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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

A Voz dos Deuses. João Aguiar. «Pouco depois, eu completei três anos de idade. No dia do aniversário, o meu pai esteve mais tempo comigo do que era habitual e ofereceu em minha intenção um sacrifício a Tongoenabiago»

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O oráculo
«(…) O parto foi demorado, mas sem grandes sobressaltos; depois de me terem lavado e enfaixado, as mulheres colocaram-me no solo, para que eu recebesse as bênçãos da Mãe Terra, e abriram a porta. O meu pai entrou, seguido do meu tio e de alguns vizinhos, encarregados de testemunhar que Tongétamo, ao tomar-me nos braços para me entregar à esposa, reconhecia-me como seu filho verdadeiro e legítimo. O primeiro filho, um varão, continuador do seu nome e, talvez, o seu vingador... Porém o meu pai olhou-me com ternura mas também com tristeza, como quem olha para uma última esperança que se desfaz em fumo. Ao contrário do que esperava Camala, o marido nunca se adaptou à nova existência. Recusou-se com obstinação a secundar o cunhado nos negócios (para não parecer um ingrato ou um parasita, ofereceu-se como comandante das escoltas de protecção às caravanas; a minha mãe opôs-se porque isso o afastava dela e tudo voltou à mesma). Passeava, só e sombrio, pelas ruas de Balsa. O mar, que é para os Cónios a imagem viva e movente de um deus temível mas também generoso, enchia-o de mal-estar e terror. Vivia esperando novas da Lusitânia e passava longas tardes nas tabernas ou no mercado à procura de viajantes vindos da Calécia. Por respeito para com a mulher, prestava homenagem aos deuses de Balsa, mas não descansou enquanto não esculpiu de memória uma tosca imagem de Tongoenabiago, o deus tutelar de Brácara. Colocou-a no pátio, junto da fonte (tal como o deus se encontrava na sua cidade natal) e perante ela fazia os sacrifícios e libações. À medida que o tempo foi passando mais distante e triste o meu pai se mostrava. Quando, por insistência da mulher, deixou de escoltar as caravanas de Camalo, guardou cuidadosamente as armas, uma espada e uma adaga, como se viesse a precisar delas a qualquer instante. Um dia, correram em Balsa notícias interessantes: tribos lusitanas tinham invadido a Carpetânia e travavam uma luta vitoriosa contra o exército romano. O meu pai escutou estas notícias deliciado. Na impossibilidade de se vingar dos inimigos da sua família, dirigira o ódio contra os Romanos, que procuravam assenhorear-se de toda a Ibéria, e várias vezes entrara em conflito com o meu tio, obrigado pela sua condição de mercador a manter boas relações com toda a gente e, sobretudo, a não hostilizar as autoridades de Roma. Quando os rumores sobre a guerra se tornaram mais insistentes, Tongétamo, uma noite, foi buscar as suas armas, só para as ver, como quem contempla a mulher amada. Esperava-o um choque. A minha mãe sempre jurou nada ter feito, mas o certo era que o couro das bainhas fora embebido em água e tanto a espada como a adaga estavam irreconhecíveis, negras de ferrugem. Tongétamo passou o resto da noite a reparar os estragos, a afiar e olear as lâminas. Tornou-se ainda mais sombrio, e a minha mãe mais possessiva, absorvente e sofredora. Veio o Inverno, as rotas marítimas e terrestres fecharam-se e nada mais se ouviu sobre a guerra até à chegada da Primavera, altura em que se soube apenas que já não havia Lusitanos na Carpetânia. Pouco depois, eu completei três anos de idade. No dia do aniversário, o meu pai esteve mais tempo comigo do que era habitual e ofereceu em minha intenção um sacrifício a Tongoenabiago. À noite parecia bem disposto, quase alegre. Foi buscar a espada e colocou o punho da arma nas minhas mãos, que, de tão pequenas, não conseguiam agarrá-lo. Sorrindo, disse em voz suficientemente alta para ser ouvido pela mulher e pelo cunhado: toma-a, meu filho. Já não tenho uso para ela, mas quando cresceres será tua! A minha mãe acercou-se, intrigada com a sua atitude. Ele riu, passou-lhe o braço pela cintura e puxou-a suavemente na direcção do quarto. Na manhã seguinte os escravos encontraram-no aos pés da estátua de Tongoenabiago; matara-se com a adaga; o sangue, ao saltar da ferida, salpicara a imagem do deus. Tinha vinte anos». In João Aguiar, A Voz dos Deuses, 1984, composição de Maria Samagaio, 2005, Lisboa, Sandra Ferreira, 2007, Grafiasa, Asa Editores, Rio Tinto, ISBN 978-972-411-072-1.

Cortesia de ASAEditores/JDACT

A Ficção de João Aguiar. A alquimia de uma escrita múltipla. Ana P Arnaut. «… porque a serem divulgadas lançariam a desordem entre os simples e a santa fé católica deve ser defendida a todo o custo, guardando-se contra cismas e traições heréticas»

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«(…) Registem-se a propósito, dois exemplos que consideramos elucidativos: 1. no Terceiro Fragmento, Euménio de Rodes alude, sucintamente, às crises políticas que levam Cinna, Sertório e os outros chefes populares a fugir de Roma para Itália, onde organizam a resistência e a revolta que levará ao cerco e posterior capitulação de Roma. Se alguns pormenores sabemos acerca dos padecimentos na cidade cercada, praticamente nada é referido sobre o modo como os acontecimentos se precipitaram. A narrativa só é preenchida quando a voz de Euménio de Rodes cede lugar à voz de Lúcio Hirtuleio, fiel amigo e colaborador de Sertório, testemunha e participante dos acontecimentos que agora lhe cumpre relatar. 2. no capítulo intitulado A Corça, cabe a Medamo não só dar a sua versão sobre uma pequena parte do seu tempo de infância, como também, e sobretudo, continuar e concluir a narrativa sobre Sertório, não sem antes ter dado conta dos acontecimentos que cumprem a profecia da voz da deusa da Serra da Lua. Este procedimento pluridiscursivo havia já aparecido ensaiado em O Trono do Altíssimo, romance cuja trama gira à volta da evolução e declínio do Priscilianismo, doutrina de filiação gnóstica que durante cerca de dois séculos (IV e V d.C.) disputou terreno com a ortodoxia católica. Assim, neste romance o narrador heterodiegético, cada vez menos omnisciente, cede, por isso, temporariamente lugar a outros registos e a outras vozes. Deste modo, no Livro I, é Restituto quem faz o relato da viagem a Roma, onde uma embaixada de Priscilianitas se desloca com o duplo intuito de esclarecer Dâmaso, o santo papa romano, sobre aspectos fundamentais da doutrina, refutando as acusações de heresia, gnosticismo e maniqueísmo e de, na corte, obter a anulação do rescrito que desterrava alguns bispos priscilianitas.
No Livro II, é através do discurso epistolar entre Quintiano e Restituto (390-409 a.C.), cuja perícia como contador da verdade o primeiro atesta, que conhecemos os negros anos de 384 -385 em que, sob um império repartido por três Augustos, se intensificam as perseguições aos seguidores desta doutrina, que culminam com a execução em Treveris de Prisciliano e alguns companheiros.
No Livro III, novamente se ouve a voz do narrador, agora coadjuvado por Vitimer, noviço no mosteiro de Dume, cujos pensamentos e actos servem de trilho para conhecer umas últimas epístolas de Quintiano, religiosamente guardadas porque a serem divulgadas lançariam a desordem entre os simples e a santa fé católica deve ser defendida a todo o custo, guardando-se contra cismas e traições heréticas. Porque, acrescentamos nós, poriam em causa uma verdade construída de acordo com interesses particulares da instituição religiosa. Mantêm-se, em suma, as traves mestras da História, de resistência contra a opressão da República Romana, de lutas pelo poder em Roma, de tentativas de implementar novas doutrinas, sustentadas por traves de menor envergadura, mas não menos importantes, até porque representam o resultado de um aturado trabalho de investigação, que o autor não renega, mas que, tal como Garrett, sacrifica às musas de Homero, não às de Heródoto: e quem sabe, por fim, em qual dos dois altares arde o fogo de melhor verdade(Garrett,1973). Criam-se, afinal, pequenos mundos possíveis (Albaladejo, 1986) em que, e também porque as palavras e os actos das personagens não entram em conflito com as canónicas versões dos historiadores (Halsall,1984), é difícil destrinçar fronteiras nítidas entre a verdade histórica e a verdade ficcional, apesar de alguma clarificação ser facultada pelas Notas Finais. Sublinhamos alguma clarificação porque, segundo cremos, e já o dissemos por outras palavras, a investigação histórica é, à partida, viciada e selectiva, logo pretensamente objectiva. De acordo com Elisabeth Wesseling essa selectividade radica em três diferentes causas, a primeira das quais diz respeito ao facto de apenas se poder investigar o que conseguiu sobreviver até à nossa época; a segunda prende-se com as questões que se pretende ver respondidas, o que leva à selecção de certas fontes em detrimento de outras; a terceira é uma causa política, na medida em que a História apenas se preocupa em deixar os registos de indivíduos e colectividades que, num dado tempo, por obras e feitos se destacaram (Wesseling,1991). Julgamos, contudo, e para terminarmos esta breve incursão pelos romances históricos de João Aguiar, que nada melhor do que as palavras de um autor clássico para validar os processos de um autor contemporâneo cuja obra, não só mas também, revive e reescreve legados da cultura clássica». Ana Paula Arnaut, A Ficção de João Aguiar, A alquimia de uma escrita múltipla, Comunicação apresentada em Janeiro de 1997, Estudos Clássicos da FLU de Coimbra, revista HVMANITAS- Vol. XLIX (1997), ISSN 2183-1718.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

A Catedral Verde. João Aguiar. «Então, trémulo, com a fronte coberta de suor, centrou o pensamento no seu duplo e novamente marcou, devagar, o número. E o sinal era o de chamada…»

