Mostrar mensagens com a etiqueta Alexandre Borges. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alexandre Borges. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 5 de março de 2018

Histórias Secretas de reis portugueses. Alexandre Borges e Hugo Rosa. «Numa certamente hábil manobra, Afonso ainda conseguiu escapar-se ao cerco, mas, quando saía a cavalo da cidade, embateu com uma perna…»

jdact

O castigo maternal
«(…) Quando terá o cardeal chegado ninguém sabe ao certo, mas poucos terão conseguido reconhecer os traços do seu rosto. A sua estada terá sido muito breve, entrando em Coimbra num dia e saindo nessa mesma noite. Posto o encontro com o rei e a renovada recusa em libertar dona Teresa, quando todos dormiam, percorreu o cardeal as ruas, excomungando toda a terra e seus habitantes, pondo-se, de seguida, em fuga, a galope no mesmo cavalo em que chegara, protegido por quatro cavaleiros e levando ouros, pratas e animais. Cedo na alvorada, o rei foi informado do temível mistério lançado sobre o País e, dispensando qualquer auxílio da corte ou das suas tropas, lançou-se ele próprio na perseguição a esse infame cardeal. Poucas horas depois, conta-se, tê-lo-á alcançado e obrigado a parar, cerca do lugar da Vimieira, perto de Poiares. Com uma mão agarrou-lhe o colarinho e com a outra desembainhou a espada, ameaçando cortar a cabeça do clérigo. Os cavaleiros preveniram-no, então, de que, se o matasse, ninguém em Roma já duvidaria de que era mesmo herege. Mas Afonso Henriques só aceitou poupar-lhe a vida na condição de que aquele descomungasse tudo quanto havia antes excomungado e que deixasse ali todo o ouro, prata e animais que levava. O cardeal tudo aceitou de pronto, por entre os tremores do frio e do medo. E, por fim, o rei pousou a sua pesada espada e despiu-se por completo, mostrando todas as feridas e cicatrizes que lhe marcavam o corpo grande. E disse: cardeal, como eu sou herege, bem se mostra pelos sinais das minhas feridas: estas em tal peleja, e estas em tal cidade ou vila que tomei, e todas por serviço de Deus, contra os inimigos da nossa fé. E para esta tarefa levar avante vos tomo este ouro e prata, porque estou com muita falta deles, e me são necessários para mim e para os meus.
E o cardeal seguiu o seu caminho para Roma, logo depois de el-rei lhe ter voltado as costas e partido de regresso a Coimbra. Muitos anos mais tarde, senhor de um reino muito mais extenso e poderoso, já casado e pai de vários filhos, chegaria um dia trágico para Afonso Henriques. Não contava o rei com o poder e a estratégia de Fernando II, rei de Leão, nem que existisse um pacto com o governador da cidade, cercando-o em Badajoz, entre o castelo e a sua orla, os mouros e os leoneses. Numa certamente hábil manobra, Afonso ainda conseguiu escapar-se ao cerco, mas, quando saía a cavalo da cidade, embateu com uma perna no pesado cabo do ferrolho de uma das portas, mal colhido ao abrir, e caiu violentamente ao chão, ficando ferido com gravidade. A sua perna, partida no momento do choque, foi desfeita depois, quando o cavalo, de igual modo ferido, não mais resistiu e tombou por terra, pelo lado em que ambos sangravam. El-rei não conseguia sequer erguer-se e nem com ajuda dos seus foi possível transportá-lo. O herói de São Mamede e Ourique e Santiago e Lisboa, seria feito prisioneiro de Fernando, o seu genro. Dois meses passados e postos alguns acordos, o rei seria libertado, mas o povo nunca esqueceria a maldição rogada por dona Teresa. Afonso, filho, prendeste-me e deserdaste-me: a Deus peço que preso sejais vós, e porque pusestes minhas pernas em ferros (...), com ferros sejam as vossas quebradas.
De modo algum cessaria a actividade de Afonso Henriques com este acidente, mas a verdade é que a sua mobilidade física ficaria, para sempre, muitíssimo afectada e, aos 60 anos, abandonava o campo de batalha, não mais se voltando a envolver em confrontos militares, e ponderava, talvez pela primeira vez, no problema de encontrar quem lhe sucedesse e coroasse, no baptismo do Mediterrâneo, Portugal. Afonso I pereceu aos 76 anos, a 6 de Dezembro de 1185, em Coimbra, depois de um penoso calvário de invalidez, tranquilo e, como em todos os outros dias do mundo, sem qualquer receio do futuro. Jaz o seu corpo de gigante no mesmo túmulo que o de sua esposa, a rainha dona Mafalda. Entre o dia de sua nascença e o de sua morte, estendeu-se o reino do Mondego até às primeiras milhas dos Algarves. Liderou Portugal ao longo de 57 anos, 45 dos quais com o título de rei, naquele que foi o mais longo reinado da nossa História». In Alexandre Borges e Hugo Rosa, Histórias Secretas de reis portugueses, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-663-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

Histórias Secretas de reis portugueses. Alexandre Borges e Hugo Rosa. «Afonso, meu filho, prendeste-me e deserdaste-me da terra e honra que me deixou meu pai, e afastaste-me de meu marido»

jdact

O castigo maternal
«(…) Na transição de 1127 para 1128, penetra, pela primeira vez, no território comandado por dona Teresa e Fernão Peres Trava, conquistando os importantes castelos de Neiva e Feira. As tropas maternais pedem tréguas, mas as tentativas de negociação saem goradas dos encontros de Vila Nova de Paiva.É, portanto, pouco depois que se dá a batalha de São Mamede, ganhando esse nome ao lugar em que ocorreu. Contam os relatos que aos nossos dias chegaram que não se terá a mesma arrastado pelo tempo nem feito correr demasiado sangue ou levantado, sequer, muitas dúvidas acerca daquele que seria o seu vencedor. Senhor, já, de um maior e melhor apetrechado número de tropas, derrotou com relativa facilidade Afonso Henriques o exército de dona Teresa e Fernão Trava. É posto o embate que nasce o mito. Como terá castigado o pouco piedoso príncipe os vencidos daquela batalha, ainda que se tratassem de sua mãe e respectivo esposo? Tê-los-á castigado sequer? Os historiadores não encontram provas que atestem a veracidade da tese segundo a qual Afonso bateu em dona Teresa e, depois, a deixou a ferros num cárcere em Coimbra, desconhecendo-se o destino traçado a Fernão Trava. Contudo, não sobreviveram, de igual modo, provas que sustentem o contrário; aliás, investigando não encontraremos na História qualquer relato que indicie uma resposta de Trava ou de dona Teresa, o que seria tanto mais estranho quanto ambos sabiam, perfeitamente, dos desejos expansionistas do futuro Afonso I. Teriam ficado aquietados na sua liberdade, aguardando e assistindo como meros espectadores ao progresso do aventureiro jovem, nada tornando a encetar para o demover de tais acções? Parece estranho, como estranhos parecem a coincidência que teria hora mar cada para os últimos anos de vida do rei, tal como veremos adiante, e o episódio do Bispo Negro.
Resta, assim, espaço lógico para o sentido lendário. Sabemos que dona Teresa entrou para um convento na Galiza naquele mesmo ano, onde viria a falecer passados mais dois, isto é, em 1130. Mas, antes disso, teria o filho colocado a mãe a ferros. Colérica, tê-lo-á amaldiçoado com as seguintes palavras: Afonso, meu filho, prendeste-me e deserdaste-me da terra e honra que me deixou meu pai, e afastaste-me de meu marido. A Deus peço que preso sejais vós, assim como eu me vejo agora. E porque puseste ferros em minhas pernas, que vos ajudaram a trazer e a criar com muitas dores do meu ventre a fora dele, com ferros sejam as vossas pernas quebradas, e praza a Deus que assim seja.
Afonso prosseguiu a sua missão, independentemente de estas ou outras profecias terem sido alguma vez proferidas, sem qualquer sinal de remorso ou arrependimento. Estava mais confiante do que nunca nas suas capacidades, bem como na dedicação daqueles que o seguiam, e principiava a estender os seus braços bem para lá das muralhas do castelo que ficaria poeticamente conhecido como o berço de Portugal. Não se sabe se, em alguma manhã, o rei terá despertado durante o assalto dos fantasmas daquela maldição, mas o povo temia que, um dia, anjos nefastos de Deus se abeirassem dos seus lugares, a fim de lhes soprar a profetizada excomunhão do seu senhor. É do meio desta nuvem fria e difícil de investigar que surgiria o Bispo Negro, para sobressalto dos mais supersticiosos e teste à firmeza do jovem rei. Haviam chegado a Roma as notícias do sucedido em São Mamede e em Coimbra, bem como os lamentos e maldições de dona Teresa. E, agora, a Igreja enviava um homem a quem chamavam de bispo e cuja tez negra foi estranhada no condado. Chegava debaixo de moderado segredo, com o objectivo claro de concretizar não só a excomunhão de Afonso Henriques, mas a de todo o território portucalense, caso não se aceitasse libertar dona Teresa do cárcere.
Tendo chegado a solo português, rapidamente se espalhou entre os populares a notícia da chegada do bispo e os intentos por detrás daquela deslocação. O bispo visitou o rei e apresentou-lhe as cartas do Santo Padre, mas de pronto lhe respondeu Afonso que ordem de ninguém o faria alterar o juízo sobre o que seria mais favorável ao seu reino. E assim sendo, ao cair da noite, o bispo excomungava toda a terra e preparava-se para fugir. Mal chegando tal agouro aos seus ouvidos, deslocou-se o rei à Sé, onde estavam reunidos todos os cónegos e vários outros homens de Igreja e, perguntando se ali havia algum bispo, todos se afastaram, quedando-se um, o estrangeiro de pele negra. Uma vez sozinhos naquele lugar, bradou-lhe o rei que, se ele era bispo, lhe celebrasse uma missa. Respondeu o bispo que não havia sido ordenado bispo e que não o poderia fazer, ao que Afonso reagiria de modo ainda mais autoritário, dizendo-lhe que ele próprio o ordenava bispo naquele instante, repetindo-lhe que lhe celebrasse uma missa. Tomado pelo medo, vestiu Martim Suleima os paramentos de bispo e tratou de satisfazer os desígnios de el-rei. De novo, as notícias correriam até Roma e o Papa, convicto da heresia de Afonso, enviava, agora, um cardeal com a missão de lhe ensinar a Fé». In Alexandre Borges e Hugo Rosa, Histórias Secretas de reis portugueses, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-663-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

