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sábado, 27 de fevereiro de 2016

A Bastarda de Istambul. Elif Shafak. «… algum defeito no sistema de altifalantes das mesquitas nas proximidades. Ou então os seus ouvidos tinham-se tornado extremamente sensíveis. Vai terminar num minuto»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Pronto, pronto, disse ele, tentando consolar Zéliha enquanto vestia um par de luvas cirúrgicas. Tudo vai correr bem, não se preocupe. É apenas um sono leve. Vai dormir, sonhar, e antes de terminar o sonho nós a acordaremos e depois irá para casa. Depois disso não se lembrará de nada. Quando Zéliha chorava daquele jeito, todas as suas expressões tornavam-se visíveis e as bochechas afundavam, acentuando-lhe o traço mais vigoroso: o seu nariz! Aquele notável nariz aquilino que, como os irmãos, ela herdara do pai; diferente dos irmãos, porém, o dela tinha o dorso mais acentuado e era um pouquinho mais alongado nas bordas. O médico deu-lhe umas palmadinhas no ombro, passou-lhe um lenço de papel e depois a caixa inteira. Sempre tinha uma caixa de lenços de papel de prontidão junto à sua mesa. As companhias farmacêuticas distribuíam caixas de lenços de papel grátis. Juntamente com canetas, agendas e outras coisas que traziam gravado os seus nomes, as companhias fabricavam lenços de papel para as mulheres que não conseguiam parar de chorar. Figos… Figos deliciosos… Figos óptimos, maduros! Era o mesmo vendedor ou um outro? Como os clientes o chamariam…? Figueiro…?!, pensou Zéliha consigo mesma, deitada na mesa de uma sala perturbadoramente branca e imaculada. Nem os equipamentos nem as facas a assustavam tanto quanto aquela absoluta brancura. Havia algo na cor branca que se assemelhava ao silêncio. Ambos eram desprovidos de vida.
No seu esforço para se afastar da cor do silêncio, Zéliha distraiu-se com uma mancha preta no tecto. Quanto mais fixava o olhar, mais a mancha se parecia com uma aranha negra. Primeiro imóvel, depois começou a rastejar. A aranha tornava-se cada vez maior à medida que a injecção se espalhava pelas veias de Zéliha. Em poucos segundos estava tão pesada que não conseguia mover um dedo. Enquanto resistia a ser carregada para longe pelo sono da anestesia, começou a soluçar de novo. Tem a certeza de que é isso que quer? Talvez queira pensar mais sobre o assunto, disse o médico numa voz aveludada, como se Zéliha fosse um monte de pó e ele tivesse medo de fazê-la voar para longe com o vento de suas palavras se falasse mais alto. Se quiser reconsiderar a sua decisão, ainda há tempo. Mas não havia. Zéliha sabia que aquilo tinha de ser feito naquela hora, naquela primeira sexta-feira de Julho. Agora ou nunca.
Não há nada a reconsiderar. Não posso ter essa filha, ouviu-se dizer abruptamente. O médico fez um sinal afirmativo com a cabeça. Como se esperasse por esse gesto, a prece de sexta-feira inundou de repente a sala, vinda da mesquita próxima. Em segundos, outra mesquita juntou-se à primeira, e depois outra e mais outra. O rosto de Zéliha contorceu-se, desconfortável. Detestava quando uma prece destinada originalmente a ser emitida pela pureza da voz humana era desumanizada numa voz eléctrica, estrondeando pela cidade, produzida por microfones e altifalantes. Logo o clamor era tão ensurdecedor que Zéliha suspeitou haver algum defeito no sistema de altifalantes das mesquitas nas proximidades. Ou então os seus ouvidos tinham-se tornado extremamente sensíveis. Vai terminar num minuto… Não se preocupe. Era o médico falando. Zéliha olhou-o interrogativamente. O desprezo pela electro-prece era tão óbvio no rosto dela? Não que se importasse. Entre todas as mulheres Kazanci, Zéliha era a única declaradamente não-religiosa. Quando criança, agradava-lhe imaginar Alá como o seu melhor amigo, o que não era coisa ruim, claro, excepto porque a sua outra melhor amiga ser uma garota sardenta, loquaz, que passara a fumar aos oito anos. A garota era filha da faxineira da família, uma curda gorducha cujo bigode nem sempre se preocupava em depilar. Naquela época, a faxineira ia à casa de Zéliha duas vezes por semana, levando sempre a filha. Depois de um tempo, Zéliha e a garota tornaram-se boas amigas, chegando até a cortar seus respectivos dedos indicadores para misturarem o sangue e serem irmãs de sangue para sempre. Por uma ou duas semanas, as garotas andaram com curativos ensanguentados amarrados nos dedos como um sinal de sua irmandade. Naqueles tempos, sempre que Zéliha rezava, pensava nessas palhaçadas, se pelo menos Alá também se pudesse tornar uma irmã de sangue…, sua irmã de sangue…» In Elif Shafak, De Volta a Istambul, A Bastarda de Istambul, 2007, Editora Nova Fronteira, tradução de Myriam Campelo, ISBN 978-85-209-1996-5, Jacarandá Editora, 2015, ISBN 978-989-875-237-6.

