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quinta-feira, 16 de março de 2023

Contos Escolhidos. Guy Maupassant. «A Rosa meteu-se no assunto e, debruçando-se por sobre as pernas do seu vizinho, beijou os três animais no nariz. E logo todas as mulheres os quiseram beijar também…»

jdact

A casa Tellier

«(…) A Rafaela, com um penteado emplumado a fingir um ninho cheio de passarinhos, usava um vestido lilás, semeado de lantejoulas de ouro, uma coisa como que oriental que calhava bem com a sua cara de judia. A Rosa Pileca, de saia cor-de-rosa com amplos folhos, tinha o aspecto de uma menininha excessivamente gorda, de uma anã obesa; e as duas Chancas pareciam ter escolhido de propósito uns adornos estranhos por entre velhas cortinas de janela, as velhas cortinas com ramagens do tempo da Restauração. Mal deixaram de estar sozinhas no compartimento, as senhoras assumiram um comportamento sério, e puseram-se a falar de coisas elevadas para criarem boa opinião a seu respeito. Mas em Bolbec apareceu um sujeito de suíças loiras, com anéis e uma corrente de ouro, que arrumou na rede por cima da sua cabeça vários pacotes embrulhados em oleado. Tinha um ar trocista e de boa pessoa. Cumprimentou, sorriu e perguntou com todo o à-vontade: Estas senhoras vão mudar de quartel? A pergunta lançou no grupo uma confusão embaraçada. Por fim a Madame recuperou a presença de espírito e respondeu secamente, para vingar a honra do pelotão: O senhor podia ser mais bem educado! Ele desculpou-se: Perdão, eu queria dizer de convento. A Madame, como não encontrou nada para responder, ou talvez por achar a rectificação suficiente, fez um cumprimento digno franzindo os lábios.

Então o senhor, que estava sentado entre a Rosa Pileca e o velho camponês, pôs-se a piscar o olho aos três patos cujas cabeças espreitavam do grande cesto; e depois, quando sentiu que o seu público já estava cativado, começou a fazer festas aos animais debaixo do bico, dirigindo-lhes frases engraçadas para alegrar a companhia: Com que então deixámos o nosso charco!, quáquá!, quáquá!, quáquá!, para conhecermos o belo espeto, não é?, quáquá!, quáquá!, quáquá! Os infelizes animais reviravam o pescoço para evitar os seus afagos, faziam terríveis esforços para saírem da sua prisão de vime; e depois, de repente, os três em conjunto, soltaram um lamentoso grito de aflição: Quáquá! quáquá! quáquá! Houve então uma explosão de gargalhadas entre as mulheres. Elas debruçavam-se, empurravam-se umas às outras para espreitar; estavam loucamente interessadas nos patos; e o senhor redobrava de graciosidade, de espírito e de carícias.

A Rosa meteu-se no assunto e, debruçando-se por sobre as pernas do seu vizinho, beijou os três animais no nariz. E logo todas as mulheres os quiseram beijar também; e o senhor sentava as senhoras nos seus joelhos, fazia-as dar saltos, beliscava-as; não tardou e estava a tratá-las por tu». In Guy Maupassant, Contos Escolhidos, 1885, Edições don Quixote, Grupo Leya, 2011, ISBN 978-972-204-682-4.

Cortesia de EdonQuixote/JDACT

JDACT, Guy Maupassant, Contos, Século XIX, Escrita,  

quarta-feira, 15 de março de 2023

Contos Escolhidos. Guy Maupassant. «Com efeito, a carruagem era um deslumbramento de cores brilhantes. A Madame, toda de azul, de seda azul dos pés à cabeça, trazia por cima um xaile de falsa casimira francesa, vermelho…»

jdact

A casa Tellier

«(…) Acontecia que a Madame tinha um irmão estabelecido como marceneiro na sua terra natal, Virville, no Eure. No tempo em que a Madame era ainda estalajadeira em Yvetot fora ela que levara à pia baptismal a filha daquele irmão, a que deu o nome de Constance, Constance Rivet, pois ela própria era Rivet pelo lado do pai. O marceneiro, que sabia que a irmã estava numa boa situação, não a perdia de vista, embora não se encontrassem muitas vezes, ambos retidos que estavam pelas respectivas ocupações e, além disso, por viverem longe um do outro. Mas, como a menina ia completar doze anos e nesse ano fazia a sua primeira comunhão, ele aproveitou a oportunidade para promover uma aproximação, e escreveu à irmã que contava com ela para a cerimónia. Os velhos pais tinham morrido e ela não podia recusar aquilo à afilhada: aceitou. O irmão, que se chamava Joseph, esperava que, valendo-se destas atenções, talvez conseguisse um testamento a favor da pequena, já que a Madame não tinha filhos.

