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domingo, 12 de janeiro de 2020

Inês. Maria Fialho Gouveia. «A pequena Castro era feliz. Repetia-o sem hesitações. Só lhe carecia, por vezes, alguém da sua idade e da sua classe com quem brincar, que não fosse filho de uma serviçal»

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As Encostas de Albuquerque
«(…) Retirada da mãe, por deliberação de Pedro Castro, que preferiu ver a filha criada pelo filho de um rei, Inês, ainda criança de colo, encontrou no peito da senhora de Albuquerque o desvelo de uma verdadeira mãe, não guardando memória ou mágoa da troca de braços que a vida lhe impusera. A dedicação que a prima direita do seu pai tinha por si enlaçara-as num amor inseparável, que prometia uni-las para sempre. Alta e direita, de cabelos já embranquecidos pelo tempo e olhos escuros como a noite, dona Teresa Martins Meneses era senhora daquela beleza distinta que só a idade concede. Chamada a si a função de educadora, impunha o seu respeito, incutindo à pupila rígidas normas e seculares princípios, e, contudo, nunca a ternura desaparecia dos olhos com que a fitava, quer quando a repreendia, como quando a mimava com o carinho.
Tal como a ditosa parente, também aquela terra da Raia que a acolhera como filha se lhe aninhara no génio e no coração. Conhecia cada pedra dos altos muros daquela alcáçova como as palmas das mãos. E sentia-as como se nelas lesse ensinamentos e lhe ouvisse testemunhos de vidas passadas. Era frequente vê-la a passar com os dedinhos na aspereza das paredes acasteladas, atenta a um qualquer detalhe que antes lhe tivesse escapado. Tinha àquele lugar um amor tamanho, que se diria estar-lhe intimamente ligada, porventura, em muitas voltas do destino. Da perfeição, porém, falava-lhe não só o abraço do seu alcácer, como também a beleza das suas vistas, que lhe sorriam ao olhar.
Era maravilhada com quanto a rodeava que a jovem galega, ora se passeava pelos seus pátios ajardinados, abrigados à sombra de ciprestes, ora corria alegremente pela colina abaixo, colhendo flores silvestres, até onde a cintura da muralha lho permitisse. Albuquerque, que já traduzia um pouco de si também, entranhara-se-lhe na alma e no corpo. Inês ajudara dona Teresa a escolher os veludos escarlates, ostentando a ouro o brasão da família, que hoje enobreciam as janelas do salão nobre e lhe aqueciam a frieza das pétreas paredes. Amava, não se cansava de dizê-lo, cada nó da madeira da longa e nobre mesa, a negrura dos seus bancos corridos, polidos de muitos anos, as armas do primo português expostas ao alto, a riqueza dos candelabros que a alumiavam quando o breu a envolvia. A sua predilecção, porém, os móveis que mais estimava naquele seu grandioso e magnífico claustro, eram as arcas aferrolhadas em que conservava algumas das suas vestes e peças bordadas do enxoval, a par de outros pertences. Os excelentes baús de madeiras nobres tinham para si algo de misterioso e superior, fazendo-a sentir-se uma princesa, que, na prática e não no título, era, de facto. Num desses ricos cofres guardava com orgulho e ternura um pequeno retrato a óleo que dom Afonso Sanches encomendara a um pintor local, sem fama ou importância, do outro lado da fronteira, mas provido de um grande dom para a arte de reproduzir rostos. Nas tardes mais quietas e entediantes, Inês levantava a pesada tampa da arca, procurava no interior esse seu pequeno tesouro, e sentava-se na banqueta que lhe ficava próxima, a admirar a sua imagem traçada a tinta.
A pequena Castro era feliz. Repetia-o sem hesitações. Só lhe carecia, por vezes, alguém da sua idade e da sua classe com quem brincar, que não fosse filho de uma serviçal. Tinha um irmão, Alvaro, filho da mesma mãe, um pouco mais novo, mas a quem raramente revia, vivendo como ele vivia na Galiza, sob a alçada do sério pai. E assim, nas proximidades e com avoengos antepassados, restavam-lhe alguns fidalgos menores, que tinham os seus palácios na cidade, mas com cujas filhas pelo inferior estatuto, ou por mera protecção, dona Teresa não a deixava privar». In Maria João Fialho Gouveia, Inês, 2016, Topseller, 20/20 Editora, 2016, ISBN 978-989-884-372-2.

