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quinta-feira, 11 de abril de 2013

O Sábio Imortal. Sócrates. Miguel Betanzos. «Ainda assim conseguiu retirar forças do seu próprio atordoamento. - Já chega! Já chega por favor! - Irrompeu quase engasgado pelas próprias palavras. - Calem-se, senhores, que agora sim é a vez de Aristófanes!»

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«Uma nova perturbação impediu Erixímaco de continuar com o seu discurso, mas desta vez não foi um guincho ou inalação, mas o profundo e atento silêncio com que todos observavam Aristófanes, o interesse com que seguiam os seus movimentos, com que espiavam quase enfeitiçados aquele jovem que parecia cada vez mais incomodado e irritado com o ataque de soluços. Pelo que se via, o rosto tinha começado a ruborizar-se, a tornar-se numa estranha cor púrpura, e dado que o remédio dos gargarejos fracassou, agora empenhava-se em achar alguma pluma, ou pau, algo que lhe provocasse cócegas no nariz para se livrar de uma vez por todas daquele fastidioso aborrecimento.
Erixímaco levantou a voz com visível exasperação. - Dizia que a medicina é harmonia - observou quase a gritar perante os amigos - e a harmonia não é mais do que a concordância entre os elementos opostos. Por conseguinte, o amor deve estar presente para animar a concórdia e conseguir que... Um profundo, sonoro e grotesco espirro veio mais uma vez interromper o discurso do médico, e durante alguns instantes emudeceu não só o orador como um flautista que ensaiava o seu instrumento e os escravos que cochichavam na sala ao lado. Todos emudeceram de repente, todos ficaram rígidos perante o estrondoso bramido, com as bocas abertas de admiração, os copos parados no ar da sala que também pareceu aquietar-se, e enquanto os olhares de todos se concentravam na figura de Aristófanes, agora por fim liberto dos soluços, podia pensar se que aquela cena imóvel, parada no tempo, duraria para sempre, para toda a eternidade, poderia pensar-se que toda a gente ficara petrificada com o escandaloso espirro do poeta, mas bastou a subtil insinuação de um sorriso para que de repente explodisse uma infinita sucessão de gargalhadas, de risos hilariantes, eufóricos, uma sucessão de risos desenfreados e ainda mais profundos, ainda mais sonoros, ainda mais burlescos do que o próprio espirro de Aristófanes, que não teve outro remédio senão juntar-se à algazarra com as suas próprias risotas. No meio da confusão, o jovem Fedro olhou para Erixímaco, e enquanto se agarrava à barriga do riso aconselhou-o: - É melhor interromperes o discurso, meu amigo. Está visto que os deuses não querem que fales.

Os calores aumentavam cada vez mais, acendendo o ânimo dos convidados, e aos ardores do corpo somavam-se os ardores do espírito. O dono da casa, entretanto, procurava acalmar toda a gente com trejeitos desesperados, mas ele próprio estava tão ébrio, tão visivelmente enjoado pela bebida, que falava aos tropeções e quase não conseguia fazer-se entender, e apesar de uma ou outra vez se esforçar por manter a serenidade, por conter o riso desenfreado, o seu riso pomposo e sonante, apesar de tentar esconder o rosto debaixo da mangada túnica, a impressionante figura daquele homem parecia a de um sátiro mergulhado na mais absoluta embriaguez.
Ainda assim conseguiu retirar forças do seu próprio atordoamento. - Já chega! Já chega por favor! - Irrompeu quase engasgado pelas próprias palavras. - Calem-se, senhores, que agora sim é a vez de Aristófanes! Mas de nada serviram os gritos no meio da confusão geral, porque nesse preciso momento entrou um escravo na sala com dois jarros de vinho cheios até à borda, entrou sem suspeitar que a sua presença avivaria o desvario, e bastou que alguém o descobrisse para que toda a gente se empenhasse em lhe estender o copo e alcançar aquelas fontes prodigiosas, aqueles rios de néctar que trazia debaixo do braço.
