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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

A Amante do Rei. Emma Campion. «Depois de contar uma das suas viagens ou algum episódio qualquer da sua vida, ele me espiava, conferindo se a narrativa havia sido do meu agrado»

jdact e wikipedia

Uma inocente conhece o mundo. 1335
(…) Mas não o Sr. Janyn. Ele mantinha o charme e a simpatia que exibira todas as vezes que já fora a nossa casa. Will e Mary haviam sido enxotados para a cozinha com Nan, e parte de mim ansiava por estar com eles, à vontade e sossegada. Eu sentia como se tudo o que era familiar e tranquilizador tivesse sido posto numa carroça que se afastava rapidamente, muito rapidamente, e queria protestar, exigindo que tudo me fosse imediatamente devolvido e posto de volta no seu devido lugar, tudo como sempre havia sido. Entretanto, o Sr. Janyn cuidou para que eu não me sentisse assim por muito tempo. Enquanto os outros adultos conversavam entre si numa cortesia ensaiada, ele nos entretinha, a John e a mim, com histórias das suas viagens à Lombardia, a Nápoles, Calais, Bruges. Duvidei das suspeitas de minha mãe quanto a suas intenções de propor-me casamento, pois, com toda aquela distinção e aquele conhecimento do mundo, somados aos cerca de vinte anos que nos separavam, ele não poderia interessar-se em fazer de mim, uma criança, a senhora da sua casa. Ainda assim…, uma vez por outra ele me olhava com uma expressão curiosa, como se se indagasse a meu respeito, talvez me imaginando em diferentes cenários ou diferentes figurinos. Perguntou-me sobre as minhas preferências, cores, pratos e até mesmo as festas, ouvindo tudo tão concentradamente que às vezes repetia as minhas exactas palavras para si mesmo, como se estivesse determinado a lembrar-se delas. Depois de contar uma das suas viagens ou algum episódio qualquer da sua vida, ele me espiava, conferindo se a narrativa havia sido do meu agrado. Não tratava John do mesmo modo. Julguei ser aquele o comportamento de um homem fazendo a corte. Enfim, encerrou-se o jantar e eu me vi à porta, despedindo-me dos convidados. Madame Tommasa tocou-me de leve na face, dizendo-me que esperava ver-me novamente em breve. O Sr. Perrers discutia vivamente com o meu pai a respeito das notícias acerca de um navio perdido no Canal, de propriedade de um amigo em comum dos dois. Janyn tomou as minhas mãos entre as suas e fitou-me nos olhos profundamente. Ele era muito mais alto que eu, mas naquele momento tive a impressão de estarmos tão próximos que eu poderia sentir os seus cílios se ele piscasse. A sua pele era suave ao toque, e o seu odor, muito agradável. Mas ele parecia muito homem, muito hábil e forte, muito capaz de me submeter à sua vontade. Se chegássemos a nos casar, minha vida seria engolida pela sua. Alice não mais existiria. Queria mandá-lo embora e dizer que não voltasse, mas ao mesmo tempo desejava que ele se inclinasse para perto de mim e me beijasse os lábios. Quando esse pensamento me ocorreu, senti-me enrubescer.
Janyn sorriu e por um instante pareceu um tanto malicioso, o que lhe caía bem. Creio que roubou o meu coração, Srta. Alice. Rogo que seja gentil com ele. Beijou-me as mãos, uma de cada vez, e então fez uma reverência e se afastou. Fiquei aterrorizada e agitada. Após a partida dos nossos convidados, meu pai perguntou o que eu tinha achado do Sr. Janyn. Hesitei. Ele é tão mais distinto e experiente do que eu. Um homem tão vivido, comecei. Ah, então ele não a agradou. Ele meneou a cabeça ao som dos passos de minha mãe, acima no solário. Ela a envenenou contra ele? Disse alguma coisa antes que ele chegasse? Mas eu gosto dele!, protestei. No entanto, ele não me pareceu ouvir. Interiormente, continuava a discussão com minha mãe. Eu ficara exausta pelo esforço de agir como anfitriã sem uma preparação prévia, e sentia-me como um peão num jogo de xadrez: sem importâcia, fácil de mover, fácil de perder. Ela não me disse nada após a igreja, acrescentei, e, murmurando uma desculpa qualquer, fugi para a cozinha à procura de Nan. Deitada na minha cama naquela noite, eu comparava a minha fantasia da noite anterior a respeito de como seria a minha manhã na missa com a experiência efectiva e pensava, com o coração apertado, que eu acabara de provar o verdadeiro sabor da vida adulta, um sabor amargo, quando eu o imaginara doce». In Emma Campion, A Amante do Rei, 2009, tradução de Patrícia Cardoso, Editora Record, 2013, ISBN 978-850-140-467-1.