domingo, 4 de março de 2018

Histórias Secretas de reis portugueses. Alexandre Borges e Hugo Rosa. «Explicou que tal não passava de uma perigosa mentira, que Afonso nada mais nutria por Leão e Castela de que uma imensa admiração e respeito»

jdact

O castigo maternal
«Está protegida pelos séculos a verdadeira história do primeiro rei português. Aquele que tenha sido e aquilo que tenha feito Afonso Henriques jamais poderá ser trazido à luz do dia no esplendor da real decorrência dos factos. Dele se diz que era um gigante de quase dois metros de altura, que fez nascer um reino à força quase exclusiva da sua imensa bravura, que incendiou batalhas à frente das suas tropas, empunhando uma espada imensa que Sebastião I pediria emprestada e faria consigo desaparecer, mais de 400 anos depois, na infame jornada de Alcácer Quibir. De tudo isto, que será verdade? Que pormenores foram gerados apenas pelo imaginário colectivo de um país necessitado de heróis? Ter-se-á o jovem nobre tornado Afonso I pela dinâmica de um processo que o levou a bater em dona Teresa, a própria mãe? Será este somente um rodapé ficcional acrescido ao texto verídico pela voz popular? É talvez, hoje, impossível discernir. Resta-nos juntar os pedaços da lenda aos da História e perscrutar, senão a verdade, pelo menos um sentido que atravesse os mistérios de um tempo iniciático, envolto nas trevas comummente atribuídas às memórias medievais.
Afonso perdeu o pai bem antes de se poder aperceber do que esse acontecimento implicava para o seu próprio destino. O conde Henrique falecia contava o filho três inofensivos anos, ficando o Condado Portucalense entregue ao arbítrio da esposa, dona Teresa. O passar dos anos e o crescimento da criança a fazer-se homem revelaria uma dona Teresa não tanto em sintonia com o desejo do marido defunto de fazer o condado descer pelas terras dos sarracenos, mas antes em aproximá-lo da Galiza. Ao jovem de 11 anos deparava-se, sobretudo, um outro dado que não podia compreender: a mãe parecia ter esquecido, rapidamente, a memória do pai e, depois de outros envolvimentos, perdia-se de amores por Fernão Peres Trava, um nobre galego com o qual, se não casou, terá, pelo menos, passado a viver maritalmente em Coimbra, numa relação classificada de incestuosa pelas tábuas de valores da época, tendo em conta o anterior relacionamento de Teresa com Bermudo, outro membro do clã Trava, irmão do seu novo esposo.
Estávamos em 1121. A ira avolumava-se dentro do infante, que sentia, não se sabe se nos genes, se no resto difuso de uma recordação efectiva, o ímpeto de prolongar os anseios paternos. É neste percurso que se dirige sozinho, no dia de Pentecostes, à Catedral de Zamora, território leonês, e se arma cavaleiro, ainda adolescente, acabado de completar 16 anos, a maioridade política de então, num gesto elucidativo do seu carácter destemido e solitário, inspirado no que haviam feito outros futuros monarcas da História, à espera da ordem de ninguém para avançar quando quer que o decidissem fazer. Subiu ao altar de São Salvador e colocou sobre o seu corpo as armas militares que de lá retirou. Não o fizeram o seu pai morto, a sua mãe apartada, o arcebispo de Braga, possivelmente o inspirador de tal acto. Uma espada, um escudo, um elmo, um cinto, uma loriga.
A distância entre mãe e filho agravava-se, até que, pouco tempo mais tarde, no Verão de 1127, decidiam-se descongestionar os seus poderes e concordava-se que Afonso governasse até ao Douro, a partir de Guimarães, e dona Teresa daí ao Mondego, com sede na mesma cidade em que vivia com Ferrão Peres Trava. Mas era claro para qualquer um deles que tal não bastaria para assegurar a paz eterna entre as partes e já as classes sociais tomavam partido por uma ou outra das facções. A tensão acumulava-se e Afonso nada fazia por evitá-la. Estávamos quase em 1128 e chega aos ouvidos de Afonso VII, rei de Leão e Castela, o rumor de que o príncipe granjeava já mais poder do que aquele que alguma vez se esperaria em tão pouco tempo, escapando ao domínio da mãe e desejando fazer frente à sombra castelhana. Apercebendo-se da gravidade que constituía o conhecimento de tal afronta e do cerco que já se montava em torno do castelo de Guimarães, apressou-se o aio Egas Moniz em viajar até àquele território para falar ao rei Afonso VII, tentado dissuadi-lo de qualquer intuito de anular o constrito círculo em que ordenava Afonso Henriques. Explicou que tal não passava de uma perigosa mentira, que Afonso nada mais nutria por Leão e Castela de que uma imensa admiração e respeito e que, como prova disso mesmo, ali se deslocaria para beijar a mão ao senhor de tão grandioso poderio militar.
Contudo, de regresso ao Castelo de Guimarães e confessando a sua acção, teve Egas Moniz de se curvar, pela primeira vez, diante da fúria do infante. O orgulho do jovem Afonso jamais se poderia compadecer de semelhante cobardia e, ainda que tenha perdoado ao seu amado aio, negar-lhe-ia, liminarmente, qualquer hipótese de, alguma vez, vir a corresponder a tal promessa. Pelo contrário, tornar-se-ia ainda mais feroz e célere nos seus objectivos de expansão e preparava-se, desde logo, para o seu primeiro combate, um confronto difícil e inqualificável que, mais do que uma questão bélica e política, colocava frente a frente um filho e uma mãe». In Alexandre Borges e Hugo Rosa, Histórias Secretas de reis portugueses, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-663-2
.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

domingo, 9 de outubro de 2016

Uma Questão de Fé. Alexandre Borges. «Paula ficava para ele; Vimioso que encontrasse outros aconchegos. Talvez João V tenha voltado a sentir aquela palpitação dos tempos da adolescência, junto a Filipa Noronha…»