Cortesia de EBF/JEditora/JDACT

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

A Bastarda de Istambul. Elif Shafak. «… algo saiu totalmente errado e a respiração que prendeu escapou como um soluço. O médico não demonstrou surpresa. Estava acostumado com aquilo; as mulheres sempre choravam»

Cortesia de wikipédia

«(…) Não gostava do silêncio. Na verdade, detestava o silêncio. Tudo bem que as pessoas a olhassem fixamente na rua, no bazar, na sala de espera do médico, aqui e ali, dia e noite; tudo bem que a observassem e fixassem estupidamente, confrontando-a longamente com os olhos de novo, como se a vissem pela primeira vez. De um modo ou de outro, sempre podia defender-se dos seus olhares. O que não podia era lutar contra o seu silêncio. Senhor… Senhor… Quanto é o quilo?, perguntou uma mulher na janela do andar de cima de um edifício do outro lado da rua. Sempre era divertido para Zéliha ver como os habitantes daquela cidade conseguiam facilmente, quase sem esforço, inventar nomes improváveis para profissões comuns. Era possível acrescentar um eiro a praticamente qualquer coisa vendida no mercado, e logo um novo nome era incluído na longa lista de profissões urbanas. Assim, dependendo do que era vendido, podia-se facilmente ser chamado de tangerineiro, maçãzeiro, aguadeiro ou…, aborteiro. Naquele momento, Zéliha já não tinha mais dúvida. Não que precisasse de alguém para confirmar sua própria certeza, mas fizera também um teste na clínica recém-aberta nas vizinhanças. No dia da grande inauguração, o pessoal da clínica ofereceu uma vistosa recepção para um grupo de selectos convidados, e enfileirou buquês e guirlandas do lado de fora da entrada para que os passantes também fossem informados do evento. Quando Zéliha visitou a clínica no dia seguinte, a maioria das flores já murchara, mas os folhetos continuavam tão coloridos quanto antes.