Imediatamente, um enxame de mãos suplicantes e luxuriosas atirou-se avidamente, desordenadamente, com indizível desespero para recolher mais e mais daquele vinho que transbordava dos jarros e caía em torrentes entre os convidados. E foi então que Pausânias, longe do escravo e desejoso de recolher um pouco daquela bebida, receoso de que o divino manancial se esgotasse à frente do seu nariz, se pôs de pé num tremendo e sufocante esforço e tentou aproximar-se do escravo, pesadamente, com um torpor de animal selvagem, tão obcecado pelo seu propósito, tão cego e surdo, tão apressado em alcançar o rapaz, que bastou um ligeiro tropeção na alcatifa para que toda a sua monstruosa humanidade desabasse por terra de forma estrondosa. De nada serviu o esforço de Ágaton, que esticou os braços e agarrou Pausânias por uma ponta da túnica: o tecido escapou-lhe das mãos e o obeso convidado caiu com um estrondo de pratos, copos e tigelas». In Miguel Betanzos, Sócrates, O Sábio Imortal, Editorial Sudamericana, 2005, Ésquilo, Lisboa, 2006, ISBN 972-8605-93-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O Sábio Imortal. Sócrates. Miguel Betanzos. «Alguns riram-se do desgraçado rapaz, cuja expressão grotesca parecia a de um louco alucinado, pois estava agora de joelhos e pedia aos deuses que afastassem os soluços de uma vez por todas. - Tenta gargarejar com água»

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«Enquanto o outro, o amor vulgar, que pertence a Afrodite Pandemos, eu... creio que... Pausânias interrompeu o seu discurso um instante. Notava-se que os seus esforços para falar o debilitavam. Houve um breve silêncio, uma leve rouquidão e depois, de maneira imprevista, quando todos aguardavam o remate daquela alocução, já o indisposto Pausânias começara a gesticular nervosamente com as mãos, agitando-as em frente ao rosto, assinalando a sua inchada garganta de boi, dando a entender com aquela desesperada pantomima que o seu ventre inflamado pelo generoso manjar o impedia de continuar afalar o impedia de inalar o ar necessário a emitir qualquer som que não fosse um estertor ou um afrontamento.
 - Sentes-te bem? - perguntou-lhe Fedro, ao mesmo tempo que lhe atirava ar para a cara com o leque. Não houve resposta para além de um leve gemido e um brevíssimo, tranquilizador gesto da cabeça com que Pausânias deu a entender que estava bem, apenas um pouco sufocado e não tardara a recuperar o fôlego. Rodou um pouco sobre si mesmo deixando cair a barriga nos confortáveis almofadões, afrouxando aquele enorme peso que oprimia a sua humanidade, e quando a sua respiração se conseguiu fazer de maneira mais calma e sossegada, quando se viu que já recuperara a calma, todos dirigiram o olhar para o poeta Aristófanes, que se encontrava ao lado de Pausânias e devia portanto ser o seguinte a ter a palavra.
Contudo, como o seu antecessor, o jovem poeta também se empanzinara com as delícias e manjares do banquete, comera exageradamente e agora, mercê da voracidade do seu apetite e do modo apressado com que tragou um bocado atrás do outro, teve um repentino ataque de soluços que o mortificava. O estômago retraía-se e crispava-se compassadamente a cada espasmo dos seus pulmões, os músculos do pescoço contraíam-se bruscamente, a respiração agitava-se cada vez mais e, por causa daquele aborrecido incómodo, apesar de ser a sua vez de falar preferiu cedê-la ao médico Erixímaco, não sem antes lhe pedir um método para acabar com os soluços.
 - Diz-me, por favor, o que posso fazer, pediu-lhe.
Erixímaco aproximou-se dele a gatinhar, observou-lhe os olhos, tomou-lhe o pulso e depois daquela breve auscultação observou:
  •  - Não tens nada querido amigo. E se queres parar os soluços, sustém apenas a respiração durante uns instantes. Se isso falhar, gargareja várias vezes com água, e se ainda assim não parar, então procuraremos alguma coisa para fazeres cócegas no nariz, talvez uma pena ou um raminho, e veremos se consegues espirrar.