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«(…) Assim fez e deu-se bem com o método. Além destas chamadas para um número sempre ocupado, o seu, e de longos passeios em torno da casa, o resto do seu tempo continuou a ser empregue em leituras. Leu as obras de Proust e de Tolstoi, esgotou Platão e toda a literatura do Budismo Zen publicada até ao início da sua clausura, estudou Plotino, saltou para Descartes e deste para os poetas. A sua vida retomou o rumo que sempre desejara. Passou mais um ano. E, por alturas deste segundo aniversário, o homem deu-se conta de algo que lhe causou nova perturbação: começara por fazer uma chamada semanal para si próprio e com ela calava os seus instintos recônditos; a dada altura, passara a duas, e depois a três chamadas por semana; e agora eram diárias e a necessidade aumentava. Pior ainda que esse verdadeiro vício era ter começado a sentir a frustração do sinal sonoro intermitente, indicando que o número estava ocupado, por ele mesmo. Ainda e sempre, não queria falar com nenhum outro ser vivo, mas queria que o seu número estivesse livre e respondesse. Em suma: queria atender-se. Tentou reagir; chegou, até, a ligar para um número qualquer, ao acaso, porém logo cortou a comunicação, receando, com toda a lógica, ouvir uma voz humana a dizer qualquer uma das expressões mais comuns de atendimento. E esta ideia era insuportável, pois já não se sentia, mesmo fisicamente, capaz de contactar com alguém, salvo consigo próprio. Ao correr dos dias a frustração e o desejo aumentaram. Por essa altura, andava ele a fazer estranhas leituras, uma pilha de obras compradas num alfarrabista. Alguns títulos darão uma ideia: La Clef de la Théosophie, de Helena Petrovna Blavatsky, O Pensamento-Forma, de Max Williamson-Steiner e, sobretudo, The Reality Of The Doppelgänger, de um misterioso autor que se escondia atrás do pseudónimo Charles C. Smith.
Foi este último livro, sobretudo, que o influenciou, porque, honrando o título, tratava do duplo que se diz ter qualquer indivíduo da espécie humana: o Doppelgänger, que, em raras e assustadoras ocasiões, uma pessoa é capaz de avistar, momentaneamente dissociado de si mesma. Pois bem, o homem concebeu uma ideia que em breve se tornou obsessiva: levar o seu duplo a responder à chamada. Como, não o sabia, mas isso não lhe impedia o querer. E, desenvolvendo doentiamente esta obsessão, deu-lhe as dimensões de uma revelação fundamental. Se lograsse o seu propósito, provaria enfim a existência de uma outra dimensão existente no espaço-tempo, um mundo paralelo diferente daquele a que pretendia fugir de modo mais definitivo que o exílio voluntário no alto de uma colina. A partir desta fase, ele abandonou a leitura quase por completo. Os seus dias eram passados telefonando-se. Considerou que a disciplina do corpo e o treino da vontade poderiam ajudá-lo; iniciou então longos jejuns e aplicou-se a desenvolver as suas capacidades de concentração, tanto no estado de vigília como enquanto dormia, neste último caso por intermédio de exaustivos exercícios destinados a suscitar a ocorrência de sonhos lúcidos. Mais meses se esgotaram neste esforço extenuante. Até que um dia, faltava já pouco para completar o período de três anos, ao fazer o quinto telefonema desde que se levantara da cama, ouviu o sinal de chamada. A sua primeira reacção foi desligar. Pensou, naturalmente, ter-se enganado ao marcar o número e não quis arriscar-se a ouvir uma voz desconhecida. Tentou recordar exactamente a sequência de algarismos usada; pareceu-lhe ser a correcta, a do número do seu telefone. Então, trémulo, com a fronte coberta de suor, centrou o pensamento no seu duplo e novamente marcou, devagar, o número. E o sinal era o de chamada e ao fim de cinco toques o sinal parou e ouviu a sua própria voz dizer: … está?» In João Aguiar, A Catedral Verde, (A Crónica de Santo Adriano), 2000, ASA Editores, Porto, 2006, ISBN 972-41-2412-6.

Cortesia de ASA/JDACT

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Inês de Portugal. Pequenos Prazeres. João Aguiar. «Dona Inês suspira e diz ainda: não lhe quero mal, antes entendo bem o seu malquerer. Mas Pedro recusa-se a deixar que o mundo exterior os agrida. Ela é minha mulher, é infanta, há-de ser rainha. Outras têm pior sorte…»

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De profundis clamo ad te, domine
«(…) A cama revolvida, os lençóis sulcados pelos corpos. O sereno assombro das sensações passadas, o assombro de ter vivido momentos tais que só os conhecia de os ouvir tenuemente sugeridos no canto de segréis e trovadores. Inês está imóvel, deitada sobre as costas, com os olhos fechados e a boca a desenhar um leve sorriso. Não há palavras que a descrevam, segréis e trovadores nenhuma trova poderiam fazer que a retratasse. Um pano de linho fresco, a sua alvura manchada pelo sangue da iniciação. Pedro olha-o, pega nele. Entre os dois, nada é feio ou impuro. Pega nele, os seus dedos acariciam com ternura o sangue que o linho embebeu. Dona Inês abre os olhos, surpreende-lhe a carícia. Esse pano, murmura com suavidade, há-de sair daqui mui escondido, não poderá ser mostrado com risos e cantos e folguedos, na manhã do meu primeiro dia de casada.
E se eu te disser, responde Pedro, que para mim esta vez foi também como a vez primeira? Se te disser que fui aqui como donzel e não homem que já conheceu mulher? Que aprendemos juntos o que hoje fizemos? Ah, palavras, encontrar palavras... perdoa-me: não sou trovador, como el-rei meu avô. E eu, diz-lhe dona Inês, não sou uma santa, como a senhora rainha tua avó. Olham-se em deslumbramento. Abraçam-se de novo, agora não para o amor mas para a ternura, para sentirem os dois corpos sem distância. E riem como adolescentes. Porém, santo eu fui, afirma Pedro, ainda a rir, pois resisti tanto tempo. Mas agora, ninguém pode separar-nos. Então, dona Inês fica séria. As palavras dele vieram recordar-lhe que em torno daquele espaço encantado que ambos construíram há um outro mundo, hostil, que os espreita. No sé como isso há-de ser. Hoje temos este segredo, é verdade. Os segredos têm vida curta. Ao ver a interrogação nos olhos de Pedro, acrescenta: murmura-se na corte e a Infanta já me fala de outra guisa.
Dona Inês suspira e diz ainda: não lhe quero mal, antes entendo bem o seu malquerer. Mas Pedro recusa-se a deixar que o mundo exterior os agrida. Ela é minha mulher, é infanta, há-de ser rainha. Outras têm pior sorte, outras poderão queixar-se com mais razões. Pega novamente no pano manchado de sangue, leva-o ao peito como se fosse uma relíquia. Conheço eu uma, dona Inês Castro, filhada por um infante casado com outra dona. Dona Inês não se lamenta. Mesmo quando te souber na alcova da Infanta. Eu havia de querer-me bem e desejar o teu corpo ainda que não foras quem és, o futuro rei de Portugal e do Algarve... Num movimento súbito, deita-se sobre o corpo de Pedro e termina a frase com a boca roçando os lábios dele: e quem sabe, de Leão e Castela. Julgo na sua voz o alerta. Confusamente, suspeita que já não estão sós, por as vozes do mundo exterior, e com elas as suas paixões, entraram na alcova trazidas pelas palavras de dona Inês. Isso dizem-no os teus irmãos. Que é meu direito, se o meu sobrinho Pedro morrer. Pensas então como eles? Dona Inês não afasta o rosto, quer que ele a sinta bem perto.
Os meus irmãos, responde, amam-te como príncipe e senhor, querem-te rei de Portugal, Leão e Castela, e as bandeiras de Aragão, Valência e Barcelona atrás da tua. E tu? Mas agora, dona Inês não quer mais nada a afastá-los, nada que possa quebrar o encanto. Abandona o leito, envolvida num lençol. Vai até à mesa onde estão os castiçais, o pichel de vinho. Depois, sentindo-se envolvida pelo olhar de Pedro, regressa para junto dele e pega, por sua vez, no pano manchado de sangue. Tu és o meu rei. E esta, a minha bandeira. Não quero outro rei nem outra bandeira, já o disse, eu havia de querer-te ainda que não foras quem és. Chego a desejá-lo, pois assim seria mais tua. Há um silêncio. Enfim, Pedro solta um longo suspiro. É bom saber que desejarias o meu corpo ainda que eu fora vilão de beetria ou pastor de rebanho perdido nas serras. Mas eu, não posso nem quero esquecer quem sou. Quando for rei, isso bastará para encher os meus dias de cuidados e trabalhos. Uma só perfeição herdei da minha avó..., a que foi santa, quero dizer. Ela tinha a gente do povo como filhos seus. Eu também. Ser rei é ser pai. Porém um pai com tantos filhos, nunca repousa nem dorme a noite inteira. Será então pecado querer um pouco de felicidade? Eu estou aqui, responde dona Inês. Senta-se na beira da cama, ao seu lado. Eu estou aqui. Não és feliz? Pedro continua sério, o rosto virado para o tecto. Aqui, contigo, sou feliz. Escondidos na Galiza, que é a terra que te viu nascer. Mas em Portugal, na corte..., quando entro na alcova da minha tão virtuosa esposa, hei míster rezar e dizer em voz baixa que sou infante, que todos os meus irmãos morreram e Portugal precisa de outros herdeiros. Dona Inês não se esqueceu, demais conhece os obstáculos que se levantam entre os dois. Não por o Infante se prender a outra que não a sua mulher legítima, mas porque esta prisão, este amor, ambos querem que seja exclusivo, em desafio (ela bem o sabe e de o saber sente-se entontecido e assustada) das leis de Deus, das leis do reino, do querer de el-rei Afonso e da rainha e dos grandes e pequenos. Todo esse mar de perigo e de inimizade a submerge por instantes, a ponto de murmurar: Pedro. Esta nossa afeição é condenada. Nunca!» In João Aguiar, Inês de Portugal, pequenos Prazeres, Edições ASA, 1997, ISBN 972-41-1822-3.
                                                                                                                       
Cortesia de ASA/JDACT

Inês de Portugal. Pequenos Prazeres. João Aguiar. «Ao sair de Chaves, noite ainda, vestido como se fosse para montaria, já Pedro faz galopar o seu cavalo; javalis, cervos e lobos podem andar sem receio, que o Infante de Portugal não pensa hoje neles. O dia nasce e cresce, o Sol vai alto, mas ele não pára»