Cortesia de Topseller/20/20 Editora/JDACT

sábado, 16 de dezembro de 2017

Maria da Fonte. Maria João F. Gouveia. «Foi na Póvoa de Lanhoso, a nordeste de Braga, que esta espoletou. Não por mera casualidade…»

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A rainha do povo
«Maria Angelina Silva foi baptizada a 13 de Março de 1824, no lugar de Valbom, na freguesia do Salvador de Fontearcada, concelho da Póvoa de Lanhoso. Era filha legítima de Miguel Joaquim Silva e de Maria Josefa, neta paterna de Manuel Silva e Maria Antunes e materna de Francisco Ferreira e de Maria Araújo Taíde. Teve por padrinhos João António Castro, capitão de milícias de Pernambuco e assistente natural da dita freguesia de Taíde e Angélica Melo, mulher de Francisco António Rebelo do lugar de Paredes. A ela se viria a atribuir o feito de ter comandado uma multidão de mulheres contra as autoridades locais, civis e militares, que faziam cumprir as ordens de Costa Cabral, ministro da rainha dona Maria II. As reformas administrativas instituídas no reino impunham novos impostos e normas que muito transtornavam as pessoas, desgastadas e empobrecidas com as guerras liberais, terminadas cerca de uma década antes. As últimas determinações régias eram vistas com maus olhos pelo povo. Se a cobrança de uma taxa aos homens que percorriam as estradas o afligia, mais o revoltavam as novas leis da saúde referentes aos enterros. A nova legislação exigia o pagamento de um tributo de covato, a examinação dos corpos por um delegado médico, e, desespero geral, a proibição de enterrar os mortos dentro das igrejas.
Todo este descontentamento havia de contribuir para o desencadear daquela a que se chamou A Revolução da Maria da Fonte. Foi na Póvoa de Lanhoso, a nordeste de Braga, que esta espoletou. Não por mera casualidade, ou por força do destino, mas como resposta à severidade e ao rigor com que o seu administrador, José Joaquim Ferreira Melo Andrade, (nomeado pelo governo de Lisboa, que assim estabelecia um novo cargo municipal, pago pelas gentes), fazia cumprir as disposições régias. O verdadeiro primeiro grito de rebelião soou a 22 de Março de 1846, quando uma turba de camponesas se opôs ao enterro de uma sua conterrânea no adro da igreja. Armadas de foices, chuços e varapaus, escorraçaram o sacerdote, o delegado médico e os coveiros e carregaram aos ombros a defunta até à igreja de Fontarcada, onde elas mesmas a sepultaram. Desde então, muitas foram as situações semelhantes que se repetiram pelo concelho, para desagrado do seu governante.
Entretanto, este mandou prender várias mulheres que tomava por cabecilhas dos tumultos, o que mais incendiou os ânimos das revoltosas. Foi então que, numa manhã fria de Primavera, uma chusma de populares, empunhando os seus habituais instrumentos de lavoura, assaltaram a cadeia, libertando as prisioneiras. À frente, a chefiar as amotinadas, seguia, destemida, Maria Angelina, que se destacou das demais pela sua valentia, pelo vermelho do colete que envergava, e pelos brados de abaixo os Cabrais! e viva a rainha! Depois, foi o inferno, com as mulheres e correrem à casa do biltre, a queimarem-lhe os papéis e a ameaçarem fazer o mesmo à sua casa. Exasperado, Ferreira Melo, que se tinha refugiado noutro local, pediu auxílio militar à capital de distrito. Tardando a ajuda e sucedendo-se os acontecimentos, a exaltação popular foi crescendo de tom. Como fogo em palha seca, os levantamentos alastraram-se a outras terras minhotas, mais tarde, à província vizinha de Trás-os-Montes, e, por fim, às Beiras e à Estremadura, granjeando adeptos e chamando a atenção dos partidários de e1-rei Miguel, então exilado em Londres». In Maria João Fialho Gouveia, Maria da Fonte, Topseller, 20/20 Editora, 2017, ISBN 978-989-886-955-5. 

