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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O Segundo Livro de Visões de Cataldo Sículo. Helena C. Toipa. «… mas o excelso rei, senhor e pai das coisas, proibiu o meu regresso aos teus tectos, até que, vencido pelas tuas lágrimas, pela tua virtude e pela tua fé, me ordenou que viesse, abandonando o celestial assento…»

Cortesia de wikipedia

Uma introdução à sua leitura
«(…) E o sinal positivo da morte, refúgio e descanso perante uma vida inclemente e dura, manifesta-se, por exemplo, na utilização de certas palavras em sentido oposto ao habitual; assim, a morte é a vida, morrer é receber a luz: A queda do cavalo não foi para mim a morte, mas a vida. Assim o determinou o eterno Deus: a luz, não ma tirou, deu-ma (pertence ao ideário cristão, mas também ao de certas filosofias clássicas, como o platonismo e o pitagorismo, esta crença na verdadeira vida que se vive após a morte). Sendo a morte o início da verdadeira vida, não é coerente ou apropriado, pois, chorar continuamente o morto: porque derramas tu, minha querida mãe, lágrimas vãs? Porque sofres, se não existe causa para tanta dor? A crença na vida eterna em Deus, na verdadeira vida após a morte, na ressurreição: que coisa melhor, mais suave e mais santa pode, pois, ser desejada por um mortal, em piedosos votos, do que viver uma vida superior, para sempre infinita, e participar no bem eterno? Aqui afligem-nos constantemente tristezas prementes, trabalho permanente e dor contínua. É uma das características que marcam, neste texto, a forte presença dos ideais cristãos. Esta presença está, desde logo, expressa na configuração do texto, escrito sob a forma de Visão: a um ser vivo é mostrada, por alguém que já morreu fisicamente, um mártir, um santo, um homem bom, a felicidade em Deus (Deus que, pelos epítetos e antonomásias por que é nomeado, revela as características do Deus da Bíblia; ele é Deus passim, Deus aeternus, Deus ardens, regnator, rex excelsus rerum dominusque paterque, rex uerus regnator excelsi Olympi, summus genitor, immensum perpetuumque Deum, auetorem Deum, omnipotens, e Dominus. A Visão é um género literário medieval, de que existem alguns exemplos nos nossos relatos hagiológicos. Diz Clara Lucas: É de sempre o desejo humano de construir neste mundo de lágrimas um espaço de felicidade para o qual se encaminhe o homem justo, espécie de recompensa para todo aquele que souber encarar esta vida como antecâmara de uma outra vida melhor.
Afonso, que vivia nos céus, entre as estrelas (passim) e uma multidão de anjos e santos, desce à terra, por especial condescendência de Deus: mas o excelso rei, senhor e pai das coisas, proibiu o meu regresso aos teus tectos, até que, vencido pelas tuas lágrimas, pela tua virtude e pela tua fé, me ordenou que viesse, abandonando o celestial assento. Que se comovera com o sofrimento e com a virtude da rainha (uma referencia à sua piedade e religiosidade, que a tornaram digna de ser contemplada com a visão do filho), e revela-lhe o motivo de ser a vida humana