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terça-feira, 19 de julho de 2011

A. H. Oliveira Marques: Uma Descrição de Portugal em 1578-80. «Os homens são de mediana estatura, mais sobre o pequeno do que sobre o alto, mais sobre o moreno do que sobre o louro, de aspecto triste, ao que ajuda ainda o facto de, sendo por lei proibido vestirem panos de seda (reinados de D. João III e D. Sebastião), envergarem trajes de baeta e de outros tecidos semelhantes que não causam bom aspecto, tanto mais que usam sempre o chapéu com os borzeguins»


Cortesia de wikipedia

Retrato de Reino de Portugal.
«De facto, voltando a cara para ocidente, tem à direita a Galiza, a Biscaia, a França, a Inglaterra, a Flandres e a Alemanha e os outros países setentrionais; em frente tem a Ilhas, com as Índias Ocidentais, à esquerda, a Andaluzia, o estreito de Gibraltar por onde se entra nas navegações itálicas e gregas; e, deixando o estreito e seguindo à esquerda, a África onde, como se sabe, se encontram tantos países e tantos povos novos, desconhecidos dos Antigos, que eram de opinião que a zona tórrida se achava desabitada. Dos quais lugares todos em redor vêm a Lisboa, em pouco tempo, navios com infinitas riquezas. Isto sem falar do comércio com os reinos de Castela que lhe ficam contíguos, nas costas. De todas as cidades, Lisboa, Évora e Coimbra (estas duas são no interior) e o Porto, que tem o rio Douro, são as melhores, existindo em Coimbra um estudo público com afamados lentes (esquece a Universidade de Évora, fundada em 1559). Falando porém de Lisboa, que é a principal cidade do Reino e muito povoada, julgando muitos que, tirando Paris, é aquela que, na Cristandade, tem maior população (Lisboa, nos finais do século XVI, aproximava-se dos 100000 habitantes.

Cortesia de wikipedia

Embora a autor exagere, é provável que, acima dela, só então estivessem na Europa, Paris, Nápoles e Veneza), tem um clima muito doce e temperado, embora não esteja mais distante do equador do que 39º pelo que parece se deveriam sentir os raios do Sol. Contudo, por estar situada na margem de um tão grande rio que, com o crescer e o baixar das águas, traz sempre consigo uma brisa ligeira, tira daí sobretudo a causa dessa temperança.
O sítio é belo e irregular, nem todo plano, nem todo acidentado, ornado de muitos templos devotos e ricos, alguns deles de razoável beleza, onde se efectuam serviços divinos com grande solenidade. Há muitas residências de particulares belas e cómodas. As saídas da cidade são agradáveis, por que algumas gozam a vista do rio e da terra juntamente e outras a da terra somente.
Não é muito copiosa em belos jardins, nem dentro nem ao redor, mas começam agora a fazê-los (informação importante para a história dos espaços verdes em Portugal). Tem um castelo no local mais alto da cidade, mais forte pela disposição do sítio do que por artifício e que por isso não se guarda, servindo apenas para habitação do governador da cidade e para prisão de gente importante. Fora da cidade, como também dentro, há muitos mosteiros de frades e de monjas, entre os quais, ao longo do rio na direcção da foz. Distante da cidade uma légua, está o dos frades jerónimos, grande e muito belo, da invocação de Nossa Senhora de Belém, onde se encontram as sepulturas dos reis (o mosteiro dos Jerónimos distava de Lisboa uns 5 km em linha recta. Nele estavam já sepultados D. Manuel I e D. João III com as suas consortes. O corpo de D. Sebastião só aí foi tumulado em 1582).

