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domingo, 6 de março de 2022

Hugo M. P. Calado. A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar. «Estes contactos de fronteira desenvolveriam um bi-linguismo, em que os integrantes da marca aprenderiam a falar como aqueles com quem contactavam, o que facilitaria a comunicação…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Mestre Hugo Calado

A Fronteira na Idade Média: Espaço de Separação ou Aproximação Populacional?

«(…) A marca era um território onde se estacionavam comunidades, que por iniciativa régia, cuja actividade guerreira era objectivo principal, defendendo o território de rectaguarda, ou pelo menos sustendo uma investida inimiga. Eram então comunidades em risco permanente, grupos populacionais que habitavam um espaço organizado e absorviam os ataques inimigos. Estamos a falar de um espaço que, recebendo influência de duas comunidades humanas distintas que separava, poderia adquirir características próprias de individualização, face aos blocos em confronto. A fronteira Islão/Cristandade era um espaço territorial e social que poderia englobar indivíduos de religiões, sociedades e civilizações diferentes, formando uma sociedade de fronteira bastante heterogénea, onde só se conseguem conhecer, com alguma clareza, as elites, grupos sociais que viviam na sua maioria em centros urbanos, onde estariam concentradas as principais actividades industriais, comerciais e administrativas.

As informações dos achados arqueológicos, nomeadamente os de carácter epigráfico, podem ser aqui um bom fornecedor de informações, embora seja maioritariamente em centros populacionais de alguma importância que se concentram os maiores núcleos de epígrafes funerárias, estruturas feitas em mármore, embora também estejam espalhadas um pouco por todo o sul de Portugal. Já nos locais rurais, como Noudar, a construção de epígrafes seria em material mais modesto, devido aos elevados custos de outros materiais, nomeadamente o mármore, que não era barato nem acessível a todos.

A marca era ainda um espaço de um grupo social que utilizava conhecimentos adquiridos em contextos específicos, nomeadamente a guerra. São populações de fronteira que estão habituadas aos rigores de um espaço que tem influências de duas comunidades beligerantes, e que se batem pela conquista e povoamento daquele território que não possuía uma integração territorial segura e jurisdicional do ponto de vista administrativo, sob uma das monarquias conquistadoras. Os conhecimentos adquiridos pelas pessoas que habitam estas áreas são mesmo requisitados pelos diversos blocos político-militares em confronto, servindo como informação de preparação contra incursões de ambos os lados, em busca de saque através de ataques rápidos. Como tal, muitas dessas populações são pessoas que se distinguem das outras comunidades integrantes na dicotomia peninsular Islão/Cristandade, sendo vistas como muito úteis para determinados propósitos guerreiros.

Estes contactos de fronteira desenvolveriam um bi-linguismo, em que os integrantes da marca aprenderiam a falar como aqueles com quem contactavam, o que facilitaria a comunicação entre grupos diferenciados numa sociedade tão heterogénea como uma comunidade de fronteira na reconquista peninsular. Na dinâmica da reconquista portuguesa, o povoamento e sua promoção, com o objectivo do alargamento do território conquistado e entretanto ocupado, é uma das principais preocupações dos monarcas da nossa primeira dinastia, pois com o alargamento das fronteiras, a sua continuidade dos territórios conquistados nas mãos de quem os adquiriu depende do (re)povoamento dos mesmos, onde as regiões fronteiriças têm um papel de destaque. A importância dada a comunidades de fronteira é então primordial, pois são estas comunidades são o suporte da manutenção das fronteiras conquistadas e do seu alargamento». In Hugo Miguel Pinto Calado, A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar, O Castelo de Noudar e a Defesa do Património Nacional, Tese de Mestrado em História Regional e Local, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, 2007.

 Cortesia da UL/FL/DHistória/JDACT

JDACT, Hugo M. P. Calado, Cultura e Conhecimento, História, Alentejo, 

sábado, 5 de março de 2022

A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar. Hugo M. P. Calado. «Aqui predomina então o conceito de fronteira móvel, um espaço, ocupado por várias comunidades que se expandem, retraem ou contêm, consoante a sua capacidade de decisão e coesão»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Mestre Hugo Calado

A Fronteira na Idade Média: Espaço de Separação ou Aproximação Populacional?

«(…) As questões de fronteira são algo ambíguas, pois normalmente vemos a palavra fronteira com possuindo um significado divisório, actualmente é uma linha estabelecida pela sociedade política com o objectivo de separar dois ou mais estados, duas ou mais regiões, e também os seus povos. A origem de uma fronteira reside no movimento próprio dos seres vivos, implicando a paragem por falta de condições vitais necessárias, ou então significa uma paragem perante um movimento contrário, e não uma linha fixa no tempo, como a concebemos hoje em dia. A fronteira é então móvel e artificial, a definição de fronteira, como uma linha político-administrativa de separação entre dois espaços geográficos, é um produto do homem e não tem enquadramento num contexto geográfico.

Muitas vezes existe uma continuidade física e natural dos territórios em termos geográficos, cujo fim desses mesmos espaços são determinados fisicamente pelos chamados confins naturais, onde a própria natureza determina o término de qualquer área geográfica que seja de características homogéneas, e mesmo assim só se consideram elementos de separação naturais quando ainda não foram tocados por qualquer grupo humano. Como elemento de separação, a fronteira é um modo encontrado pelo homem para reivindicar, de modo pacífico, direitos sobre determinado território, reivindicações essas que passaram do interior de determinados grupos sociais dentro de uma sociedade, para um contexto mais vasto, de grupos sociais mais numerosos, cuja separação necessitava de um acordo de divisão de território, surgindo assim a fronteira para dividir grupos, embora esses se possam sentir como integrantes de um todo mais abrangente, mesmo estando separados.

Cada conjunto populacional tinha o seu território, que deveria organizar, criando uma coesão interna, e o seu exclusivismo pode materializar-se em duas situações: a expansão, adquirindo mais território, surgindo a necessidade da sua defesa. Durante a Idade Média, a fronteira significava, não uma linha divisória entre dois estados, ideia historicamente algo recente, mas um espaço que poderia ter dimensões consideráveis em função da expansão ou retracção de um grupo em movimento, seja em processo de conquista, obtendo mais território para esse grupo, cujas necessidades de acrescentamento à sua unidade territorial podem ser de várias ordens, como melhores terrenos agrícolas, metais preciosos, uma imposição expansionista em relação a outro grupo menos forte economicamente ou militarmente, e também menos coeso.

Aqui predomina então o conceito de fronteira móvel, um espaço, ocupado por várias comunidades que se expandem, retraem ou contêm, consoante a sua capacidade de decisão e coesão. A necessidade de expansão surge com outra necessidade, a de um espaço vital, cujo avanço em determinada direcção necessitava de uma capacidade demográfica considerável para criar um grupo (ou vários) de colonos-soldados, que deveriam ocupar o espaço deixado vago pelos antigos ocupantes, após a retirada destes últimos. No Portugal Medieval, mais concretamente no espaço da reconquista cristã peninsular dos séculos XII-XIII, a fronteira era enquadrável no conceito de marca, um espaço divisório e indefinido entre dois grupos humanos (Islão/Cristandade), que recebe influências dos mesmos corpos sociais que divide, embora também se aproxime deles, pois pode ser gerido politicamente a partir do exterior». In Hugo Miguel Pinto Calado, A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar, O Castelo de Noudar e a Defesa do Património Nacional, Tese de Mestrado em História Regional e Local, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, 2007.

Cortesia da UL/FL/DHistória/JDACT

JDACT, Hugo M. P. Calado, Cultura e Conhecimento, História, Alentejo, 

A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar. Hugo M. P. Calado. «Teófilo Borrallo Salgado indica-nos ainda que Alfonso Telles Menezes era casado com dona Teresa Sanches, filha ilegítima de Sancho I e de dona Maria Páez Rivera…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Mestre Hugo Calado

O castelo de Noudar e a defesa do património nacional

A Historiografia Espanhola

«(…) As informações sobre este tema são trazidas por textos de direito, que explicam o que é o Fuero del Baylio, como apareceu e propondo diversas origens para o mesmo, nomeadamente origem portuguesa. O Fuero del Baylio, do qual há estudos desde a primeira metade do século XX, foi aplicado na Estremadura castelhana na Idade Média nas suas várias localidades de fronteira, através dos conquistadores cristãos das fortalezas do mesmo território, portugueses, castelhanos e cavaleiros templários, sendo que estes últimos seguramente receberam a praça de Jerez de los Caballeros na primeira metade do século XIII de mãos de Fernando III, e embora não tenham tido autoridade imediata para concederem um foral a uma determinada localidade, porque era uma ordem que só poderia vir de um capítulo geral da dita ordem em consonância com a coroa. Segundo informações apresentadas por Teófilo Borrallo Salgado, Alfonso Telles Menezes tomou Albuquerque e a repovoou por volta de 1200, e quanto à sua possível origem em Portugal, derivada da chamada Carta da Metade, o equivalente a este Fuero, o autor confessa o seu desconhecimento sobre o aparecimento deste tipo de foral na sociedade familiar portuguesa e que afinal ele não derivaria de costumes portugueses, embora, citando as Ordenações Manuelinas de 1521, apresente informação sobre a existência da Carta da Metade em Portugal, como normativa vigente sobre todos os casamentos feitos no reino português, mas que ela não existiria em Portugal na altura da conquista de Albuquerque.

No entanto, estudos mais recentes na área do direito falam nesta lei como pertencendo à legislação portuguesa no início do século XIII, através da qual se regeram os vassalos do conquistador de Albuquerque, Alfonso Tellez Menezes, e que a existência do foral nesta localidade se deve a esta personalidade, transitando esta carta de foral por várias localidades da Estremadura Espanhola, devido à vinculação ao domínio dos cavaleiros da Ordem do Templo. Esta ordem tinha-se instalado na Estremadura, no Baylio de Jerez de los Caballeros, e esse mesmo local foi encarregado de autorizar matrimónios celebrados nesta zona, daí a transição do foral por diversos locais. Instalou-se então, na Estremadura Espanhola, uma legislação económica e matrimonial, de origem não consensual, e que poderá ser mais antiga do que se pensa, podendo então a Ordem do Templo e Alfonso Tellez Menezes não ter implantado nada de novo, e sim confirmarem um costume desde tempos imemoriais.

Teófilo Borrallo Salgado indica-nos ainda que Alfonso Telles Menezes era casado com dona Teresa Sanches, filha ilegítima de Sancho I e de dona Maria Páez Rivera, tendo obtido esta informação de uma história geral espanhola. A obra de Salgado é um livro com bastante informação sobre esta carta de povoamento, que deve ser consultado. No entanto, conta já com bastantes anos, escrevendo o autor no primeiro quartel do século XX (1915), e recorrendo o mesmo a outras obras mais antigas, nomeadamente portuguesas, citando mesmo Alexandre Herculano, como fonte de estudo para a origem histórica do foral. As referências que chegam até nós sobre o Fuero del Baylio podem ser utilizadas para uma abordagem a uma perspectiva regional, ao termos em atenção as questões geográficas e culturais, pois este foral foi aplicado em povoações na Estremadura espanhola, como Jerez de los Caballeros, Fregenal, Oliva de Jerez, Valência del Mombuey (esta última tem ligação por via a Noudar), entre outras povoações que receberam o dito foral, todas situadas na mesma região geográfica de Noudar, o que nos é mostrado pelo mapa de Teófilo Salgado (o mapa mostra-nos toda uma estrutura de povoamento de fronteira regulamentado pelo mesmo tipo de foral, numa área territorial que abrange a zona da raia alentejana, embora não de uma forma contínua, indo de Albuquerque até Fuentes de León; os autores não referem Badajoz, Mérida ou Almendralejo, povoações próximas desta zona como possuindo este foral, talvez por serem locais de uma envergadura maior e com uma organização interna mais cuidada, ou então por já se situarem para dentro do território castelhano, onde a defesa e chegada de reforços para a mesma seria mais fácil).

É importante sabermos o tipo de povoamento do outro lado da fronteira político-administrativa, pois existem certamente determinadas afinidades características de instalação de populações nos dois lados da fronteira, e como tal, os artigos acima referidos são aconselháveis em termos de consulta para estudo de questões fronteiriças, apesar de serem artigos de âmbito jurídico, onde a questão histórica não goza de um maior cuidado». In Hugo Miguel Pinto Calado, A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar, O Castelo de Noudar e a Defesa do Património Nacional, Tese de Mestrado em História Regional e Local, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, 2007.

Cortesia da UL/FL/DHistória/JDACT

 JDACT, Hugo M. P. Calado, Cultura e Conhecimento, História, Alentejo,

terça-feira, 3 de agosto de 2021

A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar. Hugo M. P. Calado. «… diplomacia de determinados monarcas, reinados em que as acções diplomáticas e políticas dos seus titulares visaram Noudar. É igualmente importante consultar artigos e obras sobre o Fuero del Baylio…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Mestre Hugo Calado