Cortesia de Topseller/20/20 E/JDACT 

quarta-feira, 31 de maio de 2017

O Amor no 31. Inês. Maria Fialho Gouveia. «A senhora de Albuquerque não se cansava de alembrar à sua prima a fineza da sua genealogia, por mor de a manter viva, sublinhando que aquele seu proeminente antepassado casara com dona Teresa Sanches»

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As Encostas de Albuquerque
«(…) A pequena Castro era uma donzela de boa linhagem, filha natural do nobre galego Pedro Fernandes Castro com a sua amante portuguesa, dona Aldonça de Vaiadares. O pai cedo confiara a educação da filha à sua prima, Teresa, unida por matrimónio a Afonso Sanches, filho ilegítimo de Dinis I, rei de Portugal, que por ela zelara desde os seus primeiros passos. A dama espanhola. Mãe de um único filho vivo, João Afonso Albuquerque, tido pelo Ataúde, agora já homem feito, com 26 anos, criara-a com o esmero de a uma filha. Primos direitos, Pedro e dona Teresa eram netos de Sancho IV de Castela, embora filhos de diferentes cortesãs daquele rei, de quem descendiam por via da bastardia. Unia-os, assim, o sangue e a estirpe, que orgulhosamente defendiam e que conduziu Inês da sua Galiza natal ao calor da Extremadura.
Inês Valadares Castro nascera em Monforte de Lemos, abastado e frondoso domínio do seu pai, senhor de Lemos e Sarria, em 1325. Tinha um par de anos de idade apenas quando foi entregue a dona Teresa Martins Meneses, sua prima em segundo grau por via paterna, para ser criada na Extremadura castelhana, junto à fronteira com Portugal, no senhorio de Albuquerque. A alma soalheira e solta da jovem Castro logo rimou com a clara luz da paisagem raiana e o alvoroço próprio da sua localização limítrofe, que dava passagem entre os dois reinos. A imponência daquele alcácer, que se elevava ufano das colinas escarpadas da serra de São Pedro, os seus baluartes, as suas portas de arcos quebrados, e a largueza das vistas que das suas ameias se alcançavam, arrastavam céu acima o pueril espírito de Inês. Dali se vê o mundo inteiro!, dizia na sua candura. E se a fortaleza a engrandecia, era na pequena igreja trecentista de Santa Maria Maggiore, românica e situada no interior do castelo, que a Castro apaziguava o seu ânimo sedento de aventura, penitenciado nas suas preces de criança.
Diziam uns que o nome daquela terra, que a petiza logo amara, vinha do árabe Abu al-Qurq, pai da cortiça ou do carvalho; outros, que a baptizara antes a expressão latina Albus Quercus, que significava azinheira branca, o que de facto rimava com a paisagem deste feudo. O que se tinha por certo, todavia, era que as origens da pequena vila de Albuquerque se perdiam na névoa do tempo. Provavelmente, contara-lhe dona Teresa, teria sido fundada pelos celtas, antes ainda da chegada dos romanos, uns 6oo anos antes de Cristo. Mais de um milénio depois, fora invadida pelos mouros, tal como grande parte da Península Ibérica, despoletando as guerras da reconquista cristã, que se prolongaram por vários séculos, tornando-a um palco de batalhas, que a passavam de mão em mão. Em 1166 foi a vez de ser arrebatada aos sarracenos por Fernando II de Leão, que a doaria, uma década mais tarde, à Ordem Militar de Santiago; mas não muito tempo passaria até que voltasse para o domínio muçulmano, por acção do califa Abu Yaqub Yusuf al-Shanid. Já na décima terceira centúria, Afonso Teles Meneses, antepassado de dona Teresa, encontrou Albuquerque abandonada e tratou de a povoar definitivamente com as suas hostes lusitanas e cristãs. Data assim da era milenar o seu robusto castelo, cujos muros foi reforçando contra o ataque dos infiéis, ciente de que a vila não estava suficientemente segura; sete anos assim aguentando, com bravura e valentia, as investidas dos mouros, que chegaram a deixar a povoação sitiada, sem água nem mantimentos.
A senhora de Albuquerque não se cansava de alembrar à sua prima a fineza da sua genealogia, por mor de a manter viva, sublinhando que aquele seu proeminente antepassado casara com dona Teresa Sanches, filha ilegítima do rei Sancho I de Castela, vindo a ter por bisneto ao conde João Afonso Telo, mordomo-mor de Dinis de Portugal, 1º conde de Barcelos e 4º senhor de Albuquerque. E que esse senhor da ditosa vila não era nem mais nem menos do que o pai desta prima que tanto bem lhe queria: o resto já tu bem sabes: que herdei o senhorio de meu pai, tendo-me depois unido por matrimónio a Afonso Sanches, filho natural e eleito do rei Dinis, nascido em 1279, três anos antes dos esponsais de seu pai com Isabel de Aragão». ». In Maria João Fialho Gouveia, Inês, 2016, Topseller, 20/20 Editora, 2016, ISBN 978-989-884-372-2.

Cortesia de Topseller/20/20 Editora/JDACT

terça-feira, 30 de maio de 2017

Inês. Maria Fialho Gouveia. «Por que porta saireis vós?, acautelou dona Teresa. Pela de Valência!, esclareceu a menina. Não. Pela de Valência, não. Vão antes pela porta de São Mateus, que é mais seguro. A que ostenta o escudo de Afonso Sanches?»

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As Encostas de Albuquerque
«Senhora minha prima!... O que me queres, Inês?, perguntou dona Teresa Martins Meneses, pacientemente. Já terminei o lavor que me confiou, da bordadura do manto de Nossa Senhora, disse a pequena, arrebatando à sua tutora uma forte gargalhada. Ora, Inês, o manto de Nossa Senhora? Uma mantilha para pôr aos pés da santa da nossa bela igreja casteleja! Mas posso, senhora minha prima? Posso? Que fogo é esse, menina? E o que desejas? Permite-me que desça à vila, por folia?, suplicou a petiza, com os olhos cheios de céu. Por folia, dizes tu? E que folias são essas que te levam lá abaixo? Ora, calcorrear as ruas de Villa Adentro que as muralhas abraçam, beber das suas fontes, espreitar a Judiaria e a porta da sinagoga, ver aquelas casinhas caiadas de branco e flores às janelas, olhar as gentes, ver as outras moças galhofar. Muito me apraz também pasmar-me a mirar as lápides que o senhor seu marido fez esculpir sobre as portas da vila, e em cujos escudos se vêem vários castelos em que luzem as quinas do reino, aclarou a menina, os extensos cabelos dourados dançando com o movimento dos seus gestos.
São essas então as tuas folias..., sorriu a prima, entretida, na sua pose distinta de realeza. E, no entanto, bem sabes que a uma infanta não é dado passear-se desacompanhada pelo burgo. Oh, não me passaria pela cabeça descer à praça desamparada! Mencía e Ilduara ser-me-iam por companhia. Ilduara é-me precisa nos arrumos, recusou a senhora de Albuquerque. E Sancha? Dona Sancha andava ora mesmo pelos jardins a cuidar das rosas... Precisamente, a cuidar das rosas! Mas as rosas podem esperar. Leva-a, mais à Mencía, e não te quedes pelo povoado todo o santo dia, advertiu. Quero-te cá a horas das preces. Como lhe sou grata, senhora minha prima!, alegrou-se a petiza, saltitando irrequieta de pé em pé. Não me demorarei, juro, e terei sempre por perto às nossas criadas.
Por que porta saireis vós?, acautelou dona Teresa. Pela de Valência!, esclareceu a menina. Não. Pela de Valência, não. Vão antes pela porta de São Mateus, que é mais seguro. A que ostenta o escudo de Afonso Sanches? Essa mesma. Não se aflija, senhora minha prima, faremos conforme à sua vontade. Ah, e leva uma capa!, bradou dona Teresa, já a menina, de coifa pendida na nuca, lhe escapava da vista por entre as notáveis paredes do castelo, segurando as fraldas das saias do seu vestido tom de milho. E não me saias fora das muralhas! Jamais! Ouviu-lhe ainda prometer, na sua voz pequenina e abafada por aqueles sólidos muros, já ela ia corredor acima.
Corria o ano de Cristo de 1331. Reinava então Afonso XI, senhor de Castela e Leão, e nas suas terras respirava-se uma paz débil e quebradiça, mas sem grandes conflitos bélicos, nem nomeáveis sobressaltos. Um mal-estar persistente e temerário entre os soberanos de Castela e Portugal, todavia, ameaçava a bonança, motivado pelos despropósitos com que o jovem monarca castelhano humilhava a sua mulher, Maria de Portugal, filha do rei vizinho, com uma amante que havia muito mantinha. Se o era por Afonso IV muito amar a filha, por orgulho de Estado, ou por mero receio de que um bastardo daquele (que além de genro era seu sobrinho) viesse a frustrar as ambições políticas do neto, que nem gerado ainda fora, não se o sabia dizer. Factos importantes e preocupantes, com efeito, de que Inês, na inocência e meninez dos seus tenros seis anos de idade, morava alheada, no seu modo leve e feliz de percorrer a vida». In Maria João Fialho Gouveia, Inês, 2016, Topseller, 20/20 Editora, 2016, ISBN 978-989-884-372-2.

