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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O Computador Interior. A Teoria das Fatias Finas. Malcolm Gladwell. «Porém, como é que seria se levássemos a sério os nossos instintos? Como seria se parássemos de percorrer o horizonte com os binóculos e começássemos a examinar as nossas decisões e comportamentos através do microscópio mais potente?»


jdact e cortesia de wikipedia
  
O Computador interior
«Esta explicação não tem nada de superficial. Toca em algo fundamental da nossa maneira de pensar. O nosso inconsciente é uma força poderosa, mas pode falhar. O nosso computador interno não se sai sempre bem, descodificando instantaneamente a ‘verdade’ de qualquer situação. Pode estar distraído ou desligado, ou, então, inoperante. Muitas vezes, as nossas reacções instintivas têm de competir com muitos outros interesses, emoções e sentimentos. Sendo assim, quando é que podemos confiar nos nossos instintos, e quando é que temos de ter cuidado com eles? A resposta a essa pergunta é a segunda tarefa deste livro. Quando os nossos poderes de reconhecimento rápido se enganam, enganam-se devido a um conjunto de razões específicas e consistentes, razões essas que podem ser identificadas e compreendidas. É possível saber quando é que se deve ouvir o nosso poderoso computador interior e quando é que se deve desconfiar dele.
A terceira e mais importante tarefa deste livro é convencer o leitor de que as nossas avaliações instantâneas e as primeiras impressões podem ser educadas e controladas. Sei é difícil de acreditar em tal coisa. Harrison, Hoving e os outros especialistas de arte que viram o kouros do Getty reagiram com respostas intensas e muito elaboradas, mas as suas reacções inconscientes não surgiram espontaneamente? Será que uma reacção tão misteriosa pode ser controlada? A verdade é que pode. Assim como podemos aprender a pensar lógica e deliberadamente, também podemos aprender a fazer melhores avaliações instantâneas.
Neste livro vamos encontrar médicos, generais, treinadores, decoradores de interiores, músicos, actores, vendedores de automóveis e muitas outras pessoas que são muito competentes naquilo que fazem e que devem o seu sucesso, pelo menos parcialmente, aos passos que deram para formar, controlar e educar as suas reacções inconscientes.
O poder de saber naqueles dois segundos iniciais, não é um dom mágico de algumas pessoas beneficiadas pela sorte. É uma capacidade que podemos desenvolver para o nosso benefício.

Um Mundo Diferente e muito Melhor
O que não falta são livros que tratam de temas gerais, que analisam o mundo à distância. Não é o caso de Blink! Diz respeito aos componentes mais pequenos do nosso dia-a-dia, o conteúdo e a origem daquelas impressões e conclusões instantâneas que surgem espontaneamente, sempre que conhecemos alguém, nos confrontamos com uma situação complexa, ou temos de tomar uma decisão sob tensão. Quando se trata de nos compreendermos melhor a nós próprios e ao mundo, creio que prestamos uma atenção excessiva aos grandes temas e mal reparamos nos pormenores desses momentos, que passam tão depressa.
Porém, como é que seria se levássemos a sério os nossos instintos? Como seria se parássemos de percorrer o horizonte com os binóculos e começássemos a examinar as nossas decisões e comportamentos através do microscópio mais potente? Creio que tal atitude mudaria o modo como se fazem as guerras, os produtos que vemos nas lojas, as propostas do cinema, o treino das forças policiais, o aconselhamento aos casais, as entrevistas de emprego e muito mais situações por aí fora. E, se conseguíssemos combinar todas essas pequenas mudanças, acabaríamos por ter um mundo diferente e muito melhor. Acredito, e espero que no final o leitor também acredite, que a tarefa de nos percebermos a nós próprios e de percebermos o nosso comportamento requer que reconheçamos o facto de poder haver tanto valor no tempo de uma piscadela de olho como em meses de análises racionais.
Sempre considerei mais objectiva a opinião científica do que a avaliação estética, disse a conservadora do Departamento de Antiguidades do Getty, Marion True, quando finalmente emergiu a realidade sobre o kouros, mas agora vejo que estava enganada.