O castelo de Noudar e a defesa do património nacional

A Historiografia Espanhola

«(…) Esta obra tem outra referência a Noudar, refere um ataque castelhano a esta fortaleza, por ordem do duque de Medina-Sidónia, que tinha organizado uma hoste em Sevilha, após o rei Afonso V de Portugal ter ocupado Toro, fazendo referência ainda a contenciosos de fronteira já no tempo de João II, a questão dos marcos divisórios entre Noudar e Encinasola, inquirições levadas a cabo pela parte portuguesa por Vasco Fernandes, e pela parte castelhana, por Rodrigo Coalha. A obra de Florentino Pérez-Embid, no entanto, conta já com trinta e dois anos, embora seja bastante interessante sobre a questão específica da fronteira do sul de Portugal com a Andaluzia, num universo historiográfico que não contempla muito este espaço, preferindo centrar-se em casos específicos, ficando a raia alentejana numa situação secundária, pois os estudos desta área como um todo escasseiam. Na historiografia regional e geral espanhola, contam-se com outras muitas obras, onde as questões de fronteira estão presentes, embora o seu âmbito cronológico possa não ser muito dilatado. As possíveis informações sobre Noudar são inexistentes. As obras espanholas sobre estruturas fortificadas são também importantes, nomeadamente sobre o período Islâmico e sua continuação para período cristão, e podem também referir-se ao lado português, o que incrementa os estudos sobre esta temática, contribuindo então com um bom conhecimento das diversas realidades dos dois lados da fronteira, o que facilita o trabalho de investigadores que futuramente se queiram debruçar sobre os estudos de estruturas fortificadas ou de realidades fronteiriças. No entanto, o castelo de Noudar também aqui não tem destaque como estrutura de defesa. Obras de destaque de reinados de monarcas específicos também são importantes, pois dão-nos informações preciosas sobre acções de conquista e diplomacia de determinados monarcas, reinados em que as acções diplomáticas e políticas dos seus titulares visaram Noudar. É igualmente importante consultar artigos e obras sobre o Fuero del Baylio, um costume cujas origens são muito remotas e para as quais não há certezas, e que consiste em ser especificamente um regime económico e matrimonial, em que todos os bens dos conjugues, antes ou depois da celebração do casamento, se tornam comuns, e quando o casamento de dissolve, por separação ou morte de um dos conjugues, se dividem. Sobre o Fuero del Baylio, é consensual ser uma carta de povoamento ou um conjunto de normas fixadas pelo rei, senhor ou proprietário de um determinado lugar, aos quais deveriam estar sujeitas as populações que habitariam esse lugar. O objectivo era atrair populações a zonas fronteiriças despovoadas durante a reconquista. Muitos destes artigos são de Direito e muito úteis para o estudo desta carta de povoamento. É uma atenção a um conjunto de normas locais, que regularizam as vivências de comunidades locais, devendo este direito ser aplicado primeiramente em relação ao direito geral. Pode ser uma carta de povoamento ou foral, que se refere a determinadas questões económicas sobre o património dos conjugues». In Hugo Miguel Pinto Calado, A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar, O Castelo de Noudar e a Defesa do Património Nacional, Tese de Mestrado em História Regional e Local, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, 2007.

Cortesia da UL/FL/DHistória/JDACT

JDACT, Hugo M. P. Calado, Cultura e Conhecimento, História, Alentejo, 

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar. Hugo M. P. Calado. «… o mapa mostra-nos toda uma estrutura de povoamento de fronteira regulamentado pelo mesmo tipo de foral, numa área territorial que abrange a zona da raia alentejana…»

Carta de Povoamento Fuero del Baylio 
Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Mestre Hugo Calado

O castelo de Noudar e a defesa do património nacional
O castelo de Noudar na historiografia Espanhola
«(…) O Fuero del Baylio, do qual há estudos desde a primeira metade do século XX, foi aplicado na Estremadura castelhana na Idade Média nas suas várias localidades de fronteira, através dos conquistadores cristãos das fortalezas do mesmo território, portugueses, castelhanos e cavaleiros templários, sendo que estes últimos seguramente receberam a praça de Jerez de los Caballeros na primeira metade do século XIII de mãos de Fernando III, e embora não tenham tido autoridade imediata para concederem um foral a uma determinada localidade, porque era uma ordem que só poderia vir de um capítulo geral da dita ordem em consonância com a coroa (o Capítulo Geral de uma ordem militar era uma reunião que contava com os mais altos dignatários da mesma instituição, abordando-se diversos temas como questões de disciplina e também definições de estatutos internos da ordem). Segundo informações apresentadas por Teófilo Borrallo Salgado, Alfonso Telles Menezes tomou Albuquerque e a repovoou por volta de 1200, e quanto à sua possível origem em Portugal, derivada da chamada Carta da Metade, o equivalente a este Fuero, o autor confessa o seu desconhecimento sobre o aparecimento deste tipo de foral na sociedade familiar portuguesa e que afinal ele não derivaria de costumes portugueses, embora, citando as Ordenações Manuelinas de 1521, apresente informação sobre a existência da Carta da Metade em Portugal, como normativa vigente sobre todos os casamentos feitos no reino português, mas que ela não existiria em Portugal na altura da conquista de Albuquerque.
No entanto, estudos mais recentes na área do direito falam nesta lei como pertencendo à legislação portuguesa no início do século XIII, através da qual se regeram os vassalos do conquistador de Albuquerque, Alfonso Tellez Menezes, e que a existência do foral nesta localidade se deve a esta personalidade, transitando esta carta de foral por várias localidades da Estremadura Espanhola, devido à vinculação ao domínio dos cavaleiros da Ordem do Templo. Esta ordem tinha-se instalado na Estremadura, no Baylio de Jerez de los Caballeros, e esse mesmo local foi encarregado de autorizar matrimónios celebrados nesta zona, daí a transição do foral por diversos locais. Instalou-se então, na Estremadura Espanhola, uma legislação económica e matrimonial, de origem não consensual, e que poderá ser mais antiga do que se pensa, podendo então a Ordem do Templo e Alfonso Tellez Menezes não ter implantado nada de novo, e sim confirmarem um costume desde tempos imemoriais. Teófilo Borrallo Salgado indica-nos ainda que Alfonso Telles Menezes era casado com dona Teresa Sanches, filha ilegítima de Sancho I e de Maria Páez de Rivera (no entanto, os textos de cariz jurídico anteriormente apresentados fazem confusão entre os reinados de Sancho I e Sancho II, devido á tradicional confusão entre as duas chancelarias, em especial a de Sancho II, chancelaria muito fragilizada pelas vicissitudes que atravessaram o reinado deste último rei), tendo obtido esta informação de uma história geral espanhola. A obra de Salgado é um livro com bastante informação sobre esta carta de povoamento, que deve ser consultado. No entanto, conta já com bastantes anos, escrevendo o autor no primeiro quartel do século XX (1915), e recorrendo o mesmo a outras obras mais antigas, nomeadamente portuguesas, citando mesmo Alexandre Herculano, como fonte de estudo para a origem histórica do foral. As referências que chegam até nós sobre o Fuero del Baylio podem ser utilizadas para uma abordagem a uma perspectiva regional, ao termos em atenção as questões geográficas e culturais, pois este foral foi aplicado em povoações na Estremadura espanhola, como Jerez de los Caballeros, Fregenal, Oliva de Jerez, Valência del Mombuey (esta última tem ligação por via a Noudar), entre outras povoações que receberam o dito foral, todas situadas na mesma região geográfica de Noudar, o que nos é mostrado pelo mapa de Teófilo Salgado (o mapa mostra-nos toda uma estrutura de povoamento de fronteira regulamentado pelo mesmo tipo de foral, numa área territorial que abrange a zona da raia alentejana, embora não de uma forma contínua, indo de Albuquerque até Fuentes de León; os autores não referem Badajoz, Mérida ou Almendralejo, povoações próximas desta zona como possuindo este foral, talvez por serem locais de uma envergadura maior e com uma organização interna mais cuidada, ou então por já se situarem para dentro do território castelhano, onde a defesa e chegada de reforços para a mesma seria mais fácil). É importante sabermos o tipo de povoamento do outro lado da fronteira político-administrativa, pois existem certamente determinadas afinidades características de instalação de populações nos dois lados da fronteira, e como tal, os artigos acima referidos são aconselháveis em termos de consulta para estudo de questões fronteiriças, apesar de serem artigos de âmbito jurídico, onde a questão histórica não goza de um maior cuidado». In Hugo Miguel Pinto Calado, A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar, O Castelo de Noudar e a Defesa do Património Nacional, Tese de Mestrado em História Regional e Local, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, 2007.
                                                                                                                      
Cortesia da UL/FL/DHistória/JDACT

A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar. Hugo M. P. Calado. «… acções diplomáticas e políticas dos seus titulares visaram Noudar. É igualmente importante consultar artigos e obras sobre o Fuero del Baylio, um costume cujas origens são muito remotas…»

Carta de Povoamento Fuero del Baylio
Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Mestre Hugo Calado

O castelo de Noudar e a defesa do património nacional
O castelo de Noudar na historiografia Espanhola
«(…) Esta obra tem outra referência a Noudar, refere um ataque castelhano a esta fortaleza, por ordem do duque de Medina-Sidónia, que tinha organizado uma hoste em Sevilha, após o rei Afonso V de Portugal ter ocupado Toro, fazendo referência ainda a contenciosos de fronteira já no tempo de João II, a questão dos marcos divisórios entre Noudar e Encinasola, inquirições levadas a cabo pela parte portuguesa por Vasco Fernandes, e pela parte castelhana, por Rodrigo Coalha. A obra de Florentino Pérez-Embid, no entanto, conta já com trinta e dois anos, embora seja bastante interessante sobre a questão específica da fronteira do sul de Portugal com a Andaluzia, num universo historiográfico que não contempla muito este espaço, preferindo centrar-se em casos específicos, ficando a raia alentejana numa situação secundária, pois os estudos desta área como um todo escasseiam. Na historiografia regional e geral espanhola, contam-se com outras muitas obras, onde as questões de fronteira estão presentes, embora o seu âmbito cronológico possa não ser muito dilatado. As possíveis informações sobre Noudar são inexistentes. As obras espanholas sobre estruturas fortificadas são também importantes, nomeadamente sobre o período Islâmico e a sua continuação para período cristão, e podem também referir-se ao lado português, o que incrementa os estudos sobre esta temática, contribuindo então com um bom conhecimento das diversas realidades dos dois lados da fronteira, o que facilita o trabalho de investigadores que futuramente se queiram debruçar sobre os estudos de estruturas fortificadas ou de realidades fronteiriças. No entanto, o castelo de Noudar também aqui não tem destaque como estrutura de defesa. Obras de destaque de reinados de monarcas específicos também são importantes, pois dão-nos informações preciosas sobre acções de conquista e diplomacia de determinados monarcas, reinados em que as acções diplomáticas e políticas dos seus titulares visaram Noudar. É igualmente importante consultar artigos e obras sobre o Fuero del Baylio, um costume cujas origens são muito remotas e para as quais não há certezas, e que consiste em ser especificamente um regime económico e matrimonial, em que todos os bens dos conjugues, antes ou depois da celebração do casamento, se tornam comuns, e quando o casamento de dissolve, por separação ou morte de um dos conjugues, se dividem.
Sobre o Fuero del Baylio, é consensual ser uma carta de povoamento ou um conjunto de normas fixadas pelo rei, senhor ou proprietário de um determinado lugar, aos quais deveriam estar sujeitas as populações que habitariam esse lugar. O objectivo era atrair populações a zonas fronteiriças despovoadas durante a reconquista. Muitos destes artigos são de Direito e muito úteis para o estudo desta carta de povoamento. É uma atenção a um conjunto de normas locais, que regularizam as vivências de comunidades locais, devendo este direito ser aplicado primeiramente em relação ao direito geral. Pode ser uma carta de povoamento ou foral, que se refere a determinadas questões económicas sobre o património dos conjugues. As informações sobre este tema são trazidas por textos de direito, que explicam o que é o Fuero del Baylio, como apareceu e propondo diversas origens para o mesmo, nomeadamente origem portuguesa». In Hugo Miguel Pinto Calado, A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar, O Castelo de Noudar e a Defesa do Património Nacional, Tese de Mestrado em História Regional e Local, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, 2007.
                                                                                                                      
Cortesia da UL/FL/DHistória/JDACT

terça-feira, 5 de novembro de 2019

A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar. Hugo M. P. Calado. «… fronteira luso-castelhana do lado espanhol. Estas publicações são mais recentes que as apresentadas pela historiografia portuguesa, com especial destaque para o caso de Olivença e o tratado de Alcanizes»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Mestre Hugo Calado

O castelo de Noudar e a defesa do património nacional
O castelo de Noudar na historiografia Regional Portuguesa
«(…) Os circuitos comerciais também têm o seu lugar nos estudos de geografia histórica, onde podemos confirmar que a delimitação fronteiriça entre Portugal e Castela não terminou com circuitos de comércio fluvial no rio Guadiana, apenas mudou a sua organização. Nestas obras, podemos encontrar referências a produtos comercializados nesta área do Alentejo, transportados por meio fluvial, e também actividades ligadas aos recursos hídricos, como a pesca. Outros estudos geográficos, de carácter mais particular, dando ênfase apenas a um local específico da Andaluzia, podem ser benéficos para o nosso estudo, se deles nos quisermos servir, pois tratam, além de contextos históricos, de questões específicas que nos podem ser úteis, como toponímia, organização do espaço e povoamento. A geografia histórica comporta estudos importantes para a compreensão da relação entre o espaço e os homens, espaço esse onde o elemento humano desenvolve um conjunto de actividades que moldam a paisagem natural, de acordo com as suas necessidades, e a transforma num local de vivências diversas.

O castelo de Noudar e a defesa do património nacional
A Historiografia Espanhola
Do lado espanhol, existem poucas referências em histórias gerais em relação à margem esquerda do Guadiana. As Histórias gerais espanholas tratam muito pouco ou nada a questão da margem esquerda do Guadiana, preferindo dar ênfase ao avanço dos reinos cristãos hispânicos para o Sul da península, mais particularmente a conquista da Andaluzia no século XIII. As histórias da ocupação islâmica em Espanha também são omissas em relação aos territórios em questão, não havendo neste tipo de obras grandes referências que possamos encontrar. Face à abundância de publicações de história no país vizinho (histórias gerais e estudos vários), a margem esquerda do Guadiana não recebe muitas referências (não querendo dizer com isto que não a consideraram importante, historicamente e geograficamente) nos estudos sobre as monarquias castelhano-leonesas do século XIII, preferindo a historiografia espanhola dar atenção às conquistas territoriais destas últimas.
É a historiografia regional e local espanhola que, apresentando várias publicações, é mais específica em termos de estudos de fronteira, e dá mais importância ao caso da fronteira luso-castelhana do lado espanhol. Estas publicações são mais recentes que as apresentadas pela historiografia portuguesa, com especial destaque para o caso de Olivença e o tratado de Alcanizes. Nos estudos publicados do outro lado da fronteira que têm como objecto de estudo Olivença, a vila de Noudar é referida, mas no contexto do tratado que celebrou a definição de fronteira entre Portugal e Castela em 1297. É tida como estando no território para além do Guadiana que Portugal manteve contra a vontade de Fernando III, aparecendo como se fosse um objecto na mão de políticos hábeis, como a incorporação no concelho de Sevilha em 1253.
No lado espanhol, o caso de Olivença é sobejamente tratado, e Noudar é referida no contexto dos acordos de 1263-64 até Alcanizes. É igualmente referida como pertencente ao concelho de Sevilha a partir de 1253, aquando da fixação dos limites do mesmo concelho por Afonso X de Castela. A historiografia espanhola, no campo de estudo regional, é ampla, e temos outras obras do mesmo carácter sobre a fronteira, uma delas trata a questão da fronteira entre o reino de Sevilha e Portugal, onde a vila de Noudar é referida no contexto do escambo realizado por Afonso X de Castela com os hospitalários, e na doação de Serpa e Moura a dona Beatriz, mãe de Dinis». In Hugo Miguel Pinto Calado, A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar, O Castelo de Noudar e a Defesa do Património Nacional, Tese de Mestrado em História Regional e Local, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, 2007.                                                                                                                      
Cortesia da UL/FL/DHistória/JDACT

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar. Hugo M. P. Calado. «As obras de geografia histórica têm então um papel importante, e existem várias que têm como objecto principal de estudo a questão da definição da fronteira luso-castelhana…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Mestre Hugo Calado

O castelo de Noudar e a defesa do património nacional
O castelo de Noudar na historiografia Regional Portuguesa
«(…) Temos também obras mais recentes sobre castelos, que apresentam fotografias das estruturas, e onde Noudar está presente. Apresenta um pequeno enquadramento histórico do castelo, com imagens, inserindo a fortaleza num contexto histórico que envolve todo o Alentejo e suas fortalezas. São obras cujo objectivo é divulgação cultural e turística, não têm a preocupação de fornecer elementos para um estudo aprofundado sobre estruturas fortificadas. Quanto a publicações cujos autores de facto elegeram o castelo de Noudar como alvo principal do seu estudo, existe uma monografia (datada de 1986), sobre o referido castelo, sendo das poucas monografias existentes que centraliza a sua atenção por completo neste sítio, sobre os seus mais diversos aspectos.
Para o estudo de Noudar, existe outro artigo onde o local é estudado como integrante da fronteira raiana (a comenda de Noudar da Ordem de Avis: a memória da fronteira entre a Idade Média e a Idade Moderna), sendo que aqui a questão da memória popular é muito importante, pois suporta demarcações fronteiriças, através do recurso a fontes. Nesta zona, desenvolve-se uma consciência de diferenciação fronteiriça, onde a memória dos integrantes do espaço em estudo tem um papel importante, perante os enviados do poder central, que têm o objectivo de captar uma memória oficial, através dos instrumentos de que o mesmo poder dispõe, o suporte escrito, que serve de base a essa memória do poder.
A memória das populações é oral, articula-se através de recordações e esquecimentos, e vai alimentar a oficial, que a usa segundo os seus propósitos. Existem obras de carácter geográfico, que são também um importante contributo para o estudo da fronteira onde o castelo de Noudar se insere. A raia alentejana, mais propriamente a parte do Baixo Guadiana, é um local que se inseriu dentro de contextos militares e diplomáticos que são intensos durante o século XIII, e onde se tentaram impor limites políticos, que se sobrepuseram aos naturais. A geografia cruzou-se com a história nesta área. Aqui formou-se uma região histórica, onde a criação de uma fronteira política medieval não terminou com redes de trocas comerciais, tipos de povoamento e estrutura agrária já existentes durante o período islâmico, que sobreviveram aos acontecimentos políticos peninsulares. Estamos também a falar de um espaço que, em termos de características físicas, tanto de um lado como do outro da fronteira entre os estados peninsulares, é muito semelhante. O espaço físico é importante na geografia histórica, no que toca ao estabelecimento de populações e suas actividades, e a questão da orografia e hidrografia são indicadores de limitações naturais entre regiões físicas, que podem posteriormente ser divididas por uma linha político-administrativa, pelo que estabelecemos a diferença entre a região física, que não é dividida por nenhuma decisão administrativa de nenhum centro organizador de uma sociedade, e a região de fronteira política, cujo limite do reino acaba numa linha de limitação político-administrativa entre dois reinos, mesmo que a geografia do terreno seja idêntica. A fronteira estabelecida pelo homem não é factor de separação de comunidades, é uma imposição do poder que o rege e ordena, pois as comunidades de ambos os lados da linha divisória têm a tendência de aproximação, podendo partilhar problemas semelhantes, como a interioridade, no caso português e castelhano.
As obras de geografia histórica têm então um papel importante, e existem várias que têm como objecto principal de estudo a questão da definição da fronteira luso-castelhana, através dos movimentos militares medievos no sudoeste da península, do entendimento da ocupação do espaço, e sua organização, com diversos centros polarizadores de populações. Estes centros são locais que contribuíram para a definição e organização de um espaço à sua volta, o seu termo, e que assumiram um papel importante na definição da margem esquerda do Guadiana como uma região com características específicas». In Hugo Miguel Pinto Calado, A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar, O Castelo de Noudar e a Defesa do Património Nacional, Tese de Mestrado em História Regional e Local, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, 2007.
                                                                                                                      
Cortesia da UL/FL/DHistória/JDACT

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar. Hugo M. P. Calado. «Os estudos sobre os castelos portugueses têm interesse desde décadas recuadas do século XX, como a década de sessenta»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Mestre Hugo Calado

O castelo de Noudar e a defesa do património nacional
O castelo de Noudar na historiografia Regional Portuguesa
«(…) Nem sempre todos os artigos sobre Noudar são de natureza historiográfica, a arqueologia também tratou a questão deste local, dando-nos uma aproximação às diversas etapas cronológicas de ocupação humana no sítio, procurando tratar a sua cronologia através dos materiais encontrados, como as cerâmicas, enquadrando esses materiais em diferentes períodos cronológicos, consoante paralelismos feitos com achados em outros locais. O estudo de espólio arqueológico ligado à mineração é bastante importante, pois explica a presença de uma actividade que caracteriza este sítio na pré e proto-história, um aproveitamento da presença e exploração de minério, nomeadamente chumbo.
A arqueologia também trata do contexto geográfico, aliando este último ao histórico, situando o castelo dentro de uma determinada paisagem, a sua incorporação na administração do território peninsular islamizado, o tipo de estruturas que o castelo apresenta, das quais pode derivar a sua função. A arqueologia socorre-se sempre do suporte material cerâmico, como auxiliar importante na datação da ocupação do local do castelo de Noudar. A epigrafia, é uma área de estudo que também deu alguma importância ao sítio deste estudo, através das lápides funerárias encontradas, e que ajudou certamente na determinação de um determinado período de ocupação cronológica do sítio, nomeadamente o islâmico, com o aparecimento da datação do óbito numa delas, que pertencia ao século XI.
A informação acerca dos materiais construtivos de estruturas militares, já referida anteriormente nas histórias gerais, é também trazida por artigos que estão incluídos em catálogos de exposições, textos de natureza arquitectónica e também arqueológica. Podemos encontrar referências sobre a constituição das suas muralhas e técnicas construtivas, além da origem cronológica e civilizacional das mesmas. Os estudos sobre os castelos portugueses têm interesse desde décadas recuadas do século XX, como a década de sessenta, o que mostra uma sensibilidade do mundo científico português da área de ciências humanas e arquitectura para este tipo de investigação, embora o castelo de Noudar não figure nas preocupações dos investigadores que se debruçaram sobre esta temática.
Obras dos anos sessenta, apresentam informação sobre estas estruturas, uma listagem algo extensa de castelos, embora o castelo em questão não esteja referido, sendo então colocado marginalmente no plano historiográfico e arquitectónico do país. Pode haver várias razões para que o castelo de Noudar não seja referido em muitas obras que têm como principal temática o estudo dos castelos, nomeadamente a distância e acessos a determinados locais, onde se perderia muito tempo e verbas, também porque na altura da publicação de muitas destas obras, as vias de comunicação não estarem tão desenvolvidas como estão hoje. Note-se que ainda hoje existem dificuldades de acessos, pois como já referi anteriormente, a via de Barrancos a Noudar está em bastante mau estado. No entanto, encontramos obras sobre estruturas fortificadas onde Noudar está presente, como roteiros de monumentos militares, que têm bastante informação sobre esta fortaleza raiana, tanto geográfica como histórica, apresentando plantas e fotografias, nomeadamente uma destas últimas é aérea, que possivelmente só estaria ao alcance dos militares, estatuto que possuí o autor da obra. Outros roteiros referem primeiramente a vila de Barrancos, dando depois importância ao castelo de Noudar, com um pequeno enquadramento histórico da fortaleza». In Hugo Miguel Pinto Calado, A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar, O Castelo de Noudar e a Defesa do Património Nacional, Tese de Mestrado em História Regional e Local, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, 2007.
                                                                                                                      
Cortesia da UL/FL/DHistória/JDACT

A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar. Hugo M. P. Calado. «Noudar é igualmente referida, mas de novo como incorporada no território da margem esquerda do Guadiana, espaço que muda muitas vezes de mãos durante o século XIII»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Mestre Hugo Calado

O castelo de Noudar e a defesa do património nacional
As Histórias Gerais de Portugal
«(…) Pinheiro Chagas refere-nos a conquista da margem esquerda do Guadiana, mas não fala de Noudar, é uma obra com bastantes ilustrações, onde a visualização dos feitos militares medievais portugueses é particularmente enfatizada, como se fosse um complemento importante do âmbito textual, mas faltam-lhe informações pormenorizadas sobre esta fortaleza alentejana. A obra de Fortunato Almeida, História de Portugal, tem uma referência a Noudar, sobre a entrega do castelo a Portugal, que pertencia ao termo de Moura, o que foi feito em Outubro de 1295. Também dá importância às conquistas portuguesas do tempo de Sancho II, e ao contencioso com Castela pelo domínio do Algarve. O castelo de Noudar aparece esporadicamente em diversas obras gerais e em situações específicas, inserido em contextos diplomáticos e políticos. O local também tem interesse no estudo da organização administrativa do reino, nomeadamente de tipo fiscal, e embora sejam pequenas referências, não devemos menosprezar também este tipo de informação, como a incorporação do referido local no almoxarifado de Beja.
Temos também outras referências a Noudar, de novo como fazendo parte da política de reconstrução de fortalezas fronteiriças e também do seu couto de homiziados, um dos poucos de Portugal. Não podemos dizer que Noudar foi completamente ignorada pela historiografia geral nacional, era um posto avançado em frente a território castelhano que protegia uma passagem para Portugal, como já anteriormente foi referido, portanto, era uma fortaleza com alguma importância. A historiografia geral, seja de que época for, não confere muita importância a locais específicos, o que se entende, esse trabalho é deixado para a historiografia regional e local e publicações mais específicas de outras áreas de estudo com ligações à história, nomeadamente a arqueologia.

O castelo de Noudar na historiografia Regional Portuguesa
Tendo já sido referido que Noudar não tem, de facto, um grande impacto historiográfico nas obras gerais, vai ter visibilidade com artigos diversos de vários investigadores (não necessariamente historiadores) que se quiseram ocupar dos temas da fronteira e também deste caso específico, não havendo uma ligação exacta e imediata entre o dito castelo e os estudos da fronteira do Baixo Alentejo. Há referências àquela fortaleza desde muito cedo, nas publicações culturais do século XX, muitas delas não sendo necessariamente de história, como é o caso de O Archeologo Português, onde temos referências ao castelo de Noudar, referências do início do século XX, é certo, mas são informações que devem ser sempre tidas em conta.
Outra informação importante é sobre a etimologia do topónimo Noudar, escrito Nodar, que é apontado como tendo origem germânica. Temos também informações mais recuadas, do século XVIII, trazidas por Francisco Brandão, onde encontramos uma referência explícita de que Noudar pertencia no século XIII ao termo de Moura. Este autor refere ainda que em 1295, antes do tratado de Alcanizes, esta vila com o seu castelo estariam já ambos sob o domínio português. Existem outros artigos publicados sobre a chamada raia alentejana com um âmbito cronológico bastante dilatado, onde Noudar é igualmente referida, mas de novo como incorporada no território da margem esquerda do Guadiana, espaço que muda muitas vezes de mãos durante o século XIII.
Ainda sobre os artigos mais recuados cronologicamente, temos informações que nos são trazidas pelo Arquivo de Beja, publicação dos anos 40 do século XX. Façamos referência ainda ao artigo de Gustavo Matos Sequeira, este dando destaque a Noudar por inteiro, enfatizando a ocupação cristã da fortaleza, descrevendo a fortaleza, e enquadrando-a historicamente, desde a doação de Afonso X a dona Beatriz, sua filha e rainha de Portugal, até ao seu abandono, cerca de 1825, pois desde o século XVIII que o sítio vinha a perder habitantes. É uma publicação do início do século XX, e como tal, tem evidentemente diversas lacunas, devido ao facto de os aparelhos conceptuais do autor não serem os que dispomos hoje em dia». In Hugo Miguel Pinto Calado, A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar, O Castelo de Noudar e a Defesa do Património Nacional, Tese de Mestrado em História Regional e Local, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, 2007.
                                                                                                                      
Cortesia da UL/FL/DHistória/JDACT

A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar. Hugo M. P. Calado. «Herculano refere a conquista do espaço a leste do Guadiana como mais uma prova brilhante da índole guerreira de Sancho»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Mestre Hugo Calado

O castelo de Noudar e a defesa do património nacional
As Histórias Gerais de Portugal
«(…) A arqueologia, face à falta de fontes escritas que refiram a importância de núcleos populacionais e centralizadores, é uma ciência que pode trazer contributos muito importantes para a compreensão da ocupação humana de um sítio, através de materiais arqueológicos, que são bons indicadores de modos de vida, riqueza pessoal, comércio (importação e rotas), pois os historiadores árabes falam pouco de Serpa e Moura, localidades relativamente próximas de Noudar. Temos também informação sobre o povoamento islâmico dos territórios próximos do rio Guadiana, uma ocupação populacional que englobava vários centros importantes no Alentejo, como Maura (Moura), Baja (Beja), Sirpa (Serpa) e Martula (Mértola). Temos, não só a menção da conquista dessas localidades islamizadas, mas também a amplitude da reconquista portuguesa e a ocupação dela decorrente entre os séculos XII e XIII. Este avanço cristão, era um movimento que, sendo comum à cristandade peninsular e deslocando-se para o sul, fazia com que os respectivos estados ibéricos considerassem as zonas de fronteira com o Islão como suas áreas de conquista, sendo esta a experiência guerreira portuguesa durante os séculos referidos. Observamos, pois, que não é intenção da historiografia geral mais recente de dar muito ênfase a locais específicos, nem o deve ser, para isso existem publicações próprias, de âmbito regional e local. Existe também a necessidade de consulta de uma perspectiva de obras mais recuadas, em termos cronológicos, pois outros autores se ocuparam da história de Portugal em períodos e épocas cronológicas diferentes da nossa, mas de onde conseguimos retirar também informação preciosa para o nosso trabalho, embora também estas pouco ou nada refiram sobre o caso específico de Noudar.
Herculano refere a conquista do espaço a leste do Guadiana como mais uma prova brilhante da índole guerreira de Sancho, e onde mais uma vez são Moura e Serpa que têm destaque. Também serão mencionadas por este autor na questão sobre a posse do Algarve, entrando a margem esquerda do Guadiana no contencioso entre Afonso III de Portugal e Afonso X de Castela. O mesmo autor, para construir a sua História de Portugal, conseguiu fazer uma reunião de diversos tipos de fontes, como monumentos históricos da literatura árabe, bulas pontifícias e forais, mal conhecidas e utilizadas, que lhe permitiram realizar a sua obra e trazer muita informação à história medieval de Portugal, dando um contributo muito importante à historiografia portuguesa em geral.
Já Oliveira Martins refere a conquista do Alentejo por Sancho II, como uma caminhada em direcção ao Algarve. Toma uma posição favorável ao monarca deposto Sancho II, dizendo que a coroa cai obscuramente nas mãos de um usurpador, o seu irmão Afonso, o futuro Afonso III, rei de Portugal.
Existe outra referência, da primeira metade do século XX, nas histórias gerais de Portugal, onde Noudar recebe destaque sobre a sua incorporação na coroa portuguesa pelo acordo da Guarda de 1295, ratificado mais tarde em Ciudad Rodrigo. Ângelo Ribeiro dá-nos uma referência de Noudar como sendo entregue a Portugal no contexto da vinda de outros castelos para o reino português, como os de Moura, Serpa e Mourão. Houve estrangeiros que se debruçaram sobre a história de Portugal, onde, evidentemente, as referências relativamente a Noudar ou à margem esquerda do Guadiana são escassas ou inexistentes. Temos o exemplo da História de Portugal de Henrique Schaefer. Este autor era bastante elogiado por Alexandre Herculano, que o considerava como o maior investigador estrangeiro que se ocupou da história de Portugal. A sua obra, no entanto, é de um carácter bastante geral. Faz alusão à situação política do reino e que Sancho II foi o rei, até ao seu tempo, que mais trabalhou para o alargamento das fronteiras do reino português. Este investigador fala das conquistas alentejanas deste monarca português, mencionando Elvas, Moura e Serpa, mas não faz referência a Noudar». In Hugo Miguel Pinto Calado, A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar, O Castelo de Noudar e a Defesa do Património Nacional, Tese de Mestrado em História Regional e Local, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, 2007.
                                                                                                                      
Cortesia da UL/FL/DHistória/JDACT

domingo, 16 de dezembro de 2018

A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar. Hugo M. P. Calado. «O castelo de Noudar é muito pouco referido pelas histórias gerais, devido à sua situação periférica, aparecendo na maioria das vezes no contexto do tratado de Alcanizes»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Mestre Hugo Calado

O castelo de Noudar e a defesa do património nacional
«(…) Para trabalhar a conquista da raia alentejana, e mais especificamente Noudar, existe bibliografia diversificada, embora nem toda ela nos possa elucidar sobre o problema da situação do castelo referido no contexto político-militar peninsular. Em primeiro lugar, como referência bibliográfica geral, temos as Histórias de Portugal, obras de carácter geral e descritivo dos factos, que são sempre necessárias para se saber o contexto político, social, económico que envolvia o reino português dentro de determinado período cronológico. As Histórias de Portugal são sempre um grande auxiliar, pois são elas que assumem um papel de referência geral dos estudos históricos de um determinado país, no que concerne à divulgação a um público mais geral. Estamos, no entanto, a trabalhar uma área geográfica específica, que comporta uma ou mais populações específicas, que tinham aspectos culturais diferentes das outras comunidades do reino.
Estamos perante uma sociedade de fronteira, específica nas suas vivências culturais, pelo que as histórias não lhe dão muita atenção, pois são a historiografia do geral, não havendo referências específicas àquilo que muitas vezes nos propomos a estudar ou mesmo nenhuma, e nem é suposto que as tenham, pois sendo uma região tão afastada dos centros populacionais mais importantes e praticamente à margem dos grandes acontecimentos que marcaram a história da nação portuguesa, é natural que pouco se refiram a Noudar, então para isso teremos que recorrer às obras específicas sobre o assunto que estão disponíveis, se quisermos saber mais ou mesmo levar adiante um estudo mais exaustivo. As Histórias de Portugal são obras de carácter geral, mas cada História de Portugal, de diferentes direcções, de investigadores diferentes, especializações diferentes, e contendo mesmo âmbitos cronológicos diferentes, têm de ter igualmente características diferentes. Em seguida, tratam-se os pontos que achei mais pertinentes utilizar para o meu estudo da conquista da raia alentejana no geral, e no caso específico de Noudar, e de cada uma das diversas Histórias que utilizei. Mesmo tratando-se de histórias gerais, também se dará ênfase à arqueologia, ciência que tantos e bons contributos no dá para o presente estudo.