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De profundis clamo ad te, domine
«(…) Pedro olha à sua volta. Está só. Assim aguardará a chegada de Álvaro Gonçalves e Pero Coelho, que já tardam, parece-lhe. Só com os seus fantasmas. Que mais sou eu, senão um fantasma que só pode ser rei mas já não pode ser homem. Morto por dentro o homem, que o fantasma cumpra os deveres de el-rei, que por todos há-de velar e a todos há-de fazer justiça, grandes e pequenos, ricos e pobres, mais até a estes, que mais fracos são. Mas quem, pergunta Pedro enquanto olha o seu próprio rosto reflectido na sombria superfície do vinho que tem na taça, mas quem me fez justiça a mim, era eu infante e herdeiro do reino e agravado e ferido pelo maior mal? Os que sujaram Inês com as suas línguas imundas, aí andavam, ledos e folgados. Os que calaram o crime que se tramava, ficaram mui postos vai seu sossego. E os que a mataram, com mão tão certa como a do carrasco, esses, como os vi eu prazenteiros, comendo suas viandas, bebendo o vinho de suas vinhas, fazendo boa maridança com suas mulheres e até cantando na santa missa, como se fossem homens cristãos e não bestas-feras. Sim, e el-rei também, el-rei  Afonso de Portugal, meu santo pai, era um deles, e o mais principal, pois foi sua a sentença.
As recordações excitam-no, fazem-lhe correr o sangue mais depressa e subir-lhe à cabeça, como se para lá se tivesse mudado o coração. Assim foi, assim foi, porém hoje Afonso já não reina em Portugal e as bestas-feras jazem na masmorra à minha mercê e haverá de novo justiça, porque um rei-fantasma a fará, sobre grandes e pequenos, ricos e pobres. Sobre os vivos e também sobre os mortos. Roubaram-te de mim, Inês, mas não sabiam que assim mesmo te punham para sempre em mim. Para sempre, até ao fim do mundo. Um fantasma dentro de um fantasma, ambos num mundo de sombras, a recordar outro tempo em que viviam no mundo dos homens e sentiam na pele o calor do Sol, o vento e as carícias que um ao outro faziam. Ah, a lembrança da vez primeira. A lembrança da vez primeira, temperada com a delícia do segredo, das coisas escondidas. Ao sair de Chaves, noite ainda, vestido como se fosse para montaria, já Pedro faz galopar o seu cavalo; javalis, cervos e lobos podem andar sem receio, que o Infante de Portugal não pensa hoje neles. O dia nasce e cresce, o Sol vai alto, mas ele não pára. Galopa em frente, sem se deter, salta regatos e cercas, pisa terras de centeio e de vinha, não vê pastores nem rebanhos que se tresmalham espavoridos à sua passagem. Não pára para comer não dá descanso aos que o seguem, esgota a montada na corrida. Quer entrar na Galiza e respirar o mesmo ar que ela respira, quer ver as muralhas de Monterrei, de que tem ciúmes porque a cingem como num abraço protector.
Quando, por fim, os companheiros, poucos e de confiança, para que o segredo fique bem seguro, avistam homens de armas ao longe (um raio de Sol fez brilhar subitamente o aço de um arnês) e lhe pedem que sofreie o cavalo, que seja prudente, ele não lhes dá ouvidos, antes incita o animal. E tem razão, a sua ânsia não o enganou, é gente da mesnada dos Castro, vinda para saudá-lo e dar-lhe escolta. O próprio Fernando vem à frente, de sorriso aberto. Tudo foi combinado com grandes cautelas, mas ainda assim o jovem Castro quer ter uma derradeira certeza, por isso a sua saudação é quase uma pergunta: Bem-vindo a terras de Galiza, bem-vindo a Monterrei, senhor..., folgo que vosso pai vos haja permitido esta visita... Pedro compreendeu e responde com uma alegria travessa: Não o sabe ele, Fernando! Eu somente mandei dizer a el-rei que ia a Chaves por mor de fazer justiça em seu nome, e essa era a minha tenção. Esta manhã, saí em montaria para desenfadar e bem vejo agora que já não estou em Portugal... Enquanto fala, aproxima o seu cavalo do de Fernando e baixa a voz mas não abandona o sorriso nem a alegria: E aqui me tendes, como antes havíamos aprazado.
Depois, sentindo-se num sonho, cavalga ao lado de Fernando. Como num sonho, avista Monterrei, o castelo aninhado no alto da sua colina, dominando tudo em redor. Como num sonho atravessa o burgo, passa a barbacã, como num sonho recebe as boas-vindas de Álvaro Castro. E é ainda como num sonho que se ouve a si mesmo perguntar: E vossa irmã, dona Inês? Os ares de Galiza já a curaram daquela triste melancolia que a roubou à corte de Portugal e ao serviço da Infanta minha mulher? Ao que Fernando, com o sorriso ardiloso que Pedro já conhece, responde: Ela mesma poderá dizer-vos. E dona Inês ali está, entrou silenciosamente na sala enquanto eles falavam». In João Aguiar, Inês de Portugal, pequenos Prazeres, Edições ASA, 1997, ISBN 972-41-1822-3.

Cortesia de ASA/JDACT

A Catedral Verde. João Aguiar. «Cortadas as pontes, o homem mergulhou na solidão e em si próprio. Com prazer? Com volúpia? Ninguém o poderia dizer, talvez nem ele próprio. Sabia, em todo o caso, que aquele passo radical fora dado para fugir à loucura que o rondava de perto»

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«(…) Outro sinal de crise, bem mais grave, é a falta de ideias. Estou à espera, como dizia a Teresinha, de que uma ideia me tombe no regaço e essa espera não é nada confortável, porque comporta sempre o receio de que nada venha aterrar, de que o regaço fique estéril. Se bem que este incómodo telefonema do Filinto tenha agitado uma fibra qualquer. Ainda não sei o quê, exactamente. Vejamos, um telefonema: tinha piada usar um telefone como ponto de partida. Um homem sentiu-se (como eu o compreendo!) desfasado em relação ao mundo. O mundo, com a sua globalização e o acréscimo de escravatura camuflada trazido por essa nova forma de ditadura, mais a grosseria dos media, a desumanização, enfim: tudo aquilo que é o patamar e a sala de visitas do século XXI, o mundo, dizia eu, desgostou-o de tal forma que ele aplicou todas as suas energias para tornar possível, económica e fisicamente possível, uma retirada estratégica. Quando reuniu os meios necessários, escolheu um pardieiro arruinado, isolado, longe de tudo, aninhado no alto de uma rude colina; comprou-o, restaurou-o, dotou-o de todo o conforto que considerou ser-1he agradável e depois suspendeu, e, mais tarde cortou, os seus contactos com esse mundo que o desgostara.
Nem rádio, nem televisão, nem computador ligado à Internet, nem, sequer, estrada transitável para automóveis. As provisões acumuladas asseguravam-lhe três anos de isolamento absoluto, depois logo se veria. Uma única via de comunicação lhe restava, o telefone. Apenas na perspectiva do final desse período de três anos, para poder encomendar mais víveres. Cortadas as pontes, o homem mergulhou na solidão e em si próprio. Com prazer? Com volúpia? Com íntimo desgosto? Ninguém o poderia dizer, talvez nem ele próprio. Sabia, em todo o caso, que aquele passo radical não fora dado em busca do prazer, mas simplesmente para fugir à loucura que o rondava de perto. E o tempo passou, silencioso, na imobilidade aparente das coisas mais rápidas. O homem não se aborreceu no seu exílio. Levara consigo centenas, talvez um milhar de livros de todos os tipos e sobre todos os assuntos. As suas horas foram consumidas em leitura e nas reflexões que a leitura punha em marcha.
No final do primeiro ano assim vivido, o homem descobriu em si uma pulsão inquietante, a de pegar no seu telefone e ligar para um número qualquer. Ter-se-ia curado da repugnância que sentia pelo mundo? A esta pergunta, respondeu, após introspecção cuidadosa: não, ele continuava a sentir náuseas só com a simples ideia de avistar um seu semelhante. O desejo de usar o telefone, isto é, de comunicar com um qualquer ser humano um mero reflexo do instinto gregário comum a toda a espécie, porém nada tinha a ver com a sua personalidade, enquanto indivíduo. No entanto, esse reflexo mostrou-se suficientemente forte para lhe roubar a tranquilidade. Começou a estragar-lhe as noites e a envenenar-lhe os dias. Então, o homem decidiu iludi-lo. Considerou a possibilidade de telefonar para o serviço horário, pois não correria qualquer risco de contacto, ouviria uma simples gravação. Contudo, uma gravação já seria de mais, reflectiu. A gravação continha uma voz e essa voz seria humana. Além disso, a gravação era o resultado visível de toda uma tecnologia que ele aprendera a detestar. Foi então que concebeu a solução mais adequada, pensou ele, talvez já afectado pela solidão voluntária. Do que eu sinto vontade, raciocinou, é de executar o simples acto de pegar no telefone e marcar um número; pois bem, é simples, telefonar-me-ei a mim próprio, ligarei pera o meu próprio número. Ouvirei o sinal de ocupado e poderei desligar em paz». In João Aguiar, A Catedral Verde, (A Crónica de Santo Adriano), 2000, ASA Editores, Porto, 2006, ISBN 972-41-2412-6.

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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A Catedral Verde. João Aguiar. «Outro sinal de crise, bem mais grave, é a falta de ideias. Estou à espera, como dizia a ‘dita’, de que uma ideia me tombe no regaço e essa espera não é nada confortável, porque comporta sempre o receio…»

