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terça-feira, 22 de março de 2022

A Filha do Papa. Luís Miguel Rocha. «A família ainda não sabe. E temos esperança de conseguir resolver este assunto sem que chegue ao conhecimento deles, ouviu-se uma voz áspera dizer da porta»

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«(…) Algumas foram reclamadas mais tarde, outras não. De qualquer forma, a Igreja não devolveu as que acolheu durante mais tempo. Não? Porquê? Os mais novos foram entregues às famílias, obviamente os que permaneceram à guarda da Igreja durante muito tempo acabaram por ser educados na religião católica e não sabiam nada de Israel, nem hebreu, nem nada. Esses não foram devolvidos. Foi o caso dos irmãos Finaly? Mais ou menos. Verdade seja dita que Roma mandou devolvê-los aos familiares. E o que aconteceu? As crianças foram enviadas para um convento em Grenoble mas eram muito novas para lá permanecerem. Acabaram por ser entregues a uma creche. A tutora dos miúdos, de quem não me lembro do nome, se é que alguma vez o soube, afeiçoou-se a eles e antes de cumprir a ordem baptizou-os, em 1948. Giorgio escutava com muita atenção, completamente envolvido pelas palavras de Jacopo. Percebera o problema. Pela lei canónica, uma criança baptizada não podia ser entregue a tutores que professassem outra religião. Isto acabou por envolver as autoridades civis. O tribunal de Grenoble deu razão aos familiares, como era justo, e ordenou a entrega imediata aos familiares, depois de infindáveis recursos. Isto já em 1952. O núncio de Paris, na altura o monsenhor Roncalli…

O Bom Papa João, interrompeu Giorgio em jeito de correcção. Exactamente. Na altura não era Papa nem cardeal. O futuro João XXIII, enfatizou a contra gosto, ordenou a entrega dos dois irmãos mas alguém teve a infeliz ideia de os recambiar para Marselha e depois para o País Basco. Foi ainda mais difícil encontrá-los e devolvê-los à família, em Israel. Foi um escândalo internacional, apareceu em todos os jornais… Prenderam a madre superiora, as freiras, a tutora; foi um descalabro diplomático monumental. Em Julho de 1953, finalmente encontraram-nos e levaram-nos para Israel para sempre. Percebo. Obrigado por me elucidar um pouco mais sobre o venerável Pio XII.

Permaneceram em silêncio durante algum tempo. Jacopo estava à espera que ele o dispensasse para poder voltar a casa, tomar um banho e ir aturar os alunos na Sapienza. Giorgio levantou-se e contornou a secretária. Parou na frente de Jacopo, fitando-o de cima para baixo. Guillermo continuava na mesma posição, impávido e sereno. Já ouviu falar do padre Niklas? Jacopo fez de conta que não percebeu. Mais miúdos? Que raio de conversa é esta? Quem? Um jovem padre alemão, acrescentou Guillermo. Esse não é o…, não sabia como continuar. Não é o filho do… Exactamente, interrompeu Giorgio. É o filho do Embaixador da Alemanha em Itália. O Doutor Klaus Grübbe, afirmou Guillermo. Exacto, disse Jacopo, aliviado. É isso. Guillermo e o monsenhor entreolharam-se de modo suspeito. Alguém me vai dizer o que tem o rapaz?, perguntou Jacopo impaciente. Giorgio entregou-lhe um papel. Era um post-it azul.

O que é isto?, quis saber o historiador. Não estava a perceber o sentido da conversa. Um imprevisto. Um imprevisto? Que raio queria o prelado dizer com aquilo? É um assunto muito sensível que pede bastante discrição. Jacopo tentou devolver o bilhete a Giorgio. Pode ficar com ele. Não tenho intenção nenhuma de me meter em assuntos sensíveis e discrição não é qualidade que me tenha calhado. Giorgio não aceitou o pequeno papel. Pigarreou para aclarar a voz como se as palavras estivessem enferrujadas. É um pedido de resgate. O padre Niklas, filho do embaixador da Alemanha, foi raptado há algumas horas em Sant’Andrea. Jacopo engoliu em seco ao ler o bilhete. O que é que os irmãos Finaly…, não quis continuar. Já informaram a família? Giorgio fez um meneio negativo com a cabeça. Não. A família ainda não sabe. E temos esperança de conseguir resolver este assunto sem que chegue ao conhecimento deles, ouviu-se uma voz áspera dizer da porta. Jacopo desviou a cabeça nessa direcção e viu o intendente da Gendarmaria Vaticana, Girolamo Comte. Vestia um fato preto por baixo de um sobretudo cinzento-escuro. Entre, por favor, Comte, pediu o secretário. Estava mesmo a colocar o doutor ao corrente da situação. Os relatores já foram alertados?, quis saber o historiador. O intendente enviou um destacamento de segurança, respondeu Giorgio, acenando com a cabeça na direcção de Girolamo. Como correram as coisas com a Polizia di Stato?» In Luís Miguel Rocha, A Filha do Papa, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-004-411-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, Luís Miguel Rocha, Religião, Literatura, Actualidade,

sexta-feira, 18 de março de 2022

O Último Papa. Luís Miguel Rocha. «Nesse caso, a mulher é personificada por um musical que está ávido por ver há algum tempo, embora, por razões pessoais, só hoje tal oportunidade se tenha apresentado. Não lhe passa pela cabeça que todos os seus movimentos estejam sendo monitorados, a pouca distância, por um homem de casaco que fala ao telefone»

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Conclave

26 de Agosto de 1978

«(…) Continuam o caminho para sul, pela Sétima Avenida, o homem de casaco sempre no rasto do outro, mais velho, a uma distância segura. Tem experiência no assunto, já que o movimento de trânsito e pessoas, ruídos e milhares de hipotéticos pontos de desconcentração não parecem afectar de forma alguma a perseguição. De qualquer maneira, nem precisa segui-lo, pois sabe perfeitamente qual o destino do idoso. Um toque de telemóvel, auxiliado pelo efeito vibratório, chama a atenção do homem. Alguém está ligando. Sim, atende com voz firme e decidida enquanto atravessa o cruzamento da Sétima Avenida com a 43. A magnitude dos arranha-céus não o impressiona de maneira nenhuma, o que demonstra que não é a primeira vez que visita a cidade. Correu tudo bem? Um esgar de impaciência. O quê? Limpem a porcaria que fizeram! Não deixem vestígios! Vira à direita na 42, visivelmente irritado. Se as coisas não correrem como planeado, nem vale a pena dizer o que lhes vai acontecer. Quero a mulher prestando contas a São Pedro ainda, hoje! Espero um telefonema de vocês com essa notícia. Assim que desliga abruptamente o telemóvel, marca outro número, controlando os passos do seu alvo. Apesar de idoso, na casa dos setenta, caminha vigorosamente, como um adolescente que vai a alguma festa onde sabe haver mulheres. Nesse caso, a mulher é personificada por um musical que está ávido por ver há algum tempo, embora, por razões pessoais, só hoje tal oportunidade se tenha apresentado. Não lhe passa pela cabeça que todos os seus movimentos estejam sendo monitorados, a pouca distância, por um homem de casaco que fala ao telefone.

Hello. Vamos ao teatro... Tudo calmo por enquanto... Ainda não deu nenhum passo em falso... Aguarda uns instantes, inspira fundo e fecha os olhos. Senhor, as coisas não estão correndo bem em Londres... O alvo escapou e tivemos uma baixa... Sim, eu sei, a baixa é o de menos... Já mandei limpar o local. Escuta atentamente as recomendações ordenadas pelo interlocutor. Não sei se eles vão conseguir dar conta do recado..., talvez  seja melhor o Mestre activar a Guarda... Pára no número 214, o Hilton Theatre, antes o Ford Center for the Performing Arts. O teatro é recente, remodelado em 1997, mas a fachada faz lembrar os teatros do final do século XIX, início do século XX. Talvez porque pertença mesmo a essa época. Na realidade, o Hilton Theatre, com entrada pela rua 43 e também pela 42, era dois teatros até 1997, o Lyric e o Apollo. A remodelação os juntou, transformando-o num dos maiores da Broadway. Contudo, quem estivesse à espera de um interior completamente adaptado aos tempos modernos sairia desiludido, pois o Hilton, apesar das exigências subtis de conforto com que foi beneficiado, mantém todo o peso da sua história de cem anos nas peças aproveitadas dos dois teatros. O homem, ainda com o telefone colado ao ouvido, entra no átrio e entrega o bilhete a um jovem, que o rasga. Procedimentos rotineiros, habituais em todos os teatros do mundo. O jovem indica-lhe seu lugar na plateia.