Teste de gravidez grátis com exame de glicose!, diziam as fluorescentes letras maiúsculas. Zéliha desconhecia a correlacção entre os dois, mas mesmo assim fizera o teste. Quando os resultados chegaram, a sua taxa de glicose revelou-se normal e estava grávida. Senhorita, pode entrar agora!, chamou a recepcionista parada na entrada, lutando com outro r, desta vez um r difícil de evitar na sua profissão. O doutor está à sua espera. Pegando na caixa de copos de chá e no salto quebrado, Zéliha levantou-se de um pulo. Sentiu todas as cabeças voltarem-se para ela, registando cada gesto seu. Normalmente ela teria caminhado o mais rápido possível. Naquele momento, contudo, os seus movimentos eram visivelmente lentos, quase lânguidos. Quando estava prestes a deixar a sala, fez uma pausa e, como que pressionada por um botão, virou-se sabendo exactamente para quem olhar. Lá, enquadrado pelas suas pupilas, estava um rosto muito amargo. A mulher de véu na cabeça fez uma careta, os olhos castanhos obscurecidos de ressentimento, os lábios movendo-se, amaldiçoando o médico e aquela adolescente de 19 anos prestes a abortar o filho que Alá devia ter concedido não a uma garota desleixada, mas a si mesma. O médico era um homem robusto, que transmitia força com a sua postura erecta. Ao contrário da recepcionista, não havia nenhum julgamento no seu olhar, nenhuma pergunta insensata na sua boca. Pareceu acolher Zéliha irrestritamente. Ele fê-la assinar alguns papéis e, em seguida, mais papéis para o caso de algo não dar certo durante ou depois do procedimento. Perto dele, Zéliha sentiu os nervos relaxarem e a sua pele afinar-se, o que era muito ruim porque sempre que isso acontecia ela tornava-se frágil como um copo de chá e não conseguia evitar as lágrimas. E aquilo era uma coisa que realmente odiava. Tendo um profundo desprezo por mulheres choronas desde pequena, Zéliha prometera nunca se transformar numa daquelas misérias ambulantes que espalhavam lágrimas e lamentações bobas por toda parte e das quais havia muitas à sua volta. Proibira-se de chorar. Até aquele dia, em geral conseguira manter a sua promessa. Quando, e, se as lágrimas subiam a seus olhos, simplesmente prendia a respiração e lembrava a promessa feita. Assim, naquela primeira sexta-feira de Julho, fez mais uma vez o que sempre fizera para sufocar as lágrimas: respirou profundamente e ergueu o queixo, como um sinal de força. Daquela vez, no entanto, algo saiu totalmente errado e a respiração que prendeu escapou como um soluço. O médico não demonstrou surpresa. Estava acostumado com aquilo; as mulheres sempre choravam». In Elif Shafak, De Volta a Istambul, A Bastarda de Istambul, 2007, Editora Nova Fronteira, tradução de Myriam Campelo, ISBN 978-85-209-1996-5, Jacarandá Editora, 2015, ISBN 978-989-875-237-6.

Cortesia de EBF/JEditora/JDACT

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

De Volta a Istambul. A Bastarda de Istambul. Elif Shafak. «Naturalidade?, continuou a recepcionista, aridamente. Istambul! Istambul? Zeliha encolheu os ombros como se dissesse: … de onde mais poderia ser?»

