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sábado, 3 de junho de 2017

A Flor e a Foice. Rentes de Carvalho. «Demorou três dias antes que o rei acudisse com a tropa e, enforcando muita gente, puniu o que não soubera prevenir»

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«(…) Primeiro rei a beneficiar das enormes riquezas provenientes da Índia, Manuel I, com o entusiasmo cândido dos novos-ricos, quis, através dum gesto espectacular, mostrar-se igual, se não superior, aos outros poderosos soberanos da Europa e chamar a si a boa vontade do papa. De Lisboa partiu em 1514 uma embaixada constituída por centenas de pessoas e cavalos, todos eles derreados sob o peso dos ornamentos de ouro e de pérolas. E porque desde a Antiguidade a Itália não tornara a ver elefantes, Manuel I mandou igualmente um elefante, sobre o qual ia o pontifical mandado de presente ao Santo Padre. Atrás do elefante uma ouça domesticada e dois leopardos em jaulas. Depois fidalgos, bispos. Embaixadores, serventes, escudeiros, todos enfeitados, emplumados, deslumbrantes de riquezas, fazendo pasmar boa terça parte da população de Roma, a qual se juntara nas ruas a ver passar o préstito.
Chegada a procissão em frente do castelo de Sant'Angelo, o papa, com os seus cardeais, apareceu na varanda a recebê-la; e o elefante, molhando a tromba, como hissope, numa bacia de água perfumada, aspergiu por três vezes, primeiro o papa, depois o povo. Singular cerimónia, extravagante sacerdote! Mas o embaixador voltou de mãos vazias, ou quase, e o rei, inconsequente e dúbio na sua política, oscilando entre o bom senso e a ambição, julgou pagar com a expulsão dos judeus o preço do império da Península. Tal como em Espanha, o ódio aos judeus era a mazela tradicional do povo português, e já em 1361 as cortes pediam ao rei Pedro que não desse lugar aos judeus de sua terra de onzenarem, exigindo mais tarde que estes se distinguissem pelo traje e que não lhes fossem dados cargos públicos.
Decidindo pela expulsão pura e simples, Manuel I ordenou que se juntassem em Lisboa os judeus de todo o país, dando-lhes prazo de embarque. Vinte mil judeus esperavam as naus, contando hora a hora o prazo da redenção. Esse prazo correu sem virem as naus; por isso foram todos convertidos à força, porque os teimosos ficavam cativos. Esse baptismo forçado, causa de tantas desgraças posteriores, revela a política dúbia e falsa de um governo que não tinha a coragem purista do castelhano. Desumanos, os actos eram ao mesmo tempo cobardes, pois o cronista diz, com franqueza, que se procedia assim com os judeus por serem párias, sem rei nem terra, não se podendo fazer outro tanto aos mouros, com medo das represálias dos soberanos maometanos.
Deste episódio trágico ficou-me na lembrança a descrição quase terna que dele nos fizera uma professora: os judeus tinham matado Nosso Senhor e depois alguns tinham vindo para cá. O povo, então, pediu ao rei que os mandasse embora, mas eles preferiram ficar e foram todos baptizados. Da terrível matança que, começada no dia 19 de Abril de 1506, durou três dias e duas noites, nem pio. Pelas contas foram assassinados 2300. Os judeus eram a causa da fome, eram a causa da peste! De cruz alçada, saindo da igreja, os padres vinham clamando Heresia! Heresia!, concitando o povo à matança (...) Traziam os judeus às manadas de quinze ou vinte, amarrados, feridos, semimortos, e lançavam-nos aos montes nas fogueiras (...) Ao saque de Lisboa tinham corrido as tripulações dos navios do Tejo, mais de quinhentos marinheiros flamengos e outros, e na faina do roubo e da matança andavam gentes de todas as nações e cores, invadindo as casas, violando as mulheres e incendiando.
Demorou três dias antes que o rei acudisse com a tropa e, enforcando muita gente, puniu o que não soubera prevenir, mas nada fez para evitar que os acontecimentos de Lisboa se repetissem periodicamente em quase todo o país». In J. Rentes de Carvalho, Portugal, A Flor e a Foice, Quetzal Editores, Lisboa, 2014/2015, ISBN 978-989-722-146-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A Flor e a Foice. Rentes de Carvalho. «Mas não só o Gama. Depois dele, Francisco Almeida, Afonso Albuquerque e outros vice-reis apareciam como gente da mesma estirpe. Sanguinários, fanáticos...»