Se desejar, pode deixar o casaco na chapelaria, senhor. Muito obrigado. Pode dizer-me onde fica o banheiro? Claro. Primeira à esquerda, senhor. O homem prossegue o caminho em direcção ao banheiro, pelo menos até sair da vista do jovem rasga-bilhetes. Confirme-me assim que a Guarda neutralizar o alvo em Londres... Sei que posso considerá-lo neutralizado, mas... Okay, senhor... Quanto a este, mantenho as coisas como estão até que ele se revele. Muito bem. Adeus. Passa os banheiros e sobe pelas escadas até ao primeiro balcão. A sala está praticamente lotada, mas depois de uma observação atenta descobre um lugar vazio na fila da frente, do lado direito. Excelente lugar. Não que esteja interessado em assistir ao musical dirigido por Adrian Noble, baseado no livro do famigerado Ian Fleming, o sumo criador do célebre Bond, James Bond. Sorri só de pensar na ironia. Agentes secretos, actividades confidenciais como a dele, Ian Fleming, James Bond..., e Chitty Chitty Bang Bang, apesar do título sugestivo, nada tem de secreto ou confidencial. São duas horas e meia de puro entretenimento musical e humorístico; mas para esse homem, como para os actores da peça, é apenas um trabalho que se faz com satisfação. As luzes da sala diminuem de intensidade até que se apagam. O instrumental providenciado pela orquestra instalada no palco entra em cena, preparando o público para o que virá. O homem tira um pequeno binóculo do bolso para apreciar melhor o que se passa no palco e na plateia. Dois minutos bastam para que se fixe na pessoa que procura: o indivíduo com certa idade, sentado numa das cadeiras da ponta direita da ala central da sala. Um sorriso invade a boca do homem, que se recosta confortavelmente na cadeira do primeiro balcão. Aponta a mão como se fosse uma arma, indicador e polegar retesados, para o idoso lá em baixo. Bang. Bang». In Luís Miguel Rocha, O Último Papa, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-969-7.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

 JDACT, Luís Miguel Rocha, Literatura, Vaticano, Religião, Roma,

quinta-feira, 17 de março de 2022

O Último Papa. Luís Miguel Rocha. «A melhor palavra para caracterizar o que se passou nos últimos segundos com Sarah Monteiro é milagre. Não um daqueles reconhecidos pela Santa Madre Igreja, com todos os exames físicos, documentais, testemunhais e ficcionais…»

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Conclave

26 de Agosto de 1978

«(…) Contudo, o homem não ia lhe fazer as vontades. Muito pelo contrário. A ideia era acabar com todas. E tudo terminou muito rápido. Viu a arma, segura por um punho envolvido numa luva de couro, atravessar a névoa. Assim que divisou o restante do corpo, agarrou o extintor com toda a força e impulsionou-o contra a cabeça do homem. Este esquivou-se, aninhando-se e avançando adiante, meneando o corpo até acabar de frente para Sarah Monteiro, de arma apontada. Em nenhum momento perdeu o equilíbrio. Movimentos precisos de quem conta com o imponderável. Sua massa corporal tapa quase toda a luz exterior que entra pela janela e impede que Sarah consiga ver o seu rosto. Apenas uma silhueta grande que lhe aponta uma arma. Uma peça letal que lhe dará uma morte rápida. Dois disparos. Sarah dá um grito abafado e deixa-se cair ao longo da parede. É isso que se sente quando se leva dois tiros? Nada? Será que a morte foi tão rápida que passou instantaneamente para o lugar para onde se vai quando se morre? O estrondo do homem caindo pesadamente de barriga para baixo no soalho retira-a dos desvarios espirituais. A cabeça dele ficou em cima das suas pernas. Os olhos apáticos, vazios, esbugalhados na direcção dela, numa espécie de manifestação derradeira de incompreensão do que sucedera.

A melhor palavra para caracterizar o que se passou nos últimos segundos com Sarah Monteiro é milagre. Não um daqueles reconhecidos pela Santa Madre Igreja, com todos os exames físicos, documentais, testemunhais e ficcionais, mas um providencial, personificado na decisão engenhosa de Sarah, combinado com a sorte que o Além, lança sobre os humanos em certas ocasiões, e que pode ser aproveitada ou não. Nem Sarah compreendeu de imediato. Só instantes depois reparou em dois pequenos buracos no vidro da janela. Com medo, coloca um dedo nas costas do homem e sente a humidade do sobretudo. Sangue. Alguém desempenhara o papel de seu anjo da guarda. Mas quem? Senhor Raul, tem muito que me explicar. Agora é hora de fugir.

Times Square. Um dos centros do mundo civilizado, comparável a Trafalgar Square, Champs Élysées, Alexanderplatz, Praça de São Pedro e por aí afora. Na praça do tempo, onde o relógio digital marca as horas, os minutos e os segundos que faltam para o novo ano, o barulho nocturno é idêntico ao diurno. Nessa cidade de Nova York, e ainda mais nessa praça mítica do coração nova-iorquino, norte-americano e também de alguns europeus, a publicidade luminosa enche os olhos dos turistas, a luz ofuscante do apelo ao consumismo, estímulo primeiro do mundo capitalista. O volume de trânsito é igualmente digno de nota: transportes públicos, automóveis, táxis amarelos, caminhões de carga, tudo a convergir para a Broadway e para a Sétima Avenida, onde estas se cruzam e se afastam para outros destinos no imenso emaranhado de ruas e avenidas, túneis e pontes de Manhattan. Milhares de pessoas ocupam as ruas nessa parte da cidade. A que nos interessa: todo o quarteirão que circunda a Times Square até à Rua 42. Não que o lugar importe mais do que o homem que nele anda, com passos muito seguros e resolutos, o casaco aberto esvoaçando para trás como uma capa ao vento, tamanha a velocidade que imprime ao andar. De onde vem não é relevante informar, já que a lista é extensa -muitos lugares por esse mundo afora; tudo para que se cumpra o objectivo, o Grande Plano traçado por uma mente mais brilhante que a dele. Passa indiferente à indiferença dos milhares de transeuntes que com ele partilham o passeio largo. Na enorme bilheteira da TKTS incrustada na 47, mesmo entre a Broadway e a Sétima Avenida, o mais famoso cruzamento do mundo, coloca-se na fila e apura os ouvidos.

Um para o Chitty Chitty Bang Bang, por favor. Para a sessão das sete, pede o idoso que está sendo atendido, duas pessoas à sua frente. Chitty Chitty Bang Bang. Os lábios do homem do casaco abrem-se num sorriso. Bastante apropriado. Assim que chega a sua vez na fila, compra um bilhete para a mesma sessão da mesma peça, em cena no Hilton Theatre, na Rua 42. Perambula alguns minutos pelas lojas e toma um cappuccino no Charley Co's. Poderia pensar-se que está apenas gastando tempo até o início da peça, mas um olhar mais atento, algo impossível de pedir às pessoas que por ali andam, imersas na sua vida, revela que esse homem não anda ao sabor da sua vontade. Segue os devaneios de caminhante de um outro, o idoso que comprou, apenas há minutos, um bilhete no posto de venda da TKTS». In Luís Miguel Rocha, O Último Papa, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-969-7.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Luís Miguel Rocha. A Mentira Sagrada. «A agenda mental normalmente assinalava sempre qualquer coisa, uma reunião, um telefonema, um almoço, comprar um presente, uma flor para Myriam…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vaticano. 19 de Abril de 2005

«(…) Diz-se que a noite é sempre boa conselheira, mas é também a coberto dela que se perpetram crimes, que se contam segredos, que se perpetuam mistérios. Jantaram na mesa número 205 do deck 14. Myriam quis que fossem ver a peça que estava em cartaz. Na verdade era mais do que uma, pois chamava-se Musicais da Broadway, um resumo das principais cenas e músicas de Cats, West Side Story, O Fantasma da Ópera e outros clássicos renomados, da batuta de Andrew Lloyd Webber. Não era obra que ficasse na retina, mas foi agradável. Uma espécie de pastiche de digestão fácil porque afinal em férias não há porque se desgastar com dramas ou obras de profundidade dramática excessiva. Recolheram ao quarto já passava das onze da noite. Myriam estava feliz e era esse o objectivo. Estás bem, meu querido?, perguntou-lhe. Pareces muito desligado hoje. Andas bem? Estou bem, Myr. Não te preocupes. Falaste com o Ben esta noite? Falei, mentiu. Vou-lhe ligar novamente à meia-noite, se não te importas. Hoje foi um dia importante para ele. Tão tarde? E ainda mais em Jerusalém, censurou franzindo o cenho. É. Ele pediu. Está bem. Mas não fiques uma hora ao telefone. Já sabes que tenho frio de noite.

Está descansada, querida. Será rápido. A voz sumia-se cada vez mais. Não conseguira falar com o Ben Júnior. O telefone estivera sempre desligado. O assistente não conseguira localizá-lo em lado nenhum. Não estava na propriedade que os Isaac possuíam em Telavive, tão-pouco apareceu na sede da empresa . Temia que o bilhete que recebera ao pequeno-almoço estivesse relacionado com o desaparecimento do filho. Não fazia ideia de quem o enviara, nem quem poderia estar ao corrente do Statu Quo. Fosse como fosse em breve o saberia. Passou o dia a desconfiar de tudo e de todos. Dos empregados sorridentes, dos restantes turistas, independentemente do género; só Myriam escapava à suspeita. Perguntou-se centenas de vezes se o emissor da mensagem estaria no barco, se estaria a observá-lo, se, se, se. Isto num homem que sempre evitou os ses. No dia anterior aportaram em Livorno e visitaram Florença e poderia muito bem ter sido aí que o interlocutor entrara, muito a tempo de sair no dia seguinte, em Nápoles, aproveitando o corre-corre do navio, de porto em porto na costa ocidental italiana. Era uma agulha num palheiro no meio de três mil pessoas. Beijou Myriam carinhosamente na testa e saiu para a piscina.