Cortesia de wikipedia

Pouco distante dai, no mesmo rio, existe uma torre bastante formosa à vista e com grande quantidade de artilharia (torre de Belém, construída em 1515-21), a qual impede que entrem ou saiam embarcações sem licença. Defronte dela, do outro lado do rio, há uma outra, chamada Torre Velha (provavelmente o castelo de Almada), ambas guardadas por pouca gente. Mais adiante, na foz do Tejo, no lado direito, está um castelo, obra mais moderna e que chamam de S. Julião (S. Julião da Barra, fortaleza construída nos reinados de D. João III e D. Sebastião), feito também com intenção de guardar a entrada, e onde se acha maior guarnição. O rei tem dois palácios em Lisboa, um melhor do que o outro, mas nem um nem outro se podem dizer belos ou cómodos (refere-se ao Paço do Castelo e ao Paço da Ribeira, este construído nos reinados de D. Manuel I e de D. João III).
Todavia, é nesta cidade que costumam os reis viver a maior parte do tempo, tanto por que nela se fazem as armadas para todas as conquistas e comércios, como por que têm muito perto bosques e locais aprazíveis, quer para o Verão, quer para o Inverno. A cidade não é muito agradável, mas antes tristonha, porque as ruas não são largas nem direitas nem limpas, e as casas geralmente de pouca aparência de arquitectura. Deve-se andar a cavalo porque, por costume, tem-se pouca conta de quem anda a pé.
Os homens são de mediana estatura, mais sobre o pequeno do que sobre o alto, mais sobre o moreno do que sobre o louro, de aspecto triste, ao que ajuda ainda o facto de, sendo por lei proibido vestirem panos de seda (reinados de D. João III e D. Sebastião), envergarem trajes de baeta e de outros tecidos semelhantes que não causam bom aspecto, tanto mais que usam sempre o chapéu com os borzeguins (uma bota justa atacada e que chegava a metade da perna).
Há um arsenal onde se fabricam e reparam, postos em terra, enormes navios para as viagens da Índia, com muitos armazéns providos de artilharia e três salas de armas onde existe um número de corseletes (peitos de armas ou couraças leves)». In Portugal Quinhentista, Ensaios, A. H. Oliveira Marques, Quetzal Editores, Referências, Lisboa, 1987.

Cortesia de Quetzal Editores/JDACT

sexta-feira, 15 de julho de 2011

A. H. Oliveira Marques: Uma Descrição de Portugal em 1578-80. «Ritrato et Riverso del Regno di Portogallo. Pode dizer-se que o Reino, no seu conjunto, está situado na mais bela parte do mundo, não por beleza que tenha em si, mas por se encontrar no meio de muito grandes reinos, tanto para as antigas como para as modernas navegações»


Évora
Cortesia de postaisportugal 

Retrato de Reino de Portugal.
«O reino de Portugal é uma pequena parte da província da Espanha, situada na ponta extrema do mar oceano, a que antigamente chamavam Lusitânia. Confina ao levante com os reinos de Castela, ao poente com o Oceano, ao norte com a Galiza, e ao meio-dia em parte com o Oceano e em parte com a Andaluzia. Tem o seu rei próprio, o qual não somente é senhor do Reino, mas também tem muitas ilhas, cidades, castelos e fortalezas na Mauritânia Tingitana, na Etiópia, na Arábia, na Pérsia e nas Índias, tanto orientais como ocidentais.
Porém, tratando primeiro das coisas do Reino, diremos que se divide em seis províncias, a que chamam comarcas, Alentejo, Estremadura, Entre-Douro-e-Minho, Trás-os-Montes, a Beira e o Algarve, embora este último se designe também com o nome de reino. Em seu torno e de circunferência tem 285 léguas, 135 de costa marítima e 150 de terra. A sua figura é longa e estreita, contendo em si dezasseis cidades e muitas vilas grandes, além de muitos outros castelos que, na totalidade, passam do número de 470.


Cortesia de arquimedeslivros e jdact

Destas cidades, três são com dignidade arquiepiscopal, Lisboa, Évora e Braga, esta última não somente tem o espiritual mas é também sede do temporal, e nove são com bispados, Miranda, o Porto, Coimbra, Lamego, a Guarda, Elvas, Portalegre, Leiria e Viseu (no século XVI tinham sido criados os bispados de Miranda do Douro 1545, Leiria 1545, Portalegre 1549 e Elvas 1570). Restam cinco cidades sem bispado as quais são Bragança, Tavira, Lagos. Faro e Silves, as quatro últimas no reino do Algarve, do qual tira o nome um outro bispado com todas elas juntas (a transferência da sé episcopal, de Silves para Faro, fora decretada pelo papa em 1539, mas só efectivada em 1577).
Passam pelo Reino muitos rios, dois deles famosíssimos, que são o Tejo e o Douro: aquele passa junta às muralhas de Lisboa e desemboca no mar duas léguas longe dela; este faz o mesmo à cidade do Porto e entra no mar a meia légua dali. São estes dois Portos muito seguros e muito amplos, ainda que muito mais o de Lisboa, no qual se navega com toda a sorte de embarcações, por grandes que sejam, até mais de cinco léguas para o interior, e com outros barcos pequenos até pouco menos de 24 léguas.