Cortesia de ERecord/JDACT

domingo, 16 de setembro de 2018

A Amante do Rei. Emma Campion. « No entanto, duvido seriamente de que ele tenha ouvido o meu agradecimento, pois minha mãe já o havia puxado para o lado e agora repreendia-o severamente»

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Uma inocente conhece o mundo. 1335
(…) O que ele faz aqui esta manhã?, sibilou minha mãe para o meu pai. A sua cabeça tremia sobre o seu pescoço delicado. Margery, sabe que ele frequenta esta igreja ocasionalmente. Pois faz já um bom tempo. É verdade. Mas noutro dia falámos e voltámos às boas relações. Pelo amor de Deus, se pretende fazer o que estou a imaginar, eu torço o pescoço dela antes de permitir que se case com ele. Naquele momento, tomei consciência dos horríveis olhares que eram lançados sobre nós, mas não tive a certeza de se eram dirigidos a mim ou à minha mãe. A sua face pálida coloria-se de estranhas manchas avermelhadas, e a sua cabeça mantinha-se tão rígida que o véu adejava como a delicada asa de um insecto. Ela torceria o meu pescoço antes de permitir que eu me casasse com Janyn Perrers? Não era possível que eu tivesse entendido bem. Definitivamente, não. A minha suspeita de que o meu pai não a tivesse consultado não me agradava. Depois da missa, quando os Chaucer nos vieram cumprimentar, Geoffrey confessou-me nunca ter imaginado que eu pudesse ser tão linda quanto estava naquela manhã. Tentei rir diante desse elogio desajeitado, mas consegui apenas esboçar um sorriso. Parece assustada, disse ele. O dia não está correndo como eu sonhava, falei, irritada ao sentir que as lágrimas ameaçavam irromper. Ah não, assim não, disse Geoffrey, com uma expressão de extrema cumplicidade. Endireite-se e enfrente os olhares destes paroquianos. É digna de qualquer um deles. Ele gemeu ao ouvir a voz da sua mãe chamando-o para partir. Ela tem medo de que nós dois os desafiemos e nos comprometamos em matrimónio. Outras famílias com pretendentes elegíveis aproximavam-se, e, um a um, o meu pai os foi apresentando, de acordo com a ordem de chegada. Muitos dos mais jovens eu já conhecia, ainda que eles agora se comportassem comigo de maneira bastante diversa daquela que costumavam adoptar no passado.
Na altura em que eu e a minha família saímos da igreja, a neblina havia sido dissipada por um outonal sol cálido de meio-dia, do mais profundo tom de ouro. A súbita luz ofuscou a minha visão, e acabei tropeçando nos baixos degraus que levavam ao pórtico. Alguém com braços fortes, porém delicados, segurou-me e ajudou a recuperar o equilíbrio. Deus o abençoe, falei, um tanto sem fôlego enquanto ajeitava as minhas vestes com uma das mãos e, com a outra, protegia os olhos. Descobri então que o meu salvador era Janyn Perrers. No entanto, duvido seriamente de que ele tenha ouvido o meu agradecimento, pois minha mãe já o havia puxado para o lado e agora repreendia-o severamente em sussurros furiosos. Não saí em defesa de Janyn por medo da reacção dela. Meu pai disse alguma coisa em voz baixa a Nan, ao que ela se pôs a chamar as quatro crianças sob os seu cuidados, apressando-nos a atravessar a praça em direcção a nossa casa. John soltou um suspiro alto assim que entramos no saguão. O que quer que tenha perturbado a nossa mãe, ela ficará irritável pelo resto do dia. Will disparou em direcção à porta do jardim, mas Nan puxou-o de volta, arrumando os seus cabelos rebeldes. Vamos esperar tranquilamente pelos seus pais, disse ela. Mary resistia às lágrimas. Porque a mãe está tão zangada? Abracei-a e prometi-lhe que logo veríamos que não era nada. Quando os meus pais chegaram, sibilavam entre si, as suas faces coradas, tão exaltados estavam. Já do lado de dentro, meu pai agarrou a minha mãe pelo cotovelo e rudemente a puxou para si de modo a ter a última palavra. Ela soltou o braço, ajeitou as suas saias e correu para fora novamente. Pude ouvi-la subindo as escadas externas às pressas rumo ao solário. O assoalho rangeu sobre as nossas cabeças.
Com um puxão nas roupas e um movimento do pescoço, como que para aliviar os músculos do local, o meu pai aparentava calma quando se juntou a nós. Sua mãe ofendeu-se com o comportamento de Janyn Perrers. Ela não se deu conta de que ele a salvou de uma queda, Alice, e admoestou-o por ter tocado numa moça tão jovem. Trata-se de uma infelicidade, já que ele jantará aqui esta noite e a sua mãe, graças à incivilidade que cometeu, encontra-se muito envergonhada para estar connosco. Ela crê que ficaremos mais à vontade se fizer as honras da casa. Ainda que eu me sentisse incomodada com aquela mentira, não consegui pensar em nada para dizer a não ser: sim, pai. Foi uma noite estranha e extremamente desconfortável. Para celebrar o clima agradável, a cozinheira e Nan tinham arrumado uma mesa de armar perto da porta que se abria para o nosso pequeno quintal. As flores já estavam morrendo, mas, como o sol aquecera as plantas, a sua fragrância mesclava-se aos deliciosos aromas que subiam da mesa. Teria sido um delicioso jantar, mas a sombra de minha mãe projectava-se ampliada na sua ausência. Eu não me sentia preparada para assumir o papel de anfitriã em seu lugar. E não era a única a sentir-me constrangida. Meu pai estava excessivamente falante e jovial. Os pais de Janyn, Martin e madame Tommasa Perrers, estavam claramente constrangidos». In Emma Campion, A Amante do Rei, 2009, tradução de Patrícia Cardoso, Editora Record, 2013, ISBN 978-850-140-467-1.