Não demores, advertiu Myriam antes de ele bater gentilmente à porta. Não sabia que outra resposta dar se não um Será rápido, mas a verdade é que não sabia para o que ia. A agenda mental normalmente assinalava sempre qualquer coisa, uma reunião, um telefonema, um almoço, comprar um presente, uma flor para Myriam, mas, neste ponto, a nove minutos da meia-noite, estava em branco. Caminhou pelo corredor do deck 14 em direcção ao elevador. Subiria um lanço e dali à piscina não levaria mais de dois ou três minutos no seu passo lento e nervoso. As pernas tremiam-lhe como se pressentissem um abismo. Passou por alguns turistas que cambaleavam à procura do equilíbrio no regresso ao quarto que não lembravam onde ficava. Os empregados arrumavam a desordem do dia, o lixo que os impudicos lançavam ao chão sem culpa, beatas de cigarro, copos de plástico, pedaços de comida.

Perto da piscina o movimento era menor, estranhamente, ou talvez não. Bem Isaac deu por si ofegante. Não fora grande caminhada, nem havia subidas ou descidas íngremes. Não estava ninguém. A água ondulava ao sabor do gigantesco navio. Iluminação submersa pintalgava a água de um azul-vivo, cujo movimento ondeante a transformava num organismo com vida. Não viu vivalma. Estranho. Mas nada naquele dia fora normal. Consultou o relógio. Onze e cinquenta e sete. Os segundos matutavam na cabeça dele ou seria o coração a latejar nas veias que marcava o ritmo da inquietação. Os três minutos pareceram seis e depois doze, até que chegou a meia-noite e..., nada aconteceu. Verdade que era apenas a hora do seu relógio, talvez ainda não fosse meia-noite no relógio do outro interveniente, fosse ele ou ela quem fosse. Olhou ao seu redor e não sentiu qualquer movimento. A noite estava fria, desagradável. O navio deslizava lentamente para sul, abrindo caminho pelas águas do Tirreno. Dois minutos depois da hora, segundo o seu relógio, ouviu um disparo oco. Não saberia apontar a proveniência dele mas é certo que o que quer que fosse não passou nem perto de si. De qualquer forma sentia-se demasiado exposto. Momentos após o disparo e as dúvidas viu algo a descer no céu, lentamente. Estava a cerca de 50 metros de altura e descia em direcção à piscina. Ao princípio não conseguiu descortinar o que era. Um objecto voador não identificado. Aos trinta metros conseguiu dar um nome ao objecto. Chamava-se paraquedas. Imune à observação atenta de Ben Isaac, o paraquedas manteve a sua descida serena». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

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Luís Miguel Rocha. A Mentira Sagrada. «Aqui, senhor inspector, proferiu o assistente, estendendo a mão e acendendo o isqueiro junto à ponta da cigarrilha. Depois entregou um telemóvel a Rafael»

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Vaticano. 19 de Abril de 2005

«(…) Desculpe? Que raio de pergunta era aquela? Mera curiosidade, acrescentou. Deixou-o sem palavras. Ou melhor, teria de responder com cuidado para não ser mal interpretado. Acredito que há um mundo para além da morte onde estaremos em comunhão com Deus e... O Céu? Sim. E o Inferno? Para quem não salvou a alma, explicou Rafael. Não estava a ver onde aquilo ia dar. Acha que o turco e o alemão foram para o Céu ou para o Inferno? Gavache tinha o dom de o deixar sem palavras. Huh..., diria que para o Céu. Que homem tão estranho. Então acredita que levaram uma vida digna que lhes abriu as portas do Céu?, insistiu Gavache. Sem dúvida. Então, a seu ver, o que é que eles terão feito para que alguém tivesse planeado tão meticulosamente as suas mortes? O que fizeram… Ou o que sabiam? Gavache deixou a pergunta no ar. Rafael percebeu onde o inspector queria chegar. Não havia porque ocupava aquele posto. Era arguto. E há ainda outra coisa, prosseguiu Gavache. Rafael aguardou. Disse-me que veio por razões pessoais e não em nome do Papa, confirma? Correcto, afirmou Rafael apreensivo.

Mas estes crimes não foram ainda tornados públicos, senhor padre. Não há um jornalista que tenha conhecimento disto. Informámos a Santa Sé por razões muito especiais, o que torna a sua presença aqui muito estranha, concorda? Gavache não esperou pela resposta. Olhou-o directamente. Compreendo que seja amigo de uma das vítimas, mas terá de me responder porque razão apanhou o último avião do dia para vir, em nome pessoal, ajudar na investigação de um crime que ninguém sabe que aconteceu. O corpo do seu amigo ainda nem esfriou. Feita a pergunta e a observação virou-lhe as costas. Devia ser habito fazê-lo. Leve o seu tempo a preparar a resposta. Por…, foi o primeiro pensamento que lhe assomou à mente. Também o segundo e o terceiro. O quarto já foi uma variação menos lesiva. Grande mer… Jacopo acercou-se dele nesse momento, como se nada fosse. Então? O que queria o gajo? Rafael agarrou-o pelos colarinhos e ergueu-o alguns centímetros no ar à falta de parede onde encostá-lo. Meu grande cabr… praguejou. Jacopo agarrava as mãos de Rafael na ânsia de se libertar mas eram como garras possantes cravadas. Que foi?, conseguiu perguntar. Quem te deu a informação da morte do Zafer? Ainda não conseguia ligar aquele nome ao grupo dos mortos. Parecia irreal. Quem? A Secretária de Estado, respondeu a custo o outro. Rafael pousou-o. Digerira tudo mal desde o início. Não era o que se esperava dele. Os olhos abertos raiavam sangue. Estava furioso consigo mesmo. Tu disseste que tinha sido a Irene.

Que me tinha dito que ele apanhara o avião para Paris para ir ver um pergaminho. Não disse que foi a Irene quem me deu a noticia, completou Jacopo. O que é que se passa?, quis saber compondo-se. Quem te mandou dar-me a informação? Estava de costas voltadas a pensar. O Trevor, a pedido do secretário, explicou Jacopo. As ordens eram para virmos para Paris no primeiro voo. Não foi por isso que vieste? Rafael não respondeu. És completamente doido, acusou Jacopo. Eu não quero estar aqui. Vim porque me pagam para isso. Estava muito bem em Roma a moer o juízo à minha mulher. Rafael permaneceu calado, imóvel. Tu vieste mesmo por amizade, não foi? Pensaste que te fui dar a notícia e que a Irene te pediu para vires ver o que se passava? Eles não estavam juntos há anos. Pensaste que eu estava aqui por gostar da tua companhia?

Rafael tornou a olhar para as fotografias do corpo de Sigfried. Gavache chegou nesse preciso momento Chegamos a alguma conclusão?, inquiriu roufenhamente. O inspector disse que informou o Vaticano por razões muito especiais. Quais são? Seja bem-vindo, padre Rafael, saudou Gavache com um meio sorriso. Abriu uma cigarreira em tons prata e tirou outra cigarrilha do interior. Levou-a à boca e procurou o isqueiro para incendiar o prazer. Apalpou os bolsos. Jean Paul, gritou. Aqui, senhor inspector, proferiu o assistente, estendendo a mão e acendendo o isqueiro junto à ponta da cigarrilha. Depois entregou um telemóvel a Rafael. Por isto, limitou-se a dizer. Rafael pegou no telemóvel e olhou para ele, depois desviou o olhar para Gavache com uma expressão inquisitiva. O seu amigo teve uma grande presença de espírito, diga-se. Conseguiu ligar o gravador do telemóvel e gravou uma parte do que aconteceu. Talvez porque o aparelho tem um botão dedicado. O seu amigo usava-o recorrentemente para registar ideias e pensamentos. A parte que nos interessa não se percebe muito bem, mas o laboratório já está a trabalhar na gravação. De qualquer forma, há algo aqui bastante explícito. Tirou o aparelho das mãos de Rafael e procurou a gravação que pretendia. O som invadiu a sala.