tão cheia de sofrimento e incerteza: é que, para se alcançar a felicidade em Deus, isto é, o bem perpétuo e eterno, é preciso saber merecê-lo: e, como o Criador havia de dar a este filho um bem celestial, perfeito e perpétuo, assediu-o com mil sofrimentos e outros tantos perigos, vencidos os quais lhe daria as recompensas devidas. E lembra-lhe, então, a quantidade de perigos, sofrimentos e temores que afligem o homem: a presença obsidiante da morte, rodeando-o com as suas negras asas, que o atormenta mais que a morte em si, as doenças, os perigos súbitos, a pobreza ou o inesperado empobrecimento, a avareza, a adversidade e a infelicidade, a fragilidade da existência, que o mais insignificante verme pode aniquilar. E como é frágil a existência! Morre-se, infelizmente, muito facilmente afogado durante um naufrágio, enforcado ou trespassado por um gládio suicida, quando a adversidade é incomportável, fulminado por um raio, e ainda por acção de água gelada bebida em hora imprópria, de uma telhazita que ocasionalmente atingiu o alvo ou de uma grainha de uva que impertinentemente provocou a asfixia daquele que a saboreava (diz a tradição, veiculada por autores como Plínio, o Velho, ou Valério Máximo, que o poeta Anacreonte morreu desta forma: digo o mesmo de Anacronte que, ainda assim, tinha já ultrapassado o termo estabelecido para a vida humana. Como sugasse o sumo de uma uva passa, para alimentar as fracas forças que lhe restavam, uma grainha verde, que se alojou pertinazmente na sua garganta seca, levou-lhe a vida.
Plínio, o Velho, constatara também, na sua Historia Natural, a fragilidade da vida humana, dizendo: e mesmo hoje é ainda necessário menos (para aniquilar o homem); a mordedura de um minúsculo dente de serpente ou, como para o poeta Anacreonte, uma grainha de uva passa, ou ainda, como para Fábio, que foi senador e pretor, um simples pelo numa golada de leite, que lhe provocou a asfixia. Mas muitas outras causas há de morte: os animais, dos domésticos aos vermes mais insignificantes, provocam-na e o mesmo acontece com alguns vegetais. A fome, a peste, a guerra, as catástrofes naturais, tudo, enfim, reclama o seu quinhão. Até sentado se pode morrer, como aconteceu com Álvaro Portugal, apresentado como exemplo. Mas o homem merece sofrer tantas adversidades, pelos pecados que comete; resgatá-los-á não só após a morte, mas também, e principalmente, em vida, no decurso da qual é constantemente assediado por aquela: mas merecemos sofrer tão grandes adversidades por causa dos nossos pecados; todos nós somos, assim, castigados com merecido açoite; os homens não resgatam os seus delitos apenas depois da morte; uma inesperada punição atormenta os pecadores antes de morrer; (...);creio que o verdadeiro perigo não é a morte em si, mas a ameaça de morte, que se nos declara a qualquer hora». In Helena Costa Toipa, O Segundo Livro de Visões de Cataldo Sículo, Uma introdução à sua leitura, Universidade Católica, Centro de Viseu, Revista Humanitas, volume XLV, 1993, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

