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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

As Nove Magníficas. Helena S. Cabral. «Assim, depois de assumir o governo, passa a assinar os actos governativos como infantis domna Tarasia, numa marca bem visível da sua jurisdição»

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A Vida de Casada
«(…) Com a morte do marido, a astuciosa condessa começa a revelar o seu projecto de poder e, a partir de Maio de 1112, os documentos passam a conter apenas a assinatura de Teresa, a qual se declara filha do bom rei ou do grande rei e imperador Afonso VI, numa prova de que aquela era a hora certa de afirmar o governo e a autoridade que iria exercer. No entanto, parece-me que, apesar das vitórias conseguidas sobre Espanha e do sentimento nacionalista que ajudou a criar, Teresa se terá digladiado, muitas vezes, sob uma espada de duas forças contrárias. De um lado, o baronato portucalense, que reivindica para ela um lugar paralelo ao de Urraca, pelo menos na autonomia da Galiza, e, do outro, os magnates galegos que querem forçá-la a aceitar a unificação de Portugal e da Galiza. Esta duplicidade de sentimentos poderá, eventualmente, explicar a táctica dos galegos Trava para tentarem casar a rainha-viúva com um deles, e também as atitudes de Urraca, que, conhecendo bem a meia-irmã, nunca deixou de a usar contra os galegos ou de utilizar estes contra ela, conforme os interesses do momento. Mas Teresa não era dada a fraquezas e gostava, mesmo, de exercer o poder. Assim, depois de assumir o governo, passa a assinar os actos governativos como infantis domna Tarasia, numa marca bem visível da sua jurisdição.
E a partir de 1117, atreve-se, mesmo, a apelidar-se rainha, como filha de rei que era e, na minha opinião, numa tentativa de mostrar que não aceitava qualquer género de dependência de Leão. Com vista a reforçar-se perante a irmã, decidiu instalar-se em Astorga e pactua com o rei de Aragão, aproveitando para o indispor contra Urraca, sua mulher. Para tal, inventa, com razão ou sem ela, que a consorte o pretendia matar. As intrigas foram tantas, que consegue separá-los. O que também lhe traz alguns dissabores, visto que é esse facto que acaba por conduzir à sua expulsão do território, criando-lhe uma situação embaraçosa. Todavia, perspicaz como é, convence Celmirez, bispo de Compostela, a usar da sua influência em seu favor. E fá-lo, sabendo que este prelado se encontrava, junto com Pedro Froilaz, conde de Trava, à frente de um forte partido na Galiza que queria para rei Afonso Raimundes, filho de Urraca. Logo, o apoio dado a Teresa pelo religioso iria obrigar a irmã a ficar quieta e nada fazer contra ela, visto que Urraca não podia dar-se ao luxo de prescindir de Gelmirez.
São factos como este que mostram bem a habilidade política de Teresa. Com efeito, não podendo continuar o trabalho guerreiro do marido, sabe que tem de encontrar meios alternativos de defesa e de ataque. Como, aliás, refere Herculano, quando escreve a seu respeito: recorreu às armas de que a sua fraqueza mulheril podia tirar tanta vantagem como o marido do esforço e perícia militar; empregou a astúcia. E é esta astúcia da sua governação que não pode nem deve ser vista, apenas, como uma mera transição entre os governos do marido e do filho, mas, antes, com a atenção que ela de facto merece, se quisermos perceber quanto especial e importante foi, para nós, esta mulher. O marido, Henrique, jamais esqueceu a sua nacionalidade, daí rodear-se de conselheiros franceses, nem os seus interesses, que visavam mais multiplicar as suas terras do que fortalecer o Condado Portucalense. Como mais tarde o historiador Veríssimo Serrão diria: nunca perdeu a característica mercenária e belicosa que o trouxera à Península e que fizera dele um afamado guerreiro. Já dona Teresa tem como objectivo o fortalecimento do Condado, sem esquecer a expansão das fronteiras, como prova o povoamento de Oliveira do Hospital, Tondela e Resende. É uma mulher de alma hispânica que, ao contrário do marido, prefere ser aconselhada por galegos e alguns barões do Condado. A segurança, outra das suas preocupações, leva-a a redobrar os cuidados em face do perigo muçulmano. E, provavelmente, datará dessa época a fixação de alguns membros da nobreza galega, cujos exércitos lhe poderiam ser úteis. Quanto à política leonesa e à defesa do Condado, se o marido era ambicioso, Teresa não o foi menos. Mal ele morre, decide, orgulhosa e altiva, aparecer na Corte de Astorga e, perante a irmã e o pai, defender as posições do defunto». In Helena S. Cabral, As Nove Magníficas, 2008, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-330-1.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