As Histórias Gerais de Portugal
O castelo de Noudar é muito pouco referido pelas histórias gerais, devido à sua situação periférica, aparecendo na maioria das vezes no contexto do tratado de Alcanizes e das reformas do monarca Dinis I no contexto da defesa do reino através dos castelos de fronteira. O castelo de Noudar, pertencente ao termo de Moura, como diz Francisco Brandão, estaria numa situação secundária, face a esta última localidade, pelo que viria sempre seguindo esta localidade nas suas passagens de proprietários, sendo Moura um local mais importante estrategicamente pelas referências que lhe são feitas. Noudar não receberia muita importância do ponto de vista referencial, o que saliento, não diminuiria a sua importância. As referências ao castelo são escassas e são todas enquadradas no contexto político-militar nacional, face às relações com o reino vizinho de Castela. As Histórias de Portugal fazem uma exposição dos acontecimentos da conquista da raia alentejana, tratam o avanço cristão para o Sul da península, fazendo uma articulação entre os acontecimentos da reconquista do lado de cá da fronteira com o avanço leonês na Estremadura espanhola, nomeadamente a relação das quedas de Cáceres e Badajoz em 1227, com as conquistas portuguesas no Alentejo As conquistas leonesas facilitaram a ocupação portuguesa da margem esquerda do Guadiana, e o seu avanço para o sul, até ao Algarve, porque com a queda das respectivas fortalezas aos pés de Afonso IX de Leão, os bastiões muçulmanos alentejanos ficariam sem a hipótese de receberem reforços, oportunidade que os portugueses aproveitaram.
A fortaleza de Noudar, estando inserida neste espaço de fronteira, primeiramente com o muçulmano, foi possivelmente conquistada para mãos cristãs nos anos trinta do século XIII, altura em que Moura e Serpa também foram tomadas. Estando o castelo de Noudar no termo de Moura, e acompanhando esta localidade em inúmeras transições de proprietários que a margem esquerda do Guadiana teve, é possível que tenha vindo para a coroa portuguesa nesta altura. Os artigos das histórias gerais sobre fortificações são igualmente importantes na aquisição de informação de técnicas construtivas de estruturas defensivas e o seu material, herdadas da civilização islâmica, pois o local conheceu inúmeras ocupações humanas ao longo da sua existência». In Hugo Miguel Pinto Calado, A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar, O Castelo de Noudar e a Defesa do Património Nacional, Tese de Mestrado em História Regional e Local, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, 2007.
                                                                                                                      
Cortesia da UL/FL/DHistória/JDACT

domingo, 14 de outubro de 2018

A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar. Hugo M. P. Calado. «Podemos considerar que a pastorícia é uma actividade importante nos terrenos pouco férteis, e na economia dos reinos em geral»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Mestre Hugo Calado

O castelo de noudar e a defesa do património nacional
A Fixação de uma Comunidade Humana. Outros factores
«(…) Nesta situação, o castelo de Noudar serviria como um centro ordenador e controlador de rebanhos, pois a passagem dos mesmos não deveria ser descuidada, havendo mesmo queixas aos monarcas portugueses por parte dos criadores em Portugal (o rei João II recebeu queixas nas cortes de Évora de 1481-82 do excesso de rebanhos castelhanos nos campos do Alentejo, que acabavam com os pastos), podendo haver então um limite à entrada de gados castelhanos em Portugal. O controlo da entrada e saída dos rebanhos de Portugal era muito importante, caso se verificasse algum furto ou que em algum rebanho castelhano fossem animais comprados em Portugal, sem as condições especiais em que um estrangeiro teria a mesma oportunidade de um natural, situação que os Alcaides das Sacas e Contadores de rebanhos precaviam, controlando a entrada e saída de rebanhos do reino.
A transumância fazia da raia um local de importância fulcral para a economia do reino, devido à importância que a actividade ganadeira tinha, não só a nível local, como também a nível nacional, sendo protegida pelos monarcas. A questão das entradas de rebanhos no reino deveria ser controlada, para evitar roubos e negócios duvidosos de venda de gado, e aqui Noudar desenvolveria um papel importante neste controlo. Podemos considerar que a pastorícia é uma actividade importante nos terrenos pouco férteis, e na economia dos reinos em geral, pois é uma alternativa aos terrenos pouco férteis, e é uma actividade que pode ter interferência do poder central ou não. Devido à relativa proximidade geográfica da região raiana portuguesa com a zona mediterrânea, podemos eventualmente dizer que as influências mediterrânicas se fazem sentir nesta zona nos seus mais diversos aspectos, tais como o clima, culturas, manto vegetal, pastoreio, modo de vida, etc. Aqui a produtividade é tudo (ou quase tudo) de acordo com o que a natureza oferece, estando o espaço em estudo incluído numa grande área territorial com o mesmo conjunto de paisagens, com características mediterrâneas.
Não estamos perante uma zona de grande densidade populacional, com uma economia baseada na agricultura mas antes numa região periférica longe do poder central, embora a presença de gados transumantes na zona de Noudar possa indicar a integração do local na dinâmica directa entre poder central e estruturas periféricas, no sentido em que o centro, como entidade essencialmente activa é promotor de uma actividade económica, esta de importância crucial na economia local, pois estamos perante um espaço que está longe do mar e a uma distância considerável de grandes centros urbanos. Noudar está, de facto, durante época islâmica, e posteriormente em época cristã, longe de grandes centros polarizadores do Andaluz, como Beja, Sevilha, Silves ou Niebla, devido ao seu carácter rural. É portanto, uma região pobre em actividades produtivas, no entanto não deixa de ser um espaço de entrada sazonal, onde, nos séculos XV e XVI, havendo três grandes zonas de entrada de gados castelhanos em Portugal, e uma delas era o Alentejo, o campo de Noudar era uma das passagens alentejanas para o reino português, e daí os rebanhos dirigiam-se a Moura, tendo Noudar aqui bastante importância, em termos de fiscalização, e também eventualmente em entrada de produtos em Portugal, vindos com a deslocação de rebanhos, pelo que teria também uma função de fiscalização comercial.
A agricultura é a base da economia mediterrânea e portuguesa, sendo que as boas terras das planícies mediterrânicas cedo atingiram alto valor cultural e forte densidade populacional, o que não é o caso nas planícies que envolvem o castelo de Noudar. No entanto, mais a oriente, o território de Beja, na Idade Média, possuía uma grande extensão de terras argilosas, os chamados barros de Beja, terras que tinham boas condições para a plantação cerealífera. Produziam-se em Beja grandes quantidades de trigo, que poderia ser utilizado para panificação, uma actividade que era dominante nesta zona. Tudo isto contrasta com as terras xistosas e pouco férteis da raia luso-castelhana, onde a agricultura não possuía bons campos para se implantar como actividade produtiva dominante, durante a Idade Média». In Hugo Miguel Pinto Calado, A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar, O Castelo de Noudar e a Defesa do Património Nacional, Tese de Mestrado em História Regional e Local, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, 2007.
                                                                                                                      
Cortesia da UL/FL/DHistória/JDACT