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domingo, 7 de janeiro de 2018

O Substituto. Philippa Gregory. «Estou surpresa que tenha convidado alguém para o jantar apenas um dia após o falecimento de meu pai»

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Castelo de Lucretili. Junho de 1453
«(…) Essas pessoas estavam sob o seu comando. Queriam vê-la à cabeceira da mesa, queriam vê-la entrar no salão. Mesmo que os seus olhos estivessem vermelhos por chorar a perda do amado pai, esperavam que ela jantasse com eles, o próprio pai esperaria isso dela. Isolde não os decepcionaria. Fez-se um silêncio repentino quando ela entrou no salão onde os criados estavam sentados em mesas de armar, conversando em voz baixa e esperando o jantar ser servido. Mais de duzentos homens de armas, criados e cavalariços enchiam o salão, e a fumaça do fogo central subia em espiral preenchendo o espaço até às vigas enegrecidas do tecto alto. Assim que os homens viram Isolde, seguida por três mulheres da sua criadagem pessoal, levantaram-se e retiraram o chapéu, fazendo uma reverência em homenagem à filha do falecido lorde de Lucretili e herdeira do castelo.
Isolde vestia o azul-escuro do luto: um chapéu cónico alto coberto de renda índigo escondia o cabelo claro, um inestimável cinto de ouro árabe cingia com firmeza a cintura alta do vestido, e as chaves do castelo se penduravam numa corrente de ouro lateral. Atrás dela, vinham as damas de companhia, lideradas por Ishraq, uma amiga de infância, com uma vestimenta moura, uma longa túnica por cima de pantalonas largas e um véu comprido sobre a cabeça, cobrindo o rosto de leve, de forma que apenas os olhos escuros ficassem visíveis quando ela fitava o salão. Outras duas mulheres a seguiam e, enquanto a criadagem murmurava bênçãos a Isolde, as mulheres tomaram seus lugares à mesa das senhoras, ao lado do tablado elevado. Isolde subiu os degraus baixos até à grande mesa e sobressaltou-se ao ver o irmão sentado na cadeira de madeira, grandiosa como um trono, que fora o lugar do pai. Sabia que devia ter previsto que ele estaria ali, assim como ele sabia que ela herdaria o castelo e assumiria aquele lugar à mesa assim que o testamento fosse lido. Mas, entorpecida pelo luto, não tinha pensado que, de agora em diante, sempre veria o irmão onde o pai deveria estar. O sentimento era tão novo que ainda não conseguira absorver o facto de que nunca mais veria o pai.
Giorgio lhe sorriu com brandura e gesticulou para que ela se sentasse a sua direita, o lado do pai em que ela costumava ficar. Deve lembrar-se do príncipe Roberto. Giorgio indicou um homem sentado à sua esquerda. Era corpulento, tinha o rosto redondo e húmido de suor, e levantou-se, contornando a mesa para fazer uma reverência. Isolde estendeu a mão ao príncipe e olhou para o irmão com um olhar questionador. Ele veio em solidariedade à nossa perda. O príncipe beijou a sua mão, e Isolde tentou não se retrair com o toque molhado daqueles lábios. Ele a encarava como se quisesse sussurrar-lhe algo, como se pudessem compartilhar um segredo. Isolde retirou a mão e se curvou para falar no ouvido do irmão. Estou surpresa que tenha convidado alguém para o jantar apenas um dia após o falecimento de meu pai.
Foi gentileza dele vir tão depressa, respondeu Giorgio, acenando aos criados que andavam pelo salão carregando nos ombros bandejas cheias de carne de caça, boi e peixe, grandes fatias de pão e jarros de vinho e de cerveja. O sacerdote do castelo entoou as graças, e os servos baixaram as bandejas de comida. Os homens retiraram as adagas dos cintos e das botas para cortar nacos de carne, e empilharam fatias grossas de pão marrom com peixe escaldado e cervo cozido. Isolde achou difícil jantar no salão como se nada tivesse mudado enquanto o pai jazia no seu velório, guardado na capela pelos homens de armas, e seria enterrado no dia seguinte». In Philippa Gregory, O Substituto, 2012, Editora Galera Record, colecção Ordem da Escuridão, 2015, ISBN 978-850-140-319-3.

