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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A Batalha de S. Mamede. 24 de Junho de 1128. Sociedade Martins Sarmento. «Quando Henriques, o borgonhês, morreu, deixando nos braços da viúva o pequenito Afonso Henriques, D. Teresa confiou o rebento à família do fidalgo duriense Egas Moniz, para que o educasse, e assumiu ela o governo do condado»

Acácio Lino, a Primeira Tarde Portuguesa
Cortesia de wikipedia

Afonso Henriques e S. Mamede
«A Sociedade Martins Sarmento organizou uma exposição, não procurando acrescentar qualquer nova auréola ao primeiro rei, nem pôr em causa o local do acontecimento histórico.
Isto é, não visou alimentar qualquer estéril polémica quanto à naturalidade de Afonso Henriques e muito menos quanto ao local onde foi travada a peleja.
Muito chãmente, procurou mostrar como a tradição alimentou um rico imaginário que, até prova documental irrefutável, constitui penhor histórico insubstituível para Guimarães e suas gentes.
Se o evento histórico tivesse sido congeminado por um poeta, com certeza que ele não desdenharia de escolher a noite de S. João como cenário ideal de sonhos auspiciosos gerados por eflúvios solsticiais. Pese embora a decisão de travar a batalha de S. Mamede ter decorrido de uma postura bastante pragmática do infante e dos barões de Entre-Douro-e-Minho, o facto é que mais do que as lendárias correntes que pesaram sobre a condessa destituída, ficou a imagem destemida do filho.
A primeira tarde portuguesa, vivida no rescaldo da batalha de S. Mamede, marcou para sempre o vínculo de Afonso Henriques a esta Terra, e uma vida longa e aventurosa projectaram a sua imagem pelos séculos fora, indissociavelmente presa a uma Guimarães mítica que tem enchido, desde sempre, o imaginário de todas as crianças portuguesas.
A tradição, sustentada há séculos por todos os historiadores vimaranenses, e não só, tem permitido alimentar um outro imaginário, aquele que puderam percorrer com os olhos e tactear através do diversificado material que ofereceram à curiosidade dos visitantes.

De Guimarães o campo se tingia,
Co sangue proprio da intestina guerra,
Onde a mãy que tam pouco o parecia,
A seu filho negaua o amor, & a terra,
Co elle posta em campo ja se via,
E não ve a soberba, o muito que erra.
Contra Deos, contra o maternal amor:
Mas nella o sensual era maior.

De Os Lusíadas, canto terceiro, Luís de Camões

Não passa muito tempo, quando o forte
Principe, em Guimarães está cercado,
De infinito poder, que desta sorte,
Foy refazerse o immigo magoado:
Mas com se offerecer aa dura morte,
O fiel Egas amo, foy liurado.
Que de outra arte podêra ser perdido,
Segundo estaua mal aperçebido.

Mas o leal vassallo conhecendo,
Que seu senhor não tinha resistencia,
Se vay ao Castelhano, prometendo,
Que ele faria darlhe obediencia.
Leuanta o inimigo o cerco horrendo,
Fiado na promessa, & consciencia
De Egas moniz mas não consente o peito
Do moço illustre, a outrem ser sogeito.

Chegado tinha o prazo prometido,
Em que o Rei Castelhano ja agoardaua,
Que o Principe a seu mando sometido,
Lhe desse obediencia que esperaua.
Vendo Egas, que ficaua sementido,
O que delle Castella não cuydaua,
Determina de dar a doçe vida,
A troco da palaura mal comprida.

E com seus filhos & molher se parte,
A aleuantar co elles a fiança,
Descalços, & despidos, de tal arte,
Que mais moue a piedade que a vingança.
Se pretendes Rei alto vingarte,
De minha temeraria confiança,
Dizia, eis aqui venho offerecido,
Ate pagar co a vida o prometido.

De Os Lusíadas, canto terceiro, Luís de Camões

D. Affonso Henriques
Pae, foste cavalleiro.
Hoje a vigilia é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!

Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infieis vençam,
A benção como espada,
A espada como benção!
in Mensagem de Fernando Pessoa

In Maria José Marinho Queirós Meireles, D. Afonso Henriques e S. Mamede, Exposição, Congresso Histórico sobre D. Afonso Henriques, Sociedade Martins Sarmento, Guimarães, 1995, ISBN 972-8078-46-3.

Cortesia de S. M. Sarmento/Guimarães/JDACT

sexta-feira, 2 de março de 2012

Serzedelo. Igreja de S. Cristina. Guimarães. «Não são muitos os elementos, antes pelo contrário, que essas duas fontes fornecem acerca da história do magnífico templo do século XIII, muito justificadamente classificado como “Monumento Nacional”»


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Notícia histórica
«A igreja de S. Cristina de Serzedelo, no concelho de Guimarães, embora tenha um passado que deve exceder sete séculos, não possui história; por outras palavras, não ficou registado em livros impressos e conhecidos qualquer facto que diga respeito à história desse interessantíssimo exemplar da arte românica em Portugal.
Os autores que vagamente têm aludido à história deste templo dizem apenas que ele foi fundado, com o respectivo mosteiro, pela Ordem de S. Bento, segundo uns, ou pelos Cónegos Regulares de S. Agostinho, segundo outros. Esta última parece ser a opinião mais próxima da verdade.
Alguns autores informam ainda que passou no século XV a abadia secular e por fim a reitoria.
Nada mais dizem da história da igreja de Serzedelo. Tivemos, porém, a oportunidade de consultar, através de fotocopias, as breves páginas que o abade de Tagilde escreveu num volume de apontamentos, por ele conscienciosa e diligentemente coligidos, em que há notas relativas a essa igreja; devemos essa possibilidade à gentileza da Direcção da Sociedade Martins Sarmento, de Guimarães. Igualmente o Rev. do Reitor da freguesia de Serzedelo teve a bondade de nos confiar um raro livro do cartório, anterior ao século XIX, existente naquela igreja.

Não são muitos os elementos, antes pelo contrário, que essas duas fontes fornecem acerca da história do magnífico templo do século XIII, muito justificadamente classificado como “Monumento Nacional”; Esses dados, todavia, oferecem pelo menos motivo, para considerações de ordem vária e, falando-nos do perigo em que esteve o templo no século XVIII, explicam em parte a razão porque, apesar de tantas investidas dos homens nesse século, a igreja de Serzedelo a todas resistiu. A este propósito, pode concluir-se que as visitações tiveram bons e nulos resultados; os que poderiam vir a ser maus, circunstâncias supervenientes impediram que se verificassem...


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O leitor, depois de ler o punhado de ‘Notas’ que se seguem extraídas do “Livro de Visitações” acima aludido, poderá formular o seu juízo.

Visitação de 2 de Setembro de 1717:
‘O fabriqueiro não tem dado satisfação às obras mandadas fazer na “Visita” passada, como é telhar a Capela Maior da Igreja, consertar a vidraça’.

Visitação de 18 de Agosto de 1718:
‘Os fregueses têm dado satisfação ao que se lhes mandou pelo que toca às redes das frestas: só falta tapar o buraco da porta travessa da “galilea”.

Visitação de 2 de Dezembro de 1720:
‘O fabricante não tem dado satisfação ao conserto da vidraria da capela Maior, obra tão precisa e recomendada já em visitas passadas (...) e de presente é preciso também retelhar a Capela Maior por estar indecente’.

