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segunda-feira, 23 de julho de 2018

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «O dia de São Martinho deve ter sido considerado, por tudo isto, um dia auspicioso para o nascimento desse infante, que assim vinha ao mundo sob o signo de um patrono…»

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«(…) É certo que São Martinho não era um santo com a envergadura de Santiago, o Mata-Mouros, que há muito arrebatara o lugar de protector da Reconquista; contudo, se levarmos em conta a rivalidade existente entre Braga e Compostela, e o papel que desempenharam São Martinho de Braga (o outro São Martinho) e Santiago de Compostela, respectivamente santos patronos e quase fundadores de qualquer uma das duas metrópoles, essa até talvez fosse considerada uma vantagem. São Martinho de Braga/Dume fora, para além de arcebispo de Braga, um evangelizador, o homem que convertera os Suevos ao catolicismo, em data anterior à própria invenção das relíquias de Santiago e sob cuja invocação também se erigiam muitos templos, pelo que também não era desajustado à comemoração do nome que se deu ao novo filho varão de Afonso Henriques. O próprio Martinho Tours, em cujo dia o infante nasceu, tinha uma história de vida e tradição muito adequada a servir o nome de um jovem infante como Sancho. São Martinho começara a sua vida como um brilhante soldado nos exércitos romanos, abandonando a carreira militar por se ter convertido ao cristianismo, depois do famoso episódio em que rasgara a sua capa para abrigar um mendigo que, mais tarde, em sonhos, veio a reconhecer ser o próprio Cristo. O seu carácter belicoso, a sua actividade militar e o seu labor como mentor de conversões ao cristianismo e evangelizador dos pagãos faziam dele um santo mais que meritório e condigno para o segundo filho varão do primeiro e conquistador rei de Portugal, que, também ele baseava as suas ambições e a sua virtude no desempenho da luta contra o infiel, numa terra onde os pagãos ainda abundavam.
O dia de São Martinho deve ter sido considerado, por tudo isto, um dia auspicioso para o nascimento desse infante, que assim vinha ao mundo sob o signo de um patrono que ao longo da sua vida soubera lutar agressivamente pela expansão da fé cristã e pela conversão dos pagãos, mas que também soubera ser caritativo e generoso para com os pobres e necessitados, numa pastoral muito típica de um santo com as características de missionário-guerreiro como Martinho de Tours. E para um homem com a linhagem de Afonso Henriques, cujo pai, Henrique da Borgonha, era originário precisamente da região adjacente ao arcebispado de Tours, onde o túmulo do santo continuava a atrair: algumas das mais importantes peregrinações da França medieval, ver um filho nascer no dia de um dos santos patronos da França devia parecer um sinal muito positivo.
Ora o destino não quis que o irmão mais velho sobrevivesse, transtornando assim toda a ordem prevista dos acontecimentos: pela entrada em cena do imponderável. Henrique morreu pouco depois do nascimento de Sancho, provavelmente ainda durante o primeiro ano de vida deste último, engrossando, afinal, os números já de si muito elevados da mortalidade infantil na Idade Média, e deixando um vazio na primogenitura masculina da linhagem régia. Martinho era agora o próximo nessa linha de sucessão. Deve ter sido face à probabilidade muito real de Sancho I poder vir a suceder ao pai no trono que foi decidido começar por mudar-lhe o nome de Martinho para Sancho.
Por muilo nobre que o nome Martinho fosse, era um nome que não devia ter quaisquer ressonâncias emocionais como nome de rei. Na Península Ibérica, nunca fora utilizado como tal, nem o seria no futuro, pelo menos durante os séculos XII e XIII. E talvez tenha sido essa a razão por que se decidiu mudar-lhe o nome tão cedo. É que, do Martinho que nasceu neste dia, nunca mais se ouvirá falar. Transformado desde logo em Sancho, nunca mais seria conhecido por aquele que, afinal, tinha sido o seu nome de baptismo. De facto, não fora uma lacónica notícia que os anais mais antigos que temos sobre este facto nos dão, não o saberíamos de todo. Mas os analistas que trabalhavam no seio do scriptorium do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra entenderam ser de registar esse facto:

Sancho I nasceu na noite da festa de São Martinho, foi baptizado como Martinho, mas depois foi chamado Sancho (cognomento Sanctius)».

In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

domingo, 11 de junho de 2017

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «Quando Afonso I sofre o seu infortúnio, de Badajoz, e Sancho, na flor dos seus 14 anos, e apenas acabado de aceder à maioridade, é chamado a assumir maiores responsabilidades»

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«(…) Foi este o ambiente em que se passaram os catorze primeiros anos da vida de Sancho, entre convulsões e mudanças a nível da cristandade e uma plêiade de guerras ao seu redor, guerras de conquista aos mouros, guerras contra os Leoneses, querelas eclesiásticas entre Braga e Toledo e entre Braga e Compostela, múltiplas alianças matrimoniais e acordos de paz entre os reis cristãos peninsulares, tão frequentes quanto ineficientes, ultrapassados e desrespeitados ainda mal a tinta secara no pergaminho, tudo isto junto com a sempre continuada e também sempre frustrada tentativa de fazer reconhecer o reino pela Santa Sé.
Quando Afonso I sofre o seu infortúnio, de Badajoz, e Sancho, na flor dos seus 14 anos, e apenas acabado de aceder à maioridade, é chamado a assumir maiores responsabilidades, é para este mundo que ele é chamado. É no contexto deste panorama político, instável e inseguro, que os seus instintos e a sua decerto incipiente maturidade política serão chamados a intervir, mesmo se nessa missão ele viesse a ser guiado pelos seus conselheiros e por um pai que, embora inutilizado para a guerra no rescaldo de Badajoz, continuaria muito activo e interveniente até à sua morte.

Infância e criação
Na verdade, conforme já mencionámos, Sancho I não nascera para ser rei. Sancho foi o segundo filho varão de Afonso Henriques, mas era sete anos mais novo que o primogénito. Tanto quanto podemos saber, foi o quinto filho a nascer da união legítima do primeiro rei de Portugal com Mafalda de Sabóia.
O primeiro filho, que fora logo um varão, nascera em 1147, pouco mais de um ano depois do casamento dos pais e chamou-se Henrique, de acordo com a tradição e decerto em honra do avô. Era sobre ele que, em princípio, devia ter recaído a obrigação de suceder a Afonso Henriques, ainda que nestes anos a ordem de sucessão ao trono ainda não estivesse tão interiorizada pela linha de primogenitura masculina como mais tarde viria a estar. Nos anos seguintes, a rainha Mafalda daria à luz, consecutivamente, três meninas, Urraca (que nasceu provavelmente ainda em 1148), Teresa (que parece ter nascido em 1151) e Mafalda (nascida em 1153), às quais foram dados nomes que invocavam a mãe, a avó paterna e a tia-avó leonesa das meninas.
De acordo com o testemunho dos Anais de D. Afonso Henriques, fonte de finais do século XII, Sancho I nasceu numa quinta-feira, na noite da festa de São Martinho de Tours, que cai precisamente a 11 de Novembro, e por essa razão fora baptizado como Martinho, em honra do patrono do dia em que nascera. Não é decerto por acaso que se descreve um assunto geralmente deixado no vago com tanto detalhe. Como o primogénito do rei tinha atingido o limiar dos 7 anos de idade ainda vivo e de saúde, talvez se tivesse considerado ultrapassada uma das etapas de maior perigo de morte na primeira infância e se tivesse por isso cedido a orientações de ordem devocional ou espiritual e dado a este segundo filho varão o nome de um santo. São Martinho não era um santo menor, pelo contrário, era muito importante e muito venerado, quer em Franca, onde exercera a parte mais importante do seu apostolado e onde era mesmo um dos santos patronos do reino, quer na Península Ibérica, onde o seu culto também estava muito disseminado, e onde o sincretismo com um outro São Martinho, o de Braga/Dume, contribuía, e muito, para a popularidade do culto martiniano, com especial incidência no Noroeste da Península». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «As vidas do primeiro rei e seu arcebispo parecem ligadas por um estranho paralelismo que os impossibilitou fisicamente»