A profissão da irmã não bulia de modo algum com os seus escrúpulos e, aliás, ninguém lá da terra sabia de nada. Ao falar dela dizia-se apenas: A senhora Tellier é uma burguesa de Fécamp, o que dava a entender que estava em condições de viver dos rendimentos. De Fécamp até Virville distavam pelo menos vinte léguas; e vinte léguas de terra são, para camponeses, mais difíceis de percorrer que o Oceano para um civilizado. O povo de Virville nunca tinha ido além de Ruão; e nada atraía as gentes de Fécamp a uma aldeola de quinhentos fogos, perdida no meio das planícies e que pertencia a outro departamento. Enfim, não se sabia de nada.

Mas, ao aproximar-se a época da comunhão, a Madame sentiu um grande embaraço. Não tinha nenhuma patroa substituta e não lhe agradava nada deixar a casa, mesmo por um dia. Todas as rivalidades entre as damas lá de cima e as lá de baixo iriam infalivelmente estalar; além disso, o Frédéric havia de embebedar-se de certeza, e quando estava bêbado importunava as pessoas por tudo e por nada. Acabou por se decidir a levar consigo toda a sua gente, excepto o criado, a quem deu férias até dali a dois dias.

Consultado o irmão, este não levantou qualquer objecção, e encarregou-se de arranjar alojamento para todo o grupo por uma noite. E assim, no sábado de manhã, o comboio expresso das oito transportava a Madame e as suas companheiras numa carruagem de segunda classe.

Até Beuzeville foram sozinhas e palraram como pegas. Mas nessa estação entrou um casal. O homem, um velho camponês que envergava uma bata azul com gola plissada, mangas largas apertadas nos pulsos e adornadas de um bordadinho branco, de cabeça coberta por um antiquado chapéu alto cujo pêlo ruço parecia eriçado, trazia numa das mãos um imenso chapéu-de-chuva verde, e na outra um grande cesto donde espreitavam as cabeças assustadas de três patos. A mulher, hirta na sua roupagem rústica, tinha cara de galinha, com um nariz afilado como um bico. Sentou-se de frente para o seu homem e deixou-se ficar sem se mexer, impressionada por se encontrar rodeada de uma tão bela companhia.

Com efeito, a carruagem era um deslumbramento de cores brilhantes. A Madame, toda de azul, de seda azul dos pés à cabeça, trazia por cima um xaile de falsa casimira francesa, vermelho, ofuscante, fulgurante. A Fernanda ofegava num vestido escocês cujo corpete, atado com todas as forças das companheiras, lhe soerguia o peito em riscos de se desmoronar numa dupla cúpula sempre agitada que parecia líquida debaixo do tecido». In Guy Maupassant, Contos Escolhidos, 1885, Edições don Quixote, Grupo Leya, 2011, ISBN 978-972-204-682-4.

Cortesia de EdonQuixote/JDACT

JDACT, Guy Maupassant, Contos, Século XIX, Escrita,

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Guy Maupassant. Contos. «Eram boas pessoas, que desde logo conquistaram a estima do pessoal e dos vizinhos. O Senhor morreu de uma congestão passados dois anos»