Qual é o código que (ruído estático) te deu?, perguntava uma voz. Sei que o Vaticano mandou dar os códigos. HT, respondeu aquele que Rafael reconheceu como o amigo. Em que ordem? Não faço ideia. Zafer aparentava estar em grande sofrimento. Isso já vai passar. Foi de grande ajuda, Yaman Zafer. Que o Senhor tenha piedade de ti. O Papa rezará pela tua alma, disse o outro. O resto foram sons desconexos, que podia ser qualquer coisa, mas Rafael sabia. Era Zafer a morrer. Sentia o estertor da morte que acontecera naquele mesmo local. Por fim silêncio. Ouviram-se uns passos e uma frase de despedida. Ad maiorem Dei Glóriam. Gavache desligou o aparelho e encarou Rafael. Esta mer… diz-lhe alguma coisa? Rafael mirou-o com frieza e uma expressão mortífera. O demónio está nos pormenores. O assassino é jesuíta». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

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quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

A Mentira Sagrada. Luís Miguel Rocha. «Duas mortes seguidas de duas pessoas que conhecia. Está a dizer-me que sou suspeito? Claro. Todos somos. Só eles, apontou para as fotos…»

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Vaticano. 19 de Abril de 2005

«(…) Jacopo Sebastiani, intrometeu-se o outro. Qual é a sua função?, questionou Gavache a Jacopo, cumprimentando-o com renitência. Somos amigos da vítima, adiantou-se Rafael antes que Jacopo respondesse. Gavache fitou os dois com displicência. Não queria disfarçar que os estava a avaliar. Diga-me, disse por fim para Rafael, era óbvio quem era o líder, quem é Yaman Zafer? Meteu a cigarrilha à boca e puxou um pouco mais de tabaco. As noites eram o pior do dia. Não há qualquer interesse do Vaticano. Estamos aqui em nome pessoal, como amigos do falecido. Gavache tornou a fitá-los. Ora um, ora outro, fazendo jus à sua função de inspector. Pois, acabou por dizer. O fumo da cigarrilha formava uma nuvem sobre os três homens. A amizade é uma coisa bonita. Conheciam-no há muito tempo? Há 20 anos. Era um conceituado arqueólogo na Universidade de Londres. Talvez conheça algumas das suas publicações, informou Rafael. Precisava de lhe dar alguma coisa. Gavache não era idiota. Não gosto de ler, respondeu o inspector francês de rajada. A vida já é um livro demasiado grande para andar a perder tempo com isso. Ele é arqueólogo e encontrou alguma coisa para o Vaticano? Fez alguns trabalhos sob patrocínio do Santo Padre, sim, confirmou Rafael. Algumas escavações em Roma e Orvieto. Não podia contar tudo. Podemos ajudar em alguma coisa?, ofereceu-se Rafael. Sentia que estava a perdê-lo. Não. Se quer que lhe diga, os amigos só atrapalham nestes casos, confidenciou com desdém. Jean Paul, gritou para alguém que se apresentou por detrás dele, a menos de um metro. Franzino e alto, com as veias do pescoço a sobressaírem. Quem o não conhecesse diria que passava fome.

Aqui, inspector. Escolta estes senhores à cidade. Não precisamos deles. Merci beaucoup. E virou-lhes as costas, levando novamente a cigarrilha à boca. Sigam-me, s'il vous plait, pediu o tal Jean Paul. Naquele momento Rafael olhou para Gavache que brandia umas fotografias que algum técnico lhe havia passado para a mão. Era este o teu plano?, reclamou Jacopo que enfiara as mãos no bolso para combater o frio. Perda de tempo. O demónio está nos pormenores, limitou-se a dizer Rafael que continuava a fitar Gavache. Entretanto, saíram para o exterior, em direcção à viatura de Jean Paul. Já têm os resultados da autópsia, inspector?, perguntou Rafael. Precisava de informações. Sim e não. Sim, temos, não, não sou inspector. Levou uma grande tareia o seu amigo e injectaram-no com cianeto. Morte rápida. Antes assim. Desceram umas escadas de ferro. Os sapatos pesados faziam-no tilintar a cada passo. Algum suspeito? Não, nenhum. Tudo limpo. Nem um fio de cabelo. Quer dizer, o que há mais ali é mer… Quem fez isto escolheu bem o sítio. Não vão encontrar nada, disse Rafael.

Padre Rafael, ouviu-se uma voz chamar. Era uma mulher à porta do armazém. Rafael olhou. O inspector Gavache quer dar-lhe uma palavra, se não se importa. Rafael galgou três degraus de cada vez e tornou a entrar no espaço que, outrora, seria o escritório do armazém. Gavache estava empenhado a discutir com dois dos seus homens. A voz roufenha a sobressair perante todos os outros. Avistou o italiano. Ah, senhor padre. Importa-se que o trate assim? De todo, respondeu Rafael aproximando-se. Passou-lhe umas fotografias para a mão. Conhece?, perguntou o francês com um tom inquisitivo. Rafael olhou as fotografias. Eram três. Em todas um corpo masculino caído num chão que não era aquele. Era mais escuro, sujo também. Uma cadeira de madeira caída ao seu lado. Não conseguia ver o rosto. Este não é o Zafer, proferiu com certeza. Até aí estamos de acordo. Deu-lhe outra foto. O corpo já estava em cima da maca, dentro do saco mortuário. Rafael viu o rosto e reconheceu. Não tinha qualquer identificação com ele. Que nome lhe vamos dar?, perquiriu Gavache na expectativa. Rafael desconhecia como é que o francês relacionou ambos os crimes, mas não ia omitir. Precisava dele para ter acesso ao caso…, aos casos. Sigfried Hammal. Professor de Teologia. Isto foi quando? Hoje. Aqui em Paris?

Gavache negou com a cabeça. Em Marselha. Olhou para os subordinados. Não necessitou dizer uma palavra para eles dispersarem e deixarem-nos a sós. O francês fitava o italiano com um olhar perscrutador O que é que se está a passar aqui?, perguntou de rompante. Um arqueólogo, um teólogo. Duas pessoas ligadas à Igreja mortas da mesma maneira, no mesmo país. Não faço ideia, respondeu Rafael. Não podia baixar o olhar, caso contrário denotaria fraqueza. Tretas. Também era amigo do alemão? Vi-o apenas uma vez. Por que motivo? Já não me recordo. Foi há muito tempo. Há quanto? Talvez há 20 anos. E o arqueólogo era inglês? Turco, mas vivia em Londres quase desde que nasceu. Não considera curioso que você conheça os dois? O que quer dizer com isso? Duas mortes seguidas de duas pessoas que conhecia. Está a dizer-me que sou suspeito? Claro. Todos somos. Só eles, apontou para as fotos, é que não são suspeitos de rigorosamente nada. A morte livrava de toda a culpa e sofrimento. Era a verdadeira salvação. Acredita na vida para além da morte?, perguntou o francês». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, Luís Miguel Rocha, Roma, Conhecimentos, Literatura, Actualidade, 

sábado, 28 de novembro de 2020

A Filha do Papa. Luís Miguel Rocha. «Parecia fresco, enérgico, ainda que os olhos estivessem raiados de vermelho e se notassem as olheiras em volta deles. Talvez descansasse pouco…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Os ladrilhos respiravam debaixo dos pés deles, testemunhas silentes de séculos de passadas que transportavam a história dos actos e dos livros, dos sussurros, das intrigas e dos ideais. Vais dizer alguma coisa?, quis saber Jacopo, ainda irritado, mas com um tom de voz mais suave. Está frio, não está? Jacopo virou-lhe a cara. Aquele sempre fora bom a desconversar. Só tirou o chapéu quando entrou pela porta que Guillermo lhe indicou. Ao fundo, junto à janela, um homem de meia-idade estava recostado na cadeira a passar o dedo pelo ecrã de um iPad. A tecnologia também marcava presença na casa de Deus. Doutor Sebastiani, cumprimentou o homem, levantando-se da cadeira assim que o viu, com um sorriso nos lábios. Bons olhos o vejam. Pousou o tablet em cima do tampo da secretária mostrando o cabeçalho do Il Messagero. Reverendo Giorgio. Não me importava nada de o ver um pouco mais tarde. Estendeu a mão para cumprimentar o prelado. Acenou com a cabeça para o tablet. Ainda acredita em boas notícias? Estou a seleccioná-las para a leitura matinal do Santo Padre. Mas nada de novo, de facto. A Europa está a ruir connosco dentro, respondeu o clérigo, bem-disposto, apesar da hora. O Santo Padre não se cansa de ler sempre a mesma lengalenga? A informação é tudo hoje em dia. Mesmo que seja sempre a mesma coisa. Apontou para uma cadeira que Jacopo, sem cerimónia, aproveitou, e contornou a secretária para retornar à sua. Guillermo ficou em pé, encostado a uma mesa de reuniões.

A que se deve a honra de ser chamado a esta hora da madrugada?, atirou Jacopo sem aguardar que o outro se sentasse. Pois, peço desculpa por tê-lo feito levantar-se tão cedo, doutor Sebastiani. Pode chamar-me só doutor, atalhou o mais velho, corrosivo. Vá directo ao assunto, por favor. Giorgio entrelaçou os dedos e exibiu uma expressão pensativa como se estivesse a delinear uma estratégia para começar a falar. Já ouviu falar dos irmãos Finaly?, acabou por perguntar. Jacopo anuiu com a cabeça e franziu o sobrolho em alerta. A que propósito ele perguntara aquilo? O que é que sabe deles?, quis certificar-se o secretário. A esta hora da noite?, escarneceu o historiador. Giorgio sorriu com condescendência e pousou as mãos em cima da secretária. Jacopo não conseguia perceber se ele tinha dormido alguma coisa ou se não pregava olho desde a noite anterior.