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«(…) Abro a janela da sala grande, embora a manhã esteja fria. Ao entrar, senti o ar pesado e um vago cheiro a humidade, o que não é de espantar porque em Vale de Monges também deve ter chovido toda a noite e, de resto, continua a chover. Daqui a minutos terei de fechar as vidraças e tratar de aquecer a casa, mas de momento prefiro ficar debruçado sobre o parapeito, apesar da chuva e do vento. Aqui, ao menos, posso debruçar-me porque o mal-estar provocado pelas alturas não me afecta, evidentemente, num rés-do-chão, ainda que elevado. Agora que estou de novo em casa, aquilo a que dou atenção em primeiro lugar é ao silêncio, que em Vale de Monges pode pesar-me às vezes (raras vezes), mas nunca me esmaga. Julgo que se fosse mais novo, se os momentos em que sonho não tivessem já de ser roubados àquele rapazinho que imaginava heróis a cavalgar em pradarias e florestas, este silêncio seria cheio de murmúrios e de promessas. Ainda assim, tal como ele é hoje, quase nunca me é hostil. Em dias como este, quando trago na cabeça o ressoar brutal do trânsito de Lisboa, ele é, claramente, uma bênção.
Adriano, meu filho, menos teatro, por favor. Ou menos efeitos literários. Parti de Lisboa muito cedo, justamente para evitar a chamada hora de ponta (isto soa-me sempre a alusão porno: hora de ponta, hora da ponta..., enfim). Quando saí do apartamento o João Carlos ainda estava metido no quarto, suponho que a dormir. Ontem, avisei-o de que se acordasse bem cedo partiria imediatamente. O serão decorreu sem sobressaltos, isto é: evitámos com todo o cuidado falar de divórcios e de crises existenciais e eu abstive-me sobretudo de mencionar o nome da sua ex-mulher porque no fundo de todos os seus problemas subsiste o facto simples e surpreendente de ele ainda gostar dela. Portanto, não falámos do que nos preocupava. Era essa a ideia, afinal, readormecer os tigres que se mexiam e ameaçavam acordar.
Nesse aspecto o serão foi um êxito, embora eu me pergunte se a única solução que nos resta a ambos é a de embalar tigres. Talvez seja, afinal. É a mais natural e a mais lógica e por isso mesmo não me agrada, não tenho culpa de ter nascido complicado. Parece-me que equivale a tomar drogas. Não tão fulminantes para o físico, não tão chatas para aqueles que nos estão próximos e têm de nos aturar; mais civilizadas, por conseguinte. Porém, no final do processo, o resultado há-de ser, pelo menos, comparável. E depois, todo este andar à volta de mim próprio é, além de neurótico, estéril. E torna mais viva a inquietação de sentir o tempo a escorregar. Por isso há que encontrar uma ocupação útil, como, por exemplo, fechar a janela e decidir se vou acender a lareira ou ligar os aquecedores. Logo nesta altura, em que encontro um rumo nobre para os próximos minutos da minha vida, o telefone começa a tocar. O som irrita-me por ser tão brusco e mais ainda porque não esperava nem desejava uma chamada esta manhã.
Quando vou atender a irritação cresce, porém contenho-a. É o Carlos Filinto, meu superficial amigo e vizinho. Sinto-me obrigado a conter a irritação porque sou o responsável pelo incómodo. Dei-lhe o número do meu telefone. Ele recorda-me uma promessa imprudente que fiz há tempos e pede com insistência que nos encontremos ainda antes do almoço. Não encontro desculpa adequada apesar de a procurar. Talvez porque me apanhou desprevenido e também porque, com toda a honestidade, não me sinto em condições de lucidez suficientes para arranjar uma desculpa desonesta. Resigno-me e digo-lhe até já. De qualquer modo, teria de ir à aldeia para almoçar porque também não me sinto em condições de fazer manipulações na cozinha. Em condições, em condições..., o que quero eu dizer com isto? Será pretexto, será o encobrimento de uma inenarrável preguiça? Suspeito que sim. Mas a preguiça, no meu caso, é, justamente, um sinal de crise». In João Aguiar, A Catedral Verde, (A Crónica de Santo Adriano), 2000, ASA Editores, Porto, 2006, ISBN 972-41-2412-6.

Cortesia de ASA/JDACT

quarta-feira, 29 de abril de 2015

A Voz dos Deuses. João Aguiar. «O meu tio, que na prática do seu ofício aprendera a desconfiar da natureza humana, ouviu-o com certa incredulidade porque tudo aquilo lhe pareceu um conto feito à medida exacta para encantar donzelas: revoltas, chacinas, a Cidadela de Brácara a arder»

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O oráculo
«(…) Quando Tongétamo chegou à região de Ebora, o grupo estava reduzido a três. Um deles teve qualquer sonho que interpretou como um presságio e decidiram prosseguir a marcha para Sul, até que foram atacados por um bando de salteadores. Durante a luta Tongétamo fora ferido nas costas e não se lembrava de mais nada; os seus companheiros estavam talvez cativos, ele ficara abandonado em pleno campo, dado como morto. Esta foi a história contada pelo estrangeiro. O meu tio, que na prática do seu ofício aprendera a desconfiar da natureza humana, ouviu-o com certa incredulidade porque tudo aquilo lhe pareceu um conto feito à medida exacta para encantar donzelas: revoltas, chacinas, a Cidadela de Brácara a arder, um jovem príncipe escapando à morte no último instante..., tudo lhe soava a fantasia e Camalo gostava das coisas simples, das situações normais e sem surpresas. A história de Tongétamo causou-lhe um certo mal-estar. Claro que na minha mãe ela teve o efeito oposto e depressa transpareceu que não seria possível separar Tongétamo de Camala a não ser pela violência. Porque (hoje estou certo disso, apesar da opinião diferente do meu tio) também o meu pai se apaixonara profundamente pela minha mãe; não se tratava, como Camalo sempre acreditou, de uma atracção passageira. Enfim, o meu tio vergou-se à evidência: a única forma de evitar a desonra da família e a necessária vingança era permitir o casamento e foi o que ele fez. Eu nasci exactamente duzentos e setenta dias depois da cerimónia nupcial.
Quando o meu pai foi encontrado ferido e inconsciente, Camalo advertira a irmã de que um regresso imediato a Balsa, abandonando o propósito de encontrar o novo santuário da Lua, equivalia a uma grave afronta à deusa. Ao menos, sugeriu, deviam procurar saber em Myrtilis se as notícias chegadas ao Cineticum eram verdadeiras. Perdida na obsessão de regressar, a minha mãe recusara dizendo que, como mulher, sabia melhor o que podia agradar ou desagradar à deusa. E mostrou-se triunfante quando, já em Balsa, uns amigos de Camalo garantiram que a informação não era exacta: havia, de facto, um santuário da Lua, mas já muito antigo e ficava bem longe, para lá do Tagus. De uma história velha fizera-se uma lenda nova, certamente alguns viajantes haviam falado do santuário em Ebora ou Myrtilis e talvez o desejo de atrair peregrinos e mercadores tivesse levado a gente local a deturpar o relato. Ouvindo isto, Camala declarou que fora por vontade da deusa que ela, procurando um lugar sagrado onde ele não existia, encontrara Tongétamo. Assim tentam os mortais conhecer os desígnios dos deuses e torná-los propícios aos seus interesses, porém sem resultado. Ao regressar a Balsa, desistindo das suas intenções piedosas, a minha mãe atraíra sobre si a ira do céu. O casamento foi um desastre. Não duvido, como afirmei, que o meu pai amasse verdadei­ramente a mulher, mas a vida no Cineticum era demasiado diferente daquela a que estava habituado e além disso não podia esquecer a chacina da família, a fuga ignominiosa. O seu desejo era regressar à Calécia, formar um exército, atacar Brácara, lavar em sangue as afrontas e crimes, tomar o poder. Mas (e nisto o meu tio teria razão no seu julgamento) faltava-lhe a força interior que faz um verdadeiro chefe. A vontade de vingança era forte, mas não o bastante para enfrentar com êxito dificuldades quase intransponíveis, estava só, o inimigo tivera tempo para consolidar a posição conquistada. Depois, havia a mulher, que em breve lhe daria o primeiro filho. Uma esposa cónia, mesmo muito amada, devia ser uma novidade inquietante para um Brácaro. Entre os Lusitanos das regiões mais ao norte, e muito especialmente entre os Calaicos, é costume as mulheres acompanharem os seus homens na guerra e combaterem ao seu lado. Tongétamo terá ficado desorientado com uma mulher que passava o dia dentro de casa, baixava os olhos ao falar e fazia da passividade uma arma para dominar o marido. Quando eu nasci, já o meu pai devia ter compreendido que ao casar abdicara da sua liberdade, a menos que abandonasse a mulher e o filho. Essa angústia mortal leu-a Camalo no rosto do cunhado, no dia do meu nascimento». In João Aguiar, A Voz dos Deuses, 1984, composição de Maria Samagaio, 2005, Lisboa, Sandra Ferreira, 2007, Grafiasa, Asa Editores, Rio Tinto, ISBN 972-41-1072-9.

Cortesia de ASAEditores/JDACT

segunda-feira, 30 de março de 2015

A Voz dos Deuses. João Aguiar. «Intrigado com tanto interesse, o meu tio atentou melhor no ferido e reparou que este era muito jovem, quase um adolescente. Encolheu os ombros e acedeu, pensando que o rapaz não sobreviveria até à madrugada seguinte e portanto não valia a pena contrariar a irmã»