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«(…) Isto é o que parece confirmar mais uma das múltiplas deslocações de João Peculiar a Roma, desta vez na sequência da morte de Afonso VII, relembremos que precisamente nessa altura Afonso Henriques também se tinha deslocado em missão diplomática à corte de Fernando II, decerto para tirar algum proveito do desaparecimento do imperador das Hispânias. Não descansando, e aproveitando todas as ocasiões possíveis para defender a sua causa, o arcebispo de Braga acabaria por receber um privilégio do papa Adriano IV onde o pontífice lhe conferia grandes vantagens em relação aos anteriores. Mas os dias de grande actividade do quezilento arcebispo de Braga estavam a chegar ao limite. Dentro em pouco, a doença haveria de o confinar a Braga, onde o encontramos em permanência a partir de meados da década de 60. A sua última deslocação a Roma data de 1163, data a partir da qual a deterioração da sua saúde parece tê-lo impossibilitado de prosseguir como até então. Viria a falecer em1175, sucedendo-lhe Godinho, a quem caberia a honra de finalmente conseguir o reconhecimento que ele nunca tinha conseguido, para um rei que também já não lutava pela expansão da fé como antes do infortúnio, de 1169. As vidas do primeiro rei e seu arcebispo parecem ligadas por um estranho paralelismo que os impossibilitou fisicamente, a partir desse momento dramático, quase como se o final da década de 60 marcasse de facto uma mudança radical para o jovem reino de Portugal.
A questão entre Braga e Toledo pode ter sido violentíssima nos anos centrais das décadas de 50 e 60, mas desvaneceu-se nos finais dessa década, quase com a mesma facilidade com que tinha surgido. Mesmo se Alexandre III, consubstanciando a política dos seus antecessores, emitiu várias bulas que reafirmavam o direito de Toledo ao primado, especialmente em 1166 e 1172, o teor moderador e moderado em que esse reconhecimento era feito acabaria por transformar a dignidade primacial num mero adorno honorífico. Nenhum dos contendores parece ter dado muita importância ou dramatizado esse alegado esvaziamento, e o primado passou praticamente a apenas obrigar os restantes arcebispos a uma reverência nominal ao toledano, reservando-se o apelo e a dependência directa para Roma. Decerto isto acontecia porque a situação política era já completamente diferente da que presidira às décadas anteriores, e porque a perda de influência dos reis castelhanos, na sequência da morte de Afonso VII e subsequentes dificuldades sucessórias, faziam girar o pêndulo da influência política de novo para o lado leonês. Fernando II e depois Afonso IX iriam ser os grandes apoios das pretensões de Compostela, de onde recrutavam os seus conselheiros e os seus chanceleres, escribas e notários. Todo este contexto não é, decerto também, alheio ao facto de, logo na década de 70 desse século, e especialmente depois da morte de João Peculiar, em 1175, as contendas entre Braga e Compostela terem tomado o lugar da anterior querela nos corredores da cúria pontifícia.
De agora em diante serão elas o grande motor de dissensão entre os reis e os arcebispos de Leão e Portugal. Mas esta viria a ser uma questão já para o novo e futuro rei vir a tratar. E decerto o infante, que desde 1169 seria chamado a ter uma participação cada vez mais directa nos negócios do reino, não pode ter sido mantido à parte de tantas e tão importantes quezílias, de tantas e tão frequentes alterações em vectores tão intrincadamente unidos e sensíveis como a política régia e a política eclesiástica. Estes mesmos homens que vemos participar tão activamente na construção e consolidação de um reino nascente não podiam descurar a preparação do único infante varão sobrevivente a partir de 1164. Nem a necessidade absoluta que tinham de garantir que este jovem potencial futuro monarca crescia da forma certa e lhes garantia os apoios e as orientações que mais lhes convinham. Neste intento se empenhavam decerto todos na cúria, nobres e eclesiásticos. E os dramáticos acontecimentos de 1169, com a imediata alteração do contexto político circundante, iriam bem cedo demonstrar a pertinência destas preocupações». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «Neste ponto, a sua actuação aproximava-se muito da de Afonso, o senhor seu rei, que também reinou de facto, durante quase quarenta anos…»

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«(…) Por tudo isto, a questão da legitimação do rei e do reino, e do seu reconhecimento, andava muito ligada aos progressos da questão do primado, especialmente a nível diplomático. Assim, embora o propósito mais visível das visitas de João Peculiar à cúria pontifícia pareça ter sido quase sempre o de resolver as questões ligadas com as querelas jurisdicionais com Toledo ou com Compostela, não se pode evitar de reparar que quase todas as suas deslocações a Roma parecem ter obedecido como que a um padrão rítmico que se coordena de forma bastante significativa com os progressos político-militares e territoriais do seu rei. Em 1144, quando o pedido de vassalagem tinha sido entregue na cúria, ele apresentou aí o pagamento correspondente do censo e recebeu a carta de protecção para Afonso Henriques; quando, em 1148, se deslocou a Roma para justificar a sua não obediência a Raimundo de Toledo, decerto aproveitou para reportar a conquista de Lisboa e a restauração de Lamego e Viseu, recebendo uma confirmação pontifícia das sufragâneas de Braga; em 1157 e em 1163 também apresentou sempre mensagens de submissão e vassalagem por parte do rei, apesar de se ter deslocado a esses encontros para responder sobre a sua contumácia em obedecer ao primado de Toledo.
Braga reivindicava a total independência em relação a Toledo, a quem disputava ainda os direitos do primado, por pretender ter direito a usar esse título, com base na anterioridade da posse desse estatuto, que alegava ter usado desde tempos anteriores à própria restauração da diocese de Toledo. Mas a evolução da querela demonstra à sociedade que a interferência das esferas políticas nesta questão não deixava ao acaso o desfecho deste assunto. Ainda em 1150, João Peculiar, na sequência de mais uma suspensão, acabara por ir mesmo a Toledo, prestar obediência ao arcebispo dessa metrópole como a seu primaz, por uma e única vez. O documento onde se regista este acto menciona que o rei Afonso Henriques enviara o arcebispo português a Toledo com o seu próprio filho primogénito, Henrique, que teria então 3 anos, e que Afonso VII, por seu turno, tinha enviado seu filho mais novo, Fernando, de 13 anos, causa reformandi pacis (para se acertar a paz), no que parece ser um encontro entre eclesiásticos com uma óbvia leitura política. Mas não parece ter estado na natureza deste prelado (ou, quem sabe, dos interesses da política portuguesa) manter tal estado de coisas, como sugere o facto de, logo em 1155, vir a ser suspenso mais uma vez, desta vez pelo cardeal Jacinto, legado papal à Península, por causa da sua recusa em comparecer ao concílio provincial convocado e presidido pelo imperador Afonso VII. Até final da sua vida, João Peculiar continuaria sempre a exercer a sua autoridade e a exercer o seu múnus arquiepiscopal como se nada afectasse a sua legitimidade para o fazer.
Neste ponto, a sua actuação aproximava-se muito da de Afonso, o senhor seu rei, que também reinou de facto, durante quase quarenta anos, exercendo a sua soberania sem limitações e como rei de pleno direito, sem ligar ao facto de, apesar de nunca ter deixado de lutar pela legitimação do seu poder pelo papa, apenas ter recebido o reconhecimento pontifício que lhe permitiria afirmar a sua identidade como rei e a existência do território como reino independente e indivisível em 1179, quando finalmente abula Manifestis probatum est lhe reconheceria esses direitos de iure. Apesar de ser verdade que se pode constatar que a questão do primado da Hispânia abrandou depois de várias bulas pontifícias através das quais Roma esvaziava o conteúdo real da detenção da dignidade primacial pelos arcebispos de Toledo, também não deixa de ser um facto que a questão apenas se esvaziaria de importância quando o poder político perdeu interesse em alimentá-la». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

sábado, 15 de abril de 2017

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «… possibilidade de sucesso do pedido de Afonso Henriques para ser reconhecido como vassalo da Santa Sé e rei de Portugal»