Visitação de 26 de Novembro de 1723:
‘Acho o corpo desta Igreja tão escuro e falto de luz que se não escusa abrir-se nela uma fresta de bom tamanho, que tenha cinco palmos de alto e quatro de largo com sua grade de ferro, vidraça e rede de arame para seu resguardo, a qual os fregueses mandarão abrir da parte da pia baptismal na forma que determino em termo de três meses sob pena de 3.000 rs. que o juiz da Igreja pagará da sua bolsa quando no dito termo se não satisfaça. Também a porta travessa da parte da dita pia está muito baixa e incapaz para por ela sair o pálio, Cruzes e mais paramentos das procissões, pelo que mando aos fregueses ou a levantem ou façam uma de novo mais abaixo da que está, que fique larga e capaz na altura para as funções sobreditas...’ (prazo seis meses, pena 4.000 pagos pelo juiz).

Visitação .de 25 de Outubro de 1724:
‘As obras mandadas fazer na “Visita” passada tanto as do corpo da Igreja como da Capela Mór não acho de todo satisfeitas…’ (releva, todavia, as penas até à “Visita” futura).

In Boletim Monumentos nº 96, Igreja de Serzedelo, Guimarães, Junho de 1959.

Cortesia do B. Monumentos/JDACT

sábado, 21 de janeiro de 2012

Guimarães. Paço dos Duques de Bragança. Barroso da Fonte. «O visitante tem boas razões para demandar Guimarães, berço da nacionalidade portuguesa. Aqui encontrará um pouco de tudo aquilo que pode satisfazer a sua curiosidade. Monumentos de interesse histórico e actividades culturais associadas à Capital Europeia 2012»


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«Falamos de Guimarães 2012, Capital Europeia da Cultura, onde nasceu Portugal. Nasceu juntinho ao castelo da fundação, ex-libris da nacionalidade portuguesa. Foi na tarde de 24 de Junho de 1128, data da batalha de S. Mamede. Será esse o verdadeiro “Dia Um de Portugal”.
Afonso Henriques, um jovem de 18 anos de idade, armara-se cavaleiro, aos 14 anos, na catedral de Zamora. Predestinado para fundar Portugal, não aceitava ele que Fernão Peres de Trava, confidente de sua mãe, Teresa, a influenciasse no mau sentido, lesando os destinos da futura Pátria Portuguesa.
Desse diferendo brotou a batalha de S. Mamede. Sua mãe cedeu, definitivamente, o poder ao filho Afonso Henriques, que até 1185, ano da sua morte, tudo fez para que Portugal se orgulhasse do seu próprio destino, como país livre e independente. Na “colina sagrada”, que bem pode chamar-se o altar da Pátria Portuguesa, já, nessa altura, se levantava o castelo. Aí tinham fixado residência seus pais: o conde Henrique e D. Teresa, primeiros responsáveis pelo Condado Portucalense. Possivelmente aí nasceu o primeiro rei de Portugal, entre 1109 e 1111.
O conde Henrique mandara construir a igreja de S. Miguel do Castelo, onde viria a ser baptizado Afonso Henriques, provavelmente pelo bispo Maurício e não por S. Geraldo que falecera em 1108. Em 1664 a pia baptismal foi transferida para a igreja da Oliveira. Mas voltou para a igreja de S. Miguel em 1928, onde permanece, com a legenda ao lado, mandada aí colocar em 1664 pelo prior da Colegiada, Diogo Lobo de Silveira.

Além do castelo da fundação, da igreja de S. Miguel, da estátua do rei fundador e do campo de S. Mamede, ergue-se na “colina sagrada” uma verdadeira jóia arquitectónica, de estilo gótico, única na Península Ibérica. É o Paço dos Duques, berço da Casa de Bragança, a maior e a mais poderosa do reino, nesses tempos medievais. Deste Paço ducal nos iremos ocupar demoradamente. Antes, façamos um passeio por esta histórica cidade, ao encontro das origens.


Foto de luzes da ribalta
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Síntese monográfica de Guimarães
Data de 867 0 mais antigo documento que se conhece acerca de “Vimara”, cuja evolução semântica resultou em Guimarães. Em 950, Mumadona Dias alude à “Villa vocitata Vimaranis” que coube por herança, a sua filha Oneca. Sabe-se que já em 949 existia o Mosteiro, primeira referência daquela que viria a ser a vila de Guimarães, elevada a cidade pela Rainha Maria II., no ano de 1853.
No testamento de Mumadona, datado de 26 de Janeiro de 959, já se fala na igreja do Mosteiro que foi sagrada, nessa mesma data, sendo Pedro I, o seu primeiro abade. A primeira vila ou burgo de Guimarães desenvolveu-se em torno do Mosteiro duplex, isto é, para frades e para freiras. Esse Mosteiro situava-se onde, mais tarde, viria a ser instituída a Real Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, paredes-meias com o actual museu Alberto Sampaio. Mumadona Dias fez testamento de suas vilas a esse Mosteiro, procurando cumprir a última vontade de Hermegildo “com quem casara sob o regime de dote, como era costume entre a nobreza. Pouco depois que estas disposições testamentárias foram confirmadas na presença de muitos, irrompeu nos subúrbios deste nosso Mosteiro uma incursão de gentios em com receio deles, edificamos o castelo chamado de S. Mamede, no lugar do Monte Largo, o qual foi construído sobranceiro a este Mosteiro, para sua defesa e dos monges e das monjas que no mesmo vivem. Lavrado no 2º dia das Nonas de Dezembro da era de 1006”.

Igreja de N. Sra. da Oliveira com o Padrão do Salado
Mumadona, fundadora de Guimarães
Foto de luzes da ribalta
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Depois do Mosteiro e do Castelo foram construídas as Muralhas que ainda hoje delimitam o chamado Centro Histórico, em fase de reconstituição. Guimarães é hoje uma cidade em franco progresso, impondo-se como centro cultural por excelência. O concelho tem 73 freguesias e alguns pólos de desenvolvimento que merecem destaque como: Vizela, Taipas, Pevidém, S. Torcato, Moreira de Cónegos e Briteiros. São cerca de 170 mil habitantes do maior concelho a norte do Porto, dedicando-se à indústria têxtil, calçado, construção civil, cutelarias e curtumes.
O visitante tem boas razões para demandar Guimarães, berço da nacionalidade portuguesa. Aqui encontrará um pouco de tudo aquilo que pode satisfazer a sua curiosidade. Monumentos de interesse histórico como:
  • O castelo;
  • O Paço dos Duques de Bragança;
  • A igreja de S. Miguel do Castelo;
  • A igreja da Oliveira;
  • O Padrão do Salado;
  • As Muralhas;
  • A igreja de S. Francisco;
  • A Pousada de Santa Marinha da Costa;
  • A Sociedade Martins Sarmento;
  • O Centro Histórico;
  • Centros de termalismo como Vizela e Taipas;
  • Poderá ir à Penha de teleférico;
  • A Briteiros, para observar uma das citânias mais evoluídas;
  • A S. Torcato para ouvir folclore do mais genuíno, etc.
Em qualquer sítio que se encontre terá sempre ao lado uma adega típica, um restaurante com gastronomia minhota, uma doçaria especial e até algumas das mais invejáveis unidades hoteleiras, com relevo para duas reconfortantes pousadas da rede nacional». In Barroso da Fonte, Paço dos Duques de Bragança, Edições Elo, IPPAR, Lisboa-Mafra, 1994, ISBN 972-9181-23-3.