Cortesia de wikipedia

Canela
«(…) Dividida entre registar imparcialmente a nova paciente e lançar um olhar de censura àquela intrepidez, a recepcionista permaneceu imóvel, um enorme caderno de notas com capa de couro aberto à sua frente. Alguns segundos se passaram antes que ela finalmente começasse a escrever. Enquanto isso, Zeliha murmurou: desculpe o atraso. Um relógio na parede indicava que chegara 46 minutos atrasada. Enquanto o seu olhar pousava nele, por um segundo Zeliha deu a impressão de vagar para longe. Foi por causa da chuva... Aquilo era um pouco injusto com a chuva, já que o tráfego, as pedras quebradas da calçada, a Câmara, o espreitador e o motorista de táxi, sem falar nas compras, também eram responsáveis pelo seu atraso, mas Zeliha decidira não trazer à baila nenhum deles. Podia ter violado a Regra de Ouro da Prudência para uma Mulher de Istambul, mas fazia questão de seguir a Regra de Bronze. A Regra de Bronze da Prudência para uma Mulher de Istambul: quando assediada na rua, é melhor esquecer o incidente assim que retomar o seu caminho. Remoê-lo o dia inteiro só arrasará ainda mais os seus nervos! Zeliha era suficientemente esperta para saber que mesmo se mencionasse o assédio agora, as outras, longe de a apoiarem, tenderiam a criticar a irmã assediada em casos como aquele. Portanto, manteve a resposta curta e a chuva continuou sendo a única culpada. A sua idade?, perguntou a recepcionista. Bem, aquela pergunta era irritante e totalmente desnecessária. Zeliha estreitou os olhos para a recepcionista como se esta fosse uma espécie de penumbra a que precisava se adaptar para ver melhor. De repente lembrou-se da triste verdade sobre si mesma: a sua idade. Como tantas mulheres acostumadas a agir além dos seus anos, perturbava-se com o facto de ser, afinal de contas, muito mais jovem do que gostaria. Dezanove anos, admitiu. Assim que as palavras deixaram a sua boca, Zeliha enrubesceu como se tivesse sido surpreendida nua na frente de toda aquela gente. Precisamos do consentimento do seu marido, é claro, continuou a recepcionista, agora sem a voz chilreante, e passou sem perder tempo a outra pergunta de cuja resposta já suspeitava. Posso saber se é casada? Com o canto do olho, Zeliha notou a loura rechonchuda à direita e a mulher de véu na cabeça à esquerda remexerem-se desconfortavelmente. Enquanto o olhar das pessoas na sala pesava com mais força sobre Zeliha, a sua careta evoluiu para um sorriso beatífico. Não que estivesse usufruindo do momento tortuoso, mas sua indiferença íntima acabara de sussurrar-lhe que não se importasse com a opinião dos outros, já que não faria nenhuma diferença no final das contas. Ultimamente decidira eliminar certas palavras de seu vocabulário, e agora que se lembrara daquela decisão, por que não começar pela palavra vergonha? Mesmo assim não teve a audácia de pronunciar alto o que todos na sala já haviam entendido. Não havia nenhum marido para consentir no aborto. Nenhum pai. Felizmente para Zeliha, o facto de não haver marido revelou-se uma vantagem nas formalidades. Aparentemente não precisava do apoio por escrito de ninguém. Os regulamentos burocráticos estavam menos interessados em auxiliar bebés nascidos fora do casamento do que os nascidos de casais casados. Um bebé sem pai em Istambul era apenas mais um bastardo, e um bastardo era apenas mais um dente mole na mandíbula da cidade pronto para cair a qualquer momento. Naturalidade?, continuou a recepcionista, aridamente. Istambul! Istambul? Zeliha encolheu os ombros como se dissesse: … de onde mais poderia ser? De que lugar a não ser dali? Pertencia àquela cidade! Não era visível em seu rosto? Afinal de contas, Zeliha considerava-se uma verdadeira filha de Istambul, e como se repreendesse a recepcionista por não ver um facto óbvio, virou-se de costas com o seu salto partido e foi-se sentar na cadeira junto à mulher de véu na cabeça. Foi somente então que notou o marido desta, sentado imóvel, quase paralisado de constrangimento. Em vez de julgar Zeliha, o homem parecia mergulhado no desconforto de ser o único varão ali, naquela zona manifestamente feminina. Por um segundo Zeliha teve pena dele. Pensou até em lhe pedir que fosse à sacada para fumar um cigarro com ela, pois tinha certeza de que ele fumava. Mas isso poderia ser interpretado erradamente. Uma mulher solteira não podia sugerir tal coisa a homens casados, e um homem casado seria hostil para com outra mulher tendo a esposa por perto. Por que era difícil ser amiga dos homens? Por que sempre tinha que ser assim? Por que não podiam simplesmente ir até à varanda, fumar um cigarro, trocar algumas palavras e depois cada um seguir o seu caminho? Zeliha permaneceu sentada silenciosamente por um longo momento, não porque estivesse morta de cansaço, o que estava, ou porque estivesse farta de toda a atenção, o que também estava, mas porque desejava estar junto da janela aberta; tinha fome dos sons da rua. A voz rouca de um vendedor ambulante vinda de fora infiltrou-se na sala: tangerinas..., tangerinas frescas e cheirosas... Óptimo, continue gritando, murmurou Zeliha para si mesma». In Elif Shafak, De Volta a Istambul, A Bastarda de Istambul, 2007, Editora Nova Fronteira, tradução de Myriam Campelo, ISBN 978-85-209-1996-5, Jacarandá Editora, 2015, ISBN 978-989-875-237-6.