jdact

«(…) João V, pode dizer-se, tinha uma compulsão por freiras e monjas. Sofria dum impulso incontrolável para o rompimento da clausura das virgens do Senhor, financiava escandalosamente esses amores entre o máximo representante do poder temporal e algumas humildes intermediárias entre o céu e a terra e não parecia particularmente preocupado em escondê-los do olhar atónito do país. Era o rei já cliente habitual do Convento de Odivelas quando por lá apareceu, certa vez, uma nova irmã. Era jovem, bela e chamava-se Paula Teresa Silva Almeida. Fulminado por tão encantadora visão, uma pequena deusa descendo dum coche, suspendendo a noite e cruzando a porta daquela santa casa nos arredores de Lisboa, João exigiu de imediato o relatório completo acerca de quem fosse tão tentadora criatura. Soube então que Paula tinha 17 anos, mas que era perigoso confundir juventude com inexperiência. Na verdade, era já amante fixa de um nobre, o conde de Vimioso. Mas um rei era um rei. Era preciso fazer-lhe a vontade e a vontade deste rei em particular era que Paula fosse dele e de mais ninguém, em regime de exclusividade. Encetadas as negociações com o conde, resolveu-se o assunto.
Paula ficava para ele; Vimioso que encontrasse outros aconchegos. Talvez João V tenha voltado a sentir aquela palpitação dos tempos da adolescência, junto a Filipa Noronha e que nunca lhe aconteceu pela mulher, dona Maria Ana; ou talvez tenha sido algo novo, que nunca experimentara. A verdade é que Madre Paula, como ficaria para a História, se tornou não exactamente na sua amante única, mas, decerto, na favorita. Os cerca de 30 anos que os separavam eram pormenor de pouca monta. Não impedia que se encontrassem praticamente todas as noites, sempre em Odivelas, de modo cada vez mais natural e com menos vontade de esconder aquele frenético amor dos demais frequentadores de tão peculiar lugar de Deus. Era, ao que se conta, uma relação de dar e receber. Paula, malgrado os votos, não via mal em desfrutar de certos requintes do mundo material. Tinha um fraquinho por presentes e deleites, prazeres vários e muito conforto. Não dizia que não a um mimo, uma atenção, uma lembrança, porque, afinal, somos todos tão sozinhos neste purgatório antes do céu que, enfim, seria até ingrato recusar o que se nos oferece para aligeirar a dor. João satisfazia-lhe estas angústias e ela retribuía tocando-lhe noutro dos pontos fracos: o apetite.
É que o Convento de Odivelas era célebre por outras artes ainda, e Paula também se apresentava nelas como uma superiora: a doçaria. Tornou-se famoso, naqueles dias, o pudim da Madre Paula. E, para além dele, também os toucinhos-do-céu, os suspiros e os ladrilhos de marmelada (aos quais, consta, o rei era especialmente afecto). Em 1736, preocupado com a longevidade desta relação e com o poder crescente que a freira-amante parecia exercer sobre determinadas decisões políticas do rei, Bartolomeu Gusmão, o padre-voador, viaja até Setúbal para se encontrar em segredo com as salemas, bruxas a quem se atribuíam poderosos contactos com o sobrenatural. Com elas, Gusmão terá delineado um plano para lançar um feitiço que pusesse termo àquela adoração votada por João V a Madre Paula. Já não pedia que deixasse de frequentar conventos, mas que, pelo menos, trocasse de irmã, frequentasse o quarto de outra, porventura ainda mais jovem e mais bela, mas o projecto fracassou. Descoberta a maquinação, as bruxas mulatas foram perseguidas e condenadas; Gusmão escapou, mas, mais tarde, teria de fugir para Espanha, com a Santa Inquisição (maldita) à perna por causa dos seus planos de voar lá em cima, onde só Deus Nosso Senhor podia bailar. De modo que o romance prosseguiu, na paz dos anjos, enquanto o reino se afundava». In Alexandre Borges, Histórias Secretas de Reis Portugueses, Casa das Estrelas, 2012, ISBN 978-972-46-2131-9.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

domingo, 31 de julho de 2016

Prior do Crato no 31. Portugal é uma Ilha. Alexandre Borges. «Empoleirada num pequeno muro de pedra, confundida com uma rainha no alto da muralha do seu castelo, Brianda Pereira balançou e gritou até ao fim do combate: “estamos por Dom António!”»

jdact

«(…) António não desistiria da luta e Filipe sabia disso. O novíssimo rei de Portugal chega a anunciar publicamente uma recompensa de 80 000 ducados de ouro a quem capturasse aquele agitador solitário, mas tinha ainda de se haver com outro rival: o já citado fantasma do rei que desaparecera, três anos antes, em Alcácer Quibir. Com o povo a suspirar por Sebastião, Filipe faria trasladar, de África para o Mosteiro dos Jerónimos aquele que era, alegadamente, o corpo de o Desejado, mas o esforço e o dinheiro despendidos de nada serviram e nada calaram. Nada garantia que aquele cadáver que até hoje jaz num faustoso túmulo de mármore não muito longe dos de Camões ou Vasco da Gama fosse, com efeito, o de Sebastião ou de outro infeliz qualquer, que nunca tivesse sido rei ou sequer português. Nenhum teste foi feito na época ou desde então. Nasciam o mito e o mistério do sebastianismo. Desprezá-los é não entender Portugal. Naqueles mesmos dias, aconteceria, aliás, um fenómeno curioso: o aparecimento de umas quantas figuras que reclamavam ser, nem mais nem menos, o próprio Sebastião. Alguns, consoante os dotes dramáticos, ainda conseguiram pôr umas multidões a acreditar neles. Quase todos acabaram presos. Um foi enforcado.
A guerra não terminara. Ainda não. Logo em 1581, António I, que tinha procurado apoio em França e Inglaterra, ia descobri-lo, afinal nos Açores. Ciprião Figueiredo Vasconcelos, corregedor na ilha Terceira, era um daqueles homens para quem Filipe não passava dum usurpador. Para Ciprião, o rei de Portugal, no exílio ou não, continuava a ser aquele que o povo aclamara em Santarém. No início do ano, a ilha de São Miguel tinha tomado partido, conforme declaração da Câmara Municipal de Ponta Delgada, pela causa de Filipe de Espanha. Em consequência disso, fora nomeado para governador-geral dos Açores Ambrósio Aguiar Coutinho, ao qual se seguiria Martim Afonso Melo e cuja principal tarefa seria demover Ciprião Figueiredo. Revelar-se-iam vãos, contudo, os esforços do governador: rapidamente Ciprião o obrigou a regressar a São
Miguel, fazendo-lhe notar que toda a ilha Terceira, e é provável que tenha sublinhado toda, estava por António I.
A 25 de Julho, entrando pela baía da Salga às primeiras horas da manhã, uma força de 1000 espanhóis comandada por Pêro Valdez viria determinada a fazer Ciprião e os seus terceirenses engolirem a ousadia, mas uma furiosa bateria de gado bovino mostrar-se-ia insensível perante os seus argumentos. Empoleirada num pequeno muro de pedra, confundida com uma rainha no alto da muralha do seu castelo, Brianda Pereira balançou e gritou até ao fim do combate: estamos por Dom António! Aqueles que o gado poupou não tiveram a mesma misericórdia da parte do exército de populares. O mar levou outros que se afogaram pesadamente, dentro das armaduras, na tentativa de fuga. Alguns, poucos, conseguiram alcançar os galeões e viver para regressar a Espanha e contar a história. Quando o silêncio se abateu sobre a Salga, a espuma do mar deixava um rasto encarnado nas rochas... Custava olhar aquele retrato sanguíneo do fim da batalha, mas a vitória fora completa. Sepultados os corpos caídos do vale à baía, o governador Ciprião marchou até Angra do Heroísmo, arrastando as bandeiras dos rivais. A cidade celebrou-o como a um herói antigo. Pêro Valdez faria chegar a Filipe o relato pormenorizado dos acontecimentos e a vingança viria mais cedo ou mais tarde, mas, por agora, era tempo de festejar orgulhosamente o crime de rebelião». In Alexandre Borges, Histórias Secretas de Reis Portugueses, Casa das Estrelas, 2012, ISBN 978-972-46-2131-9.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

sábado, 30 de julho de 2016

Portugal é uma Ilha. Alexandre Borges. «A 19 de Junho, o povo aclama António rei de Portugal, no Castelo de Santarém. Lisboa e Setúbal seguir-lhe-ão, depois»

jdact

«(…) A relação entre tio e sobrinho nunca deixará de se deteriorar, mesmo tendo em conta que, à frente dos problemas familiares, deveria ter sido colocado o superior interesse do reino. A 23 de Novembro de 1579, o rei-cardeal decide cortar o mal pela raiz: confisca os bens de António, expulsa-o do reino e retira-lhe a nacionalidade portuguesa. Mas era uma das últimas acções que faria em vida: a 31 de Janeiro seguinte, perdia o longo combate para a morte, deixando Portugal ainda sem o corpo de Sebastião I, sem lhe ter conseguido dar um sucessor natural e sem que tivesse a coragem de nomear um alternativo. Medos, especulações e fantasias delirantes tinham agora terreno livre para medrar. Enquanto os cinco membros da junta governativa não tomavam uma decisão quanto ao futuro do reino, apresentavam-se candidatos e faziam-se números de equilibrismo para justificar pretensas legitimidades genealógicas. Com o colapso da descendência de João III, era preciso recuar ao rei Manuel I para procurar uma via alternativa à linha natural da dinastia. Assim, encontrávamos quatro netos de o Venturoso: Catarina de Bragança, que tinha em seu desfavor ser a única mulher da lista, mas que era simultaneamente a única neta por varonia, já que era filha de um filho de Manuel, o infante Duarte; Manuel Felisberto, duque de Sabóia e filho de dona Beatriz; Filipe II, rei de Espanha e filho de dona Isabel; e António, prior do Crato, filho do infante Luís e, portanto, neto por via masculina, mas sobre quem pesava a dúvida de se poder tratar de um filho ilegítimo. Acima de todos eles, pairava ainda um fantasma: Sebastião I. Enquanto o cadáver não fosse encontrado, o rei vivia nos corações do povo, sarava as feridas e recuperava forças para surgir com um exército salvador, a qualquer momento, na linha do horizonte. Rapidamente, António e Filipe II de Espanha vão emergir como os candidatos mais fortes. As estratégias que seguem, no entanto, são opostas: o primeiro apela ao povo, o segundo, ao poder. António recupera o espírito da crise de 1383-85 (eu digo Revolução) quando, numa situação com alguns paralelos, o país se uniu em torno de um sentimento patriótico para aclamar rei João I, em detrimento de João de Castela. O povo adere à causa, apoia António e recusa entregar-se a mãos espanholas, mas do outro lado está boa parte da nobrezae do clero. Filipe II consegue seduzi-la para a ideia que já circulava de uma alegada União Ibérica, uma monarquia dual onde os reinos conservariam as respectivas soberanias, com a vantagem de assegurar a estabilidade financeira de que Portugal tão necessitado estava. O rei de Espanha beneficiava ainda de outro factor de peso: o medo de que a questão se arrastasse para um confronto militar no qual o exército português, desfeito em Alcácer Quibir, não teria qualquer hipótese. Contudo, pelo sim, pelo não, Filipe jogou ainda mais uma carta: o suborno das figuras mais influentes do reino, um argumento clássico, com provas dadas ao longo da História, um pouco por todo o mundo. Contudo, a facção patriótica não se renderia. A 19 de Junho, o povo aclama António rei de Portugal, no Castelo de Santarém. Lisboa e Setúbal seguir-lhe-ão, depois, o exemplo, um terrível atrevimento que teria a resposta de Filipe...
Poucas semanas volvidas, Fernando Alvarez Toledo Pimentel, duque de Alba, recebe do rei de Espanha a missão de tomar Portugal pela força. Fá-lo em duas frentes: por terra, com um exército numeroso e bem preparado, e por mar, com uma frota que descia ao longo da costa, desde o Norte de Espanha. Cascais, São Julião, Belém e Caparica rendem-se com facilidade; só os homens que António I conseguisse reunir lhe podiam fazer frente. Mas, com os apoios internos minados pelos subornos e ameaças de Filipe e os externos, pedidos a França e Inglaterra, a tardarem em chegar, António I não conseguiu mais do que uma pequena tropa, que aguardou o duque de Alba na margem esquerda da ribeira de Alcântara. A 25 de Agosto, a batalha foi rápida. Não terá durado mais do que meia hora, mas foi quanto bastou para semear alguns milhares de mortos dum lado e doutro da contenda. Ferido, António I consegue fugir. Estará refugiado em França quando as Cortes de Tomar, se reunirem, em Abril do ano seguinte, e aclamarem formalmente Filipe de Espanha como Filipe I, rei de Portugal». In Alexandre Borges, Histórias Secretas de Reis Portugueses, Casa das Estrelas, 2012, ISBN 978-972-46-2131-9.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