Cortesia de Elo/IPPAR/JDACT

Guimarães. Barroso da Fonte. As Duas Cabeças: «Continuando a citar Luis Filipe Thomaz para chamar a atenção de que o Infante […] “o estratego e aventureiro, cruzado e desvendador do mar ignoto, místico e cientista, figurava como ideólogo e obreiro principal de todo o processo de descobrimentos e expansão”»

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Afonso viuvou em 1414 e, em 1415, participou na tomada de Ceuta, de parceria com seu pai, seu sogro e seus irmãos.
Em 1420 casou com D. Constança de Noronha, quando ele ia completar 50 anos de idade. Ela tinha somente 16 anos, o que, diga-se, foi uma verdadeira frustração para tão simpática e virtuosa noiva que, talvez por isso, resolveu devotar-se à religião. De facto D. Constança de Noronha, dedicou-se, de alma e cotação, à Ordem de S. Francisco e, depois de enviuvar (em 1461), transformou o Paço dos Duques em enfermaria e casa dos pobres. Falecia em 26 de Janeiro de 1480 como “santa Senhora Duquesa”.
Afonso foi nomeado 1º duque de Bragança, em 1442 e falecia em Chaves, em Dezembro de 1461. Sucedia-lhe no cargo seu segundo filho, Fernando que fixou residência em Arroiolos. Com a morte de Afonso e de D. Constança, o Paço Ducal de Guimarães entrava em ruína que se prolongou até 1807, ano em que foi transformado em quartel militar.

Infante Henrique. Homem do Mar
Dos oito filhos da “Inclíta Geração”, (casamento do Mestre de Avis com D. Filipa, filha do duque de Lencastre), o infante Henrique foi uma figura preponderante pela sua tendência para o mar. Nasceu exactamente há 617 anos (fará 618 anos no pf mês de Março). Sabemos que João I teve dois filhos, de amores com Inês Pires. Aconteceu em Veiros, aí nascendo Afonso (que viria a ser o 8º conde de Barcelos e genro de Nuno Álvares Pereira) e D. Beatriz que casou (em 1405) com o conde de Arundel, Tomaz Fritz Alán (de Inglaterra). Para além destes dois filhos, extra matrimónio, teve mais nove, (destes, os seus que chegara à idade adulta seriam lembrados como a Ínclita Geração) a saber:
  • D. Branca (1388-1389) e Afonso (1390-1391), morrem antes de completarem um ano de idade;
  • Duarte, (1391-1438) futuro Duarte I;
  • Pedro, (1392-1449) regente do Reino;
  • Henrique, (1394-1460) o “Navegador”;
  • D. Isabel (1397-1471);
  • D. Branca (1398), morreu criança;
  • João (1400-1442), condestável de Portugal e avô de Manuel I e de Isabel de Castela;
  • Fernando (1402-1443), morreu no cativeiro em Fez.
Realçamos, aqui, a personalidade do infante Henrique pela sua propensão para os Descobrimentos e sobretudo porque completa, em 2012, precisamente 618 anos do seu nascimento.

 
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Foi na cidade do Porto que Henrique veio ao mundo, numa quarta--feira de cinzas, em 4 de Março de 1394. Um jornal semanário identificava assim o chamado Homem ao mar:
  • “celebram-se agora os […] do nascimento do Infante D. Henrique. Navegador, descobridor, obcecado em combater os mouros e senhor dos mares nunca dantes navegados. Tinha mau génio, gostava de cozido de vaca, não bebia vinho e morreu virgem. Rico também”.
E noutra passagem, escreve a jornalista:
  • “alguns dizem que ele foi um asceta, outros um eunuco sem virilidade nenhuma. Zurara, o seu cronista, garante que «a terra o recebeu virgem». Sublinha-se ainda, que, no parecer do historiador Luis Filipe Thomaz se “Henrique teve alguma obsessão foi a da guerra aos mouros”.
A mesma fonte invoca Vitorino Nemésio para dizer que o infante Henrique cresceu numa época em que “vários motivos se opunham a um conhecimento exacto da Terra e à sua exploração. Os principais (motivos) eram a ignorância e o tipo de mentalidade”.
Continuando a citar Luis Filipe Thomaz para chamar a atenção de que o Infante tinha uma tendência para a crítica da visão aceite em que “o estratego e aventureiro, cruzado e desvendador do mar ignoto, místico e cientista, figurava como ideólogo e obreiro principal de todo o processo de descobrimentos e expansão. Um homem ambicioso, pronto a abraçar todos os projectos, sagaz, astuto no impor aos outros os seus desejos”.
A imagem do infante Henrique está profundamente ligada aos descobrimentos de que foi o maior obreiro. Preocupou-se com a astrologia, com a astronomia, com a matemática e com a ciência náutica. Rodeou-se de sábios, de físicos hebraicos e de comerciantes italianos.

NOTA: Em termos de historiografia, a orientação sexual do infante tem sido questionada, nomeadamente a partir da tese de doutoramento do professor Fernando Bruquetas de Castro, da Universidad de Las Palmas de Gran Canaria, "Reis que Amaram como Rainhas", prémio de melhor tese de doutoramento em Espanha no ano 2000. O autor apresenta-o como homosexual desde a nascença, argumentando que, embora todos os escritos o apresentem como um homem casto, em adolescente era tímido e pouco dado a experiências sexuais, o que terá causado suspeitas já à época. Na batalha de Ceuta (1415) perdeu um dos seus mais amados companheiros, pelo qual chorou e fez luto durante meses. Os pais e os irmãos pediram-lhe que fosse comedido e que abandonasse o luto, mas o infante insistiu até que a própria mãe ficou incomodada, e posteriormente, o rei D. Duarte chegou a adverti-lo para que "não desse mais prazer aos homens para lá do que se deve fazer de forma virtuosa.


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Esteve profundamente ligado às principais praças do norte de África, as quais ajudaram à dilatação da fé cristã pelo espírito de cruzada. Com os reis que governaram na sua geração compartilhou a tarefa dos Descobrimentos. Sabe-se que desde 1457 a 1460 viveu em Sagres, na vila do Infante, por ele mesmo mandada construir. Contudo foi em Lagos que ele montou o quartel general para a grande aventura que soube realizar, com êxito, nunca igualado.
Primeiramente foi a caravela, depois a nau e o galeão. Com a caravela foi-lhe possível enfrentar as águas agitadas do Atlântico, seguindo a costa, quer na viagem até ao cabo Bojador, quer no regresso a Portugal. Numa fase posterior, os seus seguidores usaram a nau e o galeão. Mas tal só foi possível, graças ao domínio da técnica posta em prática pelo Infante, o pai da revolução marítima e o grande artífice dos Descobrimentos. Henrique começou por comandar, na Tomada de Ceuta, em 1415, as tropas que, a mando do Pai, recrutara nas Beiras. Desde aí não mais sossegou. Aferrado aos ideais da guerra santa, tudo fez para que a epopeia dos Portugueses chegasse aos confins do mundo.