As Nove Magníficas. Helena S. Cabral. «Teresa fica, assim, uma jovem viúva com os quatro filhos que o marido lhe deixara, dos quais, o único varão, Afonso Henriques, tem apenas três anos»

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A Vida de Casada
«(…) Seu pai terá começado a governar o território portucalense, ao que se supõe, ainda nos finais de 1096 ou princípios do ano seguinte. O conde e a condessa viviam uma parte do tempo na Corte de Espanha e outra em Portugal. Teresa acompanhou sempre com inegável interesse as questões do Condado, visto que o conde se ausentava, com frequência, do território. E, na sua grande ausência, de 1111 a 1113, há quem admita que ela o substituiu. Porém, se ninguém duvidava do conde, como guerreiro, muitos terão ficado surpreendidos com a capacidade política que revelou nos últimos seis anos da sua vida. Com efeito, não só se envolveu na questão eclesiástica, defendendo a diocese de Braga, muito ligada aos propósitos autonomistas, como concedeu vários forais e um amplo couto ao Mosteiro de Santo Tirso. É ainda ele quem fará concessão do mosteiro e dos bens de Santo António de Barbudo à Sé de Braga. No fundo , pratica uma política de atracção da nobreza, do clero e da cavalaria vilã, a aristocracia não nobre dos condados sob sua administração. E alia-se a Raimundo sempre que considera vantajoso fazê-lo, como foi o caso, em 1105, com o Pacto Sucessório.
Quando morre o rei Afonso VI, as suas disposições testamentárias provocam no conde Henrique uma cólera enorme, dado que, por vontade do sogro, se vê excluído do que entendia ser o direito da sua mulher de se apresentar, como pretendente, às coroas do falecido. Esta atitude leva muitos a acreditar que o objectivo do conde teria sido dominar Castela e Leão. Porém, parece que o que ele verdadeiramente desejava era a autonomia do Condado Portucalense. A qual, como se vê, nem no leito de morte o sogro lhe concede. Henrique tinha, contudo, consciência de que precisava de pessoal para consolidar poder e território. Decide, por isso, alistar gente de guerra em França e, instado por Teresa, começa a pressionar a cunhada para que esta lhe entregue as terras que lhe haviam sido prometidas. O que tem como consequência uma forte irritação de dona Urraca. Apesar de Henrique se confinar apenas ao seu território e aos domínios que possuía em Leão, assume-se sempre como governante independente. E é como tal que decide deixar de aparecer na Corte leonesa.

Teresa, a Política
É nesta altura que Teresa começa a desempenhar um papel de certo relevo na condução dos negócios do Condado, surgindo, normalmente, como adversária da meia-irmã. Toda a vida de ambas irá, aliás, decorrer entre cortes e apoios, ditados não por razões familiares, mas por meras conveniências políticas de ocasião. O que, aos olhos de hoje, pode, até, parecer um pouco perverso. Mas o que une estas irmãs é apenas o sangue paterno e o que as separa, o poder, é bem mais forte do que esse frágil elo parental. Aliás, mesmo nos tempos actuais, continuam a existir famílias que entram em ruptura quando se trata de dividir o poder ou a sua figuração mais comum, que é o património. Será na Primavera de 1112, em Astorga, que a morte chega, de modo inesperado, ao conde Henrique. Teresa fica, assim, uma jovem viúva com os quatro filhos que o marido lhe deixara, dos quais, o único varão, Afonso Henriques, tem apenas três anos. Teresa, de rosto angélico e grande beleza, possui, também, ânimo vivo e grande sagacidade. A que junta a experiência de quem acompanhou, de modo empenhado, os dezoito anos durante os quais o marido regera a província. O que se tornava particularmente importante, numa altura em que a problemática da nacionalidade portuguesa começava a ser forjada. Alexandre Herculano dirá, mais tarde que, de certo modo, a ela se deve o nascer e radicar-se em Portugal aquele sentimento de individualidade que constitui barreiras entre povo e povo, mais sólidas e duradouras que os limites geográficos de duas nações vizinhas». In Helena S. Cabral, As Nove Magníficas, 2008, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-330-1.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