Parecia fresco, enérgico, ainda que os olhos estivessem raiados de vermelho e se notassem as olheiras em volta deles. Talvez descansasse pouco, o que era apanágio do posto que ocupava. Quem servia o Santo Padre oferecia mais do que tempo e dedicação, oferecia a vida. Jacopo ajeitou-se na cadeira e abriu o arquivo de memórias onde, algures entre Pio XII, Adolf Hitler, Segunda Guerra Mundial, Holocausto, nazismo e outros itens relacionados, encontrou o registo correspondente ao dos irmãos Finaly. Era um dossier simples com informação escassa e nunca verificada. Quer mesmo a minha versão?, quis certificar-se. Giorgio anuiu. Prezava o doutor pela sua frontalidade e honestidade intelectual. Queria ouvir a sua versão da história. O que eu sei, e isto é tudo baseado em fontes sem qualquer crédito, portanto, boatos… Não se preocupe. Continue. Eram dois irmãos judios, crianças, que foram escondidos dos familiares depois da guerra, em França. Robert, o mais velho, e Gérald, o mais novo. Fazem parte dos milhares de crianças judias que, supõe-se, não foram devolvidos às famílias. Giorgio suspirou. Parecia incomodado. Mas porque é que estavam à nossa guarda? Jacopo fitou-o perplexo. Não sabe? O alemão voltou a suspirar e levou uma mão ao rosto. Acredite ou não, até hoje nunca tinha ouvido falar deles. Posso ser completamente honesto consigo? Não espero outra coisa, respondeu Jacopo com evidente franqueza. Estou completamente a leste disto tudo.

Foi a vez de o historiador respirar fundo. Olhou para o relógio que trazia no pulso e perdeu a última esperança que tinha de voltar ao aconchego da cama. Já passava das cinco. Tenha em atenção que a informação de que disponho carece de verificação. Se pretender, posso, mais tarde, fazer uma pequena pesquisa e dar-lhe dados mais fundamentados, repetiu a advertência. Comunicada a qualidade da informação, Jacopo recomeçou o seu relato. A partir de 1942 ou 1943, o Papa Pio XII deu ordens a todas as instituições religiosas que albergassem os refugiados de guerra sem olharem à religião. Deviam ser todos vistos como seres humanos. Milhares de pessoas foram acolhidas em mosteiros, conventos, famílias de acolhimento católicas, e onde quer que houvesse espaço. Maioritariamente judeus?, questionou Giorgio. Sim. No início, o Papa, especialmente em Roma, e por via do, na altura, monsenhor Montini, conseguiu negociar com o general das SS Reiner Stahel, que declarou a extraterritorialidade de todas as instituições religiosas. Aqui mesmo, no Vaticano, refugiaram-se milhares de judeus e o Papa esperava que todas as instituições, através desse acordo com Stahel, fossem tratadas de igual forma. Aqui os nazis nunca se atreveram a entrar sem serem convidados. Porém, os alemães, que não eram burros (?) nenhum, lembrou-se nesse momento que estava a falar com um, começaram a fazer inspecções nos mosteiros e nos conventos. Foi uma época muito perigosa. Resumindo, no final da guerra havia, para além dos órfãos, muitas crianças por reclamar». In Luís Miguel Rocha, A Filha do Papa, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-004-411-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, Luís Miguel Rocha, Religião, Literatura, Reconhecimento, Actualidade, 

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

O Último Papa. Luís Miguel Rocha. «O que fazer? Há sempre solução para tudo. Não pode sair por um lado, saia por outro, dizia a avó. Saia por outro... Saia por outro... Na casa da avó era possível sair pela janela…»

jdact

Conclave

26 de Agosto de 1978

«(…) Tão logo chega ao primeiro andar, escuta o movimento das dobradiças da porta de baixo. Um estrépito grave que incomoda os ouvidos, ainda mais no meio da escuridão da casa. Havia muito tinha a intenção de mandar lubrificá-las, mas protelara sempre, por uma ou outra razão. Ficara na intenção; mas não pensa nisso Sarah Monteiro. O que a incomoda nesse momento é a porta que se abriu e os passos intrusos no interior da própria casa. Caminha em direcção ao quarto, sempre de ouvidos atentos, os sentidos da sobrevivência totalmente despertos, assim como o medo aterrador. O intruso passeia pelo andar inferior, calmamente, sem se incomodar em disfarçar sua presença. O peso do calçado faz estalar o soalho muito devagar. Sarah imagina-o passando o local a pente-fino, à cata de algo que nem mesmo ela sabe o que é. Uma sensação frustrante de impotência toma conta do seu corpo e lança-a num torpor de imagens desconexas do quarto onde acaba de entrar, o seu, mergulhado na escuridão. Uma cortina vermelha, igual às do piso inferior, filtra a luz externa, arroxeando a divisão e emprestando-lhe um ar soturno arrepiante. Afasta-a sem fazer barulho, o carro negro continua lá em baixo, no mesmo local onde o viu pela primeira vez. A impávida serenidade do veículo a destoar do seu próprio estado de espírito. Não, é necessário manter a lucidez. Não se deixe abater, pensa. Vamos, coloque essa cabeça para funcionar. O que tem de fazer? Os passos em baixo continuam a fazerem-se ouvir, como um martelo batendo em madeira. Rudes, fortes, desregrados, como a dizerem em voz alta: estou aqui!

O que fazer? Há sempre solução para tudo. Não pode sair por um lado, saia por outro, dizia a avó. Saia por outro... Saia por outro... Na casa da avó era possível sair pela janela do primeiro andar porque estava construída na encosta do monte, literalmente. Mas adaptar a realidade àquela casa, àquela cidade inglesa, absolutamente plana, não é a mesma coisa. No entanto, há sempre que se contar com a famosa circunspecção britânica. Tudo tem saídas de emergência, mesmo as casas. O perigo de incêndio em Londres é iminente, dadas as construções dos interiores feitas em madeira e a idade dos edifícios. De grande incêndio, bastou o de 2 de Setembro de 1666. Até essa casa tem uma saída de emergência. Mas onde? Não existem portas nesse andar. As janelas abrem muito pouco. A não ser..., a do banheiro. É isso! A janela do banheiro abre totalmente. E, ao lado, fixas na parede, há escadas de ferro para saída de emergência. A solução. Obrigada, avó!

Uma solução, um plano, um intruso. Sarah Monteiro respira fundo. O banheiro fica logo em frente. É só passar a porta, atravessar a extensão do corredor e entrar. Segundos, meros segundos, separam-na do exterior. Um... dois... três... Inicia a corrida, para tropeçar e cair logo na carpete do corredor. O intruso, que ouviu os passos de Sarah, lança-se para as escadas. Ela se levanta e corre para o banheiro. Pancadas fortes sobre os degraus. Sarah, dentro do banheiro, sobe para cima da banheira e tenta abrir a janela. A falta de uso emperrou o corrediço de tal maneira que nenhuma força a abrirá. Prova disso é a expressão de esforço no rosto de Sarah, que, não fosse a escuridão, mostraria o rubor declarado que lhe provoca o afogueamento da respiração. Os passos ultrapassaram as escadas e são audíveis no corredor. A pessoa em questão já não corre: caminha lentamente pelo corredor, espreitando cada divisão por onde passa.

Sarah faz uma última tentativa para abrir a maldita janela..., nada feito. Aquilo não levaria a nada. No corredor, um homem, envergando um sobretudo negro, enrosca o silenciador na Beretta. Sarah esmaga-se contra a parede do banheiro. Talvez ainda dê tempo de fazer alguma coisa. Se conseguisse quebrar o vidro todo de uma vez... De quantos segundos necessitaria para quebrá-lo e sair? Cinco? Dez? De quantos segundos precisará o assassino para percorrer os poucos metros que faltam assim que escutar os estilhaços? Dois? Três? Talvez menos. Provavelmente morreria com um pé para fora da janela, se tivesse tempo para tanto. Provavelmente... Mais um passo, outro... O ranger da madeira, o ranger dos dentes de Sarah, reflexos inconscientes do corpo alerta. O medo paralisa seus movimentos. Só consegue ouvir o ruído do soalho a cada passo, a respiração muito calma do intruso bem dentro da sua cabeça. Está acostumado àquilo, com certeza. Um profissional. Para ele, Sarah não passa de mais uma vida descontinuada, consegue ainda pensar a jovem. Uma vida sem nenhum interesse nem relevância para quem vem tirá-la. Um corpo em breve inerte, sem sonhos, sem projectos, sem nada. Um corpo não passa de um corpo. É então que a voz do pai e da avó substituem todos os outros pensamentos. Lembra-se do que dizia a avó? Há sempre solução para tudo. Só não há para a morte.