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O oráculo
«(…) O argumento venceu o meu tio, embora ele sacrificasse com mais vontade aos deuses dos bosques e das águas e àqueles que auxiliam os comerciantes ou voltam as suas atenções para as doenças que afligem os homens. Na verdade, ninguém é insensato ao ponto de enfrentar o temível poder dessa deusa misteriosa que já reinava durante gerações sem conta quando as outras divindades se manifestaram pela primeira vez. Por isso Camalo cedeu à insistência da irmã e, como medida de precaução, reforçou a escolta com alguns escravos seus, armados. A viagem até Baesuris decorreu sem incidentes; fizeram uma estada de três dias nesta cidade, durante a qual o meu tio realizou alguns negócios rendosos, o que melhorou a sua disposição, e a caravana rumou para norte ao longo do Anas, que naquele troço marca a fronteira com a Bética. Para maior comodidade acampavam sempre junto do rio. E foi a um dia de marcha de Myrtilis que, ao pôr-do-Sol, quando pararam no sítio escolhido para pernoitar, um dos homens da escolta, ao procurar lenha seca para a fogueira, deparou com um corpo estendido atrás de uma moita. Trouxeram-no para junto do fogo e o meu tio, depois de o examinar com cuidado, ficou persuadido de que nada havia a fazer porque o forasteiro tinha uma grande ferida nas costas, já infectada. Pegou no punhal para evitar maiores sofrimentos ao moribundo mas uma sombra interpôs-se entre ele e o corpo inerte; era Camala, de mãos erguidas em súplica. Não podemos salvá-lo, explicou ele à irmã, só podemos evitar que sofra mais ao acordar, se chegar a acordar. Deixa-me tratar dele, respondeu Camala, deixa-me tentar. Se não der resultado, então...
Intrigado com tanto interesse, o meu tio atentou melhor no ferido e reparou que este era muito jovem, quase um adolescente. Encolheu os ombros e acedeu, pensando que o rapaz não sobreviveria até à madrugada seguinte e portanto não valia a pena contrariar a irmã. Enganou-se. Camala velou toda a noite, preparando unguentos e infusões, conhecia as virtudes de muitas ervas e as fórmulas mágicas que reforçam os seus poderes. Sem atender às repetidas intimações para repousar e dormir, não abandonou o ferido um só instante e quando o Sol nasceu viram-na, com os olhos vermelhos e pisados da vigília mas exibindo um sorriso triunfante, verter sobre a fogueira uma libação ao deus da luz. O jovem não recobrara completamente os sentidos, porém abrira os olhos durante um breve momento, bebera um caldo de carne e adormecera, aparentemente tranquilo. Camala vencera as trevas. Nessa altura (tarde demais, como ele confessou), o meu tio suspeitou o que estava a acontecer. Quem pode compreender os sentimentos das mulheres? Meio morto, magro como um esqueleto, coberto de porcaria, o estrangeiro conquistara, assim mesmo, o amor da minha mãe. Nesse dia a caravana não prosseguiu o caminho e após uma discussão quase violenta foram mandados servos a Myrtilis para vender parte da mercadoria a comerciantes de confiança e comprar mais mantimentos. Entretanto, Camala mantinha-se ao pé do doente. O meu tio perdeu a paciência e declarou que se recusava a permanecer ali; a caravana regressou a Balsa.
Durante longos dias, a minha mãe lutou para arrancar o desconhecido ao poder dos espíritos da morte. Aplicou bálsamos e compressas sobre a ferida, chamou em seu auxílio todos os deuses e deusas que protegem a saúde dos mortais e, para não descurar nenhuma oportunidade, consultou os vizinhos que ela sabia terem sobrevivido a feridas semelhantes. O enfermo voltou finalmente ao mundo dos vivos. O repouso, o tratamento e a boa alimentação mudaram completamente o seu aspecto: era, de facto, atraente, bem proporcionado, com longos cabelos cor de cobre polido e olhos verdes. Quanto à minha mãe, devia ser muito bonita (ao crescer, eu ainda pude encontrar os vestígios dessa beleza); o sangue fenício deixara a sua marca nos traços finos e puros do rosto, no cabelo, de um negro carregado, e nos olhos também negros, enormes e com a forma harmoniosa das amêndoas. Era impossível que não se sentissem atraídos um pelo outro. Mesmo antes de saber quem ele era, Camala decidiu que não haveria outro homem na sua vida nem na sua cama. Esse amor transformou-se numa paixão absoluta e doentia quando o rapaz, ao recuperar a consciência, pôde falar de si próprio.
Segundo disse chamava-se Tongétamo e era filho do rei dos Brácaros, um povo que habita a Calécia, nome que dão à parte da Lusitânia situada ao norte do rio Durius. Brácara, a capital do reino, é uma cidade importante quando comparada com a maioria das povoações daquela região, embora não passe de uma grande aldeia fortificada ao lado das nossas cidades. Ainda hoje as tribos do Centro e Norte da Ibéria vivem em estado de efervescência latente; naquela época, a guerra aberta era uma situação normal e os períodos de paz uma excepção. Os pequenos reis e príncipes, mesmo os simples chefes tribais, faziam da guerra o seu ofício, por necessidade ou gosto, e quando o Inverno impedia as expedições ou os inimigos (isto é, todos os vizinhos que não tivessem antepassados comuns) se mostravam demasiado fortes, havia ainda o recurso à guerra civil. Eram raras as famílias reinantes da Lusitânia sem uma interminável história de duelos, assassinatos e ajustes de contas.
Tongétamo, terceiro filho de Tongétamo, rei dos Brácaros, fora um dos poucos sobreviventes da revolta que destronara seu pai e aniquilara toda a família, incluindo as mulheres e as crianças, mesmo as recém-nascidas. No último dia de luta, o jovem, à frente de um punhado de homens fiéis, rompera o cerco e lograra abandonar a Cidadela em chamas. O pequeno bando errara durante algum tempo pelos arredores de Brácara, escondendo-se nas colinas, mas o Inverno era duríssimo e os caminhos transitáveis estavam vigiados pelo inimigo. Os companheiros de Tongétamo começaram a sucumbir à fome e ao frio. Os que resistiram encaminharam-se para o Sul, atravessaram o Durius e procuraram, em vão, um local que lhes proporcionasse refúgio e repouso. Enfraquecidos, acossados pelos partidários do usurpador, eram somente quinze fantasmas esfomeados quando chegaram às margens do Tagus e antes da travessia deste rio mais cinco morreram com febres». In João Aguiar, A Voz dos Deuses, 1984, composição de Maria Samagaio, 2005, Lisboa, Sandra Ferreira, 2007, Grafiasa, Asa Editores, Rio Tinto, ISBN 972-41-1072-9.

Cortesia de ASAEditores/JDACT

A Voz dos Deuses. João Aguiar. «O meu tio tentou recusar, mas conhecendo o temperamento da minha mãe sei que isso não era fácil. Para fazer prevalecer a sua vontade podia rebelar-se abertamente, recorrer a um sorriso humilde ou entrar em crise de choro. Em qualquer dos casos não desistia…»

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O oráculo
«(…) Do meu pai só conservo a fugidia imagem de um rapaz que me sentava sobre os joelhos e que era tão belo, de uma beleza tão resplandecente, que eu não sabia (ainda hoje não tenho a certeza) se ele era de facto o meu pai ou uma daquelas divindades luminosas que aparecem às crianças. Pensei nisso muitas vezes, mas creio que se fosse uma aparição o seu olhar não seria tão triste e ausente. A recordação tornou-se mais ténue com o rolar dos anos, porém julgo que nunca esquecerei, ao menos, aqueles olhos muito claros, de um tom verde-mar, que me fitavam quase sem atentar em mim. Quando compreendi que já não tinha pai, procurei saber o que lhe acontecera e quem ele fora. Da minha mãe não obtive informação alguma, quase só falava dele para rezar ao seu espírito (acusando-o porém de a ter abandonado) ou para carpir a sua morte, o que acontecia sobretudo quando alguém a contrariava. Foi Camalo, o meu tio, que um dia me contou (com uma amargura que não procurou disfarçar) a história desse casamento de que eu sou o único fruto. Já nessa altura eu sabia, por intuição infantil, que a escolha da minha mãe nunca lhe agradara. Camalo era um homem austero e reservado. Após a morte do meu avô assumira a responsabilidade de proteger a irmã, quinze anos mais nova. Enviuvara cedo, sem filhos, e decidira não voltar a casar até a jovem Camala encontrar um marido capaz de a defender em caso de perigo, pois vivia-se numa época agitada e constantemente chegavam ao Cineticum notícias de combates travados entre os governadores da Hispânia Ulterior (como os ocupantes lhe chamavam) e os povos das regiões não subjugadas. Na Bética e na Betúria eram frequentes as incursões dos Lusitanos e os mercadores provenientes de Gadir contavam histórias inquietantes de sangrentas revoltas contra Roma. Por tudo isto, o desejo de Camalo era casar a irmã com algum sólido e influente comerciante que soubesse mantê-la ao abrigo do infortúnio. Mas os homens são bonecos nas mãos dos deuses.
A história foi-me contada quando eu tinha doze anos. Havia já algum tempo que a minha mãe, cada vez que eu fazia uma travessura própria da idade, me dizia num tom grave e pomposo: Tongio, não podes comportar-te como se fosses um garoto qualquer! Porquê?, perguntava eu só para ganhar tempo. E a resposta, já conhecida, não se fazia esperar: Lembra-te de quem és. Lembra-te de que tens sangue real. Dizia isto e recusava-se a dar qualquer explicação. Não me foi difícil perceber que tais palavras tinham o condão de exasperar o meu tio. E percebi mais: ele e a minha mãe estavam empenhados numa luta surda em que eu era o despojo de guerra. Um dia Camalo não resistiu e, quando a odiada frase voltou a ser proferida, ergueu-se e fez-me sinal para o seguir ao mesmo tempo que, com um olhar cuja dureza me chocou, fazia calar os protestos da minha mãe. Durante alguns instantes insuportáveis, os dois enfrentaram-se quase com raiva; depois ela cedeu e o meu tio saiu para o jardim, com o corpo ainda inteiriçado pelo esforço que fizera para se dominar. Eu fui no seu encalço.
Era um dia de Primavera, um dia doirado de sol e pairava no ar um cheiro a flores, a mel e ao pão quente que os escravos estavam a tirar do forno. Camalo deteve-se num recanto do jardim e eu esperei que ele escolhesse uma sombra e me mandasse sentar. O seu ar grave, mais grave que o habitual, provocou em mim uma sensação desconfortável. Cedo ou tarde teríamos esta conversa, disse ele, quase bruscamente, e penso ter chegado a altura. Começou então uma narrativa que eu ouvi com avidez, bebendo-lhe as palavras. Escolheu uma linguagem própria para a minha idade e omitiu certos pormenores, mas foi suficientemente claro para que mais tarde eu pudesse preencher as lacunas do relato com o meu conhecimento de homem adulto. Quando a minha mãe completou quinze anos, tomou a inesperada decisão de acompanhar Camalo numa das suas viagens de negócios. O irmão deixara-a sempre à guarda de servos de confiança, mas naquele ano ela teimou em fazer a viagem a Baesuris e de lá, seguindo o curso do Anas para norte, até à cidade de Myrtilis.
O meu tio tentou recusar, mas conhecendo o temperamento da minha mãe sei que isso não era fácil. Para fazer prevalecer a sua vontade podia rebelar-se abertamente, recorrer a um sorriso humilde ou entrar em crise de choro. Em qualquer dos casos não desistia, nunca dava quartel e empregava todas as armas ao seu alcance. Assim, durante a discussão, argumentou que não haveria perigo na viagem, porque, como Camalo muito bem sabia, reinava uma certa paz na Bética e nas terras de entre Anas e Tagus, habitadas por Célticos e Lusitanos. Ainda que houvesse bandos de salteadores, acrescentou, os homens armados que protegiam a mercadoria defenderiam também aqueles que a acompanhavam. As razões mais poderosas reservou-as para o fim: uma recusa de Camalo iria ofender a Grande Deusa. De facto, era por devoção e não por espírito de aventura que a minha mãe pretendia seguir na caravana. Tinham chegado a Balsa notícias de prodígios ocorridos algures a norte de Myrtilis. Ao que se dizia, a divindade manifestara-se ocultando a Lua, esse astro que é a sua imagem visível no céu; feitos os sacrifícios e lidos os presságios, os sacerdotes haviam anunciado que a deusa exigia a construção de um santuário. O local exacto fora indicado, os trabalhos iam já a meio e de todos os lados acorriam peregrinos. Era este santuário que a minha mãe queria absolutamente visitar». In João Aguiar, A Voz dos Deuses, 1984, composição de Maria Samagaio, 2005, Lisboa, Sandra Ferreira, 2007, Grafiasa, Asa Editores, Rio Tinto, ISBN 972-41-1072-9.

