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domingo, 16 de fevereiro de 2014

A Sociedade Medieval Portuguesa. H. Oliveira Marques. «Cada cidade possuía, praticamente, o seu tipo de pano especial, de cujo fabrico só ela conhecia o segredo que ciosamente guardava. Lãs mais ou menos espessas, mais ou menos finas, riscadas ou lisas…»

Cortesia de wikipedia 

A Mesa
«(…) E era cousa formosa para ver as mesas como estavam ordenadas, que em cada uma havia três grandes bacios de iguarias cobertos , e em cima dos dois dos cabos estavam tendas de damasco branco e roxo, que eram as cores da Princesa; as tendas eram borladas e muito galantes, com muitas bandeirinhas douradas, e eram grandes de dez côvados cada uma. E na iguaria do meio estava um castelo de feição de tríbulo, feito de madeira subtil, e pano de tafetá dourado, que era muito formosa cousa, e de muito custo. Começaram a comer, e por a infinidade das iguarias, manjares, conservas, fruitas, que foi como consoada, durou muito grande espaço. E acabado houver muitos e muitos momos e mui singulares entremeses, cada vez com mais riquezas, gentileza, e melhores invenções, que duraram até acerca da manhã.
[…]
 
O Traje
O conceito de moda é antiquíssimo. Remonta porventura à Pré-História. Mas eram modas simples e duradouras, essas dos tempos antigos. Só a partir do século XIII a moda se acelerou, em relação directa com as transformações económicas que o mundo ocidental conheceu a partir do undécimo século. Essas transformações caracterizavam-se por um aumento das transacções comerciais, em especial à distância. No plano social assistiu-se ao nascimento de uma nova classe, a burguesia. A população concentrou-se nas cidades, que passaram a constituir os núcleos principais da actividade económica e cultural. Ora, vivendo na cidade, nobres e burgueses contactaram, directa e quotidianamente, com os outros nobres e os outros burgueses. A emulação, característica também das actividades profissionais, foi reflectir-se no vestuário. Ao sair da igreja, ao tomar assento na assembleia camarária, ao participar nas festividades da sua cidade, o burguês sentia sempre o desejo de superar o seu concidadão. Pretendia chamar a atenção sobre si através da qualidade de tecido que envergava e da forma como o talhava. Queria, em suma mostrar-se diferente, mais rico, e mais belo. Foi aformosear-se, e à família, como aformoseou a casa pelos móveis que adquiriu e as tapeçarias que a revestiram. Por outro lado, o nascimento da vida de corte pôs os nobres em presença uns dos outros e suscitou também neles competição na aparência.
Mas a moda, no sentido de variedade, surgiu igualmente das novas condições da produção. Antes do século XI, os tecidos fabricados no ocidente da Europa obedeciam a uma relativa uniformidade. As diferenças de qualidade existiam, é certo, mas em grau muito menor. A tradição romana nem mesmo tingia as peças de lã ou de linho fiadas, que se talhavam e vestiam em sua cor natural. Ora, o desenvolvimento da indústria têxtil, cujos centros principais foram a Flandres, o norte de Itália e, um pouco mais tarde, a Inglaterra, trouxe consigo a fabricação de numerosíssimas qualidades de panos. São dezenas e dezenas de tecidos diversos que os documentos dos séculos XIII, XIV e XV nos revelam. Cada cidade possuía, praticamente, o seu tipo de pano especial, de cujo fabrico só ela conhecia o segredo que ciosamente guardava. Lãs mais ou menos espessas, mais ou menos finas, riscadas ou lisas, com adornos e bordados, se produziam, exportavam e utilizavam para a confecção dos variados trajes». In A. H. Oliveira Marques, A Sociedade Medieval Portuguesa, Aspectos da Vida Quotidiana, a Esfera dos Livros, 2010, ISBN 978-989-626-241-9. 
 
Cortesia de E. dos Livros/JDACT

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

H. Oliveira Marques. A Sociedade Medieval Portuguesa: A Mesa. «O rei e seus conselheiros consideraram que eram feitas maiores despesas que as que deviam fazer em comer... Daí saiu uma pragmática que estabelecia um certo número de regras, moderadas»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Mesa
«(…) Embora escasseiem os dados, sabemos que grande número de regras de boa conduta à mesa vigoravam no Portugal medievo. Já atrás tomámos contacto com algumas delas. Também no serviço havia normas. O cozinheiro levante as colheres, dizia a regra cisterciense, primeiramente à parte direita, começando no prior; despois à parte sestra, começando junto com o prior. Estamos em crer que a disciplina conventual, estendida até aos pormenores mais ínfimos das regras de boa conduta à mesa, influiu muito na fixação de um código social de comportamento. Mas só nos fins do século XIV ou princípios do XV se começaram a estabelecer regras de colocação de lugares. Ainda por 1386, ao encontrarem-se o rei João I e o duque de Lancaster, ali se desarmaram e assentaram-se a comer ambos de uma parte, sem curarem de parte direita nem esquerda, cá inda então não era em uso, e assim os que vinham com o duque. Os monarcas preocupavam-se, às vezes, em refrear o excesso de luxo que os nobres e os ricos ostentavam. Essa preocupação surgia, quase sempre, em períodos de crise, ou que a imediatamente precediam, quando a sumptuária mais se fazia notar. Em certos casos, o desejo de refrear excessos alargava-se à própria alimentação. Foi o que sucedeu no Portugal de 1340. O rei e seus conselheiros consideraram que eram feitas maiores despesas que as que deviam fazer em comer... Daí saiu uma pragmática que estabelecia um certo número de regras, moderadas. Dividindo a população que importava considerar em ricos-homens, filhos d'algo e cidadãos, proibia aos primeiros o uso de mais de três pratos de carne ao jantar e de dois, à ceia; aos segundos e terceiros, o uso de mais de dois pratos, ao jantar, e de um, à ceia.
Podiam, é certo, comer todo o peixe, marisco, caça, criação e lacticínios que quisessem, desde que o houvessem por serviço ou por venação. A concluir este capítulo, vejamos a descrição de dois banquetes festivos, que Garcia de Resende inclui na sua Crónica de EI-Rei D. João II, ao narrar o casamento do príncipe Afonso com D. Isabel, filha dos reis Católicos.