A Teoria das Fatias Finas: Como um Pequeno Conhecimento chega tão Longe
(A expressão thin slice , fatias finas’,faz mais sentido em inglês, onde se usa frequentemente slice of life, fatia de vida para designar um período de tempo da vida de uma pessoa. Não se encontra equivalente idiomático em português)
Há alguns anos, um casal de jovens foi à Universidade de Washington visitar o laboratório de um psicólogo chamado John Gottman. Andavam pelos vinte e tal anos, eram louros, de olhos azuis, cabelo cortado à moda e óculos cheios de estilo. Posteriormente, algumas das pessoas que trabalhavam no laboratório comentaram que eles eram o tipo de casal de quem facilmente se gosta, inteligentes, atraentes e ainda por cima divertidos, com um toque de ironia excêntrica, e isso pôde ver-se logo no vídeo da visita feito por Gottman. O marido, a quem vou chamar Bill, tinha um comportamento divertido, que atraía as pessoas. A sua esposa, Susan, era de raciocínio rápido e racional.
Foram levados para uma pequena sala no segundo andar do discreto edifício de dois andares que albergava o departamento de Gottman e sentaram-se a um metro e meio um do outro, em duas cadeiras de escritório colocadas em cima de estrados. Ligaram eléctrodos e sensores os seus dedos e orelhas, para se medirem coisas como o ritmo cardíaco, a transpiração e a temperatura da pele». In Malcolm Gladwell, Blink, Publicações Dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-20-4079-2.

continua
Cortesia D. Quixote/JDACT

O Computador Interior. Malcolm Gladwell. «Penso que todos nós, inatamente, suspeitamos deste tipo de conhecimento rápido. Vivemos num mundo que assume que a qualidade da decisão está directamente relacionada com o tempo e o esforço necessários para a tomar»


jdact
  
O Computador interior
«Uma pessoa que observa um vídeo mudo de dois segundos de um professor que nunca viu chegará a conclusões sobre a qualidade do professor muito parecidas com as do estudante que frequentou as suas aulas durante um semestre inteiro. É esse o poder do nosso inconsciente adaptável. Pode ser que o leitor tenha feito a mesma coisa, consciente disso ou não, quando pegou neste livro pela primeira vez. Teve-o nas mãos durante quanto tempo? Dois segundos? Contudo, nesse curto período de tempo o aspecto da capa, as associações que possa ter feito com o meu nome e as primeiras frases sobre o kouros, tudo isso gerou uma impressão, uma revoada de pensamentos, imagens e preconceitos, que fundamentalmente formou o modo como leu esta apresentação até aqui. Não sente curiosidade em saber o que aconteceu durante esses dois segundos?
Penso que todos nós, inatamente, suspeitamos deste tipo de conhecimento rápido. Vivemos num mundo que assume que a qualidade da decisão está directamente relacionada com o tempo e o esforço necessários para a tomar. Quando um médico se vê perante um diagnóstico difícil, pede mais exames, e quando não confiamos no que ele nos está a dizer, pedimos a opinião de outro médico. E o que é que dizemos aos nossos filhos? A pressa é inimiga da perfeição. Pense bem, antes de se arriscar. Páre para pensar. Não avalie um livro pela capa. Acreditamos que é sempre melhor acumular a maior quantidade possível de informação e despender a maior quantidade de tempo possível a deliberar. Na realidade, só confiamos nas decisões conscientes. Porém, há alturas, particularmente nos momentos de tensão, em que a rapidez não é má, em que uma avaliação instantânea e uma primeira impressão podem proporcionar a melhor maneira de perceber o mundo. A primeira tarefa deste livro é convencê-lo de um facto muito simples: as decisões tomadas rapidamente podem ser tão boas como as decisões tomadas com cautela e deliberação.
Contudo, Blink! não é apenas um panegírico do poder da olhadela rápida. Também contempla as situações em que os instintos nos atraiçoam. Por exemplo, porque é que o Getty comprou o kouros, se ele era tão obviamente falso, ou, pelo menos, problemático? Porque é que os especialistas do museu não tiveram também um sentimento intuitivo de repulsa durante os 14 meses em que estudaram a peça? Esse é o grande enigma do que aconteceu no Getty, e a resposta é que essas sensações foram contrariadas. Isso deve-se em parte à aparente probidade dos dados científicos (o geólogo Stanley Margolis estava tão convencido da sua própria análise, que publicou uma longa descrição do método na revista Scientific American).Porém, foi sobretudo porque o pessoal do Getty queria muito que a estátua fosse verdadeira. É um museu recente, desejoso de adquirir uma colecção com qualidade mundial, e o kouros era uma descoberta tão extraordinária que os especialistas não prestaram atenção aos seus próprios instintos.
Ernst Langlotz, um dos maiores especialistas mundiais em escultura arcaica, perguntou uma vez ao historiador de arte George Ortiz se queria comprar determinada estatueta de bronze. Ortiz viu a peça e ficou espantado; para ele, na sua mente, era claramente uma falsificação, cheia de elementos contraditórios, sobrepostos com um certo desleixo. Então como é que Langlotz, um dos especialistas que, em todo o mundo, mais sabem de estátuas gregas, podia ter sido enganado? A explicação do próprio Ortiz é que Langlotz deve ter comprado a escultura quando era ainda jovem, antes de ter adquirido os seus extensos conhecimentos.
 - Penso que Langlotz se apaixonou por aquela peça, disse Ortiz. Para um jovem é fácil apaixonar-se pela sua primeira compra, e talvez aquele tenha sido o seu primeiro amor. Independentemente dos seus inacreditáveis conhecimentos, era óbvio que ele não conseguia pôr em dúvida a sua primeira avaliação». In Malcolm Gladwell, Blink, Publicações Dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-20-4079-2.

Cortesia D. Quixote/JDACT

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Braga. Escadório do Bom Jesus do Monte: Haverá um percurso alquimista na escadaria? Parte IV. «Esta fonte procura mostrar o lado transcendente do próprio sentido, aqui representado através do Sol, símbolo da claridade que permite conhecer a verdadeira realidade, oculta nas sombras da ignorância. A águia, como animal solar, constitui a aspiração a essa mesma luz que vem do alto»

Cortesia de flickr 
Com a devida vénia ao Gabriel e ao sítio Peregrinar/Maria cito algumas frases.

Escadório dos Cinco Sentidos 
Este lance dos escadórios é da responsabilidade do arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles que não os chegou a ver concluidos pois morreu em Setembro de 1728. Para a conclusão, a administração da confraria obteve os recursos de um modo singular:
  • A Companhia de Jesus e o seu colégio da Igreja de São Paulo em Braga estava em litígio com outros colégios de Braga, em particular com o Convento dos Congregados. Ocorreram em Braga manifestações dos estudantes dos outros colégios contra os jesuitas. Estes conseguiram fazer prender os rapazes mais rebeldes, e obrigar as suas famílias a pagar multas proporcionais aos seus rendimentos.
O dinheiro recebido foi entregue à confraria para a feitura das estátuas de pedra que terminariam o escadório dos cinco sentidos.

Cortesia de fotothing
Os jesuitas inspirados na mitologia Grega escolheram as figuras, que a Mesa da Confraria em Edital de  Abril de 1774 julgou «indecorosíssimas e indecentíssimas». Em satisfação a este edital foram mudados os nomes e os dísticos às imagens:
  • Argos passou a chamar-se Vir Prudens;
  • Orfeu passou a designar-se por Editum;
  • Jacinto deu lugar a Vir Sapiens;
  • Ganimedes passou a Joseph;
  • Midas passou a chamar-se Salomão.
Nesta parte do escadório estão cinco lances de escadas, intervalados por patamares com fontes alegóricas aos cinco sentidos, pela seguinte ordem: Visão, Audição, Olfacto, Paladar e Tacto.
Paulo Pereira afirma que neste escadório procede-se ainda a uma hierarquia do tema dos cinco sentidos, como que revelando no percurso ascensional o grau de corporeidade que se deve atribuir a cada um dos sentidos em causa. O primeiro sentido é o da Vista e o último o do Tacto, começando no mais incorpóreo dos sentidos, a águia é o animal alegórico e o Sol preside à alegoria, terminando no mais corpóreo e impuro, a aranha é o animal escolhido para simbolizar esta faculdade.


Cortesia de caminhos romanos/wikipédia 
O escadório dos 5 sentidos é uma alegoria ao corpo humano mas está longe de constituir uma elegia. Se é pelos sentidos que «se deriva o princípio do nosso conhecimento», como escrevia um dos primeiros moralistas do Bom Jesus, a atitude do crente não pode ser passiva nem acrítica no acto de conhecer. É necessário ir além das ilusões da imagem, como dizia S. Agostinho ou o Pd. António Vieiraé necessário ir além de todos os dados imediatos da percepção, dizem sem cessar todas as fontes do Escadório dos Cinco Sentidos. Tudo o que é sensorial é do domínio do reino animal e serão sempre animais a exemplificar nas várias fontes as capacidades de cada sentido como que a quererem dizer que não é essa a condição humana.

A 1ª fonte dos sentidos. Fonte da Visão
Símbolos: sol e águia. Visão
Na fonte da Visão existe uma estátua lançando água pelos olhos e tem na mão esquerda uns óculos. Três águias olham para o sol.


Cortesia de pbase
Estamos perante uma dupla referência Solar: a Águia, com o seu forte simbolismo solar, ela pode olhar o sol de frente, e o próprio Sol. A águia identifica-se com forte conteúdo simbólico e que se encontra bem presente em variadas representações heráldicas no Ocidente medieval, sendo mesmo uma das mais comuns representações de animais nos brasões.
«Esta fonte procura mostrar o lado transcendente do próprio sentido, aqui representado através do Sol, símbolo da claridade que permite conhecer a verdadeira realidade, oculta nas sombras da ignorância. A águia, como animal solar, constitui a aspiração a essa mesma luz que vem do alto. A vigilância é também uma das suas características». In José Ramos.
Moisés - Argos/Vir Prudens - VISTA - Jeremias
A estátua central é a imagem de um pastor com a mão sobre o peito e os olhos fechados. A inscrição é Vir prudens quasi in somnis vide et vigilabis. Eccles. C. 13, v. 17. - «Varão prudente, toma-as (as lisongeiras palavras) por um sonho e assim vigiarás».
Segundo a mitologia, Argos Panoptes, Argo de muitos olhos, era um gigante com 100 olhos. Servo fiel de Hera, é incumbido pela deusa de tomar conta de Io, uma princesa e amante de Zeus transformada em novilha. Era um excelente boiadeiro, visto que, quando dormia, mantinha 50 de seus olhos despertos. Hera homenageou Argos, transformando-o em pavão, a sua ave sagrada, em cuja cauda pôs 100 olhos.
À direita a estátua de Moisés, tendo na cabeça 2 raios de luz e na mão direita a vara com a serpente enroscada. A inscrição diz: Moysés. Quem cumpercussi aspicerent, sanabantur. Num.21, 9. - «Moisés. Aqueles que, feridos, a olhavam, saravam»

Cortesia de skyscrapercity
À esquerda a estátua de Jeremias representa o sol e tem na mão direita uma vara com olhos, significando a que lhe mostrou numa visão. Na inscrição diz: Jeremias. Virgam vigilantem ego video. Jer. IEu vejo uma vara vigilante». Tudo fica mais claro se recordarmos que a vara ou cajado é o símbolo do conhecimento que permite ao sábio caminhar seguramente.
Outra possibilidade de interpretação é a  associação aos 4 elementosAqui aparecem-nos aos pares, o que também acontece em Tomar, nas construções dos Templários». In Peregrinar/Maria.
Vista (visão), Sol, Fogo, elemento Masculino
Águia, Ar, elemento Masculino

Cortesia de Gabriel/Peregrinar/Maria/JDACT