Sabe-se quanto sofreu com o desastre de Tânger (1417), no qual foi feito refém seu irmão mais novo, infante Fernando que viria a morrer, anos mais tarde, no cativeiro, em Fez. O infante que nasceu há 617 anos, no Porto, chegou a propor a entrega de Ceuta pela troca do irmão (?, jdact). Também se esclarece:
  • Desde a derrota “Henrique nunca mais voltou a ser o mesmo. Dali em diante, trajando embora roupa talhada no alto guarda roupa da corte, usou para sempre o luto”. Como recordaria Nemésio «a trágica imolação de seu irmão é como uma sombra indispensável ao seu retrato (apenas?)»
O infante Henrique viria a falecer na vila de Sagres em 18 de Novembro de 1460, com 66 anos de idade. Dizem as crónicas, que morreu sozinho, nobre e muito rico em bens, casas e títulos. Deixou tudo menos obra escrita. E cita a jornalista do semanário:
  • «Gomes Eanes de Zurara que o descreveu assim: tinha agudeza de engenho, fortaleza de coração e nunca acolheu luxúria nem avareza, passando toda a vida em limpa castidade, recebendo-o a terra virgem».
In Barroso da Fonte, Guimarães e as Duas Caras, Editora Correio do Minho, 1994, ISBN 972-95513-8-3.

Cortesia de Guimarães/JDACT

Guimarães. A Irmandade de Nossa Senhora da Penha e a Imagem de Nossa Senhora do Ó. «Não conhecemos as vicissitudes que a imagem da Senhora do Ó sofreu depois de abandonar a igreja de S. Francisco e nem sequer dispomos de qualquer descrição sua. Talvez a documentação em poder da Irmandade de Nossa Senhora do Carmo da Penha possa fornecer elementos que dêem continuidade a esta história»


Cortesia de votguimaraes 

Com a devida vénia a Belmiro Jordão e Fernando José Teixeira.

História e Arte
A Irmandade de Nossa Senhora da Penha e a Imagem de Nossa Senhora do Ó
«Celebrando-se os 144 anos (e alguns meses) da primeira reunião para a instituição da Irmandade de Nossa Senhora da Penha e os 64 anos (e 4 meses) da inauguração do Santuário da Penha, decidi  lembrar que em 1871, uma imagem de "Nossa Senhora do Ó", existente na igreja conventual de S. Francisco de Guimarães, foi cedida aos devotos da Senhora da Penha para aí ser colocada à devoção dos fiéis.

Mas comecemos esta história pelo princípio. Diz o Abade de Tagilde que já no século XVI existia na igreja conventual de S. Francisco de Guimarães, um altar dedicado a Nossa Senhora do Ó, facto que foi confirmado em 1692 pelo Padre Torquato de Azevedo ao dizer que Pedro Lagarto e sua mulher instituíram um vínculo com jazigo nobre atrás da capella de Nossa Senhora do Ó, da igreja de S. Francisco. O mesmo Padre Torquato escreveu que na parede sul da igreja conventual existia “a capela de Nossa Senhora do Ó, administrada por seus confrades, e anexa à albergaria do Anjo”. Pouco tempo depois, em 1726, o Corregedor Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, no capítulo que dedicou ao Convento de S. Francisco de Guimarães, escreveu que “no corpo da igreja, da parte da epistola, abaixo da capela dos Santos Mártires, que está no cruzeiro, fica a capella de Nossa Senhora de Ó, de que são administradores os seus confrades e recolhem seus foros”. Esta localização é preciosa porque localiza o altar abaixo da capela dos Mártires de Marrocos (que então se encontrava no local hoje ocupado pelo altar do Senhor da Paciência), no lugar onde hoje se encontra o Altar de Nossa Senhora da Conceição.

Cortesia de viewphotos

Mas pouco tempo aí permaneceu, pois já lá não estava em 1737. Consta do Tombo das Rendas de Nossa Senhora do Ó, lavrado nesse ano, que esse altar estava então entre o altar de S. João Evangelista e o de Nossa Senhora da Embaixada. Como sabemos por outras fontes que o altar de S. João estava abaixo do altar dos Mártires de Marrocos, no transepto da igreja, e o altar de Nossa Senhora da Embaixada estava levantado no local hoje ocupado pelo altar de Nossa Senhora do Socorro, podemos concluir que em 1737 o altar de Nossa Senhora do Ó estava colocado no local onde hoje está a Árvore de Jessé.
Porque foi feita a mudança?... não o sabemos.

Através do Tombo de 1738, ficámos a saber que no altar dessa Confraria achava-se uma Árvore de Jessé, tendo ao centro a imagem de "Nossa Senhora do Ó", de pé, de vulto, dourada e estofada, com uma coroa de prata. A árvore de Jessé volta a ser referida no inventário da Confraria de 1777, mas dessa vez que qualquer referência a "Nossa Senhora do Ó":
  •  “…um Altar com uma Senhora com uma árvore de Jessé com doze Reis de pau, pintados, e seu retábulo, e uma sanefa de pau, de talha, e dourada, que custou 60$000”. A omissão do nome de Nossa Senhora do Ó foi certamente intencional, indicando que no alto da Árvore de Jessé já não estava a imagem da Senhora do Ó.
Uma pesquisa aturada do arquivo da Confraria não nos forneceu informações adicionais, mas tivemos mais sorte na busca que empreendemos no arquivo da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco de Guimarães. No Livro 6º de termos, a folhas 120v, lê-se que no dia 24 de Abril de 1871 foi presente à Mesa Administrativa da Ordem Terceira o pedido de uma comissão de devotos de Nossa Senhora da Penha, pedindo a imagem de Nossa Senhora do Ó, cedendo o Senhor Lucínio Fernandes da Trindade (director da Philarmónica Vimaranense) para o lugar daquela, a imagem de Santa Cecília. Esse pedido foi deferido. E a imagem de Nossa Senhora do Ó, que outrora coroava a Árvore de Jessé da igreja de S. Francisco, e então se venerava no pequeno altar entre o arco da capela-mor e o arco de acesso à capela de Santa Ana, cedeu o seu lugar à linda imagem de Santa Cecília, que ainda hoje lá se encontra.

Cortesia de votguimaraes 

Não conhecemos as vicissitudes que a imagem da Senhora do Ó sofreu depois de abandonar a igreja de S. Francisco e nem sequer dispomos de qualquer descrição sua. Talvez a documentação em poder da Irmandade de Nossa Senhora do Carmo da Penha possa fornecer elementos que dêem continuidade a esta história». In Fernando José Teixeira, Agenda Franciscana, Venerável Ordem Terceira de São Francisco, Guimarães, 2007.

Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

V. O. T. de S. Francisco. Guimarães. Agenda Franciscana: «Como é sabido, os painéis de azulejos da capela-mor da igreja conventual não estão assinados nem datados, mas a generalidade dos especialistas consideram-nos da primeira metade do século XVIII»


Cortesia de votguimaraes

Milagre do Ladrão. Ponto da Situação
Passou mais um aniversário do “Milagre do Ladrão”, efeméride que era celebrada outrora com missa cantada em honra de Santo António. Já por diversas vezes abordamos nesta "Agenda" a história do "Milagre do Ladrão". As investigações levadas recentemente a efeito forneceram-nos novos elementos, alguns deles de inegável interesse, pelo que conviria fazer agora o ponto da situação.

A mais antiga narração do “milagre”
A primeira narrativa do “Milagre do Ladrão” consta da Novena para “os treze dias do preclaríssimo e sempre piedoso Santo António de Lisboa”, de Frei Fernando da Soledade, publicada em Lisboa no ano de 1711, poucos meses depois do acontecimento. A notícia do milagre correu como rastilho pelo país fora dando origem a uma romaria muito concorrida ao altar de Santo António existente neste convento.

A narrativa do “milagre” segundo a “História Seráfica”
O mesmo Frei Fernando da Soledade, no V tomo da sua “Historia Serafica chonologica da Ordem de S. Francisco na provincia de Portugal”, impressa em Lisboa em 1721; escreveu a págs. 1136 e seguintes que:
  • " ... naõ bastou porèm este exemplo para que os ladrões lhe guardasse [à imagem de Santo António] o respeyto devido, porq' no anno de 1710, em a madrugada de huma terça feyra vinte & nove de Abril, manifestou a luz da Aurora o castigo de outro ladraõ, que pretendia profanar o sagrado da sua Capella ou fosse para roubarlhe o que tinha, ou para despojar a Igreja do precioso, como se presume. Chamava-se Manoel Dias, & os da sua idade já passavão do numero de setenta annos, tempo mais próprio para ajustar as contas da consciência, do que para obrigalla cõ hum excesso taõ grave a mayores dividas. Porem o semblante, que ordinariamente he o mostrador das inclinações, naõ prometia nas suas menores temeridades, porq' infundia pavor. Era natural do Bispado de Coimbra na vida mëdigo, & naõ satisfeyto com as caridades dos fieis, appetecendo por ventura opulências, & abundâncias, se expoz a esta empreza com taõ adversa fortuna, que logo no primeyro encontro se vio prostrado.


Cortesia de votguimarães

  • Está plantada a Igreja do dito Convento [de S. Francisco de Guimarães] de modo que para a banda do Norte fique sepultada na terra em bastante altura, & por essa razaõ a fresta da Capella de Santo Antonio, que existe da mesma parte, não dista do chaõ mais do que seis palmos. Pareceo ao ladraõ fácil por esta fresta a envestidura, e porque os ferros della eraõ delgados, & consumidos da sua muyta antiguidade; E dando mãos ao empenho despregou a rede que defendia a vidraça; porèm naõ proseguio, porque a mesma rede, concorrendo superior impulso que o lançou por terra, o pescou. Por espaço de três varas se foy arrastando debayxo della, & naõ pode mais, porque tinha hüa perna fora de seu lugar, cujas dores o atormentavaõ com grande excesso em competência dos assombros da sua própria confusaõ, vendo que o seu peccado seria brevemente manifesto a todo o mundo. As primeyras creaturas que o achráraõ foraõ certas mulheres, as quaes persuadidas, que algu deste homem o havia posto naquelle estado, tangeraõ o sino da portaria chamando aos Religiosos para que o confessassem. Vendo porèm a rede, & logo hum martelo, & juntamente hum bordaõ ferrado, que por sua grandeza mais parecia instromëto de insultos, do que arrimo de membros debilitados, entenderaõ que era differente o motivo da sua moléstia, a qual o próprio ladraõ lhes insinuou, declarando, q' estava castigado por Santo Antonio. Com muyta piedade o recolhèraõ os Religiosos, & examinando-o com varias perguntas, nunca foy possível ouvir da sua boca mais que as sobreditas palavras, & que queria confessarse. Chamáraõ Cirurgiões para verlhe a perna, os quaes a acharaõ deslocada na coyxa, & a nòs desta recolhida para a parte de dentro, cuja circunstãcia tiveraõ por maravilha.

Cortesia de votguimaraes

  • Parecendo aos Padres que por estar contrito o facinoroso, se compadeceria delle o milagroso Santo, depois de confessado o leváraõ ao seu Altar; porèm como já neste tempo era copioso o concurso da gente, o recolheraõ na Capella mòr; e como nem aqui o podiaõ defender do pezo da multidaõ, o transferiraõ, & puzaraõ no pulpito, para que todos, sem algum lhe tocar o vissem, & também ouvissem este prègador de desenganos os que fossem parecidos com elle nos costumes. Aqui tinha de fronte a sagrada Imagem de Santo Antonio para pedirlhe perdaõ da offensa, & remédio á sua desgraça; porèm o Céo devia estar muyto irado contra a protervia, porque a sagrada Effigie deo a entender que tambë Santo Antonio o estava, sahindo do seu braço direyto tal corrente de agua, que molhando todas petições, & fitas que as prendiaõ ao cordaõ, ensopou grande parte da toalha do Altar, & mais adiante corrèra, se logo a devoçaõ naõ tratara de aproveytar nos lenços, & outras prendas estes milagrosos orvalhos, cujas relíquias obráraõ prodígios. O Juiz de fora que com os seus Officiaes estava presente mandou fazer hum auto para justificaçaõ perpetua da verdade deste portento, o qual continuou atè depois do meyo dia em que se foy deminuindo atè ficarë somente no pulso duas lágrimas que perseveràraõ largo espaço. Toda a Villa festejou no dia seguinte o successo com luminarias; & na quinta feyra alguns devotos com huma plausível solemnidade na mesma Igreja, estando o Senhor exposto ás attençoens Catholicas, as quaes ouviraõ explanar do púlpito as maravilhas mëcionadas com erudiçaõ elegante. Nos três dias seguintes continuáraõ na Villa os festejos de cavallaria, & touros, como proemio da grandiosa celebridade que se havia de tributar, & com effeyto se dedicou ao mesmo Santo no mez de Junho. Só as tristezas ficáraõ para o ladraõ, que os nosso Padres de noyte entregráraõ á Misericórdia para curarlhe o corpo, porèm naõ deyxaraõ de assistirlhe com o remédio d'alma nos dous mezes que viveo; & ultimamente a seu rogo lhe deraõ sepultura no adro da Igreja defronte da porta principal”

O quadro do “Milagre do Ladrão”
Cortesia de votguimaraes

No Arquivo da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco, encontra-se, entre outras peças de arte, uma tela do século XVIII onde se encontram representados, tal como nos azulejos da capela-mor da igreja, os dois episódios do “milagre do Ladrão”: à esquerda, o ladrão coberto com a grade; à direita, o ladrão, o Juiz de Fora e seus oficiais, e os religiosos, recolhendo a água que corre da imagem do Santo. No rodapé do quadro, lê-se:
  • “Retrato de Manoel dias natural de Coimbra; este quis Roubar a Capella de Sto Antº e tendo tirado a Rede da Vidraça cahio com ella e desconjuntou huma perna com que não pode fugir athe pela manhã chegarão humas molheres chamarão a dous Religiosos que o vierão alevantar // Levando á igreja diante de Santo Anftº chegou a elle o doutor Juis de fora e lhe quis fazer algumas preguntas, e neste tempo suou o Santo pelo rosto e mãos, que molhou mta somma de lenços das pessoas que estavão prezentes, em29 de Abril de 1710”.



