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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Rainha. Mafalda de Mouriana. 1133?-1158. Maria Alegria Marques. «Já no século XII, o seu lustre alcançava uma outra razão para mais brilhar. Adelaide, irmã de Amadeu III de Mouriana (o que viria a ser pai de Mafalda, rainha de Portugal), casava com Luís VI…»

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O casamento do primeiro rei de Portugal. A escolhida: Mafalda de Mouriana
«(…) Contudo, a impedir a tentação, na casa real de Leão e Castela não havia, disponível, mulher que conviesse ao rei de Portugal. As filhas do imperador eram ainda crianças, tanto que só mais tarde haviam de contrair matrimónio, Sancha com Sancho de Navarra (1153), herdeiro de Garcia Ramires IV e Constança com Luís VII de França (1154). E mesmo que se considerasse uma bastarda, que bem serviria à estratégia política de seus pais e irmãos, ainda assim não se achava candidata em idade conveniente ao rei de Portugal. A filha de Afonso VII e da condessa Urraca Fernandes, viúva do conde Rodrigo Martins (1138), era ainda e apenas mais uma criança, que não servia aos objectivos mais profundos do rei de Portugal. Então, a este só restava a busca de uma noiva na Europa de além-Pirenéus. A escolha recaiu sobre uma filha de Amadeu III, conde de Mouriana (1103-1148), como bem recordam os documentos do rei de Portugal, seu genro, marquês na Itália e (1.º) conde de Saboia por concessão imperial, e de dona Matilde de Albon. Pelo lado paterno, a esposa de Afonso Henriques era neta de Humberto II de Mouriana e de Gisela de Borgonha (condal). Era, por isso, simultaneamente prima de Luís VII, rei de França, através de sua tia Adelaide, mulher de Luís VI, e ainda prima do imperador de Leão, embora em grau mais afastado, pois o pai de Afonso VII, Raimundo de Borgonha (condal), era irmão da citada Gisela de Borgonha, sua avó. Era ainda sobrinha-neta da imperatriz Berta, esposa de Henrique IV, o da jornada de Canossa, episódio de reconciliação entre aquele imperador e o papa Gregório VII. Segundo o cronista da Casa de Saboia, Jean d’Orville (que escreveu no início do século XV), esta efectiva aproximação da família ao Império ficou ainda patenteada num outro momento, significativo também, e que foi a coroação imperial de Henrique V pelo papa Pascoal II, em Roma, em 1111. Na comitiva terá participado também o jovem Amadeu, futuro Amadeu III de Mouriana.
No entanto, a ilustração da família, bem como a sua paulatina ascensão, pode marcar-se de bem longe, tendo ocorrido, a última, à sombra protectora do Império. Foi nas peripécias sobrevindas à desanexação dos estados de Carlos Magno e emergência do reino da Borgonha e sua passagem à esfera de influência do Sacro Império Romano-Germânico que a família se começou a evidenciar, no início do século X. Próxima do último rei de Borgonha e de sua viúva, foi em virtude dessa aproximação ao Império que um antepassado de dona Mafalda (seu tetravô, Humberto I, o das Mãos Brancas) se tornou (o 1.º) conde de Mouriana, por mercê do imperador Conrado II. Seguiu-se uma boa gestão dos interesses da família, quer na busca de significativas relações matrimoniais, quer num sábio posicionamento em relação aos problemas que dominaram o Império, mormente as relações com o papado. Pelas primeiras, e ainda nesse século XI, a família de Mouriana alcançou o vale de Susa e o Piemonte, possessões acompanhadas de um engrandecimento da prosápia da família com o título de marquês de Susa ou marquês na Itália. O mesmo século veria uma filha da família, Berta, ocupar o trono imperial, pelo seu casamento com Henrique IV. A fidelidade da família no processo de Canossa valeu-lhe mais territórios, agora na região de Vevey, rica pela sua posição estratégica entre a França, a Alemanha e a Itália. Pela sua implantação, a esta família estava atribuída a responsabilidade da guarda das gargantas do Mont-Cenis e do Mont-Joux (Grande São Bernardo). Pela via do matrimónio do herdeiro da casa, Amadeu II, a família veria chegar-lhe as regiões de Seyssel e Valromey, advindas do dote de Joana de Genebra, sua esposa.
Na geração seguinte, a política matrimonial da família levaria ainda ao consórcio de Humberto II com Gisela da Borgonha, que havia de fazer dele cunhado de Guigo de Borgonha, arcebispo de Vienne, o futuro papa Calisto II e o grande vencedor da questão das investiduras, com a assinatura da concordata de Worms, em 23 de Setembro de 1122. No século XI ficava assim definido o âmbito territorial dos de Mouriana. O último detentor do título nesse século (Humberto II) logrou sabiamente organizar os seus domínios, chamando à fidelização à família condal os vários potentados locais, laicos e eclesiásticos. Já no século XII, o seu lustre alcançava uma outra razão para mais brilhar. Adelaide, irmã de Amadeu III de Mouriana (o que viria a ser pai de Mafalda, rainha de Portugal), casava com Luís VI, rei de França; a sua influência alargava-se e os laços de família abriam-lhe outras portas, a juntar às do Império. Seu filho e sucessor, Humberto III, havia de prosseguir esta política, tendo concertado o casamento da outra irmã sua, Alice, com o futuro João Sem-Terra, enlace que, todavia, não se chegaria a consumar pelo falecimento prematuro da jovem de Mouriana». In As Primeiras Rainhas, Maria Alegria Fernandes Marques, Mafalda de Mouriana, 1133?-1158, Círculo de Leitores, 2012, ISBN 978-972-42-4703-8.