Cortesia de ASAEditores/JDACT

domingo, 29 de março de 2015

Inês de Portugal. Pequenos Prazeres. João Aguiar. «”Lavar o seu sangue?” Não, Afonso, não dizes bem. Tivesse eu recolhido o seu sangue, haveria de o trazer comigo, encerrado em relicário santo. Até isso me foi negado. Mas se o não posso ter…»

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De profundis clamo ad te, domine
«(…) Morrem-lhe na garganta as palavras mais difíceis de dizer. Porque ... ? Acaba. E Afonso Madeira, num sopro: Sofrei que vo-lo diga e não me queirais mal. É que, bem o sabeis, sendo infante, haveis jurado... Interrompe-o um aaah prolongado, uma espécie de rugido. Mas agora tem de terminar. Senhor, eles só temem pelo vosso nome, pela vossa boa fama, pelo que as gentes possam pensar ou dizer de vossa mercê. O que as gentes pensam ou dizem. Sim, nisso eles pensam. E eu, o agravo que sofri, o feito que esses dois fizeram? O moço aproxima-se de Pedro, de modo a que este não perca uma única palavra sua. Entendei que eles pouco sabem o que vos ferve na alma. Eu sei, sei que o vosso juramento foi somente forçado pela paz do reino. Nem outra cousa podia ser, pelo vosso grande amor a dona Inês, um amor que ainda vive como se ela viva fosse. Pedro, que se virou para ele, abre-se num sorriso que é emoção e é ternura. Como tu me conheces, Afonso. Só tu. A isto responde o escudeiro, dando ao rosto aquela expressão de fragilidade e de inocência que o torna ainda mais jovem, que o faz tão querido das mulheres e que, um dia, seduziu o Rei a ponto de o arrancar por momentos ao perpétuo luto por Inês: É que vos tenho mais amor que os outros. E haveis-me falado tanto de dona Inês que eu bem entendo que queirais lavar o seu sangue. Sim, ele diz isto. Lá fora, pensa o jovem, Álvaro Pais há-de esperar de olhos cravados na porta, que o ânimo do rei se altere por sua intercessão. Ele entendeu, porém, que o mesmo será esperar ver um rio Correr para a nascente. Afonso Madeira já não cuida mais dos desejos do chanceler. Fez o que pôde, disse o que estava ao seu alcance. Agora, tem de seguir o rei no seu sonho, para não o perder. Há nisto o seu interesse e também uma afeição sincera. Acima de tudo, intuiu que no espírito e na alma de Pedro nada nem ninguém poderá dominar a imagem de dona Inês. Acima dela estará hoje o reino, talvez, mas somente o reino. Nenhum homem e nenhuma mulher. A voz de Pedro, ao responder-lhe, interrompe-lhe o curso do pensamento.
Lavar o seu sangue? Não, Afonso, não dizes bem. Tivesse eu recolhido o seu sangue, haveria de o trazer comigo, encerrado em relicário santo. Até isso me foi negado. Mas se o não posso ter, hei-de ao menos vingá-lo. É Pedro que se aproxima agora, lentamente, enquanto fala. Que sabe o mundo de juramentos, Afonso? O juramento que eu lhe fiz, a ela e não ao meu pai e à minha mãe, o juramento que lhe fiz, só esse é verdadeiro e só esse conta e só esse me prende. Afonso Madeira tenta desesperadamente afastar a imagem da ausente, que enche e domina a sala e lhe rouba a atenção, o olhar de Pedro. A imagem da morta é, bem o sabe, capaz de varrer todos os vivos para a sombra do esquecimento. Afonso, murmura o rei, nunca houve nem haverá no mundo amor como este. E o jovem, num último protesto: Por vezes, olho-vos e sinto receio. Cuido que ela está aqui, entre nós, cuido que ainda a vedes. Justamente, Pedro vê-a. Em sonhos e em sombras. O mundo em que vivo verdadeiramente, é esta a ideia que lhe acode, o mundo em que vivo é só feito de sonho e de sombra porque a luz, essa, roubaram-ma quando a mataram. A minha luz vinha dos seus olhos. Sim, Pedro vê-a. Sempre. Por vezes, até nos rostos graves dos seus conselheiros, mais vezes porém no rosto claro deste escudeiro, a ponto de não saber já quem está na sua frente e foi essa confusão, foi essa ilusão que um dia o levou a tomá-lo nos braços. Mas hoje não quer que isso aconteça. Sacode a cabeça para afastar os dedos da sombra e ordena roucamente: Vai-te agora, Afonso. Deixa-me só. O alaúde volta ao seu leito, na almadraquexa que recobre uma grande arca. Afonso Madeira aí o deixa a repousar, antes de sair». In João Aguiar, Inês de Portugal, pequenos Prazeres, Edições ASA, 1997, ISBN 972-41-1822-3.

Cortesia de ASA/JDACT

quarta-feira, 11 de março de 2015

O Acampamento Fantasma. João Aguiar e António J Gonçalves. «A bem dizer, não achei aquilo muito bonito, mas enfim, não percebo nada do assunto: era a maqueta de um prédio muito grande, pintado de branco e de azulão, cor-de-laranja e vermelho, bem berrantes»

jdact e wikipedia

Uma birra e uma fúria
«Esta história começa com uma birra do Álvaro e com uma fúria do tio João. A birra do Álvaro foi por causa do nosso cão, o Pelópidas, que ele queria por força levar para o acampamento. Porque, para aquelas férias da Páscoa, a nossa escola tinha planeado, om o Centro de Juventude de Vila Rica, um acampamento na zona de Chão de Guerreiros e nós, a Catarina, o Frederico, o Álvaro e eu, estávamos inscritos; e estávamos também entusiasmados com a ideia, porque era a primeira vez que íamos acampar. Ora, na véspera da partida, quando nós e a nossa mãe andávamos a fazer os preparativos, o meu querido mano percebeu, só então, que o Pelópidas não podia ir connosco. Claro que eu também tinha pena de o deixar em casa, mas sabia que não havia remédio: imaginem vocês a confusão se todo o pessoal levasse animais para o acampamento. Só que o Álvaro, além de ser ainda muito miúdo, é casmurro até dizer chega. E fez uma cena das grandes: se o Pelópidas não vai, eu também não vou!, anunciava ele, como se fosse uma ameaça gravíssima. E a nossa mãe, muito calma: então é simples, vai só o Carlos. Podes começar a tirar a tua roupa do saco. Mas ele vai sentir muito a minha falta! E por aqui fora, não vale a pena contar tudo, mesmo porque o Álvaro teve de resignar-se. Já se vê que amuou; foi para o quintal fazer festas ao cão e dizer-lhe que tinha muita pena, que eram só uns dias e não sei que mais. Como se calcula, o Pelópidas ficou na mesma; só havia de fazer, ele também, a grande cena no dia seguinte, quando nos visse abalar. Entretanto, a nossa mãe disse-me: Carlos, eu acabo isto sozinha. Vai dar uma volta com o teu irmão, a ver se ele areja as ideias e lhe passa o amuo, antes que eu tenha de zangar-me.
Até calhava bem, porque nós precisávamos de sair. Fui ter com o Álvaro e lembrei-lhe de que tínhamos combinado procurar o tio João para nos despedirmos e também para fazer-lhe uma pergunta. Não quero saber!, rezingou ele. Não quero fazer pergunta nenhuma. Vou ficar aqui com o Pelópidas. Por fim, lá o convenci. E convenci-o também a ir de bicicleta. Àquela hora, o tio devia estar no museu: ele é, agora, director do museu de Vila Rica, que é muito perto da nossa casa, são só dois ou três minutos a pé; mas eu queria ir de bicicleta, para depois podermos dar um passeio que ajudasse a desfazer a birra do Álvaro. No museu, tivemos uma desilusão. O tio João não estava lá e, segundo nos disse um dos funcionários, não deveria aparecer tão cedo, porque tinha sido convidado para uma inauguração no Centro Cultural. E o funcionário, que nos conhecia bem, acrescentou: mas se querem mesmo falar com ele, podem ir ao Centro. A esta hora, já foram feitos os discursos... Era uma boa ideia e ainda bem que tínhamos vindo de bicicleta, assim não perdíamos tempo a ir a casa. Como seria de esperar, o Álvaro protestou, rosnou que não gostava nada de inaugurações. Em vez de responder-lhe, pedalei com mais força; ele acabou por calar-se e veio atrás de mim. Em pouco tempo, chegámos ao Centro Cultural. O que lá fora inaugurado era (segundo anunciava um cartaz na fachada) a Semana do Urbanismo, com palestras, debates e coisas desse género, além de uma exposição. Não quero entrar!, declarou o meu irmão, que continuava rabugento. Não sei o que é isso de urbanismo e não quero ouvir palestras nem ver exposições! Repliquei-lhe que só íamos ver e ouvir o tio João e entrei sem ligar aos seus protestos, de modo que ele veio atrás de mim.
E agora chegou a vez de contar o ataque de fúria do tio. Não precisámos de perguntar por ele, encontrámo-lo facilmente. Logo à entrada, à nossa direita, a porta que dava para o salão grande tinha um outro cartaz, por cima, dizendo: Exposição o Urbanismo na alvorada do Século XXI. Essa porta estava aberta de par em par e pudemos avistar o tio João, ao fundo, parado diante de uma maqueta. Fomos ter com ele. Já a poucos metros de distância, o Álvaro chamou-o, mas não nos ouviu, pois não se mexeu. Nem pareceu dar por nós quando chegámos ao pé dele. Tinha o olhar fixo na maqueta, um olhar furioso, que parecia deitar chispas. Eu chamei outra vez: tio João...? E ele: nada! Isto sempre a olhar para a maqueta. De modo que o Álvaro e eu também olhámos. A bem dizer, não achei aquilo muito bonito, mas enfim, não percebo nada do assunto: era a maqueta de um prédio muito grande, pintado de branco e de azulão, cor-de-laranja e vermelho, bem berrantes. Na base via-se o nome do arquitecto e uma frase: Projecto encomendado por Picão & C! Finalmente, o tio João deu pela nossa presença: ide-vos embora daqui, pobres infantes, que este horror indecente não é próprio para a vossa tenra idade. Zarpai para ambientes mais saudáveis! Vocês já sabem como ele fala, às vezes. O que eu percebi foi que não estava mal disposto nem preocupado, pois nesse caso não falaria caro; mas, ao mesmo tempo, estava zangado, disso não havia dúvida. Já percebi que o tio não gosta disto..., repliquei. Mas também não é caso para... Ele interrompeu-me: é caso, sim senhor. Porque esta organização maligna, este Picão & Companhia, é uma firma de construção civil que anda a fazer horrores deste género por toda a província, nas paisagens mais bonitas, mesmo na vizinhança de centros históricos, em vilas e aldeias, sempre que consegue autorização das câmaras municipais. Felizmente, há muitas câmaras que não deixam, mas há outras que sim. Aquela torre enorme, aquele horror que foi construído em Contendas de Cima, aqui bem perto de Vila Rica, foi o Picão que a fez. E, ainda por cima, eu sei que..., mas não, isto não vos interessa. Vou-me embora daqui». In João Aguiar e António J Gonçalves, O Acampamento Fantasma, O Bando dos Quatro, Edições ASA, 2002, ISBN 978-972-413-031-6.