Cortesia de ERecord/JDACT

sábado, 15 de setembro de 2018

A Amante do Rei. Emma Campion. «Estava como eu me lembrava: pele bronzeada, olhos escuros e brilhantes, cabelo cacheado. Tinha uma voz grave, que ressoava…»

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Uma inocente conhece o mundo. 1335
(…) Então eu relaxei, notando, mais uma vez, como era agradável a sensação do escarlate macio contra a minha pele, como o seu drapeado tinha um peso e um movimento que lhe davam uma aparência fluida, de tal forma que eu me sentia graciosa. Inclinei-me para Mary. Cabeça erguida, irmãzinha. Esta manhã, as meninas Salisbury vão atrair a atenção de todo mundo. Está muito bonita nesse vestido. Reunida a família no saguão, tirei o meu manto do cabideiro na parede, mas a minha mãe abanou a cabeça e me deu um dos seus: um manto cinza, forrado no elegante gris, que é produzido a partir da pelagem de inverno dos esquilos, só a parte traseira, a mais bela. Para minha mãe era uma capa curta, mas em mim passava dos joelhos, e era maravilhosamente macia e envolvente. Tire-a quando entrar na nave, instruiu-me ela. Será um desperdício do tecido que gastei no seu vestido escondê-lo sob um manto. A minha intenção é mostrar que o seu corpo está pronto para gerar filhos.
As suas palavras me constrangeram, como se eu estivesse prestes a desfilar nua pela cidade. Meus olhos devem ter-se enchido de lágrimas, pois o meu pai deu-me um tapinha no ombro, agora suficientemente coberto, sussurrando que a minha mãe estava com dor de cabeça e não queria ser rude. Agarrei a mão que Mary me oferecia. Então, vamos!, falei, com forçada alegria. Isso distraiu Mary, que seguiu rindo e pulando ao meu lado enquanto eu me dirigia para a porta. Will, de repente, disparou na frente e a abriu com uma reverência. Dessa vez eu também ri, grata por meus irmãos menores. A manhã de Outono estava húmida com a névoa do rio, que se dispersaria por volta do meio-dia, mas que naquele momento deixava-me satisfeita por ter um manto forrado de pêlo. Uma manhã tão húmida e fria normalmente inspirava reclamações de minha parte, mas nesse dia ela era reconfortante, como se assim eu pudesse guardar-me em privacidade por mais algum tempo. Tentava lembrar-me de que eu estava apenas sendo exibida para possíveis pretendentes. Levaria um ano ou mais até que cruzasse o portal da igreja para contrair matrimónio. Mas eu não conseguia afastar a sensação de estar deixando para trás os limites de um mundo que eu conhecia para seguir na direcção de um vazio sem fronteira, sem fim. Tremi, e, com a mão livre, apertei mais o manto que me cobria.
Mary continuava a pular ao meu lado. Eu apertava sua mão enquanto me perguntava o quão frequentemente eu a veria depois de casada, o quanto eu saberia da sua vida. À porta da igreja, Nan tirou o meu manto e fez menção de tomar a mão da minha irmã, mas eu a segurei. Ela me ajudará a me manter firme, não é mesmo, Mary? Minha irmã pendurou-se na minha mão e assentiu com um sorriso tão prazeroso que eu tomei coragem. Ao adentrar a nave, senti reafirmar-se a atmosfera familiar. Era impossível contar quantas vezes eu havia cruzado aquela porta. A vastidão de pedra acima de mim parecia tornar mais leves os meus passos. Janyn Perrers! Tenha um bom-dia!, exclamou meu pai. Meu coração palpitou. Era um viúvo, rico e extremamente bonito, que durante um período fora um assíduo convidado à nossa mesa. Entretanto, como fazia algum tempo que ele não dava o ar da sua graça entre nós, eu imaginava que ele se tivesse casado. Estava como eu me lembrava: pele bronzeada, olhos escuros e brilhantes, cabelo cacheado. Tinha uma voz grave, que ressoava, e o seu rosto se iluminava quando ele sorria. Usava as suas roupas elegantes com grande desenvoltura. Juntamente com meu pai, o Janyn era o meu ideal masculino.
John Salisbury, Benedicite. Janyn Perrers fez uma reverência. E madame Margery. Fez outra reverência, mas eu notei que ele não olhou directamente nos olhos da minha mãe, como havia feito com o meu pai. Então olhou em minha direcção. E esta é lady Alice? Certamente não é aquela criança que eu vi brincando no seu jardim. Não é possível que do dia para a noite ela se tenha tornado uma mulher tão linda! Os seus olhos eram tão amistosos que eu não pude deixar de sorrir. Fiz uma mesura, e fiquei surpresa quando a sua mão quente subitamente agarrou a minha. Encarando-me como se eu fosse a única pessoa na nave, ele se curvou e tocou a minha mão com os seus lábios. Senti-me corar dos pés à cabeça. Perdi a fala, e só o que consegui fazer foi olhá-lo fixamente enquanto ele, mais uma vez, cumprimentava meus pais e afastava-se em direcção à multidão». In Emma Campion, A Amante do Rei, 2009, tradução de Patrícia Cardoso, Editora Record, 2013, ISBN 978-850-140-467-1.

Cortesia de ERecord/JDACT

sábado, 23 de maio de 2015

A Amante do Rei. Emma Campion. « Tu esquecerás a tua velha Nan. Abracei-a tão apertado que ela soltou um gritinho e me afastou de si. Eu te amo demais para esquecer-te, falei, do fundo do coração»