Cortesia de CLeitores/JDACT

domingo, 4 de agosto de 2013

Rainha. Mafalda de Mouriana. 1133?-1158. Maria Alegria Marques. «Se nos activermos apenas às formas transmitidas pelos documentos originais, então reduzimos o horizonte a Mahalth, Matille e Mafalda. (…) documentos de Afonso Henriques a classificação de possíveis originais, então teremos de juntar a forma Mahalda»

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O casamento do primeiro rei de Portugal. A escolhida: Mafalda de Mouriana
«(…) Se não temos forma de saber as razões de tal demora, também não temos testemunho inequívoco acerca da justificação da escolhida para primeira rainha de Portugal. Por isso é lícito que se nos coloque a questão de sabermos quem era, afinal, a filha do conde Amadeu de Mouriana que, vinda da Saboia distante, chegou a Portugal em 1146 para desposar o primeiro rei deste jovem reino.
Chegada a Portugal, um outro problema se nos depara acerca da sua pessoa, o seu nome. Afinal, como se chamava a mulher do primeiro rei de Portugal, por outras palavras, a sua primeira rainha?
Se é certo que a historiografia portuguesa sempre se lhe refere como Mafalda, o mínimo que se pode dizer é que nem todas as formas que o registo do seu nome conheceu a autorizam. Isto é, estamos perante alguém cujo nome nos chegou escrito de formas diversas, nem todas a evoluírem, foneticamente, para a que ficou consagrada na tradição portuguesa, escrita e oral. A chancelaria de seu marido regista nada mais nada menos que as formas Maahlt, Maalht, Mahalth, Mahauta, Mahalda, Mafalda, Maphalda, Maphalta, Maalta, Maalda, Mifalda, Matille e Mathilda, numa profusão e variedade que parecem denunciar, elas próprias, alguma dificuldade perante o nome da senhora. No meio de tal variedade, colhe-se a conclusão de que a forma que ocorre mais vezes é Mafalda. Porém, o caso parece-nos muito pouco significativo, pois a maioria dos documentos de que hoje dispomos são cópias mais ou menos tardias, podendo por isso conter algum estropiamento relativamente ao nome original. Se nos activermos apenas às formas transmitidas pelos documentos originais, então reduzimos o horizonte a Mahalth, Matille e Mafalda. E se lhes acrescermos aqueles que mereceram da parte do editor dos documentos de Afonso Henriques a classificação de possíveis originais, então teremos de juntar a forma Mahalda.
Mas não são apenas os documentos do seu régio esposo a transmitir-nos o nome da primeira rainha de Portugal. Além deles, e em fonte coeva, do final de sua vida, os Annales domni Alfonsi portucalensis regis usam sempre a forma Mathilda, seja na ementa dedicada ao casamento do rei, na que regista o nascimento do infante Martinho, futuro Sancho I, e na que memoria o falecimento da rainha. E se valer de alguma coisa, diga-se ainda que a tradição onomástica de que o seu nome é devedor, a da Casa de Albon, no Viennois, obriga a considerar a forma Mathilda. Como veremos em lugar próprio, esta é a forma do nome de uma filha sua, ao casar na Flandres, quase no final do século XII.