Cortesia de EBF/JEditora/JDACT

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

De Volta a Istambul. A Bastarda de Istambul. Elif Shafak. «Pelo modo como se sentavam, Zeliha notou logo e deduziu cinicamente que a mais jovem era a menos preocupada de todas, folheando languidamente as fotos de uma revista feminina, preguiçosa demais para ler os artigos»

Cortesia de wikipedia

«Outrora havia; outrora não havia. As criaturas de Deus eram abundantes como grãos. E falar demais era um pecado...»

Canela
«(…) Mesmo assim Zeliha comprou um pouco de canela; não em pó, mas em pau. O vendedor ofereceu-lhe chá, um cigarro e uma conversa, e ela não recusou nenhum dos três. Enquanto sentava e conversava, os seus olhos examinaram displicentemente as prateleiras até se fixarem num jogo de copos para chá. Aquilo também estava na lista das coisas a que não conseguia resistir: copos de vidro com estrelas douradas, colheres finas e delicadas, pires frágeis com faixas douradas cingindo os ventres. Já devia haver pelo menos trinta jogos de copo para chá diferentes na sua casa, todos comprados por ela. Mas não faria mal comprar outro, pois quebravam-se com muita facilidade. São tão frágeis..., murmurou Zeliha. Era a única entre todas as mulheres Kazanci que se enfurecia quando os copos de chá quebravam. Enquanto isso Petite-Ma, nos seus 77 anos, abordava a questão de um modo totalmente diferente. Lá se vai outro mau-olhado!, exclamava ela cada vez que um copo de chá rachava ou se espatifava. Ouviu aquele som agourento? Craque! Ah, ecoou no meu coração! Foi o mau-olhado de alguém, invejoso e malicioso. Que Alá proteja todas nós! Sempre que um copo quebrava ou um espelho rachava, Petite-Ma suspirava de alívio. Já que não se podia eliminar completamente as pessoas más da superfície deste mundo louco, era muito melhor que o seu mau-olhado caísse sobre o vidro do que penetrasse as almas inocentes de Deus e estragasse as suas vidas. Vinte minutos depois, ao entrar correndo num escritório chique de um dos bairros mais abastados da cidade, Zeliha levava um salto quebrado numa das mãos e um novo jogo de copos de chá na outra. Uma vez lá dentro, lembrou desalentada que deixara o embrulho dos pauzinhos de canela no Grande Bazar.
Havia três mulheres na sala de espera, cada qual com um cabelo horrível e um homem quase sem cabelo nenhum. Pelo modo como se sentavam, Zeliha notou logo e deduziu cinicamente que a mais jovem era a menos preocupada de todas, folheando languidamente as fotos de uma revista feminina, preguiçosa demais para ler os artigos, tendo vindo provavelmente para renovar a receita de pílulas anticoncepcionais; a loura gorducha junto à janela, que parecia ter trinta e poucos anos e cujas raízes negras dos cabelos imploravam para ser pintadas, balançava nervosamente os pés, a sua mente aparentemente longe, provavelmente ali para um check-up de rotina e o exame de papanicolau. A terceira, de véu na cabeça e que viera com o marido, parecia a menos tranquila de todas; os cantos da boca puxados para baixo, as sobrancelhas unidas. Zeliha imaginou que ela tivesse problemas para engravidar. Bem, dependendo da perspectiva da pessoa, isso poderia ser perturbador. Ela pessoalmente não via a infertilidade como a pior coisa que pudesse acontecer a uma mulher. A senhora, por favor!, chilreou a recepcionista, forçando um sorriso tolo e falso, mas tão bem treinado que não parecia tolo ou falso. A sua consulta está marcada para as três horas? Como tinha dificuldade em pronunciar a letra r, a recepcionista parecia compensar isso com um grande esforço para acentuar o som e elevar a voz, oferecendo ainda um sorriso extra sempre que a sua língua tropeçava naquela letra agourenta. Para lhe poupar o fardo, Zeliha concordou constantaneamente com a cabeça, talvez de um modo vigoroso demais. E está aqui para que exactamente, senhora das três horas? Zeliha tentou ignorar o absurdo daquela pergunta. Agora já sabia muito bem que era exactamente essa animação feminina incondicional e abrangente que lhe fazia tanta falta na vida. Algumas mulheres são sorridentes devotadas; sorriem com um espartano senso de dever. Zeliha imaginava como era possível aprender a fazer com tanta naturalidade algo tão pouco natural. Mas pondo de lado a pergunta que ecoava em sua mente, ela respondeu-lhe: um aborto.
A palavra pairou no ar, e todos esperaram que finalmente caísse. Os olhos da recepcionista tornaram-se menores, depois maiores, enquanto o seu sorriso desaparecia. Zeliha não pôde evitar sentir o alívio. Afinal de contas, a animação feminina incondicional e abrangente provocava nela um espírito vingativo. Tenho uma consulta..., disse Zeliha, enfiando um anel de cabelo para trás da orelha e deixando o resto cair sobre seu rosto e ombros como uma burca espessa e negra. Ergueu o queixo, acentuando o seu nariz aquilino, e sentiu necessidade de repetir, num tom mais alto do que pretendia. Ou talvez não. Porque preciso fazer um aborto». In Elif Shafak, De Volta a Istambul, A Bastarda de Istambul, 2007, Editora Nova Fronteira, tradução de Myriam Campelo, ISBN 978-85-209-1996-5, Jacarandá Editora, 2015, ISBN 978-989-875-237-6. 
 