sábado, 17 de janeiro de 2015

O Segundo Livro de Visões de Cataldo Sículo. Helena C. Toipa. «Era de dezaseis anos e casado de octo meses perfecto entre os mudanos muy quisto dos castelhanos descanso dos portugueses hua triste terça feira correndo hua carreira em hum cavallo cahio nunca falou…»

Cortesia de wikipedia

Uma introdução à sua leitura
«(…) Não nos ficaram, nas crónicas, referências muito detalhadas ao príncipe, apenas adolescente quando morreu, à sua cultura ou à sua personalidade. Conhecemos, isso sim, as descrições necessariamente elogiosas dos poetas, nomeadamente de Cataldo. Leia-se esta passagem da Oração proferida por Cataldo à chegada da Princesa Isabel a Portugal, diante da porta da cidade de Évora: Se observardes nele a elegância do corpo, a forca e a hábil disposição para todas as práticas honestas, com verdade e segurança direis que apenas na criação deste príncipe esgotou a natureza toda a sua força. De grande estatura, aparência viril, olhos vivos, cabelo louro, de cor branca com um rubor muito a propósito. (...) E quanto aos seus costumes, talento, afabilidade, modéstia, piedade, liberalidade e demais dotes do espírito, nunca, segundo o parecer dos homens sábios, nem nos nossos tempos nem nos antigos se viu, ouviu ou leu, nos livros de quaisquer autores, alguém que o excedesse. É nele tão grande a ponderação, que tudo quanto diz e faz não parece ter origem num rapaz de quinze anos, mas num idoso Catão.
Chegados à idade aprazada, os príncipes casaram, por palavras de presente, no meio de grandes festejos e alegria geral. Os preparativos para as celebrações e as próprias celebrações prolongaram-se por longos meses e não foram muito afectadas pela morte da infanta dona Joana, irmã do rei João II. Durava ainda o clima festivo quando, em 12 de Julho de 1491, se deu, nas margens do Tejo, na ribeira do Alfange, perto de Santarém, o trágico acidente que vitimaria o príncipe. Com ele morreram, então, na cabana de um pobre pescador, os sonhos de uma Península politicamente unificada e pacificada, governada pelos herdeiros das suas duas maiores casas reais: a de Portugal e a de Castela/Aragão. Considerando a alegria que se viveu, por largos meses, em Portugal, com este casamento; os preparativos faustosos para os festejos: os divertimentos ininterruptos; os lautos jantares; a participação de toda a nobreza portuguesa, de artistas e de artesãos; a felicidade dos príncipes, na flor da idade, saudáveis e com um auspicioso futuro; considerando, enfim, tanta esperança e júbilo, perante a morte repentina de Afonso, bem poderíamos dizer como Faria Sousa … por cierto que quien ocho meses antes le uviera visto gozar de los mayores triunfos, regalos, y regozijos, y agora le pudiera ver tendido sobre un poco de heno, en la miserable cavana de um pescador, no tendria que pidir para componerse mayor espejo à la fortuna.
No Segundo livro de Visões, Cataldo reflecte também sobre esta contingência da existência humana, tentando justificá-la á luz dos conceitos cristãos. A morte do príncipe provocou a consternação geral e reflectiu-se na literatura. Com efeito, muitos poetas a lamentaram, em versos de tom elegíaco. Salientemos, apenas, três composições do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende: Trovas de Álvaro Britto, à morte do principe Dom Afonso, que Deos tem; De Dom Joâ Manuel ha morte do Prinçepe Dom Affonso, que Deos tem, em modo de lamentaçam e De Luys Anrryquez aa morte do Prinçepe Dom Affonso, que Deos tem. O mesmo Garcia de Resende alude, na sua Miscelânea, ao trágico acontecimento:

«Era de dezaseis annos
e casado de octo meses
perfecto entre os mudanos
muy quisto dos castelhanos
descanso dos portugueses
hua triste terça feira
correndo hua carreira
em hum cavallo cahio
nunca fallou nem bolio
e morreo desta maneira»

Cataldo, além dos muitos epitáfios que lhe dedicou, escreveu também obras de maior fôlego, como o Segundo livro de Visões ou o De Obi tu Principis Alphonsi, em quatro livros. Neste Segundo livro de Visões. Cataldo recorre ao artifício poético de uma fantástica visita/aparição do espírito de Afonso a sua mãe. No decurso desta e de posteriores visitas, o príncipe, e, através dele, o poeta, entrega-se a profundas e extensas considerações sobre a vida e a morte do homem, em geral. O texto faz supor um tom elegíaco, mas a sua finalidade não é lamentar ou chorar desesperadamente aquele que morreu; é, antes, consolar os que ainda vivem e libertá-los do sofrimento: Muitas vezes desejei eu renunciar à companhia dos santos e demandar os reinos paternos, vindo do mais alto do céu, para te consolar, minha triste mãe, para te libertar do luto e para te fazer abandonar esse jeito de tristeza. Na verdade, o príncipe passara para um mundo melhor, completamente diferente da terra, onde gozava da companhia dos anjos e de Deus, calcorreando os caminhos celestes: Choraste-me como se eu estivesse privado do dom da vida, enquanto eu vivia entre os céus e os coros gloriosos. Esta ideia, marcada pelas concepções cristãs da morte, transforma o carácter negativo desta em possibilidade de ascender a uma nova vida mais feliz, em salvação e em glória. A vida sobre a terra toma, agora, o carácter negativo: ... mostrarei que todas as coisas estão repletas de medo sem sentido e que nada há de agradável para os que levam uma vida vazia». In Helena Costa Toipa, O Segundo Livro de Visões de Cataldo Sículo, Uma introdução à sua leitura, Universidade Católica, Centro de Viseu, Revista Humanitas, volume XLV, 1993, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O Segundo Livro de Visões de Cataldo Sículo. Helena C. Toipa. «Os historiadores não nos esclarecem sobre as causas da sua morte, mas Cataldo, cometendo talvez uma indiscrição, diz-nos que ela ocorreu subitamente, após uma lauta ceia, parecendo estabelecer, assim, uma relação de causa-efeito»