É na versão breve da Chronica Gothorum, mais tardia que os Annales, que se produz a equivalência entre Matilde e Mafalda (Matildam, vel Mafaldam). Como noutro lugar afirmámos, apenas por respeito à tradição aceitamos a forma Mafalda, não sem acentuarmos algumas formas estranhas a este nome no latim da época, bem como a dificuldade da sua pronúncia, vistas algumas das suas formas. Além de que nos merece reparo o facto de todos os documentos em que surgem as formas mais ou menos ligadas ao nome Mafalda serem da responsabilidade do chanceler Alberto, cujo nome é, ele também, alvo das mais surpreendentes grafias. Na envolvência dos problemas em torno da primeira rainha de Portugal, outro se nos depara, de não menos relevância, até por ultrapassar os meros contornos dos laços em que o casamento envolve quem o protagoniza. Referimo-nos às razões da escolha de uma mulher na Casa de Mouriana-Saboia, ou apenas de Mouriana, pois que é este o único título que a chancelaria portuguesa retém dos detidos por Amadeu III, pai de Mafalda, embora ele possuísse outros.
O enlace matrimonial de Afonso Henriques nessa distante casa da cristandade europeia foi praticamente sempre entendido, quase em exclusivo, como fruto da necessidade de o rei de Portugal também por esta via se afastar da tutela do imperador Afonso VII, seu primo. Mas, ainda assim, a Hispânia oferecia outras casas reinantes, fora da alçada do imperador onde uma proposta de casamento com um rei, ainda que de um reino recente, seria sempre bem vista. Além de que esse rei nem era um desconhecido ou um aventureiro; ao contrário, ele era neto do nobilíssimo Afonso, o gloriosíssimo imperador das Espanhas. Tinha, portanto, nobilitas suficiente para verem-se-lhe abrir as portas de muitas e nobres casas.
Surge-nos, porém, bem diferente o quadro, se olharmos as disponibilidades da Hispânia contemporânea, em matéria de mulheres e de mulheres em idade fértil, capazes de, a breve trecho, oferecerem um herdeiro ao rei de Portugal. Ultrapassem-se os estados do imperador e chegaremos a Aragão e a Navarra. No primeiro, Petronila, a filha única de Ramiro II, nascida em 1136, estava já prometida ao conde Raimundo Berenguer IV com o qual casaria em 1150. Em Navarra, Garcia Ramires IV tinha uma única filha do primeiro casamento, Branca, criança ainda, mas já com casamento concertado com Sancho (III) de Castela, filho do imperador, com quem viria a casar alguns anos mais tarde.
Deste modo, na Península apenas restava a família do próprio Afonso VII, seu primo. Se, por estratégia política, um enlace até poderia ser visto como meio de sanar divergências e fomentar a aproximação, ainda assim lá estavam os laços de parentesco que, por tão estreitos, eram mais factor de afastamento que de união. Por então, era na Santa Sé que Afonso Henriques pretendia fazer valer todos os seus interesses e nunca, em tal instância, essa situação matrimonial passaria ignorada e sem sanção, tal o denodo com que a Sé Apostólica controlava a matéria das ligações matrimoniais».

In As Primeiras Rainhas, Maria Alegria Fernandes Marques, Mafalda de Mouriana, 1133?-1158, Círculo de Leitores, 2012, ISBN 978-972-42-4703-8.