Cortesia de EBF/JEditora/JDACT

domingo, 8 de março de 2015

De Volta a Istambul. A Bastarda de Istambul. Elif Shafak. «Como era surpreendente essa habilidade de realizar tanto realizando tão pouco, ir para casa de mãos vazias e ainda assim satisfeito no final do dia! Neste mundo, a serenidade gerava sorte e a sorte gerava felicidade…»

Cortesia de wikipedia

«Outrora havia; outrora não havia. As criaturas de Deus eram abundantes como grãos. E falar demais era um pecado...»

Canela
«(…) Felizmente para Zeliha, o motorista de um Toyota atrás do táxi perdeu a paciência e buzinou. Como se despertasse de um pesadelo, Zeliha recuperou o sangue-frio e estremeceu ante a desagradável situação. Sua tendência à violência a assustara, como sempre acontecia. Imediatamente ficou quieta e enveredou em outra direcção, tentando abrir caminho em meio ao grupo de pessoas que se amontoaram.

Na pressa, porém, o salto alto de seu sapato prendeu-se numa pedra solta do chão. Furiosa, Zeliha puxou o pé da poça sob a pedra. Enquanto pé e sapato se soltavam, o salto partiu-se, lembrando-a assim de uma regra que, em primeiro lugar, jamais deveria ter posto de lado. A Regra de Prata da Prudência para uma Mulher de Istambul: Quando assediada na rua, não perca o sangue-frio. A mulher que o perde em face do assédio e reage excessivamente só piorará as coisas para si mesma! O motorista de táxi riu, a buzina do Toyota estrondeou novamente, a chuva ficou mais forte e diversos pedestres emitiram muxoxos em uníssono, embora fosse difícil saber o que exactamente estavam censurando. Em meio ao tumulto, Zeliha vislumbrou um adesivo publicitário cintilando na parte de trás do carro: Não me Chame de Desgraçado! Desgraçados Também Têm Coração. Enquanto permanecia ali, fixando vaziamente aquelas palavras, sentiu-se cansada além de seus limites, tão exausta e aborrecida que não parecia estar lidando com os problemas diários enfrentados por uma mulher de Istambul. Era mais uma espécie de código cifrado que uma mente à distância destinara especificamente a ela, e cujo código Zeliha, na sua mortalidade, jamais conseguira decifrar.
O táxi e o Toyota não demoraram a partir, e os pedestres seguiram seus diferentes caminhos, deixando Zeliha segurando o salto quebrado do sapato de modo tão terno e desalentado como se carregasse um pássaro morto.
Bem, no universo caótico de Zeliha poderia haver pássaros mortos, mas certamente nenhuma ternura ou desalento. Ela não aceitaria nenhum dos dois. Endireitou-se e, ainda que desajeitadamente,
esforçou-se ao máximo para andar com um salto só. Logo corria por entre uma multidão com guarda-chuvas, expondo suas estonteantes pernas, claudicando pelo caminho como uma nota desafinada. Zeliha era um fio cor de alfazema, um tom que combinava muito mal numa tapeçaria de marrons, cinzas, e mais marrons e cinzas. Embora a cor que vestia fosse destoante, a multidão era cavernosa o suficiente para engolir a desarmonia dela e fazê-la voltar à cadência. A multidão não era uma aglomeração de centenas de respirações, suores e corpos doloridos, e sim uma única respiração, suor e corpo dolorido sob a chuva. Chuva ou sol faziam pouca diferença. Caminhar em Istambul significava andar atrelado à multidão.