O jovem poeta inspirou profundamente e, fiel ao conselho do médico, conteve o ar nos pulmões. Enquanto isso, obrigado pelas circunstâncias, Erixímaco pensou durante uns instantes e logo disse:
 - Cavalheiros, já que pela infausta situação do nosso amigo, me tocou a sorte de continuar com os nossos discursos, direi que será um prazer partilhar convosco a minha opinião sobre o Amor. Contudo, para começar, devo confessar uma pequena divergência em relação à opinião de Pausânias. Ele disse que apenas o amor espiritual é bom e virtuoso, mas eu digo que o amor ao corpo também o é, quando evoca o bom e o virtuoso que existe nele…
Um ruidoso silvo interrompeu as palavras do médico. Todos dirigiram os olhos para Aristófanes, que tinha estado a reter o fôlego e agora, no instante, quase pronto a rebentar, como que afogado pelo esforço titânico, largara violentamente o ar numa brutal exalação que alarmou os convidados. O jovem poeta ficou estirado no chão a ofegar, mais uma vez, com o fôlego cortado e a esforçar-se por recuperar o alento; por um momento viram-no a sorrir, feliz por ter conseguido acabar com a incómoda moléstia, mas logo de seguida um novo ataque de soluços obrigou-o a torcer-se como uma lombriga.
 - É inútil... - conseguiu murmurar. - Não consigo livrar-me deles.
Alguns riram-se do desgraçado rapaz, cuja expressão grotesca parecia a de um louco alucinado, pois estava agora de joelhos e pedia aos deuses que afastassem os soluços de uma vez por todas. - Tenta gargarejar com água - insistiu Erixímaco, que dividia a sua preocupação pelo sofrido Aristófanes ao mesmo tempo que tentava tecer o seu discurso. - Bebe dois ou três golos muito lentamente e verás que passa - e procurando retomar as suas palavras acrescentou:
  •  - Dizia, pois, queridos amigos, que o amor é bom quando agrada ao corpo, e opino que esse modo e não outro é o fito da medicina à qual tão gratamente dediquei a minha vida. A arte de Asclépio, cavalheiros, não consiste senão em descobrir as tendências favoráveis e desfavoráveis do corpo, aqueles elementos que são bons e aqueles que são nocivos, para logo favorecer os primeiros e rejeitar os segundos...
In Miguel Betanzos, Sócrates, O Sábio Imortal, Editorial Sudamericana, 2005, Ésquilo, Lisboa, 2006, ISBN 972-8605-93-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Sábio Imortal. Sócrates. Miguel Betanzos. «… mantenho que apenas essa espécie de amor, aquela que provém de Afrodite Urânia e a que podemos chamar amor espiritual, é a verdadeiramente bela e nobre, pois obriga tanto o amante como o amado a perseguir a virtude»

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«Oh sim! Desta vez não haveria lugar para os deleites amorosos, não haveria lugar para Eros, para Afrodite, para o tormentoso Príapo, não haveria lugar para acender as paixões carnais mas para animar os prazeres do espírito. Então, ao sinal do dedo do anfitrião, o obeso Erixímaco foi o primeiro a romper o silêncio. Deitado sobre uns almofadões, com a respiração agitada, algumas linhas de suor na testa, abriu a túnica para areja, a sua barriga enorme e disse: - Senhores, não vos chama a atenção que sendo o Amor uma divindade tão importante não hajam hinos e cânticos em sua honra? A pergunta ficou a pairar no ar e ergueu-se um ligeiro murmúrio entre os convidados. Era estranho, sim, era sem dúvida muito estranho o facto de os trágicos e poetas terem cantado aos heróis, às guerras e aos reis de todos os tempos, de terem celebrado cada uma das proezas imortais dos deuses, com belos poemas e hinos imortais, e no entanto o Amor, essa infinita e proverbial força que enredava homens e deuses, carecia de apologias e louvores e elogios.