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«(…) As descrições que faz das atrocidades, dos crimes, das ladroeiras e das selvajarias cometidas pelos grandes e pequenos homens dos Descobrimentos, extraordinária empresa que pouco mais durou que cinquenta anos, igualarão as feitas por outros historiadores sérios sobre as façanhas igualmente heróicas doutros povos. Espanhóis, holandeses, ingleses e franceses não se comportaram mais santamente. Mas isso pouco importa aqui. O que nos deixou de boca aberta foi a disparidade entre aquela verdade e a que nos tinham dado os compêndios, os mestres e as intermináveis comemorações dos Descobrimentos, da Restauração, do Império, do Dia da Raça e do aniversário de Camões.
Vasco da Gama perdia aquele ar de grão-senhor comedido, protector do indígena: um terramoto agitou o mar da Índia quando o Gama pela segunda vez o trilhava; e o almirante, imagem da bravura épica do povo português, acreditou e disse que até as próprias ondas tremiam com medo nosso, com medo dele!
Para começar, ordenou o saque de uma nau cheia de peregrinos que iam ou vinham de Meca, trezentos homens, mulheres e crianças e, acabado o saque, carregou-a de pólvora e fê-la explodir. Depois intimou o rajá de Calecute a que expulsasse as famílias mouras da cidade. Não queria expulsar? Vasco da Gama ao fundear diante da cidade apresara um número considerável de mercadores do porto, mandou cortar-lhes as orelhas e as mãos, e amontoados num barco, foram com a maré varar na praia, levando a resposta à recusa do aflito príncipe.
Mas não só o Gama. Depois dele, Francisco Almeida, Afonso Albuquerque e outros vice-reis apareciam como gente da mesma estirpe. Sanguinários, fanáticos, movidos pelo duplo motor da fé e do lucro. Dê-se-lhes esse desconto: não era só a ganância da pimenta, do ouro, dos diamantes e o aumento do nome e honras do rei, mas igualmente a pressa de pôr o Oriente de joelhos diante da Santa Madre Igreja.
O domínio português, escreve Oliveira Martins, adquiriu logo de começo o carácter duplo que jamais perdeu, apesar de todas as tentativas posteriores de regularização e de ordem. Era no mar uma anarquia de roubos, na terra uma série de depredações
sanguinárias (...) A pirataria e o saque foram os dois fundamentos do domínio português, cujo nervo eram os canhões, cuja alma era a Pimenta.
Demorando a recobrar do choque, a História passou a ter para mim interesse secundário e, desde então, não faço esforço para reprimir a irritação e o pessimismo que sinto perante os grandes feitos. Bondade de soberanos, inteligência de presidentes, coragem de generais, espírito de sacrifício de ministros, argúcia sobrenatural de diplomatas e políticos, guerras de seis dias e guerrilhas de seis anos, tudo isso me dá a calma daquele que, sabendo-se intrujado, sabe igualmente que a sua única e fraca defesa só pode ser a dúvida.
Hoje como ontem. os cronistas purgam a realidade, enfeitam-na com guirlandas de boas intenções e ideais, ao mesmo tempo que os fotógrafos das cortes e das presidências se põem de cócoras em busca do ângulo mais favorável. Depois uns e outros vão meticulosamente retocando, apagam a crueldade, as expressões alarves, a estupidez, a hipocrisia, a ganância, o cinismo, e apresentam ao povo nome e para benefício de quem tudo é feito, a imagem de Épinal que satisfaz as maiorias silenciosas e adormecidas». In J. Rentes de Carvalho, Portugal, A Flor e a Foice, Quetzal Editores, Lisboa, 2014/2015, ISBN 978-989-722-146-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

terça-feira, 4 de abril de 2017

A Flor e a Foice Rentes de Carvalho. «De Pedro, o Cru, já antes citado, alargava a biografia horrorosa: (...) tinha a paixão da justiça: era nele uma mania, como no seu avô fora a guerra: não prescindia de julgar todos os delitos»

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«(…) Muito obrigado. Não vale a pena. Era só para ver uma coisa..., e em pontas de pés saímos dali direitos a um alfarrabista que sim senhor, meus senhores, tinha a História de Portugal de Oliveira Martins, em dois volumes, décima primeira edição, 1927.
Embora descobríssemos logo a seguir que a História se estudava à luz de concepções que pouco tinham a ver com as de Oliveira Martins, o qual, para nós, cometera o pecado mortal de ignorar Marx, seu contemporâneo. Mesmo assim, que inesquecível leitura! Aquele retrato de Portugal parecia-nos mais conforme do que as hagiografias que nos tinham obrigado a aceitar e, com o sentimento de que fazíamos obra revolucionária, copiávamos frases que, secretamente, distribuíamos aos mais novos.
Nos séculos XII e XIII Portugal é um certo território, propriedade dum certo príncipe: donde vem?, quem é?, pouco importa. O conde Henrique era francês. Assim, a época da primeira dinastia desmente por todos os lados, e de todas as formas, a ideia duma raça, possuindo, dum modo mais ou menos definido, a consciência da sua existência colectiva. Quem era Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal? Era audaz, temerário até, pessoalmente bravo, qualidades nem tão comuns no tempo, como a muitos acaso pareça (...) mas era seco, astuto, friamente ambicioso, sem quimeras nem ilusões. Submisso e humilde quando se achava vencido, subscrevia todas as condições, aceitava todas as durezas; para logo mentir a todas as promessas, rasgar todos os tratados, com uma franqueza ingénua, uma simplicidade natural, que chegavam a espantar a própria Idade Média.
De Pedro, o Cru, já antes citado, alargava a biografia horrorosa: (...) tinha a paixão da justiça: era nele uma mania, como no seu avô fora a guerra: não prescindia de julgar todos os delitos. Os criminosos vinham à corte desde os remotos confins do reino. Quando algum chegava, manietado, e o rei comia, levantava-se pressuroso da mesa, e trocava a vianda pela tortura. Prazia-se em ajudar e dirigir os algozes; indicava os expedientes e processos para obter a confissão dos réus. Nunca abandonava o açoute: enrolado à cinta em viagem, tomava dele, e por suas mãos castigava os facínoras que no caminho lhe traziam.
Valendo-se duma citação de Alexandre Herculano, Oliveira Martins despachava assim o retrato de três reis da primeira dinastia: o rei Dinis foi um avaro, Afonso IV um homem de juízo, Pedro I um doido com intervalos lúcidos de justiça e economia. Dali passava aos Descobrimentos. Ora nós, jovens, não tínhamos sido insensíveis ao trovejar da epopeia de Camões e sem excepção, sabíamos de cor os primeiros versos de Os Lusíadas. Além disso, o hino nacional, que cantávamos pelo menos todos os sábados de manhã, era igualmente belicoso. Pense cada qual o que quiser, não deixa de ser realidade que, sobre esse período particular da História, nos encontrávamos razoavelmente endoutrinados. As façanhas dos nossos marinheiros e soldados a caminho do Oriente eram infinitamente mais excitantes do que as lamechices de Texas Jack, Jesse James e os restantes fora-da-lei do faroeste.
Ora o historiador, com um simples parágrafo, limpou-nos a cabeça das teias do heroísmo e, pelo menos no que me diz respeito, vacinou-me contra as versões oficiais passadas, presentes e futuras dos acontecimentos históricos: navegadores (...) a maneira como nos aventurámos ao mar retrata ainda a nossa fisionomia colectiva: fomos prudente e pacientemente ao longo das costas africanas, ou de ilha em ilha, no oceano, caminhando passo à passo. avançando sempre, tenazes, mas jamais temerários». In J. Rentes de Carvalho, Portugal, A Flor e a Foice, Quetzal Editores, Lisboa, 2014/2015, ISBN 978-989-722-146-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

sábado, 31 de dezembro de 2016

No 31. A Ira de Deus sobre a Europa. J. Rentes de Carvalho. «Pessoalmente, talvez me proponha um objectivo mais modesto, como o de viajar em 50 linhas de caminho-de-ferro, ou o de percorrer toda a costa da Noruega»