Logo à terça-feira à noite houve banquete de ceia na sala da madeira, em que El-Rei e a Rainha, e o Príncipe e a Princesa comeram, e com eles o Senhor D. Jorge, e Rodrigo de Ilhoa, embaixador, todos em uma grande mes, com muito grandes dorséis de brocado, que tomavam toda a sala através, e na primeira mesa da mão direita comia o marquês de Vila Real com as senhoras donas e damas, e na primeira da mão esquerda o arcebispo de Braga, e o bispo de Évora, e de uma parte, e da outra, assim homens como mulheres. E a mesa de El-Rei com todo-los oficiais vestidos de brocados, e servida por moços fidalgos que serviam de tochas e bacios, ricamente vestidos. E as outras mesas todas com trinchantes e oficiais vestidos de ricas sedas e brocados e mui galantes, e assim os moços da câmara ordenados a cada mesa, todos vestidos de veludo preto. No qual banquete houve infinitas e diversas iguarias e manjares, e singular concerto e abastança e muitas e assignadas cerimónias. E quando levaram à mesa de El-Rei as iguarias principais era a primeira e derradeira, e de beber a ele e à Rainha, e ao Príncipe e Princesa, iam sempre diante, dois e dois, muitos porteiros de maça, reis de armas, arautos e passavantes, os porteiros-mores, quatro mestres-salas, o veador, e os veadores da fazenda, e detrás de todos o mordomo-mor, e todos iam com os barretes na mão até o estrado, onde faziam suas grandes mesuras, e os veadores da fazenda iam com os barretes na cabeça até o meio da sala, e do meio por diante os levavam na mão, e o mordomo-mor ia sempre coberto até o fazer da mesura, que juntamente fazia e tirava o barrete. E era tamanha cerimónia que durava muito cada vez que iam à mesa. E o estrondo das trombetas, atambores, charamelas e sacabuxas, e de todo-los ministréis era tamanho que se não ouviam, e isto se fazia cada vez que El-Rei, a Rainha, e a Princesa bebiam, e vinham as primeiras iguarias à mesa; e a copeira era coisa espantosa de ver. E logo à entrada da mesa veio uma grande carreta dourada, e traziam-na dois grandes bois assados inteiros, com os cornos e mãos e pés dourados, e o carro vinha cheio de muitos carneiros assados inteiros com os cornos dourados, e vinha tudo posto num cadafalso tão baixo com rodetas por fundo dele, que não se viam, que os bois pareciam vivos e que andavam. E diante vinha um moço fidalgo com uma aguilhada nas mãos picando os bois, que pareciam que andavam e levavam a carreta, e vinha vestido como carreteiro com um pelote e um gabão de veludo branco forrado de brocado, e assim a carapuça, que de longe parecia próprio carreteiro, e assim foi oferecer os bois e carneiros à Princesa e feito o serviço os tornou a virar com sua aguilhada por toda a sala até sair fora, e deixou tudo ao povo, que com grande grita e prazer foram espedaçados, e levava cada um quanto mais podia. E assim vieram juntamente a toda-las mesas muitos pavões assados com os rabos inteiros, e os pescoços e cabeça com toda a sua penar que pareceram muito bem por serem muitos, e outras muitas sortes de aves e caças, manjares e frutas, tudo em muito grande abundância e grande perfeição.

Muitas e grandes festas se fizeram todos os dias e noites até domingo, cinco dias de Dezembro, em que houve outro segundo banquete na dita sala da madeira, de muitas mais invenções, abastança e gentileza, e de muito mais política, e muito melhor servido que o primeiro». In A. H. Oliveira Marques, A Sociedade Medieval Portuguesa, Aspectos da Vida Quotidiana, A Esfera dos Livros 2010, ISBN 978-989-626-241-9.

Cortesia de Esfera dos Livros/JDACT

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

H. Oliveira Marques. A Sociedade Medieval Portuguesa: A Mesa. «Limpavam-se as mãos a ‘napeiras’ ou toalhas mais pequenas. O regulamento das refeições no mosteiro de Alcobaça estabelecia, logo como primeira cláusula, que se lavassem e limpassem sempre as mãos, antes de comer»

Refeição, século XV
jdact

A Mesa
«Em 1451, Lopo de Almeida, valido de D. Afonso V, acompanhou a Itália a infanta D. Leonor, que ia casar com o imperador da Alemanha, Frederico III. Do caminho, foi escrevendo cartas ao seu rei, em que lhe descrevia os pormenores da viagem e o estado de saúde da princesa.

Dessas missivas curiosíssimas pelo rigor das descrições e pelo colorido do panorama do dia-a-dia que nos apresentam, ficaram-nos apenas três. Numa delas, refere o embaixador de Portugal um banquete oferecido em Itália ao imperador, sua noiva e comitivas. Pelos comentários que faz ao arranjo das mesas e aos costumes locais, podemos nós hoje inferir do que se passava no Portugal dos meados do século XV.
Espantava-se Lopo de Almeida de que as toalhas não chegassem a cobrir toda a superfície da mesa principal, "e ficava descoberta da mesa acerca de dois palmos". Nas pontas estavam colocadas toalhas mais pequenas «para se alimparem», ou, como diríamos hoje,’guardanapos comuns’. Ao que parece, era costume em Portugal introduzir sob a toalha uma espécie de alcatifa, o chamado ‘bancal’ ou ‘mantel’, que se usava também a cobrir os bancos: porque Lopo de Almeida se admirava da sua ausência, excepto no assento destinado ao imperador, onde havia «uma almofada de cremezim aveludado».
Na distribuição dos lugares não houve qualquer norma: «nas outras mesas se assentaram bispos, condes e prelados e todos os outros fidalgos, e toda a outra gente a feixe e molhos, como em boda...». A algazarra testemunha-nos ainda, foi medonha! O costume, em Portugal, fazia preceder cada iguaria, como também o vinho, de tochas empunhadas por criados, sob a chefia de um porteiro.
Antes das refeições, era hábito lavar as mãos. Servidores traziam ‘justas’ ou ‘gomis’, de prata ou de outro metal consoante a abastança da mesa, e bacias grandes, sobre as quais se colocavam as mãos. Em banquetes de especial requinte, a água simples podia ser substituída por água de rosas ou de outro perfume. Limpavam-se as mãos a ‘napeiras’ ou toalhas mais pequenas. O regulamento das refeições no mosteiro de Alcobaça estabelecia, logo como primeira cláusula, que se lavassem e limpassem sempre as mãos, antes de comer.