Cortesia de ASA/JDACT

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A Voz dos Deuses. João Aguiar «O meu bisavô foi o último a seguir a carreira das armas: alistou-se no exército cartaginês, serviu sob o comando de Aníbal Barca e tombou em Itália numa escaramuça com as legiões romanas. Os seus restos mortais nunca foram recuperados…»

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«Em 147 a.C., alguns milhares de guerreiros lusitanos encontram-se cercados pelas tropas do pretor Caio Vetílio. Em princípio, trata-se apenas de um episódio da guerra que a República romana trava há vários anos para se apoderar da Península Ibérica. Mas os lusitanos, acossados pelo inimigo, elegem um dos seus e entregam-lhe o comando supremo. Este homem, que durante sete anos vai ser o pesadelo dos romanos levou à revolta grande parte dos povos ibéricos e foi responsável pelo início da célebre guerra da Numância. Viriato foi um verdadeiro génio militar, político e diplomata. Mas, sobretudo, Viriato foi o defensor de um mundo que morria asfixiado pelo poderio romano: o mundo em que mergulham as raízes mais profundas de Portugal e de Espanha. É este mundo, já em declínio, que este livro tenta evocar».

Prólogo. Ano 84 a.C.
«Arcóbriga e Meróbriga são cidades mortas desde que os habitantes foram obrigados a descer para o vale. Abandonadas no alto dos seus outeiros, elas dominam ainda a vasta planície ondulada, mas aqui, no santuário, o deus fica-lhes sobranceiro porque este monte, que é a sua morada terrena, ultrapassa em altura todos os morros vizinhos. Arcóbriga e Meróbriga nasceram sob a protecção divina. Tanto quanto a memória dos homens recorda, as muralhas das duas povoações nunca cederam a um ataque e mesmo quando soou a hora da derrota não houve sofrimento ou ignomínia. Por isso, os antigos habitantes, agora instalados ao longo da ribeira, continuam a trazer oferendas à divindade, pois sabem que lhe devem a vida, o pão e a segurança que lhes permite amanhar a terra, caçar, apascentar o gado e, pela tardinha, acender com toda a tranquilidade os seus fogos para preparar a refeição da noite. É o fumo desses fogos que vejo espalhar-se na planície, ao sabor do vento fresco e forte. Também a fogueira que me protege contra o frio se verga ao ímpeto do vento, mas quando olho em frente posso distinguir, no interior do templo, cuja porta está aberta, a chama sagrada ardendo erecta e impassível, sem que um sopro a perturbe. Mais perto de mim, ao ar livre, as flores que cobrem a ara dos sacrifícios são varridas para o chão. Esta é a minha hora preferida. Os ritos estão executados, as ofertas dos fiéis consagradas, os acólitos recolheram aos seus alojamentos situados na encosta, para cozinhar a ceia, e os peregrinos que desejam consultar o oráculo ainda não chegaram. Finalmente estou só, envolvido pelo grande silêncio da terra. E este silêncio, tão profundo que nele se perdem o canto dos pássaros e o silvo do vento, liberta a minha alma. Quando nele mergulho, o deus fala-me, por vezes. Nem sempre foi assim. Os deuses falam aos homens com vozes diferentes, conforme eles são capazes de entender. Os jovens ouvem essas vozes no estrépito das batalhas ou no acto do amor, os velhos aprendem a escutar de outra maneira. Outrora, também eu ouvi a voz dos deuses no amor, na guerra, nos sonhos e na tempestade, até mesmo na fala de outros mortais. Agora, que já passaram oitenta invernos na minha vida, se é que não deixei escapar alguns sem dar por tal, resta-me o silêncio.
Não sinto amargura, apenas fadiga. Porém a fadiga vai-se dissolvendo, como eu próprio me dissolvo lentamente no ar puro e luminoso do santuário (quando, na Primavera passada, torci um tornozelo e tive de ser transportado até ao templo pelos acólitos, eles ficaram surpreendidos ao sentir o meu corpo tão leve e frágil). Vivi bastante mais que a maioria dos homens. Durante muito tempo não compreendi por que razão os deuses conservaram uma vida que, julgava eu, havia cumprido o seu destino em plena juventude. Agora já sei, como sei muitas outras coisas: ouvi no silêncio a voz da divindade. Por isso aqui estou sentado, gravando estas palavras em tabuinhas de cera que vou amontoando à minha frente. Além, naquele cofre reforçado com chapas de ferro, guardo o meu tesouro mais precioso, alguns rolos de papiro (o melhor papiro do Egipto) onde copiarei em forma definitiva os textos ensaiados na cera. Não temo que a morte me surpreenda a meio do trabalho, pois obedeço ao deus e ele preservar-me-á até que eu cumpra a sua vontade. Estou nas suas mãos e nada mais importa. In A história de Tongio filho de Tongétamo, sacerdote do grande deus Endovélico e guardião do seu santuário.

O oráculo
Eu nasci sob o jugo de Roma. O antigo reino do Cineticum, famoso pelos seus bosques, a doçura do seu clima e as suas riquezas, é uma terra que desde sempre atraiu a presença dos deuses e a cobiça dos homens. No ano em que vim ao mundo, já as águias romanas dominavam metade da nossa costa, da foz do Anas para ocidente, e pertenciam-lhes as grandes cidades de Ossónoba, no litoral, e Conistorgis, no interior. Balsa, a minha terra natal, não é tão populosa mas no tempo dos Fenícios foi um entreposto importante e ainda hoje figura entre os principais portos do Cineticum. Porque nasci junto ao mar, ele é uma das primeiras recordações da minha infância. Outra, por estranho que pareça, é um amuleto que a minha mãe me pendurou ao pescoço para afastar as febres e as dores quando os primeiros dentes começaram a romper. Esse amuleto, uma presa de javali, perfurada, suspensa de um fio de couro muito fino e flexível, nunca me abandonou e deve ter sido graças a ele que, em toda a minha vida, não me lembro de ter sofrido dos dentes. Do lado materno descendo dos Cónios, cujos reis fizeram do Cineticum um país próspero. Essa prosperidade trouxe comerciantes e invasores. Uns e outros sucederam-se ao longo dos tempos: vindos do mar ou da vizinha Bética, estabeleceram-se entre nós e acabaram por criar laços com a população cónia. A sua vinda provocou muitas mudanças, entre elas o desaparecimento da dinastia real que nos unificara. Mas o Cineticum soube absorver e assimilar os seus dominadores (pelo menos, até os Romanos aparecerem). Na minha família, como em todas as famílias das nossas cidades, há quase tanto sangue fenício ou turdetano como antigo sangue cónio. As guerras e as invasões alteraram também o que parecia ser o destino imutável dos homens do meu clã. Durante muitas gerações, desde a época dos reis, nós pertencemos aos notáveis de Ossónoba; quando os guerreiros envelheciam e depunham as armas tomavam assento no Conselho dos Anciãos e ocupavam-se das terras que possuíam a leste do Promontório Sagrado. A vinda dos estrangeiros acabou por quebrar essa tradição porque os laços do clã enfraqueceram e as famílias separaram-se, espalharam-se por todo o Cineticum ou foram mais para norte, além das serras. Cada agregado passou a contar somente com os seus próprios membros ou com as amizades e alianças feitas na terra onde se instalara.
O meu bisavô foi o último a seguir a carreira das armas: alistou-se no exército cartaginês, serviu sob o comando de Aníbal Barca e tombou em Itália numa escaramuça com as legiões romanas. Os seus restos mortais nunca foram recuperados e por isso os filhos não puderam cumprir os rituais fúnebres. Diz-se que os mortos não perdoam a quem os deixa sem sepultura e o certo é que em breve a sorte da família mudou e os quatro rapazes perderam quase todo o património que haviam herdado. O terceiro filho, porém, não aceitou passivamente a má fortuna: sem consultar ninguém, executou ele mesmo os ritos apropriados perante um sepulcro vazio que comprara, para que o espírito do defunto soubesse que lhe eram prestadas as honras exigidas, e tomando sob a sua protecção o irmão mais novo (que viria a ser o meu avõ materno), foi estabelecer-se em Balsa como mercador. Morreu cedo, antes de casar, mas o meu avô, um homem inteligente e enérgico, aprendera o ofício e soube refazer a riqueza perdida. Casou com uma jovem pertencente à pequena nobreza local e dela teve dois filhos: Camalo, que ele iniciou nos negócios, e Camala, a minha mãe». In João Aguiar, A Voz dos Deuses, 1984, composição de Maria Samagaio, 2005, Lisboa, Sandra Ferreira, 2007, Grafiasa, Asa Editores, Rio Tinto, ISBN 972-41-1072-9.

Cortesia de ASAEditores/JDACT

A Ficção de João Aguiar. A alquimia de uma escrita múltipla. Ana P Arnaut. «Caio Vetílio, responsável pela corrupção de Audax, Ditalco e Minuro, assassinos do chefe lusitano, com personagens e acontecimentos fictícios, mas não inverosímeis, caso de Tongio, companheiro de Viriato e futuro sacerdote do templo de Endovélico»

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«… Concerne esta alegada multiplicidade não apenas a possibilidade de identificar as coordenadas estéticas por que se norteia a produção literária de João Aguiar, os caminhos da História e das Estórias. Diz outrossim respeito ao modo como, no grupo dos romances de temática histórica, o autor entretece dados históricos com elementos ficcionais; e como, nas narrativas de ficção, a sua capacidade imaginativa, aparece, por vezes, travestida por cores fantásticas, feéricas (O Homem Sem Nome); por laivos de realidade vivida ou sabida por outrem (O Canto dos Fantasmas); por características das narrativas policiais (Os Comedores de Pérolas); ou ainda ancorada no folclore popular e na realidade portuguesa (A Encomendação das Almas e Navegador Solitário). Da intromissão de elementos ficcionais na tessitura narrativa de carácter histórico, dá-nos João Aguiar conta na Advertência Prévia ao primeiro dos seus romances - A Voz dos Deuses, e igualmente válida, lato sensu, para os romances A Hora de Sertório e O Trono do Altíssimo: Boa, má ou simplesmente medíocre, A Voz dos Deuses é uma obra de ficção e não um ensaio histórico rigoroso. No entanto, estou sinceramente persuadido de que o Viriato que os leitores encontrarão nestas páginas está mais próximo do Viriato histórico e verdadeiro que a tradicional imagem do rude pastor dos Hermínios bravamente entrincheirado na sua cava, em Viseu; mesmo porque Viriato não nasceu nos Hermínios (...) a Cava é uma fortificação que nada tem a ver com o chefe lusitano. Entretanto, e parafraseando Eça de Queirós (...), foi necessário lançar sobre a nudez forte de uma verdade histórica insuficiente o manto diáfano de uma fantasia plausível ou, pelo menos, aceitável.(...)
É, pois, de acordo com este jogo entre História e ficção, cujas regras tacitamente se acordam com o leitor, que João Aguiar recua aos mais remotos tempos de Viriato, de Sertório e de Prisciliano. Destes, e da época era que se movimentam, aproveita, por um lado, alguns aspectos históricos, oficialmente tornados verdadeiros por todos os que, em diferentes espaços e tempos, foram investidos do poder de fazer crónica do passado. Por outro, o que o autor leva a cabo mais não é do que a consecução da noção Ingardiana de preenchimento de pontos de indeterminação provocados, e permitidos, pela pretensa objectividade dos relatos históricos ortodoxamente científicos, deste modo construindo verdades internas da ficção, tão didácticas e úteis como as verdades oficiais. O que John Woods designa por modalidades mistas de existência ocorre em A Voz dos Deuses, A Hora de Sertório e O Trono do Altíssimo, não apenas pela convivência no universo narrado de personagens, acontecimentos e lugares aceites como históricos, com personagens, acontecimentos e espaços ficcionais, mas também, e essencialmente, pelo facto de em cada uma dessas categorias coexistirem as duas linhas de força: a histórica e a ficcional.
Desta feita, por exemplo, coexistem em A Voz dos Deuses personagens, acontecimentos, tradições e modos de vida reais, Viriato, Sérvio Galba (governador da província Ulterior), Lúculo (governador da Citerior), Caio Vetílio, responsável pela corrupção de Audax, Ditalco e Minuro, assassinos do chefe lusitano, com personagens e acontecimentos fictícios, mas não inverosímeis, caso de Tongio, companheiro de Viriato e futuro sacerdote do templo de Endovélico; caso dos oráculos de Baikor e da Serra da Lua, cuja descrição, entre muitas outras, activa esquemas cognitivos conformes ao que o leitor julga ter sido o estado das coisas da época em causa. Cite-se, a título de ilustração, e no que diz respeito ao mundo das crenças, uma breve passagem alusiva à profecia da Serra da Lua: Relanceei um olhar alarmado à nossa volta e nesse instante ouvi uma espécie de silvo, como se fosse uma cobra, e logo a seguir a voz soou de novo, e saía da boca de Arduno, mas não era ele que falava nem era a sua voz; parecia a de uma mulher, embora o som fosse grave e a articulação dura e enérgica. - Tongio, filho de Tongétamo. Porque fazes perguntas sobre o destino se os deuses já te disseram o que podias ouvir? À vossa frente o caminho é longo. Há vitórias e derrotas, alegria e sangue, traição e glória. A águia está ferida mas este é o tempo do seu domínio. Depois do Touro virá a Corça. Porque fazes perguntas? Ε tempo de combater. Só tu verás a era da Corça. Mas os deuses querem-te, os deuses surgirão no teu caminho...
Depois do Touro virá a Corça... Depois de Viriato é A Hora de Sertório, é altura de encerrar o díptico, compondo, dez anos depois, as voltas ao mote dado pela profecia, numa narração a três vozes dos valores e das crises sociais, económicas e políticas do mundo romano do século I a.C.. A polifonia narrativa deixa de ser protagonizada pela voz dos deuses, até porque Os deuses calaram-se no céu e na terra, e passa a ser entabulada entre Euménio de Rodes, Lúcio Hirtuleio e Medamo. Narradores do trajecto pessoal e político de Quinto Sertório, estes são simultaneamente personagens, protagonistas por vezes, de pequenos quadros a partir dos quais é possível conhecer diversos aspectos da vida coetânea: cenários, usos e costumes da vida doméstica, cultural, social e política. Conhecemos e sabemos o que eles conhecem, sabem e testemunham; informações que, apesar de limitadas e parciais, validam os relatos feitos, porquanto estes se crêem tanto mais verídicos e credíveis quanto tiverem sido de facto vividos pela entidade que preside à narrativa. Além disso, aduza-se ao exposto que a mencionada limitação, de certo modo inerente aos narradores homodiegéticos, é colmatada pelo facto de cada voz ir progressivamente preenchendo vazios, momentos da narrativa deixados em aberto pela voz anterior». Ana Paula Arnaut, A Ficção de João Aguiar, A alquimia de uma escrita múltipla, Comunicação apresentada em Janeiro de 1997, Esrudos Clássicos da FLU de Coimbra, revista HVMANITAS- Vol. XLIX (1997), ISSN 2183-1718.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

A Catedral Verde. João Aguiar. «O facto de, ainda agora, pensar nela como a rapariga e não a Teresa prova-me, ou, pelo menos, sugere-me, que a atracção é epidérmica, o que leio como um bom sinal (porém, tudo isto me reconduz à tal reflexão que pretendo adiar). Perdi-me neste debate íntimo…»

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«(…) Sorrio ao dar-me conta de ter pensado a rapariga, e não a Teresa; esta impessoalidade espontânea é um alívio. Quando, à despedida, lhe perguntei o nome, senti nela uma reprovação: eu devia sabê-lo, já mo tinha dito à chegada. A minha pergunta, estou certo, interpretou-a como um sinal de indiferença ou, talvez, de afectação de indiferença. Mas não havia afectação, apesar da atracção física que, evidentemente, senti. O facto de, ainda agora, pensar nela como a rapariga e não a Teresa prova-me, ou, pelo menos, sugere-me, que a atracção é epidérmica, o que leio como um bom sinal (porém, tudo isto me reconduz à tal reflexão que pretendo adiar). Perdi-me neste debate íntimo em que receio distinguir os sinais precursores da senilidade gagá: o processo de gagaificação deve começar assim, fixando atenções e energias em torno de noções vagas, sem interesse nem sentido, que no entanto surgem perante os olhos do gagaificante como coisas ponderosas, da maior importância. Quem me salva da distracção é o João Carlos, que entra na sala sem que eu tenha ouvido bater a porta da entrada.
Depois das saudações, discute comigo aquilo a que chama a questão de prioridade absoluta, ou seja, o jantar. Menciona três ou quatro restaurantes situados a uma distância que permite e mesmo recomenda uma deslocação a pé, apesar da chuva, e fala nas especialidades das respectivas cozinhas. Mas eu encontro-me agora numa estranha disposição de espírito. O mundo continua a pesar sobre os meus ombros, até com mais força, e não consigo içar no meu mastro a bandeira da gastronomia, símbolo de saudáveis entusiasmos. - Se queres conhecer o fundo do meu pensamento, digo-lhe então, confesso que prefiro comer qualquer coisa aqui mesmo, nem que sejam bolachas e água da torneira. Chove lá fora, não sei se reparaste. A quem o dizes, replica ele, ao mesmo tempo que estremece de horror à ideia de bolachas e água da torneira. Depois olha-me com incómoda atenção, porém sem discutir, o que é invulgar. E acabamos sentados frente a frente à mesa da cozinha diante de carnes frias, pão de ontem e uma garrafa de vinho tinto, uma reserva do Douro. Enquanto comemos pergunto-lhe se a nova revista é para falir já ou só no próximo ano. É a quarta que ele lança; a anterior durou dois anos, mais tempo do que eu julguei possível. O João Carlos tem, entre outros, um mérito que não só reconheço como admiro: consegue fechar a tempo, antes que o buraco financeiro o deixe afogado em dívidas e o condene ao calote múltiplo. Virtude raríssima. O único caso do meu conhecimento. É verdade que possui outros rendimentos, sem os quais, aliás, não haveria revistas. Outros senhores de posição têm amantes; ele tem revistas.
Pergunto-lhe qual o nome desta, pois já o esqueci. - Tempo Futuro, responde orgulhosamente. – Como vês, só o título é um programa. Acometido de uma sede inexplicável, esvazio o meu copo de vinho, depois encosto-me ao espaldar da cadeira. - É um pouco menos desastroso que o anterior, mas não se pode dizer que seja brilhante. Ele encolhe os ombros, recusa-se a discutir, fala-me então da colaboração que espera de mim e remata: - Eu podia dizer que aceito passivamente aquilo que quiseres fazer, mas já conheço a tua preguiça. Interrompo-o para protestar, ele ignora a interrupção. - Uma crónica todas as semanas, tema à tua escolha. E uma peça grande por mês, seja artigo, reportagem ou entrevista. Mais umas pequenas coisas irregulares, sem compromisso, que farás se quiseres e puderes. - É muito, respondo, mesmo antes de pensar. - E não sei o que possa fazer para uma revista chamada Tempo Futuro, porque eu estou cada vez mais passado. - Uma mer… Vamos para a sala? Deixamos a cozinha tal como está, desarrumada, porque a mulher-a-dias vem amanhã. Já instalados na sala, ele com um cigano irrequieto e eu a encher o cachimbo, continuamos a discussão, ou melhor, eu ouço-o falar e, para dizer a verdade, não o ouço com muita atenção, deixo correr os seus argumentos. Fixo-me no ruído da chuva a agredir a vidraça. Porque ainda não parou de chover. Levanto-me, vou até à janela que rasga a sala a toda a largura. Nas minhas costas, a voz dele fustiga-me: E além do mais, o interesse não é só meu. Tanto quanto sei, não ficaste rico da noite para o dia, pois não?
Era uma boa ideia, respondo sem me voltar. Desgraçadamente, ele tem razão, os direitos de autor e o rendimento de economias passadas, que sofreu uma respeitável talhada com o meu divórcio, não me deixam margem para grandes fantasias. O João Carlos prossegue, indesviável: - Enquanto essa boa ideia não se concretiza, vais precisando de dinheiro, tens de pagar a educação do teu puto. E enquanto trabalhas para mim continuas a ter tempo para escrever, está longe das minhas intenções querer privar a literatura portuguesa de uma luminária tão..., tão luminosa. Mas há outra coisa, ainda...» In João Aguiar, A Catedral Verde, (A Crónica de Santo Adriano), ASA Editores, Porto, 2006, ISBN 972-41-2412-6.

Cortesia de ASA/JDACT