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«Quando, depois de cumprida a penitência que me espera no Purgatório, o Altíssimo mandar os seus acólitos informar-se do meu desejo sobre a próxima reencarnação, vou requerer que me mandem de novo para a Holanda. Desta vez, porém, não como estrangeiro, pois, mesmo renascido, não me vejo capaz de suportar outros 50 anos, como os que agora passei, a observar um povo cujo comportamento me perturba o entendimento e me mantém num estado de permanente transtorno, muito semelhante às inquietas mudanças do clima do seu território. Desejo, pois, renascer holandês, pouco se me dando de vir de novo a ver a luz em Groningen ou no Limburgo, já que a experiência prova que nem todos os moradores do Norte são soturnos, nem a generalidade dos que se encostam à Bélgica demonstra uma permanente alegria de viver. Quero, sim, renascer mediano. Não na postura, pois nessa me agradará o metro e noventa, mas nos desejos e nas inclinações. Espero ver-me conformista, respeitador da lei, com ideias sérias sobre a religião, a minha e a alheia, e, quando conveniente, saber mostrar que me interessa a política, me preocupam as crises parlamentares, que sofro com as desigualdades e as misérias do mundo. Também quero praticar um desporto, de preferência um dos que requerem uniforme e equipamento. Talvez o ciclismo. Porque sempre me enternece a vista dos ciclistas que, de camisolas garridas e calções reluzentes a apertar-lhes as coxas, elmos aerodinâmicos, luvas e bidons, pedalam desenfreados no pólder, imaginando-se no Tour.
Espero ainda que a natação e a patinagem no gelo se me tornem uma segunda natureza e, quando em companhia, mesmo sem mais informação que a de um ou outro folheto, debite opiniões definitivas sobre a arte, a cultura e os vinhos. Passadas as febres da juventude, na minha actual existência tenho-me mostrado singularmente sedentário. Daí a esperança de que, como bom e mediano holandês, na futura reencarnação viaje mais. Talvez seja mesmo o que eu de verdade apreciaria, não somente para ver e visitar, mas impulsionado por uma finalidade concreta. Pouco depois da minha chegada aqui, já noutra oportunidade o relatei, conheci um holandês que, ao gosto pelas viagens, acrescentava o propósito de bater o recorde estabelecido pelo seu progenitor, o qual, com documentos, provava ter dançado em 22 países. Em meados de Janeiro de 1989 os jornais relatavam a façanha de um Roel Hendriks que, pelo gosto de contactar com as populações locais e conhecer as respectivas culturas, tinha atravessado a nado nada menos de 39 rios, cada um mais imponente do que o anterior: o Amazonas, o Orinoco, o Ganges, o Volga, o Tigre, o Zaire, o Iang-Tsé, o Mississípi... Recentemente li sobre uma jovem que igualmente viaja pelo interesse de contactar outras culturas, e a esse louvável objectivo acrescenta o de querer ver in loco como são as duzentas e tal nações do Planeta.
Pessoalmente, talvez me proponha um objectivo mais modesto, como o de viajar em 50 linhas de caminho-de-ferro, ou o de percorrer toda a costa da Noruega. Seja como for, viajarei com um fim e não, como até agora, sem plano nem objectivo, e sempre a temer as multidões que atravancam os monumentos e os museus. Também me quero diferente no fascínio pelas iguarias. Sem ser o que se chama um gastrónomo, tenho certamente dedicado um tempo excessivo aos prazeres da mesa e arregalam-se-me os olhos à perspectiva de uma lagosta à l’armoricaine, de uma choucroute, do dourado de um bacalhau com natas. Tenho, mea culpa, feito viagens com o único propósito de saborear um arroz de pato. Desses pecados me arrependo e desde já prometo melhoras. Sobriamente me contentarei com um hutspot. Comerei muito pão, beberei muito leite e cerveja, os meus destemperos ficarão por uma piza de vez em quando». In J. Rentes de Carvalho, A Ira de Deus sobre a Europa, Quetzal Editores, 2016, ISBN-978-989-722-338-9.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

sábado, 26 de novembro de 2016

Ernestina. Rentes de Carvalho. «Resignou-se à tarimba de Infantaria num regimento do Porto. Soldado raso. Má vida, mas melhor e mais sua do que a que teria sob o jugo do pai a trabalhar de sol a sol, porque voltar…»