jdact

Sobre a mesa dispunham-se peças de ourivesaria, com fins simultaneamente decorativos e utilitários. Em França, usava-se colocar a chamada «nave» defronte do anfitrião, com os objectos destinados ao seu serviço: facas, colheres, sal, especiarias, etc.
Os manjares eram depois trazidos dentro de terrinas, ou ‘bacias’. Em Castela, como na Alemanha, usavam-se terrinas muito grandes, de onde todos comiam em comum. Mas em Portugal, as ‘bacias’ eram mais pequenas. D. Dinis tinha onze, de prata, pesando entre 1 e 2 kg.
Embora fosse uso trazer as iguarias em procissão, antecedidas pelo porteiro e pelos tocheiros, o Regulamento de Cister prescrevia que «os manjares ou condutos sejam postos pelas mesas ante que tanjam a campa», isto é, fossem todos trazidos de uma só vez. O receio dos envenenamentos, aliado à superstição geral do tempo, levava ao emprego de umas curiosas, «alfaias», destinadas a detectar os alimentos. Usavam-se «chifres de unicórnio» (na realidade bicos de aves ou chifres de outros animais), encabados em ouro ou prata, «lingueiros», espécie de suportes onde se suspendiam línguas de serpente, e uma série abundante de pedras raras (como a ágata, a pedra serpentina, etc.) a que se atribuíam virtudes mágicas. Ao contacto com alimentos impuros, estes e outros talismãs mudariam de cor, manchar-se-iam ou começariam até a sangrar, acreditavam as gentes...

O Inventário da Casa de D. Dinis enumera algumas pedras, de nomes por vezes bem estranhos, que se deviam destinar ao mesmo fim. Menciona também um «dente de escorpião», um «osso pendurado em castão de prata», etc. Durante muito tempo se não utilizaram pratos na Idade Média. Comiam-se a carne e o peixe sobre grandes metades de pão, de forma arredondada, postas em frente de cada conviva. Nas casas ricas, esses pedaços de pão, que resultavam embebidos em molho ou noutros detritos mais ou menos saborosos, distribuíam-se depois pela turba dos mendigos. Ou deitavam-se aos cães que rodeavam a mesa...
Mais tarde, a rodela de pão foi substituída pelo ‘talhador’ de madeira. Embora um e outro sistema coexistissem por muito tempo. «Talhador» designava também uma salva ou travessa grande, onde a carne era trinchada antes de ser distribuída pelos convivas. É claro que para a sopa e outros alimentos líquidos, se usavam pratos, as chamadas ‘escudelas’, de madeira ou de prata (sendo de barro denominavam-se ‘tigelas’). Mais tarde, essas escudelas passaram a servir também para os alimentos sólidos. Contudo, note-se bem que sempre cada escudela ou talhador servia para dois convivas, sentados lado a lado. Talvez daqui derive a expressão de «comer com alguém no prato».

Conheciam-se e utilizavam-se, se bem que pouco, as ‘colheres’. Mas não havia garfos, só muito mais tarde divulgados no Ocidente. Daí a necessidade imprescindível de lavar as mãos antes e depois das refeições. O emprego do garfo levou, em última análise, a uma menor higiene, porquanto o contacto da mão com os alimentos se reduziu. Passou a não ser necessário, como outrora, lavar os dedos antes e depois de comer... A ‘faca’, ponteaguda, era o instrumento por excelência. Mas só excepcionalmente se distribuíam facas aos convidados a um banquete. Eram as próprias pessoas que levavam consigo a faca de que se iriam servir, tal como nós, hoje, levamos um pente ou um espelho. Depois de comer, limpavam o objecto à toalha ou aos toalhetes. Uma das regras de conduta dos monges de Cister determinava que não limpassem «as mãos ou o cutelo à toalha, salvo se o primeiramente alimpar com pão». Para beber, usavam-se copos, um tanto maiores e mais pesados do que os de hoje, e chamados ‘vasos’ na linguagem medieval. «O que beber, com duas mãos tenha o vaso», mandava a regra alcobacense.

Vasos ainda maiores denominavam-se ‘grais e tagras’. Serviam-se muitas vezes os líquidos quentes em ‘copas’ tapadas por ‘sobrecopas’. As ‘púcaras e pucarinhas’ de barro eram munidas de asas». In A. H. Oliveira Marques, A Sociedade Medieval Portuguesa, Aspectos da Vida Quotidiana, A Esfera dos Livros 2010, ISBN 978-989-626-241-9.

Cortesia de Esfera dos Livros/JDACT

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

H. Oliveira Marques. A Sociedade Medieval Portuguesa: A Mesa. «Uma cidade como Lisboa, ou uma província como o Algarve, necessitavam então de importar trigo do estrangeiro. Vinham carregamentos de cereais de França, de Inglaterra, da Alemanha, da Itália, de Castela. O pão subia de preço e muita gente podia morrer de fome»

Refeição, século XV
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A Mesa
«As chamadas “viandas de leite” estão presentes com frequência na alimentação medieval do Português. Por elas se entendiam queijo, nata, manteiga, doces feitos à base de lacticínios, além de, evidentemente, o próprio leite. Este, aliás, consumia-se em muito fraca quantidade. São raras, nas fontes informativas, as referências a leite. Na sua maior parte, transformava-se em queijo e em manteiga. Servia também como medicamento. Mas parece ter-se utilizado pouco para matar a sede ou como alimento «de per si».

Os «lacticínios» tomavam-se em regra como acompanhamentos ou sobremesas. Mas D. Duarte não os aconselhava: que não se comessem natas nem outras “viandas de leite”, consideradas húmidas e por isso nocivas à saúde; ou, a comê-las, que fosse em pouca quantidade e sempre no fim das refeições; e que jamais se bebesse depois de as ter tomado. Apesar disso, o “Tratado de Cozinha” do século XVI insere mais de meia dúzia de receitas de «manjares de leite»:
  • manjar branco, pastéis de leite, leite cozido, tigelada de leite, beilhós de arroz, tigeladas de leite de D. Isabel de Vilhena e almogavanas de D. Isabel de Vilhena.
Todos funcionavam como sobremesas. Vejamos uma, ao acaso:

«Tigelada de leite»
Tomarão quatro ovos e açúcar e farinha, que será cinco colheres de prata, em uma escudela, tudo batido; e tomarão uma tigelinha de barro e nela derreterão uma pouca de manteiga, que será tanta como uma noz em cada tigela; e, depois que for derretida, deitarão este polme, que será temperado com sal. Então mandá-la-ão ao forno e levem uma pouca de manteiga para deitar por cima depois que se coalhar. E também se pode fazer de leite cozido e de queijo fresco. E assim se faz a tigelada de arroz cozido, com o leite. E nestss tigeladas de arroz quem quer lhe deita por cima gemas de ovos inteiras».