De súbito, exacerbada por uma sensação de urgência, Sarah sai da banheira o mais silenciosamente possível. As meias e o seu diminuto peso ajudam nesse efeito. Procura algo, os olhos há muito habituados à pouca iluminação. O secador? Não. O spray de cabelo? Também não. Toalhas, perfumes, cremes, toalhas, vassoura..., não, não, não. Encosta-se na parede junto à pia, impotente. Ao seu lado, à altura da cabeça, o extintor. Isso sim! Se julga que não vai ter luta, está muito enganado, balbucia em surdina, com o extintor nas mãos, sentindo-lhe o peso. Comprime-se contra a parede, junto à abertura para o corredor. Segura o extintor com as duas mãos e mantém-se à escuta. Três metros..., uma passada..., dois metros..., uma passada..., um metro... Primeiro foi a nuvem de pó espumante com que Sarah pulverizou toda a entrada, aliando uma névoa densa à luz fraca. O intruso não deu sinais de vida durante alguns segundos, na tentativa de deixar pousar o produto liberado pelo extintor, mas logo Sarah voltou à carga, esvaziando o conteúdo. A segunda utilidade seria o de arma de arremesso, mas o silêncio do desconhecido tomou-se desesperador. Onde está?, geme em voz baixa». In Luís Miguel Rocha, O Último Papa, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-969-7.

Cortesia SEmergência/JDACT

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A Mentira Sagrada. Luís Miguel Rocha. «4 de Janeiro de 2003, disse Rafael. Descoberta de um bloco de pedra calcária com inscrições em fenício antigo com um plano pormenorizado para a recuperação do primeiro templo judeu…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vaticano. 19 de Abril de 2005

«(…) Rafael olhou para ele pela primeira vez. Dispensava a aula de História. Conhecia aquele argumento há décadas. Pagam-te para ensinar isso?, provocou com menosprezo. Depois de décadas de escavações, de sorrisos, de ilusões, de ansiedade, o que é que eles encontraram?, deixou a pergunta no ar, ignorando a ironia de Rafael. Jacopo fez , um círculo com o indicador e o polegar. Zero, proclamou triunfante. Nada. Nada?, questionou Rafael. Nada de nada, reiterou Jacopo. Não encontraram absolutamente nada que comprovasse um só facto narrado no Antigo e no Novo Testamento. E chegaram a outra conclusão: aparecem nomes de personagens e de locais na Bíblia de que nem gregos nem romanos alguma vez ouviram falar. Só são mencionados naquele livro e em mais lado nenhum.

4 de Janeiro de 2003, disse Rafael. Descoberta de um bloco de pedra calcária com inscrições em fenício antigo com um plano pormenorizado para a recuperação do primeiro templo judeu, o do rei Salomão. Foi encontrada no Monte do Templo, na cidade velha de Jerusalém. Ou Haram al Sharif, como lhe chamam os muçulmanos, acrescentou Jacopo visivelmente agradado. O fragmento datava da época do rei bíblico Joás, que reinou há mais de 2500 anos. Se és tão versado na Bíblia então deves recordar-te do capítulo 12, dos versículos 4, 5 e 6, mais especificamente, do Segundo Livro dos Reis, onde se relata que Joás, rei de Judá, ordenou que juntassem todo o dinheiro recolhido no templo para ser utilizado na sua reparação. Alegadamente, proferiu Jacopo com um sorriso. Nunca me deixaram ver tal descoberta. Nem houve mais notícias.

1961, prosseguiu Rafael. A escavação de um anfiteatro antigo, mandado erigir por Herodes, o Grande, em Cesareia, no ano 30 antes de Cristo Nosso Senhor, revela um bloco de calcário, aceite como autêntico. Nele encontra-se uma inscrição parcial. Jacopo e Rafael citam-na ao mesmo tempo.

DIS AUGUSTIS TIBERIEUM

PONTIUS PILATUS

PRAEFECTUS IUDAEAE

FECIT DEDICAVIT.

Jacopo aplaude a sorrir. A Pedra de Pilatos. Um aplauso, caro senhor. Só comprova a existência de Tibério e Pilatos, que nunca esteve em dúvida, e confirma que o posto de Pôncio Pilatos era de prefeito, ou seja, governador e não procurador, argumentou Jacopo. Tens mais? É um trabalho em evolução. Não esqueças que estamos a falar de milénios de história em cima de história em curso. Mas nunca se sabe quando poderão aparecer novos elementos e tu, melhor que ninguém, sabes como é um trabalho moroso. Jacopo levantou os braços e abriu as mãos. Voltem sofistas. Estão perdoados.

Uma chuva miudinha acolheu-os assim que puseram o pé no exterior do terminal, limpando-lhes o rosto e agarrando-se à roupa. Que raio de tempo, protestou Jacopo. A Sûreté enviara um carro para os levar ao local onde Zafer fora encontrado por um drogado que procurava um local privado para subir às alturas. Em vez disso encontrou um velho estendido no chão, inerte, de barriga para baixo, sem vida. O armazém ficava a norte da cidade, longe do bulício turista, das luzes que lhe davam o epíteto. Um conjunto de projectores, alimentados por um gerador que fazia um ruído monumental, iluminava o exterior e interior do armazém. O cadáver já tinha sido recolhido durante a tarde. A perícia recolhera todos os elementos que pudessem revelar mais sobre o criminoso, porque o resto fora bastante claro. Zafer fora atraído ao local de livre e espontânea vontade, levara uma tareia e, por fim, uma injecção de prussiato acabara com o seu sofrimento. Algumas pessoas, vestidas à civil, vagueavam pelo local em algum afazer descontextualizado para quem estava de fora. Outras apenas conversavam sobre o jogo da selecção gaulesa, antevendo o final do longo dia de trabalho.

Rafael Santini?, chamou um homem de gabardina creme e cigarrilha na boca. Rafael foi retirado do mundo de probabilidades e especulações onde estava e levantou-se. O próprio. O senhor é o inspector Gavache? Efectivamente. Estendeu a mão a selar o conhecimento entre dois desconhecidos». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

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domingo, 19 de julho de 2020

O Último Papa. Luís Miguel Rocha. «Mais um passo, outro... O ranger da madeira, o ranger dos dentes de Sarah, reflexos inconscientes do corpo alerta»