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A Longa Espera pelo Trono. O mundo que viu Sancho nascer e crescer
«(…) A medida que a Reconquista progredia para sul, era necessário restaurar as igrejas que durante vários séculos tinham ficado sob domínio muçulmano, e seria ingénuo esperar que os reis que protagonizavam essa conquista não quisessem ter uma palavra a dizer sobre a reorganização eclesiástica desses territórios e sobretudo sobre as pessoas que deveriam ser postas à frente das estruturas então restauradas. Nesse contexto, a forma como os arcebispos se relacionam com os reis dos reinos nos quais se situam as suas arquidioceses assume uma importância fulcral e a Hispânia do século XII assistiu à consciencialização por parte de reis e arcebispos da necessidade e vantagem da sua colaboração na promoção dos interesses respectivos. Os arcebispos de Toledo, de Santiago de Compostela, de Braga e de Tarragona transformaram-se nos aliados mais fiéis e úteis dos reis de Castela, Leão, Portugal e Aragão, respectivamente. Não só porque tentavam que os territórios das suas arquidioceses correspondessem aos territórios dos reis que serviam e que os protegiam, mas ainda porque insensivelmente todos esses arcebispados passaram a ser a instituição onde os reis recrutavam os seus chanceleres e de onde saíam numerosos notários para um dos órgãos decisórios mais importantes da cúria dos reis, a chancelaria.
Esta simbiose entre arcebispados e reinos em breve ajudaria a agudizar ambições pessoais e institucionais, dos arcebispos, como dos reis. Ora a questão do primado insere-se precisamente neste contexto. Quando Afonso VI conquistou Toledo aos mouros, em 1085, o papa achou por bem confirmar a restauração da antiga arquidiocese visigótica e conceder-lhe o estatuto eclesiástico de primaz das Hispânias, tal como nesses longínquos tempos visigóticos detivera. O facto de Toledo passar a deter o primado, ou seja, o direito de primazia sobre todas as outras igrejas hispânicas, implicava que todas as outras igrejas da Península Ibérica deviam prestar-lhe obediência como à sua cabeça.
Essa realidade daria origem à legítima preocupação, neste mundo ainda em construção, de que se pudesse considerar dever haver uma contrapartida dessa primazia na estruturação política da Hispânia, e havia de gerar as bases da quase crónica querela que viria a unir reis e arcebispos numa interessante comunidade de interesses, na medida em que as recusas em obedecer a Toledo por parte dos restantes arcebispos peninsulares acabariam por ter uma inegável leitura política na recusa dos restantes reis peninsulares em obedecerem ao rei de Toledo, isto é, ao rei castelhano. Mas de início, quando o papa agraciou Toledo com o primado das Hispânias, em 1088, nenhum dos restantes arcebispos peninsulares parece ter dado grande importância a essa concessão, e semelhante estado de indiferença havia de se manter ainda durante quase cinquenta anos. Seria só a partir dos anos 40 do século XII que tudo mudaria, e que a questão começaria a tornar-se absolutamente central, com as suas múltiplas ramificações e ingerência nas restantes esferas de poder, e sobretudo na sua coordenação com a outra querela eclesiástica por excelência destes anos, a que oporia Braga e Compostela, especialmente na vertente relacionada com o problema da jurisdição sobre as dioceses de Coimbra e Zamora, Lisboa e Évora.
Ora a questão do primado não se tornou subitamente essencial, não se tornou premente e nuclear, naquela altura e não noutra, por mero acaso. O facto é que se tornou absolutamente central, quando as evoluções políticas dos reinos peninsulares tornaram a questão da hierarquização eclesiástica um assunto relevante. Com Afonso VII no trono de Leão e Castela, um reino forte com tendências expansionistas, os restantes reinos hispânicos sentiram as exigências do arcebispo de Toledo em receber a obediência dos restantes arcebispos como uma tentativa de apropriação política dos seus reinos. O mesmo se diga de Portugal, onde a questão se torna central precisamente na fase em que Afonso Henriques afirmava a sua soberania sobre o território português com maior veemência e nos anos que se seguiram ao seu pedido de protecção papal para as suas pretensões a ser considerado miles beati Petri. Acontecia precisamente nos anos do reinado de Afonso Henriques durante os quais ele liderava o que parecia uma inspirada campanha para sul e leste. E a reivindicação da independência e soberania do arcebispado de Braga face ao de Toledo surgia quase como uma afirmação de independência do reino português face ao castelhano-leonês de Afonso VII, razão por que o arcebispo de Braga, João Peculiar, sempre tentou evitar jurar essa obediência ao toledano.
A fase mais aguda desta querela decorreria precisamente entre 1144 e 1163, facto que decerto deverá imputar-se tanto à índole determinada e aguerrida dos arcebispos de Toledo e Braga como à hostilidade entre os reis que serviam e aos receios derivados da possibilidade de sucesso do pedido de Afonso Henriques para ser reconhecido como vassalo da Santa Sé e rei de Portugal». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «Não devemos, talvez, esquecer-nos de que, pelo menos durante os séculos XII e XIII, a idade adulta começava para estes rapazes aos 14 anos, pelo que 10 anos de idade…»

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A Longa Espera pelo Trono. O mundo que viu Sancho nascer e crescer
«(…) A partir de 1168, a aliança que faz com os almóadas, por intermédio do seu nobre Fernando Rodrigues Castro, junto com uma reaproximação com o futuro rei castelhano, parece terem-lhe dado a segurança de que necessitava para de novo quebrar a precária paz que selara pelo casamento com Urraca Afonso. E assim, a espiral de desentendimento e rivalidade entre os dois monarcas, potenciada pelas conquistas de Afonso Henriques e Geraldo Geraldes no Alentejo em regiões onde os interesses de Fernando II também eram relevantes, só iria parar de rodopiar em Badajoz...
Não se pode esperar que um Sancho I ainda demasiado jovem para se aperceber dos jogos de intriga política que neste contexto se disputavam pudesse ter tido, em 1158, qualquer grau de consciência real dos perigos que tinham afectado o reino português no rescaldo de Sahagún, nem da tensa e complicada situação que a partir daí iria pautar as relações entre os reis peninsulares. Mas não podemos pretender que o mesmo continue a ser verdade nos meados da década de 60, quando, atingida a idade de 10 anos, o encontramos já em Coimbra e até acompanhado por um chanceler privativo da sua casa. Não devemos, talvez, esquecer-nos de que, pelo menos durante os séculos XII e XIII, a idade adulta começava para estes rapazes aos 14 anos, pelo que 10 anos de idade nesses tempos não podem ser encarados com os nossos olhos de hoje em dia. É inegável que o mundo das maioridades e menoridades medievais não pode ser visto à luz dos nossos conceitos actuais. Por isso mesmo, parece improvável conceber que durante os anos que mediaram entre o seu nascimento e 1169 o futuro rei pudesse ter crescido sem que o relato, as consequências e a memória de acontecimentos tão importantes não tivessem penetrado os momentos que presenciava ou em que eventualmente participava na corte do rei seu pai, ou os momentos em que os membros da sua casa e seus próprios conselheiros já começariam a introduzi-lo nas doutrinas em que um jovem príncipe deveria ser ensinado.
Não é razoável partir do princípio de que Sancho nunca se tivesse apercebido de assuntos de importância tão capital para o futuro governo do reino que deveria herdar, ou que aqueles encarregados de o guiarem na sua educação e aprendizagem como futuro rei não se tivessem preocupado em começar a doutriná-lo, sobre os assuntos que enformariam seguramente as preocupações que teria de encarar quando ascendesse à dignidade régia. Embora pareça irrealista imaginarmos um Sancho I criado completamente à margem dos acontecimentos fulcrais desses anos centrais do século XII, quer a nível da política externa, em relação aos reis vizinhos e às nobrezas que alimentavam as numerosas clientelas respectivas, quer em relação ao esforço de conquista que seu pai estava a levar a cabo e problemas que essa política acarretava, não poderemos nunca avaliar qual o grau de familiaridade que o jovem Sancho teve com todos esses importantes desenvolvimentos.
O mesmo se diga do grau de consciência que o infante poderia ter da relevância das querelas eclesiásticas que na época lavravam com tanta violência, ou da tentativa de fazer reconhecer o reino de Portugal em Roma, com as repercussões que qualquer destes assuntos poderia vir a ter na sua vida quando ascendesse ao trono. Por muito jovem que o infante fosse, não poderia, nos anos centrais da década de 60 do século XII, ter sido alheio ao fervilhar das questões acima mencionadas, no agitado ambiente de Coimbra, nem às estruturais alterações que se previa pudessem estar a ponto de acontecer. Havia uma outra dimensão no relacionamento de seu pai com os restantes reinos peninsulares, cuja relação com os sucessos a nível político era inegável e que não pode ter passado desapercebida ao infante. Trata-se da querela que se gerou em torno do primado das Hispânias, a qual se desenvolveu muito mais no contexto alargado da política peninsular e europeia, dos inícios do século XII do que no das questões eclesiásticas puras. A questão do primado das Hispânias é um exemplo acabado de como a política eclesiástica e a política temporal não eram separáveis, nessa Hispânia undecentista, e como a tentativa de converter a rede de sufragâneas dos arcebispados num esboço de igrejas nacionais, acaba por parecer estar sempre na raiz dos problemas. A querela tem os seus fundamentos na forma de conceber a relação dos reis peninsulares com o território reconquistado e com a estruturação da hierarquia da Igreja nesse mesmo território». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «A aliança matrimonial não se concretizou, mas já o mesmo não se pode dizer das investidas expansionistas de Afonso Henriques»