Cortesia de wikipedia

Uma introdução à sua leitura
«(…) Estes versos referentes a Isabel, a Católica, dizendo que, quando descera pela primeira vez do céu à terra, o espírito do príncipe fora conduzido por sua sogra, fornecem-nos a pista necessária para concluirmos com exactidão sobre a data dramática do texto e provavelmente sobre a sua redacção.

NOTA: Álvaro de Portugal era o quarto filho de Fernando e dona Joana de Castro, 2.os duques de Bragança. Teve um papel importante nos reinados de Afonso V (a quem assistiu na guerra com Castela e que acompanhou na viagem a França) e do monarca Manuel (intervindo, por exemplo, nas negociações dos casamentos deste rei com dona Isabel e com dona Maria, filhas dos Reis Católicos). Foi, por isso, agraciado com várias honras e senhorios. O mesmo não acontecera, porém, no reinado de João II. Ao cair em desgraça a Casa de Bragança, em 1483, Álvaro foi aconselhado a abandonar o país, sendo-lhe confiscados todos os bens. Encontrou refúgio, para si e para a sua família, da qual faziam parte seus dois sobrinhos, Jaime e Dinis, filhos de Fernando II, 3.º duque de Bragança, justiçado em Évora, na corte dos Reis Católicos, onde foi muito bem acolhido e onde prestou bons serviços. Regressou a Portugal, com toda a sua família, ao subir ao trono Manuel I. Morreu em Toledo, em 1504, durante uma viagem a Castela, provavelmente ao serviço do rei Manuel I. Os historiadores não nos esclarecem sobre as causas da sua morte, mas Cataldo, cometendo talvez uma indiscrição, diz-nos que ela ocorreu subitamente, após uma lauta ceia, parecendo estabelecer, assim, uma relação de causa-efeito. Isabel, a Católica, sogra de Afonso, morrera em 1504. A primeira visita de ambos à terra, aos vivos, é narrada por Cataldo, na sua Primeira Visão: Entretanto, vejo descer do alto do céu um pequeno carro, que se distingue por uma rica pedra preciosa. Na parte da frente, estava sentada uma mulher, na parte de trás, um jovem mais branco do que a prata ou a neve. Este não era conduzido por cavalos, ou por movimento de rodas velozes; espontaneamente dirigia o seu caminho pelo meio do ar. A mulher que ia sentada, na parte da frente, era Isabel, outrora tua mãe. Quanto ao lindíssimo jovem, de face brilhante, era Afonso, de quem Leonor fora mãe. (Amélia da Encarnação Dias, Visões(livro I) de Cataldo Sículo, Universidade de Coimbra. 1969).

Com efeito, esta primeira visita do príncipe à terra, acompanhado da sogra, é referida no Primeiro livro de Visões, dirigido a dona Maria, filha da rainha mencionada e segunda mulher de Manuel I. No final deste mesmo poema, podemos 1er: Passaram dez anos e até então não fora aplacada esta mágoa, nem a dor se tornara mais leve. Sem cessar, quase renovada, atormentava o seu interior e exterior. Perdera o riso, perdera a alegria! Eis que o bom Deus acrescentou cinco aos dez anos. Acalmou o luto e pôs-lhe um termo, isto é, observadas as virtudes da mãe, privada de seu filho, fez aquilo que a nenhuma mãe fizera anteriormente. Restitui o filho à vida e ao vigor próprio, semelhante ao que ele era outrora em vida. Tendo o príncipe morrido em 1491, visitara a mãe, pela primeira vez, quinze anos depois, isto é, em 1506. Afonso nascera a 18 de Maio de 1475, ainda em vida de seu avô Afonso V, que logo o reconheceu por herdeiro, no caso de morrer o ainda príncipe João. Por ansiosamente esperado, o seu nascimento foi muito festejado: tratava-se do primeiro filho do único filho do rei, que não esperava descendência de sua filha dona Joana, atendendo à sua vocação religiosa. João II e dona Leonor não tiveram, além deste, outro filho.
Desde os cinco anos, viveu longe de seus pais, sob os cuidados de sua avó dona Beatriz, em situação de terçarias (isto é, sob o cuidado de terceiros), em Moura, juntamente com sua prima Isabel, aproximadamente da mesma idade, filha de Isabel, a Católica, com a qual, de acordo com o mesmo tratado que estabelecera as terçarias, deveria casar aos sete anos, por palavras de futuro, e aos catorze, por palavras de presente. O Tratado das Terçarias fora firmado em 1479, na sequência das guerras entre Portugal e Castela, ou melhor, entre o partido que pretendia, no trono de Castela, dona Isabel (irmã de Henrique IV de Castela) e Fernando, e o que preferia ver, aí, o nosso Afonso V que casara com a legítima herdeira, sua sobrinha, dona Joana (a Beltraneja, entre os castelhanos, que a davam como filha não de Henrique IV, mas de Béltran de la Cueva; a Excelente Senhora, entre os portugueses). Por esse tratado, estabeleciam-se, entre outras, as seguintes condições:
  • Dona Joana casaria com o príncipe Juan, seu primo, filho dos Reis Católicos, e, neste caso, ficaria também em terçarias com dona Beatriz, ou recolheria a um convento, como realmente aconteceu, professou no Convento de Santa Clara de Coimbra; 
  • Os filhos dos reis portugueses e dos Reis Católicos, Afonso e dona Isabel, ficariam aos cuidados de dona Beatriz e da Casa de Bragança, longe da influência e poder dos pais, até poderem casar.
Por desavenças e suspeitas de traição em relação à Casa de Bragança, João II desenvolveu esforços, em 1483, para pôr fim às terçarias, pelas quais nenhum dos régios pais podia visitar os filhos, e para trazer Afonso para junto de si. Conseguiu-o nas seguintes condições: o príncipe casaria com a filha segunda dos Reis Católicos, dona  Joana; mas, se ao cumprir o infante 14 anos, dona Isabel ainda estivesse por casar, seria ela a noiva e futura esposa, como realmente veio a acontecer alguns anos mais tarde. Durante este interregno, Afonso viveu e foi educado na corte. Para orientação da sua educação terá contribuído também Cataldo (sendo difícil de concluir se foi mesmo seu professor), que escreveu alguns trabalhos destinados ao seu aperfeiçoamento e que aconselhou o rei sobre o assunto». In Helena Costa Toipa, O Segundo Livro de Visões de Cataldo Sículo, Uma introdução à sua leitura, Universidade Católica, Centro de Viseu, Revista Humanitas, volume XLV, 1993, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O Segundo Livro de Visões de Cataldo Sículo. Helena C. Toipa. «Quanto aos Poemata, foram provavelmente publicados num dos anos imediatos, talvez em 1502; foram objecto de reimpressão em 1569, por parte de António Castro, que desconhecia a edição em vida do autor e que supunha estar a editá-los pela primeira vez»

Cortesia de wikipedia

Uma introdução à sua leitura
«Durante os cerca de 32 anos que viveu entre nós (1485-1517?), Cataldo Sículo confiou aos impressores residentes em Portugal a publicação da sua vasta obra. Assim, em 1500 (sobre a data não há quaisquer dúvidas, pois o cólofon é explícito a este respeito), Valentim Fernandes Moravia, que exerceu a sua actividade sob a protecção de dona Leonor e de Manuel I, imprimiu-lhe as Epistolae et Orationes quaedam. A edição das restantes obras, a saber, Poemata, Epistolae et Orationes secunda pars e Visiones, que não trazem qualquer indicação cronológica, é, porém, como demonstra Luís de Matos, posterior a esta.

NOTA: O humanista Cataldo Parísio Sículo terá vindo para Portugal por volta de 1485, por intermédio do futuro bispo de Lamego, Fernando Coutinho, para cuidar, a pedido de João II, da educação de Jorge, filho ilegítimo do rei. Viveu, por isso, entre 1487 e 1490, provavelmente, em Aveiro, onde o seu aluno era educado, já desde os três meses de idade, pela Infanta dona Joana, sua tia paterna, que residia no Mosteiro de Jesus desta cidade. Depois da morte da Infanta, em Maio de 1490, por vontade do rei e com consentimento da rainha dona Leonor, Jorge deslocou-se para a corte e, com ele, o preceptor. Em Portugal, Cataldo foi, além de mestre de latinidade e de preceptor, jurisconsulto, secretário latino de reis e orador oficial de João II e provavelmente Manuel I, e ainda cultor das Musas. Com efeito, em 1490, já na corte, participou nos festejos de casamento do príncipe Afonso; foi ele quem escreveu e pronunciou, às portas de Évora, a oração de entrada à princesa dona Isabel, filha dos Reis Católicos (e será escolhido para idêntica tarefa, alguns anos mais tarde, quando da entrada em Santarém da rainha dona Maria, segunda esposa de Manuel I). E quando, meses mais tarde, o príncipe, em cuja educação terá também colaborado, morreu, dedicou-lhe inúmeros epitáfios, entre outras composições de maior fôlego. Cataldo estava vivo e ainda em actividade em 1516, facto que se depreende da referência que Estêvão Cavaleiro lhe faz no Prólogo da Noua grammatkes marie matrix dei virginis ars, saída a público neste ano, conforme Américo Costa Ramalho.

Quanto aos Poemata, foram provavelmente publicados num dos anos imediatos, talvez em 1502; foram objecto de reimpressão em 1569, por parte de António Castro, que desconhecia a edição em vida do autor e que supunha estar a editá-los pela primeira vez. As duas outras obras foram publicadas, tendo em consideração a cronologia de certos factos históricos mencionados nos textos, provavelmente por volta de 1513-1514, se bem que as composições que as constituem tivessem sido redigidas em anos diferentes. Os cinco livros das Visiones e outras composições incluídas no mesmo volume estariam, pois, prontos para publicação nesta data, mas foram redigidos em anos diferentes, como poderemos constatar, de seguida, com o Segundo livro de Visões, que foi redigido provavelmente em 1506. O Segundo livro de Visões, de carácter profundamente religioso, dedicado à muito Sábia e Santa Rainha D. Leonor, está escrito em tom elegíaco e tem como fio condutor a fantástica aparição à rainha de seu filho Afonso, morto havia alguns anos. Com este artifício poético, o autor propõe-se, mais do que lamentar a morte do príncipe, consolar a mãe no seu sofrimento de tantos anos, entrando assim em profundas considerações sobre a fragilidade e instabilidade da vida do homem, na terra: sobre os medos e sofrimentos que o afligem; sobre a sua insanidade e frivolidade; sobre a conduta que, por ele, deve ser preferida; sobre a recompensa que espera todo aquele que age correctamente em vida; merecer ser elevado aos astros e ser colocado entre as estrelas, isto é, merecer, depois da morte, a verdadeira vida, ideal bem cristão da ressurreição para a vida eterna. Logo nos versos iniciais deste extenso poema, se faz alusão a um surto de peste, que levara dona Leonor a refugiar-se em Alenquer, vila de sua jurisdição. Consultando Damião de Góis e conjugando este acontecimento com outros elementos do texto, podemos concluir que se trata da peste que, em finais de 1505, começou a grassar em Lisboa, levando a corte a refugiar-se em Almeirim.

NOTA: Diz-nos Damião de Góis, na Crónica do Felicíssimo Rey D. Emanuel, I Parte, cap. XCIV: Neste anuo como atras fica scrito mandou el Rei a Roma dom Diogo de Sousa, Bispo do Porto, o qual depois de ter negociado as cousas que levava ocora cargo, e ser Arcebispo de Braga, se tornou ao Regno por mar, depois da chegada do qual a Lisboa, que foi no mes Doctubro. se ateou logo peste tambrava na cidade, de huma nao que vinha em sua companhia tocada sem o elle saber, que foi necessário írse el Rei com toda sua casa para Almeirim, a qual pestilença se espalhou por todo o regno, e foi uma das mais bravas, e cruel que em muitos tempos se acha, que ouvesse nenhuma outra parte da Hispanha.

A data apontada pode ser confirmada por outros dados fornecidos pelo poema, a saber: a referência dos vv. 61 e 62 a João II, que nos permite concluir que ele já morrera, o que, desde logo, aponta a redacção para depois de 1495: a menção das mortes de Álvaro Portugal (vv. 209-212) e de Isabel, a Católica, (vv. 91-92), ocorridas ambas no ano de 1504, o que nos leva a concluir também que o texto é posterior a esta data. Estes versos referentes a Isabel, a Católica, dizendo que, quando descera pela primeira vez do céu à terra, o espírito do príncipe fora conduzido por sua sogra, fornecem-nos a pista necessária para concluirmos com exactidão sobre a data dramática do texto e provavelmente sobre a sua redacção». In Helena Costa Toipa, O Segundo Livro de Visões de Cataldo Sículo, Uma introdução à sua leitura, Universidade Católica, Centro de Viseu, Revista Humanitas, volume XLV, 1993, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

sábado, 6 de dezembro de 2014

Três Momentos na Existência do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. Helena C Toipa. «… Boletim da Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa, em 1921, com o título Livro que fala da boa vida que fez a Raynha de Portugal, Dona Isabel, e dos seus bõos feitos e milagres em sa vida e depoys da morte»

Cortesia de wikipedia

«Foi recentemente trazido de novo à luz, liberto das águas e das areias do Mondego, o que resta do complexo de edifícios que constituía o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha e anexos. E o que resta é simplesmente a Igreja e o Claustro, pois os outros edifícios, também mandados construir pela Rainha Santa Isabel, já tinham desaparecido antes da acentuada submersão do mosteiro, segundo testemunho de autores contemporâneos desses desaparecimentos. Quando falamos do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, a associação à figura da Rainha Santa Isabel é imediata, pelo papel fundamental que ela teve na sua construção e florescimento. Por isso, as biografias desta rainha apresentam, todas elas, como não podia deixar de ser, informação sobre a sua dedicação e o seu empenho na construção e manutenção desta complexa edificação, que incluía igreja, claustros, um paço régio onde costumava alojar-se quando residia em Coimbra, para estar próxima das clarissas, e alojamentos para homens e mulheres carenciados, de vida honesta, com a respectiva igreja e cemitério. O primeiro documento biográfico da rainha é um texto de autor desconhecido, que andou manuscrito por muito tempo na biblioteca do Mosteiro, onde foi consultado por todos os biógrafos seguintes e cronistas que se debruçaram sobre os reinados de Dinis I e Afonso IV, e que foi escrito muito pouco tempo depois da sua morte, que ocorreu em 1336; foi editado pela primeira vez por fr. Francisco Brandão, na Monarchia Lusitana, parte VI, com o título Relaçam da vida da gloriosa Santa Isabel, Rainha de Portugal, e depois reeditado, com nova leitura e mais completa, por José Joaquim Nunes, no Boletim da Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa, em 1921, com o título Livro que fala da boa vida que fez a Raynha de Portugal, Dona Isabel, e dos seus bõos feitos e milagres em sa vida e depoys da morte. É este último texto que seguiremos e citaremos, referindo-o pela designação tradicional de Lenda da Rainha Santa.
Neste texto se refere a origem do monumento e o papel da rainha para a resolução do impasse a que se tinha chegado depois de longa contenda judicial e o empenho e entusiasmo que colocou na edificação do Mosteiro onde, depois de viúva, viria a passar grande parte do seu tempo e em cuja igreja escolheu ser sepultada. O mosteiro de Santa Clara teve um início atribulado; fora fundado por D. Mór Dias, uma abastada dama da nobreza que, decidindo afastar-se do mundo, recolhendo-se num mosteiro, em 1250, sem, no entanto, professar, para poder continuar a possuir e a administrar os seus bens, começara por escolher para a sua reclusão, o mosteiro feminino da Ordem de Santa Cruz, em Coimbra, onde viveu algum tempo, aparentemente em situação de poder dispor dos seus bens. Poucos anos depois, por volta de 1278, mandava ela construir, junto do Mondego, umas casas e, em 1283, obtinha autorização para fundar um mosteiro onde pudesse recolher-se, da ordem de Santa Clara, dedicando-o a Santa Isabel de Hungria. Os Cónegos Regrantes de Santa Cruz, no entanto, não aceitaram pacificamente esta transferência de D. Mór Dias e da sua fortuna para outra instituição e iniciaram contra ela uma demanda, argumentando que tinha professado na sua ordem e que, como tal, quer a pessoa quer os seus bens lhes pertenciam. O conflito prolongou-se por vários anos, contando mesmo com a intervenção da Santa Sé, quer em vida da fundadora, quer depois da sua morte, que ocorreu em 1303. Finalmente, por decisão do tribunal, favorável aos frades de Santa Cruz, as clarissas foram expulsas e o mosteiro ficou desabitado. In Lenda, 1921.
Foi a intervenção da rainha D. Isabel de Aragão que veio dar novo alento à iniciativa de D. Mór Dias: contribuiu para a composição das partes em litígio; solicitou autorização para fundar um mosteiro de invocação a Santa Clara, naquele mesmo lugar onde o quisera D. Mór Dias, mas agindo como se começasse de novo, comprando os terrenos em redor, e planeando uma grande construção, cujas obras decorriam já em 1316. O mosteiro conheceu, após a intervenção da rainha, o seu grande desenvolvimento. In Lenda, 1921. Para seguir de perto e orientar a construção, quando estivesse em Coimbra, a rainha mandou construir, nas proximidades, uma casa para si e para os seus, que posteriormente acompanhou de outros edifícios, destinados a um hospício que albergaria separadamente 15 homens e 15 mulheres pobres, com a respectiva capela e cemitério consagrados; estes edifícios ficariam, à sua morte, propriedade do mosteiro. In Lenda 1921. A Rainha decidiu também escolher para seu eterno descanso a igreja do Mosteiro e tratou de mandar fazer o seu túmulo. Foi colocado no meio da Igreja, mas desde logo, as águas do Mondego se mostraram ameaçadoras, dando sinal já do destino que havia de sofrer esta vasta edificação, que foi conquistada, ao longo dos séculos, pelas águas, das quais só recentemente se voltou a libertar». In Helena Costa Toipa, Três Momentos na Existência do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, Revista Humanitas nº LXI, Universidade de Coimbra, 2009, ISSN 0871-1569.

Cortesia da UCoimbra/JDACT