Quando Zeliha passou por dúzias de pescadores de aparência grosseira, instalados silenciosamente lado a lado ao longo da velha ponte Gaiata, cada qual segurando um guarda-chuva numa das mãos e um molinete na outra, ela os invejou por sua capacidade 
de imobilidade, essa capacidade de esperar horas por um peixe que não existia, ou, se existia, revelava-se tão pequeno que no final só podia ser usado como isca para outro peixe que nunca seria pescado. Como era surpreendente essa habilidade de realizar tanto realizando tão pouco, ir para casa de mãos vazias e ainda assim satisfeito no final do dia! Neste mundo, a serenidade gerava sorte e a sorte gerava felicidade, ou assim suspeitava Zeliha. Suspeitar era tudo que podia fazer nessa questão em especial, pois jamais sentira o gosto daquela serenidade e achava que jamais poderia senti-lo. Pelo menos não hoje. Hoje definitivamente não. Apesar da sua pressa, serpenteando através do Grande Bazar, Zeliha diminuiu o passo. Não tinha tempo para fazer compras mas mesmo assim entraria para dar uma olhada rápida, assegurou-se enquanto examinava as vitrines. Acendeu um cigarro e, com a fumaça espiralando-se ao sair de sua boca, sentiu-se melhor, quase relaxada.
Uma mulher que fumava na rua não era bem vista em Istambul, mas quem se importava? Zeliha deu de ombros. Já não declarara guerra contra toda a sociedade? Com isso, andou em direcção à parte mais antiga do bazar. Havia vendedores ambulantes ali que a conheciam pelo primeiro nome, especialmente os joalheiros. Zeliha tinha um fraco por acessórios brilhantes de todos os tipos. Grampos de cristal, broches com imitações de diamantes, brincos cintilantes, enfeites de pérola para lapela, echarpes com listras de zebra, mochilas de cetim, xales de chiffon, pompons de seda, e sapatos, sempre de saltos altos. Nunca se passava um dia em que, atravessando o bazar, não entrasse em várias lojas e refilando com os vendedores, pagando no final bem menos que a quantia proposta por coisas que nem sequer planeara comprar. Mas naquele dia vagara por algumas lojas e espiara algumas montras. Só isso. Demorando-se em frente a um quiosque cheio de jarras, panelas e vidros com ervas e temperos de vários tipos e cores, lembrou que uma de suas irmãs lhe pedira de manhã que comprasse canela, embora não conseguisse lembrar quem fora. Zeliha era a mais jovem de quatro moças que não concordavam em nada, mas tinham a idêntica convicção de que estavam sempre certas e sentiam que não tinham nada a aprender umas com as outras, apenas muito a ensinar. Era tão ruim quanto perder na lotaria por um único número: de qualquer modo que considerasse a situação, não podia deixar de se sentir submetida a uma injustiça que estava além do castigo». In Elif Shafak, De Volta a Istambul, A Bastarda de Istambul, 2007, Editora Nova Fronteira, tradução de Myriam Campelo, ISBN 978-85-209-1996-5, Jacarandá Editora, 2015, ISBN 978-989-875-237-6.


Cortesia de EBF/JEditora/JDACT