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A Longa Espera pelo Trono. O mundo que viu Sancho nascer e crescer
«(…) Pouco depois de se separarem, Fernando II decidiu fundar Ciudad Rodrigo, no que perece ser uma resposta-desafio às provocadoras investidas do português. Por seu lado, Afonso Henriques perece ter decidido dar a sua réplica ao leonês, ao contratar o casamento de sua filha Mafalda com Afonso II de Aragão, como forma de garantir apoios fora da esfera leonesa-castelhana e ao conjugar essa manobra diplomática com a intensificação do esfoA aliança matrimonial não se concretizou, mas já o mesmo não se pode dizer das investidas expansionistas de Afonso Henriques, que desde então até 1169 não voltará a dar tréguas a nenhum dos seus vizinhos.
rço de conquista em todas as frentes, a sul, a leste e a norte. O contrato de casamento entre a filha de Afonso Henriques e o herdeiro do trono de Aragão foi de facto celebrado, em finais de Janeiro de 1160, em Tui, mas a sua concretização seria frustrada pela morte prematura da infanta.
A luta renovada em todas as fronteiras, parecia, assim, corresponder à necessidade cada vez, mais premente de defrontar um Fernando II progressivamente mais seguro e ameaçador, tal como devia parecer evidente e quem observasse o crescendo das sucessivas agressões que perpetrava contra os interesses de seu sobrinho, Afonso VIII de Castela e dos tutores dele. Com efeito, a decisão de fundar solenemente Ciudad Rodrigo e de restaurar o seu bispado, transformando esse núcleo populacional, que ficava numa região cujo domínio ainda era muito contestado, mas cuja importância estratégica parecia cada vez maior, num autêntico baluarte simbólico, onde se aliariam ao mesmo tempo a fixação populacional de facto e a afirmação da soberania leonesa de direito, afectava de forma negativa vários ar{rios grupos sociais.
Provocou, desde logo, o desconforto e má vontade dos vizinhos de Salamanca, que viam as suas prerrogativas e sua anterior posição ameaçadas pela rivalidade do novo núcleo populacional que agora se fundava, implantado numa posição estratégica muito favorável, por se situar, por um lado, na confluência de duas das estradas mais importantes de penetração para leste e para sul (a Colimbriana e a Dalmatica), e por outro, na perigosa esfera de influência de duas das cidades mais importantes da região, Salamanca e Zamora. Não admira, por isso, que em breve encontremos Afonso Henriques nesses paragens, nem que o encontremos, logo em inícios de Janeiro de 1163, a entrar pela Extremadura adentro e a apossar-se de Salamanca, com o assentimento e colaboração de seus moradores, que entendiam a vantagem desta aliança, numa união de interesses bem típica desta sociedade tão fluida e sempre em permanente autoconstrução e consolidação política.
Se o controle de Salamanca por parte do rei português foi efémero, já o redobro da pressão na Galiza foi mais perene, com as regiões de Límia e Toronho a integrarem de novo o território português, sem que Fernando II, pressionado demais com os problemas com Castela, pudesse reagir de forma eficiente ou atempada. Tradicionalmente, aceita-se que a pressão do lado castelhano teria forçado o leonês a aceitar a paz com Afonso Henriques (Pontevedra/Lerez em 1165), a qual seria ainda reforçada pelo casamento de Fernando II com Urraca Afonso, a filha mais velha de Afonso Henriques, casamento que, de facto, se consumou nesse mesmo ano de 1165. Naturalmente que com esta aliança se esperaria que a rivalidade e hostilidade entre o monarca leonês e o português acalmasse um pouco. Tendo em vista as questões que Fernando II sustentava nas regiões que faziam fronteira, quer com Castela, quer com os árabes, não seria de estranhar que preferisse suspender a guerra com o seu vizinho português e dedicar-se com maior disponibilidade às restantes linhas de guerra que mantinha em paralelo, pelo que um casamento com a filha do rei português deveria parecer um bom contributo para a manutenção de um entendimento harmonioso. Mas a realidade viria a revelar-se bem diferente do que se imaginava em 1165. Já em meados do século XIII, quando terminava a sua crónica sobre a Hispânia, Rodrigo Toledo registava, de forma falsamente surpreendida, que Fernando II, apesar de ser genro de Afonso Henriques, raramente tinha estado em paz com ele. Nunca se tinham dado bem». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

sexta-feira, 8 de abril de 2016

O Julgamento de Bouro. A Terra e os Homens. Cínésio Romão Silva. «As inquirições Régias Portuguesas constituem, uma fonte inesgotável de informações, documento único que animou o nosso interesse específico pelas terras do Julgado de Bouro»

Cortesia de Cinesioromaosilva e jdact

«Este trabalho tem como base as inquirições realizadas no julgado de Bouro em 1220 e 1258, ao longo do século XIII, nos reinados de Afonso II e Afonso III, respectivamente. Escolhido este território de pequena dimensão, este apresenta-se em dois momentos diferentes, quer em tempo quer em área, em tempo, por tratar-se de dois reinados diferentes, e em área, devido as dimensões do julgado que são sofreram modificações de uma inquirição para a outra. Em 1220, temos um julgado composto por setenta freguesias, situadas entre o Rio Cávado e com fronteiras com os julgados de Nóbrega, Penela, Prado e a serra do Gerês confrontando com o reino de Leão, numa região populosa, onde a fixação se fez privilegiadamente junto aos canais fluviais, um segundo momento, em 1258, este julgado de Bouro passa a ter dezoito freguesias, localizadas entre dois rios, o Cávado e o Homem, que delimitavam uma área bem definida mais a Serra do Gerês que confrontava com o reino de Leão. Estes rios, além de sua importância no fornecimento de alimentos aos habitantes da região, por possuir grandes cardumes e diversas variedades de peixes ao longo de seu leito, serviam também como via de transporte dos diversos tipos de cargas e passageiros que transitavam de um lado para outro, ou ao longo do rio. As inquirições Régias Portuguesas constituem, uma fonte inesgotável de informações, documento único que animou o nosso interesse específico pelas terras do Julgado de Bouro. Com base nas fontes acima citadas e com a finalidade de apresentar a cartografia deste julgado no Portugal Medievo, assim como também uma análise do sistema económico, social e de inter-relação de poderes no seu tempo e espaço, chegámos não ao fim de nossos interesses, mas, à certeza da necessidade de continuidade de um esforço e vontade para a pesquisa e estudo de uma história rica, profunda e científica. Este estudo debruçar-se-á os esforços e acções desenvolvidas por homens devidamente juramentados, com incumbência de registar todas as respostas e informações que fossem citadas, conforme as interrogações dos inquéritos apresentados em duas épocas distintas. Nota-se, no espaço de tempo analisado, uma redução de terras incorporadas no julgado do Bouro. Sendo a inquirição de 1220 ordenada por Afonso II, que após suas confirmações de privilégios e bens entregues pelos seus antecessores a concelhos, nobres e instituições religiosas existentes naquele período, iniciando uma nova forma de saber quais os direitos do rei e da coroa. Ao mesmo tempo esta inquirição efectuada com o objectivo de conhecer qual o património da coroa, apresenta-nos o primeiro levantamento dos bens régios e das apropriações indevidas efectuadas pela nobreza, clero, e até pelos vilãos. Passado um período de transição (só trinta e oito anos depois em 1258, Afonso III, voltou a usar inquirições com o mesmo objectivo da de 1220, reprimindo as usurpações sofrida pelo rei e dos direitos da coroa, há um retorno aos trabalhos das inquirições, estas agora ordenadas por Afonso III, em 1258, o qual, com a sua autoridade real e estando atento aos acontecimentos, promoveu esta acção, com a intenção de reduzir a expansão do regime senhorial, feita na maioria das vezes por formas abusivas, às custas do património régio, das explorações dos pequenos agricultores e proprietários vilãos. Baseado nas informações colhidas por estes inquéritos, conseguiu-se elaborar um cadastro de informações que continha dados sobre: terras foreiras, reguengos, coutos e honras nas diversas freguesias inquiridas por aquela alçada, tomando assim conhecimento dos abusos e das apropriações de direitos régios e da coroa por parte dos senhores. Após este breve apontamento de interesse por uma região, mesmo que pequena, que sofreu tantas modificação na sua estrutura física, social, económica e estrutural, procurámos ver, através da documentação, impulsada à acção régia que visou sustentar e recuperar o património real, usando assim as inquirições como meio prático de acção administrativa, força e poder.
A existência de um número considerável de trabalhos que as utilizam como fonte subsidiária, não invalida o facto de estudos específicos sobre uma região pequena. No entanto sabemos que os trabalhos existentes não são ainda em número suficiente para podermos ter uma cartografia do Portugal Medievo (sob o ponto de vista económico, social e de inter-relações dos poderes na terra), que nos permitam partir para as análises estruturais de vocação macroscópica. Esse desígnio foi possível depois de um aturado e demorado trabalho de micro-história, com estudos de pequenas regiões e julgados, nos quais a informação presente nas inquirições pudesse ser trabalhada de forma sistemática e racionalizante, antes de se passar ao estudo dos fenómenos mais abrangentes ou tendências gerais. Consciente desta lacuna, foi nesse sentido que este projecto se quis inserir.