Cortesia de C. de Leitores/JDACT

sábado, 6 de julho de 2013

Rainha. D. Mafalda de Mouriana. 1133?-1158. Maria Alegria Marques. «… o rei Afonso [Henriques] de Portugal teve um filho, Fernando Afonso, com ‘D. Châmoa Gomes’, de Pombeiro, viúva e, ao que é dito, sendo monja do mosteiro de Vairão. ‘Châmoa Gomes’ era membro da mais relevante nobreza galaico-portucalense…»

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O rei e o reino
«(…) Por certo que ao chegar a Portugal Mafalda de Sabóia haveria de ouvir falar da recente razia de Soure (1144), ali bem perto da Coimbra que seu marido tinha escolhido para local de seu paço e onde decorriam obras em que punha tantas esperanças e cabedais, como o Mosteiro de Santa Cruz e a catedral. Do mesmo modo, não lhe ficaria desconhecida a sorte de Martinho, presbítero de Soure, levado em cativeiro para Córdova, onde acabaria por falecer. Nos comentários e reflexões que ouviria acerca da sorte das terras e das armas cristãs e das estratégias a adoptar, tomaria consciência de que o destino de Soure não era caso único. Um outro, o de Leiria, também por essas paragens a sul de Coimbra, seria, temo-lo por certo, alvo das preocupações dos fiéis da corte, fossem guerreiros ou não. Afinal, sempre estava em causa a vida e a obra de gentes cristãs e, o que talvez não fosse de somenos, a segurança de um território, na rectaguarda, que havia que defender a todo o custo. Mafalda tomaria conhecimento da estratégia que representava a concessão de cartas de foral, tão recente ela era ainda no caso de Leiria (1142).
Não lhe passaria despercebida a atenção de seu marido relativamente aos Templários e ao papel que eles representavam para essa mesma estratégia relativamente à segurança do território. E, por último, estamos em crer que nem os problemas que Santarém e Lisboa, ainda em poder muçulmano, representavam para o jovem reino de Portugal lhe seriam estranhos. Não tinha sido, afinal, o seu casamento fruto também de amplas conversações onde, por certo, esses problemas teriam estado também presentes?

O casamento do primeiro rei de Portugal
Afonso Henriques era um homem bem maduro quando, a seu lado, nos seus documentos, nos surge a referência a sua mulher, D. Mafalda. E ia já, longo o seu governo à frente dos destinos da terra de Portugal. De 24 de Junho de 1128, data da Batalha de São Mamede, a 23 de Maio de 1146, data do primeiro documento que nos testemunha o novo estado civil do rei de Portugal, passavam dezoito longos anos, repletos de acontecimentos significativos para a afirmação do rei dos Portugueses e da terra de Portugal. Não temos forma de saber a razão do adiamento do casamento do primeiro rei de Portugal. Mas não resta dúvida de que, para a época e os seus costumes, a sua idade era já avançada para tal acontecimento. No entanto, sempre poderemos questionar o alcance da notícia que nos chegou transmitida pelo Livro velho de linhagens, de finais do século XIII, segundo a qual o rei Afonso [Henriques] de Portugal teve um filho, Fernando Afonso, com D. Châmoa Gomes, de Pombeiro, viúva e, ao que é dito, sendo monja do mosteiro de Vairão. Châmoa Gomes era membro da mais relevante nobreza galaico-portucalense, pois sua mãe era filha do conde Gomes Nunes, dito de Pombeiro, nos livros de linhagens, e da condessa Elvira Peres, filha do conde Pedro Froilaz, aio do imperador Afonso VII. Não foi o único filho de tal senhora, pois que os teve de seu marido, Paio Soares, da Maia, nem, muito menos, o único em drudaria, isto é, em situação irregular. O nascimento de Fernando Afonso, o fruto desta ligação do rei de Portugal, deve poder situar-se pela década de 1130, pois que ele subscreve documentação de seu pai desde 1159 e viria a ser seu alferes entre 1169 e 1172. Mas não se vislumbra o tipo de relação que o rei manteve com Châmoa Gomes: acidental? Efémera?
Ou, bem pelo contrário, seria coisa firme, significativa? Nesta última hipótese, por que razão terminou (se terminou...) ou, pelo menos, não se tornou oficial? Alguém teria desviado Afonso Henriques desses amores? Significará porventura tal afastamento um sinal de forças nobiliárquicas diferentes (senão antagónicas) ao lado do rei de Portugal? Neste cenário, não pode deixar de se ter presente todo o percurso de vida do pai de Châmoa Gomes, ora ao lado de forças da Galiza ou de Castela, ora de Portugal; talvez, esta instabilidade (no mínimo...) não fosse bem vista por aqueles que mais permanentemente se mantiveram fiéis a Afonso Henriques. Ou, muito simplesmente, tudo terminou porque Châmoa Gomes faleceu? Por uma outra via, analisando o círculo próximo de Afonso Henriques, deve assinalar-se que Pedro Pais, da Maia, conhecido por o alferes, precisamente por o ter sido ao serviço do primeiro rei de Portugal, desde o final do ano de 1147, e até ao recontro de Badajoz, em 1169, era um dos dois filhos legítimos conhecidos de Châmoa Gomes. Se é certo que a prosápia do pai, da família da Maia, era bastante para justificar este cargo, não deixa de ser interessante notar a filiação materna deste oficial de Afonso Henriques, bem como o tempo em que entrou ao seu serviço. Contudo, mais que elementos comuns, sublinhe-se, em conclusão, que, na matéria desta ligação do rei de Portugal, se avolumam muito mais as questões a que não sabemos responder pese embora o interesse de algumas delas.