Datação do painel de azulejos que representa o “Milagre do Ladrão”
Como é sabido, os painéis de azulejos da capela-mor da igreja conventual não estão assinados nem datados, mas a generalidade dos especialistas consideram-nos da primeira metade do século XVIII.
Santos Simões (Azulejaria em Portugal no século XVIII, 1979) integra estes azulejos no ciclo dos Oliveira Bernardes e afirma que teriam sido executados entre 1720 e 1730, enquanto José Meco ("O Azulejo em Portugal”, Edições Alfa, 1989) atribui estes painéis, com reservas, a Teotónio dos Santos, embora admita certas semelhanças com a obra de Manuel dos Santos.
Sendo assim, os painéis teriam sido executados antes de 1726. Se a estes dado acrescentarmos o facto de nestes painéis estar representado o "Milagre do Ladrão" ocorrido em 29 de Abril de 1710, poderíamos concluir que estes azulejos foram executados entre 1710 e 1726.

Cortesia de votguimaraes

Uma análise mais aprofundada do livro de Craesbeeck poderá suscitar algumas dúvidas acerca deste raciocínio. Com efeito, diz o monografo; “a capella-mor desta igreja he muito grave e magestosa e clarissima pellas muitas luses de vidraças, que tem nas paredes das ilhargas, e toda cuberta de rico azolejo. O retabulo he muito bem dourado e a tribuna magestoza; e no arco tem sua grade de pao santo, com que se fecha a dita capella, pella entrada do dito arco; dentro, logo ao pée das grades, tem duas portas, huma de cada banda: a da parte do evangelho vai para a capella da [...]; a da oarte da epistola vai pra a capella do Santo Christo”.
Deste texto podemos concluir que, em 1726 (data da escrita do livro), toda a capela-mor estava coberta de ricos azulejos e que nela estavam rasgadas duas portas, uma das quais (a da parte do evangelho) dava acesso a uma capela que o autor não identifica, mas que só pode ser a capela dos Almadas, no absidíolo norte. Ota, se havia uma porta de acesso a essa capela, não havia o painel de azulejos com o "Milagre do Ladrão”. Daí se concluiria que este painel teria sido executado mais tarde, depois de ter sido eliminada a porta de acesso ao absidíolo do lado do evangelho, o que teria ocorrido depois de 1726, porque, segundo Craesbeeck nessa altura essa porta ainda existia... a menos que Craesbeeck se tenha enganado acerca da existência dessa porta, o que é pouco provável.

Cortesia de votguimaraes

Parece mais plausível que Craesbeeck de facto, tenha visto as duas portas antes da execução dos azulejos, e tenha visto mais tarde a capela-mor "toda cuberta de rico azolejo”, quando essa porta já havia sido eliminada deixando um largo espaço preenchido com representação azulejar do "Milagre do Ladrão”». In Fernando José Teixeira, Belmiro Jordão, Venerável Ordem Terceira de S. Francisco de Guimarães, Agenda Franciscana, Ano III, 4, Abril de 2004.

Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

sábado, 14 de janeiro de 2012

Guimarães. V. O. T. de S. Francisco. Convento de S. Francisco. «O povo do burgo acorreu com dádivas para a sustentação dos frades e para a edificação do seu convento. Frei António do Rosário enumerou alguns testamentos antigos guardados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo»



Cortesia de vot e literaturas

O Primeiro Convento
«… não se conformaram os vimaranenses que os santos frades residissem tão longe e convenceram-nos a instalarem-se noutro local mais próximo da vila. Não repugnou aos frades esta mudança pois tornava-se-lhes mais fácil a difusão da mensagem franciscana e garantir a sustentação de um número crescente de religiosos. Por isso, ainda no mesmo ano da sua chegada fixaram-se num local mais próximo do burgo.

Não é difícil indicar o local escolhido pelos ‘Frades Menores’ termo que, por humildade, S. Francisco escolheu para os seus companheiros; além dos documentos citados na "História Seráfica", outros há no Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, em Guimarães, onde se encontra o topónimo “São Francísco o Velho” que, como se lê no índice do Tombo I dos Testamentos da Colegiada, depois se chamou “Minhotinho”, termo que sobreviveu até ao nosso tempo.
Para lá se mudou S. Gualter, e aí foi sepultado em 1259,ano provável da sua morte. À sua vida, virtudes e milagres dedicou Frei Manuel da Esperança dois capítulos da sua crónica, pelo que será desnecessário referi-los aqui.
O povo do burgo acorreu com dádivas para a sustentação dos frades e para a edificação do seu convento. Frei António do Rosário enumerou alguns testamentos antigos guardados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, onde constam deixas para os Frades Menores de Guimarães, mas outros há que referem legados da mesma natureza.



O Segundo Convento
Refere o cronista:
  • “foi entendendo Guimaraës quanto melhor lhe esteva a vizinhança do conuento, que a distancia delle, assi se resolueo em o trazer pêra parto dos seus muros, donde os religiosos mais facilmente acodissem âs obrigações da caridade christaam”.
Assim, em 23 de Novembro de 1271, na presença do alcaide-mor, Pero Rodrigues, e de muitos homens-bons, o juiz Mem Martins fez doação aos religiosos de S. Francisco “d'hum hospital, por outro nome Albergaria, no qual se recolhião os pobres que passauão de caminho, & por ser administrado pelo gouerno da villa se chamaua o hospital do concelho”. A entrada solene no seu novo mosteiro fez-se dois dias depois, a 25 de Novembro de 1271, tendo sido lavrado o respectivo auto de posse, donde consta que o hospital estava encostado aos muros da vila “prope portam quae vocatur de turre veteri”.

NOTA: Esta informação é fundamental para a datação de ‘cerca nova’; a muralha que circunda a vila de Guimarães. Vê-se que em 1271, recordemos que Afonso III reinou até à sua morte, em 1279, já existia aberta na muralha a “Porta da Torre Velha”. Assim, ao contrário do que geralmente se afirma, a “cerca nova” deve ter sido iniciada no seu reinado, sendo concluída e provavelmente reforçada por ordem do seu sucessor, Dinis I. outros documentos confirmam esta afirmação.


Cortesia de vot

Nessa mesma noite, tentou o Cabido da Colegiada de Guimarães enriquecer a sua igreja apropriando-se do corpo de S. Gualter, há poucos anos falecido e tido já em grande veneração, sepultado em campa rasa no ermitério de São Francisco o Velho. Assim, no segredo da noite, tentaram os cónegos por todos os meios retirar o corpo do Santo da sua humilde sepultura, no que foram impedidos por uma força sobrenatural; milagroso facto que rapidamente constou pelas redondezas e induziu a comunidade franciscana a pô-lo em segurança, primeiro num sepulcro de pedra, depois num relicário que acompanhava os frades sempre que estes mudavam de residência.

Os devotos de Guimarães e região envolvente demonstraram a maior devoção por S. Gualter e pelos religiosos que se fixaram na sua terra, tendo chegado ao nosso tempo numerosos testamentos onde se estabeleciam legados para sustento dos frades e para a obra de construção do novo convento. Por isso mantiveram-se as deixas testamentárias.
A pureza do cristianismo que os frades mendicantes, franciscanos e dominicanos, pregavam o desprezo pela ostentação, e pobreza, a obediência e a castidade que praticavam, constituíam vivo contraste com a prática vivida por grande parte do clero secular da região e, designadamente, pelos cónegos e demais clérigos da Colegiada de Guimarães cuja apetência pelo dinheiro, que não vinha de agora, os documentos testemunham. O desvio dos réditos para as comunidades mendicantes e o ciúme do prestígio que estes granjeavam no seio da comunidade cristã vimaranense, levaram o cabido da Colegiada, com o apoio do cabido catedralício de Braga, a criar aos frades os maiores obstáculos». In Convento de São Francisco, Guimarães, texto de Fernando Teixeira, VOT de São Francisco, Guimarães, 2000, ISBN 972-95176-4-9.


Cortesia de VOT de S. Francisco/JDACT

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Barroso da Fonte. Guimarães e as Duas Cabeças: «Era a última tarefa patriótica de Nuno Álvares Pereira. Partiram. Chegados a Ceuta foram assaltados por uma violenta tempestade que durou três dias. D. João I refugiou-se com a sua frota no ancoradouro de Gibraltar. chegou a haver desânimo e vontade de regressar a Portugal»


jdact

D. Nuno Álvares Pereira
«Entretanto Nuno Álvares Pereira virou-se, decididamente, para a construção da Igreja do Carmo que, segundo um dos seus biógrafos, começou em 16 de Julho de 1389. Só os alicerces levaram 8 anos porque foi preciso, por três vezes, refazê-los, dada a inclinação e má qualidade do terreno. E 33 anos depois de começada, mais propriamente em 1422, foi inaugurada, muito embora alguns frades carmelitas já aí habitassem desde 1392.
Foi por essa altura que D. João I empreendeu a expedição a Ceuta, constituindo o primeiro passo de uma epopeia que levou Portugal a todos os continentes, por mares nunca de outrem navegados.

O rei quis levar consigo os filhos para lhes ensinar os caminhos arriscados do sucesso, em nome de Portugal. D. Duarte que lhe sucederia no trono, o infante D. Pedro (o desafortunado), D. Henrique (fundador da Escola de Sagres) e D. Afonso (filho bastardo que casara com a filha de Nuno Álvares Pereira, de quem ficara viúvo no ano anterior). Os infantes D. João e D. Fernando ficaram por serem pequenos. Naturalmente D. João I não ia sem levar consigo o grande, nobre e leal amigo, que tantas glórias lhe dera pela vida fora, sempre a bem de Portugal. Era a última tarefa patriótica de Nuno Álvares Pereira. Partiram. Chegados a Ceuta foram assaltados por uma violenta tempestade que durou três dias. D. João I refugiou-se com a sua frota no ancoradouro de Gibraltar. chegou a haver desânimo e vontade de regressar a Portugal.
No entanto prevaleceu a vontade que os levara a partir. E, com mais facilidades do que se esperava, tomaram Ceuta. Três dias depois, o inimigo tentou expulsar os Portugueses. E foi Nuno Álvares Pereira que tomou a decisão final de afugentá-lo pela chamada porta de Fez.


Cortesia de manhente e chaves

Reza ainda o relato do biógrafo que vimos seguindo que com grande pena de D. Nuno, el-rei ordenou o regresso da expedição, deixando como governador da praça o conde D. Pedro. Bem quisera D. Nuno trocar os seus títulos pela glória de governar a fortaleza. Mas el-rei não queria separar-se do seu grande amigo, do seu conselheiro, do exemplo que apontava constantemente aos seus filhos. A carreira militar terminara para D. Nuno, circundada com o mesmo nimbo de prestígio e glória com que a iniciara.
Voltou, pois, a Lisboa, onde continuou a velar pelas obras do Convento do Carmo. Aqui estabeleceu residência desde 1422.

D. Afonso
Nasceu em Veiros, em 1370, de uma ligação amorosa entre o Mestre de Avis e D. Inês Pires. Dessa intimidade houve também uma filha, de nome Beatriz que casou, em 1405, com o conde de Arundel (Inglaterra), chamado Tomaz Fritz Alán.
Foi rodeado de todos os cuidados pelo pai que o entregou em Leiria, aos cuidados de Gomes Martins de Lemos que viria a ser conselheiro do rei João I.
O pai legitimou-o após a sua aclamação, como rei, exactamente depois de haver isenção do voto a que se obrigara como Mestre de Avis.
Por essa altura havia uma senhora que pelos dotes da natureza, qualidade ilustre da sua pessoa e por ser herdeira de uma Casa rica, era sem controvérsia, o maior casamento do reino. D. João I lembrou-se, em primeira instância, de casá-la com seu filho legítimo, D. Duarte, herdeiro da coroa. Tratava-se da filha de Nuno Álvares Pereira, amigo das horas de glória do rei. Só que desta vez, Nuno Álvares Pereira, iria contrariá-lo. De facto D. Nuno rejeitou a proposta apresentando como principal e bem orientada razão, o desejo de querer estabelecer uma grande Casa em que pudesse aproveitar a opulência do seu Estado, isto é, não quis que a filha casasse com o futuro rei de Portugal, porque, se tal acontecesse, toda a sua fortuna iria ter à Coroa. E D. Nuno preferia que essa fortuna constituísse uma espécie de partido político, em alternativa à coroa. Isto é: se a coroa entrasse em crise, poderia, como veio a acontecer em 1640, fornecer uma solução séria e abrangente.

Cortesia de lusophiawordpress

Preferia D. Nuno que o casamento da filha se fizesse com D. Afonso e não com D. Duarte. E D. João I ficou encantado porque, afinal, era essa a melhor solução para si e para o próprio filho, de quem tanto gostava. Logo D. Nuno renunciou ao condado de Barcelos (de que era o 7º conde) a favor do genro que passou a ser o 8º titular. Barcelos tinha sido o 1º condado em Portugal, na pessoa de D. João Afonso de Menezes, mordomo-mor de D. Dinis.
O contrato foi celebrado em 1 de Novembro de 1401, em Frielas, sendo tabelião João Aires. O casamento realizou-se em 8 desse mesmo mês e ano. A fundação da Casa de Bragança, data, pois, deste casamento ou seja, de 8 de Novembro de 1401. E constituiu seu património tudo aquilo que os noivos receberam como dote:
  • «imensos privilégios e terras por parte de D. Afonso e a maior fortuna do reino por parte de D. Beatriz Alvim. Praticamente todas as terras de Entre-Douro-e-Minho passavam para a Casa de Bragança que logo fixou residência em Chaves».
Entretanto o casal pensou em desenvolver essa residência em Trás-os-Montes, sede do vasto domínio geográfico que lhe pertencia, procedendo, de igual modo, com Barcelos, sede de muitos outros haveres. Quer em Chaves, quer em Barcelos, cuidou D. Afonso de construir confortáveis habitações para a família e para a muita criadagem que tinham ao seu serviço. Em Chaves prepararam a residência contígua ao castelo e aí viveram até 1414, ano em que faleceu, de parto, D. Beatriz. Aí nasceram os três filhos do casal. E aí viria a falecer, em 1461, D. Afonso». In Barroso da Fonte, Guimarães e as Duas Caras, Editora Correio do Minho, 1994, ISBN 972-95513-8-3.

Cortesia de Guimarães/JDACT

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Guimarães. Paço dos Duques de Bragança: Parte IV. «No seu conjunto, e mesmo nos seus pormenores, esta obra resulta estranhamente deslumbrante, não tendo parceiro, perante o seu carácter artístico e as construções senhoriais do seu tempo, em todo o território da Península Ibérica»

Cortesia de monumentos e hardmusica

Paço dos Duques de Bragança
Guimarães
«O padre Torcato Peixoto de Azevedo, nas suas “Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães”, escrevia em 1692 acerca dos Paços ducais:
  • «Neste distrito (da vila velha de Guimarães) para a parte do nascente, mandou o Sr. D. Afonso, Duque de Bragança, fundar um palácio, na magestade sem segundo, e o primeiro na arquitectura, feito em quadra, com tão insigne arte, que deixa suspenso o discurso, e a vista embaraçada na repartição da sua fábrica: não se chegou a aperfeiçoar de todo por se acabar primeiro a vida do seu fundador. Nele assistiram alguns dos seus descendentes, de que foi o último o Sr. D. Duarte, e nele acabou a vira santamente a Senhora D. Constança de Noronha, mulher do primeiro fundador…».
Cremos ser este o primeiro autor antigo que afirmou não terem os Paços ducais de Guimarães chegado a concluir-se. Na esteira do padre Peixoto o repetiram e afirmaram também o padre António de Carvalho da Costa na sua “Corografia Portuguesa” ( 1706) e frei Manuel da Mialhada, em 1771.
Em 29 de Dezembro de 1761 lavrou-se um auto de medição dos Paços, onde se encontram notícias curiosas e que, apesar de já conhecido, convém arquivar aqui:
  • «Item sendo medido este Palácio e Paços pela parte do Norte tem de comprido 52 varas e meia; confronta desta parte com olival e igreja de S. Miguel do Castelo; tem por esta banda um alpendre assentado em oito pilares de pedra, para cuja parte tem umas portas fronhas com suas escadas de pedra, entrada do celeiro dos mesmos Paços, e medidos pela parte do poente, tem de largo do Norte a Sul 52 varas e meia; parte com o olival da dita igreja de S. Miguel do Castelo; tem por esta parte duas portas, entradas das lojas, e uma delas é larga e tem por cima um alpendre telhado, assentado em dois pilares de pedra, e sendo medidos pela parte do Sul, tem do nascente a poente 52 varas; confronta com o muro das freiras de Santa Teresa do Carmo, para cuja banda tem muita quantidade de janelas, feitas ao tempo antigo, com suas cruzes de pedra nos largos delas, e medidos pela parte do nascente, tem de Norte a Sul 53 varas, parte e confronta com o muro da vila e rocio que possui Torcato Luís, que fica entre o dito muro e os ditos paços, e por esta banda teem estes paços três torreões de pedra, e no primeiro torreão tem um escadório de pedra, e tem por esta banda muitas janelas e varandas de pedra e tem cruzes de pedra pelo meio e algumas estão tapadas, e outras abertas, entre as ditas janelas estão muitas gelosias pequenas, umas e outras abertas, e dentro destes paços tem o arco de entrada para o lugar onde foi a capela, e o dito arco está firmado sobre seis colunas de pedra de jaspe ou mármore, tem várias chaminés e arcarias, e tem três salas cobertas de telha, que actualmente servem de celeiro, e uma cosinha sobradada com suas janelas para a parte de dentro do palácio, e tem quatro lojas, duas grandes e duas pequenas que servem de celeiro de vinho, e mais despejos…».

Cortesia de monumentos e jornalnorte

Em 1881, escrevendo do Paço dos Duques de Guimarães, elucidava o padre António José Ferreira Caldas:
  • «…está em parte desmoronado e em parte servindo de quartel militar, onde teem estado, desde os princípios deste século (1807), os seguintes corpos militares: o batalhão 2.º de Olivença; os regimentos 15, 21 e 18 ; o batalhão 14 ; os regimentos 13 e 6 ; o batalhão 7 : os regimentos 6 e 3. E desde 15 de Maio a 26 de Setembro de 1862, por ocasião dos movimentos populares que se deram no Minho, com o título de Maria Bernarda, vieram a esta cidade: infantaria 10 e 15; caçadores 9 e 7 e infantaria 16. Este edifício, com vastas e agigantadas proporções, composto de quatro grandes corpos, que formam no centro um espaçoso pátio, não ostenta espécie alguma de ornatos arquitectónicos ; a não ser o pórtico, o qual dava entrada para a grande sala régia, e as duas formosas e elegantes janelas, que se rasgavam esbeltas e donairosas, ao fundo da mesma, Estas janelas, que são um valioso exemplar do gótico puro, não abarcam menos de sete metros de alto, com mais de três de largo ; pena é que uma delas esteja actualmente defeituosa, por lhe faltar parte do caixilho respectivo. O pórtico, formado de três arcos de ogiva, pousados sobre outras tantas colunas de mármore branco, deitava outrora para a galeria do andar nobre do palácio; e hoje cai sobre o pátio, por se haver desmoronado a fachada deste lado interior. Do lado de fora, para nascente, é esta fachada a mais notável do edifício; formando uma frontaria de três corpos salientes, ligados por outros dois reentrantes. Os das extremidades, terminavam por uma larga varanda, sustentada sobre grandes cachorros de pedra; restando destas uma com as portas, que davam saída para ela, e aparecendo da outra apenas a cachorrada. O corpo central é quase todo ocupado pelas duas soberbas janelas. Sobre este lado, e campeando como se fossem elegantes colunas, simetricamente dispostas, levantam-se altaneiras quatro chaminés de tijolo, muito bem fabricadas, e ainda hoje em perfeito estado de conservação. A fachada sudoeste, rasgada por janelas de diferentes tamanhos, e dispostas muito irregularmente, serve agora de quartel militar a um destacamento: e pela sua vastidão, já tem acomodado em si grandes regimentos. As duas fachadas restantes, apenas hoje se levantam num andar térreo, e nada mais […] Por várias reformas e restaurações tem passado este edifício; sendo uma das mais dispendiosas a concluída a 1 de Janeiro de 1819. Este palácio foi considerado monumento histórico de segunda classe pela Real Associação dos arquitectos civis e arqueólogos portugueses, em assembleia geral de 30 de Dezembro de 1880, cujo extracto se publicou no Diário do Governo nº 62 do ano de 1881; onde se diz que este monumento é um vastíssimo edifício muito interessante para o estado das habitações dos grandes senhores e dos costumes daquela época …».

Cortesia de monumentos e jotaclicks

Como se vê, o Pr. Ferreira Caldas deixou-nos nestas linhas, que acabamos de transcrever, uma descrição, apesar das suas imperfeições, talvez a mais pormenorizada que dos Paços nos ficou, no século passado.
Em 1886, Vilhena Barbosa repetia, quase pelas mesmas palavras, o que pouco antes escrevera o Pr. Caldas, Apenas o corrige na afirmação do que o portal gótico dava acesso a uma sala régia, quando na verdade o era da capela. E menciona uma alpendrada que corria em todo o comprimento da fachada nordeste.
Esta é, ligeiramente esboçada, e quanto o permitem os poucos documentos até agora conhecidos, a história dos grandiosos paços que fez construir em Guimarães a magnificência do 1º Duque de Bragança.

«No seu conjunto, e mesmo nos seus pormenores, esta obra resulta estranhamente deslumbrante, não tendo parceiro, perante o seu carácter artístico e as construções senhoriais do seu tempo, em todo o território da Península Ibérica». In Boletim 102, Dezembro de 1960, DGIMN, Paço dos Duques de Bragança, Guimarães.

Cortesia do IGESPAR/JDACT