A Exploração da Terra
A escolha por uma análise regional como base para o trabalho de mestrado ficou a dever-se à curiosidade despertada pela leitura de fontes e textos que divulgaram os estudos da vida dos grupos e das sociedades em suas regiões. A documentação escolhida para esse fim, permitiu-nos seguir uma linha onde pudemos estudar o perfil de ocupação dos homens nas suas terras, em três âmbitos fundamentais: geográfico, económico e social. Determinada a escolha de uma região como universo de estudo, partimos para a primeira tentativa de delimitação geográfica dessa área específica, considerando a sua característica feição nortenha, com os seus rios e montanhas definidos também pela distinção do clima e pela forma estrutural do seu relevo. Escolhemos as terras de Bouro devido ao interesse que elas assumem nas Inquirições do século XIII ordenadas pelos reis Afonso II e Afonso III e às mudanças detectáveis entre uma época e a outra. A nossa escolha voltou-se para o espaço que envolveu essa região do Norte em dois períodos significativos com as Inquirições promovidas pelo rei Afonso II em 1220, com uma dimensão geográfica fronteiriça de área mais alargada e as Inquirições de Afonso III em 1258, com outro território bem definido no que respeita aos seus limites, mas tendo passado, durante esse intervalo, a uma extensão muitíssimo mais reduzida». In Cinésio Romão Silva, O Julgamento de Bouro, A Terra e os Homens, Dissertação de Mestrado em Estudos Medievais, Estudos sobre o poder, Coordenação de Maria João Violante Branco, Universidade Aberta, Lisboa, 2009.

Cortesia da UAberta/JDACT

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «… no Natal de 1159, encontramos Afonso Henriques de novo na corte de Fernando II, na Galiza, onde mais um convénio, conhecido como encontro de Santa Maria de Palos, parece também nada ter conseguido…»

jdact

A Longa Espera pelo Trono. O mundo que viu Sancho nascer e crescer
«(…) Mas a falsa paz que o ano do nascimento de Sancho I parecia consagrar em breve dereria revelar a sua verdadeira natureza. Afonso VII morria em Agosto de 1157, deixando aos seus filhos, como legado, mais uma divisão patrimonial do reino, destinada a terminar num novo surto de cisões e rivalidades entre os agora de novo separados reinos de Leão e Castela. Por outro lado, a ameaça almóada em breve começaria a pressionar de novo as ainda instáveis fronteiras dos diversos reinos hispânicos. As disjunções entre os cinco reinos estavam prestes a renascer como o ponto mais importante na ordem do dia.
Afonso Henriques deve ter antecipado os perigos que esta nova partição dos reinos e a resultante reordenação política poderia trazer para as suas ambições. O novo ressurgimento dos dois reinos de Leão e Castela como unidades políticas independentes não pode ter deixado de o incomodar tendo em vista que acontecia pouco tempo depois do ainda relativamente fresco acordo de Zamora, em 1143, onde seu primo Afonso VII lhe reconhecera a dignidade régia. O rei português devia temer que os herdeiros de Afonso VII considerassem nulo o acordo que estabelecera com seu primo em Zamora, e que fizessem letra-morta do seu recém-adquirido estatuto real, agora que tudo parecia mudar e sobretudo tendo em vista que ainda não tinha tido resposta ao seu pedido ao papa para ser reconhecido como rei e vassalo de Roma, o que lhe permitiria libertar-se da necessidade de reconhecimento permanente por parte dos restantes reis ibéricos. Deve ter sido por temer as intenções do leonês que Afonso Henriques procurou certificar-se delas ao deslocar-se de imediato à corte de Fernando II, logo no mês de Outubro desse ano de 1157, decerto para sondar os planos do novo rei em relação a Portugal e garantir a permanência da paz que acordara com Afonso VII.
Aparentemente, esta visita a Leão, de contornos pouco claros, não surtiu qualquer efeito, visto que logo em Maio do ano seguinte, os dois novos reis, Sancho III de Castela e Fernando II de Leão, acertavam de facto um pacto entre si, que confirmava as suspeitas de Afonso Henriques, uma vez que nos termos desse pacto se acordava a futura repartição e integração de Portugal nos reinos dos dois signatários desse Tratado de Sahagún. A prematura morte de Sancho III viria impedir a concretização dos planos e divisões traçados em Sahagún, e viria lançar Castela numa instabilidade que muito acabaria por beneficiar, quer Fernando II de Leão, quer Afonso I de Portugal e os vizinhos reinos de Navarra e Aragão. Ao morrer tão cedo, Sancho III de Castela deixava como herdeiro o futuro Afonso VIII, que nesta altura tinha apenas 3 anos. A jovem criança teria de esperar ainda bastantes anos até atingir a idade em que começaria a resolver questões tão prementes como a questão navarra e o entendimento com Aragão, para além da eterna rivalidade com o rei leonês.
Seria lógico supor que a morte de Sancho III logo em 1158 poderia ter aliviado as apreensões do rei português sobre o futuro do seu território e da sua dignidade. No entanto, Afonso Henriques parece não ter confiado demais na sua sorte e, provavelmente por isso, parecendo adoptar a filosofia de que, em questões de domínio territorial, a melhor defesa é o ataque, passou à ofensiva, levando a cabo numerosos e sucessivos ataques, quer no limite sul do Além-Tejo, com sucessivas investidas em Alcácer do Sal, Beja e Évora, entre outras praças, quer a norte, na Galiza, onde era importante marcar o seu domínio face ao rei leonês e a Santiago de Compostela. É assim que, durante a década que vai de 1158/1159 até ao desastre de Badajoz, a conquista e o alargamento do território parece ter sido a preocupação principal do rei português e o móbil primeiro do seu governo. As famosas vistas de Cabrera, encontro onde, em Novembro desse mesmo ano de 1158, Fernando II de Leão e o rei português teriam acordado numa definição de áreas de domínio respectivo, muito embora pareçam corresponder ao desejo de assinalar e demarcar esses zonas de forma estável, não parece terem resolvido quaisquer problemas. Logo a seguir a este encontro de amizade, no Natal de 1159, encontramos Afonso Henriques de novo na corte de Fernando II, na Galiza, onde mais um convénio, conhecido como encontro de Santa Maria de Palos, parece também nada ter conseguido, nem em termos de apaziguar as respectivas ambições sobre territórios idênticos, nem no sentido de sanar as desconfianças e suspeitas recíprocas, nascidas com o Tratado de Sahagún». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

sábado, 30 de maio de 2015

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «O futuro monarca de Castela nasceu, curiosamente, no mesmo dia em que Sancho I nascera, a 11 de Novembro, embora um ano mais tarde. Votado a um destino bem diferente do do filho de Afonso Henriques»