Cortesia de Topseller/20/20 Editora/JDACT

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A Princesa Boémia. Maria João Gouveia. «Contrastando com os aposentos da família imperial, que se limitavam a meia dúzia de diminutos compartimentos, servidos por estreitos corredores e igualmente ajustadas escadas, no piso superior do velho, acanhado, desconfortável»

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«(…) Recebido que houvera Pedro Alcântara, com a tenra idade de apenas cinco anos, do pai demissionário o ceptro do Brasil, fora o governo do Império, de acordo com a Constituição de 1824, confiado inicialmente à Regência Trina Provisória. Ora, esta consistia numa regência de três autoridades, representativas das três grandes vertentes políticas no país: os liberais, na pessoa do senador Campos Vergueiro; os conservadores, representados por José Joaquim Carneiro Campos; e os militares, através do general Francisco Lima Silva, mais conhecido por Chico Regência. Na sequência das eleições que esta trindade tinha por obrigação convocar, escolheu-se a Regência Trina Permanente, que seria composta por Bráulio Muniz, Costa Carvalho, e pelo próprio general Chico Regência. Após três anos de governo desta entidade, por influência do ministro da Justiça, o padre Diogo Feijó, criara-se em 1834 o Acto Adicional, que entregava o poder a uma Regência Una, com o regente Feiló a ser eleito como único regente por sufrágio universal. O clérigo revelara-se um político democrático de cariz federalista, tenaz patrocinador da descentralização das províncias brasileiras, as tais províncias que Francisco Orléans fizera antecipadamente saber que queria conhecer de perto, instituindo as Assembleias Legislativas provinciais e concedendo o estatuto de município neutro ao Rio de Janeiro. Porém, a sua incapacidade de conseguir pacificar as insurreições das urbes determinariam a sua substituição pelo jurista Pedro Araújo Lima, marquês de Olinda, notoriamente adverso às po1íticas descentralizadoras do seu antecessor e decididamente menos liberal.
Mas era Pedro, o soberano criança, que na falda das reais escadas de São Cristóvão se sobrepunha pelo seu majestoso porte, apanágio absoluto de quem assim nasce ungido, pelos seus olhos azuis, e pela coroa de madeixas louras dos seus cabelos de Saxe-Coburgo. E foi ao jovem imperador, sem dúvidas ou hesitações, que o príncipe de Joinville se dirigiu, uma vez percorrida a ondulada estrada que ligava o paço à orla do oceano. A aparição de Francisco Ferdinando arrancara um coro de ais incontidos à delegação feminina, nomeadamente a dona Francisca Carolina, que finalmente serenada nas suas divagações ingénuas e acriançadas, não conseguia fechar a nobre boca. A ama, apercebendo-se da situação, chamara-lhe mudamente a atenção, com uma pequena tocadela de cotovelo, a que a princesa de pronto reagiu. O espanto das damas era sobejamente justificado: o francês era a1to, e ainda mais alto parecia no seu escuro uniforme de gala da marinha, pontuado de botões e galões dourados, de gola subida sobre a camisa branca e a gravata preta, muito magro, de tez trigada pelo mar, olhos azuis, cabelos castanhos lisos, bigode escuro aparado, e trazendo no sangue o porte dos Orléans e dos Bourbon, que ainda mais o elevava acima da sua estatura. Solenemente trocadas as devidas vénias reais entre as altezas americanas e europeia, e as individualidades da política brasileira presentes, o príncipe de França sorriu. Sorriu ao imperador, às senhoras, ao Brasil! Francisco era um jovem bafejado pela beleza, de feições correctas e distintas, senhor de um trato agradável e de uma inesperada graça na conduta; despido ainda, para sua maior vantagem, de embaraços, e dotado de manifestos dons intelectuais. Avessa que estivera à recepção ao filho do rei francês, o encantamento da adolescente Francisca por Joinville fora fulminante e sem restrições, contendo-a apenas, no desassossego que a arrebatava, o peso da sua posição e os avisos silenciosos da solícita e prudente Mariana.
Sejai bem-vindo!, disse Pedro II. Francisco Ferdinando respondia gratamente com um venerador curvar de cabeça. Então, a um gesto indicativo do imperador, convidado, ministros e corte seguiram-no ao interior do palácio. Contrastando com os aposentos da família imperial, que se limitavam a meia dúzia de diminutos compartimentos, servidos por estreitos corredores e igualmente ajustadas escadas, no piso superior do velho, acanhado, desconfortável e encardido paço de São Cristóvão, as salas sociais eram largas e belas, apesar de pecarem pela ausência de móveis e artefactos à altura dos seus belos tectos estucados e do estatuto dos seus majestosos habitantes. No conto geral, distava tanto o Brasil da Europa, como se afastava a austeridade quase monástica da residência bragantina brasileira do fausto e do agasalho da ufana corte francesa; disparidade que logo causou espanto aos olhos da majestade gaulesa». In Maria João Gouveia, A Princesa Boémia, 2013, Topseller, 20/20 Editora, ISBN 978-989-862-626-4.

Cortesia Topseller/JDACT

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A Princesa Boémia. Maria João Gouveia. «Pedro de Alcântara divisou a descida de um conjunto de marinheiros ao escaler que os conduziria da corveta até ao porto, entre os quais se contaria certamente o tão aguardado viajante real»

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«(…) Alheado de todo o revoluteio palaciano, há muito que Pedro vestira o seu uniforme de circunstância, composto por calças brancas e justas, e uma casaca preta de gola subida, ornada das suas divisas imperiais e dos seus áureos elementos de gala. E assim, solene, o jovem imperador do Brasil não afastava do ancoradouro o seu olhar. A corveta que pompeava briosa a bandeira de França atracara havia poucos instantes. Do seu posto à ventana o monarca adivinhava, não logrando vislumbrar, dada a distância de um par de varas que separava o cais da alcáçova imperial, a intensa actividade naval dos marinheiros que recolheriam as velas, atariam no seu nó cego os cabos ao desembarcadoiro, e se dariam veloz e diligentemente à sua faina, repartidos ordenadamente por um sem número de lidas próprias da aportada. Em meio ao azafamado bando de mareantes, o rei regente imaginava reconhecer o comandante da embarcação, ornado das suas distintas insígnias de capitão da armada, grandioso em estatuto e em traquejo protocolar. Uma vintena de minutos mais tarde, Pedro de Alcântara divisou a descida de um conjunto de marinheiros ao escaler que os conduziria da corveta até ao porto, entre os quais se contaria certamente o tão aguardado viajante real. Não muito tempo depois, a uns 40 minutos de viagem, surgia na dobra da estrada um grupo de homens a cavalo, entre os quais se destacava, pelo solene trajo e pela altiva e digna postura, o capitão de L’Hercule. Ei-lo, portanto, Francisco Ferdinando Orléans, filho do seu homólogo galo! Apesar da lonjura, Pedro II apercebia-se claramente da firmeza com que o infante de Joinville, que se lhe adiantava sete anos em idade, enfrentava aquele novo mundo e a própria existência; o que deixava o imperador um tanto inseguro no seu papel de líder de um imenso território e, nesse dado momento, acrescido da função de anfitrião adolescente de um príncipe distante, forasteiro e maduro. Sacudidas as inseguranças, contudo, o jovem reinante do Brasil, pequeno demais para um domínio tão vasto e tão complexo, sinalizou com um leve aceno de mão que pretendia falar com o negro Rafael, antigo homem de confiança de seu pai na Guerra da Cisplatina, e agora seu fidedigno protector, que aguardava escrupulosamente à entrada da sala por determinações do seu menino e senhor.
Murmuradas entre ambos, sumárias sentenças, imperador e imperado desceram vagarosamente as escadarias de acesso à entrada principal do palácio; em breve se lhes juntariam diversos membros da corte, entre os quais a princesa dona Januária, dona Francisca Carolina, dona Mariana Magalhães, perceptora dos infantes, e as amas de companhia das princesas: dona Joaquina, dona Sebastiana Meirelles Bastos, condessa de Maximinos, e dona Ana Valentina Faria, marquesa de Fafe. A par da família imperial, dos cortesãos mais chegadas e da corte mais alargada, aguardavam ainda pelo dignatário francês influentes homens de Estado, como o ministro da Justiça, Bernardo Pereira Vasconcelos, o ministro da Fazenda, Miguel Calmon, o ministro dos Estrangeiros, Maciel Monteiro, o ministro da Guerra, Sebastião Rego Barros, o ministro da Marinha, Joaquim José Rodrigues Torres, e o marquês de Olinda, Pedro Araújo Lima, Regente Uno do Império, por menoridade de Pedro II do Brasil». In Maria João Gouveia, A Princesa Boémia, 2013, Topseller, 20/20 Editora, ISBN 978-989-862-626-4.

Cortesia Topseller/JDACT

segunda-feira, 4 de julho de 2016

A Princesa Boémia. Maria João Gouveia. «E foi ali, havia já o paço da Quinta da Boa Vista ascendido a sede de Império, que vieram ao mundo aquela que viria a ser rainha de Portugal, dona Maria II, e Pedro II, o futuro imperador do Brasil»

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«(…) Mancebo demais para o comprometimento de carrear o fado de um reino tão extenso e tão alvoroçado como o do Brasil, o monarca adolescente encontrou nesta sua nova empreitada um entretenimento simples e gracioso. Ou assim o julgava o imberbe imperador Pedro II, desconhecedor de que os desígnios do coração não se ordenam; tampouco a benquerença tem hora marcada. Com um oceano pelo meio a separá-la da Europa e pouco acostumada a receber a visita de majestades de além-fronteiras, a corte brasileira imergira num desmedido e alvoroço para acolher o filho do rei de França! em jeito festivo. Os corredores do piso nobre do Palácio de São Cristóvão encheram-se dos passos apressados dos criados num redopio sem fim, devolvendo ao paço o júbilo e a animação que conhecera à época em que a corte portuguesa se transferira para o Brasil. Tais memórias recuavam até ao início do século, quando, em 1808, fugidos da ameaça das tropas napoleónicas na sua terra natal, João VI e dona Carlota Joaquina se refugiaram na sua colónia brasileira.
A história da arrimada da corte joanina ao Rio de Janeiro, ouviram-na os infantes contar ao seu pai, repetidas vezes. De como família real e cortesão se instalaram no vasto casarão construído pelo mercador português Elias António Lopes no topo de um cabeço, com uma boa vista para o Atlântico, de onde o nome Quinta da Boa Vista. Das modificações e melhoramentos a que, sem delongas, o rei de Portugal procedeu, transformando a propriedade em residência real. E assim, desbravado o mato que a cercava, secos os fétidos pântanos, aplanados os acessos à cidade e ao mar e dignificado o edifício, a casa do comerciante lusitano convertera-se no Paço Real de S. Cristóvão da família de Bragança. Mas João fora mais longe, ordenando a construção de quatro torreões em estilo neogótico, embora apenas o torreão norte tenha sido erguido, e ainda da ala sul e da escadaria principal de acesso ao edifício.
Manuel Costa fora encarregado de dar continuidade às reformas do seu antecessor, John Johnston, acrescentando um torreão, simétrico ao único com que o inglês dotara o conjunto, mas a sua morte cinco anos mais tarde entregaria ao francês José Pedro Pezerat a conclusão das remodelações e o embelezamento dos jardins. Mais tarde tornado o rei a Portugal, Pedro fez instalar o escritório e a sala de espera no piso térreo, colocando no pavimento superior os dormitórios, os quais disfrutavam de vista desafogueada para o pátio, para a cidade e para o mar. As mudanças mais significativas do palácio, no entanto, tiveram lugar por ocasião do casamento do príncipe com Maria Leopoldina de Áustria, como foi o caso a edificação de um colossal portão à entrada, como presente de casamento dos nubentes por parte do general Hugh Percy, segundo duque de Northumberland. E foi ali, havia já o paço da Quinta da Boa Vista ascendido a sede de Império, que vieram ao mundo aquela que viria a ser rainha de Portugal, dona Maria II, e Pedro II, o futuro imperador do Brasil, assim como os demais filhos de suas majestades.
Décadas dobradas, distante que ia o lastimado regresso da família real portuguesa à sua pátria, aquietado o choro pela ida da princesa Maria da Glória para Portugal e finalizado o luto pelas mortes de dona Leopoldina (em 1826) e de Pedro I (oito anos mais tarde), a alcaçaria de Vera Cruz engalanava-se de novo com indícios de festim e de exultação. E os sinais de festividade adivinhavam-se, quer no vaivém dos negros serviçais, carregados de bandejas de prata pejadas de apetecíveis frutas de todas as cores, e bojudas garrafas de cristal repletas de vinho ou sucos vários, como no adorno da corte com exóticas flores tropicais. Liam-se ainda indícios de celebração na chegada de individualidades do império e dos músicos, igualmente convocados às pressas, que agora acorriam à bela Sala de Música de São Cristóvão, transportando os seus instrumentos para os dispor religiosamente nos seus devidos lugares». In Maria João Gouveia, A Princesa Boémia, 2013, Topseller, 20/20 Editora, ISBN 978-989-862-626-4.