Ceia
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Ovos consumiam-se com fartura. Praticamente, todas as receitas elaboradas os levavam. A produção de ovos era consequência natural da abundância de criação: galinhas, patas, gansas, pombas. No “Leal Conselheiro”, não se condenam nem prescrevem os ovos: porquanto a sua nocividade ou utilidade variavam conforme as pessoas. O “Tratado de Cozinha” menciona-os cozidos, escalfados e mexidos. A fruta desempenhava papel de relevo nas dietas alimentares medievais, em especial nos países de produção mediterrânea, como Portugal. Conheciam-se praticamente todas as frutas que comemos hoje. Muitas eram autóctones, outras foram introduzidas pelos Árabes. Apenas a laranja doce viria a ser trazida por Vasco da Gama.

A laranja azeda, variedade hoje pouco produzida, tinha funções semelhantes às do limão, aliás também consumido. Certas frutas eram consideradas pouco saudáveis: D. Duarte proscrevia o consumo de cerejas e de pêssegos, por os julgar «vianda húmida». Também o limão se desaconselhava, por «muito frio e agudo». Era uso comer fruta acompanhada de vinho, à laia de refresco, ou como refeição ligeira, própria da noite. Fernão Lopes, ao narrar uma das famosas danças nocturnas de D. Pedro, refere que «andou el-rei assim grão parte da noite, e tornou-se ao paço em dansa, e pediu vinho e fruta». Na “Crónica de D. João I” menciona um facto idêntico, ao dizer:
  • «Naquele dia, à noite, pedindo el-rei vinho e fruta...».
Da fruta fresca se passava à fruta seca e às conservas e doces de fruta. Figos secos, passas de uvas, amêndoas, nozes, alfarrobas, castanhas, azeitonas eram objecto de intenso consumo por parte das populações, sem falar já no comércio lucrativo que alimentavam com o estrangeiro. Fabricavam-se conservas e doces de cidra (“casquinhas, diacìdrão”), pêssego (“pessegada”), limão, pera (“perinhas, perada”), abóbora e marmelo (“marmelada, bocados, almívar de marmelo”). De laranja se fazia a famosa “flor de laranja”, simultaneamente tempero e perfume. E até de alface se confeccionava uma conserva especial conhecida por talos:

 
«Talos de alface»
Depois que os talos da alface forem muito espigados e testos, tomá-los-ão e apará-los-ão muito bem; e tirar-lhes-ão todas as veias e escolherão os mais grossos; e deitá-los-ão em água fria até que os acabem de aparar; e terão um tacho com água a ferver e deitá-los-ão dentro e cozê-los-ão, que passe o alfinete por eles, como por massa; e, enquanto os apararem, clarificarão o açúcar. E, como forem cozidos deitem-nos na panela e deitem-lhe a conserva fervendo; e assim lha deitarão até que sejam feitos, que será aos quinze dias ou antes».

Encontro de D. João I com o duque de Lancaster
jdact

O fabrico de bolos não se encontrava muito desenvolvido. Anteriormente ao século XV, o elevado preço do açúcar obrigava ao uso do mel como único adoçante ao alcance de todas as bolsas. Mas mesmo depois, não se vislumbram traços do frequente consumo de bolos à maneira moderna.
Havia excepções: fabricavam-se biscoitos de flor de laranja, pastéis de leite e pão-de-ló, ao lado dos chamados fartéis, feitos à base de mel, farinha e especiarias. Com ovos também se produziam alguns doces: “canudos e ovos de laços”, por exemplo. Contudo, só a partir do Renascimento e, mais particularmente, dos séculos XVII e XVIII, se desenvolverá a afainada indústria doceira nacional.

Mas a base da alimentação medieval, quanto ao povo miúdo, residia nos cereais e no vinho. Farinha e pão, de trigo, milho ou centeio, e também cevada e aveia, ao lado do vinho, compunham os elementos fundamentais da nutrição medieva. O panorama do campo cultivado ofereceria, ao viajante de hoje, um certo aspecto monótono, tão avassaladoras as searas e as vinhas se mostravam por todo o Portugal.
Por excelência, pão era de trigo. Coziam-se grandes pães, geralmente de forma circular, que cresciam pouco. Serviam, ao mesmo tempo, de alimento e de suporte para a comida.

Perdiz
jdact

Não se usavam pães pequenos, à maneira moderna. Tabelamentos do século XV indicam que os pães normalmente consumidos oscilavam entre 150 e750 gramas de peso. Embora por todo o País abundassem as searas de trigo, a produção era insuficiente para o consumo. Semeava-se «pão» por toda a parte, em solos que não ofereciam um mínimo, sequer, de condições favoráveis, e o resultado era um fraco rendimento por unidade. As crises cerealíferas repetiam-se em anos próximos, especialmente em relação aos centros populacionais. Uma cidade como Lisboa, ou uma província como o Algarve, necessitavam então de importar trigo do estrangeiro. Vinham carregamentos de cereais de França, de Inglaterra, da Alemanha, da Itália, de Castela. O pão subia de preço e muita gente podia morrer de fome.

No campo, a situação era um pouco melhor para o povo miúdo. Havia sucedâneos para o pão: a castanha ou a bolota, por exemplo. Aliás, aqui não era a farinha de trigo a base da panificação. Milho, centeio e até cevada faziam-lhe as vezes. Note-se que o «milho» não equivalia ao que hoje assim denominamos e que só foi introduzido na Europa nos fins do século XV e princípios do XVI, vindo da América (milho maiz). O «milho» da Idade Média era o actual milheto, ou milho miúdo, ou então o milho painço. Ambos se encontravam muito difundidos pelas regiões mais húmidas de Portugal, exactamente as que, mais tarde, os substituíram pelo maiz. Em Trás-os-Montes e nas Beiras Interiores, o centeio fornecia a base do pão para consumo normal. Mas sempre o trigo se achava presente». In A. H. Oliveira Marques, A Sociedade Medieval Portuguesa, Aspectos da Vida Quotidiana, A Esfera dos Livros 2010, ISBN 978-989-626-241-9.

Cortesia de Esfera dos Livros/JDACT

domingo, 4 de setembro de 2011

H. Oliveira Marques. A Sociedade Medieval Portuguesa: A Mesa. « Na casa real, temos testemunhos do consumo de algumas drogas em quantidades apreciáveis, pelo menos desde os fins do século XIII. As contas da ucharia de D. Dinis, relativas aos anos de 1278-82, mostram a compra de açúcar, com as variedades açúcar rosado e açúcar de Alexandria»

Cortesia de esferadoslivros

A Mesa
«Ao lado do peixe fresco, a Idade Média fez grande uso de peixe seco salgado e defumado. No norte da Europa, o tráfico de arenque salgado e fumado ocupou muitos barcos e movimentou grandes capitais. Se, em Portugal, a riqueza piscatória e o reduzido «hinterland» justificavam menos o consumo do peixe não fresco, seria não obstante errado julgar da sua inexistência. Na falta de frigoríficos e com um clima pouco frio, o recurso à secagem pelo sol facilitava o transporte do peixe a distância e a possibilidade de armazenagem por períodos longos. É assim que um recibo passado por D. Afonso III aos seus uchões, em 1279, nos dá a conhecer a entrada na régia ucharia, entre 1257 e 1270, de 7687 pescadas secas (640 dúzias e mais 7), 317 congros secos (26 dúzias e mais 5), 2658 postas, «talhos» de baleia e 1656 lampreias secas; tudo resultado de serviços e colheitas de povoações piscatórias. Em Lisboa, defumava-se sardinha para exportar para Sevilha ou Aragão, nos fins do século XIV. Também para Castela se remetiam pescadas secas. E sabemos da importação de peixe seco proveniente do norte da Alemanha.

Não eram especialmente apreciadas as hortaliças e os legumes, pelo menos entre as classes superiores. O povo, esse fazia basto uso das couves, couve comum, couve-flor, couve murciana, couve tronchuda, e não menos de feijões e favas, amplamente difundidos no mundo islâmico, que duns e doutras consumia diversas variedades. As favas, assim como as ervilhas, as lentilhas, o grão de bico e os chícharos, tinham igualmente significado como sucedâneos ou complementos do pão. Quando escasseavam os cereais no Reino, o que passou a ser relativamente frequente a partir dos meados do século XIV, importavam-se muitas vezes favas do estrangeiro para ocorrer à penúria. Os navios bretões demandavam então o Tejo com carregamentos de favas e de outros legumes que iam carregar a portos franceses ou ingleses. Moída para fabrico de farinha, ou simplesmente cozinhada, a fava chegava para manter a fome até ao regresso das boas colheitas.

Cortesia de esferadoslivros

Os Portugueses do interior, sobretudo beirões e trasmontanos, não precisavam todavia de recorrer à fava. Bastava-lhes a castanha dos castanheiros úberes que o solo e o clima favoreciam. Durante metade do ano, comiam castanha em vez de pão. Não consta, porém, que o sucedâneo interessasse ao país todo. Restam escassos testemunhos de um comércio desenvolvido de castanha, das zonas do interior para os centros populosos do litoral e do sul.
Brócolos, alfaces, pepinos, rabanetes, rábanos, cogumelos, cenouras, nabos, espargos e outros produtos hortícolas consumiam-se da mesma forma no Portugal medievo.
Nas casas ricas, onde a culinária era requintada, as ervas de cheiro serviam de ingredientes indispensáveis à preparação das iguarias. Coentros, salsa e hortelã, ao lado de sumos vários, de limão e de agraço, de vinagre, de cebola e de pinhões, contribuíam para o bom tempero das vitualhas. Cebola e azeite entravam para o tradicional refogado.
Ao mandar matar Pero Coelho, um dos executores de Inês de Castro,
  • «el-rei, dizendo que lhe trouxessem cebola, vinagre e azeite para o coelho...»
assim lhe fez logo tirar o coração pelas costas.

O livro de culinária portuguesa do século XVI inclui uma receita sobre coelho assado. Nela se emprega porém manteiga, em vez de azeite:
«Receìta de coelho»
«O coelho assado, tomarão a cebola pisada muito miúda e afogá-la-ão na manteiga; e, depois de afogada, temperada de vinagre; e deitar-lhe-ão cravo e açafrão e pimenta e gengibre; e então tomarão o coelho despedaçado e deitá-lo-ão dentro e dar-lhe-ão uma fervura; e porão umas fatias num prato e então deitarão o coelho em cima das fatias».

Cortesia de esferadoslivros

O cravo, o açafrão, a pimenta e o gengibre é que não seriam muito vulgares nas receitas da nossa Idade Média. Só com o estabelecimento de relações comerciais com o Oriente se introduziram em Portugal vastas quantidades de especiarias, a preços relativamente módicos. Logo se passou a usar e a abusar do seu emprego na preparação da cozinha. É verdade que ao longo dos séculos XII a XV se conheceram e aplicaram na comida diversas especiarias. Mercadores catalães e sevilhanos traziam-nas a Portugal, importadas do Oriente. Na casa real, temos testemunhos do consumo de algumas drogas em quantidades apreciáveis, pelo menos desde os fins do século XIII. As contas da ucharia de D. Dinis, relativas aos anos de 1278-82, mostram a compra de açúcar, com as variedades açúcar rosado e açúcar de Alexandria. Era tão caro, que se avaliava em mais de cinquenta vezes o preço do mel! Compravam-se igualmente pimenta, gengibre e outras especiarias difíceis de identificar hoje. A pimenta devia ser relativamente frequente, embora cara. Surge mencionada na maioria dos forais dos séculos XII e XIII.

Para bem condimentar os alimentos, usavam os Portugueses da Idade Média espécies várias de matérias gordas. O azeite colocava-se, sem contestação, em primeiro lugar, e o seu papel na culinária foi aumentando, à medida que a mancha dos olivais subia para norte. Contudo, o emprego da manteiga era igualmente relevante e parece ter correspondido a uma indústria local bastante desenvolvida, talvez mais até do que a do queijo. São numerosas as referências a manteiga na documentação que nos resta.
Ao lado da manteiga, outras gorduras animais de farto consumo eram o toucinho e a banha. Num país como Portugal, em que o gado porcino avultava na pecuária, e em que a carne de porco abundava no açougue, compreende-se o papel da banha de porco no tempero culinário de todas as camadas populacionais. Em certos casos, mas com menos frequência, também a gordura de vaca servia na confecção dos repastos. Não se esqueça, claro está, o sal, que não apenas funcionava como tempero básico a quase todas as vitualhas, mas também se exigia para a conservação de carnes, peixes e outros alimentos que fosse necessário armazenar ou transportar». In A. H. Oliveira Marques, A Sociedade Medieval Portuguesa, Aspectos da Vida Quotidiana, A Esfera dos Livros 2010, ISBN 978-989-626-241-9.

Cortesia de Esfera dos Livros/JDACT

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A. H. Oliveira Marques. A Sociedade Medieval Portuguesa: A Mesa. «Num país como Portugal, o peixe situava-se também na base da alimentação, especialmente entre as classes menos abastadas. O consumo frequente de peixe pela nobreza e pelo clero provinha das prescrições religiosas. Nesses dias, os pratos de peixe ou de marisco substituíam, ao jantar e à ceia, os pratos de carne»

Cortesia de wikipedia 

A Mesa.
«Tomemos alguns exemplos de receitas que, embora da primeira metade do século XVI, se não devem distanciar muito das medievais, excluindo o emprego abundante das especiarias.

  • «Receita da vaca picada em seco»
Tornarão a vaca - a polpa sem ossos e não da posta de fora, porque é muito dura e picá-la-ão muito picada e deitar-lhe-ão cheiros, segados assim propriamente como para salada e sua cebola muito miúda. E deitar-lhe-ão, em lugar de manteiga, azeite muito bom, que não tenha nenhum saibo; e, depois de afogada, temperá-la-ão com seu vinagre. E não há-de levar mais água que lavarem-na antes de a picar, e então, torná-la a lavar, que vai assim com aquela água, porque lhe não deitam mais água; e, depois que começa a ferver, temperada com vinagre e com seu sal e os adubos (cravo e açafrão e pimenta e gengibre), há-de se cozer, que não fique caldo, senão assim como de lampreia, então com suas fatias de baixo.
  • «Esta é a receita da galinha cozida e ensopada»
Tomarão esta galinha e cozê-la-ão com salsa e coentros e hortelã e cebola; então, deitar-lhe-ão sua tempera de vinagre e, depois dela temperada e cozida, tomarão este caldo e deitá-lo-ão em uma pícara e pô-lo-ão a ferver em outra; e deitar-lhe-ão dentro, na mesma panela, meia dúzia de ovos. E, com este mesmo caldo dos ovos, tomarão dois pares de gemas de outros ovos e batê-los-ão e farão um caldo amarelo; e então tomarão a mesma galinha e pô-la-ão num prato, com suas fatias de pão de baixo; e depois desta galinha posta nas fatias, pôr-lhe-ão os ovos que estão cozidos, por de redor, e então deitar-lhe-ão o mesmo caldo amarelo dos outros ovos, por riba, e deitar-lhe-ão canela pisada por riba.


Cortesia de wikipedia

Num país como Portugal, o peixe situava-se também na base da alimentação, especialmente entre as classes menos abastadas. O consumo frequente de peixe pela nobreza e pelo clero provinha das prescrições religiosas: cerca de sessenta e oito dias no ano eram de abstinência obrigatória de carne para todos os católicos. Nesses dias, os pratos de peixe ou de marisco substituíam, ao jantar e à ceia, os pratos de carne. Porque as proibições eram rigorosas: em tempo de jejum, nada de carne, ovos, queijo, manteiga, banha, vinho e até peixe gordo! Ervilhas, fruta e peixes pequenos recebiam as preferências da Igreja.

Um dos peixes mais consumidos pelos portugueses, na Idade Média, parece ter sido a pescada (peixota), presente em quase toda a documentação que especifique variedades piscatórias. Sardinha, congros, sáveis, salmonetes e lampreias viam-se também com frequência nas mesas de todas as camadas sociais. Ruivos, pargos, atuns, trutas, solhos, bizugos, cações, rodovalhos, gorazes e muitas outras espécies eram objecto da culinária de então. Também se comia carne de baleia e de toninha. Mariscos (como amêijoa e berbigão) e crustáceos (como lagostas e caranguejos) eram frequentes.
Conservou-se até nossos dias um curioso «caderno da despesa que fez o almoxarife no pescado para el-rei no ano de 1474».

Cortesia de wikipedia

Estava D. Afonso V a residir em Santarém. E quase todos os dias se compravam peixes para a mesa real, que as peixeiras traziam à dúzia, ao cento ou até à unidade. As qualidades de peixe eram poucas: apenas linguados, azevias e salmonetes, alternando com um único marisco: ostras. Santarém não era Lisboa, havia menos peixe; ou o rei preferiria os indicados. O peixe era servido à mesa real, frito ou em empadas. Mencionam-se no caderninho «sertãs para frigir», alqueires de farinha para polme ou para a massa das empadas e, como «adubos» (temperos), unicamente laranjas (azedas, entenda-se), salsa, azeite e vinagre. As empadas não eram feitas na cozinha real mas sim por uma padeira. No canhenho assentam-se também as verbas pagas à «mulher de Jorge Esteves Lula» ou a Margarida Luís pelo trabalho de escamar e lavar o peixe.
O Tratado de Cozinha» do século XVI inclui apenas uma receita para peixe:
  • «Receita da lampreia»
Tomarão a lampreia, lavada com água quente, e tirar-lhe-ão a tripa sobre uma tigela nova, para que caia o sangue nela; e enrolá-la-ão dentro naquela tigela e deitar-lhe-ão coentros e salsa e cebola muito miúda. E deitar-lhe-ão ali um pouco de azeite e pô-la-ão coberta com um talhador; e, como for muito bem afogada, deitar-lhe-ão muito poucochinha água e vinagre e deitar-lhe-ão cravo e pimenta e açafrão e um pouco de gengibre». In A. H. Oliveira Marques, A Sociedade Medieval Portuguesa, Aspectos da Vida Quotidiana, A Esfera dos Livros 2010, ISBN 978-989-626-241-9.

Cortesia de Esfera dos Livros/JDACT

domingo, 26 de junho de 2011

A. H. Oliveira Marques. A Sociedade Medieval Portuguesa: A Mesa. «O Portugal medievo era um país de coutadas e de baldios. A caça incluía-se entre as principais distracções do nobre e representava para o vilão fonte importante de subsistência. As duas refeições principais do dia eram o jantar e a ceia. A base da alimentação por excelência era a carne»


Cortesia de wikipedia
A Mesa
«Não é fácil dissertar sobre a alimentação dos Portugueses durante a Idade Média. Escasseiam as fontes informativas: o primeiro livro de receitas culinárias que se conhece não é anterior ao século XVI. As descrições de banquetes, colhidas nas crónicas ou noutros textos narrativos, são em geral parcas em notícias concretas sobre os alimentos consumidos: fornecem o pitoresco da forma mas não o rigor do conteúdo. Alguns textos legislativos auxiliam, é certo, o historiador. Mas uma tentativa de reconstituição exige a soma dos elementos mais díspares, obtidos a partir do maior número possível de fontes, das proveniências mais variadas.
De uma maneira geral, a alimentação medieva era pobre, se comparada com os padrões modernos. A quantidade supria, quantas vezes, a qualidade. A técnica culinária achava-se ainda numa fase rudimentar e as conquistas da cozinha romana haviam-se perdido. A condimentação obedecia a princípios extremamente simples.
Do ponto de vista da ciência actual, a alimentação medieva revelava-se deficiente em vitaminas. Feita à base de cereais, de carne, de peixe e de vinho, mostrava falta grande de vitamina D e considerável de A e C. Os resultados destas deficiências traduziam-se por uma débil resistência às infecções, com o consequente progresso fácil das epidemias; por frequentes doenças da vesícula e dos rins (resultado da acumulação de pedra) e dos olhos (cegueira, xeroftalmia), resultado da falta de vitamina A; finalmente, por escorbuto muito comum, devido à deficiência em vitamina C2.

Cortesia de wikipedia

As duas refeições principais do dia eram o «jantar e a ceia». Jantava-se, nos fins do século XIV, entre as dez e as onze horas da manhã; mas nos séculos anteriores, essa hora teria de recuar para as oito ou nove. Ceava-se pelas seis ou sete horas da tarde. No Leal Conselheiro, o rei D. Duarte recomendava que decorressem sete a oito horas entre as duas refeições e que, jantando-se muito, se ceasse pouco, assim como, ceando-se muito, se jantasse pouco no dia imediato. Como ideal de frugalidade, prescrevia-se a ausência de qualquer outro repasto durante o dia. É de supor, contudo, que o progressivo atraso da hora do jantar tivesse implicado, a partir de certa altura, a necessidade de um "almoço" tomado pouco depois do levantar.
O jantar era a refeição mais forte do dia. O número de pratos servidos andava, em média, pelos três, sem contar sopas, acompanhamentos ou sobremesas. Isto, entenda-se, em relação ao rei, à nobreza e ao alto clero. Entre os menos privilegiados ou os menos ricos, o número de pratos ao jantar podia descer para dois ou até um. À ceia, baixava para dois a média das iguarias tomadas; ou para um, nos outros casos indicados. A base da alimentação por excelência era a carne. Ao lado das carnes de matadouro ou carnes gordas, vaca, porco, carneiro, cabrito (na Coimbra do século XII, cotava-se a maior preço a carne de porco e a carne de carneiro gordo, e só depois vinham a vaca e o cabrito; na Évora de 1280, como de 1384, valia a carne de vaca o dobro da de porco e mais do dobro das de carneiro e cabra), consumia-se largamente caça e criação.

Cortesia de wikipedia

O Portugal medievo era um país de coutadas e de baldios. A caça incluía-se entre as principais distracções do nobre e representava para o vilão fonte importante de subsistência. Em mercado, tabelavam-se as carnes de gamo, zebro, cervo, corço, lebre e até urso, entre as gordas; ao lado de uma variedade assombrosa de aves: perdiz, abetarda, grou, pato bravo, cerceta, garça, maçarico, fuselo, sisão, galeirão, calhandra e muitas outras.
A criação não variava muito da de hoje:
  • galinhas,
  • patos,
  • gansos,
  • pombos,
  • faisões,
  • pavões,
  • rolas,
  • coelhos.
Note-se apenas a não existência do peru que só veio para a Europa depois do descobrimento da América. Em caça e criação consistia boa parte dos pagamentos (foros, censos e outras prestações várias) que o vilão era obrigado a fazer ao seu senhor. Tamanha abundância destas peças de carne recebia o nobre que uma lei de 1340 lhe proibiu expressamente a compra delas em mercados. Fabricavam-se também enchidos vários, como chouriços e linguiças.
A forma mais frequente de cozinhar a carne era assá-la no espeto (assado). Mas servia-se também carne cozida (cozido), carne picada (desfeito), e carne estufada (estufado). O badulaque seria uma espécie de caldeirada de carneiro que existia ao menos nos séculos XV e XVI». In A. H. Oliveira Marques, A Sociedade Medieval Portuguesa, Aspectos da Vida Quotidiana, A Esfera dos Livros 2010, ISBN 978-989-626-241-9.

Cortesia de Esfera dos Livros/JDACT

quarta-feira, 4 de maio de 2011

A Sociedade Medieval Portuguesa: Aspectos de Vida Quotidiana. «Os bons tecidos tinham de ser importados da Flandres e da Itália, como o eram também armaduras e munições, e uma infinidade de artigos manufacturados. Ao estrangeiro interessavam, além do vinho, da fruta e do sal, couros e um pequeno corpúsculo vermelho que crescia nas cascas dos carvalhos como parasita de um insecto, a grã ou cochonilha...»

Cortesia de fabiopestanaramos

«No Algarve, a actividade mais lucrativa era a venda de fruta - figos, uvas, amêndoas - que, devidamente seca e preparada, se expedia com proveito para a Flandres e para Inglaterra.
Indústria não existia. O próprio artesanato era reduzido e confinado às necessidades do consumo:
  • fabricavam-se artigos de vestuário,
  • calçado,
  • objectos de ferro,
  • madeira e barro,
  • alfaias domésticas, e agrícolas, e pouco mais.
Os bons tecidos tinham de ser importados da Flandres e da Itália, como o eram também armaduras e munições, e uma infinidade de artigos manufacturados.
Ao estrangeiro interessavam, além do vinho, da fruta e do sal, couros e um pequeno corpúsculo vermelho que crescia nas cascas dos carvalhos como parasita de um insecto, a grã ou cochonilha, preciosa matéria-prima para o fabrico de óptima tinta escarlate, utilizada nos tecidos mais ricos e caros.

Cortesia de valmirhistoria
Este comércio foi-se desenvolvendo, sobretudo a partir do século XIII, quando o intercâmbio marítimo com Portugal começou a substituir-se às viagens dos cruzados. Internamente, a estruturação de um estado implicou certo movimento de comércio, fomentado e desenvolvido através das feiras mas já prenunciado pelas relações mercantis de todo o território de Entre-Douro-e-Minho e das Beiras, com centros em Guimarães, Porto, Braga e Coimbra. A integração do meio-dia muçulmano, rico em núcleos populacionais de importância, onde imperava forte tradição de comércio e de artesanato, constituiu factor de relevo na criação de uma economia portuguesa.
Foi também com o século de Duzentos que a circulação monetária se estimulou. Todavia, as formas rudimentares que o comércio manteve sempre, em boa parte do território nacional, impediram a passagem completa de uma economia natural a uma economia monetária. Trocas e pagamentos de serviços em géneros continuaram a alimentar esse intercâmbio durante toda a Idade Média.