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«(…) Se o velho fechava os olhos ao vício da caça, porque os coelhos e as perdizes que o filho matava compensavam de sobra a despesa dos cartuchos, não lhe perdoaria se viesse a saber que ele andava pelas tabernas a esbanjar dinheiro em rodadas. Ou que perdia tempo em namoros. Um Cavaleiro esse o apelido que os Carvalhos do Cabeço e de Carviçais tinham herdado de um longínquo antepassado de Mós, meio fidalgo pobretanas para uns, salteador na boca doutros, um Cavaleiro mourejava, apalavrava casamento com uma rapariga de gente boa, tinha filhos, respeitava Deus, não fazia dívidas, não pedia favores a ninguém.
Namorada já ele arranjara, mas ao rapaz generoso e festejeiro que era, o saco de trigo desviado de vez em quando e a venda, à socapa do pai, de algum coelho ou perdiz, não devem ter parecido perspectivas de futuro que valesse a pena. Infelizmente, para o negócio não tinha jeito e ir à jeira para alguém que lhe pagasse em contado estava fora de questão: nem o orgulho lho consentiria, nem o pai ia deixar que lhe fugissem os braços de que precisava para a lavoura. Tanto mais que a mulher e as duas filhas mal podiam com a lida da casa e do gado, e o outro rapaz, que era mole da cabeça, só servia para pastorear as ovelhas. Se tivesse vocação e um espírito obediente, poderia ter achado remédio no seminário, que dava cama, mesa, educação e a garantia de uma vida de conforto. Mas inquieto de nascença, quando em 1880 lhe chegou a obrigação de assentar praça, foi de abalada à longínqua Lisboa para se alistar na Marinha. E lá, para seu desconsolo, não o quiseram, dando-lhe por razão que quem só tinha calcorreado montes nunce conseguiria ganhar pé de marinheiro. Adeus sonhos de navegação e viagens ao Oriente.
Resignou-se à tarimba de Infantaria num regimento do Porto. Soldado raso. Má vida, mas melhor e mais sua do que a que teria sob o jugo do pai a trabalhar de sol a sol, porque voltar, e isso tinha-o com certeza decidido logo, nunca mais voltaria. Nos fins do ano, talvez, pelo Natal. Ou no Verão, para as festas e a caça. Da sua história desse tempo só ficaram testemunhos orais, nem todos fidedignos. É pouco provável que, sem saber nadar, se tenha atirado ao Douro para acudir a uma mulher. Também deve ser fábula que, durante uma das frequentes revoluções de então, tenha tido o sangue-frio de, antes de ela explodir, arremessar de volta para o inimigo uma granada que caíra na sua trincheira. Mas descontadas as fantasias dos parentes e amigos, não resta dúvida que era corajoso, pois o condecoraram por ter salvo uma família num incêndio, e ganhou um louvor na ordem do dia pela abnegação que demonstrara ao ajudar os náufragos dum navio encalhado nos penedos da Foz. Como era quase geral para quem nascera nos montes, não tinha aprendido a ler nem a escrever, e ao seu orgulho deve ter pesado o estigma. Não lhe escapou também que, na vida complexa da cidade, o analfabeto só encontrava lugar nos degraus mais baixos da escala social.
Sem oportunidade nem dinheiro para frequentar a escola, usando uma cartilha que o capitão lhe tinha dado, ensinou-se ele próprio as primeiras letras. Comprou depois pena e tinteiro, uma caixa de aparos, um caderno, e morosamente foi desenhando as letras. Momentos de alegria tão intensa que nunca ele se cansaria de os evocar e, contados por outros durante os serões da minha infância, ganhavam um simbolismo lendário. Apurou-se na leitura e na escrita, e de tal modo o maravilhou a descoberta que pela vida fora lhe continuaria crescendo a paixão pelos livros e o saber. Embora o pré fosse uma miséria, cuidava de pôr de lado o bastante para comprar o jornal ao domingo, que tinha mais páginas e suplementos». In José Rentes de Carvalho, Ernestina, 2001, Quetzal Editores, Lisboa, 2009, 2014, ISBN 978-989-722-171-2
Cortesia de QuetzalE/JDACT

Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia. Rentes Carvalho. «Mas...! Ela fechou a bolsa, levantou-se, tocou-lhe no ombro a impedir o movimento que ele fazia para se levantar também, e saiu para a rua»  

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Um amor em Sevilha
«(…) Quando se encontraram para o almoço, como de costume, ficou com a impressão de que ela pressentia qualquer coisa, mas não teve coragem de falar. Nem no dia seguinte, um domingo, pela primeira vez depois de muito tempo voltara a haver tourada e não quisera estragar-lhe a alegria. Amanhã abro-me com ela. Mas só o conseguiu na quinta-feira, depois de alguns suspiros, aflito por não saber como começar. Ela ouviu-o calmamente, sem interromper, sem a cena ou os gritos para que se tinha preparado. Séria, os olhos na mesa, garantiu-lhe que compreendia, sabia bem qual era o seu destino. A falar verdade não tinha acreditado que pudessem chegar a viver juntos. Pois ia agora ele, um senhor, amasiar-se com uma mulher da vida? Alguma vez se tinha visto isso? Nos livros, sim, nas fitas de cinema. Foi ele que lhe segurou a mão, sentindo-se culpado e reles, tropeçando nas palavras para confessar o que no íntimo mais o preocupava: com certeza a mulher tinha tratado logo do divórcio, era bem possível que ao receber a carta, vendo-se abandonada, tivesse arranjado um amante. Afligia-o também não saber o que tinha acontecido ao menino. Não é a primeira vez, sabes? - disse ela, procurando qualquer coisa na bolsa. Ele abriu o isqueiro para lhe dar lume, supondo que procurasse os cigarros, e só então, com um sentimento indefinível onde se misturavam a vergonha, a mesquinhez, a inquietude e o remorso, reconheceu que ela lhe estendia o envelope da carta que nunca tinha mandado. Mas...! Ela fechou a bolsa, levantou-se, tocou-lhe no ombro a impedir o movimento que ele fazia para se levantar também, e saiu para a rua.

Lord William
Lord William B. chegou a Lisboa na Primavera de 1948, vindo de Itália num dos primeiros paquetes que depois da guerra reiniciaram a ligação entre Génova e o Rio de Janeiro. A sua bagagem causou pasmo, foi motivo de conversa para os estivadores que a tiraram do porão e os mirones que a viram passar. É certo que lord William, como toda a gente, viajava com malas. Apenas muitas mais. Mas às malas seguiram-se caixas, caixotes, grades e arcas, baús, embalagens do tamanho de um quarto, tudo isso formando no cais um montão imponente. Encheram-se três vagões. Com o que ainda sobrava de miudezas carregou-se o camião de um homem que julgou que teria de levá-las ao Estoril, dois passos, e se enfureceu ao descobrir que a viagem era para os confins do Douro, naquele tempo dois dias para a ida, se as estradas estivessem boas, e outros tantos de volta. O desembarque e o despacho tinham sido rápidos e, pelo menos na aparência, sem encrencas na alfândega, a ponto que no entreposto se imaginou, e depois se afirmou, que o lord era primo direito do rei da Inglaterra». In José Rente de Carvalho, Os lindos braços da Júlia da farmácia, 2011, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-564-967-1.