Cortesia Topseller/JDACT

quarta-feira, 22 de junho de 2016

A Princesa Boémia. Maria João Gouveia. «Na desnuda, embora ampla, Sala de Espera, obsequiada com escassos móveis, Pedro, junto às honrosas pinturas de vários membros dos Braganças que desfilavam nas paredes»

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«Creio que o cavalheiro já é capitão, avançou a fidalga. Ah, capitão! Será então certamente um velho de tricórnio, curvado e maldisposto, a cheirar a cachimbo!, gracejou matreiramente a adolescente, lançando a cabeça para trás com uma sonora gargalhada, certa de arreliar a sua aia, que contrariava a acriançada insinuação da sua princesa fazendo do forasteiro um retrato deveras favorável e apelativo. Todavia, nem a auspiciosa imagem que Mariana Carlota traçava do príncipe gaulês parecia cativar a atenção da real Francisca, que das gaivotas deslocava agora a sua atenção para dois tomos encadernados a carmim, de letras douradas, que repousavam esquecidos numa embalagem estampilhada meio aberta, a um recanto da escrivaninha de carvalho embutida a pedraria, estilo Luís XV. Haviam chegado há pouco de Lisboa, os livros, informou a jovem, acariciando-lhes a capa num gesto reverenciador. Enviara-os a Mana Maria. Excelentes novidades, certamente, anuíra a ama, embora certa de que a sua soberana os não iria ler; mas por ora a falua alcançava o cais e era hora de se compor para receber o nobre francês.
Aparentemente ainda perdida nas suas divagações, Francisca mostrou interesse em saber o nome da fragata comandada pelo oficial que tantas loas merecera de Mariana Carlota Coutinho, em quem os infantes de Pedro IV de Portugal viam uma segunda mãe. L'Hercule, fez saber a aristocrata; L'Hercule, repetiu pianíssimo Francisca, parecendo desinteressada. Para aquietação da fidalga, a filha de Pedro IV abeirou-se então do seu alto e estreito guarda-fatos, que rimava com a cama oitocentista, retirou um dos seus vários fatos de montar, sóbrios e insípidos, e apressou-se a vesti-lo; depois, lançou arbitrariamente mão de uns singelos brincos de pérolas guardados num acanhado contador, sobre o móvel da sua cómoda, em laca perlada e ferragens a cobre, ajeitou o gancho que lhe prendia uma madeixa de cada lado por sobre os cabelos que lhe caiam soltos e lisos pelas costas, e, colocando sobre os ombros um sóbrio xaile branco em croché, fez saber à sua paciente ama que estava pronta. Face à pressa e à séria talha que fora persuadir a sua pupila a conceder receber o príncipe estrangeiro, a Senhora de Magalhães cedeu no rito do banho e na parcimoniosa toilette separada, e lá foi Francisca Carolina escada de mármore abaixo, irrequieta e saltitando de degrau em degrau, ainda redizendo baixinho L'Hercule.
Na desnuda, embora ampla, Sala de Espera, obsequiada com escassos móveis, Pedro, junto às honrosas pinturas de vários membros dos Braganças que desfilavam nas paredes, examinava interessado a orla do Atlântico a que chegava a embarcação francesa, na sua solene quietude de menino-rei. O dia preguiçava morno e radioso, espreguiçando-se o sol por tímidos raios que iluminavam a baía da Guanabara, naquela sonolenta manhã de Janeiro de 1838. Julgando-se a sós na ampla sala de faustosos tectos em trompe-l'oeil, a sépia e ouro, com cantos figurativos evoluindo para ramagens, o juvenil monarca esfregou os olhos, pouco acostumado que estava a alvorar. As elevadíssimas temperaturas do Verão fluminense, com dias quentes e tórridos e noites abafadas, dificultavam aos Braganças brasileiros manter uma rotina próxima da europeia.
Pedro de Alcântara aguardava a aportada do príncipe de Joinville, predita semanas antes por carta punhada pela sua prima, a rainha Maria Amélia Teresa, consorte do seu congénere francês e mãe do viajante, à infanta Januária Maria do Brasil. Rezava aquela que o infante francês havia largado de Constantinopla pelo Outono rumo a Vera Cruz, com o intento de conhecer as províncias; acalentava, porém, a soberana gaulesa, o anelo secreto de que o filho se maravilhasse com Francisca de Bragança e a ela, respeitados o tempo de espera que a jovem idade da princesa impunha, aprovasse unir o seu destino. A Mana Januária confidenciara ao seu irmão, três anos mais novo do que ela e regente sob tutela, dada a sua juventude, a pretensão da nobre parente italo-francesa de ambos, implorando-lhe reserva e discrição na administração de tal confidência». In Maria João Gouveia, A Princesa Boémia, 2013, Topseller, 20/20 Editora, ISBN 978-989-862-626-4.

Cortesia Topseller/JDACT