jdact

A Longa Espera pelo Trono. O mundo que viu Sancho nascer e crescer
«(…) Na Normandia, na Aquitânia, na Flandres e na Borgonha, para dar apenas alguns dos exemplos mais importantes, ainda não tinham cessado as reorganizações, alianças e matrimónios cujo único interesse parece ter sido garantir a autonomia e/ou a independência de grandes nobres e potentados que tentavam não ser absorvidos por nenhum dos dois reis ou então influenciar o decurso dos acontecimentos de forma a preservarem o seu estatuto neste mundo em reestruturação. Nesse contexto, os reinados de Filipe Augusto e de Henrique II de Inglaterra seriam exemplares, no que demonstram de capacidade de domínio e de utilização de novas estruturas e poderes para controlar e influenciar a mudança a favor da sua administração e poder soberano cada vez mais centralizado e forte. Mas os conflitos que mantiveram entre si e com grandes senhores como os condes da Flandres e da Borgonha, também eles interessados em afirmar a sua autonomia, quer como rivais quer como aliados, assim como as múltiplas alianças matrimoniais em que se aventuram para garantir apoios e defesas, revelam um ambiente onde tudo parece ainda estar em perpétua mudança. Só nos finais do século XII e inícios do XIII se conseguirá estabilizar uma situação que envolveria todos os poderes circundantes e para cuja resolução qualquer um dos dois reis não hesitou em envolver o papado, o império e os reinos hispânicos.
Os acontecimentos que marcaram os vinte anos durante os quais Sancho I se tornou adulto prepararam o resto do século XII. A Universidade de Bolonha começava a despontar com toda a força, depois da reanimação conferida pelo Decreto de Graciano e na sequência da popularidade do também renascido estudo do direito civil como fonte preciosa de legitimidade para o poder imperial e suas ambições. Um novo tipo de eclesiásticos e juristas vai começar a povoar quase obrigatoriamente as cortes de quase todos os monarcas da cristandade, suplementando as políticas régias com o necessário e em breve imprescindível apoio da teoria política às suas ambições, mas sobretudo com a mestria das normas do Direito que permitiam aos príncipes o reanimar da sua soberania antiga, agora revivescida por normas inovadoras e adaptadas às realidades presentes. Ora os homens que, desde as duas últimas décadas do século XII, quando o infante já assumira a regência do reino, começaram a povoar a corte de Coimbra, eram também oriundos desse novo mundo em construção e vão saber preparar as políticas régias de forma a adaptá-las as novas necessidades e as novas realidades. Quais eram essas novas realidades na Península Ibérica que viu nascer e crescer Sancho? Muito à semelhança do que acontecia na restante cristandade, no momento preciso em que Sancho veio ao mundo, quando parecia estar-se numa hora de beatífica paz antes da tormenta, também na Hispânia ainda não estavam activos os germes das questões que em breve dividiriam todos os reinos hispânicos. Em 1154, a Península ainda estava unificada sob o ceptro de Afonso VII, que se autodenominava Imperador de todas as Hispânias, como toda a sua documentação confirma, e os seus dois filhos, Sancho (nascido em 1133) e Fernando (nascido em 1137), ainda estavam vivos e de boa saúde. Sancho III, o primogénito, acabava de ter um filho de Branca de Navarra, sua mulher, a quem chamou Afonso, e que viria a ser o futuro Afonso VIII de Castela, que dentro de relativamente poucos anos seria o actor principal no quadro do xadrez político ibérico. O futuro monarca de Castela nasceu, curiosamente, no mesmo dia em que Sancho I nascera, a 11 de Novembro, embora um ano mais tarde. Votado a um destino bem diferente do do filho de Afonso Henriques, os caminhos dos dois haveriam de cruzar-se ainda muitas vezes no futuro, em anos-chave para qualquer um dos dois. Os seus destinos também parecem tocar-se de vez em quando, não só na curiosa coincidência de ambos terem nascido precisamente no mesmo dia de São Martinho, mas também mais tarde, quando, em 1169, ambos acediam ao governo dos respectivos reinos no mesmo ano, muito embora de formas bem distintas. Finalmente, em 1211, quando um se preparava para a Batalha das Navas de Tolosa, que o havia de tornar famoso e inesquecível para a Cristandade, Sancho I falecia, mas não sem antes ter desenhado uma política de alianças matrimoniais que em mui[o se assemelhara à que o próprio rei castelhano levara a cabo, chegando mesmo a consorciar seu próprio herdeiro do trono, Afonso II, com Urraca, uma das filhas de Afonso VIII de Castela». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

sábado, 6 de setembro de 2014

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «No próprio ano em que Sancho I nasceu, 1154, Henrique II de Inglaterra casava com Leonor da Aquitânia, ex-mulher do rei de França, numa aliança que daria imediatamente origem à renovação das velhas questões entre a Inglaterra e a França»

jdact e wikipedia

A Longa Espera pelo Trono. O mundo que viu Sancho nascer e crescer
«(…) Com efeito, os primeiros vinte anos de pontificado de Alexandre III foram passados por entre cismas e heresias, desde os mais violentos episódios da condenação aos albigenses, em Tours, em 1163, ao assassinato do arcebispo Thomas Beckett em 1170 e ao permanente jogo entre o papado e o império das potências itálicas e sicilianas. Ao contrário do que São Bernardo e o Papado tinham imaginado, as duas primeiras Cruzadas não tinham conseguido unificar os reinos cristãos, facto que as desavenças entre os reis cruzados, especialmente entre o rei de Inglaterra e o rei de França, ilustravam de forma tristemente eloquente, até à saciedade. Os reis destes dois reinos, para além de terem aderido ao ímpeto de partir em Cruzada para libertar a Terra Santa, não deixavam de estar também muito empenhados em afirmar a supremacia e independência dos respectivos reinos face a todos os restantes poderes.
Desde então e até finais do século XII ir-se-ia assistir ao que se costuma chamar o nascimento das monarquias nacionais, ou seja, o esforço de contrariar as tendências anteriores de fragmentação do poder em reinados baseados exclusivamente em relações feudais de interdependência pessoal, e a tentativa de estruturar reinos baseados em princípios de governação e administração mais racionalizados e mais impessoais, nos quais a territorialização dos reinos surge como um vector muito mais relevante que as relações pessoais. Ao mesmo tempo, insiste-se na valorização do carácter público e suprapessoal do rei e do reino, com o apoio dado pelos princípios imperiais e romanos que renasciam nesta época pelo reanimar dos estudos de direito romano e canónico nas universidades e pela entrada desses intelectuais, em força e com bastante poder, nas estruturas de governação destes reinos.
Decididos a imitar nos seus próprios reinos os princípios pelos quais o próprio Império se regia, os reis de Inglaterra e da França, ou os seus conselheiros por eles, ungidos e sacralizados pelo poder pontifício, propunham a partir de agora uma total liberdade em relação ao imperador, com base numa máxima que fez história, a de que o rei é imperador dentro do seu próprio reino, (rex imperator in regno suo), afastando assim, gradual mas decididamente, o espectro das anteriores monarquias feudais, baseadas exclusivamente nos laços de relações interpessoais, e o da supremacia do império em relação aos reinos. E mudando também, consequentemente, os anteriores modelos de inter-relacionamento com o próprio papado.
No próprio ano em que Sancho I nasceu, 1154, Henrique II de Inglaterra casava com Leonor da Aquitânia, ex-mulher do rei de França, numa aliança que daria imediatamente origem à renovação das velhas questões entre a Inglaterra e a França. As conhecidas repercussões políticas deste matrimónio, sobretudo sensíveis na perda territorial que a alienação da Aquitânia significou para o ex-marido de Leonor, Luís VII de França, dariam o mote para o recomeço das guerras entre o filho deste, Filipe Augusto, e Henrique II de Inglaterra, mal Filipe sucedeu e seu pai no trono francês, em 1180. Em Inglaterra, entre 1160-1164, e depois em 1170, e em França, durante os anos finais de Luís VII e de Filipe Augusto, as questões levantadas pelos conflitos entre os poderes espirituais e temporais, nomeadamente na relação dos monarcas com o papado e com o império, Parecem ter pautado a correspondência entre todos os envolvidos no processo.
O mais marcante dos episódios desta luta foi, porventura, o já mencionado assassínio do arcebispo de Cantuária, Thomas Beckett, perpetrado por ordem do rei Henrique II, em 1170, na sequência da recusa do arcebispo em aceitar as determinações régias que limitavam o poder da Igreja nesse reino. O acontecimento marcaria toda a cristandade e repercutir-se-ia em territórios tão distantes do centro da cristandade como Portugal, onde se atesta o culto a este santo desde muito cedo, provavelmente fruto do fluir populacional que as Cruzadas implicavam, mas também por se tratar de um assunto tão relevante para qualquer reino e seus poderes. Este caso serviria ainda como pivô das consequentes políticas pontifícias nesses reinos. A região central que os reinos de Inglaterra e França ocupavam foi decerto o cerne de alguns dos mais importantes desenvolvimentos desta segunda metade do século XII. Os casamentos sucessivos de Leonor da Aquitânia e as políticas e papel jogados por seus maridos e filhos e pelos filhos deles determinaram todo o xadrez político de uma zona onde dois poderes maiores se digladiavam pela posse territorial que ambos reclamavam». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «Nesse mesmo ano de 1154 em que Sancho havia de nascer, Frederico I, o famoso imperador Barba Roxa, embarcava na primeira campanha italiana, que haveria de terminar com a sua coroação imperial em Roma, em 1155»

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A Longa Espera pelo Trono. O mundo que viu Sancho nascer e crescer
«(…) Mesmo dando alguma margem para as prováveis ausências da cúria régia e da esfera de influência de seu pai, durante o período da sua criação, que passara decerto em ambiente rural, não é possível conceber que o jovem futuro rei não tivesse comparticipado da fervilhante vida de corte em Coimbra ou que fosse mantido afastado dos meandros da política que seu pai e seus conselheiros traçavam e tentavam executar, não sem poucos revezes, pelo menos desde meados do século XII. E esses conselheiros estavam, podemos sabê-lo, muito entrosados no que se passava por toda a Europa cristã e tudo indica que não agiam levianamente; pelo contrário, os seus passos no apoio que davam à nascente monarquia portuguesa parece terem sido bem calculados e medidos, baseados em sólidos conhecimentos dos meandros e das circunstâncias políticas, na Península Ibérica e fora dela, nos meios leigos e nos eclesiásticos. Quando Sancho nasceu, o Papado acabava de ser entregue nas mãos de um cónego regrante, oriundo de São Rufo de Avinhão, o inglês que viria a ser conhecido como Adriano IV. As ligações deste papa aos regrantes e sobretudo aos de São Rufo de Avinhão deviam agradar muito aos portugueses. Com efeito, São Rufo de Avinhão tinha nessa altura uma posição já muito bem estabelecida como casa mentora de apoio e suporte às ambições dos condes de Barcelona, papel que tinham iniciado logo em finais do século XI, ao ajudar os condes a utilizar o seu enfeudamento directo a Roma como forma de legitimar a ambição de se afirmarem como reis independentes de Aragão.
A canónica de Santa Cruz de Coimbra, fundada nos anos 30 do século XII com a estreita colaboração e empenho do futuro arcebispo de Braga, João Peculiar, também ele um cónego regrante e mentor dos interesses de Afonso Henriques na cúria pontifícia, mantinha com São Rufo de Avinhão, desde a sua fundação, uma relação de estreita filiação e dependência. Desse modo, as influências recebidas por essa via e o facto de o novo papa ser alguém oriundo de meios religiosos e intelectuais tão ligados aos conimbricenses deve ter parecido um auspicioso factor para quem representava os interesses portugueses na cúria.
Nesse mesmo ano de 1154 em que Sancho havia de nascer, Frederico I, o famoso imperador Barba Roxa, embarcava na primeira campanha italiana, que haveria de terminar com a sua coroação imperial em Roma, em 1155. Claro que essa coroação não iria garantir uma paz que teoricamente se queria duradoura entre os poderes, mas que a realidade da natureza desses mesmos poderes nunca poderia consentir. Apenas saídos de uma difícil situação na sequência dos sucessivos cismas e desentendimentos que tinham abalado as relações entre Papado e Império nas décadas anteriores, pouco mais os aguardava, ao papa e ao imperador, intermináveis querelas e guerras. Logo em 1158 e 1159, com os sucessivos recontros conflituosos entre os legados pontifícios e o chanceler de Frederico I, com as pretensões do Império ao poder universal e com as inusitadas exigências do Barba Roxa às cidades italianas que acabava de dominar militarmente, o ambiente estava receptivo ao que se preparava. Quando, em Setembro de 1159, Alexandre III foi eleito papa, e facção imperial reagiu de imediato e fez eleger, nesse mesmo dia, o seu próprio candidato, o antipapa Vítor. Durante os cerca de vinte anos seguintes, até 1177-1178, quando o cisma terminou, o Império iria continuar a investir na estratégia de fazer os seus próprios papas, continuando, ao criar mais três antipapas depois deste, a alimentar quase duas décadas de guerras e disputas pela supremacia no poder. As excomunhões de Frederico I pelo papa foram, como de costume nestes casos, ineficientes, não conseguindo aplacar um conflito que só depois das difíceis pazes de Agnani e Veneza, em 1177 e 1178, conseguiria ver regressar uma precária paz institucional. Apesar das tentativas esboçadas, seria preciso esperar-se por 1198 e pelo pontificado de Inocêncio III (1198-1216) para se assistir a uma recuperação do predomínio do poder espiritual sobre o temporal com hipóteses de verdadeiro sucesso. Mas o apogeu da chamada Época dos Papas canonistas não era para já, e o papa Alexandre III teria ainda de suportar muitas provações antes de pacificar a situação». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «… vigor das chamadas monarquias nacionais e à afirmação inequívoca do poder pontifício e imperial, na sequela da reforma gregoriana, da querela das investiduras, da universalização do uso do direito romano…»

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A Longa Espera pelo Trono. O mundo que viu Sancho nascer e crescer
«(…) Se o que podemos saber da infância do jovem príncipe, no que diz respeito aos aspectos mais pessoais da sua criação, é muito reduzido, o mesmo não se pode dizer da época em que nasceu e cresceu, sobre a qual estamos muito bem informados. Sancho I veio ao mundo numa das fases mais determinantes do século em que nasceu. Nascido em meados do século XII, entraria na idade adulta no limiar de uma das décadas mais agitadas e inovadoras dessa centúria, quer para a história de Portugal, quer para a história peninsular, quer para a história da restante Europa ocidental, animada, reanimada e sacudida por sucessivas convulsões e inovações: a década de70. O jovem infante nasceu em Novembro de 1154, o que coincide precisamente com um dos períodos mais acesos da querela entre os poderes espiritual e temporal, quando a oposição entre o Papado e o Império estava ao rubro. Ora essa conjuntura não pode ter deixado de marcar o seu crescimento e até a sua formação. Pouco sabemos da sua educação, mas um número significativo de sinais, aliados à qualidade dos membros da sua corte e dos seus conselheiros e do pessoal técnico que povoava a sua chancelaria e administração, permitem-nos considerar que os que rodeavam mais proximamente o futuro rei acompanhavam de perto os acontecimentos mais marcantes do restante Ocidente cristão.
Este facto deve ser responsável por muita da modernidade e da actualidade do exercício do munus real tal como Sancho decerto o aprendeu na sua primeira juventude. O jovem infante pode ter estado alheio às mudanças e importantes alterações do século em que nasceu, mas aqueles que o ladearam durante todo o seu crescimento sabiam muito bem em que águas se movimentavam e como fazê-lo comparticipar dessas tendências. Tenhamos presente que o século XII é o momento que assiste ao determinante surto urbano e comercial que se desencadeia na sequência dos progressos demográficos e económicos das centúrias anteriores, que este é o século que assiste à recuperação do vigor das chamadas monarquias nacionais e à afirmação inequívoca do poder pontifício e imperial, na sequela da reforma gregoriana, da querela das investiduras, da universalização do uso do direito romano e da divulgação do direito canónico.
Este foi o século que assistiu aos cismas mais prolongados e confusos até finais do século XIV, às intromissões do Império na vida do Papado, às grandes Cruzadas, ao nascimento da Ordem de Cister, ao nascimento das mais importantes ordens de cavalaria militar, do sic et non abelardiano, de São Bernardo, de João Salisbúria, de Graciano e seu Decretum, enfim, ao pujante renascimento das próprias universidades. Este foi o século que assistiu à redefinição das estruturas governativas e à teorização da vida política, num universo marcado pela nunca resolvida interdependência e conflitualidade entre os poderes do Sacerdotium e do Imperium e das ambições sempre crescentes dos monarcas progressivamente mais centralizadores dos diversos reinos da Europa ocidental, onde a entrada de pessoal administrativo especializado nas estruturas de governo vai alterar definitivamente a forma como as monarquias se organizam e funcionam. Alterando, também, e de forma definitiva, o próprio conceito de soberania régia e a forma como os reis se relacionavam com os restantes corpos sociais dos reinos, quer internamente, quer fora dos limites dos territórios sobre os quais imperavam. Este é, por isso, e sobretudo, um século de redefinição dos poderes e de rearmonização dos seus territórios, físico e simbólico. Sancho seria, desde muito cedo, chamado a desempenhar um lugar destacado no reino nascente. Herdeiro da política de Afonso Henriques, cuja autonomização como rei independente fora feita à custa de processos de afirmação de poder de monarquias singulares tão em voga no seu tempo, receberia um património cuja afirmação ainda não tinha sido totalmente conseguida, antes continuava a necessitar de ser construída quotidianamente. Não podemos imaginar que Sancho não tivesse consciência disto, nem que desconhecesse o tipo de poder real e soberania tal como o século XII os concebeu». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

terça-feira, 15 de abril de 2014

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria J. Violante Branco. «… o facto de ser o único filho varão e legítimo de Afonso Henriques à data do desastre de Badajoz, aliado à coincidência de ter atingido a maioridade no próprio ano de 1169, parecem ter desempenhado um papel determinante…»