terça-feira, 26 de julho de 2016

Rainha da Loucura. A. Borges. «A 17 de Agosto de 1447 , depois de terem recebido dispensa do papa Eugénio IV dos laços de consanguinidade que ainda os ligavam, Juan II de Castilla, de 42 anos, e Isabel de Portugal, de 19…»

jdact

«(…) Relegado para segundo plano e, em boa parte, por vontade própria, ou falta dela, Juan II pensaria por esta altura ter cumprido a sua parte no que dizia respeito a garantir a continuidade da dinastia de Trastâmara no trono. Tinha casado, em 1420, com dona Maria de Aragão, filha do seu tio Fernando, e haviam tido quatro filhos. As três meninas morreram ainda crianças, mas o filho varão, Henrique, estava vivo e de boa saúde. Naquele ano de 45, porém, a pacata vida familiar do rei foi subitamente abalada pela inesperada morte da mulher. Juan ficava ainda um pouco mais sozinho no mundo, mas, apesar de tudo, tinha a descendência assegurada, não havia razão para voltar a casar.
Contudo, Álvaro Luna, como sempre, via mais longe... Era uma tragédia aquilo que acontecera a dona Maria, senhora tão ilustre, uma tragédia..., mas podia ser transformada numa oportunidade... Castela estava precisada de aliados. Era urgente deixar Aragão isolada no mapa político da Península. E Portugal estava mesmo ali ao lado, ainda por cima, tínhamos ainda há pouco assinado com eles o tratado de paz que punha uma pedra sobre aquele velho assunto das guerras de Aljubarrota e afins. Que melhor forma de celebrar esta nova amizade do que casar o rei de Castela com uma infanta portuguesa, ainda para mais, bisneta do nosso antigo inimigo de guerra, Nuno Álvares Pereira?
O tempo ia passando e Juan não se decidia; protelava. Até que Álvaro Luna lhe abriu os olhos: já ia para sete anos que o filho Henrique estava casado com Branca de Aragão, onde estavam os filhos? Já começava por aí a circular..., enfim, vossa majestade sabe como são as pessoas, mas..., quem sabe? Deus move-se por caminhos misteriosos..., comentava-se, enfim, por aqui e por ali, que talvez Henrique..., não desse conta do recado. Juan II dava-se, finalmente, por convencido. Era preciso assegurar descendência saudável ao trono de Castela e, se o filho não era capaz, trataria ele mesmo do assunto. Ia voltar a casar.
A 17 de Agosto de 1447 , depois de terem recebido dispensa do papa Eugénio IV dos laços de consanguinidade que ainda os ligavam, Juan II de Castilla, de 42 anos, e Isabel de Portugal, de 19, casavam em Madrigal. Como dote, Isabel recebeu o senhorio de algumas localidades castelhanas, como a vila de Arévalo, e entrava assim para o distinto lote de descendentes de João I de Portugal que então se distribuiu por múltiplos lugares de destaque nas casas reais da Europa, e entre os quais avultava dona Leonor, imperatriz da Alemanha. Contudo, Isabel não tinha seguido sozinha para a nova vida em Castela; com ela, levara quatro ou cinco aias, uma delas, Beatriz.
Não foi pacífica a chegada das portuguesas à corte que se dividia entre Madrigal e Tordesilhas. A jovem rainha tinha de encontrar o seu lugar num ambiente perpassado de intrigas e onde depressa percebeu que quem mandava não era o marido, mas o inseparável Álvaro Luna. Quanto à aia, desviava inadvertidamente as atenções de Isabel... Condes e duques querem desposá-la e a sua beleza começava a arriscar transformar-se em maldição... Em 1451, Isabel dá a desejada descendência a Juan, sobretudo porque Henrique e Branca continuam... ,em branco. É uma menina e recebe o mesmo nome da mãe, mas o seu nascimento traz implicações indesejadas: a rainha dá os primeiros sinais de instabilidade mental. Mergulha numa depressão profunda e recusa-se a falar com quem quer que seja, excepto o marido. Álvaro Luna, maquinador do casamento e, afinal, de tudo quanto se passava em Castela, não poderia imaginar o que se passaria depois...» In Alexandre Borges, Histórias Secretas de Reis Portugueses, Casa das Estrelas, 2012, ISBN 978-972-46-2131-9.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

segunda-feira, 25 de julho de 2016

As Três Leonores. Alexandre Borges. «Um acontecimento marcante à escala internacional mostraria, contudo, que a velha sensibilidade de Fernando I, “o Inconstante” ou “o Inconsciente”, para a política externa…»

jdact

«(…) Uma das consequências mais imediatas dessa política foi a transformação de Lisboa. O porto da capital era ponto de partida, chegada e passagem de gente e mercadorias de toda a parte, com os proveitos comerciais daí decorrentes. No entanto, o rei Fernando I atendeu também ao desenvolvimento da educação, com a transferência da universidade para Lisboa, e da agricultura, aprovando a Lei das Sesmarias, que, entre outras disposições, fixava trabalhadores nos campos, travando o despovoamento do interior, e instituía o princípio da expropriação de terras que não fossem aproveitadas para cultivo. Um acontecimento marcante à escala internacional mostraria, contudo, que a velha sensibilidade de Fernando I, o Inconstante ou o Inconsciente, para a política externa, continuava viva e boa saúde.
Por aqueles dias, a Europa estava dividida pelo grande cisma do Ocidente: um papa em Roma e outro em Avinhão reclamavam cada um para si a autoridade sobre a Igreja cristã. Mais tarde, para complicar mais a questão, surgiria ainda outro antipapa em Pisa. O continente dividiu-se em apoios a cada um deles, de acordo com interesses próprios e alianças políticas, mas Fernando I, é claro, não soube bem de que lado se colocar. Começou, com o habitual sentido de oportunidade, por expressar o seu apoio ao antipapa de Avinhão, Clemente VII, indo assim contra a posição tomada por Inglaterra, Coroa a que permanecia ligado pela aliança assinada em Westminster. Mais tarde, esclarecido pelos Ingleses, mudaria de posição, passando a apoiar Urbano VI, de Roma. No entanto, ainda teria tempo para, no ano seguinte, abandonar esse apoio e quedar-se por uma posição qualquer pouco clara, que, em todo o caso, já não interessava a ninguém.
Como se o velho Fernando I tivesse ressuscitado do mais absoluto nada, velho é força de expressão, não tinha então mais de 35 anos, em Junho de 1381, volta a envolver-se em escaramuças com Castela, era agora rei João, ali para os lados da fronteira alentejana. À medida que o rastilho dos combates acende uma nova guerra, a terceira fernandina, encomenda a João Fernandes Andeiro a missão de conseguir o apoio britânico para esta nova contenda. Andeiro era um fidalgo galego que o tinha apoiado no tempo da primeira guerra, esperançado em tirar daí alguma promoção pessoal e que, uma vez derrotado, partira para Inglaterra. Podia ser apenas uma personagem secundária neste processo, mas não se contentaria com isso. Nas suas viagens de Londres a Lisboa, vai-se aproximando, de forma suspeita, da rainha...
A 7 de Março do ano seguinte, a armada castelhana consegue entrar no Tejo e atacar Lisboa. A estrutura defensiva nacional não é capaz de fazer mais do que assegurar a protecção do castelo, deixando o povo que, por definição política de então, vivia fora das muralhas, à mercê do invasor. Contudo, se a terceira das guerras seria a de mais graves consequências para Fernando I, a terceira das Leonores, não lhe ficaria atrás. Em primeiro lugar, mantinha aquela duvidosa amizade com o conde de Andeiro; em segundo, preparava, em segredo, uma jogada terrível... João, um dos filhos de Pedro e Inês e, portanto, meio--irmão de Fernando, que deixámos lá atrás perdido na infância e na condição de figura decorativa na trágica história de amor dos pais, tinha, entretanto, casado com a irmã de Leonor Teles, Maria, e vinha granjeando prestígio na corte. Temendo essa ascensão social do cunhado e o que ela pudesse significar na altura de redistribuir o poder, Leonor monta um ardil tenebroso... Chama João e apresenta-lhe um negócio onde ambos tinham tudo a lucrar: oferece-lhe a mão da sua filha única, dona Beatriz. Para Leonor, significava transformar um possível obstáculo num aliado; para João, algo tão simples e directo como transformá-lo, automaticamente, no herdeiro do trono.
Porém, como acima ficou dito, João era já casado e não com uma mulher qualquer, mas com a irmã da própria Leonor. Nada que apoquentasse a rainha. A proposta incluía a seguinte condição: para casar com Beatriz, João devia matar a mulher. João assim fez, a golpes de punhal, justificando o injustificável com um suposto comportamento condenável de dona Maria. Livre da irmã e com a carreira do cunhado irremediavelmente comprometida por aquele acto hediondo, Leonor roeu a corda e deu o dito por não dito: casou a infanta Beatriz com um fidalgo inglês e o miserável João fugiu para o lado de lá da fronteira». In Alexandre Borges, Histórias Secretas de Reis Portugueses, Casa das Estrelas, 2012, ISBN 978-972-46-2131-9.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