jdact e cortesia de wikipedia

A Casa Tellier

«Iam lá todas as noites, por volta das onze, simplesmente como quem vai ao café. Eram seis ou oito os que ali se encontravam, sempre os mesmos, não uns pândegos quaisquer, mas homens respeitáveis, comerciantes e gente nova da cidade; e tomavam o seu licor fazendo algumas brincadeiras travessas às raparigas, ou então conversavam gravemente com a Madame, que toda a gente respeitava. E depois saíam para se irem deitar antes da meia-noite. Às vezes os jovens ficavam. Era uma casa de família, pequenina, pintada de amarelo, na esquina de uma rua por trás da igreja de Santo Estêvão; e das janelas avistava-se a doca cheia de navios a descarregar, o grande brejo salgado a que chamavam A Retenção e, lá atrás, a costa da Virgem com a sua velha capela enegrecida. A Madame, oriunda de uma boa família de camponeses do departamento do Eure, aceitara aquela profissão exactamente como poderia ter sido modista ou fanqueira. O preconceito desonroso ligado à prostituição, tão violento e vivaz nas cidades, não existe nas terras de província normandas. O camponês diz: é um bom ofício; e destina ao filho a gestão de um harém de raparigas do mesmo modo que lhe daria a gerir um internato de meninas. De resto, aquela casa viera por herança de um velho tio seu proprietário. O Senhor e a Madame, em tempos estalajadeiros nos arredores de Yvetot, haviam imediatamente liquidado o seu negócio, por considerarem que o de Fécamp lhes seria mais vantajoso; e tinham chegado um belo dia para assumir a direcção da empresa que estava periclitando na ausência dos patrões.

Eram boas pessoas, que desde logo conquistaram a estima do pessoal e dos vizinhos. O Senhor morreu de uma congestão passados dois anos. Como a sua nova profissão lhe proporcionava uma vida de indolência e imobilidade, engordara muito e a saúde liquidara-o. A Madame, depois de enviuvar, era desejada em vão por todos os frequentadores habituais do estabelecimento; mas tinha a fama de ser absolutamente honesta, e nem sequer as suas pensionistas haviam descoberto fosse o que fosse. Era alta, cheia de carnes, elegante. A pele, empalidecida na obscuridade daquela casa sempre fechada, brilhava como que untada por um verniz gorduroso. Rodeava-lhe a testa um esguio enfeite de cabelos travessos, o que lhe dava um aspecto juvenil que destoava da maturidade das suas formas. Invariavelmente alegre e de expressão franca, era dada a gracejos, com uma tonalidade comedida que as suas novas ocupações ainda não lhe tinham feito perder. As palavras feias chocavam-na sempre um pouco; e, quando um rapaz mal educado chamava pelo nome próprio o estabelecimento que dirigia, zangava-se, revoltada. Tinha, enfim, uma alma delicada e, embora tratasse as suas mulheres como amigas, não se cansava de repetir que não era da mesma laia.

Às vezes, durante a semana, saía num carro de aluguer com uma parte do seu grupo; e iam folgar na relva à beira de um regato que corre nas terras de Valmont. Havia então pensionistas que desapareciam fugidas, correrias loucas, brincadeiras infantis, toda uma alegria de reclusas inebriadas pelo ar livre. Comiam enchidos deitadas na relva bebendo cidra, e voltavam ao entardecer com um delicioso cansaço, com uma doce comoção; e no carro beijavam a Madame que era tão boa mãe, cheia de mansidão e complacência. A casa tinha duas entradas. Na esquina da rua havia uma espécie de café de ruim aparência, que abria à noite para a gente do povo e para os marinheiros. Duas das pessoas encarregadas do comércio específico do local eram particularmente destinadas às necessidades daquela parte da clientela. Com a ajuda do criado, chamado Frédéric, um loirinho imberbe e forte como um boi, serviam os quartilhos de vinho e as litradas nas mesas desengonçadas de mármore, e, com os braços à roda do pescoço dos bebedores, sentadas de viés nas pernas deles, encorajavam-nos a consumir.

As três outras damas (elas eram ao todo cinco) formavam uma espécie de aristocracia, e permaneciam reservadas ao grupo do primeiro andar, a não ser quando precisavam delas lá em baixo e o andar de cima estava vazio. O salão de Júpiter, onde se reuniam os burgueses do lugar, era forrado a papel azul e enfeitado com um grande desenho que representava Leda estendida debaixo de um cisne. Chegava-se até lá através de uma escada de caracol que terminava numa porta estreita, de aparência humilde, que dava para a rua, e por cima da qual brilhava toda a noite, atrás de uma grade, uma pequena lanterna daquelas que se acendem ainda em certas cidades aos pés das Nossas Senhoras encastradas nas paredes.