jdact

Conclave
26 de Agosto de 1978
«(…) Tão logo chega ao primeiro andar, escuta o movimento das dobradiças da porta de baixo. Um estrépito grave que incomoda os ouvidos, ainda mais no meio da escuridão da casa. Havia muito tinha a intenção de mandar lubrificá-las, mas protelara sempre, por uma ou outra razão. Ficara na intenção; mas não pensa nisso Sarah Monteiro. O que a incomoda nesse momento é a porta que se abriu e os passos intrusos no interior da própria casa. Caminha em direção ao quarto, sempre de ouvidos atentos, os sentidos da sobrevivência totalmente despertos, assim como o medo aterrador.
O intruso passeia pelo andar inferior, calmamente, sem se incomodar em disfarçar sua presença. O peso do calçado faz estalar o soalho muito devagar. Sarah imagina-o passando o local a pente-fino, à cata de algo que nem mesmo ela sabe o que é. Uma sensação frustrante de impotência toma conta do seu corpo e lança-a num torpor de imagens desconexas do quarto onde acaba de entrar, o seu, mergulhado na escuridão. Uma cortina vermelha, igual às do piso inferior, filtra a luz externa, arroxeando a divisão e emprestando-lhe um ar soturno arrepiante. Afasta-a sem fazer barulho, o carro negro continua lá em baixo, no mesmo local onde o viu pela primeira vez. A impávida serenidade do veículo a destoar do seu próprio estado de espírito. Não, é necessário manter a lucidez. Não se deixe abater, pensa. Vamos, coloque essa cabeça para funcionar. O que tem de fazer? Os passos em baixo continuam a fazerem-se ouvir, como um martelo batendo em madeira. Rudes, fortes, desregrados, como a dizerem em voz alta: estou aqui!
O que fazer? Há sempre solução para tudo. Não pode sair por um lado, saia por outro, dizia a avó. Saia por outro... Saia por outro... Na casa da avó era possível sair pela janela do primeiro andar porque estava construída na encosta do monte, literalmente. Mas adaptar a realidade àquela casa, àquela cidade inglesa, absolutamente plana, não é a mesma coisa. No entanto, há sempre que se contar com a famosa circunspecção britânica. Tudo tem saídas de emergência, mesmo as casas. O perigo de incêndio em Londres é iminente, dadas as construções dos interiores feitas em madeira e a idade dos edifícios. De grande incêndio, bastou o de 2 de Setembro de 1666. Até essa casa tem uma saída de emergência. Mas onde? Não existem portas nesse andar. As janelas abrem muito pouco. A não ser..., a do banheiro. É isso! A janela do banheiro abre totalmente. E, ao lado, fixas na parede, há escadas de ferro para saída de emergência. A solução. Obrigada, avó!
Uma solução, um plano, um intruso. Sarah Monteiro respira fundo. O banheiro fica logo em frente. É só passar a porta, atravessar a extensão do corredor e entrar. Segundos, meros segundos, separam-na do exterior. Um..., dois..., três... Inicia a corrida, para tropeçar e cair logo no carpete do corredor. O intruso, que ouviu os passos de Sarah, lança-se para as escadas. Ela se levanta e corre para o banheiro. Pancadas fortes sobre os degraus. Sarah, dentro do banheiro, sobe para cima da banheira e tenta abrir a janela. A falta de uso emperrou o corrediço de tal maneira que nenhuma força a abrirá. Prova disso é a expressão de esforço no rosto de Sarah, que, não fosse a escuridão, mostraria o rubor declarado que lhe provoca o afogueamento da respiração. Os passos ultrapassaram as escadas e são audíveis no corredor. A pessoa em questão já não corre: caminha lentamente pelo corredor, espreitando cada divisão por onde passa. Sarah faz uma última tentativa para abrir a maldita janela..., nada feito. Aquilo não levaria a nada. No corredor, um homem, envergando um sobretudo negro, enrosca o silenciador na Beretta. Sarah esmaga-se contra a parede do banheiro. Talvez ainda dê tempo de fazer alguma coisa. Se conseguisse quebrar o vidro todo de uma vez... De quantos segundos necessitaria para quebrá-lo e sair? Cinco? Dez? De quantos segundos precisará o assassino para percorrer os poucos metros que faltam assim que escutar os estilhaços? Dois? Três? Talvez menos. Provavelmente morreria com um pé para fora da janela, se tivesse tempo para tanto. Provavelmente...
Mais um passo, outro... O ranger da madeira, o ranger dos dentes de Sarah, reflexos inconscientes do corpo alerta. O medo paralisa seus movimentos. Só consegue ouvir o ruído do soalho a cada passo, a respiração muito calma do intruso bem dentro da sua cabeça. Está acostumado àquilo, com certeza. Um profissional. Para ele, Sarah não passa de mais uma vida descontinuada, consegue ainda pensar a jovem. Uma vida sem nenhum interesse nem relevância para quem vem tirá-la. Um corpo em breve inerte, sem sonhos, sem projectos, sem nada. Um corpo não passa de um corpo. É então que a voz do pai e da avó substituem todos os outros pensamentos. Lembra-se do que dizia a avó? Há sempre solução para tudo. Só não há para a morte. De súbito, exacerbada por uma sensação de urgência, Sarah sai da banheira o mais silenciosamente possível. As meias e o seu diminuto peso ajudam nesse efeito. Procura algo, os olhos há muito habituados à pouca iluminação. O secador? Não. O spray de cabelo? Também não. Toalhas, perfumes, cremes, toalhas, vassoura..., não, não, não. Encosta-se na parede junto à pia, impotente». In Luís Miguel Rocha, O Último Papa, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-969-7.

Cortesia SEmergência/JDACT

quinta-feira, 11 de junho de 2020

A Mentira Sagrada. Luís Miguel Rocha. «Tarcísio optou novamente pelo relato conciso e frio dos elementos, por muito que lhe custasse»

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Vaticano. 19 de Abril de 2005
«(…) O Statu Quo foi quebrado, atirou, levantando o olhar para um ponto qualquer na parede que tinha um quadro grande do Sumo Pontífice numa expressão neutra. Aguardou a reacção do austríaco. Desenvolve, foi a única resposta, com o sotaque germânico a sobrepor-se ao italiano, normalmente correcto. Tarcísio precisava mesmo da mente aguçada e lúcida do amigo. Nenhuma solução se apresenta sem que tenhamos todos os dados na nossa mão. Tarcísio optou novamente pelo relato conciso e frio dos elementos, por muito que lhe custasse.
Mataram o Aragonês, o Zafer, o Sigfried está desaparecido, assim como o Ben Isaac e o filho, disparou os nomes e os factos à queima-roupa como se mencioná-los o livrasse deles e os transferisse para Schmidt. Sentiu-se egoísta durante uns instantes, mas logo passou. Quando morreram?, questionou Schmidt não transmitindo qualquer emoção. Se os conhecia não transpareceu. Durante a semana. Aragonês no Domingo, Zafer na terça, o Sigfried desapareceu na quarta. Desconhecemos há quanto tempo desapareceu o clã Isaac. Desapareceu a família inteira?, quis saber Schmidt. Sim. O casal e o herdeiro, completou Tarcísio. Quem tens a tratar disso? O nosso oficial de ligação com o SISMI e um enviado especial. Quem? O padre Rafael. Lembras-te dele? Claro que sim. Muito competente. Não precisas de mim, argumentou o austríaco. O assunto está em boas mãos.

Tarcísio não parecia tão convencido. Aliás, antes pelo contrário. Estava alvoroçado e agitado. Batia com um pé no chão como se estivesse ligado à corrente. Se isto nos explode na cara... A Igreja sempre sobreviveu a tudo e a todos, proferiu Schmidt. Não vejo razões para que não sobreviva agora. Não vês? Andam atrás de documentos importantes. Documentos que comprovam que... Que não comprovam nada, contrapôs o austríaco. Não se sabe quem os escreveu nem por que motivos. São apenas palavras. A ordem das palavras fere e mata, atalhou Tarcisio. As palavras têm a força que lhes dermos, discordou Schmidt sem alterar o tom de voz. É isso que defendes agora? Nada precisa da minha defesa. Muito menos a Igreja. Tarcísio levantou-se irritado e começou a andar de um lado para o outro com as mãos atrás das costas. Estamos em guerra, Hans. Estamos em guerra há 2000 anos. Sempre ouvi falar nessa guerra e, no entanto, nem sequer temos exército, ironizou Schmidt.
Não consegues ver o que acontecerá se mãos alheias conseguirem os documentos? Se bem recordo, o Papa Roncalli acautelou esse cenário. O acordo… O acordo acabou, interrompeu Tarcísio, levantando as mãos ao céu. Previa uma duração de 50 anos. Terminou há dias.

Eu sei, Tarcisio. Mesmo assim não acredito que Ben Isaac se aproveitasse dos docu... Por que não? O acordo acabou. Pela primeira vez o padre austríaco olhou-o apreensivo. Porque eu conheci-o aquando da renovação do acordo. Ben Isaac poderá ser vítima, nunca vilão, afirmou o austríaco peremptório. Isso foi há 25 anos. Viste-o duas ou três vezes. Não esqueçamos que ele é..., judeu, disse-o como se se tratasse de uma falha profunda. Nós rezamos a um judeu, Tarcísio. Não é a mesma coisa, desculpou-se o cardeal. Não vejo como possa ser diferente. Ele nunca conheceu outra religião. Jesus fundou a Igreja Católica. Tarcísio, por favor. És o cardeal mais influente da Igreja Católica Apostólica Romana, actualmente. Jesus nunca conheceu a Igreja Católica ou qualquer outra herdeira do nome Dele. Nunca a fundou e, muito menos, pediu que a construíssemos.
O assunto desconfortava Tarcísio. Era um ponto de afastamento entre os dois homens. Exasperava-o este pensamento demasiado livre de Schmidt, só lhe arranjara problemas. Relembrara justamente que essa era a principal razão para que o amigo se encontrasse em Roma nesta noite. Tornou a sentar-se e deixou que o silêncio se espraiasse pelo gabinete. Hans permanecia imóvel, de perna cruzada, o Austrian Eis, imperturbável. Estás preparado para amanhã?, acabou por perguntar Tarcísio. Ver-se-á quando o amanhã vier. Não te vou poder ajudar perante a congregação, Hans. Lamento, avisou o outro desajeitadamente. Lamentava genuinamente». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

quarta-feira, 4 de março de 2020

A Mentira Sagrada. Luís Miguel Rocha. «Tarcísio sentou-se ao seu lado. Estavam no seu gabinete, o que para Schmidt era uma novidade, nunca ali havia entrado. Muito espaçoso, uma grande secretária de carvalho…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vaticano. 19 de Abril de 2005
«(…) A curiosidade jornalística sobrepôs-se ao temor. Calçou-se e pegou no casaco. Já venho. Queres que vá contigo?, voluntariou-se o deus italiano. Sarah fitou o jovem clérigo e analisou-o durante uns instantes. Não. Está tudo bem. Desceram no elevador até ao piso da recepção. Já era noite. Olhou em redor e não viu ninguém. Nem na recepção, que costumava ter sempre alguém atrás do balcão pronto para atender ao hóspede mais incauto ou curioso, estava alguém. Parecia um hotel despido de vida. Como se o mundo tivesse parado durante alguns instantes e fosse desprovido de gente. Sarah e o clérigo não trocaram uma palavra. Ela preferia assim e era um favor que fazia à sua escolta a quem o silêncio também agradava. Cumpria as ordens escrupulosamente e não desejava ser interrogado sobre coisas que não devia, ou não podia, mencionar. Saíram para o exterior. Estava frio, mas não desagradável. Tolerava-se. Pensava em Rafael. Seria ele quem a convocara? Não podia ser mais ninguém. Por essa razão estava tão despreocupada. Não era suficientemente importante para despertar o interesse de jovens clérigos mudos. O carro estava em frente ao hotel, ao fundo das escadas. Um Mercedes de vidros fumados.
O jovem padre abriu a porta do veículo e Sarah olhou para o interior. O queixo caiu-lhe. Dentro, confortavelmente sentado, a saborear um charuto, um homem de vestes escarlates, cruz de ouro a pender no peito, segurava no colo a calota cardinalícia. Boa noite, Sarah Monteiro, cumprimentou.