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Uma inocente conhece o mundo. 1355
«(…) Meu traje, um vestido azul-celeste longo, feito de escarlate, a lã mais fina que há, e uma sobreveste verde, fora confeccionado para mim a partir do tecido das últimas roupas descartadas por minha mãe. Diferentemente de suas instruções costumeiras para que meus vestidos fossem rectos, ela determinou que a criada ajustasse este aos meus seios, que despontavam à época, e à minha cintura delgada. As mãos de Nan tremiam enquanto ela me vestia, auxiliada por outra criada, tão silenciosa quanto ela. Sem dúvida, ambas desejavam, temerosas, que minha mãe julgasse satisfatório o resultado, e que, portanto, não encontrasse motivo para explodir num ataque de fúria. Embora eu me mantivesse sentada imóvel enquanto Nan escovava os meus cabelos, a ansiedade me tornava irrequieta. Distraía-me pensando em qual seria o próspero comerciante que meu pai escolheria para mim. Sabia que ele não ficaria satisfeito com o homem mais bonito e de melhor temperamento, pois o objectivo de meu casamento era a aliança entre a nossa próspera família e uma outra, de preferência ainda mais próspera. Eu tampouco poderia esperar que o escolhido fosse alguém da minha idade. Por algum tempo eu pensara que Geoffrey, meu melhor amigo, pudesse ser esse alguém; no entanto, pouco antes seus pais o haviam mandado para uma casa nobre, onde ele serviria como pajem. Vendo meu desapontamento, meu pai lembrara-me que, embora os Chaucer fossem suficientemente ricos e respeitáveis, o filho deles tinha apenas 13 anos. Antes de casar-se, um jovem deve ter uma ocupação ou uma herança que lhe permita sustentar o seu lar, e Geoffrey não tinha nenhuma das duas. O meu pensamento desviou-se dessas preocupações quando Nan pediu que eu me virasse, a fim de que ela pudesse conferir se estava tudo devidamente abotoado e arrumado. Nan bateu palmas enquanto eu girava, mas, quando voltei a ficar de frente para ela, vi que chorava. Nan, o que há? Até o fim do dia tu terás uma dúzia de propostas de matrimónio e já estarás casada no Natal, lamentou ela. Então eu não te verei mais. Tu esquecerás a tua velha Nan. Abracei-a tão apertado que ela soltou um gritinho e me afastou de si. Eu te amo demais para esquecer-te, falei, do fundo do coração. Tu vais arruinar todo o meu trabalho, protestou Nan, mas percebi que ela tinha ficado bem contente. Quando entrei no saguão, meu irmão John parou de andar de um lado para o outro para me ver e, em seguida, baixou o olhar, inclinando de leve a cabeça como se procurasse qualquer coisa no chão. O que foi?, perguntei. Ele tornou a erguer o olhar, primeiro para o meu rosto, agora ruborizado, depois para o meu longo pescoço desnudo. Vestida assim, quase não te reconheço, murmurou ele, voltando-se para o meu pai, que se juntara a nós. Pelo amor de Deus, Alice, não mordas o lábio. Meu pai chamou-me de lado. Não há razão para queixas. Hoje deves festejar a tua juventude e beleza, hã? Ele tomou a minha mão, fez uma reverência, beijou-a e deu um passo para trás, para dar uma boa olhada em mim. Minha filha, falou entre os dentes. Não sorriu, mas também não demonstrou desagrado. Estou bonita, pai?, perguntei, confundida pela sua expressão. Sim, claro! Tua mãe ficará orgulhosa de ti hoje. Todos nós ficaremos. Agora o senhor poderá dizer-me quem estará observando-me mais atentamente enquanto eu fizer as minhas orações hoje. Sei que o senhor conversou com alguém. Ele tirou o chapéu e esfregou a testa, suando apesar do frio que fazia no saguão. Tu o verás logo logo, Alice. Caminha com humildade e sorri com doçura para quem te cumprimentar. Será ainda melhor se houver pretendentes de reserva, não? Ele levantou a mão para afagar o meu ombro, como era seu costume, mas de repente corrigiu-se, deixando-a cair. Percebi que, assim como John, ele me achava diferente e, de algum modo, intocável. Eu sentia-me febril, enjoada e desejava fugir.
Mas minha mãe acabara de entrar no saguão, descendo do solário. Ela parou à porta com tal ar de elegância e tamanha autoridade que me senti como fosse Mary, minha irmã de 5 anos, descalça e encardida. Vem na minha direcção, ordenou minha mãe. Assim o fiz, tremendo de medo sob seu pesado escrutínio. Vira-te. Obedeci novamente, como se fosse uma boneca que ela manipulasse à distância. Ela suspirou. Não temos tempo para lamentar. Não há remédio. Margery, por que dizes isso? Alice está adorável, protestou meu pai. Tu só poderias pensar desse modo, respondeu minha mãe, dirigindo-lhe um olhar intimidante. A minha única esperança é de que a presa escolhida por ti pense o mesmo. Seria possível que ela estivesse no escuro, assim como eu, no que dizia respeito à escolha de meu pai? Venham, John, Will. Ela suspirou diante do cabelo sujo de meu irmão mais novo. Onde está a Nan? Ainda não acabou de arrumar Mary? Minha mãe não tornou a olhar para mim. Continuei ali de pé no saguão, constrangida e sentindo-me descartada. Foi Nan, a querida Nan, que salvou o meu dia. Colocando a mão rechonchuda de Mary sobre a minha, ela pediu: Diz à tua irmã aquilo que me disseste Mary. Assim que olhei nos grandes olhos da minha irmãzinha, compreendi que o que eu via ali era amor, admiração, tudo aquilo que eu desejara ver nos olhos de meus pais e de John. Tu és tão bonita, sentenciou Mary. Quero ser igual a ti quando eu crescer. Tentada a abaixar-me para apertar aquela querida criança contra o meu peito, forcei-me a resignar-me a um beijinho na sua face momentaneamente limpa e a um leve aperto de mão. Vais comigo à igreja, minha lady Mary?, perguntei, o meu coração desmanchando-se ao ver o encantamento nos seus olhos. Tu está linda como uma aurora na Primavera, sussurrou Nan. A mãe não gosta de ser ofuscada, e o pai deu-se conta de que está prestes a deixar a casa. Não os julgue pelos seus sentimentos tolos, Alice». In Emma Campion, A Amante do Rei, 2009, tradução de Patrícia Cardoso, Editora Record, 2013, ISBN 978-850-140-467-1.

Cortesia de ERecord/JDACT

domingo, 15 de março de 2015

A Amante do Rei. Emma Campion. «Meu pai era o meu herói. Insistiu em que eu frequentasse a escola e, às escondidas de minha mãe, ensinou-me muito a respeito da qualidade e dos tipos de tecido, assim como o modo de negociar um bom preço e administrar as contas»

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Uma inocente conhece o mundo. 1355
«Quando tive eu a escolha de ser diferente do que fui? Deveria eu ter sido mais egoísta, mais inflexível, mais rebelde? Terei sido muito complacente, rápida demais em dar aos homens da minha vida aquilo que eles julgavam querer? Serei uma pecadora, ou uma criada obediente? Na condição de ser do sexo feminino, eu era aceitável apenas como filha virginal, esposa ou viúva, a menos, é claro, que eu fizesse os votos a Deus. Fui as três coisas, filha, esposa e viúva, além de amante. Meu amante está morto há muito tempo, e sinto a morte aproximar-se de mim. Escrevo isto para meus filhos, rezando para que eles entendam. Comecei minha vida de maneira bastante decente, mas a família real preparou tantas ciladas em meu caminho que aqueles que atirariam a primeira pedra têm certeza de que nem mesmo agora eu conseguiria me corrigir. No entanto, quando tive eu a escolha de ser diferente do que fui? Este é o enredo da minha vida».
Durante a semana, na nossa Paróquia de St. Antonin, na Watling Street, a leste da Catedral de St. Paul, em Londres, sussurrava por conta das missas encomendadas. A paróquia sempre fora um local para mercadores endinheirados que prestavam culto tendo em mente a crítica presente em um ensinamento de Cristo, aquele segundo o qual é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico ganhar o reino de Deus. Assim, eles doavam grandes somas para que, uma vez falecidos, se rezassem missas por suas almas, o que mantinha os padres sempre ocupados em orações quase ininterruptas, pois era uma paróquia antiga, que já enterrara muitos homens ricos e suas esposas, todos ansiosos por redenção. Eu adorava passar o tempo na St. Antonin em dias comuns. Era o único lugar que eu tinha permissão de frequentar desacompanhada, sem um guardião, e ali eu me sentia segura. Deixava-me envolver pelo murmúrio das preces dos padres, enquanto aquelas pinturas familiares, as imagens do Salvador, de sua Santa Mãe e dos santos, lembravam-me que bastava eu fazer as minhas orações e obedecer aos mais velhos para nunca precisar temer o mal. Eu era ingenuamente feliz, uma inocente a respeito do funcionamento do mundo. Aos domingos e em dias de festa, a pequena igreja perdia essa atmosfera de conforto protector, já que nessas datas todos os paroquianos, excepto os acamados, assistiam à missa. Os ricos mercadores exibiam seu êxito desfilando com suas famílias elegantemente vestidas, enquanto os bisbilhoteiros notavam toda e qualquer mudança, tanto na frequência dos fiéis quanto nos frequentadores, um lábio inchado, uma barriga um tanto maior e escondida sob uma saia incomumente volumosa, um toucado novo afrontoso de tão caro, de tal maneira que todos os detalhes pudessem ser debatidos e esclarecidos depois da missa e nos dias subsequentes. Nesses dias mais agitados eu me aquecia junto ao calor de minha bela família.
Talvez eu já soubesse de longa data que aos domingos a St. Antonin era também um mercado de casamentos, mas, graças àquele dom que temos quando crianças de ignorar o que não nos afecta nem nos fascina, eu não prestava atenção àquele aspecto do dia. Até que chegou minha vez. Começo a minha história por minha primeira aparição como mercadoria naquele lugar que era o meu santuário durante a semana. Foi no Outono após meu 13º aniversário. Não foi uma surpresa saber que eu deveria contrair matrimónio numa idade adequada. Não tenho lembranças de tempo algum em que eu não entendesse que, na condição de menina, o meu valor para a família vinha da perspectiva de que eu me casasse, fosse com um mortal ou com Cristo, e meus pais jamais aventaram a hipótese de eu ingressar num convento. Meu pai era um respeitado membro de sua guilda, um comerciante de tecidos finos e jóias, além de ser sócio numa companhia mercante. O meu casamento deveria aumentar-lhe a prosperidade, ou o status, ou, de preferência, ambos. Eu servia aos planos de meus pais. Era bela, fisicamente perfeita, bem comportada, perspicaz, sem, contudo, manifestar abertamente minhas opiniões. Tão apresentável como os produtos de luxo vendidos por meu pai. Eu desejava ser desposada, chegava a ansiar por isso, acreditando que só assim a minha vida começaria. E o desfecho do domingo que irei relatar certamente moldou o resto da minha vida, para o bem ou para o mal.
Meu ciclo menstrual iniciara havia pouco, o que me servira como aviso relativamente claro de que meus pais começariam a planejar meu matrimónio com alguém que servisse aos interesses da família. O que eu não esperava era que isso acontecesse em tão pouco tempo. Minha mãe explicou-me, com sua sábia e usual frieza, que eu chegara a uma idade em que era necessário assumir o meu papel na família, unindo-a a outra casa de comerciantes bem-sucedidos, e que, portanto, não havia motivo para delongas. O dinheiro que gastamos com a escola que frequenta será mais bem empregado em outros propósitos. Não deverá voltar a estudar. Se ela não desperdiçava nada comigo, muito menos afecto, que era guardado para John, meu irmão mais velho. Minha mãe chegou a declarar que o seu leite secara após alimentar John, contratando, por isso, uma ama de leite antes de meu nascimento. Meus irmãos mais novos foram igualmente entregues ao cuidado de amas de leite, e, uma vez desmamados, nós passamos aos cuidados de Nan, uma criada que se encarregava de satisfazer todas as nossas necessidades com carinho e devoção, o que, no entanto, não chegava a compensar a indiferença de nossa mãe. Meu pai era o meu herói. Insistiu em que eu frequentasse a escola e, às escondidas de minha mãe, ensinou-me muito a respeito da qualidade e dos tipos de tecido, assim como o modo de negociar um bom preço e administrar as contas. Encorajada por ele, eu sempre me colocava atrás das cortinas do porão de nossa casa, onde ele armazenava e dispunha a mercadoria, e ali eu escutava as suas negociações com os clientes; depois, ele me explicava as suas tácticas. Meu pai parecia apreciar minhas as sugestões precoces, e eu me deleitava em partilhar com ele aquela actividade secreta, sem dividi-la com mais ninguém, nem mesmo com Geoffrey Chaucer, meu melhor amigo. Naquele domingo fatídico, senti que toda a casa acordou prendendo a respiração. Meu pai assobiava nervosamente, e por duas vezes exigiu saber de Nan o paradeiro de suas botas, enquanto marchava de um lado a outro pelo corredor. John aprontou-se cedo e estava igualmente inquieto». In Emma Campion, A Amante do Rei, 2009, tradução de Patrícia Cardoso, Editora Record, 2013, ISBN 978-850-140-467-1.

Cortesia de ERecord/JDACT