O prédio, húmido e velho, cheirava ligeiramente a mofo. De vez em quando perpassava pelos corredores um hálito de água de-colónia, ou então uma porta entreaberta lá em baixo fazia ressoar por toda a casa, como a explosão de uma trovoada, os gritos popularunchos dos homens das mesas do rés-do-chão, e provocava nas caras dos senhores do primeiro andar um esgar de inquietação e repugnância. A Madame, íntima dos seus amigos clientes, não saía da sala, e interessava-se pelos boatos que corriam na cidade e que através deles lhe chegavam. A sua conversa séria contrastava com as frases incoerentes das três mulheres; ela era como que uma pausa na jovialidade brejeira dos senhores barrigudos que todas as noites se entregavam àquele honesto e medíocre deboche de beberem um cálice de licor na companhia de mulheres públicas. As três damas do primeiro andar chamavam-se Fernanda, Rafaela e Rosa Pileca. Como o pessoal era pouco, tinha-se procurado que cada uma delas fosse uma espécie de amostra, de um resumo do tipo feminino, para que todos os consumidores pudessem encontrar ali, ao menos aproximadamente, a realização do seu ideal». In Guy Maupassant, Contos Escolhidos, 1885, Editora Dom Quixote, 2011, ISBN 978-972-204-682-4.

Cortesia de EdomQuixote/JDACT

JDACT, Guy Maupassant, Literatura, França, Século XIX,

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Contos Escolhidos. Guy Maupassant. «Apressou-se a acender um fósforo e leu estas palavras traçadas numa letra grande e desigual: “Fechado por motivo de primeira comunhão”»

jdact
A casa Tellier
«(…) Encontraram então o senhor Dupuis, agente de seguros, e depois o senhor Vasse, juiz do tribunal do comércio; e assim principiou um longo passeio que começou por levá-los até ao molhe. Sentaram-se alinhados no parapeito de granito e ficaram-se a contemplar a ondulação. A espuma na crista das ondas criava na sombra umas brancuras luminosas que se extinguiam logo mal apareciam, e o ruído monótono do mar quebrando-se contra as rochas prolongava-se na noite ao longo de toda a falésia. Já os tristes viandantes estavam ali há algum tempo quando o senhor Tournevau declarou: é triste. Lá isso é, continuou o senhor Pimpesse; e lá se foram em passinhos miúdos.
Percorrida a rua que segue pela base da falésia e a que chamam Debaixo da Mata, voltaram pela ponte de pranchas para a Retenção, passaram junto da linha férrea e foram desembocar de novo na praça do Mercado, onde de repente começou uma discussão entre o recebedor dos impostos, o senhor Pimpesse, e o negociante de sal, o senhor Tournevau, a propósito de um cogumelo comestível que um deles afirmava ter encontrado ali perto. Os espíritos estavam azedados pelo tédio, e teriam certamente chegado a vias de facto se os outros não se tivessem interposto. O senhor Pimpesse, furioso, retirou-se; e logo estalou nova altercação entre o antigo presidente da Câmara, o senhor Poulin, e o agente de seguros, o senhor Dupuis, acerca dos vencimentos do recebedor dos impostos e dos benefícios que podia obter. As afirmações injuriosas choviam de ambos os lados, quando estoirou uma tempestade de gritos formidáveis, e o bando dos marinheiros, cansados de esperar em vão diante de uma casa fechada, entrou na praça. Vinham agarrados uns aos outros pelos braços, dois a dois, formando uma longa procissão, e vociferavam furiosamente. O grupo dos burgueses escondeu-se debaixo de um portal, e a horda aos uivos desapareceu na direcção da abadia. Ainda durante muito tempo se ficou ouvindo o clamor que diminuía como um temporal que se afasta; e voltou o silêncio.
O senhor Poulin e o senhor Dupuis, irritados um com o outro, foram-se embora, cada um para o seu lado, sem se cumprimentarem. Os outros quatro continuaram a andar e tornaram a descer instintivamente na direcção do estabelecimento Tellier. Continuava fechado, mudo, impenetrável. Um bêbado, tranquilo e obstinado, dava pancadinhas na frontaria do café, e depois interrompia-se para chamar a meia-voz pelo criado Frédéric. Vendo que não lhe respondiam, decidiu sentar-se no degrau da porta e aguardar os acontecimentos.
Os burgueses iam retirar-se quando o bando tumultuoso dos homens do porto reapareceu ao fim da rua. Os marinheiros franceses berravam A Marselhesa, os ingleses o Rule Britannia. Todos arremeteram contra as paredes, e depois a vaga de brutamontes retomou o seu percurso para o cais, onde estalou uma batalha entre os marítimos das duas nações. Durante a briga, um inglês ficou com um braço partido e um francês com o nariz rachado. O bêbado, que tinha ficado diante da porta, chorava agora como choram os bêbados ou as crianças contrariadas. Por fim, os burgueses dispersaram.
A pouco e pouco a calma regressou à cidade perturbada. De praça em praça ainda de vez em quando se erguia um ruído de vozes que depois se extinguia ao longe. Apenas um homem continuava a deambular, o senhor Tournevau, o negociante de sal, desolado por ter de esperar até ao sábado seguinte; estava à espera de um acaso qualquer, porque não compreendia aquilo, exasperado por a polícia deixar fechar assim um estabelecimento de utilidade pública que lhe cabe vigiar e ter à sua guarda.
Voltou lá, colado às paredes, em busca de uma razão; e descobriu que havia um letreiro colado na frontaria. Apressou-se a acender um fósforo e leu estas palavras traçadas numa letra grande e desigual: Fechado por motivo de primeira comunhão. Então afastou-se, percebendo assim que era assunto arrumado. O bêbado estava agora a dormir, estendido ao comprido e atravessado na porta pouco hospitaleira. E no dia seguinte todos os clientes habituais, um após outro, acharam maneira de passar na rua com papéis debaixo do braço por uma questão de aparência; e, numa olhadela furtiva, todos liam o misterioso aviso: Fechado por motivo de primeira comunhão». In Guy Maupassant, Contos Escolhidos, 1885, Edições don Quixote, Grupo Leya, 2011, ISBN 978-972-204-682-4.

Cortesia de EdonQuixote/JDACT

domingo, 30 de abril de 2017

Contos Escolhidos. Guy Maupassant. «Enfim, a casa Tellier era um refúgio, e raramente alguém faltava ao encontro quotidiano. Ora aconteceu que uma noite…»

jdact
A casa Tellier
«(…) As três damas do primeiro andar chamavam-se Fernanda, Rafaela e Rosa Pileca. Como o pessoal era pouco, tinha-se procurado que cada uma delas fosse uma espécie de amostra, de um resumo do tipo feminino, para que todos os consumidores pudessem encontrar ali, ao menos aproximadamente, a realização do seu ideal. A Fernanda representava a loiraça, muito alta, quase obesa, mole, rapariga do campo cujas sardas se recusavam a desaparecer, e cujo cabelo amarelo-desbotado, encurtado, claro e sem cor, que parecia cânhamo penteado, mal lhe cobria o crânio. A Rafaela, uma marselhesa, prostituta dos portos de mar, representava o papel indispensável da bela judia, magra, com as maçãs do rosto cobertas de vermelhão. Os cabelos pretos, postos a brilhar com medula de boi, encaracolavam-se-lhe nas têmporas. Os olhos teriam sido bonitos se o direito não tivesse a marca de uma catarata. O nariz arqueado descaía sobre uma queixada proeminente, onde dois dentes novos, de cima, contrastavam com os de baixo, que, com o tempo, tinham tomado uma coloração escura como a das madeiras antigas. A Rosa Pileca, uma bolinha de carne toda ela barriga com umas pernas minúsculas, cantava de manhã até à noite, numa voz rouca, umas cantigas ora licenciosas ora sentimentais, contava histórias intermináveis e insignificantes, só parava de falar para comer e de comer para falar, e andava sempre de um lado para o outro, ágil como um esquilo apesar da gordura e da exiguidade das patas; e o seu riso, uma cascata de gritos agudos, estalava constantemente, por aqui e por ali, num quarto, no sótão, no café, por toda a parte, a propósito de tudo e de nada.
As duas mulheres do rés-do-chão, a Luísa, apelidada de Cocote, e a Flora, chamada Baloiço por coxear um bocado, uma sempre vestida de Liberdade com uma faixa tricolor à cintura, e a outra de espanhola de fantasia com cequins de cobre que lhe dançavam no cabelo cor de cenoura a cada um dos seus passos desiguais, dir-se-iam serventes de cozinha mascaradas para um carnaval. Semelhantes a todas as mulheres do povo, nem mais feias nem mais bonitas, verdadeiras criadas de estalagem, eram designadas no porto pela alcunha de as duas Chancas.
Reinava entre estas cinco mulheres uma paz ciumenta, mas raramente perturbada, graças à sabedoria conciliadora da Madame e ao seu inesgotável bom humor. O estabelecimento, único naquela pequena cidade, era muito frequentado. A Madame soubera infundir-lhe uma apropriada elegância: mostrava-se tão amável, tão obsequiosa para com toda a gente, e o seu bom coração era tão bem conhecido que era rodeada de uma espécie de consideração. Os frequentadores habituais eram capazes de fazer tudo por ela e sentiam-se triunfantes quando ela lhes demonstrava uma amizade mais evidente; e quando durante o dia se encontravam nos seus locais de trabalho diziam uns para os outros: até logo à noite, onde a gente sabe, como quem diz: no café, não é verdade? Depois do jantar.
Enfim, a casa Tellier era um refúgio, e raramente alguém faltava ao encontro quotidiano. Ora aconteceu que uma noite, em fins de Maio, o primeiro a chegar, o senhor Poulin, negociante de madeiras e antigo presidente da Câmara, deparou com a porta fechada. O lanternim, atrás da sua grade, não brilhava e não saía qualquer ruído da casa, que parecia morta. Bateu à porta, primeiro devagarinho e depois com mais força, mas não respondeu ninguém. Tornou então a subir a rua em passinhos curtos e, ao chegar à praça do Mercado, encontrou o senhor Duvert, o armador, que se dirigia para o mesmo lugar. Voltaram lá juntos sem melhor êxito. Mas um grande barulho estalou de repente muito perto deles, e, dando a volta à casa, viram um ajuntamento de marinheiros ingleses e franceses que davam murros nas portadas fechadas do café.
Os dois burgueses puseram-se imediatamente em fuga para não se verem comprometidos; mas foram detidos por um leve pssst: era o senhor Tournevau, o da salga de peixe, que, tendo-os reconhecido, estava a chamá-los. Contaram-lhe o que se passava, o que ainda mais o afectou a ele, que, casado, pai de família e muito vigiado, só lá ia aos sábados securitatis causa, dizia ele, aludindo assim a uma medida de polícia sanitária cujas periódicas sequências o doutor Borde, seu amigo, lhe havia revelado. Aquela era justamente a noite dele, e ia assim ficar privado uma semana inteira.
Os três homens deram uma grande volta até ao cais, e encontraram no caminho o jovem senhor Philippe, filho do banqueiro, um frequentador habitual, e o senhor Pimpesse, recebedor dos impostos. Regressaram então todos juntos pela rua dos Judeus para fazerem uma última tentativa. Mas os marinheiros exasperados cercavam a casa, atiravam pedras, berravam; e os cinco clientes do primeiro andar, arrepiando caminho o mais depressa possível, puseram-se a vaguear pelas ruas». In Guy Maupassant, Contos Escolhidos, 1885, Edições don Quixote, Grupo Leya, 2011, ISBN 978-972-204-682-4.
Cortesia de EdonQuixote/JDACT

Contos Escolhidos. Guy Maupassant. «O salão de Júpiter, onde se reuniam os burgueses do lugar, era forrado a papel azul e enfeitado com um grande desenho que representava Leda…»

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A casa Tellier
«Iam lá todas as noites, por volta das onze, simplesmente como quem vai ao café. Eram seis ou oito os que ali se encontravam, sempre os mesmos, não uns pândegos quaisquer, mas homens respeitáveis, comerciantes e gente nova da cidade; e tomavam o seu licor fazendo algumas brincadeiras travessas às raparigas, ou então conversavam gravemente com a Madame, que toda a gente respeitava. E depois saíam para se irem deitar antes da meia-noite. Às vezes os jovens ficavam. Era uma casa de família, pequenina, pintada de amarelo, na esquina de uma rua por trás da igreja de Santo Estêvão; e das janelas avistava-se a doca cheia de navios a descarregar, o grande brejo salgado a que chamavam A Retenção e, lá atrás, a costa da Virgem com a sua velha capela enegrecida.
A Madame, oriunda de uma boa família de camponeses do departamento do Eure, aceitara aquela profissão exactamente como poderia ter sido modista ou fanqueira. O preconceito desonroso ligado à prostituição, tão violento e vivaz nas cidades, não existe nas terras de província normandas. O camponês diz: é um bom ofício; e destina ao filho a gestão de um harém de raparigas do mesmo modo que lhe daria a gerir um internato de meninas. De resto, aquela casa viera por herança de um velho tio seu proprietário. O Senhor e a Madame, em tempos estalajadeiros nos arredores de Yvetot, haviam imediatamente liquidado o seu negócio, por considerarem que o de Fécamp lhes seria mais vantajoso; e tinham chegado um belo dia para assumir a direcção da empresa que estava periclitando na ausência dos patrões.
Eram boas pessoas, que desde logo conquistaram a estima do pessoal e dos vizinhos. O Senhor morreu de uma congestão passados dois anos. Como a sua nova profissão lhe proporcionava uma vida de indolência e imobilidade, engordara muito e a saúde liquidara-o. A Madame, depois de enviuvar, era desejada em vão por todos os frequentadores habituais do estabelecimento; mas tinha a fama de ser absolutamente honesta, e nem sequer as suas pensionistas haviam descoberto fosse o que fosse.
Era alta, cheia de carnes, elegante. A pele, empalidecida na obscuridade daquela casa sempre fechada, brilhava como que untada por um verniz gorduroso. Rodeava-lhe a testa um esguio enfeite de cabelos travessos, o que lhe dava um aspecto juvenil que destoava da maturidade das suas formas. Invariavelmente alegre e de expressão franca, era dada a gracejos, com uma tonalidade comedida que as suas novas ocupações ainda não lhe tinham feito perder. As palavras feias chocavam-na sempre um pouco; e, quando um rapaz mal educado chamava pelo nome próprio o estabelecimento que dirigia, zangava-se, revoltada. Tinha, enfim, uma alma delicada e, embora tratasse as suas mulheres como amigas, não se cansava de repetir que não era da mesma laia.
Às vezes, durante a semana, saía num carro de aluguer com uma parte do seu grupo; e iam folgar na relva à beira de um regato que corre nas terras de Valmont. Havia então pensionistas que desapareciam fugidas, correrias loucas, brincadeiras infantis, toda uma alegria de reclusas inebriadas pelo ar livre. Comiam enchidos deitadas na relva bebendo cidra, e voltavam ao entardecer com um delicioso cansaço, com uma doce comoção; e no carro beijavam a Madame que era tão boa mãe, cheia de mansidão e complacência.
A casa tinha duas entradas. Na esquina da rua havia uma espécie de café de ruim aparência, que abria à noite para a gente do povo e para os marinheiros. Duas das pessoas encarregadas do comércio específico do local eram particularmente destinadas às necessidades daquela parte da clientela. Com a ajuda do criado, chamado Frédéric, um loirinho imberbe e forte como um boi, serviam os quartilhos de vinho e as litradas nas mesas desengonçadas de mármore, e, com os braços à roda do pescoço dos bebedores, sentadas de viés nas pernas deles, encorajavam-nos a consumir. As três outras damas (elas eram ao todo cinco) formavam uma espécie de aristocracia, e permaneciam reservadas ao grupo do primeiro andar, a não ser quando precisavam delas lá em baixo e o andar de cima estava vazio.
O salão de Júpiter, onde se reuniam os burgueses do lugar, era forrado a papel azul e enfeitado com um grande desenho que representava Leda estendida debaixo de um cisne. Chegava-se até lá através de uma escada de caracol que terminava numa porta estreita, de aparência humilde, que dava para a rua, e por cima da qual brilhava toda a noite, atrás de uma grade, uma pequena lanterna daquelas que se acendem ainda em certas cidades aos pés das Nossas Senhoras encastradas nas paredes. O prédio, húmido e velho, cheirava ligeiramente a mofo.
De vez em quando perpassava pelos corredores um hálito de água-de-colónia, ou então uma porta entreaberta lá em baixo fazia ressoar por toda a casa, como a explosão de uma trovoada, os gritos popularunchos dos homens das mesas do rés-do-chão, e provocava nas caras dos senhores do primeiro andar um esgar de inquietação e repugnância. A Madame, íntima dos seus amigos clientes, não saía da sala, e interessava-se pelos boatos que corriam na cidade e que através deles lhe chegavam. A sua conversa séria contrastava com as frases incoerentes das três mulheres; ela era como que uma pausa na jovialidade brejeira dos senhores barrigudos que todas as noites se entregavam àquele honesto e medíocre deboche de beberem um cálice de licor na companhia de mulheres públicas». In Guy Maupassant, Contos Escolhidos, 1885, Edições don Quixote, Grupo Leya, 2011, ISBN 978-972-204-682-4.
Cortesia de EdonQuixote/JDACT