As Nove Magníficas. Helena S. Cabral. «… se teria dado em Guimarães, mas, nos nossos dias, já se admitem Coimbra e Viseu como alternativas possíveis. Sobre a data, aceita-se, agora, a de 25 de Julho de 1109»

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Teresa, a Bastarda
«(…) Consta, ainda, que de uma mulher de qualidade terá tido o conde Henrique um filho natural. Esse varão ter-se-á chamado Pedro Afonso e, por ter ficado órfão de pai com nove anos, foi protegido pelo meio-irmão. Segundo documentos da época, Teresa era astuta, insinuante e formosa. A sua beleza recebe elogios de todas as fontes, mesmo das que lhe são adversas e que a descrevem, de forma realista, como bela e maléfica. Unânime apreço merecem, também, as suas energia, ambição e inteligência, relevando-se a fortíssima determinação de carácter, que nunca lhe permitiu deixar em mãos alheias a realização dos seus objectivos. O que mostra, afinal, que a política no feminino, embora muito esquecida e até menosprezada, marcou bem a nossa História quando esta permitiu que fosse exercida!

O Condado Portucalense
Ignoram-se as condições em que o governo do Condado Portucalense foi entregue ao conde Henrique. Admite-se que fosse o dote de Teresa. Mas, dado que, na altura, o significado desta palavra não correspondia ao de hoje, a dúvida persiste. No entanto, acredito que essa dádiva suporia algum tipo de sujeição a conde Raimundo. Todavia, a ter existido, ela foi de curta duração... De facto, os seus domínios, após a derrota dos sarracenos perto de Lisboa, foram separados definitivamente da Galiza, para constituírem um território à parte, regido por Henrique. Admite-se que terá sido a incapacidade militar de Raimundo um dos motivos que aconselhou a sua substituição, na zona portuguesa, pelo primo, que era excelente guerreiro e estava em melhores condições de enfrentar a iminência de uma invasão almorávida.
Portugal, naquele tempo, era uma faixa de território estreita e pouco extensa, infestada de mouros por todos os lados, que tão depressa eram vencidos como eram vencedores. Foi a partir da governação do conde Henrique que o Condado começou a respirar mais livremente, pese embora a guerra fosse o estado normal da sua existência. Ao casá-lo com Teresa, Afonso VI não lhe entrega apenas o governo da província portucalense, mas também as propriedades regalengas, património do rei e da Coroa, que passam, assim, a constituir bens próprios e hereditários dos dois consortes. Claro que o conde ficava ligado a Afonso VI, seu suserano, pelos habituais actos de vassalagem, como a fidelidade e a ajuda sempre que necessárias, o que, aliás, nunca deixou de cumprir até à morte do sogro. Contudo, meio século irá bastar para que o Condado Portucalense, conduzido com inegável pendor autónomo pelos condes Henrique e dona Teresa, se venha a transformar num Reino independente.