Cortesia de joaochichorro, jdact

A Longa Espera pelo Trono
Infância
«(…) O costume de incluir na documentação régia os nomes dos filhos dos reis a partir do momento do seu nascimento, enunciando-os consoante a ordem do seu nascimento, primeiro os filhos e depois as filhas, costume tão útil para os historiadores poderem saber em que altura nasceram os filhos dos reis nestas épocas, ainda não era prática generalizada na diplomática de meados do século XII. Sê-lo-ia dentro em breve, quando se tornaria regra quase absoluta em todas as chancelarias régias, mas, para o ano em que Sancho nasceu, 1154, ainda não o podemos atestar, nem, a bem da verdade, durante os vinte anos que se lhe seguiram. Se analisarmos as subscrições dos documentos de Afonso Henriques, desde o momento em que nasceu o seu primeiro filho legítimo, presumivelmente em 1148, verificaremos que, quer a presença desse primogénito, quer dos filhos que se lhe seguiram, é tudo menos regular. Face a um panorama muito pouco normalizado, torna-se assim muito difícil tentar tirar conclusões sobre o papel que Sancho poderia ter sido chamado a desempenhar durante a sua primeira infância, ou sobre a hipótese de se ter previsto, na própria forma como a documentação era redigida, algo que, nesses formulários, nos pudesse dar a entender que o infante varão mais velho de Afonso Henriques recebia um tratamento preferencial na chancelaria, em relação ao resto de seus irmãos.
Só num conjunto documental composto por cinco forais do modelo de Salamanca, concedidos em data definida criticamente como de entre Dezembro de 1157 e 1169, mas, quanto a mim, certamente posterior a 1163, após a morte do infante João (1158-1163), se pode identificar uma renovação desses formulários que parece começar a reflectir uma certa adaptação aos novos tempos e às novas normativas. De agora em diante a formula Eu, Afonso, em parceria [pariter] com o meu filho Sancho e as minhas filhas, nomeando de forma bem destacada o nome do seu filho mais velho e agrupando num designativo conjunto todas as suas filhas, começará a aparecer quase como uma regra. Apesar de ser tentador, não é possível defender sem sombra de dúvida que este núcleo de cinco forais date mesmo do último ano da data crítica, isto é, 1169, o que permitiria, com uma pequena margem de erro, revelar um papel proeminente para o filho mais velho de Afonso Henriques desde essa altura. Tal como está a situação, pode apenas constatar-se que nada obsta a que esse tivesse sido o caso. Assim sendo, e pesados todos estes factores, a documentação não nos parece falar de qualquer papel destacado do infante na corte antes de 1169. Até essa data, as menções que a documentação dele faz, isoladamente e como filho varão, parecem estar muito mais dependentes do facto de não haver outro filho legítimo na corre de Afonso Henriques, do que de quaisquer outros factores.
Mas a partir de 1169 tudo muda, e agora, o facto de ser o único filho varão e legítimo de Afonso Henriques à data do desastre de Badajoz, aliado à coincidência de ter atingido a maioridade no próprio ano de 1169, parecem ter desempenhado um papel determinante nas alterações na vida do infante, alterações que, afinal, parece deverem situar-se muito mais nesta entrada no mundo adulto prematura que nesse famoso assalto a Triana de 1178. O rei Afonso Henriques, que logo em Setembro de 1169 e em 1170 parecia querer promover o seu filho à co-regência no seguimento imediato do desastre de Badajoz, assinalando essas intenções na própria documentação régia, ao mudar a forma como o único filho legítimo vivo era mencionado e também ao armá-lo cavaleiro pelas suas próprias mãos em Coimbra, iria mantê-lo, contra as prováveis expectativas de todos, em lugar subalterno na hierarquia da governação, até à sua morte. Como Sancho reagiu a essa exasperante espera e humilhação é algo que apenas podemos pressentir pelas marcas indirectas que nos deixou alguma documentação. Mas antes de regressarmos ao infante que agora começava e tomar posse de um reino que demoraria quase duas décadas a assumir plenamente, vejamos brevemente qual o ambiente político que o viu nascer e que acompanhou os primeiros catorze anos da sua existência e como decorreram esses mesmos anos da sua vida, na primeira infância e adolescência». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT

quarta-feira, 5 de março de 2014

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria J. Violante Branco. «… meses depois do desastre de Badajoz ainda estava em recuperação dos ferimentos recebidos nessa luta, nas caldas de Lafões, tendo permanecido aí pelo menos entre Setembro e Dezembro desse mesmo ano»

jdact

A Longa Espera pelo Trono
Infância
«(…) Se os homens que compilaram os feitos de Afonso Henriques nos anais do rei em Santa Cruz de Coimbra, nesses finais do século XII, não emitiram qualquer espécie de comentário sobre os acontecimentos, já o mesmo não se pode dizer dos cronistas régios que trabalharam a primeira metade de Duzentos em Leão e Castela, Lucas de Tuy, Rodrigo de Toledo e o autor da Crónica Latina dos Reis de Castela (aparentemente João Soria), os quais nos dão, todos os três, versões segundo as quais, na sequência da prisão e ferimento, o rei português teria colocado a sua soberania plena e todo o reino de Portugal nas mãos do rei leonês, mas este, magnânime, teria decidido limitar a devolução territorial apenas aos territórios que lhe tinham sido indevidamente usurpados na Galiza, Límia e Toronho. Ter-lhe-ia ainda devolvido a liberdade e a soberania sobre todo o resrante reino. Todos estes cronistas mencionam ainda que, por causa da gravidade dos ferimentos, o rei português nunca mais tinha podido montar a cavalo nem lutar por todo o resto da sua vida.
A versão ligeiramente mais tardia, que chega até nós através da tradição compilada na versão crítica da Primeira Crónica Geral de Espanha de Afonso X ou Crónica de Vinte Reis, datável de finais do século XIII, já nos transmite a ideia de que Afonso Henriques, antes de partir liberto para Portugal prometera a Fernando II vir-lhe fazer preito e homenagem desde que estivesse de novo apto a cavalgar e a lutar, mas que nunca mais cavalgara. A versão claramente portuguesa destes acontecimentos, tal como recolhida na IV Crónica Breve de Santa Cruz e na Crónica de 1344 reforça a ideia de que o rei não quisera mais montar a cavalo, não por impossibilidade física, o que diminuiria a imagem do fundador, mas antes como um artifício, uma esperteza através da qual nem teria jamais de prestar vassalagem ao rei leonês, nem teria de faltar à sua palavra, perdendo a sua honra. Por isso, segundo as mesmas fontes, teria decidido fazer-se transportar em carretas durante os restantes catorze anos de vida que lhe restaram.
Na verdade, não sabemos em que estado ficou realmente a perna de Afonso Henriques, que tipo de encontro se deu, nem qual o trato que os dois reis fizeram entre si. Apenas sabemos que o rei português fora preso e libertado, e que meses depois do desastre de Badajoz ainda estava em recuperação dos ferimentos recebidos nessa luta, nas caldas de Lafões, tendo permanecido aí pelo menos entre Setembro e Dezembro desse mesmo ano. Em Novembro de 1169, numa confirmação régia, menciona-se que o documento fora feito quando o rei, regressado de Badajoz, jazia enfermo nos banhos de Lafões. Como seria de esperar, o feito foi muito mais alardeado na chancelaria régia de Leão, onde, em comemoração da proeza, se insere a memória de tal acontecimento na datação de quase todos os documentos exarados nesse ano e mesmo depois de já muito entrado 1170, referindo-se-lhe os notários quase sempre como ao ano em que o famosíssimo/sereníssimo rei Fernando prendeu o rei de Portugal em Badajoz de forma vitoriosa [victoriosissime]. Não podemos medir o efeito psicológico e propagandístico que semelhante afirmação de supremacia teria tido na corte, em Portugal, mas o facto de, na documentação régia portuguesa que chegou até nós, apenas se referir uma vez o facto de o rei estar em convalescença depois de ter regressado de Badajoz, e de as fontes cronistas mais antigas se referirem ao incidente como ao infortúnio, do rei parece por si só indicar que esse era um episódio que os meios intelectuais ligados ao rei sempre vitorioso queriam apagar ou pelo menos esquecer o mais rapidamente possível. No entanto, a incapacidade para a guerra que parece ter afectado o monarca a partir de então deve ter tido repercussões importantes ao nível dos círculos mais próximos da realeza e seus serviços, nomeadamente no que se referia aos filhos de Afonso Henriques, colocando-se e questão da sucessão do rei, a partir desse momento, com uma premência que até então ainda não se fizera sentir.
Parece ser a partir desta altura que podemos atestar a presença do infante Sancho na documentação saída da chancelaria do pai de forma muito mais comparticipante das decisões régias e muito mais activa nas tarefas da governação do reino que até então. A certeza desta comparticipação apenas a podemos ter pela análise cuidada da documentação, pois nenhuma fonte directa no-la relata explicitamente até 1173. Com efeito, logo em Setembro de 1169 e a partir do grupo de documentos exarados em Lafões, durante a recuperação do rei após Badajoz, o sinal rodado com que a chancelaria régia autentica os documentos de Afonso Henriques passa a incorporar o nome de Sancho, com o epíteto de rei, ao mesmo tempo que secundariza ou omite os nomes dos restantes irmãos. Que mais podemos saber, com base no que essa documentação nos transmite, de um momento que deve ter sido tão importante para o jovem infante, mas que nenhuma outra fonte parece interessada em veicular? Será que através da análise de uma documentação que costuma mencionar os nomes dos reis e de seus filhos podemos tirar algumas conclusões sobre os anos de juventude de Sancho I e relacionamento com os irmãos que explique e evidencie o papel que seria chamado a desempenhar logo a seguir ao desastre de Badajoz? A resposta não é inequívoca». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT