palavras. Londres não era, de todo, o que eu imaginara. Em lugar das avenidas bem ordenadas e cheias de lojas que povoavam a minha imaginação, atravessámos um autêntico emaranhado de ruelas torcidas, com lixo amontoado por toda a parte e das quais partiam becos sinuosos que iam desembocar numa sinistra escuridão. Por cima de nós, fileiras de edifícios delapidados amparavam-se uns nos outros como árvores tombadas, as suas varandas em ruínas unindo-se para bloquear a luz do sol. Reinava uma calma sinistra, como se toda a gente tivesse desaparecido, e o silêncio resultava ainda mais desconcertante por suceder ao clamor que deixáramos para trás, junto à porta da cidade. De súbito, mestre Shelton parou. Escuta.
Fiquei com todos os sentidos alerta. Apercebi-me de um som abafado que parecia chegar de todo o lado em simultâneo. O melhor é esperarmos, recomendou mestre Shelton. Segurando mais firmemente as rédeas do Cinábrio, fi-lo desviar-se para um lado instantes antes de a rua ser invadida por uma turba. A sua chegada foi tão inesperada que, apesar de eu estar a segurar firmemente as rédeas, o Cinábrio começou a empinar-se. Receando que ele espezinhasse alguém, desci da sela e segurei-o pelo freio. A multidão passou à nossa volta. Barulhenta a ponto de nos ensurdecer, era uma mistura muito diversa de gente a cheirar a suor e a esgotos e fez-me sentir como uma presa. A minha mão começou a descer para a adaga no meu cinto, mas então percebi que ninguém estava interessado em mim. olhei para mestre Shelton, que continuava montado no seu imponente cavalo baio. Ele gritou-me uma ordem que não consegui entender. Estiquei o pescoço, fazendo um esforço para o ouvir por cima do barulho. Torna a montar!, gritou ele outra vez, com o avançar da multidão em tropel quase a deitar-me por terra. A custo, lá consegui subir de novo para o dorso do Cinábrio e então fomos levados na maralha, navegando por entre toda aquela gente até transpormos uma passagem estreita que foi desembocar à beira-rio.
Fiz o Cinábrio parar. Diante dos meus olhos corria o Tamisa, as algas dando-lhe a aparência de jaspe líquido. Rio abaixo, lá mais ao longe, envolta em névoa, uma estrutura de pedra impunha-se à paisagem. A Torre de Londres. Detive-me, incapaz de desviar os olhos da infame fortaleza real. A meio galope, mestre Shelton aproximou-se pelas minhas costas. Eu não te disse para ficares atento? Anda. Não é altura para apreciar as vistas. As multidões de Londres podem ser tão ferozes como um urso num fosso. Forçando-me a desviar o olhar, observei o Cinábrio, os flancos tremiam-lhe, cobertos por uma fina camada de transpiração, e as suas narinas fremiam, mas parecia não ter sofrido uma beliscadura. A multidão correra para mais adiante, para uma estrada larga delimitada por um alinhamento de casas e de letreiros de tabernas a abanarem. Enquanto avançávamos, levei a mão à testa, embora já fosse tarde; mas, por milagre, não perdera o chapéu». In CW Gortner, O Segredo dos Tudor, 2011, tradução de Miguel Romeira, 20/20 Editora, Topseller, 2014, ISBN 978-989-862-643-1.

Cortesia de Topseller/20/20Editora/JDACT

domingo, 27 de setembro de 2015

O Juramento da Rainha. Isabel, a Católica. CW Gortner. «Não soprava vento e o ar estava carregado da fragrância da resina, com um toque subtil de neve derretida à mistura, um odor que sempre associei à chegada da Primavera. Não é espectacular?»

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A Infanta de Arévalo
«(…) Devíamos ter dito a verdade a doña Clara, comentei, olhando para as minhas mãos. Estava outra vez a apertar muito as rédeas e, por isso, forcei-me a descontrair. Não me parece que ela vá achar apropriado termos saído por aí a deambular a cavalo. Beatriz apontou para adiante. E que interesse tem o que é apropriado? Olhai só à vossa volta! Relutante, assim fiz. O sol ia mergulhando no horizonte, enchendo o céu esbranquiçado de um vibrante brilho cor de açafrão. À nossa esquerda, Arévalo erguia-se sobre uma colina baixa, uma cidadela de tom pardo com seis torres e uma torre de menagem com ameias, adjacente a uma rústica cidade mercantil com o mesmo nome. Do lado direito tínhamos a estrada principal que ia dar a Madrid, e a toda a nossa volta, estendendo-se até perder de vista, estava Castela, um  território sem fim, salpicado de campos de cevada e de trigo, de hortas e de aglomerados de pinheiros de tronco torcido. Não soprava vento e o ar estava carregado da fragrância da resina, com um toque subtil de neve derretida à mistura, um odor que sempre associei à chegada da Primavera.
Não é espectacular?, sussurrou Beatriz, de olhos a brilhar. Assenti, admirando aqueles campos que eram o meu lar praticamente desde que me lembrava. Claro que já os vira muitas vezes, tanto da torre de menagem de Arévalo como nas nossas idas anuais com doña Clara até à povoação vizinha de Medina del Campo, onde tinha rugar a maior feira de animais de Castela. Mas, por alguma razão que não teria sabido explicar, naquele dia pareceram-me diferentes, como quando nos damos subitamente conta de que o tempo transformou um quadro que já vimos muitas vezes, escurecendo as cores, dando-lhes um novo brilho e aumentando o contraste entre claros e escuros. A minha narureza prática assegurou-me que tal impressão se devia a estar a ver a paisagem de um ponto mais alto, o dorso do Canela, em vez do da mula que costumava montar. Ainda assim, vieram-me lágrimas aos olhos e, sem aviso, recordei subitamente uma imponente sala cheia de pessoas vestidas de veludo e de seda. A imagem esfumou-se logo de seguida, apenas um fantasma do passado, e, quando Alfonso, que seguia lá mais adiante com Chacón, me acenou, esqueci de imediato que estaya sentada sobre um animal desconhecido e potencialmente traiçoeiro, e dei-lhe com os calcanhares nos flancos.
O Canela lançou-se em diante, obrigando-me a apoiar-me na curva do seu pescoço. Instintivamente, agarrei-me à sua crina, erguendo-me da sela e retesando as coxas. O Canela respondeu com um resfolegar satisfeito. Acelerou ainda mais, passando a galopar por Alfonso e levantando atrás de si um remoinho de poeira ocre. Díos Mío! ouvi Alfonso exclamar quando passei por ele a toda a velocidade. Pelo canto do olho vi Beatriz a seguir-me a toda a brida, gritando ao meu irmão e a um atónito Chacón: com que então, anos de experiência? Explodi em gargalhadas.
Era maravilhoso, tal como eu imaginava que voar devia ser, deixar para trás as preocupações das lições e do estudo, as geladas lajes do castelo, as cestas sempre cheias de roupa para cerzir e o constante resmungar preocupado por causa do dinheiro e da saúde frágil da minha mãe; ser livre, poder gozar a sensação do cavalo em movimento por baixo de mim e admirar a paisagem de Castela. Quando parei, ofegante, num cume de onde se avistava a planície, o capuz de montar caíra-me para as costas e os meus cabelos ruivo-claros estavam a soltar-se das tranças. Descendo do Canela, afaguei-lhe o pescoço suado. Ele esfregou o focinho na palma da minha mão e depois pôs-se a mastigar os espinheiros secos que espreitavam por entre as rochas. Sentei-me num amontoado de pedras ali ao pé e fiquei a ver Beatriz subir velozmente ao meu encontro. Quando ela parou, corada do esforço, comentei: afinal tínheis razão. De facto, precisávamos de exercício. Exercício?, arquejou ela, descendo do cavalo. Tendes noção de que acabámos de deixar Sua Alteza e Chacón para trás, no meio de uma nuvem de poeira? Sorri».
In CW Gortner, O Juramento da Rainha, Isabel, a Católica, 2012, tradução de Miguel Romeira, Topseller, 20/20 Editores, 2013, ISBN 978-9879-862-627-1.

Cortesia de Topseller/JDACT

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Tudor. O Segredo. CW Gortner. «Os papistas eram os católicos. Para eles, o chefe da igreja era o papa em Roma e não o nosso soberano. Dona Alice era católica; embora me tivesse educado na fé calvinista, como mandava a lei»

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1553. Whitehall
«(…) A família adquirira estantes e estantes de tomos, sobretudo para alardearem a sua riqueza, já que os seus varões se mostravam mais orgulhosos das suas proezas nas caçadas do que de qualquer talento que pudessem ter para as letras. Quanto a mim, aprender tornou-se uma paixão. Naqueles tomos bafientos descobri um mundo sem limites, no qual podia ser quem quisesse. Contive um sorriso. Mestre Shelton também era instruído, no seu caso, isso era essencial para administrar as despesas da família. Mas ele fazia questão de dizer que nunca aspirara a mais do que lhe cabia nesta vida e que não toleraria tai presunção a ninguém. Na sua opinião, nenhum servidor, por mais empenhado que fosse, deveria aspirar a ser versado na filosofia humanista de Erasmo ou nos ensaios de Thomas More, quanto mais fluente no francês ou no 1atim. Se soubesse tudo o que o dinheiro que gastara na minha tutoria comprara naqueles últimos anos, de certeza que não ficaria satisfeito.
Em silêncio, chegámos ao alto da colina. Com a estrada a entrar por um vale despido de árvores, a aridez da paisagem chamou a minha atenção, habituado como estava à vegetação desregrada da região central da Inglaterra. Embora não nos tivéssemos afastado muito dessa zona, sentia-me como se tivesse entrado numa terra estrangeira. O fumo sujava o céu como dedadas. Avistei duas colinas gémeas e depois uma imponente muralha que se erguia em torno de uma desordenada extensão de casas, de torres de igreja, de propriedades à beira-rio e de infindáveis ruas com gelosias a todo o seu comprimento, com o largo leito do Tamisa a cortar pelo meio de todo aquele cenário. Ali está ela, anunciou mestre Shelton. A cidade de Londres. Em breve terás saudades da paz do campo, isto se algum assassino ou se a peste não te deitarem a mão antes disso.
Apenas conseguia olhar. Londres era tão densa e ameaçadora como eu a imaginara, com milhafres às voltas no céu, como se o próprio ar estivesse putrefacto. Mas, à medida que nos aproximávamos, vi, adjacentes àquela muralha serpenteante, pastos salpicados de animais, canteiros de ervas aromáticas, pomares e prósperas aldeolas. Parecia haver ainda muita vida rural em Londres. Chegámos a uma das sete portas da cidade. Fascinado, eu tentava reparar em tudo ao mesmo tempo, no grupo de mercadores demasiado bem vestidos para o carro de bois em que seguiam; no latoeiro que, a cantarolar, carregava uma canga na qual chocalhavam facas e partes de armaduras; ou nos incontáveis pedintes, aprendizes, indivíduos de ar formal, talhantes, curtidores e peregrinos. As vozes entrechocavam-se em discussão com os guardas postados na porta da cidade, que tinham travado o avanço de toda aquela gente. Quando mestre Shelton e eu nos juntámos à fila, ergui o olhar para a porta que se agigantava à nossa frente, com os seus imponentes torreões e as suas ameias, que mais pareciam presas enegrecidas pela fuligem. De súbito, fiquei petrificado; uma colecção de cabeças fervidas em piche e enfiadas em estacas fitava-nos com as suas órbitas vazias, um arrepiante festim para os corvos, que iam debicando a carne nauseabunda. Papistas..., murmurou mestre Shelton, parado ao meu lado. Sua Senhoria, o duque, ordenou que as suas cabeças fossem exibidas como aviso.
Os papistas eram os católicos. Para eles, o chefe da igreja era o papa em Roma e não o nosso soberano. Dona Alice era católica; embora me tivesse educado na fé calvinista, como mandava a lei, todas as noites eu via-a rezar com o seu rosário. Foi nesse instante que me dei conta de quão longe estava do único lar que alguma vez conhecera. Lá, ninguém reparava nos costumes dos outros. Ninguém se teria lembrado de fazer queixa às autoridades; isso só trazia chatices. Em Londres, porém, parecia que um homem podia perder a cabeça pela sua fé. Um guarda de ar desmazelado aproximou-se de nós num andar arrastado, limpando as mãos engorduradas à túnica. Ninguém pode entrar!, vociferou. Por ordem de Sua Senhoria, o duque, a partir de agora as portas da cidade estão fechadas! Ao reparar no brasão no manto de mestre Shelton, deteve-se. Estais ao serviço de Northumberland? Sou o administrador-mor da esposa de Sua Senhoria. Mestre Shelton tirou do alforge um rolo de documentos. Trago aqui salvo-condutos para mim e para o rapaz. Somos esperados na corte. Ah sim?, O guarda lançou-lhe um olhar malicioso. Bom, todo o desgraçado que aqui chega diz sempre que o esperam nalgum lado». In CW Gortner, O Segredo dos Tudor, 2011, tradução de Miguel Romeira, 20/20 Editora, Topseller, 2014, ISBN 978-989-862-643-1.

Cortesia de Topseller/20/20Editora/JDACT

terça-feira, 22 de setembro de 2015

O Juramento da Rainha. Isabel, a Católica. CW Gortner. «Mas, depois de vestir as roupas de montar e de ir ter com Beatriz ao pátio, dei com Alfonso ali parado com Chacón e com dois garanhões de respeito à nossa espera presente do rei Henrique»

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A Infanta de Arévalo
«(…) Não duvidamos, intervim, antes que Beatriz lhe pudesse responder. Forcei um sorriso. Creio que estamos prontas, irmão. Mas, por favor, não vades demasiado depressa. Alfonso fez o seu ruão avançar, abrindo caminho para fora do pátio interior do castelo, passando sob o gradeado de ferro subido e saindo pelo portão. Lancei um olhar desaprovador a Beatriz. Tudo aquilo era culpa dela, claro. Farta do nosso regime diário de lições, orações e bordados, anunciara naquela manhã que devíamos fazer algum exercício físico, caso contrário ficaríamos velhas antes do tempo. Estávamos enfiadas no castelo há demasiado tempo, dissera, o que era verdade, visto o Inverno ter sido particularmente rigoroso naquele ano. E quando pediu permissão à nossa tutora, Doña Clara, a minha aia concordou porque, para nós, montar resumia-se invariavelmente a sairmos nas mulas mais velhas que ali havia para, durante uma hora antes do jantar, darmos um descontraído passeio ao longo da muralha e pelo povoado adjacente ao castelo.
Mas, depois de vestir as roupas de montar e de ir ter com Beatriz ao pátio, dei com Alfonso ali parado com Chacón e com dois garanhões de respeito à nossa espera presente do rei Henrique, o nosso meio-irmão. O cavalo preto era para mim, disse ele. Chamava-se Canela. Contive o medo ao subir para o garanhão com a ajuda de um degrau de madeira. Mas, então, fiquei ainda mais alarmada ao perceber que teria de montar com uma perna para cada lado, à la ginela, como os mouros faziam, sobre aquela estreita sela de couro com os estribos subidos, uma sensação desconhecida e inquietante. Que nome estranho para um cavalo, comentei, tentando esconder o receio. A canela tem uma cor clara e este animal é escuro como a noite. O Canela sacudiu a crina e voltou a sua bela cabeça, tentando morder-me a perna, o que não me pareceu um bom augúrio para a tarde que tínhamos pela frente.
Beatriz, sussurrei, enquanto seguíamos em direcção à planície, porque não me avisastes? Bem sabeis que não gosto de surpresas. Foi exactamente por isso que não vos disse nada, sussurrou-me ela de volta. Se o tivesse feito, não teríeis vindo. Teríeis dito que devíamos ler, fazer costura ou rezar novenas. O que quer que digais, temos de nos divertir um pouco de vez em quando. Não vejo como ser-se atirado de um cavalo poderá ser divertido. Ora! Apenas tendes de pensar nele como um cão que cresceu a mais da conta. Ele é grande, sim, mas é perfeitamente inofensivo. E como sabeis vós isso, podeis dizer-me? Porque, de outro modo, Alfonso jamais deixaria que montásseis o Canela , retorquiu Beatriz com um rebelde sacudir de cabeça, revelador da firme autoconfiança que fizera dela a minha companhia mais chegada e também a minha confidente, embora, como de costume, eu me visse dividida entre o entusiasmo e o desconforto ao ser confrontada com o seu feitio irreverente.
Tínhamos três anos de diferença e temperamentos opostos. Beatriz comportava-se como se o reino para lá dos portões do palácio fosse um lugar vasto e inexplorado, cheio de potenciais aventuras. Doña Clara dizia que a sua atitude imprudente se devia ao facto de a mãe de Beatriz ter morrido pouco depois de ela nascer; o seu pai criara-a sozinho em Arévalo, sem supervisão feminina. Tão morena quanto eu era loura, cheia de curvas enquanto eu era uma tábua, Beatriz era também rebelde, imprevisível e demasiado franca para seu bem. Chegava mesmo a contrariar as freiras do Convento de las Agustinas quando lá íamos para as nossas lições, deixando a pobre irmã María de cabeça perdida com as suas perguntas incessantes. Beatriz era uma amiga leal e também divertida, sempre pronta a ver o lado mais cómico daquilo a que os outros não achavam graça nenhuma; mas era também uma constante dor de cabeça para os mais velhos e para Doña Clara, que em vão tentara ensinar-lhe que as senhoras bem-educadas não cediam a qualquer impulso que lhes viesse à cabeça». In CW Gortner, O Juramento da Rainha, Isabel, a Católica, 2012, tradução de Miguel Romeira, Topseller, 20/20 Editores, 2013, ISBN 978-9879-862-627-1.

Cortesia de Topseller/JDACT

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O Juramento da Rainha. Isabel, a Católica. CW Gortner. «Não queremos que nada de calamitoso aconteça à vossa irmã. É claro que já foi domado. Eu mesmo e Chacón tratámos isso. Não vai acontecer nada a Isabel, pois não, hermana?»

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A Infanta de Arévalo
«Segurai as rédeas com firmeza, Isabel. Não o deixeis sentir o vosso medo, senão ele vai achar que é ele quem manda e, então, tentará fazer-vos cair. Sentada sobre um elegante garanhão negro, assenti, segurando as rédeas com força. Conseguia sentir a rijeza do couro sob os dedos coçados das minhas luvas. Já tarde demais, arrependi-me de não ter deixado o pai de Beatriz, Pedro Bobadilla, oferecer-me umas luvas novas pelo meu décimo terceiro aniversário. O orgulho, um pecado que me esforçava muito por vencer, geralmente sem sucesso, não me deixara aceitar tal presente, porque isso seria admitir a nossa penúria, muito embora ele vivesse connosco, pelo que saberia perfeitamente até que ponto éramos pobres. O mesmo orgulho não me permitira recusar o desafio do meu irmão, que dizia que era tempo de eu aprender a montar um cavalo digno desse nome.
Por isso, ali estava eu sentada, com as mãos protegidas por umas velhas luvas de couro que pareciam finas como seda, sentada no dorso de um magnífico animal. Embora não fosse um cavalo muito grande, ainda assim era assustador; ia-se sacudindo e dando com os cascos no chão como se estivesse prestes a arrancar a galope, quer eu conseguisse continuar montada quer não. Abanando a cabeça, Alfonso debruçou-se do seu ruão para me afastar um pouco os dedos, de maneira a que as rédeas ficassem folgadas entre os mesmos. Assim, explicou ele. Firme, mas não tão firme que lhe firais a boca. E lembrai-vos de ficar direita quando fordes a meio galope e de vos inclinardes para o galope. O Canela não é uma dessas mulas estúpidas que vós e Beatriz costumais montar. É um puro-sangue árabe, digno de um califa. Têm de sentir que quem o monta está sempre no comando da situação.
Endireitei as costas, assentando bem as nádegas na sela de couro trabalhado. Sentia-me leve como um cardo. Embora estivesse numa idade em que a maioria das raparigas começa a desenvolver-se, continuava tão magra e com o peito tão liso que a minha amiga e dama de companhia Beatriz, a filha de Bobadilla, estava sempre a tentar fazer-me comer mais. Naquele momento ela olhava-me com apreensão, mantendo a sua figura bem mais curvilínea do que a minha tão graciosamente direita sobre o seu capão malhado que era como se montasse a cavalo desde sempre; sobre as suas feições aquilinas, um véu com fita prendia-lhe os espessos cabelos pretos encaracolados. Suponho que Vossa Alteza se terá assegurado de que esse vosso principesco ginete já foi convenientemente domado, disse ela a Alfonso. Não queremos que nada de calamitoso aconteça à vossa irmã. É claro que já foi domado. Eu mesmo e Chacón tratámos isso. Não vai acontecer nada a Isabel, pois não, hermana?
Assenti, embora me visse dominada por uma incerteza quase paralisante. Como podia eu querer mostrar àquele enorme animal que era eu quem mandava? Como se me tivesse lido os pensamentos, o Canela empinou-se para um lado. Arquejante, puxei as rédeas. Ele parou com um resfolegar, baixando as orelhas para trás, claramente desagradado com o puxão que eu lhe dera no freio. O Alfonso piscou-me o olho. Vedes? Ela consegue dar conta dele. Olhou para Beatriz. E vós, minha senhora, precisais de ajuda?, perguntou num tom brincalhão que evocava anos de esgrima verbal com a obstinada filha única do administrador do nosso castelo. Eu dou conta do recado, obrigada, replicou Beatriz, com acidez. Na verdade, tanto Sua Alteza como eu ficaremos perfeitamente logo que nos acostumemos a estes vossos corcéis mouros. Não esqueçais que já montámos antes, ainda que, tal como dizeis, se tratasse apenas de esúpidas mulas. Rindo, Alfonso fez o seu ruão voltar-se com destreza, apesar de ainda só ter dez anos. Os seus brilhantes olhos azuis cintilaram; os seus espessos cabelos louros, cortados a direito pelos ombros, realçavam-lhe o rosto redondo e bonito. E vós não deveis esquecer, replicou então, que eu monto diariamente desde os cinco anos. Os bons cavaleiros fazem-se com a experiência. É verdade, disse na sua voz cavernosa Chacón, o tutor de Alfonso, do alto do seu enorme cavalo. O Infante Alfonso é já um hábil cavaleiro. Para ele, montar é como respirar». In CW Gortner, O Juramento da Rainha, Isabel, a Católica, 2012, tradução de Miguel Romeira, Topseller, 20/20 Editores, 2013, ISBN 978-9879-862-627-1.

Cortesia de Topseller/JDACT