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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O Meças. J. Rentes de Carvalho. «Serras. Despenhadeiros. Pedregulhos. Acolá um tufo de verde, além um riacho, caminhos onde há muito não passa alma, silvedos, vertentes, penedias que semelham muros de fortaleza»

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«(…) Lentas, como de enterro, um sino badala pancadas que não são de relógio a dar horas nem das Trindades, pois o sol vai alto. Não sabe onde está, quem é ou o que o trouxe, mas nada o surpreende ou transforma, sente sua a vestimenta grossa de feitura antiga, os tamancos, o gorro de lã, as mãos calejadas. Ignora o que o trouxe, donde vem ou porque pára defronte daquela casa de paredes toscas, janelas estreitas, um fumo de lareira a subir da telha-vã. Estaca e aguarda como se lho ordenassem, ouve o rangido, vê que uma das janelas se abre, puxada por mão invisível. Demora a que a mulher se mostre por inteiro, anciã de cabeio revolto, olhos desorbitados, o rosto uma estampa de desespero, os lábios torcidos num esgar. Coberta do que parece um sambenito de pano encardido, debruça-se, aponta com o braço descarnado, ruge um mandamento: diz à minha filha que vou morrer! E de súbito, como se tivesse caído num alçapão, some-se da janela. Queda-se petrificado. Nada reconhece do lugar nem do tempo, o tanger do sino vai esmorecendo, os vultos desapareceram. Que poder traduziu da língua desconhecida o recado para que ele entendesse? Para que foi chamado? Terá sido sonho em que se perdeu, laço que o prende à estranha e ao tão assombrado lugar? Quer esquecer e não pode. Seca os olhos na mão, tosse a desfazer a gosma que lhe corta o ar. Ali no alto, um escuro de breu, em momentos assim perde o entendimento e, feito outro, encarna neste, naquele, incapaz de distinguir se viu, se ouviu, sem força que o defenda, obrigado a assistir e a recordar.
Serras. Despenhadeiros. Pedregulhos. Acolá um tufo de verde, além um riacho, caminhos onde há muito não passa alma, silvedos, vertentes, penedias que semelham muros de fortaleza. Um longe de terras de escasso pão e de inocência medieva, gente sem nome nem conta, a viver no que alguns chamam o antigamente, o primitivo de tempos idos. Calam e escondem, olham de lado, vivem o medo, a pobreza, geram como animais, aceitam o destino. Será que um dia lho disseram? Ouviu contar em segredo? Estes dois, que em noite de grande calor e fraco luar se sentam num penhasco, mudos, costas voltadas e cabeça baixa, trazem horas de caminho, há muito estariam ali não fosse o terem vindo aos bordos, mais as vezes que se encostaram a golfar, ou arriando as calças por não segurarem a tripa. Têm pela frente meia légua plana de searas, uma descida de mau piso e muitas voltas, o riacho, a calçada que levará cada um a sua casa. Por enquanto arrotam, peidam, repetem o vómito. Um cai e fica de bruços, o outro escorrega do assento mas consegue firmar-se, desaperta a braguilha, tropeça, cambaleia, avança para o camarada e, vagaroso, mija-lhe por cima. Riem ambos, engalfinham-se aos murros de bebedeira, não sentem se os dão ou recebem, empurram-se e caem às arrecuas, adormece um contra o pedregulho, o outro na poça de mijo. Desde miúdos une-os estranha afeição, constantemente a procurar-se, sofrendo se se não vêem. Cresceram maldosos, bons na fisga e nas armadilhas, ágeis que nem macacos a roubar no cocuruto das cerejeiras os ninhos da passarada. Feitos homens, acasalaram, geraram, menos ligados à família que ao sentimento que constantemente os faz procurar-se no trabalho ou na folga. Assentaram praça juntos. Cumprido o tempo, festejaram com uma carraspana de três dias, vencendo a que usavam tomar na festa do padroeiro. Acordam e ainda é noite. Não se encaram nem falam, sofrem o ar morno, limpam o suor às costas da mão. Lado a lado, o passo mais seguro, viram da rodeira para o atalho. Na descida vão em fila, às vezes escorregam na caruma dos pinhos e embatem um no outro, empurram-se de marotice, o que primeiro a vê desata a correr e salta para a ribeira, que ali faz poço. Embora a água só dê pelo peito, braceja a fingir que nada, sem tempo para se desviar quando o companheiro lhe cai em cima de trambolhão, ambos a perder o pé, a afundarem-se com o peso da roupa encharcada». In J. Rentes de Carvalho, O Meças, Quetzal Editores, Língua Comum, Lisboa, 2016, ISBN 978-989-722-286-3.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O Meças. J. Rentes de Carvalho. «Nunca ouviu falar, nem sabe o que seja, carvão só conhece o de choça, que ele faz com lenha de carrasco, castanho e sobreiro. Mas não pergunta»