As conversas entre amigos são contínuas. Ainda que fiquem anos apartados retomam-nas sempre no ponto em que ficaram, empenhando a experiência adquirida no entretanto. As grandes amizades não carecem de comunicação constante e ininterrupta, podem mesmo não dizer nada um ao outro entre encontros que quando se tornam a ver a sensação é a de que se tinham visto no dia anterior. O dia anterior em certas amizades podia ter sido há três anos e meio. Hans Schmidt e Tarcísio fruíam desse género de amizade. Um abraço apertado seguiu-se ao cumprimento entre as mãos direitas. Depois dois beijos. Tarcísio deixou os olhos encherem-se de lágrimas, mas nenhuma se atreveu a descer pelo rosto. Schmidt não chegou a tanto, mas isso não queria dizer que não tivesse saudades do amigo, simplesmente mostrava menos. Daí que sempre tenha sido chamado de Austrian Eis. Como estás, meu querido?, perguntou Tarcísio com um sorriso. Como Deus quer, respondeu o austríaco fitando o piemontês. Senta-te, senta-te, pediu Tarcísio, apontando para um sofá de couro castanho com décadas. Deves estar cansado. Fizeste boa viagem? Muito agradável, disse Schmidt, acatando a oferta de Tarcísio e deixando o corpo repousar no sofá. Cruzou a perna. Sem atrasos, sem percalços.

Tarcísio sentou-se ao seu lado. Estavam no seu gabinete, o que para Schmidt era uma novidade, nunca ali havia entrado. Muito espaçoso, uma grande secretária de carvalho junto a uma das amplas janelas que estavam fechadas a separá-los da noite romana. O silêncio instalou-se constrangedor. Os cartuchos da conversa circunstancial estavam quase esgotados. Jantaste? Queres comer alguma coisa?, ofereceu Tarcísio. Estou bem, Tarcísio, obrigado. Schmidt sempre fora muito frívolo. Raramente sentia fome, por vezes, nos tempos em que estava colocado em Roma, parecia-lhe há séculos, esquecia-se de comer. Chegou a desmaiar de fraqueza por causa disso. O austríaco era obstinado e dedicava-se com afinco à tarefa ou tarefas que lhe tivessem sido imputadas, fosse nos estudos ou, posteriormente, nas funções pastorais. Durante alguns anos esteve arredado dessas funções que lhe davam tanto prazer, auxiliando Tarcísio com deveres mais administrativos e episcopais que entendia serem necessários, mas não o preenchiam. Fosse como fosse, gostasse ou não, sempre as executou com muita proficiência. Tarcísio tinha um enorme apreço pelo homem e pelo clérigo e, um ainda maior, pelo amigo. Vamos falar do teu problema?, inquiriu Schmidt. A sua abordagem aos problemas era simples e directa, não os evitava, nem lhes virava as costas, se existiam tinham de ser solucionados imediatamente para não avassalarem sobre nós mais tarde. Deus protegia os audazes. Tarcísio olhou para o chão à procura das palavras correctas que teimavam em fugir-lhe como água pelos dedos. Decidiu ser directo como o amigo. Schmidt não o permitiria de outra maneira». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

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A Mentira Sagrada. Luís Miguel Rocha. «Olhou para o rosto e limpou-lhe os olhos marejados. Beijou-a na testa. Sarah olhou-se ao espelho, libertou-se do abraço de Francesco…»

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Vaticano. 19 de Abril de 2005
«(…) No quarto do Grand Hotel Palatino Sarah sentiu-se indisposta. Por várias vezes as náuseas subiram à boca, ocas, sem conteúdo. Puxava o vómito sentada no chão do quarto de banho com a cabeça no rebordo da sanita. Nada. Francesco assistia impotente. Queres que chame um médico?, perguntou preocupado. Não. Isto já passa, respondeu ela preparando-se para puxar novamente. Não lhe dissera que isto já não era de agora. Os sintomas já se vinham fazendo sentir desde Londres. Vou pedir um chá quente. Vai-te fazer bem. Pegou no auscultador do telefone que tinha no interior do quarto de banho. Sim. Faz isso. Obrigada. E puxou pelo vómito que não trazia nada. Uma aflição oca, um mal-estar vazio. Ai. Que raio, lamentou-se. Francesco fez o pedido e pousou o auscultador. Depois aninhou-se e abraçou Sarah. Queres ir para a cama?, inquiriu carinhosamente. Deixa só ver se isto já acalmou. Sarah sabia que acalmava sempre. Durava alguns minutos e depois era como se nada tivesse acontecido. Francesco fitou a namorada, debruçada sobre a sanita como alguém que se embriagara toda a noite. Não deixava de sentir um enternecimento, uma necessidade de a fazer sentir-se bem. Fitou-a seriamente. Sarah, disse a medo. Sei que não é o momento propício, mas talvez fosse melhor irmos a uma farmácia, contemplou a reacção dela. Porquê? O enjoo acalmara.
Sabes muito bem porquê, querida. Sorriu. Não temos propriamente sido castos nos últimos tempos. Sarah nem sequer queria pensar nisso. Uma gravidez não estava nos seus planos neste momento. Não que tivesse alguma coisa contra Francesco, nada disso, ele seria um pai exemplar, mas... Vou ao médico quando regressarmos, propôs ela. Tens a certeza? Francesco mirava-a com ar condescendente. Sim, tenho. Depois de amanhã resolvemos isso. Ajuda-me a levantar, por favor. Francesco elevou-se puxando-a consigo e abraçou-a com força. Estou contigo para o que der e vier. Não te deixarei ir para comprar cigarros, pronunciou a sorrir. Sarah comprimiu-se de encontro ao peito dele e fechou os olhos. Uma lágrima derramou-se na camisa de Francesco. Sentia-se perdida, e apesar do italiano lindo que lhe afiançava o amor, sentia-se sozinha, sem ninguém que a amparasse... Excepto Francesco, o deus italiano, de Ascoli que oferecera o seu coração à luso-britânica. Nesse momento ouviu-se uma pancada leve na porta.
Deve ser o serviço de quartos, disse Francesco. Estás bem, querida? Olhou para o rosto e limpou-lhe os olhos marejados. Beijou-a na testa. Sarah olhou-se ao espelho, libertou-se do abraço de Francesco e colocou as duas mãos sobre o lavatório, fitando-se, as imperfeições, os olho vermelhos, a lividez do rosto. Estou bem, Francesco. Atendes por favor? Vou só lavar o rosto, pediu continuando a avaliar-se ao espelho. Claro. O deus italiano anuiu e foi abrir a porta onde alguém tornara a bater com um pouco mais de força. Já vai, gritou em italiano antes de sair do quarto de banho. Sarah massajou os olhos com os dedos na esperança que quando os abrisse novamente visse outra mulher à sua frente. Outra cor. Nova disposição. Vontade de seguir em frente. Aquela vontade férrea que a acompanhava quando deixou Rafael no bar há seis meses e passou assim que a fúria e a raiva se esfumaram. Ele deixara-a seguir o seu caminho. Não tornara a ligar, nem a procurá-la. A protecção que Rafael lhe conferia dissolveu-se. Tinha saudades dele, mesmo dos silêncios prolongados. Quando olhava pela janela e não o via, mas sabia que ele andava por ali, como um anjo-da-guarda. Tudo isso terminara há seis meses, depois daquela conversa de um só sentido no Walker's Wine and Ale Bar. Estaria em Roma ou em alguma missão perigosa por esse mundo? Às vezes dava por si a pensar nisso. Apetecia-lhe ligar para ele. Saber como estava. Se estava tudo bem na paróquia dele, como corriam as aulas na universidade. E depois caía em si... E no ridículo da situação. Olá Rafael Queria saber se estás bem. E os meninos na tua paróquia? Os teus alunos? Olha, ainda te amo.
Toda essa diarreia mental parou com a voz de Francesco que vinha do quarto. Ah! Acho melhor vires aqui, Sarah. Sarah passou água pelo rosto e enxugou-o com uma toalha. Foi ao quarto e viu Francesco à porta. O que foi? Acercou-se da porta e viu um prelado jovem, batina negra, tez negra, expressão circunspecta. É para ti, explicou Francesco. Boa noite, cumprimentou Sarah. Boa noite, menina Sarah. Pediram-me que viesse buscá-la. Pediram-lhe? Quem pediu? Que coisa mais estranha. Não estou autorizado a revelar. Lamento, desculpou-se o jovem padre». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

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