Cortesia de flickr

Os outros rios não são tão grandes, mas não deixam de levar grande quantidade de água e, na maior parte, são navegáveis, muito ou pouco. Além destes dois grandes portos, há o de Setúbal, muito grande e com capacidade para qualquer número de embarcações e, no Algarve, outros três, Tavira, Lagos e Vila Nova de Portimão, sem falar de outros mais pequenos e de algumas praias agradáveis das quais não deixam de servir-se os navegantes.
Pode dizer-se que o Reino, no seu conjunto, está situado na mais bela parte do mundo, não por beleza que tenha em si, mas por se encontrar no meio de muito grandes reinos, tanto para as antigas como para as modernas navegações». In Portugal Quinhentista, Ensaios, A. H. Oliveira Marques, Quetzal Editores, Referências, Lisboa, 1987.
NOTAS:
De facto, a representação geográfica incorrecta da época fazia confinar Portugal, a sul, parcialmente com a Andaluzia. Veja-se, por exemplo, o mapa de Fernando Álvares Seco, de 1561, publicado com comentários por Alves Ferreira, Custódio de Morais, Joaquim da Silveira e Amorim Girão, O Mais Antigo Mapa de Portugal, (1561), sep, do Boletim do Centro de Estudos Geográficos, Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, 1957.

O perímetro de hoje é de 2046,75 km (832 km de costa marítima e 1214,75 km de fronteira). A fronteira terrestre variou, para menos, com a perda de Olivença no século XIX.

Cortesia de Quetzal Editores/JDACT

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A. H. Oliveira Marques: Uma Descrição de Portugal em 1578-80. « Ritrato et Riverso del Regno di Portogallo. Só com uma pesquisa demorada se conseguirá identificar-lhe o autor. Foi, com toda a probabilidade, membro de uma das muitas embaixadas e outras missões enviadas pelos diversos Estados italianos a Portugal durante o século XVI»


Cortesia de aph e etabaccaenfr

Uma Descrição de Portugal em 1578-80.
«Há já bastantes anos, quando procurava, em arquivos alemães, materiais inéditos relativos à história portuguesa, encontrei em Hannover um manuscrito que logo me pareceu de enorme interesse. Intitulava-se «Ritrato et Riverso del Regno di Portogallo» e datava provavelmente de finais do século XVI, embora a grafia correspondesse melhor a uma cópia seiscentista.

Só com uma pesquisa demorada se conseguirá identificar-lhe o autor. Foi, com toda a probabilidade, membro de uma das muitas embaixadas e outras missões enviadas pelos diversos Estados italianos a Portugal durante o século XVI. Deve ter sido um clérigo ou um homem ligado à Igreja, que nunca critica, exaltando a «maldita» Inquisição, odiando os Judeus, etc. Pode tratar-se de um súbdito dos Estados Papais, pelas alusões respeitosas que faz ao Sumo Pontífice e seus decretos.


jdact e internationalloc

Aparentemente, descreveu Portugal depois da morte de D. Sebastião (1578) mas antes da conquista do País por Filipe II em 1580. Numa das suas referências, menciona o rei português como sendo «muito bom e muito santo», descrição apropriada do cardeal-rei D. Henrique, chefe supremo da «maldita» Inquisição....
Escreveu em italiano corrente, toscano, com alguns termos e expressões hoje obsoletas. É possível que uma análise linguística aprofundada nos dê alguma pista sobre a sua pátria de origem, dentro da Itália.
Dividiu o texto em duas partes, redigidas como se fossem relatórios escritos por pessoas diferentes e dirigidos a alguém de mais elevada hierarquia política ou eclesiástica.
Na primeira parte, o «Retrato», o autor procurou dar uma descrição objectiva de Portugal e das coisas boas que nele encontrou. Mas na segunda parte, o «Reverso», quis olhar para o País por outro prisma e relatar as coisas más, os aspectos feios dos Portugueses.
Dedicou um pouco mais de espaço a este «Reverso» (20 páginas manuscritas num total de 37) que é, na realidade, um libelo terrível contra Portugal, cujo povo ele despreza para além de todas as medidas.


Cortesia de porviseu e fotothing

Pela leitura do texto, os dados apresentados mostram-se, geralmente, dignos de crédito pela sua exactidão. Refiro-me, sobretudo, ao «Retrato», porquanto no «Reverso» os exageros são moeda corrente, ao lado de algumas indiscutíveis verdades. No conjunto, porém, o manuscrito oferece grande interesse, em especial pelas observações e comentários pessoais de que está recheado e que se afastam do género habitual de descrições da época. Dá-nos toda uma série de ideias e sugestões sobre assuntos normalmente esquecidos ou mal conhecidos dos historiadores por falta de fontes. A história dos usos e costumes, a história dos caracteres e dos temperamentos, em suma, a história dos povos como tais encontra neste texto material inestimável para a sua reconstituição». In Portugal Quinhentista, Ensaios, A. H. Oliveira Marques, Quetzal Editores, Referências, Lisboa, 1987.

Cortesia de Quetzal Editores/JDACT