Cortesia de EGRecord/JDACT

sábado, 6 de janeiro de 2018

O Substituto. Philippa Gregory. «Enquanto Luca era interrogado, a cerca de 30 quilómetros a nordeste de Roma, no Castelo de Lucretili, uma jovem estava sentada numa cadeira sumptuosa na capela da casa de sua família»

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Castelo Sant’Angelo. Roma. 1453
«(…) Ficará alguns meses em observação e, em seguida, será enviado ao mundo sob minhas ordens, continuou o homem. Irá aonde eu ordenar e estudará o que encontrar por lá, mas vai reportar-se a mim. Poderá julgar e punir os pecadores que encontrar, poderá exorcizar demónios e espíritos impuros. Poderá aprender e também questionar tudo, o tempo todo, mas servirá a Deus e a mim da maneira que eu ordenar. Prestará obediência a mim e à Ordem, caminhará no mundo invisível e verá coisas invisíveis, então as questionará. Seguiu-se um súbito silêncio. Pode ir, disse o homem, por fim, como se tivesse dado instruções muito simples. Luca saiu do seu transe silencioso e andou até à porta. Quando as suas mãos tocaram a maçaneta de bronze, o homem falou: mais uma coisa... Lucas se virou para ele. Dizem que foi uma criança trocada, não é mesmo? A acusação desabou na sala como uma chuva de gelo repentina. O povo da aldeia? Quando faziam mexericos sobre o nascimento de um menino, tão bonito e inteligente, de uma mulher estéril durante toda a vida com um homem que não sabia ler ou escrever... Diziam que foi trocado, deixado na porta da sua mãe pelas fadas, não diziam? Seguiu-se um silêncio apático. Nada transparecia no rosto jovem e sério de Luca. Nunca respondi a tal pergunta e espero jamais responder. Não sei o que diziam a nosso respeito, respondeu, áspero. Era um povo ignorante, covarde e rural. Minha mãe dizia para não dar atenção ao que falavam. Dizia que ela era minha mãe e que me amava acima de todas as coisas, e era só isso que importava, não histórias sobre filhos das fadas.
O homem deu uma risada curta e gesticulou para que Luca fosse embora, esperando a porta se fechar às suas costas. Talvez esteja enviando uma criança trocada para mapear o próprio medo, disse para si mesmo, enquanto arrumava os papéis e empurrava a cadeira para trás. Uma piada para o mundo visível e o invisível: um filho das fadas na Ordem! Um filho das fadas mapeando o medo!

Castelo de Lucretili. Junho de 1453
Enquanto Luca era interrogado, a cerca de 30 quilómetros a nordeste de Roma, no Castelo de Lucretili, uma jovem estava sentada numa cadeira sumptuosa na capela da casa de sua família. Os olhos azul-escuros estavam fixos no crucifixo requintado, o cabelo claro preso numa trança descuidada sob um véu preto, o rosto tenso e pálido. A chama de uma vela amparada por uma tigela de cristal cor-de-rosa bruxuleava sobre o altar enquanto o padre movia-se nas sombras. Ela ajoelhou-se com as mãos firmemente entrelaçadas, rezando com fervor pelo pai que lutava pela vida nos próprios aposentos e se recusava a vê-la. A porta nos fundos da capela abriu-se, e o seu irmão entrou em silêncio. Viu-a de cabeça baixa e foi ajoelhar-se ali ao lado. Ela o olhou de soslaio. Era um jovem bonito, de cabelos pretos, sobrancelhas escuras, o rosto marcado pela tristeza. Ele se foi, Isolde, ele se foi. Que descanse em paz. O rosto branco se enrugou, e a moça cobriu os olhos com as mãos. Ele não chamou por mim? Nem mesmo no fim da vida? Ele não queria que o visse sofrendo. Queria que se lembrasse dele como foi, forte e saudável. Mas as últimas palavras foram uma bênção para ti, e os últimos pensamentos foram sobre o teu futuro. Ela negou, sacudindo a cabeça. Não acredito que ele não me tenha dado a sua bênção pessoalmente. Giorgio afastou-se dela e foi falar com o padre, que logo correu para o fundo da capela. Isolde ouviu o grande sino entoar o seu dobre: logo todos saberiam que o grande cruzado, o lorde de Lucretili, estava morto. Tenho de rezar por ele, disse ela em voz baixa. O corpo virá para cá? O rapaz assentiu. Farei a vigília esta noite, decidiu Isolde. Sentar-me-ei ao lado dele agora que está morto, embora ele não o tenha permitido quando vivo. Ela hesitou. Ele não me deixou uma carta? Nada? O seu testamento, respondeu o irmão, com delicadeza. Ele fez planos para ti. Bem no fim da vida, estava pensando em ti. A moça assentiu, os olhos azul-escuros encheram-se de lágrimas. Então ela entrelaçou as mãos e rezou pela alma do pai.
Isolde passou a primeira longa noite depois da morte do pai numa vigília silenciosa ao lado do caixão, na capela da família. Quatro dos homens de armas do pai estavam ali parados, um em cada ponto cardeal, as cabeças baixas sobre as espadas, e a luz das velas altas fazendo cintilar a água benta espargida na tampa do caixão. Isolde, vestida de branco, passou a noite inteira ajoelhada diante do esquife, até que o padre veio, ao amanhecer, rezar a Prima, o primeiro serviço de orações do dia. Foi só então que ela se levantou e deixou que as damas de companhia a conduzissem ao quarto para dormir. Ficou ali até chegar uma mensagem do irmão pedindo para que ela se levantasse e saísse do quarto, era hora do jantar e os criados queriam ver sua senhora. Ela não hesitou: fora criada para cumprir o seu dever com a grande casa e tinha um senso de obrigação para com as pessoas que moravam nas terras dos Lucretili. O pai, ela sabia, deixara-lhe o castelo e as terras». In Philippa Gregory, O Substituto, 2012, Editora Galera Record, colecção Ordem da Escuridão, 2015, ISBN 978-850-140-319-3.

Cortesia de EGRecord/JDACT

O Substituto. Philippa Gregory. «Então, o jovem hesitou. Não vou saber o que fazer, confessou. Nem por onde começar. Não entendo nada!»

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Castelo Sant’Angelo. Roma. 1453
«(…) Ele puxou o capuz mais para baixo, de modo que o rosto ficou completamente oculto. É por isso que nos derrotarão, a não ser que passemos a ver como eles veem, pensar como eles pensam e contar como eles contam. Talvez um jovem como você também consiga aprender sua língua. Luca não conseguia tirar os olhos do papel onde o homem marcara dez espaços de contagem, indo até o zero e além. E então, o que acha?, perguntou o inquisidor. Acha que dez nadas poderiam ser criaturas do mundo invisível? Dez coisas invisíveis? Dez fantasmas? Dez anjos? Se pudéssemos calcular além do nada, começou Luca, seria possível mostrar o que foi perdido. Digamos que alguém fosse mercador e contraísse uma dívida, num país ou uma viagem, maior que a sua própria fortuna. Seria possível mostrar-lhe exactamente o valor dessa dívida: pudesse mostrar o que foi perdido. Daria para mostrar quanto menos que nada ele possui, o quanto ele precisa ganhar antes de ter algo outra vez. Sim, respondeu o homem. Com o zero, é possível medir o que não está ali. Os otomanos não tomaram Constantinopla e o nosso império no Oriente apenas porque têm os exércitos mais fortes e os melhores comandantes, mas também porque possuem uma arma que nós não temos: um canhão tão imenso que requer sessenta bois para ser puxado. Eles sabem de coisas que não compreendemos. O motivo pelo qual mandei buscá-lo, o motivo pelo qual foi expulso do mosteiro, em vez de ser punido pela desobediência ou torturado por heresia, é o que quero que aprenda esses mistérios, quero que os explore, para que tomemos conhecimento deles e possamos nos defender.
O zero é uma das coisas que devo estudar? Irei aos otomanos e aprenderei com eles? Ou aprenderei com os seus estudos? O homem riu e estendeu a folha de papel contendo os numerais arábicos para o noviço, segurando-a com um dedo. Deixarei que fique com isto, prometeu. Pode ser sua a recompensa quando eu estiver satisfeito com o seu trabalho e a sua missão estiver completa. E, sim, talvez tenha de ir aos infiéis, viver entre eles. Será os meus olhos e ouvidos. Irá à procura de mistérios, em busca de conhecimento. Mapeará medos, para revelar todas as formas e manifestações das trevas. Buscará compreender as coisas, será parte da nossa Ordem, que busca compreender tudo. Ele pôde ver a face de Luca se iluminar quando o rapaz pensou em levar uma vida dedicada à pesquisa. Então, o jovem hesitou. Não vou saber o que fazer, confessou. Nem por onde começar. Não entendo nada! Como vou saber aonde ir ou o que fazer? Eu o enviarei a um conhecedor, para estudar com os mestres. Eles lhe ensinarão as leis e os poderes de que precisará para convocar um tribunal ou uma inquisição. Aprenderá pelo que deve procurar e como conduzir um interrogatório. Compreenderá os indícios de que alguém deve ser enviado para os poderes terrenos, sejam os prefeitos das cidades ou os senhores dos solares, ou quando devem ser punidos pela Igreja. Aprenderá a discernir a hora de perdoar e a de castigar. Quando estiver pronto, quando tiver sido treinado, eu o enviarei na primeira missão. Luca assentiu». In Philippa Gregory, O Substituto, 2012, Editora Galera Record, colecção Ordem da Escuridão, 2015, ISBN 978-850-140-319-3.

Cortesia de EGRecord/JDACT

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O Substituto. Philippa Gregory. «Quem chegou a ele? Árabes, mouros, otomanos..., chame-os como quiser. Maometanos, muçulmanos, infiéis, nossos inimigos, nossos novos conquistadores...»

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Castelo Sant’Angelo. Roma. 1453
«(…) Meu pai achou que eu tivesse um dom, um dom divino. Não é tão incomum. Tentou explicar. Freize, o criado, é muito bom com animais, consegue o que quiser com cavalos e pode montar qualquer animal. Meu pai pensou que eu tivesse um dom parecido, mas para os estudos. Queria que eu fosse mais que um lavrador, queria que me saísse melhor. O inquisidor recostou-se na cadeira, como se estivesse cansado de ouvir ou já tivesse ouvido mais que suficiente. Pode se levantar. Ele analisou o papel com as poucas anotações em tinta preta enquanto Luca se colocava de pé. Agora responderei às perguntas que você deve ter em mente. Sou o comandante espiritual de uma Ordem nomeada pelo Santo Padre, o próprio papa, e reporto nosso trabalho a ele. Não precisa saber o meu nome ou o nome da Ordem. O papa Nicolau V ordenou que explorássemos os mistérios, as heresias e os pecados, que os explicássemos, sempre que possível, e os derrotássemos, quando pudermos. Estamos mapeando os medos do mundo, viajando de Roma para os confins da cristandade a fim de descobrir o que as pessoas dizem, o que temem e contra o que lutam. Precisamos saber por onde anda o diabo neste mundo. O Santo Padre sabe que estamos nos aproximando do fim dos tempos. O fim dos tempos? Quando Cristo voltará para julgar os vivos, os mortos e os mortos-vivos. Já deve saber que os otomanos tomaram Constantinopla, o coração do Império Bizantino, o centro da Igreja no Oriente. Luca fez o sinal da cruz. A queda do centro oriental da Igreja para um exército invencível de hereges e infiéis era a coisa mais terrível que poderia ter acontecido, um desastre inimaginável. Em seguida, as forças das trevas se erguerão contra Roma, e, se Roma cair, será o fim dos tempos, o fim do mundo. Nossa tarefa é defender a cristandade, defender Roma, neste mundo e no outro, desconhecido.
Desconhecido? Ele está a nossa volta, respondeu o homem, categórico. Eu o vejo, talvez, com a mesma clareza com que você vê os números. E todo ano, a cada dia, ele se aproxima mais e mais. As pessoas me contam sobre chuvas de sangue, um cão que pode farejar a peste, bruxaria, luzes no céu e água que é vinho. O fim dos tempos se aproxima, e há centenas de manifestações do bem e do mal, milagres e heresias. Um jovem como você talvez possa me dizer quais são verdadeiros e quais são falsos, o que é obra de Deus e o que vem do Diabo. O inquisidor levantou da grandiosa cadeira de madeira e empurrou uma folha de papel em branco para Luca. Vê isto? Luca analisou as marcas no papel. Era a escrita de hereges, o estilo mouro de grafar números. Quando criança, Luca aprendera que um risco, I, significava um; dois riscos, II, indicavam dois; e assim por diante. Mas estas formas eram redondas e estranhas. Ele já as tinha visto, mas os mercadores de sua aldeia e o esmoler do mosteiro se recusavam terminantemente a usá-las, atendo-se ao estilo antigo. Isto significa um: 1. Já este, dois: 2. Este, três: 3, explicou o homem, apontando as marcas com a ponta da pena preta. Se colocar o 1 aqui nesta coluna, significa um. Mas se colocá-lo aqui, com este espaço ao lado, quer dizer dez. E, se colocá-lo aqui, com dois espaços ao lado, significa cem. Luca ficou espantado. A posição do número indica seu valor? Exactamente. O homem usou a pluma preta para apontar o formato do vazio, parecido com um O alongado, que enchia as colunas. Estendeu o braço para fora da manga e Luca olhou do O para a pele branca da parte interna do pulso do homem. Tatuadas em seu braço, como se tivessem sido esculpidas na pele, Luca pôde ver a cabeça e a cauda retorcida de um dragão, um desenho de um dragão enroscado em si mesmo, em tinta vermelha.
Isto não é apenas um vazio, não é apenas um O: é o que chamam de zero. Veja a posição que ele ocupa, ela tem um significado. Mas qual é esse significado? Ele representa um espaço?, indagou Luca, encarando o papel outra vez. Quero dizer: nada? É um número como outro qualquer, respondeu o homem. Eles criaram um número para o nada. Assim, podem calcular o nada e ir além dele. Além? Além do nada? O homem apontou para outro número: 10. Isto está além do nada, está dez lugares além do nada: isto quantifica a ausência, respondeu. Luca, com a mente girando, estendeu a mão para o papel, mas o homem puxou-o de volta depressa e o cobriu com a mão larga, protegendo-o de Luca, como se fosse um prémio que ele precisaria merecer. A manga voltou a cair sobre o pulso, escondendo a tatuagem. Sabe como chegaram a este sinal, ao número zero?, perguntou. Luca negou, balançando a cabeça. Quem chegou a ele? Árabes, mouros, otomanos..., chame-os como quiser. Maometanos, muçulmanos, infiéis, nossos inimigos, nossos novos conquistadores... Mas sabe como chegaram a este sinal? Não. É a forma de um sulco na areia quando os contadores são retirados. É o símbolo do nada, se parece com o vazio e é isso o que simboliza. É assim que eles pensam, e é isso o que temos de aprender com eles. Não entendo. O que é que temos de aprender? A olhar, olhar e olhar. É isso que eles fazem: olham para tudo, pensam em tudo e, por isso, viram estrelas no céu que nunca conseguimos ver. É por isso que fazem remédios de plantas que jamais percebemos». In Philippa Gregory, O Substituto, 2012, Editora Galera Record, colecção Ordem da Escuridão, 2015, ISBN 978-850-140-319-3.

Cortesia de EGRecord/JDACT

O Substituto. Philippa Gregory. «O homem continuou sem dizer nada. São números, argumentou Luca, impotente. Eu penso assim, em números: eles me interessam»

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Castelo Sant’Angelo. Roma. 1453
«(…) Não se atreveu a dizer mais. Por que disse que a relíquia era falsa? Não tive intenção... Porquê? É um pedaço de prego de cerca de 70 centímetros de extensão e meio centímetro de largura, respondeu Luca, a contragosto. O senhor pode examiná-lo, embora agora esteja banhado em ouro e coberto de jóias. Ainda dá para perceber seu tamanho. O inquisidor assentiu. E então? A abadia de São Pedro tem um cravo da verdadeira cruz, assim como a abadia de São José. Procurei na biblioteca do mosteiro para ver se havia outros pregos, e há cerca de quatrocentos só na Itália. Mais ainda na França, na Espanha e na Inglaterra. O homem esperou, num silêncio sem compaixão. Calculei o tamanho provável dos cravos, continuou Luca, parecendo infeliz. E calculei o número de pedaços em que poderiam ter-se quebrado. A conta não bate: existem relíquias demais para que todos venham de apenas uma crucificação. A Bíblia diz que havia um cravo em cada palma e um atravessando os pés; são apenas três cravos. Luca encarou o rosto sombrio de seu inquisidor. Não creio que seja blasfémia dizer isso; a própria Bíblia afirma com clareza. Além do mais, se contarmos os cravos usados na construção da cruz, há mais quatro na junção central, para segurar o tronco. Então são sete cravos originais; apenas sete. Vamos dizer que cada um tenha uns 12 centímetros: são cerca de 90 centímetros de cravos usados na verdadeira cruz, mas há milhares de relíquias. Não estou afirmando que qualquer cravo ou fragmento seja genuíno ou não, não me cabe julgar. Mas não posso deixar de perceber que existem relíquias demais para que todas venham de uma mesma cruz. O homem continuou sem dizer nada.
São números, argumentou Luca, impotente. Eu penso assim, em números: eles me interessam. Você se deu o direito de estudar isto? E também de decidir que existem cravos demais em igrejas ao redor do mundo para que todos sejam verdadeiros, para que todos venham da cruz sagrada? Luca caiu de joelhos, reconhecendo a própria culpa. Não tive intenção de fazer mal, sussurrou para a figura escondida pelas sombras. Só comecei a me perguntar, fiz os cálculos, e então o abade encontrou o papel onde eu os tinha feito e... Ele hesitou. E o abade, coberto de razão, acusou-o de heresia, estudos proibidos, citar erroneamente a Bíblia para atingir os próprios objectivos, ler sem orientação, mostrar independência de raciocínio, estudar sem permissão e na hora errada, estudar livros proibidos... O homem continuou uma longa lista. Parou e encarou Luca. Pensar por si mesmo. Esse é o pior, não é? Você fez juras a uma ordem com certas crenças estabelecidas e depois começou a pensar por si mesmo.
Luca assentiu. Peço desculpas. O sacerdócio não precisa de homens que pensem por si mesmos. Eu sei, respondeu Luca, a voz muito baixa. Você fez um voto de obediência, jurou não pensar por si próprio. Luca baixou a cabeça, esperando pela sentença. A chama das velas tremeluziu quando, ali perto, uma porta se abriu e uma corrente de vento varreu as salas. Sempre pensou desse jeito? Com números? Luca assentiu. Teve amigos no mosteiro? Discutiu o assunto com alguém? Ele negou com a cabeça. Não discuti isso. O homem examinou as anotações. Você tem um associado chamado Freize? Luca sorriu pela primeira vez. Ele é apenas criado da cozinha do mosteiro, respondeu. Ele se afeiçoou a mim assim que cheguei, aos 11 anos. Ele próprio tinha apenas 12 ou 13. Convenceu-se de que eu era magro demais, disse que não sobreviveria a um Inverno. Vivia trazendo comida extra para mim, mas não passa de um criado.
Não tem irmão ou irmã? Sou sozinho no mundo. Sente falta de seus pais? Sinto. Sente-se solitário? O tom da sua voz deixava transparecer outra acusação. Creio que sim. Sinto-me muito só se é isso que quer dizer. O homem encostou a pena preta nos lábios, pensativo. Seus pais... Ele retomou a primeira pergunta do interrogatório. Eram velhos quando você nasceu? Sim, respondeu Luca, surpreso. Sim. Houve falatório na época, imagino. Um casal tão velho, de repente, dar à luz um filho, e ainda por cima um tão bonito, que se tornou um rapaz excepcionalmente inteligente? É uma aldeia pequena, respondeu Luca, na defensiva. As pessoas não têm o que fazer além de trocar mexericos. Mas você é de facto bonito; e também inteligente. E, ainda assim, eles não se gabaram de você nem o exibiram. Mantiveram-no em casa, sossegado. Éramos próximos, respondeu Luca. Éramos uma família pequena e muito unida. Não incomodávamos ninguém, levávamos uma vida tranquila, os três.
Então, por que o entregaram à Igreja? Por que pensaram que você estaria mais seguro lá dentro? Tinha algum dom especial? Precisava da protecção da Igreja? Luca, ainda de joelhos, tentou desviar-se da pergunta, pouco à vontade. Não sei. Eu era criança, tinha apenas 11 anos. Não sei o que estavam pensando. O inquisidor esperou. Eles queriam que eu tivesse a educação de um padre, completou, por fim. Meu pai... Hesitou ao pensar no amado pai, no cabelo grisalho e na mão firme, na ternura que tinha com o filho pequeno, estranho e desajeitado. Meu pai ficou muito orgulhoso quando aprendi a ler, por eu ter aprendido sozinho os números. Ele não sabia ler ou escrever, e julgava que fossem grandes talentos. E depois aprendi a língua dos ciganos, quando alguns deles passaram pela aldeia. O homem tomou nota. Você sabe falar outras línguas? As pessoas comentaram que aprendi romani num dia». In Philippa Gregory, O Substituto, 2012, Editora Galera Record, colecção Ordem da Escuridão, 2015, ISBN 978-850-140-319-3.

Cortesia de EGRecord/JDACT

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O Substituto. Philippa Gregory. «… noviço do mosteiro de São Xavier, no qual ingressou quando garoto, aos 11 anos? Você ficou órfão há três anos, desde que seus pais morreram, quando tinha 14 anos?»

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Castelo Sant’Angelo. Roma. 1453
«(…) O rio parecia um largo fosso ao redor das altas muralhas de Roma. O barqueiro mantinha a pequena embarcação próxima do abrigo dos paredões, longe dos olhos das sentinelas acima. Luca viu à frente a silhueta de uma ponte de pedra se agigantar e, pouco antes dela, uma grade cobrindo um arco de pedra no muro. Quando o barco se aproximou, a grade subiu sem ruído e, com um movimento experiente do remo, eles entraram rapidamente num porão iluminado por archotes. Acometido por um súbito pavor, Luca desejou ter aproveitado a chance de escapar no rio. Havia meia dúzia de homens de aparência ameaçadora esperando por ele, e, enquanto o barqueiro usava uma velha argola presa à parede para estabilizar a embarcação, eles se aproximaram e retiraram Luca do barco, para então conduzi-lo por um corredor estreito. O rapaz mais sentia do que via as grossas paredes de pedra de cada lado e as tábuas de madeira sob seus pés, enquanto ouvia a própria respiração, irregular devido ao medo. Pararam diante de uma pesada porta de madeira e, depois de uma única batida, esperaram. Uma voz de dentro da sala disse Entre!, ao que o guarda abriu a porta e empurrou Luca para dentro. O rapaz parou, o coração aos pulos, atordoado com a súbita luminosidade produzida por dezenas de velas de cera, e ouviu a porta se fechar silenciosamente às suas costas. Havia um homem sentado diante de uma mesa, com vários papéis espalhados a sua frente. Ele usava um sumptuoso manto de veludo, de um azul tão escuro que parecia quase preto, e um capuz que escondia todo o rosto da visão de Luca, que parou diante da mesa e tentou controlar o medo. O que quer que acontecesse, decidiu, ele não iria implorar pela própria vida. De algum modo, criaria coragem para enfrentar o que viesse, impassível e forte, sem envergonhar a si mesmo ou ao pai chorando como uma menina. Deve estar perguntando por que está aqui, onde está e quem sou eu, disse o homem. E vou-lhe contar. Mas, primeiro, deve responder a todas as perguntas que eu fizer. Compreendeu? Luca assentiu com a cabeça. Não deve mentir para mim. Sua vida está em jogo, e não tem como saber as respostas que eu possa preferir. Trate de dizer a verdade: seria tolice morrer por uma mentira. Luca tentou assentir, mas percebeu que estava tremendo demais. Você é Luca Vero, noviço do mosteiro de São Xavier, no qual ingressou quando garoto, aos 11 anos? Você ficou órfão há três anos, desde que seus pais morreram, quando tinha 14 anos? Meus pais desapareceram, respondeu Luca. Ele pigarreou, desconfortável. Talvez não estejam mortos. Foram capturados numa incursão otomana, mas ninguém os viu morrer. Ninguém sabe onde estão, é bem possível que estejam vivos. O inquisidor fez uma rápida anotação numa folha de papel diante dele. Luca observou a ponta da pena preta movendo-se pela página. Você espera, disse o homem, ríspido. Tem esperanças de que eles estejam vivos e retornem para si. O modo como falava deu a entender que considerava a esperança uma grande tolice. Espero. Foi criado pelos irmãos e fez juramento à ordem sagrada, mas, ainda assim, buscou seu confessor e o abade para lhes dizer que a relíquia que guardavam no mosteiro, um prego da cruz verdadeira, era falsa. O tom de voz, uniforme, já carregava a acusação. Luca sabia que aquilo fora uma menção à sua heresia; também sabia que a única punição para a heresia era a morte. Não tive intenção... Por que disse que a relíquia era falsa? Luca desviou o olhar para as botas, então para o piso de madeira escura, a mesa pesada e as paredes caiadas. Tentou olhar para qualquer lugar que não o rosto sombreado do interrogador de voz suave. Pedirei o perdão do abade e farei minhas penitências, respondeu. Não tive intenção de cometer heresia alguma. Deus é testemunha de que não sou herege. Não quis fazer mal algum. Eu julgarei se foi ou não herege. Já vi homens mais jovens que você, que fizeram e disseram coisas menos graves, pedindo misericórdia sob tortura, gritando enquanto as articulações estouravam. Ouvi homens melhores implorando pela fogueira, ansiando pela morte como único alívio para a dor. Luca sacudiu a cabeça ao pensar na Inquisição (maldita), que tinha o poder de decidir seu destino, vê-lo cumprido e atribuí-lo à glória de Deus». In Philippa Gregory, O Substituto, 2012, Editora Galera Record, colecção Ordem da Escuridão, 2015, ISBN 978-850-140-319-3.

Cortesia de EGRecord/JDACT

sábado, 31 de dezembro de 2016

O Substituto no 31. Philippa Gregory. «Ele não sabia onde estava ou quem o mantinha cativo. Não sabia que acusação enfrentaria. Não sabia qual seria a punição. Não sabia se seria espancado, torturado ou morto»


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Castelo Sant’Angelo. Roma. 1453
«As batidas na porta o fizeram despertar, como se uma arma disparasse à sua frente. Atrapalhado, o jovem pegou a adaga, por baixo do travesseiro, os pés descalços tocando o chão de pedra gelada. Sonhara com os pais, com seu antigo lar, e cerrou os dentes tentando suprimir o doloroso desejo de recuperar tudo que havia perdido: a casa de fazenda, a mãe, a antiga vida. A batida forte soou outra vez, e ele escondeu a adaga nas costas enquanto destrancava a porta e abria uma fresta, com cuidado. Uma figura encapuçada estava parada do lado de fora, flanqueada por dois homens corpulentos que carregavam archotes acesos. Um deles levantou a tocha para iluminar o jovem magro, nu da cintura para cima, vestindo apenas calções, piscando os olhos castanhos sob a franja de cabelos escuros. Aparentava ter 17 anos, o rosto doce de um menino, mas o corpo de um homem, forjado pelo trabalho árduo. Luca Vero? Sim. Deve vir comigo. Eles perceberam sua hesitação. Não seja tolo. Nós somos três, e você é apenas um; a adaga que esconde nas costas não nos impedirá. É uma ordem, disse o outro homem, rispidamente. Não um pedido. E jurou obediência. Luca tinha jurado obediência ao mosteiro, não a esses estranhos, mas fora expulso de lá e agora parecia que devia obediência a qualquer um que gritasse uma ordem. Ele foi até à cama e se sentou para calçar as botas, colocando a adaga numa bainha escondida dentro do couro macio. Então vestiu uma camisa de linho e jogou a esfarrapada capa de lã sobre os ombros. Quem são vocês?, perguntou, aproximando-se da porta, receoso. O homem não respondeu, apenas se virou e começou a andar enquanto os dois guardas no corredor esperaram Luca sair da cela e segui-los. Aonde estão me levando? Os dois guardas o acompanharam sem responder. Luca queria perguntar se estava sendo preso, se seria conduzido à execução sumária, mas não se atreveu. Apavorado com a própria pergunta, percebeu que temia a resposta. Sentia que transpirava de medo por baixo da capa de lã, embora o ar estivesse gelado e as paredes de pedra, frias e húmidas. Percebia que os problemas eram graves, os piores que tivera em sua jovem vida. Ainda no dia anterior, quatro homens encapuçados o haviam tirado do mosteiro e levado para aquela prisão sem qualquer explicação. Ele não sabia onde estava ou quem o mantinha cativo. Não sabia que acusação enfrentaria. Não sabia qual seria a punição. Não sabia se seria espancado, torturado ou morto. Insisto em ver um padre, quero-me confessar..., tentou.
Eles não lhe deram atenção, apenas o forçaram a seguir pela estreita galeria lajeada de pedras; estava silenciosa, as portas das celas laterais, fechadas. Luca não sabia se aquilo era uma prisão ou um mosteiro, mas era um local muito frio e tranquilo. Passava um pouco da meia-noite, e o lugar parecia imerso em escuridão e no mais absoluto silêncio. Os guias de Luca não fizeram ruído ao atravessar a galeria, descendo as escadas de pedra e passando por um salão para, logo em seguida, descer uma curta escada em espiral, adentrando uma escuridão cada vez mais negra, onde o ar era cada vez mais frio. Exijo saber para onde estão me levando!, insistiu Luca, embora a voz tremesse de medo. Ninguém respondeu, mas o guarda atrás dele se aproximou um pouco. No final da escada, Luca podia ver uma entrada em arco, fechada por uma pesada porta de madeira, que o homem da frente abriu com uma chave tirada do bolso, gesticulando para Luca passar. Quando percebeu sua hesitação, um dos guardas atrás dele apenas se aproximou até que o volume ameaçador de seu corpo impelisse Luca a avançar. Insisto..., sussurrou Luca. Um forte empurrão o fez atravessar a porta, e ele ofegou ao ser atirado na beira de um cais alto e estreito. Um barco se balançava no rio lá em baixo, e a margem oposta era um borrão escuro. Luca se afastou rapidamente da beira, com uma súbita vertigem ao perceber que poderiam atirá-lo dali, para as pedras, com a mesma facilidade com que o levariam pela escada até ao barco. O primeiro homem desceu a escadaria húmida com passos suaves, entrou no barco e disse uma palavra ao barqueiro na proa, que sustentava a embarcação contra a corrente com movimentos habilidosos de um único remo. Depois, voltou o olhar para o belo jovem pálido. Venha, ordenou. Não havia como resistir à ordem, e Luca o seguiu pela escada sebosa, entrou no barco e se sentou na proa. O barqueiro não esperou pelos guardas e levou a embarcação até o meio do rio, deixando que a correnteza os conduzisse ao redor da muralha da cidade. Luca olhou para a água escura. Se ele se jogasse do barco, seria levado pela jusante e, talvez, conseguisse nadar contra a corrente, chegar ao outro lado e escapar. Mas a água passava tão rápido que era mais provável que ele se afogasse, isso se não o seguissem com o barco e o imobilizassem com o remo. Meu senhor, disse, apelando à dignidade. Agora posso saber aonde vamos? Logo saberá. Foi a resposta ríspida». In Philippa Gregory, O Substituto, 2012, Editora Galera Record, colecção Ordem da Escuridão, 2015, ISBN 978-850-140-319-3.

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