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«(…) O sono é morte súbita de que irá ressuscitar à cantada do galo, em prece para que na fogueira apagada seja muito o carvão. Uma côdea, um gole de água, por ser rotina de toda a vida mal dá conta que albarda as bestas, aperta as cilhas, os cabrestos, abre a porta. O dia rompe quando avista a sepultura, e o palpite é bom, os galhos estão na mesma. Reza agradecido. Bom é também o carvão de brasas medianas, o que paga melhor, gastam-no as mulheres nos ferros de passar; nas braseiras e nos fogareiros. Seis sacas enche, das que guardou do adubo, carga leve, três em cada besta. Fracas como andam, malcomidas, com mais peso não aguentariam as nove 1éguas de ida e volta e o tempo que vai perder nas ruas da vi1a, pára aqui, pára além, batendo as aldrabas, chamando, rouco de apregoar Brasas! Quem quer brasas!
O dia passa, às tantas só pergunta nas casas onde costuma ter freguesia, a meio da tarde vendeu duas sacas, trinta mil réis. Um mal-encarado diz que lhe compra uma se mear o preço. Ele responde que não pode, e o homem vira-lhe costas com um então guarda-as! Apiedada, a viúva deu-lhe uma tigela de caldo e água para as bestas, mas brasas tem de sobra, que no estio pouco gasta. Fora isso, o carvão de pedra da mercearia dá bom calor e é mais em conta. Nunca ouviu falar, nem sabe o que seja, carvão só conhece o de choça, que ele faz com lenha de carrasco, castanho e sobreiro. Mas não pergunta. Agradece o caldo, seja pelas almas de quem lá tem, o Senhor a favoreça, e ela diz Deus te acompanhe.
Quando reparou no que tinha andado, já não se viam as casas nem ladraram os cães, o negrume viera de repente, mas de olhos fechados andaria o caminho que era o do seu único longe. Uma quebreira, ardume no peito, a oura a embaraçar-lhe o passo, queixoso de não haver por ali fio de água onde acalme a sede, nem porta a que possa bater. Quis sentar-se na borda da rodeira, mas a fraqueza pôde mais, julgando que se endireitava rebolou, caiu de bruços num derradeiro esforço virou a cara, anojado do pó que se lhe colava à boca. Foi esmorecendo e finou-se em paz, os que de madrugada o encontraram quase tinham passado adiante, julgando que dormia.
Recorda que trouxeram o homem atravessado na albarda de um jerico que mal aguentava o peso do morto e do que o segurava. Recorda bem tê-lo visto depois no esquife dos pobres, coberto por um 1ençol remendado na ourela, e que as mulheres tinham ido pela ladeira em busca de flores, para que não fosse a enterrar sem ao menos um raminho. Noutra vida? Outra era? Em lugar sem nome, tempo sem história? Visita ao Purgatório? Sufocando num escuro de pesadelo revive a hora da tarde, a ventania a sarilhar poeira na rua sem calçada, casas de pedra solta, uma ou outra coberta do barro amarelado que pertence nas aldeias de Castela. Longe demais para que distinga se é homem ou mulher, passa um vulto, outro, um terceiro curvado sob um molho de galhos, os braços erguidos a segurar o fardo». In J. Rentes de Carvalho, O Meças, Quetzal Editores, Língua Comum, Lisboa, 2016, ISBN 978-989-722-286-3.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A Flor e a Foice. Rentes de Carvalho. «Mais tarde, professores doutro quilate guiaram-me numa visão menos mitológica da História nacional. Mesmo assim, porém, limitados pelo que lhes ditava o programa oficial ou pelo controle estrito do reitor»

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«(…) Alguns feitos eram mencionados como dignos de pasmo, outros dados em exemplo. Um infante, feito prisioneiro pelos sarracenos, tinha morrido em cheiro de santidade. Uma rainha Isabel, a quem o marido acidamente censurara o tamanho das esmolas, adquirira do Alto o poder de transformar os pães em rosas, escapando assim à cólera do soberano, quando este a apanhava em flagrante delito de prodigalidade. Outro rei, Pedro, o Cru, mandara vingar o assassinato da amante, a que depois de morta foi rainha, ordenando que o coração dos assassinos lhes fosse arrancado pelas costas e depois assado. Alguns desvairados cronistas relatam que o monarca, assistindo à aplicação da sentença, mandou trazer sal e azeite, na firme intenção de levar a antropofagia por diante. Deus deitara pessoalmente a mão aos lemes das naus de Vasco da Gama, para que este não se enganasse na rota para a Índia, e assim levasse até esses longes a fé de Cristo e a fama dos portugueses. Brincalhão também, o Altíssimo deixara que Pedro Álvares Cabral se perdesse e, enquanto o dito procurava a rota do Oriente, fez-lhe aparecer o Brasil diante das caravelas.
Mais tarde, professores doutro quilate guiaram-me numa visão menos mitológica da História nacional. Mesmo assim, porém, limitados pelo que lhes ditava o programa oficial ou pelo controle estrito do reitor, nunca ultrapassavam as barreiras. Se diminuíam a influência do Espírito Santo, também não aumentavam a dos homens sobre os acontecimentos; desse modo, batalhas, transformações, perdas, eram deitadas à conta dos espanhóis, nossos inimigos de sempre. Curiosamente, tanto os professores como os compêndios despachavam em poucas falas e poucas linhas o período que ia da proclamação da República (1910) ao princípio da ditadura de Salazar (1932). Daí em diante era o panegírico: ele salvara-nos do caos económico, ele livrara-nos da guerra, ele mortificava-se para que vivêssemos todos em paz e felicidade.
Estávamos então em princípios de 1945, a Segunda Guerra Mundial quase a acabar. Precocemente politizados, ríamos à socapa dos uniformes da Mocidade Portuguesa, que ainda tínhamos de vestir ao sábado, mas em vez da saudação fascista deixávamos descair o braço e fechávamos o punho. Os professores, alarmados com o micróbio comunista, viravam as costas e não viam o que no dia 8 de Maio desse ano nos encorajou a tomar parte no enorme cortejo com que o povo do Porto festejava, tanto o fim da Guerra, como a esperança de que as forças democráticas europeias não tardariam a libertar-nos de Salazar. Esperança perdida. Salazar governou pessoalmente até 1968 e por procuração até 25 de Abril de 1974, com a cumplicidade, o apoio e a bênção de tantos democratas e tantas democracias, que chega a ser obra de caridade não mexer nas águas lamacentas desse passado recente. Certo é que em muitos dentre nós, então adolescentes, o abalo ressentido pelo abandono em que nos deixavam os países democráticos viria a traduzir-se em radicalismo político. Desse modo não surpreende que muitos dos homens empenhados no movimento de 25 de Abril pertençam à minha geração e se situem politicamente à extrema-esquerda.
Voltando à escola e aos compêndios: os meses que se seguiram ao fim da Guerra foram, primeiro, de entusiasmo, logo depois de medo e pasmo. A filiação à Mocidade Portuguesa deixara de ser obrigatória, mas no resto a camisa-de-forças apertava à mesma, e de forma ainda mais incoerente, como convinha para alimentar um ambiente de terror e insegurança. Um professor, a quem um estágio no estrangeiro tinha transformado as ideias, tomara o hábito de jogar futebol connosco durante os intervalos e, nas aulas, reservava um quarto de hora para que cada um expusesse os seus pontos de vista sobre a língua francesa. Tão graves quebras da hierarquia pediam castigo exemplar e o homem foi demitido. Mas para que a memória se nos não apagasse, e não apagou, o reitor comunicou-nos a pena diante do acusado, levantando o dedo para assegurar que não admitia atentados à disciplina (mais bizarro será difícil encontrar; o docente em questão tinha sido leitor do Instituto da Alta Cultura na Alemanha, onde ganhara o hábito subversivo de jogar futebol com os alunos).
Íamos estudando e vivendo numa atmosfera irreal, decorando virtudes e feitos heróicos que há muito tinham deixado de nos interessar ou convencer. A História de Portugal não podia ser aquilo, nem ser assim. De facto não é. Mas para o descobrirmos foi preciso que outro professor, pedindo segredo, aconselhasse alguns de nós a lermos Oliveira Martins. Semelhante às igrejas, a biblioteca do liceu Alexandre Herculano, no Porto, era silenciosa, bafienta, guardada por um bibliotecário que, duma mesa empoleirada num estrado, vigiava o nosso vaivém. Entrava-se em pontas de pés, pediam-se-lhe os livros num sussurro, ia-se em pontas de pés esperar que ele os tirasse dos armários envidraçados. Simplesmente, nem todos os livros eram obtidos com essa facilidade. Os de Oliveira Martins e outros exigiam formalidades. Para lê-los era necessário preencher uma ficha, que era entregue ao reitor, avisava ele, na qual constava o nome do aluno, o seu número de turma, data de nascimento, filiação, morada, o título da obra, o nome do autor, o nome do professor que a aconselhara e, por baixo, a razão da leitura». In J. Rentes de Carvalho, Portugal, A Flor e a Foice, Quetzal Editores, Lisboa, 2014/2015, ISBN 978-989-722-146-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