Regressados ao tema do casamento tardio do rei de Portugal, não se questiona também a necessidade de um herdeiro para o rei de Portugal; todas as monarquias o exigiam e a portuguesa, então nascente, não era excepção. É certo que essa autonomia era uma incógnita em si mesma; nascida de um acto de rebeldia, interna e externa, exigia-se-lhe em primeiro lugar que se afirmasse, para assim se viabilizar; só depois haveria mister de se prolongar no tempo, através de um herdeiro».

In As Primeiras Rainhas, Maria Alegria Fernandes Marques, Mafalda de Mouriana, 1133?-1158, Círculo de Leitores, 2012, ISBN 978-972-42-4703-8.

Cortesia de C. de Leitores/JDACT

domingo, 9 de junho de 2013

Rainha. Mafalda de Mouriana. 1133?-1158. Maria Alegria Marques. «Significa tudo isto que, à chegada de D. Mafalda a Portugal, o reino se procurava afirmar na Europa do seu tempo, mesmo junto da instância mais poderosa e universal que ela conhecia. Que assim era, também Mafalda o saberia»

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O rei e o reino
«(…) Como se conclui, foi um período fértil em mudanças, aquele que sucedeu à batalha de Ourique, ou, de outro modo, o que antecedeu proximamente a chegada da primeira rainha de Portugal. Uma das mais significativas consequências, de há décadas comummente aceite pela historiografia portuguesa, foi a assunpção do título de rei pelo chefe dos Portugueses. Não havia muito tempo, uns escassos cinco anos, que isso acontecera. Depois de alguns meses de ausência, isto é, sem produção documental que nos seja hoje conhecida, de 7 de Julho de 1139 até 10 de Abril de 1141, pelo meio, apenas um documento que valeu a data crítica dos anos 1140 ou 1141, a chancelaria de Afonso Henriques oferece-nos, nesse segundo momento, uma doação de carta de couto ao mosteiro de Vilarinho, perto de Sabrosa, o que é hoje o primeiro documento a atestar uma nova intitulação, a de rei, na chancelaria régia, por parte do chefe dos Portugueses. É, tudo o indica, a prova de uma nova e diferente dignidade assumida pelo neto do imperador das Espanhas, como esse órgão houve gosto também em chamar-lhe. Porém, os contemporâneos não confundiam esta nova fase do governo de Afonso Henriques com o seu próprio governo. Isto é, há muito, desde 1128, que estava aceite o mando de Afonso Henriques. Isso mesmo se conclui dos testemunhos que se reportam ao cômputo do seu reinado, ou governo, sejam os Annales Domni Alfonsi Portugallensium regis, documentos epigráficos, em igrejas junto ao castelo de Soure ou no Minho (Capela de Santa Luzia de Campos, perto de Vila Nova de Cerveira), ou até fontes narrativas.
Os contemporâneos do primeiro rei contaram-lhe os anos do reinado desde que iniciou funções de governo, ao desalojar do poder sua mãe, a rainha Teresa, em 1128. Teremos ocasião de o verificar até a propósito do epitáfio da rainha D. Mafalda de Mouriana.
Mafalda de Mouriana conheceria também, com mais delongas, as relações familiares e as preocupações políticas do reino onde viera para reinar. Das primeiras haveria de compreender como a elas se sobrepunham outros interesses que as esqueciam ou relegavam, impondo-lhes soluções de carácter militar que a afirmação do rei e do reino exigia, de quando em vez, nas falhas da diplomacia. Na sua mescla, em breve terá percebido como o título de rei usado por seu marido não era afinal de um consenso absoluto em todas as paragens. Facilmente terá entendido como as posições de Afonso VII de Leão, e mesmo as do seu próprio marido, eram facilmente mutáveis, consoante as circunstâncias se alteravam. É muito provável que tenha tido notícias do recontro de Valdevez, em 1141 e, melhor do que nós, porque mais perto dos acontecimentos e no meio que os protagonizou, tenha podido aferir da iniciativa do feito e dos receios que mutuamente provocou, e ponto de se saldar por um confronto cavaleiresco, que os Anais classificariam mesmo como torneio, chamando-lhe bafordo.
Por outro lado, D. Mafalda facilmente se terá apercebido de uma outra importante frente de acção do rei e das dificuldades que ele aí encontrava. Referimo-nos a todo o conjunto de actos do rei de Portugal relativamente à Santa Sé. Consciente, e bem informado, de que, na organização dos poderes do tempo, à sobrevivência do reino de Portugal, ao seu reino, era fundamental o reconhecimento pela Santa Sé, foi também depois de Ourique que Afonso Henriques encetou o processo de aproximação à Santa Sé, com vista a esse fim. O passo decisivo foi dado através da vassalagem que prestou à Santa Sé, em 1143, nas mãos do legado papal, cardeal Guido de Vico, em Zamora. Foi complementado pela carta datada de 13 de Dezembro de 1143, conhecida por Claves regni celorum, expressão retirada do seu incipit, as suas primeiras palavras. Por ela, o rei de Portugal colocava-se a si, aos seus descendentes e à sua terra sob a protecção da Santa Sé, em determinadas condições, de que sobressai a sua constituição voluntária de censitário de São Pedro.
O acto teve eco no pontífice, o papa Lúcio II, que respondeu ao governante português, em bula datada de I de Maio de 1144. O pontífice aceitava o que era oferecido à Santa Sé, louvava Afonso Henriques pelas disposições tomadas, garantia-lhe tudo aquilo que ele havia pedido e solicitava persistência no seu amor à Igreja. Mas não lhe confirmava o título régio. Todavia, o futuro, diremos mesmo os tempos mais próximos, não desmerecem uma análise, tendo este ponto por pano de fundo. Se é certo que não houve a formal aprovação do uso de título de rei a Afonso Henriques, nem por isso houve recuo na prática do rei de Portugal ou sintoma, mínimo que fosse, de qualquer embaraço de qualquer das partes.
Se é certo que ignoramos por completo as conversações havidas entre Afonso Henriques e o cardeal Guido de Vico, bem como eventuais garantias que este lhe tivesse oferecido em nome do papado, também é certo que o uso continuado da dignidade régia por parte de Afonso Henriques não perturbou o seu intenso relacionamento com a Santa Sé em anos sucessivos. Significa tudo isto que, à chegada de D. Mafalda a Portugal, o reino se procurava afirmar na Europa do seu tempo, mesmo junto da instância mais poderosa e universal que ela conhecia. Que assim era, também Mafalda o saberia. Pelo menos naquilo que dizia respeito aos territórios do centro da Europa, de que as relações com São Bernardo são um exemplo e que ela bem conheceria.

O reino
Aspecto não menos importante a considerar, à chegada de D. Mafalda de Mouriana a Portugal, era o território do reino. Afinal, que reino lhe oferecia Afonso Henriques? De há muito que o centro das terras de Portugal se havia localizado em Coimbra. Para aqui descera ele, após São Mamede, em busca de um território mais livre de poderes senhoriais, de um espaço mais próximo dos muçulmanos que lhe permitisse uma mais fácil defesa da sua terra e uma maior possibilidade de organização de campanhas guerreiras, com vista ao alargamento do território, e, porque não, ao desejo de façanhas heróicas, que lhe dessem a legitimação maior de um chefe, segundo as concepções do tempo. Mas Coimbra era uma cidade com largos anos já, de domínio cristão e uma terra de fortes lembranças de seus pais. Guardava, entre elas, a conquista do seu foral, em processo que enaltecia as caraterísticas das gentes coimbrãs, isto é, o apego à liberdade e à tradição.
Afonso Henriques não iria desmerecer o que de melhor lhe trazia essa herança. É vê-lo, então, a doar os seus banhos ao arcediago da cidade, Telo, para aí fundar uma canónica, que havia de se afirmar como o grande Mosteiro de Santa Cruz. O próprio rei se haveria de afeiçoar a essa fundação, a ponto de fazer dela morada de seus entes queridos quando a morte, inexorável, lhos começasse a levar em tributo e, mais tarde, a sua própria. No ambiente geral da Europa da época, D. Mafalda não desconheceria os problemas com os muçulmanos, tanto mais quanto alguns homens da sua própria família, desde logo seu pai, se incorporavam também no movimento das cruzadas. Bem diferente haveria de ser, contudo, quando habitasse uma terra de que eles eram vizinhos bem próximos». In As Primeiras Rainhas, Maria Alegria Fernandes Marques, Mafalda de Mouriana, 1133?-1158, Círculo de Leitores, 2012, ISBN 978-972-42-4703-8.

Cortesia de C. de Leitores/JDACT

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Mafalda de Mouriana. 1133?-1158. Rainha. Maria Alegria Marques. «A década em que D. Mafalda de Sabóia chegava a Portugal iniciava-se sob os auspícios daquele que seria um dos momentos mais marcantes da vida de Afonso Henriques. Igualmente, quando D. Mafalda chegou, estariam já fixadas as bases daquilo que haviam de ser as armas de Portugal»


Desenho rodado com efígies de Afonso e D. Mafalda. O mais antigo original da chancelaria régia com referência a D. Mafalda
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O reino de Portugal à chegada de Mafalda de Sabóia
Chegado ao poder em 1128, com cerca de 20 anos, passaram-se anos até que Afonso Henriques tomasse esposa. Foram longos dias de uma necessária afirmação interna, perante uma nobreza que se questionaria sobre a sua ambição e as suas capacidades. Por isso, foram tempos de captar indecisos, convencer incrédulos e agraciar partidários. Como foram momentos de muita preocupação e de muito labor em prol da estabilidade de uma fronteira com os Leoneses e com os muçulmanos.

O rei e o reino
Quando D. Mafalda de Sabóia, mulher de Afonso Henriques, chegou a Portugal, nos primeiros meses de 1146, aquele que ela vinha receber por marido tinha percorrido já um longo caminho que o guindara a rei dos Portugueses e de Portugal e a governante aceite entre os poderes da cristandade. Ia já longe o tempo da Batalha de São Mamede e tinham entretanto ocorrido em Portugal outros acontecimentos que confluíam afinal na afirmação da vitória daquele dia24 de Junho de 1128. A década em que D. Mafalda de Sabóia chegava a Portugal iniciava-se sob os auspícios daquele que seria um dos momentos mais marcantes da vida de Afonso Henriques:
  • A sua aclamação como rei, no campo de batalha. Foi em Ourique, em 1139.
Na aproximação da batalha, naquele momento em que os homens, uns velhos guerreiros experimentados nas lides com os muçulmanos, outros jovens inexperientes, ansiosos pelos louros de uma vitória, todos sentiram o peso do desafio, no dizer das crónicas. Afonso Henriques era alçado a rei de Portugal. Pelo enaltecimento das virtudes guerreiras e da valentia do seu chefe, os seus companheiros legitimavam assim, no campo de batalha, um poder que ele já exercia.
Se sabemos hoje que a batalha de Ourique viria a marcar em definitivo o curso da governação do seu governo e o futuro das terras em que ele se exercia e veio a exercer-se nos anos seguintes, não é menos certo que os homens da época se aperceberam que viviam um momento decisivo e lhe deram um significado para além da circunstância. Que assim foi prova-o, em primeiro lugar, todo o conjunto de referências, nem sempre directas ou diretamente reportadas ao facto, e toda a construção histórico-simbólica que se foi erguendo em volta de tal acontecimento, como é conhecido. Ao tempo em que D. Mafalda chegou a Portugal, correriam ainda as lembranças dos que haviam estado em Ourique. Com orgulho e talvez com alguma saudade dos companheiros que haviam ficado no campo de batalha, das horas de vitória ou dias da juventude, eles relembrariam os momentos em que, antecedendo o recontro, os homens de Afonso Henriques o aclamaram por seu rei, elevando-o, tudo o indica, no seu pavês.
A lembrança da sua aclamação e da batalha seria uma daquelas histórias que a rainha Mafalda ouviria, talvez até com alguma frequência, na corte onde veio reinar. Serviria, sem dúvida, à exaltação dos méritos de seu marido, na dupla vertente de guerreiro valoroso e chefe querido dos seus companheiros de armas. Mas outras histórias ela ouviria, algumas ligadas, tudo o indica, ao sucesso dessa batalha. Até porque em Coimbra pairariam ainda os ecos de uma entrada muito especial, triunfal quase, de Afonso Henriques, pelo ano de 1139, que deixou memória entre os homens do seu tempo. Lembravam a recepção que o bispo de Coimbra, Bernardo, e o arcebispo de Braga, João Peculiar, que estava em Coimbra, regressado de Roma, onde fora para receber a insígnia metropolítica, o pálio, acontecimento ocorrido sem dúvida em 1139, tinham promovido ao seu rei que tinha entrado na terra dos sarracenos, oferecendo uma solene celebração litúrgica, presidida pelo bispo Bernardo e com sermão pregado pelo arcebispo de Braga, nessa cidade, em dia da Assunpção de Nossa Senhora, 15 de Agosto de 1139.
Igualmente, quando D. Mafalda chegou, estariam já fixadas as bases daquilo que haviam de ser as armas de Portugal, de que, aliás, uma das mais antigas representações se irá encontrar no selo de uma sua filha, Teresa, a que foi condessa da Flandres. Elas ainda se ligarão ao acto de Ourique, não ao que a história/tradição quer que tenha sido, mas ao que efetivamente terá sido. Na linha de Luciano Cordeiro e, na sua senda, embora por outra via e muito mais tarde, o marquês de Abrantes, com base na representação do reverso do selo usado por aquela filha do primeiro rei de Portugal, as armas nacionais seriam apenas e tão-só a representação do escudo do primeiro rei português, com os seus pregos na disposição comum e necessária à cravação de uma forte pele a uma armação de madeira sobre uma carcaça metálica, suporte do bellico e tradicional, escudo em que, muito provavelmente, foi alçado por rei em Ourique. A ser assim, a rainha Mafalda seria, ela própria, contemporânea da adopção desses sinais por seu marido, num tempo quase contemporâneo à sua chegada ao reino de Portugal». In As Primeiras Rainhas, Maria Alegria Fernandes Marques, Mafalda de Mouriana, 1133?-1158, Círculo de Leitores, 2012, ISBN 978-972-42-4703-8.

Cortesia de C. de Leitores/JDACT