A Vida de Casada
Ignora-se, como já referi, que idade teria Teresa à época do casamento. Os modernos historiadores têm-na por ainda menor, o que será verdadeiro, caso tenha nascido em 1081, como me parece mais admissível. Dos quatro filhos do casal, o varão, Afonso Henriques, tornar-se-á o primeiro rei de Portugal. Durante muito tempo, julgou-se que o nascimento deste último se teria dado em Guimarães, mas, nos nossos dias, já se admitem Coimbra e Viseu como alternativas possíveis. Sobre a data, aceita-se, agora, a de 25 de Julho de 1109». In Helena S. Cabral, As Nove Magníficas, 2008, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-330-1.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

As Nove Magníficas. Helena S. Cabral. «Já a Henrique irá ser dada a mão da lindíssima Teresa. Juntamente com ela, receberá o governo de várias terras entre o rio Minho e as margens do Tejo»

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Urraca, a Legítima
«(…) As contínuas pugnas entre mouros e cristãos ofereciam, assim, largo campo para glórias e ambições pessoais aos que procuravam a sorte na Península. Terá sido o caso destes dois familiares, que souberam mostrar-se bastante valorosos. Seja qual for a data da sua vinda, o certo é que o rei de Leão decide, por reconhecimento e gratidão, entregar a Raimundo a mão de Urraca, a filha legítima, que, à época, contava apenas oito anos e se encontrava debaixo da tutela do mestre, o presbítero Pedro. O casamento só virá a consumar-se quando ela atinge os treze anos. Como contrapartida, o sogro irá encarregar o genro do governo da Galiza e do território ao sul de Coimbra e Santarém, evitando deste modo que tão larga extensão de terra, longe da sua acção imediata, pudesse tornar-se independente.
Urraca irá provar que não é menos ambiciosa do que Teresa. Mas não tem, do meu ponto de vista, a sua subtileza e inteligência. O marido de Urraca falece em 1107. Afonso, filho de ambos, ainda menor, ficando sob tutela da viúva. Dois anos mais tarde, morre o rei de Leão e Castela, seu avô, que, por seu lado, deixa outro rebento, Sancho, tido com Zaida, a bela moura filha do rei de Sevilha. Além do afecto que, dizem, lhe dedicava, fortes pressões políticas fizeram com que seu pai o reconhecesse como herdeiro e lhe desse, de imediato, o principado de Toledo. O papa Gregório VII e boa parte da nobreza reagiram negativamente a esta decisão. Quis o destino que, em 1108, Sancho viesse a morrer na terrível batalha travada com os mouros em Uclés, pelo que o rei declarará Urraca, sua filha primogénita legítima, a única herdeira da Coroa. Mas, cauteloso, determina, também, que, no caso de ela contrair segundas núpcias, seja seu neto Afonso Raimundes a reinar na província da Galiza.
Dado que o filho de Urraca tem apenas três anos, a Corte começa a movimentar-se para casar a sua mãe com alguém que pudesse assegurar a defesa da pátria. A escolha recai em Afonso I de Aragão, conhecido como o Lidador. Todavia, Gregório VII não aprova o matrimónio, com base no facto de os esposos serem parentes próximos. Urraca vê-se, então, obrigada à separação. Como represália, o rei de Aragão irá empreender uma luta feroz contra os prelados que lhe foram adversos.

Teresa, a Bastarda
Já a Henrique irá ser dada a mão da lindíssima Teresa. Juntamente com ela, receberá o governo de várias terras entre o rio Minho e as margens do Tejo, que abrangiam os núcleos urbanos de Braga, Porto e Coimbra, onde se concentravam a aristocracia militar e a religiosa. Também se ignora em que data a união de ambos se terá realizado. Há quem aponte para1096, afirmando que a noiva andaria pelos vinte anos, como é o caso de Fonseca Benevides e de Manuel Dias Duarte. Do meu ponto de vista, esta seria uma idade já avançada, tendo em atenção não só a tradição como, sobretudo, aquela que tinha dona Urraca quando se casou. Logo, inclino-me mais para que fosse menor e nascida, como já disse, em 1081. Do casal nasceriam quatro filhos: dona Sancha, que se casou com o conde Fernão Mendes; dona Urraca, que se casou com o conde Bermudo Pérez Trava; dona Teresa, que se casou com Sancho Nunes Barbosa, e Afonso Henriques». In Helena S. Cabral, As Nove Magníficas, 2008, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-330-1.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

As Nove Magníficas. Helena S. Cabral. «A única filha legítima do rei de Leão com a rainha Constança é Urraca, nascida em 1080 e que, como se percebe, é meia-irmã de Tareja»

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A Autonomista
«(…) Nesta história familiar temos, por um lado, a legalidade do casamento com dona Constança e, por outro, a sua relação com Ximena, que é posta em causa por muitos historiadores e que leva a que esses autores considerem bastardas as duas filhas dela havidas, dona Teresa e dona Elvira. Não deixa, porém, de ser estranho que as filhas viessem, por esse facto, a ser destituídas da legitimidade que o casamento naturalmente lhes concedera, tanto mais que, segundo alguns historiadores, mesmo quando na época se usava a palavra amante ou concubina, o sentido do seu uso era diferente daquele que se lhe atribui nos nossos dias. Na verdade, naquele tempo, a expressão significava mulher que era recebida ou casada, perante a Igreja, só para dar sucessão, distinguindo-se da legítima por não ter a administração nem ser dona da casa.
Contudo, um dos cronistas mais referenciados, o anónimo de Sahagún, que terá vivido ou até convivido com dona Teresa quando esta residia naquela terra, de certo modo vem confirmar a bastardia, quando afirma: é de saber que el rey D. Afonso de noble memoria, mientras que ele viviese, de una manceba, pero bien noble, había tenido una hija llamada Teresa, la quai el había casado con un conde llamado Enrique, que vénia de sangre real de Francia. É conhecido que um dos fins mais frequentes para estas crianças era o de servirem para efectuar valiosas alianças matrimoniais. Porém, o tratamento dado a dona Tareja, condessa e mais tarde rainha, excede, de algum modo, a prática corrente na altura. Acresce ainda que ela é, frequentemente, chamada infanta num tempo em que os títulos eram pouco comuns entre filhas naturais... Não pretendo, como é evidente, tornar posição sobre esta matéria, que nem sequer aos olhos de hoje tem grande importância. Filhos são filhos, provenham ou não de uniões legalizadas... A infância de Teresa, da qual nada se sabe, não terá decerto sido muito diferente da que levavam as outras crianças que viviam na Corte.
Acredita-se que tenha sido criada por Gontrode Moniz, mulher de Soeiro Mendes da Maia (cognominado o Bom, e homem de confiança do conde Henrique), irmã de Ximena Nunes Gusmão Moniz e, portanto, sua tia. Assim sendo, não será de estranhar que Soeiro Mendes continue seu aio até à maioridade, mesmo depois de casada. Quem mais sai a ganhar desta confusão familiar que está na base da nossa existência é o ambicioso papa Gregório VII, que acaba por obter para o Reino de Leão a mudança de rito que a Corte de Roma há muito ambicionava e não conseguia. O nosso começo não foi, convenhamos, muito pacífico. Mas, na nossa História, a paz também não terá sido a situação mais frequente...

Urraca, a Legítima
A única filha legítima do rei de Leão com a rainha Constança é Urraca, nascida em 1080 e que, como se percebe, é meia-irmã de Tareja. O histórico da vida de ambas ter-se-á iniciado quando da chegada à Península Ibérica de dois cavaleiros franceses, o príncipe Raimundo e o príncipe Henrique. E é neste último que iremos encontrar esse pedaço de vida que fará de nós portugueses... Também quanto a esses dois homens, as dúvidas não são menores. Uns consideram-nos primos-irmãos. Outros, porém, julgam-nos vagamente aparentados, como é o caso do historiador José Mattoso. Raimundo é filho de Guilherme, conde da Borgonha. Terá vindo para o território que hoje é Espanha por volta de 1079, acompanhando sua tia a rainha Constança. Ou, noutra versão, surgiria em 1086, ocasião em que muitos franceses passavam os Pirenéus para combaterem na batalha de Zalaca, que ficou marcada pela vitória dos árabes almorávidas sobre Afonso VI. Henrique, por seu lado, é filho de Henrique de Borgonha e bisneto de Roberto, rei de França, que ficou conhecido como o Devoto. Terá também vindo por Espanha tentar fortuna e prestar serviços à monarquia leonesa». In Helena S. Cabral, As Nove Magníficas, 2008, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-330-1.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Origens no 31. As Nove Magníficas. Helena S. Cabral. «Apesar de algumas visões negativas, transmitidas sobretudo pelas crónicas escritas em defesa do filho, Afonso Henriques, e da criação do Reino de Portugal…»