O Meças. J. Rentes de Carvalho. «Trôpego nos passos, moído do corpo, o chapéu a tapar os olhos, vem derreado da soalheira e de cavar, responde com um meneio de cabeça a quem lhe dá as boas-horas»

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«(…) Deitada no chão, a este pariu-o a mãe em manta de burel, lençol teve só o da mortalha, no esquife dos pobres em que o levaram a enterrar. A vida inteira fez cama na manjedoura, dormindo sobre a palha que depois atirava às burras, e que elas, às patadas, ensopariam de bosta e mijo. Vestimenta de esmola, toda em remendos. Chapéu de feltro, enrijado pelo sebo de anos, botas já sem cardas, ganhas faz muito com sete jeiras de monda, dez de segada, dez de vindima. Jeiras de sol a sol, modo de dizer da alvorada ao lusco-fusco, merenda de comida seca e um litro de vinho, o couro duro a moer pés nus, tormento que findava quando calejavam. Conchego de amor nunca teve, nem conheceu mulher, de alegrias gozou as mais simples: o remanso da sombra na canícula, um cibo de carne na festa, copinho de aguardente, naco de queijo, talhada de melancia. O seu gólgota começa de madrugada, quando carrega nas burras os sacos de serapilheira, cheios do carvão de choça que a semana inteira andou a fazer. Cortar lenha para a sepultura, cova funda de metro e meio, acender o lume, cuidar que arda vagaroso, nem forte nem fraco, de modo que seja muita a brasa, pouca a cinza.
Reza se o céu escurece. Reza para que o vento pare. Reza as graças quando as nuvens passam sem chuva. Olhos no alto. Olhos na fogueira. Calor não sente, nem fome, nem sede, só pensa nas chamas, esperançado de assim as domar. Escureceu, quase de repente é noite, mas tem olhos de gato e o luar ajuda. Com gestos de semeador atira ao lume punhados de terra, a que chegue para que não abafe logo, vá morrendo aos poucos. Olha em redor e estaca, o instinto alerta para o barulho de gente, mas não distingue vultos nem bestas, demora a ver os dois homens que um momento parados se recortam contra o céu, e agora aos berros descem a ladeira. Reconheceu as vozes, mas por razões que mal compreende, como se tivesse culpa de estar ali e tê-los visto, baixa os olhos. São vizinhos, não precisa de temer, de verdade em tantos anos só uma vez o roubaram. Culpa sua. Abrira a sepultura perto do caminho, e os ciganos, só podiam ser eles, vendo o fumo ou cheirando lume, tinham rapado tudo. Reza, persigna-se, desata as burras do azevinho a que as prendeu e toca-lhes de leve na garupa, manda-as na dianteira.
Trôpego nos passos, moído do corpo, o chapéu a tapar os olhos, vem derreado da soalheira e de cavar, responde com um meneio de cabeça a quem lhe dá as boas-horas. Pensamentos não tem, nem perguntas, sonhos ou desejos, só cansaço. Acomodou as bestas, tirou-lhes a albarda e os arreios, mediu uma quarta de aveia para cada, enche-lhes a pia. Agora é a sua vez. Encosta-se à manjedoura, põe o cântaro à boca, sôfrego, metade da água a escorrer-lhe pelo peito. Um a um sobe os degraus e aninha-se a varrer a cinza da lareira com a vassourinha de giesta, arranja as pinhas, os gravatos, um punhado de cascas de amêndoa, outro de caruma. Canhoto de nascença, a navalha na esquerda, a outra segurando a pederneira, petisca fogo, bafeja a chama para que aumente, com o fole dá-lhe alento, dois sopros mais tem o lume feito. Sentado no banquinho chega a panela, a cesta das batatas, a almotolia, o saleiro, as cebolas. Levanta-se a despendurar o arame da saca do pão, enganchada na trave por causa dos ratos.
Corta o centeio. Deita as fatias na água que já ferve, pitada de sal, fio de azeite, quatro batatas. Uma cebola. Vai-lhe o pensamento para a sepultura na ladeira, onde desde ontem as brasas devem ter esfriado. Afasta a panela do lume e remexe com a colher de pau, corta o dente de alho que tinha esquecido. Três vezes enche a malga e não deixa resto». In J. Rentes de Carvalho, O Meças, Quetzal Editores, Língua Comum, Lisboa, 2016, ISBN 978-989-722-286-3.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