domingo, 24 de julho de 2016

Uma Questão de Fé. A. Borges. «… toda esta loucura, toda esta fé ardente, toda esta devoção apaixonada, teria limite? É que, para a História não oficial, ficou-lhe outro cognome: “o Freirático”»

jdact

«(…) Porém, é preciso que se diga, o cumprimento da promessa parece ter sido bem recebido entre quem de direito. Depois daquele primeiro filho, João e dona Maria Ana teriam mais cinco. Alexandre, Pedro e Carlos faleceram na infância, mas o infante José sucederia no trono ao pai, dona Maria Bárbara tornar-se-ia rainha consorte de Espanha por casamento com Fernando VI; e Pedro seria Pedro III, príncipe do Brasil, rei consorte de Portugal por casamento com a sobrinha dona Maria I. Em 1716, no entanto, João V voltaria a envolver o reino numa contenda internacional. Venezianos, turcos e o papa estavam em guerra pela posse de Corfu. Respondendo a um pedido de ajuda de Sua Santidade em pessoa, o rei português envia uma poderosa esquadra comandada pelo conde do Rio Grande, que alcança uma vitória clara no cabo de Matapão. No entanto, como todos os conflitos, também este representava mais um assalto às finanças nacionais. João tinha-o aprendido cedo e por experiência própria. Então, porque voltara à guerra? Porque fora o papa que lho pedira, tocando no ponto fraco do rei absoluto: uma paixão porventura excessiva por tudo quanto dissesse respeito à Santa Madre Igreja.
Desde pequeno, João crescera num ambiente devoto. Poderia tê-lo sido ainda mais, se acaso João de Brito, padre jesuíta que fora pajem e amigo de infância de Pedro II, tivesse aceitado o convite do rei para ser preceptor do herdeiro do trono, em vez de regressar aos confins da Índia, contra todos os pedidos dos amigos e da família, onde acabaria degolado por pregar a fé cristã, séculos antes de ser canonizado, e de quem ainda hoje se conservam seminários e santuários no estado do Tamil Nadu, onde se acredita que a terra é vermelha por causa do sangue derramado por João de Brito na hora do martírio. Duma forma ou doutra, o outro João, o rei, seria sempre um crente fervoroso. A guerra por Corfu, o Convento de Mafra, a Capela de São João Baptista, o escadório do Bom Jesus e os Clérigos foram apenas os destaques duma longa lista de dispendiosas despesas em favor da Igreja. Na sequência dessa amizade e do testemunho dela dado no Matapão, Lisboa foi elevada a patriarcado em 1717, tornando-se assim Tomás Almeida, arcebispo local, num dos três patriarcas do Ocidente, em conjunto com os homólogos de Veneza e Roma. Lisboa dividiu-se, então, em duas: Oriental e Ocidental, isto é, a metropolitana e a urbe patriarcal. Para comemorar, João fez as coisas ao seu estilo: mandou remodelar e aumentar a capela real até à bizarria, adequando-a à nova dignidade da sua condição. Enriqueceu conventos com alfaias e pratas, fundou um novo, o do Louriçal, doando-lhe ainda 6000 cruzados. Pagou outros 120 000 por uma imagem benzida pelo papa, mandou 1377 cruzados para Jerusalém e criou dois bispados no Brasil. Para Roma, enviou um total de 1,38 milhões de cruzados, empregues em indulgências e processos de canonização e, na missão que lá foi assistir a um conclave, empenharam-se mais dois milhões, entre muitas outras doações de menor monta, dispersas por capelas e igrejas nacionais e estrangeiras, viagens de núncios e ofertas a cardeais.
E aqui chegamos ao centro do coração do rei magnânimo: tudo isto, toda esta loucura, toda esta fé ardente, toda esta devoção apaixonada, teria limite? É que, para a História não oficial, ficou-lhe outro cognome: o Freirático. E dona Maria Ana, ao que se sabe, engravidou aquelas seis vezes de João nas poucas vezes em que via o marido, habitualmente ausente, ocupado entre as obras do reino e os assuntos da alcova... Naqueles dias, ficaram célebres as incursões nocturnas do rei por prostíbulos e conventos, mas foi nestes últimos que, a pouco e pouco, se foi concentrando a predilecção de João. No entanto, entre os múltiplos pontos do roteiro, um foi ganhando a estima especial do monarca (a comprová-lo, existem as contas do reino: nenhum outro convento recebeu tantas dotações reais durante aqueles 44 anos): o de Odivelas, afinal, uma obra lançada pelo rei Dinis I e, portanto, com antecedentes na História não oficial do amor em Portugal». In Alexandre Borges, Histórias Secretas de Reis Portugueses, Casa das Estrelas, 2012, ISBN 978-972-46-2131-9.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

domingo, 26 de junho de 2016

Uma Questão de Fé. A. Borges. «… a Capela de São João Baptista, construída em Roma e, depois, desmantelada e transportada até Lisboa. A jóia de ouro que ainda hoje brilha no interior da Igreja de São Roque, em Lisboa»

jdact

«(…) O rei era grande e gostava de fazer as coisas em grande. Não admira, pois, o tamanho do seu coração... Ao que parece, conheceu a primeira amante logo aos 15 anos. Chamava-se Filipa Noronha e o então príncipe quis casar com ela, mas o pai tinha outros planos. Por imposição de Pedro, João casaria com Maria Ana de Áustria, pouco dotada de beleza, a fazer fé nas crónicas, mas dum carácter inabalável, que tudo haveria de perdoar ao marido ao longo da vida, em nome do sentido de Estado. Foi Fernando Teles Silva, conde de Vilar Maior, o embaixador extraordinário encarregado por Pedro de ir a Viena pedir a mão de Maria Ana, filha do imperador Leopoldo e irmã dos aliados de guerra Carlos e José. Teles Silva chegou à Áustria a 2l de Fevereiro de 1708, reunindo com os imperadores em audiências particulares até chegar a um acordo formal. Depois, vinha o espectáculo. A 7 de Junho, entra na capital, com toda a solenidade e pompa dos cerca de 40 coches, alguns mandados vir, de propósito, da Holanda, cada um puxado por seis cavalos, com destino à cerimónia de apresentação.
A 21 de Junho, no Paço da Favorita, dona Maria Ana era oficialmente pedida em casamento em nome do rei de Portugal. Na circunstância, o embaixador terá entregue à futura rainha um retrato de João V, mas, como se a beleza do rei pudesse não bastar para convencer Maria Ana (e como se a vontade da noiva importasse alguma coisa perante a decisão consumada das famílias), a moldura que enquadrava o óleo estava cravejada de diamantes, um pequeno sinal da sua estima, dir-se-ia... A 9 de Julho, o cardeal da Saxónia celebrava a cerimónia nupcial, ainda sem a presença do noivo, representado pelos seus embaixadores. Por fim, já a 26 de Outubro e depois de um longo cortejo através da Europa, pontuado, a cada paragem, pela realização de uma nova festa comemorativa, João e Maria Ana conheciam-se finalmente em pessoa. A imponente recepção aconteceu no Paço da Ribeira, prolongando-se por três dias e três noites. A 22 de Dezembro, na Sé de Lisboa, a corte inteira compareceu ao Te Deum, derradeira comemoração do casamento real, meio ano depois de a noiva ter dado o sim em Viena. Há casamentos, da cerimónia à separação, que não duram tanto...
Diz-se que o primeiro acto oficial da novíssima rainha de Portugal terá sido mandar Filipa Noronha para a clausura. Essa Filipa que acabara de dar à luz uma menina, sabe-se lá de que pai... O segundo, ser fiel a João V. Para a descrição do que foi a vida conjugal deste casal real, basta regressar ao Memorial do Convento. José Saramago começa o romance precisamente por aí, relatando uma noite como muitas outras, quando João V se deslocou solenemente ao quarto da mulher para lhe tentar fazer um filho, rodeado de criados e rituais e redundando em fracasso. E explica como, durante dois anos, se repetiu diplomaticamente o cerimonial as vezes que foram precisas, até que o rei concretizasse, por fim, o grande objectivo nacional: a produção dum herdeiro. E como, cumprindo a promessa que havia feito perante tantas dificuldades, mandou levantar um colossal convento em Mafra, com um palácio que competisse com Versalhes. E que essa construção se arrastaria pelos anos, consumindo loucamente os recursos do império e sacrificando urna multidão de milhares de operários anónimos. E que, depois, el-rei mandou vir músicos de toda a Europa para compor, de propósito, para os grandes carrilhões que mandara fabricar e instalar ali. E que tudo isto custou 120 milhões de cruzados e ficou como paradigma da megalomania de um rei que os cronistas oficiais preferiram cognominar de o Magnânimo, patrocinador de outras obras faraónicas, como o Aqueduto das Águas Livres, a Torre dos Clérigos, o Solar de Mateus, o Palácio do Freixo, e muitas outras de vocação religiosa, como o escadório do Santuário do Bom Jesus, em Braga, e a Capela de São João Baptista, encomendada aos melhores arquitectos da época, construída em Roma e, depois, desmantelada e transportada até Lisboa, onde seria remontada peça a peça até se transformar na jóia de ouro que ainda hoje brilha no interior da Igreja de São Roque, em Lisboa». In Alexandre Borges, Histórias Secretas de Reis Portugueses, Casa das Estrelas, 2012, ISBN 978-972-46-2131-9.



Cortesia de CdasLetras/JDACT

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Uma Questão de Fé. A. Borges. « O destino entendeu mimar o Rei-Sol português com umas décadas de paz e dinheiro, muito dinheiro, proveniente do ouro e dos diamantes entretanto descobertos no Brasil»

jdact

João V
«Foram tempos de ouro e diamantes, grandes palácios, carruagens faustosas, música épica escrita propositadamente pelos músicos mais famosos para salas desenhadas pelos arquitectos mais aclamados. Tempos ardentes, movidos por uma fé incendiada por uma paixão, obcecada pela carne. Este caso começa nos arredores de Lisboa, à noite. Um vulto luxuosamente vestido de sedas e veludos, escoltado por dois guardas, dirige-se em passo rápido para o portão dum edifício. Bate com autoridade e logo lhe respondem. Ouve-se o chiar da porta abrindo entre risinhos femininos e palavras secretas, trocadas dos lábios para os ouvidos. O portão de ferro bate com estrondo, ecoando pela noite. E os guardas ficam do lado de fora, como os gatos que passam, e as árvores do outro lado da estrada, e o resto do reino, dormindo. Nada haveria a contar acerca deste caso, não fosse aquele homem o rei e o edifício a que acabara de recolher não um bordel, mas um convento. Estávamos no século XVIII, o das luzes. Eram tempos gloriosos nas cortes europeias. Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Holanda viviam do luxo dos seus impérios comerciais; já o povo podia entreter-se a admirar-lhes as roupas, as grandes obras, a comentar as histórias das festas reais, dos casamentos sumptuosos, dos hábitos extravagantes, das vidas mais ou menos devassas.
João V foi solenemente aclamado rei ao primeiro de Janeiro de 1707. Tinha 17 anos e muita sorte. Era o quarto rei da quarta dinastia e nem o avô, nem o tio, nem o pai, que o precederam, reinaram em circunstâncias fáceis. Entre a reconquista da independência, em 1640, as guerras com Castela, que se lhe seguiram e prolongaram durante 28 anos, as mortes, as despesas inerentes, a perda de muitos dos mais importantes bastiões do Oriente e consequente quebra de proveitos, fora problemas familiares, legais e médicos, a vida não foi particularmente fácil para João IV, nem para Afonso VI, nem para Pedro II. Aliás, também não seria fácil para o homem que sucederia a João V no trono, José, a braços com uma capital devastada por um dos maiores terramotos da História. Mas João nasceu bafejado pela fortuna. O destino entendeu mimar o Rei-Sol português com umas décadas de paz e dinheiro, muito dinheiro, proveniente do ouro e dos diamantes entretanto descobertos no Brasil, quando, perdida boa parte da Índia, Portugal se obrigava a virar atenções para outro recanto do império.
O filho varão do rei Pedro II e da sua segunda mulher, dona Maria Sofia de Neuburgo, foi o símbolo do absolutismo em Portugal, em muitos dos seus defeitos e algumas virtudes. Durante os longos 44 anos do reinado de João V, Portugal viveu alguns dos mais soberbos momentos da História e outros dos mais vis, absurdos e antidemocráticos que se há-de recordar. João terá sido o mais esbanjador e irresponsável monarca de toda a galeria nacional, mas, dizem alguns historiadores, também um homem que, como poucos, nascera para ser rei. Um mecenas das artes e das ciências, um líder capaz de tomar decisões corajosas em momentos delicados e um monarca com uma visão global para o império que lhe assegurou, por algum tempo, a sobrevivência e a prosperidade.
Ainda assim, não foram fáceis os primeiros dias do jovem rei. Havia guerra do outro lado da fronteira: a corrida à sucessão ao trono espanhol. Eram pretendentes Filipe V, apoiado pelos franceses, e o arquiduque Carlos, que tinha contado até ali com o apoio de ingleses, holandeses e portugueses, por decisão de Pedro II. João V entendeu dar continuidade ao compromisso assumido pelo pai, mesmo que o saldo para as contas nacionais fosse, até então, nada menos do que desastroso. Contudo, a sorte de João começaria logo ali, quando José, o irmão do arquiduque, morreu, deixando livre o trono austríaco. Carlos tornou-se então imperador Carlos VI da Germânia e a Inglaterra deixou de o apoiar na guerra em Espanha, para evitar que acumulasse duas coroas. As pazes foram assinadas, as tropas portuguesas a combaterem na Catalunha regressaram a casa e os depauperados cofres nacionais agradeceram não ter de suportar mais o esforço da guerra.
Com a lição aprendida, João V perderia doravante o apetite por quezílias internacionais, preferindo, antes, reafirmar a aliança com Inglaterra e concentrar atenções no Brasil. Para a aventura transatlântica, canalizou fluxos de emigrantes, apostou no aumento de quadros militares e administrativos, na cultura do açúcar e, sobretudo, na exploração do ouro. Internamente, fomentava a indústria, a arquitectura barroca, a música e a pintura. Introduziu em Portugal a ópera italiana, patrocinava artistas nacionais e mandava vir outros de fora. Tinha uma obsessão: suplantar Luís XIV de França, o Rei-Sol original, que dizia que o Estado era ele. João queria fazer palácios tão belos como os dele, dotá-los de arte ainda mais extraordinária, dar banquetes ainda maiores, e Deus sabe como João gostava de comer... Enquanto isso, patrocinava o padre voador, Bartolomeu Gusmão, que tinha feito um balão de ar quente elevar-se do chão num salão do palácio real, diante dos olhos perplexos do rei, e trabalhava agora no sonho dos sonhos: uma máquina de voar. A passarola voadora». In Alexandre Borges, Histórias Secretas de Reis Portugueses, Casa das Estrelas, 2012, ISBN 978-972-46-2131-9.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

Rainha da Loucura. A. Borges. «… que esta Isabel casou com um meio-irmão do pai e, portanto, um homem que era mais ou menos seu tio. Juntos, tiveram uma filha, baptizada Isabel, aquela que era assim, neta do rei João por via paterna e legítima e bisneta do mesmo rei João por via materna e bastarda»

jdact

Dona Isabel de Portugal. Rainha de Castela
«Em 1428, quando Isabel nasceu, ainda era rei seu avô, João I, que, por acaso, era também seu bisavô. A história não é fácil de perceber, nem especialmente lisonjeira para a imagem de João, mestre de Avis, o rei dito de Boa Memória, que, apoiado pelo povo e escoltado por Nuno Álvares Pereira, segurou a independência portuguesa perante as legítimas pretensões de Castela na crise (revolução?) de 1383-85 e deu início à segunda dinastia nacional, a de Avis. Vamos por partes: João casou com a inglesa Filipa de Lencastre. Dessa célebre união nasceu um conjunto de infantes cultos e audazes que ficariam celebrizados para a História sob a designação de a Ínclita Geração. Dela constavam, entre outros, Duarte, futuro rei de Portugal, o infante Henrique, Fernando, chamado o Infante Santo (??) pela sua trágica morte em África em favor dos interesses nacionais, e João, duque de Beja, sexto e penúltimo dos irmãos. Ora este João viria a ser pai da nossa menina Isabel, fazendo dela, portanto, neta legítima do rei João I. Esta parte é fácil; falta a outra.
Apesar do celebrado casamento com Filipa de Lencastre e da boa reputação de que sempre gozou, o facto é que o rei João não se furtou aos costumes da época e também teve a sua relação extraconjugal e os seus bastardos. A relação em questão deu-se com a senhora Inês Pires Esteves e dela nasceram dois filhos, um menino e uma menina. Ora, o rei casaria esse menino bastardo de nome Afonso com Beatriz Pereira de Alvim, filha única do seu condestável Nuno Álvares Pereira, dotando-os de terras e bens e dando origem à Casa de Bragança (que muito lá mais adiante na História se tornará na quarta e última dinastia da monarquia nacional). Pois bem: Afonso e Beatriz tiveram uma filha de nome Isabel e essa Isabel acabou por casar com João, o tal sexto e penúltimo irmão da Ínclita Geração e, portanto, sexto e penúltimo filho legítimo do rei João I.
Confusos? É natural. Digamos, em resumo, que esta Isabel casou com um meio-irmão do pai e, portanto, um homem que era mais ou menos seu tio. Juntos, tiveram uma filha, também baptizada Isabel, aquela com que começámos a nossa história e que era assim, portanto, neta do rei João por via paterna e legítima e bisneta do mesmo rei João por via materna e bastarda. Notável. A pequena Isabel cresceu, pois, na corte, embora sem privilégios especiais. O pai tinha bens, mas nunca poderia aspirar a ser rei, tantos infantes e duques tinha à frente na linha de sucessão. Era um ambiente dominado pela aura de poder daquela dinastia que, depois de assegurar a independência nacional, tinha já dado início à expansão, combatendo e triunfando no Norte de África e lançando as bases dum império ultramarino. Sobre toda a corte impendia ainda a devoção religiosa e o carisma do seu outro bisavô, Nuno Álvares Pereira, herói de guerra que, pelas suas proezas, fora recompensado com inúmeras riquezas e terras e que, no entanto, depois de se tornar um dos homens mais ricos de toda a Península Ibérica, preferira distribuir tudo por companheiros de armas e mendigos, entrando para o Convento do Carmo por ele mesmo mandado construir, esperando que, algures, o mundo o acabasse por esquecer.
Este bisavô morreu tinha Isabel três anos; o outro, que também era avô e rei, quando ela completara cinco. O rei Duarte subiu então ao trono e com ele chegaram à corte algumas caras novas, como o seu antigo escudeiro Rui Gomes Silva e respectivas filhas. Uma destas crianças seria depois entregue à mãe de Isabel para que viesse a tornar-se aia da pequena infanta. Chamava-se Beatriz, a menina em questão. Era ligeiramente mais velha do que Isabel, teria talvez sete anos, e tão bonita que, um dia, um pintor usá-la-á como modelo para um retrato da Virgem Maria. Isabel e Beatriz cresceriam, portanto, juntas, entre jogos, bordados e tertúlias, mas o seu destino não seria o mesmo. Eram ambas fidalgas, mas Beatriz era uma simples aia particularmente empenhada nas suas orações a São Francisco de Assis e a Nossa Senhora da Conceição; Isabel, ainda que por via ínvia, tinha sangue real nas veias e, um dia, deveria casar com um infante ou duque duma casa estrangeira. Esse dia chegou em 1447, já o rei Duarte havia morrido e subido ao trono o seu filho Afonso V. Mas Isabel não tinha à espera uma segunda figura como ela; o noivo era o próprio rei de Castela...
Juan II de Castilla não fazia planos de voltar a casar. Era um homem fraco de 42 anos, mais 23 do que a noiva que agora lhe arranjavam, tinha levado uma vida razoavelmente longa e com mais aborrecimentos do que contava. O trono caíra-lhe ao colo aos 27 meses de vida, quando o pai, Henrique III, morreu. O tio Fernando assegurou a regência enquanto crescia, mas, quando assumiu oficialmente funções, depressa se percebeu que não fora talhado para liderar. Era um homem afável, que gostava de cantar e dançar, aptidões pouco adequadas aos confrontos com a nobreza que o aguardavam. A partida de Fernando para assumir o trono de Aragão e o dócil carácter do rei deixaram a Álvaro Luna caminho aberto para se impor. Luna era um fidalgo que conhecia Juan desde criança; tinha sobre ele um ascendente, sabia disso e ia explorá-lo até onde lhe fosse permitido.
Promovido a ministro e favorito pessoal no afecto do rei, Álvaro Luna tornou-se, então, no verdadeiro governante de Castela. Fez alianças políticas com a pequena nobreza e o baixo clero, para combater as aspirações dos grandes fidalgos de Castela e dos infantes de Aragão, e arrastou para a guerra as tropas do rei, numa tentativa fracassada de reconquistar Granada aos mouros (há quem diga, aliás, que o falhanço se ficou a dever não tanto a questões bélicas, mas a uma carroça cheia de figos com que os muçulmanos, em momento oportuno, presentearam Luna, sendo que, dentro de cada figo, estaria uma moeda de ouro…). Especulações à parte, ao longo dos anos seguintes Luna seria sucessivamente nomeado condestável de Castela, conde de Santiesteban e grão-mestre da Ordem de Santiago. Por volta de 1445, a sua autoridade tinha-se tornado pouco menos do que absoluta». In Alexandre Borges, Histórias Secretas de Reis Portugueses, Casa das Estrelas, 2012, ISBN 978-972-46-2131-9.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

As Três Leonores. Alexandre Borges. «Como se tivesse aprendido, por fim, a lição, o rei amainaria os ânimos nos anos seguintes. Por uma vez, deixou de olhar para Castela e concentrou-se nos assuntos internos»


jdact

«(…) A notícia correu o reino e passou a fronteira. João Lourenço foi procurar vingança a Castela, sem grandes resultados. Depois, tomou o assunto em mãos e tentou envenenar o rei. Acabou descoberto e espoliado, por isso, de todos os bens. O povo também não aceitava aquele casamento e começava a duvidar da lucidez deste rei. Naquela que é talvez a primeira grande manifestação da voz popular de que há registo na História de Portugal, uma multidão de 4000 pessoas comparece diante do rei Fernando para lhe fazer saber que não aceitaria que se casasse com aquela mulher, aquela terceira Leonor acerca de quem corriam os piores rumores e a quem o povo se habituaria a referir apenas como a Aleivosa. O fraco Fernando estremeceu. Jurou que sim, que assim faria, que se o seu povo não queria aquela rainha, ele encontraria outra, e saiu, prometendo mais esclarecimentos para dali a dias. Porém, na data combinada, o rei não compareceu. O povo ficou a olhar para um palanque vazio e temendo o pior. Nos tempos seguintes, veria confirmarem-se esses receios: Fernando casa, de facto, com Leonor Teles no Mosteiro de Leça do Balio e manda matar os chefes que tinham organizado a contestação.
Em tudo isto, faltava ainda um pormenor: a quebra de nova promessa de casamento com uma princesa de Castela, isto é, a quebra de um tratado de paz com um antigo inimigo de guerra. Felizmente para Fernando, Henrique de Trastâmara, esse bastardo sanguinário que matara o próprio irmão para chegar ao trono, parecia ter acalmado naqueles poucos anos que haviam passado. Fechou os olhos ao caso e anulou a cláusula do casamento constante do acordo de Alcoutim. Em 1372, em Tui, assinou-se novo tratado de paz e Henrique casou rapidamente a sua Leonor com outro homem: Carlos III, de Navarra. Em português prosaico e contemporâneo, Fernando tinha acabado de escapar de boa, provavelmente porque Henrique já percebera que mais lhe valia um partidário navarro do que uma aliança com um rei cuja palavra tinha a solidez duma gota de água. Fernando, porém, era dado a uma feroz atracção pelo abismo...
Poucos meses passados da emenda ao tratado, chega à península o duque de Lencastre, um filho do rei de Inglaterra que tinha pretensões ao trono de Castela. Como de costume, precisava de apoios para lançar a candidatura e decidiu bater à porta do rei de Portugal... Certo. O inglês não tinha obrigação de conhecer a fundo a situação diplomática da península, até porque ela mudava bem depressa, mas bastaria uma criança que aqui vivesse para saber que a única resposta possível a dar ao forasteiro era um não. Bastaria uma criança para perceber que Fernando já fora inimigo de Henrique, depois amigo e, por pouco, não voltara a ser inimigo. Que esse mesmo rei já tinha desbaratado o antigo aliado de Aragão e deixado o país de mão estendida com as suas loucuras de guerra. Mas isso seria uma criança e quem estava no trono era Fernando, e Fernando decidiu dizer que sim. Que o duque de Lencastre contasse com ele. Que o apoiaria numa guerra com Castela.
O acordo foi formalizado a 10 de Julho de 1372 pelo Tratado de Tagilde e, depois, actualizado pelo Tratado de Westminster. Estalava a segunda guerra fernandina. Com o país empobrecido e o exército desgastado pela guerra anterior, a contenda foi profundamente mais desequilibrada do que a primeira. Henrique invadiu Portugal e, deparando-se-lhe tão fraca resistência, avançou depressa, e, a 23 de Fevereiro de 1373, já tinha alcançado Lisboa. À beira da capitulação, valeu a Portugal a intervenção do cardeal Guido de Bolonha, que exigia o fim da violência e que as partes se entendessem num novo acordo de paz. Com efeito, o tratado foi assinado pouco depois, a 24 de Março, em Santarém, mas, na sua precária condição negocial, Fernando não conseguiria mais do que um acordo desequilibrado e dispendioso, cuja única virtude era libertar o país da ocupação estrangeira.
Como se tivesse aprendido, por fim, a lição, o rei amainaria os ânimos nos anos seguintes. Por uma vez, deixou de olhar para Castela e concentrou-se nos assuntos internos. Teve três filhos de Leonor; dois morreram pequenos, mas sobreviveu a mais velha, dona Beatriz. Focou-se na administração do reino. Trocou o ataque pela defesa e, assim, mandou construir novas muralhas em volta de Lisboa e do Porto, reparar muitos dos castelos destruídos pelo tempo e pelas guerras e fazer outros novos, de raiz. Revelou, afinal, ser dotado de alguma visão estratégica e apostou no desenvolvimento da marinha. Mandou construir novas embarcações e autorizou para esse mesmo fim o abate de árvores para a obtenção da madeira necessária. Isentou de impostos a aquisição de novos navios e a importação de ferragens e demais apetrechos para a construção de outros. E criou ainda a Companhia das Naus, à qual todos os navios pagavam uma percentagem dos lucros trazidos em cada viagem, criando um fundo que servia depois para cobrir os prejuízos daqueles que naufragassem ou necessitassem de reparação». In Alexandre Borges, Histórias Secretas de Reis Portugueses, Casa das Estrelas, 2012, ISBN 978-972-46-2131-9.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

O Mistério da Pureza. Alexandre Borges. «Pedro V morreu em casa, no Palácio das Necessidades, onde nascera 24 anos antes. Bastaram-lhe os últimos oito para ser um dos mais marcantes reis de Portugal e viver uma das mais trágicas histórias de amor…»

jdact

Pedro V e dona Estefânia
«(…) Pedro V e dona Estefânia foram um caso especial. Entre tantos casamentos de conveniência e sacrifício, famílias reais que se apresentavam como meras instituições públicas onde nada de verdadeiramente íntimo morava, Portugal foi surpreendido por um rei e uma rainha que se amavam de facto. Como um vulgar casal de namorados, eram vistos a passear de mão dada, a caminhar pelos jardins de Sintra, a olharem-se nos olhos recatadamente no privado silêncio do seu segredo. Todo o tempo que tinha livre dos afazeres da governação, Pedro dedicava-o a Estefânia. Se, porventura, isso não era possível, encomendava aos mensageiros a tarefa de atenuar esse afastamento: nós somos dois adolescentes, escrevia Estefânia numa carta à mãe. quando Pedro saiu para caçar durante três dias, trocámos correspondência, escrevendo quatro cartas cada um. Passados alguns meses, já os jornais asseguravam ter tido acesso a fontes fidedignas que lhes asseveram que a rainha se encontrava grávida. Pouco depois, os rumores eram desmentidos por outras fontes ainda mais fidedignas. Pedro e Estefânia riam dos boatos, das renovadas formas como apareciam, de coisas simples. Preferiam os passeios por Benfica, as visitas à infanta Isabel Maria, os chás no paço, o gozo da pureza, do seu amor, nas palavras da rainha, que continuava a ter a mãe por testemunha epistolar daquele raro caso de conto de fadas.
Vida privada à parte, rei e rainha também partilharam uma mesma visão política assente em valores sociais. Juntos, fundaram hospitais públicos e instituições de caridade. Até que veio aquele dia, no Verão seguinte. Estefânia sente-se mal no regresso de um passeio de barco pela Trafaria. Dias depois, numa volta a pé por Vendas Novas, não resiste ao calor intenso. A rainha é internada e o seu estado de saúde agrava-se. Pedro V passa o tempo inteiro no hospital, à cabeceira da cama. Já o fizera tantas vezes por desconhecidos; agora, fazia-o pela mulher, velando como um anjo-da-guarda belo e triste pelo fim da dor. Dois dias depois de completar 22 anos, à primeira hora da madrugada de 17 de Julho de 1859, dona Estefânia sucumbia a uma angina diftérica. As suas últimas palavras terão sido: consolem o meu Pedro. Quando o cadáver era vestido com um traje branco, o médico chamou a camareira-mor, pedindo-lhe que, em vez do diadema, voltasse a colocar sob a cabeça de dona Estefânia uma coroa de flores de laranjeira. Pedro tentou como pôde conservar a pose de Estado na missiva em que informava do sucedido o duque da Terceira, presidente do Conselho de Ministros: eu e os meus povos temos sido companheiros de infortúnio. Diz-me a consciência que os não abandonei... Era um coração para a terra e um espírito para o céu. De 15 em 15 minutos, salvas de canhões cobriram o reino com uma imensa e pesada mortalha, que não seria esquecida enquanto vivesse o rei esperançoso. A rainha Vitória escreveu ao rei Leopoldo consolando-o pelo trágico desaparecimento da irmã. Entre a incompreensão pelo absurdo da morte, tentava fazê-lo ver o mesmo paraíso onde ela via, agora, Estefânia.
O rei sofreu terrivelmente com a perda da mulher. Tornou-se ainda mais fechado, solitário e triste. Enquanto viveu, mais nenhuma mulher foi vista a seu lado nem os jornais se permitiram fazer circular qualquer rumor. E envelheceu. Envelheceu muito e precocemente. Alexandre Herculano, amigo e mestre, chamou-lhe um velho de 22 anos. Esse mesmo Herculano a quem nunca ninguém vira chorar como no dia em que soube da morte da rainha. O cansaço de viver não impediu, contudo, Pedro V de continuar a governar. Na senda do trabalho da mãe, funda, à custa da sua solitária teimosia, a Escola Normal, a Direcção-Geral de Instrução e o Curso Superior de Letras, futura Faculdade de Letras de Lisboa, que financia directamente com 91 contos saídos das suas rendas pessoais. E, em cumprimento de um desejo da mulher, manda iniciar a construção de um hospital dedicado a crianças. No entanto, não sobreviveria muito tempo a Estefânia, como talvez fosse seu desejo inconfessável. Depois de ter passado incólume por alas de hospitais repletas de doentes de cólera e febre-amarela, Pedro V não resistiu a uma banal viagem ao Alentejo. Em Outubro de 1861, já regressa doente com um vírus misterioso de uma ida a Vila Viçosa com alguns dos irmãos. Fernando é o primeiro a sucumbir; a l1 de Novembro, o próprio rei; depois, Augusto. Por fim, já em Dezembro, é a vez de João, com sintomas em tudo semelhantes.
De uma penada, desaparecia toda a família real, com excepção de Luís. O medo voltou a abater-se, mais medonho que nunca, sobre o país. Circularam teorias da conspiração, envenenamento, assassínio em massa. Seria um Natal terrível, em luto nacional, interrompido por tumultos nas ruas. José Estêvão descreveria brilhantemente a angústia daqueles acontecimentos: era a anarquia da dor protestando contra o despotismo da morte. Pedro V morreu em casa, no Palácio das Necessidades, onde nascera 24 anos antes. Bastaram-lhe os últimos oito para ser um dos mais marcantes reis de Portugal e viver uma das mais trágicas histórias de amor que o país conheceu. Causa provável da morte: febre tifóide. Foi a enterrar no Panteão Real de São Vicente de Fora, ao lado da mulher, belos e puros como dois anjos caídos, deixando ao país uma suave ilusão de eterna juventude e perfeição. Anos mais tarde, a revelação de alguns pormenores contidos no relatório da autópsia a dona Estefânia confundiria o país: em consequência da difteria, as falsas membranas tinham-se propagado à vulva da rainha. Ao examiná-la, aos médicos deparou-se-lhes o hímen intacto. Os súbditos preferiram não se fazer muitas perguntas. Se Pedro e Estefânia se compreenderam, desde o primeiro momento, em silêncio, o país faria o possível por não o perturbar com palavras.
Único Bragança a sobreviver ao colapso, Luís regressou de França para subir ao trono. Foi já ele quem inaugurou, a 17 de Julho de 1977 , o hospital iniciado pelo irmão. O serviço de maternidade foi baptizado Magalhães Coutinho, seu companheiro nas investidas pela noite de Lisboa, mas é o nome da cunhada que o hospital ostenta até hoje». In Alexandre Borges, Histórias Secretas de Reis Portugueses, Casa das Estrelas, 2012, ISBN 978-972-46-2131-9.

Cortesia de CdasLetras/JDACT