Que imperdoável esquecimento teria levado os poetas a condenar o Amor à indiferença? - Por essa razão, meus amigos - continuou a dizer Erixímaco - sugiro que esta noite se fale do Amor, dar-lhe a honra que na verdade merece e que nunca teve; e para fazê-lo sugiro que cada um de nós pronuncie um discurso, o mais sábio e belo que possam soltar os seus lábios acerca do Amor. - Preferes celebrá-lo em vez de praticá-lo? - inquiriu Aristófanes com alguma picardia. Erixímaco riu de boa vontade e respondeu: - Não sou adivinho, querido amigo, e não posso saber o que nos reservam os deuses para o final desta noite. Mas agora, se a tua impaciência nos permitir, insisto que deixemos de lado os nossos desejos e discutamos acerca do Amor.
Aristófanes resmungou fingidamente entre risos, enquanto a proposta de Erixímaco era aceite e celebrada com uma nova rodada de vinho que circulou entre os convidados. Por se encontrar numa ponta da mesa, o jovem Fedro foi escolhido para iniciar o giro, para esgrimir o primeiro discurso em torno do Amor, o qual aceitou, erguendo o copo no ar e bebendo um generoso trago de vinho. Com a manga da túnica enxugou os lábios, e depois secou o suor da testa e disse: - Senhores, serei bastante breve. A meu ver, o Amor deve ser o mais antigo dos deuses, quem sabe o primeiro, tão embrionário como o próprio cosmos e feito da matéria do universo, pois segundo os mais venerados poetas da antiguidade, o Amor não tem pais e foi criado nos tempos remotos em que reinava o Caos. Era o mais antigo dos deuses, dissera Fedro, e talvez também o mais benéfico de todos, pois nada era melhor para um homem que possuir um amante virtuoso, nada, nem as riquezas nem as honras nem os títulos, nada era tão pródigo como esse indivíduo perante o qual todos os sentimentos humanos exigiam uma dimensão sublime, pois, que maior tormento para o amado do que defraudar o seu amante? Que maior vergonha do que ser surpreendido por este numa acção desonrosa?
 - Sem essa vergonha, sem esse pudor que se sente perante o ser amado - ressaltou Fedro - o homem é incapaz de obras grandes e belas. Por isso, cavalheiros, mantenho que o Amor inspira os maiores sacrifícios na criatura humana e, por conseguinte, é quem possui a força necessária para lhe conferir as mais refinadas virtudes. Com brevidade, com espantosa brevidade, o jovem explicara a sua noção do Amor, declarara os seus objectivos e propósitos, e a sua intervenção arrancou uma salva de elogios e aplausos. De repente, estalaram palmas entre os convidados, pesadamente deitados nas almofadas, que celebraram a fervente apologia do rapaz erguendo copos, rindo, assobiando, aplaudindo, bebendo até ao fundo e uma vez mais enchendo os copos até transbordarem, enchendo-os com aquele vinho forte e espesso, aquele vinho untuoso ao qual era necessário misturar água, pois bebendo-o em estado puro turvava os sentidos e provocava as fúrias dos deuses.
A seguir, foi a vez de Pausânias. Era o convidado que se seguia e, por isso, devia tomar a palavra depois de Fedro. Mas na verdade ninguém dava nada por ele, pois comera e bebera tanto que parecia estar prestes a rebentar. Os olhos orbitavam esgazeados e os lábios cobriram-se de um tom arroxeado por causa do vinho. Contudo, uma vez atenuado o burburinho, acomodou a sua obesa humanidade nos almofadões e com algum esforço disse: - Estou de acordo contigo, meu querido Fedro, e brindo à subtileza do teu discurso. Mas na minha opinião, nem toda a espécie de amor deve considerar-se bela e virtuosa. - O que queres dizer? - perguntou Fedro intrigado. - Oh, é muito simples. Como bem sabes, os nossos poetas ensinaram-nos que a deusa que incarna o amor tem dois nomes: Afrodite Pandemos e Afrodite Urânia. A primeira representa o Amor vulgar, ignorante, ignóbil, o amor daqueles que preferem o corpo em vez da alma. Inversamente, Afrodite Urania é o amor espiritual, o amor virtuoso que anima os homens justos.
A sua voz soava como um gemido rouco e entrecortado. Devido aos afrontamentos e ao calor, mas sobretudo à gulodice, Pausânias tinha de respirar a cada palavra e dava a sensação de sufocar a qualquer momento. - Por isso, meus amigos - acrescentou com enorme dificuldade - mantenho que apenas essa espécie de amor, aquela que provém de Afrodite Urânia e a que podemos chamar amor espiritual, é a verdadeiramente bela e nobre, pois obriga tanto o amante como o amado a perseguir a virtude. Enquanto o outro, o amor vulgar, que pertence a Afrodite Pandemos, eu... creio que... Pausânias interrompeu o seu discurso um instante». In Miguel Betanzos, Sócrates, O Sábio Imortal, Editorial Sudamericana, 2005, Ésquilo, Lisboa, 2006, ISBN 972-8605-93-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O Sábio Imortal. Sócrates. Miguel Betanzos. «Todos pareciam extasiados ao observar aquele velho e rude mestre de filosofia que não se parecia nada com os outros e pensavam que talvez alguma aura divina, algum influxo olímpico devia abrigar-se no seu espírito»

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«Não te preocupes, eu aviso-o, e depois empreendeu o caminho novamente em direcção a casa de Ágaton, enquanto Sócrates ficava ali, sentado, imóvel, em atitude contemplativa, a ver como o pequeno Aristodemo era tragado pela imensidão da noite. - Já sabes como ele é - insistiu Aristodemo perante Ágaton. - Mas não te preocupes, de certeza que estará aqui em breve. Sócrates não perderia um banquete nem por todo o ouro do mundo.
Deitados em mantas e almofadas, esfomeados, excitados pelos gostosos manjares que o dono da casa oferecia, os convidados foram recebidos com o melhor da cozinha ateniense durante o decorrer de uma noite infindável e abundante em risos, cantos, celebrações e burburinho. Durante quase três horas desfilaram carnes avermelhadas e estaladiças, o delicioso aroma dos molhos e o vinho, sobretudo o vinho, em largas e coloridas vasilhas que iam e vinham com alegre despreocupação. E já o banquete chegava ao fim, no meio de barrigas ostentosas, faces coradas, rostos encharcados em suor, quando a figura do velho Sócrates espreitou sob o marco da porta, com o sorriso afável, o braço levantado, a expressão ainda vagamente absorta.
 - Por todos os deuses, velho amigo! - rugiu Ágaton assombrado. - Já era tempo de chegares! - E baixando o tom de voz, acrescentou: - Mas vem, senta-te ao pé de mim e deixa-me desfrutar da tua companhia.
O velho sorriu mais uma vez, comprazido pelo convite, e foi sentar-se junto ao dono da casa enquanto um silêncio inquietante seguia os seus passos. Todos o observavam intrigados, expectantes, demasiado curiosos em saberem que estranhos e profundos pensamentos teriam retardado a sua chegada ao banquete. Olhavam o seu rosto um tanto enigmático e distraído, talvez ainda enredado em alguma abstracção confusa; seguiam-lhe os passos à espera que se decidisse a falar disso perante a assistência que aguardava ansiosamente os seus segredos, mas o velho mestre não se deu por convencido e continuou a andar até se sentar junto de Ágaton.
Sim, por vezes actuava assim, recusando-se a desvendar as suas ideias aos outros; talvez as julgasse transcendentes, demasiado simples e inúteis, fruto de uma inspiração efémera que acabaria por se diluir nos meandros do seu espírito e que talvez merecesse ser revista, examinada, meditada ainda mais profundamente antes de a dar a conhecer. O caso é que não abriu a boca e sentou-se junto ao dono da casa acomodando-se entre umas almofadas. Com o canto do olho viu que todos o observavam com apreensão e expectativa, mas mesmo assim permaneceu calado e metido consigo, enquanto as suas mãos agarravam uma suculenta perna de cordeiro, recém-saída do forno e a escorrer sangue, e dedicou-se a apreciar os músicos que animavam o banquete com liras e flautas.
Olhava os músicos e ele próprio era olhado, olhado pelos outros convidados que não tiravam os olhos daquele homem estranho e singular, de pétrea armação óssea, de crânio redondo e firme como o de um touro. Na verdade, o seu rosto selvagem e animalesco chamava a atenção, aquelas mandíbulas de cão que agora mastigavam com gosto, que devoravam os nacos de carne rugosa, fumegante, e cujo suco lhe escorria por entre as barbas. Todos viam o seu olhar um tanto insolente e profundo, aqueles olhos escuros e fugidios, reveladores de algum mistério insondável que parecia incompreensível ao comum dos mortais. Olhavam para a sua figura grotesca e fascinante e contudo tão sólida, tão indelével que se assemelhava à de um deus, talvez ao aleijado e horrível Hefesto, que habitava as profundezas encobrindo a sua fealdade, as suas feições repulsivas e a espantosa mutilação que sofreu na perna. Todos pareciam extasiados ao observar aquele velho e rude mestre de filosofia que não se parecia nada com os outros e pensavam que talvez alguma aura divina, algum influxo olímpico devia abrigar-se no seu espírito.
E então foi tempo de libações e oferendas. Quando terminou o jantar, e quando o próprio Sócrates já devorara a sua perna de cordeiro, o dono da casa agarrou num copo de vinho e bebeu em honra dos deuses, bebeu até ao fim e com solenidade ritual, acompanhado pelos outros convivas, que, quando esvaziaram o copo, entoaram um cântico guerreiro em honra do deus Apolo. Agora sim, era o momento para a embriaguez luxuriosa, a imponderação, o combate orgíaco entre os corpos, era tempo da obscenidade exuberante com que costumavam acabar os banquetes.
Mas desta vez nada disso aconteceu: Ágaton decidiu que não eram os corpos a falarem mas as mentes, que não brilhasse o erotismo, o voluptuoso erotismo, mas o refinado engenho do intelecto. Oh sim! Desta vez não haveria lugar para os deleites amorosos, não haveria lugar para Eros, para Afrodite, para o tormentoso Príapo, não haveria lugar para acender as paixões carnais mas para animar os prazeres do espírito». In Miguel Betanzos, Sócrates, O Sábio Imortal, Editorial Sudamericana, 2005, Ésquilo, Lisboa, 2006, ISBN 972-8605-93-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O Sábio Imortal. Sócrates. Miguel Betanzos. «Mas um momento depois, não sem um certo espanto, descobriu a silhueta imóvel do velho, sentado na ponta de uma pedra, absorto, com o olhar fixo na abóbada celeste ou porventura no brilho deslumbrante de alguma constelação»

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«A noite quente encheu-se de deliciosos e crepitantes odores, odores que impregnavam o ar com um irresistível perfume, e a uma centena de passos era possível adivinhar, no interior da casa, a presença de frigideiras ardentes, de panelas cheias que exalavam um grave, intenso, luxurioso aroma de alhos refogados em azeite, de carnes engorduradas, de molhos carregados de pimentos que pareciam arder como brasas no borralho.
Perto dali, quase invisível no meio da escuridão, um pequeno grupo de homens caminhava em direcção à casa, atraído pela apetitosa fragrância vinda das cozinhas. Ali estava Erixímaco, homem de baixa estatura e grande obesidade, médico de profissão, que vinha a coxear apoiado numa bengala que ameaçava quebrar-se a qualquer momento. Ali estava Pausânias, ainda mais baixo, ainda mais obeso, arrastando os pés com indigna frouxidão e entoando um refrão impreciso que soava a escândalo. Ali estava o poeta Aristófanes, autor de algumas comédias que faziam rir os atenienses, ele próprio a rir dos cantos desafinados de Pausânias. E depois, uns passos mais atrás, encerrando o alegre grupo de convidados do banquete, o jovem Fedro e o anão Aristodemo, que já se vinham a lambuzar perante a anunciada comezaina.
Ainda na escuridão, embriagados pelo concerto de odores, os cinco homens atravessaram a desembocadura da rua e adivinharam, agora sim, o oscilante resplendor de uma lamparina de azeite que ardia junto à porta de casa. Foi o gordo Pausânias que se adiantou uns passos e bateu animadamente com a palma da mão, e logo, depois de ser recebido por um escravo, fez-se anunciar junto dos outros convidados ao dono da casa, o poeta Àgaton, que oferecia aquele majestoso banquete para celebrar o recente sucesso de mais uma das suas tragédias.
Dentro havia música de liras e flautas, e respirava-se um ar sobrecarregado de odores excitantes, de odores cálidos, de odores que causavam picadas no nariz A luz das tochas reflectia-se nas paredes e um grupo de serventes formigava de um lado para o outro levando copos, garrafas, bandejas e travessas repletas de manjares. Os convidados foram entrando um a um, rindo e conversando, surpreendidos com a ostentação de adornos que animavam a sala, cujas paredes transbordavam de flores e grinaldas.
Uma expressão de estranheza surgiu no rosto de Ágaton ao receber o último dos seus convidados. - Folgo ter-te em minha casa, Aristodemo, saudou com infinita cordialidade. - Mas pensei que vinhas com Sócrates.
 - E vinha - respondeu o convidado encolhendo os ombros – juro pelos deuses que há pouco vinha atrás de mim. - E o que aconteceu então? - Oh, já sabes como ele é... - murmurou. E logo, perante a insistente reclamação de Ágaton, recordou que um momento antes se encontrara com Sócrates nos arredores do Pórtico, sob as tochas que iluminavam os muros; ambos marcaram encontro ali para irem juntos a casa de Ágaton; começaram a caminhar quando de repente, no meio da infame treva que envolvia as ruas de Atenas, Aristodemo descobriu que caminhava sozinho e sem ninguém a seu lado. Olhou instintivamente para trás, tacteou o ar e levantou a voz chamando várias vezes pelo amigo, mas o abismo da noite apenas lhe devolveu um silêncio aterrador. O que acontecera a Sócrates? Ter-se-ia enganado no caminho em algum momento? Caminhava tão atrás que quase não o via? Embora vacilante, temendo a iminência de uma tragédia, Aristodemo recuou uns passos no meio da escuridão, voltou a fazer mesmo o caminho em busca do seu velho companheiro e durante um bom bocado os seus olhos pequenos furaram em vão a espessura nocturna. Mas um momento depois, não sem um certo espanto, descobriu a silhueta imóvel do velho, sentado na ponta de uma pedra, absorto, com o olhar fixo na abóbada celeste ou porventura no brilho deslumbrante de alguma constelação. Sócrates permanecia ali, quieto, cofiando a barba e profundamente imbuído na escuridão da noite, quase como uma sombra pensante, da mesma maneira que, uma e outra vez, na cidade, costumava parar de repente, introspectivo e alheio ao contínuo bulício das ruas. De repente, Aristodemo recordou as várias vezes em que o velho costumava parar para espanto dos outros, que viam logo a estranha expressão que se apoderava do seu rosto, gesto um tanto tosco e carrancudo, inquietante, e que não era senão a manifestação de uma necessidade, necessidade de pensar, necessidade de mergulhar nos abismos da alma humana. De início, Aristodemo não sabia como reagir; falou e murmurou aos ouvidos de Sócrates, tentou desviá-lo das suas cogitações e convencê-lo a continuar o caminho mas o velho quase não respondeu aos seus apelos: ‘Diz a Ágaton que irei mais tarde’,  sussurrou num fio de voz e, nesse preciso instante, o apoquentado Aristodemo compreendeu que era inútil dissuadir o amigo, que era inútil perturbar aquele ritual sagrado em que parecia envolvido, porventura motivado por algum pensamento que lhe sobressaltou o espírito a meio do caminho. Inclinou-se calmamente mais uma vez para Sócrates, deu-lhe umas palmadas nas costas e disse: ‘Não te preocupes, eu aviso-o’, e depois empreendeu o caminho novamente em direcção a casa de Ágaton, enquanto Sócrates ficava ali, sentado, imóvel, em atitude contemplativa, a ver como o pequeno Aristodemo era tragado pela imensidão da noite». In Miguel Betanzos, Sócrates, O Sábio Imortal, Editorial Sudamericana, 2005, Ésquilo, Lisboa, 2006, ISBN 972-8605-93-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sócrates: Dizia que a sua sabedoria era limitada à sua própria ignorância; Só sei que nada sei! Acreditava que os actos errados eram consequências da própria ignorância. Nunca proclamou ser sábio

(469-399 AC)
Atenas
Cortesia de wikipédia

Sócrates foi um filósofo ateniense, um dos mais importantes ícones da tradição filosófica ocidental, e um dos fundadores da actual Filosofia Ocidental. As fontes mais importantes de informações sobre Sócrates são Platão, Xenofonte e Aristóteles (Alguns historiadores afirmam só se poder falar de Sócrates como um personagem de Platão, por ele nunca ter deixado nada escrito de sua própria autoria.). Os diálogos de Platão retratam Sócrates como mestre que se recusa a ter discípulos, e um homem piedoso que foi executado por impiedade. Sócrates não valorizava os prazeres dos sentidos, todavia escalava-se o belo entre as maiores virtudes, junto ao bom e ao justo. Dedicava-se ao parto das ideias, Maiéutica, dos cidadãos de Atenas, mas era indiferente em relação a seus próprios filhos.

Cortesia de veraoliveira
O julgamento e a execução de Sócrates são eventos centrais da obra de Platão, Apologia e Críton. Sócrates admitiu que poderia ter evitado a sua condenação, beber o veneno chamado cicuta, se tivesse desistido da vida justa. Mesmo depois de sua condenação, ele poderia ter evitado a morte se tivesse escapado com a ajuda de amigos. A razão para a cooperação com a justiça da pólis e com os próprios valores mostra uma valiosa faceta da sua filosofia, em especial aquela que é descrita nos diálogos com Críton.

Não se sabe ao certo qual o trabalho de Sócrates, se é que ele teve outro além da Filosofia. De acordo com algumas fontes, Sócrates aprendeu a profissão de oleiro com seu pai. Na obra de Xenofonte, Sócrates aparece declarando que se dedicava àquilo que ele considerava a arte ou ocupação mais importante: maiéutica, o parto das ideias.
A maiéutica socrática funcionava a partir de dois momentos essenciais:
  • Um primeiro, em que Sócrates levava os seus interlocutores a pôr em causa as suas próprias concepções e teorias acerca de algum assunto; 
  • Um segundo momento em que conduzia os interlocutores a uma nova perspectiva acerca do tema em abordagem.
Daí que a maiéutica consistisse num autêntico parto de ideias pois, mediante o questionamento dos seus interlocutores, Sócrates levava-os a colocar em causa os seus «preconceitos» acerca de determinado assunto, conduzindo-os a novas ideias acerca do tema em discussão. Platão afirma que Sócrates não recebia pagamento por suas aulas. Sua pobreza era prova de que não era um sofista.

Cortesia de life2point0
Se algo pode ser dito sobre as ideias de Sócrates, é que ele foi moralmente, intelectualmente e filosoficamente diferente de seus contemporâneos atenienses. Quando estava a ser julgado por heresia e por corromper a juventude, usou seu método de elenchos para demonstrar as crenças erróneas dos seus julgadores. Sócrates acredita na imortalidade da alma e que teria recebido, em um certo momento de sua vida, uma missão especial do deus Apolo Apologia, a defesa do logos apolíneo «conhece-te a ti mesmo».

Sócrates sempre dizia que sua sabedoria era limitada à sua própria ignorância. Só sei que nada sei! Ele acreditava que os actos errados eram consequências da própria ignorância. Nunca proclamou ser sábio. A intenção de Sócrates era levar as pessoas a sentirem-se ignorantes de tanto perguntar, problematização sobre conceitos que as pessoas tinham dogmas, verdades. De tanto questionar, principalmente os sábios, começou a arrebanhar inimigos.

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Sócrates acreditava que o melhor modo para as pessoas viverem era concentrando-se no próprio desenvolvimento ao invés de buscar a riqueza material. Convidava outros a concentrarem-se na amizade e num sentido de comunidade, pois acreditava que esse era o melhor modo de se crescer como uma população. As suas acções são provas disso: ao fim de sua vida, aceitou a sentença de morte quando todos acreditavam que fugiria de Atenas, pois acreditava que não podia fugir da sua comunidade. Acreditava que os seres humanos possuíam certas virtudes, tanto filosóficas quanto intelectuais. Dizia que a virtude era a mais importante de todas as coisas.
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