Cortesia de historia7beseq
O fenómeno traduzia-se, aliás, nas poucas espécies de numerário existentes no Portugal de então:
  • a moeda de ouro era rara e deixou de ser cunhada a partir dos meados do século XIII, só o voltando a ser em finais do XV;
  • a moeda de prata não existiu até meados da centúria seguinte;
  • só a moeda de bolhão com cerca de um grama de prata, além do numerário estrangeiro, teria por isso significado nas transacções.
Exceptuados alguns anos do reinado fernandino, a situação manter-se-ia sem grandes modificações até ao primeiro quartel do século XV. Neste Portugal vivia um milhão de pessoas hierarquizadas em classes, subclasses, grupos e subgrupos. Havia a nobreza, o clero e o povo.
Mas nobreza não traduzia uma única classe social:
  • ricos-homens,
  • infanções,
  • cavaleiros e escudeiros distinguiam-se com nítidez por códigos de comportamento, de direitos e de deveres bem diferenciados.
Breve se diluíram os infanções, se obliterou o termo de cavaleiro como grau tércio da classe superior, se esqueceu o significado primitivo de rico-homem. Nos fins do século XIV e no século XV, havia vassalos do
rei, havia cavaleiros e havia escudeiros. A expressão «fidalgo» aparece nos textos, e a linhagem, mais do que os feitos de armas ou os cargos recebidos, estava na base da autêntica nobreza. É que um novo perigo, o da infiltração da burguesia, ameaçava a integridade do sangue.

Cortesia de kleffersonfarias
O burguês, que era sobretudo o grande mercador, procurava libertar-se da categoria de vilão em que se encontrava, ascender à cavalaria ou, pelo menos, assumir lugar próprio e aparte». In A Sociedade Medieval Portuguesa, Aspectos de Vida Quotidiana, A. H. Oliveira Marques, Esfera dos Livros, 6ª edição 2010, ISBN 978-989-626-241-9.

Cortesia de Esfera dos Livros/JDACT

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A Sociedade Medieval Portuguesa: «De norte a sul, o panorama da aglomeração populacional apresentava-se de maneira muito diferente. Até à linha do Tejo, com excepção de Braga, de Guimarães, do Porto, de Coimbra e da Guarda, não existiam praticamente cidades, e as próprias vilas eram pequenas e mal cuidadas»

Cortesia de umolharsobreomundodasartes
 
«Um vasto matagal entresachado», assim definiu o historiador Costa Lobo, o Portugal do século XV. Era um exagero, baseado numa frase isolada do seu contexto, da Crónica de D. Duarte, de Rui de Pina. Mas tinha o seu fundo de verdade. Florestas e brenhas cobriam grande parte do País, convertendo-se em óptimo refúgio de feras e de animais bravios. Aqui e além vislumbrava-se um montículo de casas, centro periférico de alguns campos arroteados que lhe sustentavam a população.
É verdade que o Minho, a Estremadura ou certas zonas litorais nortenhas e algarvias escapavam um pouco a esse panorama desolador. Aí existia dispersão de povoamento, aldeias ainda mais pequenas mas casais espalhados pelos vales, pelas faldas das montanhas e pelas raras planícies.
A população era escassa:
  • um milhão de habitantes ou pouco mais, distribuindo-se irregularmente de norte a sul, atingindo máximos e mínimos de densidade onde ainda hoje os atinge, não excedendo na média os onze habitantes por quilómetro quadrado. Houve, é certo, subidas e descidas ao longo dos três séculos do Portugal medieval.

Cortesia de umolharsobreomundodasartes
O milhão de base pode ter sido suplantado entre os meados do século XIII e os meados do século XIV, quando a paz e a prosperidade do Reino se sucederam aos tempos árduos da Reconquista; mas baixou também desde a Peste Negra de 1348, ou mesmo antes, para só se recompor uma centúria mais tarde.
De norte a sul, o panorama da aglomeração populacional apresentava-se de maneira muito diferente. Até à linha do Tejo, com excepção de Braga, de Guimarães, do Porto, de Coimbra e da Guarda, não existiam praticamente cidades, e as próprias vilas eram pequenas e mal cuidadas. Os grandes núcleos de habitantes encontravam-se no sul, herdeiro das tradições romana e islâmica:
  • Leiria, Santarém, Tomar, Torres Vedras, Lisboa, Almada, Setúbal, Estremoz, Elvas, Olivença, Évora, Beja, Mértola. Lisboa, onde a corte e a administração pública se foram gradualmente fixando, avultou também entre as demais cidades.

Cortesia de umolharsobreomundodasartes
Tão importante como Guimarães, Coimbra ou Santarém no século XII, Lisboa destacava-se já claramente cem anos depois, para alcançar três vezes mais habitantes do que qualquer outra desde os finais do século XIV. A expressão de que «Portugal é Lisboa» encontramo-la já esboçada por essa altura. E isto apesar da preferência concedida por muitos monarcas a várias cidades, vilas e aldeias, onde chegavam a passar mais tempo do que na capital.
Entre as diversas regiões do país as comunicações eram escassas e assentavam quase exclusivamente nas condições do solo. Se este era plano, com facilidade de traçar veredas de terra batida, atalhos ou estradas, se havia rios navegáveis ou linha de costa pouco distante, os, transportes faziam-se com relativa regularidade e rapidez. pelo contrário, florestas e matagais, serranias, rios acidentados isolavam quase por completo certas áreas do Reino, como certas aldeias e distritos, obrigando-as a viver vida aparte.

Cortesia de sacralidade

Cortesia de ecosdotempo
Mas a facilidade de comunicações não era bastante para diluir os propósitos localistas e o espírito de bairro que animava todos, os, municípios durante a Idade Média, ajudando a travar o surto de uma consciência nacional, que só a unidade de língua e a necessidade de defesa contra o Castelhano puderam ao fim cimentar.
Portugal vivia principalmente da agricultura: cereais, vinho, azeite onde se dava, constituíam a trilogia do lavrador português. Exportava-se quase somente vinho, às vezes algum azeite, muito raramente trigo, porque nem um nem o outro chegavam em regra para alimentar a população. Nas zonas litorais, a pesca e o sal desempenhavam lugar de relevo, tanto na nutrição comum como na prática do comércio. O sal enriquecia cópia de mercadores lisboetas, setubalenses e aveirenses que o exportavam com bons lucros para os países nórdicos». In A Sociedade Medieval Portuguesa, Aspectos de Vida Quotidiana, A. H. Oliveira Marques, Esfera dos Livros, 6ª edição 2010, ISBN 978-989-626-241-9.

Cortesia de Esfera dos Livros/JDACT