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A Autonomista
«Tareja ou Tarásia, como também na época era chamada, foi, do meu ponto de vista, uma das mais curiosas personalidades da História de Portugal. Quebrou com a tradição de poder que prevalecia até então e que o colocava apenas nas mãos dos homens, relegando para as mulheres o papel de rainha consorte e mãe de herdeiros varões. Ao contrário, Teresa foi mãe, mas não deixou de exercer o poder que entendeu lhe devia competir. Foi com astúcia, determinação, inteligência e orgulho que defendeu a autonomia das terras portuguesas durante dezasseis anos. Com efeito, e por muito que isto possa escandalizar os historiadores, quanto mais leio sobre o nascimento da nação, mais me convenço de que ele só foi possível devido ao projecto autonómico conjunto do conde Henrique e de sua mulher. E entendo dever sobressair o papel desta última, que, ao sobreviver ao marido, continuou a sua obra quer no plano estratégico, quer no plano territorial. Será a busca da emancipação e da liberdade, conduzida por dona Teresa, que irá permitir a Afonso Henriques passar ao estádio seguinte e transformar a autonomia em independência.
Apesar de algumas visões negativas, transmitidas sobretudo pelas crónicas escritas em defesa do filho, Afonso Henriques, e da criação do Reino de Portugal, a maioria dos historiadores é unânime na sua admiração pela actuação da condessa. Ela é, aliás, e para azar nosso, uma das personagens menos estudadas da História de Portugal, o que, creio, se deverá ao facto de se tratar de um tempo em que a documentação é escassa e a que existe se torna, a muitos títulos, contraditória. Admite-se que tenha nascido por volta de1075, embora haja quem alegue que tal possa ter acontecido cerca de 1071, como é o caso de Fonseca Benevides. Porém, os autores mais recentes defendem o ano de 1081. Opto pela última data por me parecer a mais conforme com acontecimentos posteriores, nomeadamente o seu casamento. Ignora-se, igualmente, o local em que terá vindo ao mundo. A alvorada da nossa nação está envolta em mistério e, desculpem-me a expressão, numa enorme confusão. Os seus pais foram Afonso VI de Castela e a asturiana Ximena Nunes Gusmão Moniz, uma mui nobre senhora por quem o rei se apaixonou. Há quem argumente que, nessa altura, o rei já estaria viúvo. Porém, outros autores acreditam na versão de que dona Constança Borgonha estaria doente, mas ainda viva. E, se me permitem, inclino-me mais para a última hipótese.
A segunda mulher de Afonso VI, consta que terá tido cinco ou seis, foi dona Constança, e com ela começa o enredo político, religioso e sentimental que marca o início da nossa existência como país. Onde, aliás, figuram, além do casal, outras personagens, entre as quais se destacam o papa, o legado romano cardeal Ricardo, um falso frade de nome Roberto e, finalmente, os monges cluniacenses e os beneditinos de Sahagún. O papa Gregório VII terá escrito uma carta de protesto a Afonso VI na qual lhe exige que se separe da mulher incestuosa, e há quem defenda que se referia a Ximena, mãe de Teresa. Com efeito, naMemórla de São Luís pode ler-se: Afonso VI foi obrigado a separar-se de dona Ximena, mãe de dona Elvira e de dona Teresa, por uma bula do papa São Gregório VII, que vem nos Anais de Baronio do ano 1080 e em Sandoval e em Aguirre. E diz o papa que o matrimónio era nulo por se haver contraído sem dispensa do parentesco que havia entre a actual e a precedente mulher de Afonso. No entanto, a maioria dos historiadores garante que a cólera do pontífice se destinava a Constança, que era parente em quarto grau da primeira mulher do rei, de seu nome Inês de Aquitânia». In Helena S. Cabral, As Nove Magníficas, 2008, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-330-1.

Cortesia de CdoAutor/JDACT