A Flor e a Foice. Rentes de Carvalho. «A pergunta data provavelmente dos netos de Adão, mas esses não dispunham das possibilidades publicitárias do Novo Testamento, e assim nos encostamos a Pilatos…»

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«Um momento, durante os primeiros meses que se seguiram ao 25 de Abril, houve a esperança de que realmente alguma coisa iria mudar. O Portugal revolucionário ia ser exemplo, um passo em frente para uma Europa nova, o país cuja sociedade garantiria a cada cidadão um lugar digno. Mas quê? Em fins de 1975 as elites de agora são as mesmas de ontem, acrescentadas de uns poucos que, hábeis, subindo a tempo, ocuparam um lugar; diminuídas temporariamente da meia dúzia que, no estrangeiro, confortavelmente, aguarda dias melhores que muito certamente voltarão. Tal como na velha República de 1910, em que os ministros foram quinhentos, interessa ser ministro, garantir as benesses do amanhã».

«A pergunta data provavelmente dos netos de Adão, mas esses não dispunham das possibilidades publicitárias do Novo Testamento, e assim nos encostamos a Pilatos quando, com ênfase, queremos saber o que é a verdade. Com a nossa e a alheia se confecciona a História, o curioso refogado de factos, mentiras e aparências que, segundo o interesse dominante, levianamente muda de sabor e colorido. Neste relato, escrito entre Abril de 1974 e Outubro de 1975 (em língua neerlandesa) ninguém encontrará a Verdade, sim uma colectânea de factos e acontecimentos, uma ou outra profecia e os comentários que a mudança, mais radical na aparência que na realidade, me levaram então a fazer. Por se destinar apenas ao público holandês que, nas palavras de um crítico, sabia então assustadoramente pouco de Portugal, inclui-se um resumo histórico que ao leitor português poderá parecer supérfluo. Todavia, se nunca os leu, talvez isso o leve a proveitosamente tomar conhecimento da História de Portugal e do Portugal Contemporâneo, de Oliveira Martins, e a admirar-se, como eu em permanência me admiro, que desde há tantos séculos sejam diminutas as mudanças de atitude do bom povo português em relação à res publica e aos que a tratam como coisa sua.
Numa tarde de Setembro de 1968, uma cadeira quebrada terminava a carreira política de Salazar. Todavia, durante os vinte e três meses seguintes, a Morte, ironicamente, fez-se esperar, enquanto os jornais publicavam boletins dum optimismo tétrico: o Presidente Salazar urinou. O Presidente Salazar já é capaz de escrever o seu nome. O Diário de Notícias, lembrado de como antes se homenageavam os reis, dera-lhe um cognome: O Grande Ausente. E durante esses vinte e três meses ninguém ousou dizer-lhe que já não reinava. O presidente da República, Caetano, os ministros, visitavam-no diariamente, punham em cena reuniões ilusórias, pediam a sua opinião, fingiam anotar os seus conselhos, seguir os seus mandos, mas não tinham coragem de lhe contar a verdade.

A História a cores
Por volta de 1935, ao entrar na escola, o salazarismo esperava por mim com uma visão imperial do tamanho do país. Sobrepondo a área das colónias ao mapa da Europa, Portugal era uma mancha que se estendia do Atlântico até para lá de Moscovo. Enquando a professora afirmava, com indiscutível autoridade, o nosso país tem tudo, ou Salazar é a Grande Luz, eu e os outros, tenros de idade, facilmente impressionáveis, sentíamos uma satisfação igual à que sentem os ricos e os protegidos. Por sobre essa grandeza do tamanho havia a da História. Portugal nascera do conselho que Deus, em boa disposição, dera num dia de 1139 a Afonso Henriques, o primeiro rei. E desde então, cada vez que, por descuido ou boa-fé, o país se encontrava à beira do desastre, a intervenção divina nunca se tinha feito esperar, o Senhor aparecendo pessoalmente aos reis ou, como em 1917, delegando Nossa Senhora de Fátima para proteger Portugal, e através dele o Mundo, contra o dragão comunista. Logo a seguir às de Deus, a História narrava as façanhas dos heróis. Da maior parte esqueci o nome, mas ficaram que sobram: o que se deixou esmagar pelas portas dum castelo para que os companheiros, aproveitando a abertura assim feita, o pudessem tomar aos mouros. Outro, a quem numa batalha o inimigo tinha decepado os braços, segurara a bandeira com os dentes, dando a que os camaradas, acudindo, pusessem a salvo o símbolo sagrado. Um terceiro, a quem os espanhóis incitavam a que traísse, optara pela alternativa de ser frito em azeite». In J. Rentes de Carvalho, Portugal, A Flor e a Foice, Quetzal Editores, Lisboa, 2014/2015, ISBN 978-989-722-146-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT