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segunda-feira, 31 de outubro de 2022

No 31. Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Andalus. António Borges Coelho. «Os grupos berberes que entraram em Espanha na época da conquista eram originários do norte de Marrocos e da Argélia ocidental e central…»

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A Civilização Islâmica e o Gharb al-Ândalus

A Formação da Sociedade de al-Andaluz

«(…) Tenho tribo mais numerosa que a tua. Esta é a tua glória e a glória da tua tribo, exclamava Abu al-Katar al-Sumail, chefe dos cáicidas, enquanto degolava cálbidas na igreja onde se iria edificar a mesquita maior. Artobás e os seus filhos mantiveram-se como cristãos mas tiveram que repartir largamente as suas terras. Ao contrário, sua sobrinha Sara a Goda constitui o exemplo da introdução das mulheres peninsulares na família agnatícia e poligâmica dos conquistadores. Os grupos tribais ou clânicos árabe-berberes, agnatícios e endogâmicos, mantiveram-se pelo menos até aos começos da época califal enquanto as grandes famílias peninsulares se esbatiam entre os séculos VIII e IX. A assimilação dos hispanos à cultura árabe-berbere não ocorre apenas no campo religioso e linguístico mas também no campo social e político.

Os grupos berberes que entraram em Espanha na época da conquista eram originários do norte de Marrocos e da Argélia ocidental e central mas alguns contingentes provinham das grandes tribos nómadas de origem tripolitana como os Nafza e os Hawwara. Os escritores muçulmanos do século IX consideravam estas tribos tunisinas, na sua estrutura social, antiga e profundamente arabizadas. Mas nesta sociedade islâmica, aberta ao comércio mas dominada pelo poder tribal, grassava a contradição cidade/tribo ou usando as palavras do poeta santareno Ibn Sara lavrava a antipatia entre os beduínos e os habitantes das cidades. Nesta contradição, as cidades levavam a melhor destribalizando a tal ponto a sociedade que, numa carta ao califa Yusuf ibn Tasfin, Almutamide escreveu: as nossas genealogias alteraram-se…, forma-mos povos e não tribos. As invasões almorávidas e almóadas trouxeram novo alento aos clãs em território peninsular. Mas enquanto no Magrebe, viviam no deserto ou nas montanhas mesmo à porta de casa, para chegarem ao Andaluz, as tribos tinham de atravessar o mar.

A partir do século X, quando Abederramão III estendeu o seu domínio ao norte de Marrocos, incrementou-se a ligação entre o Andaluz e o Magrebe. Nos séculos XI e XII, as dinastias africanas dos almorávidas e dos almóadas firmaram as ligações entre as duas margens. Médicos, literatos, filósofos andaluzes caminham para a corte dos califas em Marraquexe. Nos arredores, em Agmat, morreu cativo o rei poeta Almutamide e mais tarde a tríade dos grandes filósofos do Andaluz, Avempace, Ibn Tufayl e Averróis. Mas este último, na sua Exposição da República de Platão lembra que nos diferentes povos há indivíduos mais aptos para o saber do que outros. E os povos com mais provas dadas eram os gregos e, nos países islâmicos, primeiramente o Andaluz, e também a Síria, o Iraque e o Egipto, esquecendo-se de sugerir o Magrebe. As ligações entre as duas margens levavam também a situações que se expressam no poema do eborense Isa ibn al-Wakil:

Um exilado na terra do Magrebe

Tem o coração dividido

Entre duas afeições:

Salé tomou uma parte

Évora a outra.

Vejamos um pouco mais de perto o ritmo de islamização no Andaluz. O episódio já citado da luta entre cáicidas e cálbidas, o surto dos muladis que desde a primeira hora se integraram como clientes nos poderes tribais e a revolta do arrabalde de Córdova sugerem que a religião dos vencedores ganhara adeptos, desde os primeiros anos, não só em Córdova como nos habitantes das outras cidades. Ibn Mozain afirma que, no ocidente, com excepção de Santarém e Coimbra, as terras foram conquistadas à viva força e distribuídas entre os soldados, depois de deduzido o quinto para o tesouro pio. No sul de Portugal, logo no primeiro meio século, começa a processar-se a arabização e islamização do território, levada a cabo pelos árabes iemenitas Yahsubi que, sob a direcção do chefe de clã Abu l-Sabbah al-Yahsubi, se estabeleceram em Beja e no Algarve». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Andalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

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domingo, 30 de outubro de 2022

Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Andalus. António Borges Coelho. «Nos primeiros anos, durante as guerras tribais, o chefe dos sírios Abu al-Katar al-Sumail pediu auxílio à gente do mercado de Córdova…»

 

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A Civilização Islâmica e o Gharb al-Ândalus

A Formação da Sociedade de al-Andaluz

«(…)  Os bárbaros que invadiram a Península no século V não seriam mais numerosos. Por outro lado, os afluxos berberes e também árabes continuaram ao longo dos quinhentos anos. A vinda de gente do Oriente é sensível no tempo dos emires, em particular de Abderramão I e II. As emigrações e colonizações berberes forneceram mercenários a Abderramão I e às tropas de Almançor Abu Amir e incorporaram com milhares de membros as invasões e colonizações berberes no tempo das dinastias almorávida e almóada.

Segundo o Código Visigótico, quase todos os caminhos levavam à servidão: o nascimento, o casamento com serva, o cativeiro, o consentimento voluntário, o abuso da força, as sanções penais por rapto, adultério, estupro, insolubilidade, abandono da mulher casando com outra, consultas de adivinhos, falsificação de moeda, etc. Por outro lado, a feroz perseguição movida pelo poder eclesial-militar visigótico aos judeus, há muito instalados como mercadores em todo o Mediterrâneo, forneceria, logo na primeira hora, aliados preciosos aos conquistadores que lhes entregaram a guarda de algumas cidades.

As decadentes cidades hispano-romano-godas opuseram fraca resistência. E após a conquista e durante as guerras tribais e as guerras entre baladis e os sírios de Baly, não se sublevaram devido não só à fraqueza dos poderes derrotados como à conversão de comerciantes, alguns senhores e principalmente servos citadinos à nova religião que lhes proporcionava a liberdade pessoal. E assim os muladis ou cristãos muçulmanizados e clientes dos notáveis das tribos invasoras são visíveis desde os primeiros momentos. Nos primeiros anos, durante as guerras tribais, o chefe dos sírios Abu al-Katar al-Sumail pediu auxílio à gente do mercado de Córdova, facto que parece sugerir não só a liberdade pessoal destes como a muçulmanização de boa parte da população cordovesa. Aliás, os muladis ou cristãos muçulmanizados são visíveis desde as primeiras horas. E no levantamento do arrabalde de Córdova contra al-Hakam I em 817, a gente do arrabalde é então mais ortodoxa que o próprio emir a quem doestam com os gritos: Vem, rezar borracho.

Em contrapartida, os novos senhores não se mostraram muito interessados na libertação dos camponeses que, como quinteiros, ficaram adscritos ao quinto, isto é, ao quinto das terras conquistadas à viva força e destinado ao Tesouro dos muçulmanos. Os invasores combatiam ligados pelos laços da tribo e do clã, ciosos do seu sistema familiar endogâmico e patrilinear. Como mostrou Pierre Guichard, este sistema social de tipo tribal e clânico, característico dos povos árabes e berberes, condicionou a evolução posterior da sociedade andaluza e do poder político e militar aí instalado. Em primeiro lugar, não permitiu a absorpção do novo aparelho religioso-político-militar pelo corpo dos poderes vencidos. Pelo contrário, os peninsulares só acedem ao novo poder integrando-se nele como clientes das tribos e dos clãs». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Andalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

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sexta-feira, 20 de maio de 2022

Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «A conquista significou, pois, um corte. O poder estabelecido foi derrubado e em parte destruído, milhares de prisioneiros foram arrastados até ao Oriente e uma parte substancial da terra mudou de mãos»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Civilização Islâmica e o Gharb al-Ândalus

«(…) No século XI, Ibn Hazm escreve a Epístola sobre a excelência de Al-Andalus. Nesse escrito passa em revista a história literária do Islão peninsular e conclui afirmando a sua superioridade cultural sobre a Pérsia, o Iémen, a Síria e outros países orientais. Na primeira metade do século XII, o santareno Ibn Bassam na sua Daquira ou Tesouro exalta a superioridade dos poetas e literatos de Hespanha sobre os poetas do Oriente. Por sua vez, Al-Saqundi, já durante o domínio almóada, escreve o Elogio do Islão Espanhol onde reivindica, pela excelência das suas cidades e sábios, a superioridade do Andaluz sobre os povos berberes. Há que dar algum desconto ao elogio em boca própria. Com o triunfo da Reconquista, o Andaluz surge depois aos olhos dos exilados como o paraíso perdido. Ibn Said fala nas cidades, nos campos cultivados, nas casas, entre as árvores verdes, continuamente caiadas de branco, por dentro e por fora. No decurso das minhas viagens, não vi país que se possa comparar ao Andaluz quer na beleza, fertilidade, abundância de água, quer na exuberância da vegetação, com excepção dos arredores de Fez ou de Damasco, na Síria. E prossegue: O Andaluz tem sido comparado por muitos autores ao paraíso terreal. Portugal nasce como entidade política quando no Islão peninsular as ciências medievais e a filosofia atingiam um brilho assinalável. Muitos quadros fugiram mas as cidades e os campos com boa parte da sua população ficaram. A sua história, antes e depois, é também a nossa história.

Orgulhamo-nos quando da terra salta um esqueleto de criança datável de 27 a 30 000 anos e integramo-lo no nosso património. O mesmo deve acontecer com os homens e mulheres que habitaram e adubaram com os corpos o nosso solo, muçulmanos, cristãos e judeus, e que enriqueceram o nosso património e o da Humanidade.

A Formação da Sociedade de al-Ândaluz

A construção da civilização islâmica na península conheceu um percurso lento e contraditório. Como em todas as conquistas, vencedor e vencidos influenciaram-se mutuamente. Por outro lado, não podemos perder de vista que o espaço dos ibéricos e dos invasores fora profundamente marcado pela matriz das civilizações mediterrânicas. Segundo Ibn Mozain de Silves, que viveu no século XI, em texto conservado por historiadores posteriores, conquistada a Espanha, Musa ibn Nusayr dividiu o território entre os militares que vieram à conquista, isto é, entre as tribos que nela participaram tal como distribuira os cativos e os bens móveis. Das terras conquistadas deduziu o quinto para o Tesouro Público e dos cativos escolheu cem mil dos melhores e mais jovens para os enviar ao califa al-Wualid Abd al-Malik. Nas terras do norte deixou os cristãos com a sua religião e os seus usos mediante o pagamento de um tributo. A conquista significou, pois, um corte. O poder estabelecido foi derrubado e em parte destruído, milhares de prisioneiros foram arrastados até ao Oriente e uma parte substancial da terra mudou de mãos. Mesmo os filhos do rei godo Vitiza, que, segundo parece, se bandearam pelos invasores, tiveram de partilhar as terras. Alguns autores menosprezaram o número dos recém-chegados. No entanto, os relatos muçulmanos falam em 30 mil árabes e principalmente berberes. A estes há que juntar os 400 árabes de Ifriqiya que acompanharam al-Hurr ibn Abd al-Rahman, os árabes do governador al-Samh ibn Malik al-Khawlani, os 7 000 sírios das tropas de Baly e os militares da hoste do governador Abu l-Khatar al-Husam ibn Dirar al-Kalbi». In António Borges Coelho, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

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sábado, 23 de janeiro de 2021

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «Esta diferença é necessária enquanto existam dois tipos humanos diferenciados: o comum dos homens e os sábios»

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Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente

«(…) No primeiro livro, de finalidade teológica, segue os cépticos gregos acerca da impossibilidade da verdade absoluta. Segundo ele, as opiniões reflectem o modo de ser dos homens nas suas diferenças físicas, raciais, éticas e ideológicas. Mas estas desigualdades aumentam devido a oito causas:

1ª o uso de termos equívocos;

2ª a interpretação literal ou metafórica;

3ª o múltiplo conteúdo semântico dos termos por causa do sentido geral;

4ª tomar o do particular e vice-versa;

5ª o excessivo uso do argumento de autoridade;

6ª a utilização abusiva dos argumentos analógicos;

7ª o esquecimento de textos que invalidam outros anteriores;

8ª as naturais diferenças em matérias opináveis.

No Livro das Questões defende a possibilidade da concordância da razão e da fé pois a filosofia e a religião coincidem no seu objecto, que é a verdade, e no seu fim, que é a felicidade humana. Só se separam quanto ao método, discursivo racional na primeira e convencimento na segunda. Esta diferença é necessária enquanto existam dois tipos humanos diferenciados: o comum dos homens e os sábios.

No Livro dos Círculos propõe-se discutir sete teses dos filósofos:

lª a ordem em que os seres procedem da Causa Primeira parece-se a um círculo ideal e o lugar de retorno do círculo reside na forma do homem;

2ª a essência do homem atinge, depois da morte, o termo a que chegou a sua ciência durante a vida e essa ciência parece-se também com um círculo ideal;

3ª na potência do entendimento particular está o informar-se com a forma do entendimento universal;

4ª o número é um círculo ideal, por exemplo, o círculo das unidades, o das dezenas, o das centenas e o dos milhares;

5ª os atributos do Criador não podem predicar-se dele a não ser por via da negação;

6ª o Criador não conhece outra coisa senão a si mesmo;

7ª qual a prova apodítica da sobrevivência da alma racional depois da morte.

O texto toma as suas cautelas: espero em Deus que me preservará do erro e diz que fala como mero informador dos propósitos e intenções dos filósofos, embora se sirva de termos aproximados, diferentes dos que eles usam. Os seres emanam da Causa Primeira, Primeiro Agente ou Causa das Causas, usando a linguagem dos filósofos. O exemplo mais aproximado para explicar essa emanação ou como do Criador procede o ser dos entes é o modo como procede do 1 o ser dos números ainda que não seja lícito comparar o Criador, exaltado seja!, com coisa alguma bem como os seus atributos e operações…» In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

 

JDACT, Algarve, António Borges Coelho, Conhecimentos, História, Filosofia, Ciências, Isaura Borges Coelho, MLCT, 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

No 31. Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «Quantas coisas digo que não faço quantas voltas sem me decidir a pôr meu pé em terra»

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Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
«(…) Um dia, Ibn al-Arabi entrou em sua casa perturbado com o espectáculo das gentes, empenhadas em contradizer a lei de Deus. Al-Uryani disse-lhe: preocupa-te com Deus. Al-Arabi seguiu depois para casa de outro mestre, Abu Imran de Mértola que lhe disse: preocupa-te contigo mesmo! Perplexo, Al-Arabi respondeu: Al-Uryani quer que eu me preocupe com Deus e tu dizes para me preocupar comigo mesmo. O Mertolense replicou: o que disse Al-Uryani é a verdade. O que sucede é que cada um de nós te indica o que o seu próprio estado místico exige. Al-Arabi voltou a casa do Louletano e contou-lhe o sucedido. Abu Imran disse bem porque ele te indicou o caminho da perfeição enquanto que eu te indiquei qual é o companheiro da viagem.
Al-Mertuli, Abu Ymran Musa. Poeta e sufi. Antes da batalha de Alarcos, o califa almóada Yacub visitou-o em sua casa. Mais tarde enviou-lhe um mensageiro com uma certa quantia: o teu senhor tem mais necessidade desse dinheiro do que eu. Toma cem dinares de proveniência lícita. Diz-lhe que, para a sua manutenção pessoal, gaste só deste dinheiro e obterá a vitória. É dele o poema:

Quantas coisas digo que não faço
Quantas voltas sem me decidir a pôr meu pé
em terra.
Critico os meus olhos e não se convencem
aconselho minha alma não aceita
os meus conselhos.
Ai quantas coisas se desculpam dizem
talvez mais tarde. Quantas se demoram.

Outros sufis de nomeada, no século XII, foram Abu Abd Allah b. al-As al-Bayy, alfaqui de Beja, e Abu Abd Allah b. Zayd al Yeburi, de Évora. Este último explicou o Corão e ensinou gramática na mesquita al-Udays de Sevilha. Uma noite, lia uma obra em que se refutava al-Gazalli e cegou de repente. De joelhos, jurou que não voltaria a ler o contestário de al-Gazalli. Então Deus devolveu-lhe a vista. Ibn al-Sid (Silves 1052-Valencia 1127). Ficou conhecido como o de Badajoz mas al-Makkari dá-o como natural de Silves. Amigo de Umar al-Mutawakkil, senhor de Évora e depois último rei berbere de Badajoz. Viveu em Albarracin, Toledo, Saragoça e Valência. Polemizou com Ibn Bayya.
Matemático e poeta, escreveu livros de temas filológicos, de crítica literária, de gramática. De Aristóteles conhece a Lógica, a Metafísica e também o Timeu de Platão. Introduz Al-Farabí no Andaluz. Fala em Tales e Zenão.
Obras principais:

Livro do Aviso Equânime acerca das Causas
que engendram as Discrepâncias de Opinião no Islão (Kitab alinsaf…),
o Livro das Questões (Kitab al-Masail) e principalmente o Livro dos Círculos (Kitab al hadaiq).

In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «Al-Uryani, Abu Yafar (século XII). Camponês, natural de Loulé, não sabia ler nem escrever mas foi o primeiro…»

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Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
«(…) Abu Mohammad Ibn Sara Assantarini (o santareno) (+1123) comparava os relâmpagos a um abissínio que ri com as suas lágrimas. Cantou o papeleiro, a laranjeira, a beringela, o tanque com tartarugas que lembravam soldados cristãos com os seus escudos de alce. Cantou a estrela cadente, cavaleiro a quem, na rapidez do galope, se lhe desatasse o turbante/ e o arrastasse atrás de si como um véu que flutua.
Uma ética hedonista e céptica transparece nalguns versos, por exemplo no Poema da Serra Nevada:

Quando sobre a vossa terra sopra o vento norte
que felicidade para um pobre pecador
gozar as fornalhas do inferno…

Se um dia entrar nos tormentos do inferno
será num dia tão rigoroso
em que até o inferno há-de ser bom.

Ou no claro poema:

Quando me visitou senti desejo de beijá-lo
e duas vezes o beijei em cada face.

Disse depois: por favor, deixa que beije
a tua boca
prefiro as brancas margaridas às rosas vermelhas.

Noutro poema tomou o amor udri como companheiro e afirmava que a castidade é virtude/ quando aquele que a observa/ tem a plenitude física. E apontava como guia da acção o binómio facto-consequência. O sul de Portugal foi terra de sufis, os místicos muçulmanos. Ibn Kasi, Abu 1-Kasim Ahmad b. Husayn (+1152). De origem moçárabe nasceu no termo de Silves. Durante a mocidade só pensou nos prazeres do mundo. Depois abraçou a vida ascética. Deu em esmola os seus bens e percorreu o Andaluz a pregar o desprezo pelos bens deste mundo. Em Almeria conheceu o sufi Ibn Al-Arif (+Marraquexe 1141) quando este embarcava para Marrocos.
Regressado à aldeia natal dedicou-se à leitura dos livros de Al-Gazallí espalhando as suas doutrinas. Em breve tomou o título de mahdi (o imã encoberto). Perseguido, conseguiu escapar mas alguns dos seus seguidores foram presos pelos almorávidas em Sevilha. Em 539, os seus seguidores, os muridun (os adeptos, aspirantes à vida mística) assenhorearam-se da praça forte de Mértola. Évora, Silves, Beja, Huelva e Niebla apoiaram o mahdi. Mais tarde, Ibn Wazir, senhor de Évora e Beja e a seguir de Badajoz e a quem os lisboetas cercados pediram auxílio em 1147, subleva-se contra Ibn Kasi que se dirige a África a incitar o desembarque dos almóadas. Regressa com o exército africano e torna-se governador de Silves.
Pouco depois quer sacudir o domínio dos almóadas e pede auxílio a Afonso Henriques que lhe manda um cavalo, um escudo e uma lança. Descontentes, os habitantes de Silves usam um ardil para entrar no Alcácer das Varandas. Entrados, cortam a cabeça do sufi e exibem-na na ponta de uma lança: eis aqui o mahdi dos cristãos!
Escreveu o livro Os dois Sapatos Descalços de que existe um manuscrito na biblioteca de Constantinopla. Segundo os seus detractores, afirmava que fizera a peregrinação a Meca durante uma noite; transmitia mentalmente o pensamento; gastava dinheiro do tesouro de Deus, só que este dinheiro levava o cunho dos almorávidas.
Al-Uryani, Abu Yafar (século XII). Camponês, natural de Loulé, não sabia ler nem escrever mas foi o primeiro e um dos mais importantes mestres de Ibn Al-Arabi em Sevilha. Quando falava da ciência da unificação, não havia outra coisa a fazer senão ouvir. Com a sua só intenção fixava as ideias como se as consignara por escrito e com a sua palavra punha a descoberto a realidade positiva dos seres. Dedicava o tempo à oração mental, previamente purificado pela ablução ritual e voltado para Meca». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «Acaso te deixarás conduzir pela tristeza até à morte quando o alaúde e o vinho fresco estão aí à tua espera?»

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Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
«(…) Um outro texto, Al-Mann Bil-Imama do bejense Ibn Sahib Al-Sala aborda a história dos almóadas e de algum modo um pouco da história política no actual Alentejo e Algarve. Escreveu também o Kitab al-Muridin (Livro dos Adeptos), hoje perdido e que seria indispensável para o estudo do movimento dos muridines no sul do nosso território e no ocidente peninsular.
Os poetas perdem-se como abelhas ao redor do favo do poder. Mas alguns erguem-se a grande altura. Cantam os saraus nocturnos, o vinho, o amor, os jardins, a água, a paisagem humanizada. Aqui e ali ensaiam a especulação filosófica. No século XI sopra uma brisa de audácia e de liberdade com toda a ambiguidade que esta palavra carrega. Almutamide (+1095), natural de Beja, governador de Silves e rei de Sevilha entre 1069 e 1091, rodeou-se de literatos, historiadores, poetas como o seu amigo Ibn Amar, a sua mulher Itimad Romaiquia (ex-escrava de Romaiq) e seu filho Arradi ibn al-Mutamid, governador de Mértola.
A vida do rei poeta originou toda uma epopeia. Na batalha de Zalaca foi ferido seis vezes e não arredou pé até à vitória. Pouco depois, os seus aliados almorávidas, com o favor dos alfaquis de Sevilha, conquistaram a cidade e degolaram-lhe dois filhos à sua vista. A nora Zaida tornou-se concubina de Afonso VI de Leão e de Castela enquanto o filho Arradi era morto à traição pelos almorávidas em Mértola. Almutamide morre cativo em Agmat, no Atlas sobranceiro a Marraquexe. A caminho do desterro escreveu o poema:

Saíram para pedir a chuva e disse-lhes:
Pudessem
as minhas lágrimas substituir a chuva
que reclamais.
Responderam-me: é verdade, nas tuas lágrimas
encontraríamos
o bastante. Mas de que nos serviriam elas
se estão misturadas com sangue?

Noutro dos seus poemas, propõe uma ética dos prazeres, que certamente haveria de chocar os alfaquis, ao mesmo tempo que esclarecia a sua ideia do sábio:

Acaso te deixarás conduzir pela tristeza
até à morte
quando o alaúde e o vinho fresco
estão aí à tua espera?
Que as preocupações não se tornem
senhoras de ti
enquanto a taça for uma espada cintilante
na tua mão.
Conduzir-se como sage é deixar-se assaltar
pelas preocupações até ao mais fundo
de si mesmo:
Ser sage para mim é não ser sage.

Ibn Mucana Alisbuni Alcabdaq (o lisboeta, o de Alcabideche) (+pouco depois de 1068) cantou os bois de lavra, os javalis que assolavam as hortas, as abóboras, as cebolas, os moinhos de vento». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. « Na lápide funerária de Afonso Peres Farinha proclama-se: viveu durante vinte anos nas margens do Guadiana, nas vilas conquistadas de Moura e Serpa…»

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Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
«(…) Teremos de esperar pela época dos Descobrimentos e Conquistas para que o Oriente penetre de novo e intensamente na nossa cultura. Mas, nesse mesmo tempo, os expoentes de referência do conhecimento científico, continuarão a ser o médico al-Razí, o médico hispânico Avenzoar, o uzbeque Avicena e o cordovês Averróis, como poderemos verificar, por exemplo, no Colóquio dos Simples e das Drogas de Garcia da Orta. A Reconquista não suprimiu as marcas da civilização islâmica que perduraram na língua e em muitas técnicas agrícolas e artesanais até ao século XX. Os cristãos medievais herdaram a estrutura das cidades islâmicas, usaram os seus alarifes e alvanéis, os meus mouros de Afonso Henriques, na construção de catedrais e fortalezas. Um deles deixou escrito no transepto da sé de Coimbra: escrevo isto como recordação permanente do meu sofrimento. A minha mão perecerá um dia mas a grandeza ficará. O hospitalário Afonso Peres Farinha, cavaleiro de uma lança e futuro prior da ordem do Hospital em Portugal, exemplifica a recepção contraditória dessa influência que teve o seu ponto alto, no ponto de vista da cultura literária, no trabalho dos tradutores muçulmanos e cristãos das cortes de Afonso X o Sábio e do seu neto o nosso rei Dinis. Na lápide funerária de Afonso Peres Farinha proclama-se: viveu durante vinte anos nas margens do Guadiana, nas vilas conquistadas de Moura e Serpa, fazendo muita guerra e muito mal aos mouros e tomando-lhes Arouche e Aracena.
Atravessou três vezes o mar e lá viveu longo tempo. Residiu em muitos locais estrangeiros. Viu muitas e grandes coisas e muitos homens bons daquele tempo, tanto cristãos como mouros. Os muitos vêm carregados de espanto. No campo das ciências e da cultura, não faltaram, em território português, gramáticos de língua árabe, jurisconsultos, sufis, escreventes de história, de crítica literária e principalmente poetas. Abu al-Hayaye al-Halam de Santarém escreveu um comentário sobre a obra do poeta oriental Mutanabi. Por sua vez, Ibn Abdun Silves analisou o longo poema sobre o fim trágico dos abádidas e aftácidas, escrito pelo poeta eborense Ibn Abdun.
Entre os jurisconsultos, destaque para o bejense Abu al-Walid al-Baji (1012-1081) que peregrinou pelo Oriente e polemizou com Ibn Hazm. A história e a biografia contaram com vultos de importância capital. O primeiro foi Ibn Mozain, da família dos reis que dominaram a cidade de Silves nos princípios do século XI. Só nos chegaram fragmentos conservados por outros historiadores mas a ele devemos notícias preciosas sobre a distribuição das terras quando os muçulmanos se apossaram de Hespanha. Ibn al-Imam al-Shilbi (+c. 1156) escreveu as biografias de muitos dos seus contemporâneos na obra Simt aldjuman, infelizmente perdida. No entanto, restaram trinta e cinco passagens conservadas por Ibn Said no Mugrib, passagens que constituem um quarto deste livro.
Para a história e a história da cultura do Islão Ocidental a Dakira (Tesouro) do santareno Ibn Bassam, de seu nome Abu al-Hassam ibn Bassam al-Santarini (+c.1147) é fundamental. A obra reúne, em quatro volumes, uma antologia dos poetas peninsulares, recheada de preciosas notícias de natureza social e político-militar». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de I.Camões/JDACT

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «O Gharb al-Ândalus não constituiu uma unidade acabada e homogénea no todo da civilização islâmica peninsular…»

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Filósofos Orientais
«(…) Esta, uma das razões da pobreza das nossas comunidades onde as mulheres chegam a duplicar em número os homens sem contribuírem para as actividades necessárias. Ibn al-Arabi, Abu Abd Allah Muhammad b. Ali b. Muhammad b. Al-Arabi al-Hatimi Al-Tai (Murcia 1165-Damasco 1240). Um dos mais destacados representantes dos sufis. Estudou em Sevilha e foram seus mestres alguns sufis do Gharb al-Ândalus como Al-Oriani de Loulé e Abu Imran al-Mertuli, o de Mértola. A fim de aprofundar a sua experiência mística viajou para Túnis e daí para Meca, Bagdad, Konia na Anatólia até se fixar em Damasco onde decorreu o resto dos seus dias.
Atribuem-lhe cerca de 300 obras poéticas e religiosas, na principal das quais, As Iluminações da Meca (al-Futuhat al-Makkiyya), dedica 560 capítulos ao estudo das manifestações do conhecimento místico. Noutra obra, As Conexões da Sabedoria (Fusus al-Hikam), considera que, de Adão a Maomé, os profetas reflectem a revelação divina e que as suas mensagens assumem diferente significado consoante a pessoa que a recebe. Mas, no essencial, considera a razão humana extremamente limitada. No livro Epístola de Santidade, enviada em 1203 de Meca a um seu amigo de Tunes, fala dos vícios do sufismo oriental e principalmente do ensino e da influência que recebeu de cerca de cinquenta mestres e companheiros do Andaluz, entre eles alguns sufis nascidos em território português.

Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente
O Gharb al-Ândalus não constituiu uma unidade acabada e homogénea no todo da civilização islâmica peninsular, no entanto nele se radicaram as bases e as guarnições militares da chamada Fronteira Inferior; nele se definiram espaços de rebelião contra o poder central dos emires; nele se desenharam os reinos de Badajoz e de Sevilha e se definiram algumas cidades-estado. Sevilha integrava-se no Gharb al-Ândalus. No século XI foi a capital do reino dos abádidas, que se estendeu de Córdova ao Algarve e ao sul do Alentejo. Durante o domínio almorávida e almóada tornou-se a capital do Andaluz. Se tivermos em conta o papel cultural de Sevilha e a sua inserção geográfica e política, podemos ligar ao Gharb al-Ândalus uma parte substancial dos pensadores islâmicos peninsulares. Mas não vamos partir o território do Andaluz a régua e esquadro. A história que nunca definiu completamente o Gharb, acabou mais tarde por desintegrar o ocidente do ocidente. Assim, neste último ponto, consideraremos somente os literatos e pensadores originários do actual território português. Como dissemos, Silves, Santarém, Beja, Faro, Évora, Lisboa podem orgulhar-se dos seus homens de cultura, das suas escolas e de ousarem brilhar durante algum tempo como estrelas secundárias integradas no todo peninsular. Por outro lado, este Islão hispânico pulsava em sintonia, certamente desigual, com todo o mundo islâmico, em particular com os grandes centros orientais. O sunismo medinense chegou bastante cedo a Córdova. Mas a filosofia, olhada com desconfiança ou perseguida por alfaquis e ulemas, pulsava com atraso. Segundo Miguel Cruz Hernández, a primeira citação fiável de Al-Kindí (século IX) cabe a Ibn Hazm (século X) e a de Al-Farabí (primeira metade do século X) a Ibn al-Sid (segunda metade do século XI e princípios do século XII), precisamente dois filósofos originários do Gharb al-Ândalus». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de ICamões/JDACT

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «Os sábios verificam a concordância da Lei e da Razão, da religião e da filosofia, mas o homem vulgar beneficia deste acordo…»

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Filósofos Orientais
«(…) Na Doutrina decisiva acerca da Concorância da Revelação e da Sabedoria (Fasl al-makal…), Averróis exalta a legitimidade da especulação racional. A Lei Corânica obriga o crente a especular racionalmente sobre os seres. A fé perfeita integra o saber racional. A obrigação da especulação racional estende-se ao exame das obras dos antigos. Proibir tal exame é contrariar a Lei desde que se tenha um sentido agudo da verdade acompanhado de virtude ética. Mas nem todos os homens são sensíveis à prova demostrativa: alguns só dão o seu assentimento aos discursos dialécticos, outros aos discursos retóricos mas Deus dirige-se aos homens por estas três espécies de discursos. Se a procura racional leva a verdades de que o Corão não fala, não há que recear, é como no direito quando se infere por um silogismo jurídico que não vem textualmente na Lei revelada. Quanto às excomunhões lançadas contra os filósofos, estas não devem ser tomadas como decisivas e sem apelo. Al-Gazallí não tem razão na sua condenação dos filósofos.
Os sábios verificam a concordância da Lei e da Razão, da religião e da filosofia, mas o homem vulgar beneficia deste acordo sem o conhecer. Convém, pois, que os sábios não vulgarizem o seu saber, pois de outro modo contribuirão para o surgimento das seitas. E esse foi o erro dos mutazilitas. Na Destruição da Destruição dos filósofos de Al-Gazallí (Tahafut al-Tahafut al- falasifa li-l-Gazallí), Averróis critica o neoplatonismo de Avicena, combate a condenação acerba lançada por Al-Gazallí contra os filósofos e passa em revista os grandes problemas da filosofia. O mundo é uma criação eterna. Não pode existir um tempo vazio que precederia num dos seus momentos a aparição do mundo. Este não emana de Deus, não é a sombra de Deus.
O ser é o que é, segundo a anterioridade e a posteridade das dez categorias. Neste sentido, dizemos que a substância existe por si mesma, e o acidente que existe no que existe por si. Quanto ao ser, no sentido do verdadeiro, é uma ideia no pensamento e consiste em uma coisa no exterior da alma ser conforme ao que ela é na alma. Não se pode separar a essência e a existência; a distinção apenas se faz pelo pensamento. Esse o erro de Avicena. Contra a teoria dos Sufis, o Deus de Averróis não é objecto de um conhecimento místico. Está presente no mundo físico e é a chave da abóboda do universo, como escreve na Doutrina decisiva acerca da Concordância da Revelação e da Sabedoria (Fasl al-Maqal…). Mas nem por isso é menos transcendente e a inteligência não pode atingi-lo em si mesmo mas simplesmente como criador, como primeiro motor. Como o conhecimento da alma é obscuro, é justo remeter-nos à revelação. Quanto à ressurreição dos corpos, ela é indemonstrável. Se a alma é imortal, não viverá somente de contemplação, terá necessidade das virtudes morais que implicam a presença do corpo.
Na Exposição da República de Platão, Averróis segue muito de perto o texto platónico iluminando-o com a Ética Nicomaqueia e com Al-Farabí. A interpretação rigorosa serve-lhe, a pretexto da sociedade ideal, para uma crítica, por vezes dura, à sociedade real. Se meditarmos nas leis religiosas, verificamos que o seu conhecimento se divide em conhecimento abstracto e em acções práticas como as qualidades éticas que a Lei aconselha a observar. Assim, a intenção da religião é idêntica ao fim da filosofia, tanto no modo como na sua finalidade. Também só podemos compreender o fim último do homem através das ciências teóricas. Ora o grupo dos cidadãos, em que a sabedoria se manifesta, é a mais pequena das suas classes, a dos filósofos. E isto porque estão menos envolvidos nas artes práticas. E é evidente que o governo da sociedade deve ser confiado a quem detenha a sabedoria. Quanto ao papel das mulheres na sociedade, Averróis considera que elas devem realizar os mesmos trabalhos que os homens, tendo, no entanto, em conta que são mais débeis. Não é impossível que, mediante uma educação esmerada, possam ser filósofas e governantes. Apesar disso, nas sociedades islâmicas desconhecem-se as habilidades das mulheres que são usadas só para a procriação e destinadas ao serviço dos maridos e à educação das crianças. Como não preparam as mulheres para nenhuma das virtudes humanas, a não ser fiar e tecer quando necessitam de fundos, sucede que representam uma carga para os homens». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de I.Camões/JDACT

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «Ibn Bayya, cujo livro Regime do Solitário comentou e ainda Ibn Tufayl convergem na sua defesa da convergência das duas atitudes independentes que são a filosofia…»

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Filósofos Orientais
«(…) As descobertas prosseguem até que chegou à evidência de que todas as coisas do mundo eram como um só indivíduo subsistente que reclamava a existência de um agente voluntário, reduzindo-se à unidade as suas múltiplas partes por aquela linha de contemplação ou de discurso com que se haviam reduzido à unidade os corpos existentes no mundo da geração e da corrupção. E dirigida a especulação para o mundo na sua totalidade, propôs-se investigar se era uma substância novamente produzida depois do não ser e que saíra à existência a partir da privação da mesma criação ou se, pelo contrário, era um ser que nunca deixara de existir e a quem de maneira alguma precedera a privação da existência ou o nada.
Ora, numa ilha próxima, viviam duas pessoas excelentes e amantes do bem, Asal e Salmán. O primeiro decidiu retirar-se para a ilha onde Hayy prosseguia as suas especulações enquanto Salmán se decidiu abraçar a vida social. Sempre engolfado nas suas especulações, Hayy b. Yaqsan só uma vez por semana abandonava a caverna em busca de alimentos. Numa dessas saídas encontrou Asal. Vêm à fala. Palavra puxa palavra, verificaram que as ideias filosóficas e religiosas, expostas de forma alegórica por Asal, concordavam com as verdades que Hayy aprendera por si mesmo aperfeiçoando as suas faculdades naturais. Asal e Hayy decidem então viver na ilha de Asal mas não foram compreendidos pela multidão. Regressam à ilha deserta onde vivem como sábios. Como Ibn Bayya, Ibn Tufayl considera a sabedoria como a união mística com Deus. A filosofia da religião não pode servir como guia do comum dos mortais. A comunidade social constitui um obstáculo para o homem solitário. Mas, enquanto para Ibn Bayya, o Solitário que vive nas sociedades reais pode tornar-se cidadão da sociedade ideal, para Ibn Tufayl a vida teórica do sábio é incompatível com as ocupações sociais e políticas. Ibn Rushd, Abu l-Walid Muhammad b. Ahmad Muhammad b. Rushd al-Hafid (O Neto), Averróis, (Córdova 1126-Marraquexe 1198).
O avô exerceu o cargo de juiz e de imã na mesquita maior de Córdova; o pai, o de juiz na mesma cidade. Averróis o Neto está em Marraquexe em 1153. Em 1169 é juiz de Sevilha, em 1171 ocupa o mesmo lugar em Córdova. Em 1182 Ibn Tufayl apresenta-o em Marraquexe ao califa Abu Yacub Yusuf. Em 1195, por pressão dos alfaquis e de alguns notáveis de Córdova, é banido para Lucena e os seus livros queimados na praça pública. Em 1197 retorna a Marraquexe reconciliado com o novo califa Yacub Al-Mansur e aí morre no ano seguinte. O místico Al-Arabi assistiu à entrada do corpo de Averróis para a sepultura definitiva em Córdova. Num dos costados, a mula carregava o cadáver do filósofo, no outro seguia o peso dos seus livros
Médico famoso, legou-nos o tratado Livro das Generalidades da Medicina. Jurista, astrónomo, teólogo e filósofo. A maior parte dos seus livros conservou-se em traduções latinas e hebraicas, muito poucas em árabe. O grande mestre de Averróis é Aristóteles cujos livros principais conhece e comenta com rigor. Escreveu um comentário à República de Platão porque não conseguiu encontrar a Política. Os seus mestres islâmicos são Al-Farabi na lógica e nas doutrinas morais e políticas. Ibn Bayya, cujo livro Regime do Solitário comentou e ainda Ibn Tufayl convergem na sua defesa da convergência das duas atitudes independentes que são a filosofia e a fé revelada. Conheceu as doutrinas de Avicena que critica duramente em numerosos passos. A influência de Averróis é avassaladora no mundo cristão, particularmente em Sigério de Brabante, Santo Alberto Magno, São Tomás de Aquino e também no seu contemporâneo o filósofo judeu de língua árabe Maimónides. A sua influência ainda se fazia sentir na Universidade de Pádua nos alvores do século XVII». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de I.Camões/JDACT

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «O Filósofo Autodidacta conta a história de Hayy, o vivente, um solitário perdido desde o nascimento numa ilha deserta. Fruto de um amor proibido…»

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Filósofos Orientais
«(…) Na Carta de Adeus, Avempace lembra a alta classe de Al-Farabí na ciência superior, refere a Ética a Nicómaco de Aristóteles, o Fédon de Platão e pouco claramente Al-Gazzali. Critica de novo as sociedades reais. Os fins que as gentes das sociedades actuais se propõem ao obrar são dois, a julgar pelo que deles se conta:

um desses dois fins é lograr com os seus actos o que os partidários de cada escola ou seita crêem que agrada a Deus, exaltado seja!;
e o segundo é um fim misto que se compõe dos fins próprios da gente rica e dos fins da gente nobre, isto é, lograr o prestígio social que dão a ostentação e o aparato dos vestidos, dos veículos, dos adornos luxuosos e o gozo dos prazeres.

Ora a perspectiva da realização da sociedade ideal está nos que escolhem a nobreza da nossa profissão de estudiosos, superior a todas as demais ocupações humanas, pois todos os homens reconhecem que a ciência é a mais excelente das coisas humanas e que os homens de maior mérito reconheceram que a ciência verdadeira constitui a verdadeira fortuna e nobreza.
A visão do entendimento em si mesmo constitui o fim a que por natureza os homens estão destinados pois, na medida em que o homem se acerca do entendimento, acerca-se também de Deus e compraz-se nele… A ciência aproxima de Deus e a ignorância afasta dele. Mas como a visão do entendimento tem de realizar-se na sociedade política, daí que os homens são mais ou menos excelentes, segundo graus distintos e opostos de perfeição, para que com eles a sociedade seja perfeita e possa assim realizar-se compridamente o fim que é a visão do entendimento. A vida da sabedoria permite o encontro em qualquer altura com aqueles que viveram antes de nós. Também tu poderás encontrar os que vierem à vida depois de ti no tempo futuro. Consagra-te a fundo a este grau de ciência e nela te encontrarás com os antepassados em quem Deus se comprazeu, como eles se comprazeram com ele. Esse será o êxito máximo… Funde-te comigo num só ser. Ibu Tufayl, [(Abu Bakr ibn Tufayl al-Kaisí (Abentofail) (Guadix, Granada 1105-Marraquexe 1185)].
Da tribo árabe de Kais. Médico, matemático, astrónomo, filósofo e poeta. Exerceu medicina em Granada e mais tarde tornou-se médico e amigo do califa almóada Abu Yacube Yusuf (1163-1184), morto na estrada de Évora por um tiro de besta quando levantava o cerco a Santarém. Apresentou Averróis na corte almóada. Escreveu dois tratados de medicina e a novela filosófica Relato de Hayy ibn Yaqzan, um texto utópico espantoso, conhecido no Ocidente como O Filósofo Autodidacta. O livro é inspirado no texto homónimo Risala Hayy b. Yaqsan de Avicena a quem Ibn Tufayl exalta como mestre e príncipe dos filósofos. A tradução latina de Eduardo Pococke de 1672 e as sucessivas traduções em línguas europeias podem ter influenciado A Vida e Surpreendentes Aventuras de Robinson Crusoe de Daniel Defoe.
O Filósofo Autodidacta conta a história de Hayy, o vivente, um solitário perdido desde o nascimento numa ilha deserta. Fruto de um amor proibido, a mãe deu-lhe o sumiço que deram a Moisés. Angustiada, embalou o filho numa cesta, que arrastada pelas ondas, foi parar à tal ilha deserta. Criado por uma gazela, Hayy descobre pouco a pouco por si mesmo as verdades inteligíveis. Examinou se poderia encontrar um só atributo que correspondesse a todos os corpos, animados e não animados mas não encontrou entidade alguma que fosse comum a todos os corpos senão a noção de extensão nas três dimensões... longitude, latitude e profundidade. Prosseguindo na sua descoberta acabou por alcançar a ideia aristotélica de forma e hylé». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «No Regime do Solitário analisa a constituição das sociedades, a conduta social do homem e os meios para conseguir alcançar o seu fim supremo»

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Filósofos Orientais
«(…) O amor udri é o que buscamos mas não alcançamos como o da escrava que desapareceu na Porta dos Dragoeiros e o apaixonado todos os dias procura em vão. Vejo a sua casa a todas as horas e momentos mas quem nela vive está oculta para mim. E de que me serve estar à volta da casa se há um espia que observa a minha visita a todos os moradores? Ai de mim! Ouço o ruído do vizinho e sem embargo sei que para mim a China está mais próxima. Sou como o sedento que vê a água no poço e não tem maneira de a tirar. O amor transforma o amador num pastor de estrelas e planetas: Pastor sou de estrelas como se tivera a meu cargo apascentar todos os astros fixos e planetas. As estrelas na noite são o símbolo dos fogos de amor acesos nas trevas da minha mente. Parece que sou o guarda deste jardim verde escuro do firmamento cujas altas ervas estão bordadas de narcisos. Se Ptolomeu vivesse, reconheceria que sou o mais douto dos homens a espiar o curso dos astros.
De família originária de Beja, foi como Ibn Bayya, filho do Bejense, que ficou conhecido. Os latinos transformaram o Ibn Bayya em Avempace. Com Ibn Tufayl e Averrois constitui a trindade maior dos filósofos do Andaluz. Viveu um tempo agitado com o Islão peninsular apertado externamente pelas tropas cristãs e internamente sujeito ao domínio almorávida. Abandonou Saragoça, dois anos antes de Afonso I o Batalhador conquistar a cidade. Viveu em Almeria, Granada, Sevilha onde conheceu o cárcere. Passou a África e morreu em Fez, possivelmente envenenado por literatos e médicos da cidade com quem polemizara. Dominou a medicina, a matemática, a astronomia. Escreveu comentários sobre alguns tratados de Aristóteles referentes ao mundo físico e animal e comentários sobre os Elementos de Euclides e os Aforismos de Hipócrates. Conheceu a Metafisica, a Ética Nicomaqueia e o De Anima. Introduziu na península a filosofia de Al-Farabí sobre quem escreve Notas sobre o Livro das Categorias de Alfarabí. As obras mais importantes de Avempace são o Tratado sobre a União do Intelecto com o Homem, o Regime do Solitário e a Carta de Adeus.
O intelecto pode alcançar a verdade por si mesmo sem o concurso da revelação divina. Mas o conhecimento da verdade não é igual em todos os homens. Usando a alegoria platónica da caverna, considera que o conhecimento dos homens comuns é semelhante à ideia que fazem da realidade exterior os humanos colocados no fundo da caverna; o saber dos homens de ciência seria o dos homens situados à entrada; e a sabedoria própria dos sábios seria a dos que podem contemplar o sol cara a cara e ser transformados pela sua luz. No Regime do Solitário analisa a constituição das sociedades, a conduta social do homem e os meios para conseguir alcançar o seu fim supremo. As sociedades humanas não são perfeitas, daí a necessidade de encontrar a comunidade ideal. Esta deve ser constituída pelos homens modelo ou solitários que aspiram à perfeição. Mas esta minoria de solitários tem de viver na sociedade imperfeita, misturada com o comum dos cidadãos. Só em sociedade o homem é capaz de alcançar a perfeição e felicidade pessoal. E é na perfeição dos solitários que habita a esperança de uma possível transformação da sociedade imperfeita em perfeita.
Solitário é todo aquele que regula a sua vida pelo mais alto grau do saber que é o entendimento especulativo e se sente cidadão da sociedade ideal, muito embora viva numa sociedade imperfeita. Não deve isolar-se dela porquanto o homem é um ser social por natureza. A sociedade modelo, que não pode identificar-se com nenhuma das comunidades políticas concretas e históricas, não é concebida como simples ficção. Deve realizar-se neste mundo para que nele todos os cidadãos possam viver de acordo com as normas da razão». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

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Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «… o amor consiste na união entre partes de almas que neste mundo criado andam divididas. Ligadas a esta causa cósmica universal…»

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Filósofos Orientais
«(…) Ibn Hazm, Abu Muhammad Ali ibn Hazm (Córdova, 994-Huelva, 1063). Como Ibn Masarra era de família muladi, originária da região de Huelva, portanto do Gharb al-Ândalus. O pai desempenhou altas funções no palácio de Almançor. Após a queda do califado esteve profundamente envolvido na luta política e teve de refugiar-se em Almeria e Xátiva. Foi visir do seu amigo o califa omíada Abd al-Rahman V, assassinado sete semanas depois da posse. Conheceu a prisão e o exílio. No final da vida, retirou-se para as propriedades de família, a Casa Montija, nos arredores de Huelva. Poeta, historiador, jurista, filósofo e teólogo defensor da doutrina zahirita. Ao enumerar os mestres que intervieram na sua educação, Ibn Hazm dá conta da alta qualidade do ensino que então se ministrava no Andaluz. O saber enciclopédico destes sábios andaluzes está bem presente na sua Epístola do Auxílio Divino. Enumera as diferentes ciências. Primeiramente a ciência dos números, útil para a vida terrestre; depois, a geometria de Euclides cujo conhecimento se aplica para compreender a descrição da forma exterior das esferas celestes e da Terra e para a elevação dos pesos, a arquitectura e a agrimensura; a astronomia, tratada por Hiparco e Ptolomeu cujo objecto é conhecer as esferas celestes, o seu movimento circular, as suas intersecções, os seus polos, as suas distâncias e conhecer os astros, os seus movimentos de translacção, as suas magnitudes, as suas distâncias e as órbitas das suas revoluções; a medicina, da qual trataram Hipócrates, Galeno, Dioscórides e os que seguiram a sua rota, que ensina a curar os corpos das suas enfermidades. Na filosofia e nas leis da lógica, sobre as quais discorreram Platão, o seu discípulo Aristóteles, Alexandre de Afrodisia e os que seguiram as suas pegadas…, estriba o conhecimento intuitivo do mundo, com tudo quanto há nele, os seus géneros e espécies, substâncias e acidentes; além de fixar as condições que há-de reunir a demonstração apodítica sem a qual não pode constar a verdade ou o erro de nenhuma coisa. Propõe uma classificação das ciências que divide em três grandes grupos: o primeiro, o das ciências particulares de cada povo (teologia com os seus ramos particulares Escritura, direito, tradições e kalam ou teologia especulativa, história, filologia); em segundo lugar, os saberes gerais universais (matemática, medicina, astronomia, filosofia); em terceiro lugar os saberes mistos (retórica, poética, interpretação dos sonhos). Num dos seus livros mais célebres, o Fisal, Ibn Hazm estabelece uma espécie de enciclopédia dos conhecimentos das diferentes religiões com quem o Islão estava em contacto. Trata-se de um trabalho histórico mas marcado pelo seu ideal teológico. Para pôr em evidência os dogmas do Islão analisa os limites do conhecimento, as concepções da eternidade ou da criação do mundo, expondo o que considera os seus erros, até chegar à verdade do monoteísmo. A mentira e o erro estão ligados à palavra. Mas, instituída por Deus, a linguagem leva consigo uma verdade e é o único meio de descobrir a verdade e exprimi-la desde que se não cortem as suas raízes divinas. A linguagem perfeita é a palavra de Deus. Toda a tentativa de lhe descobrir um sentido oculto é vã. Conduz ao arbítrio, às paixões da alma. Conheceu a lógica de Aristóteles mas tende a reduzir a importância e aplicação dos processos lógicos concebidos como instrumentos de uma razão independente. Embora acredite no valor da razão, o seu uso só é legítimo nos limites em que Deus a ela se refere no Corão. No seu livro O Colar da Pomba escreve: o amor consiste na união entre partes de almas que neste mundo criado andam divididas. Ligadas a esta causa cósmica universal, há uma série de causas segundas que determinam cada amor concreto. A concepção platónica do amor acompanha todo o escrito. Pertences ao mundo dos anjos ou ao dos homens? Diz-me porque a confusão zomba do meu entendimento. Vejo uma figura humana mas se uso da minha razão acho que o teu corpo é um corpo celeste. Bendito seja O que equilibrou o modo de ser das suas criaturas e e fez que por natureza fosses maravilhosa luz. Não posso duvidar que és um puro espírito atraído a nós por uma semelhança que enlaça as almas. Não há mais prova que ateste a tua encarnação corporal nem outro argumento de que eras visível. Se os nossos olhos não contemplassem o teu ser, diríamos que eras a Sublime Razão Verdadeira». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

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sábado, 27 de agosto de 2016

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «O escrito foi lido em todos os púlpitos. Deus destrói nações por coisas como as que trouxe este grupo malvado, que adultera a tradição…»

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Filósofos Orientais
«(…) Ibn Masarra, Muhammad b. Abd Allah b. Masarra Al-Djabati (Córdova 883-Córdova 931). Seu pai Abd Allah ibn Masarra (+Meca 899) introduziu o mutazilismo na península e transmitiu ao filho os seus ensinamentos. Este, aos dezassete anos, retirou-se com os seus discípulos para a Serra de Córdova. Suspeito de heresia, partiu para o Oriente. Deteve-se em Meca e Medina. Regressou a Córdova durante o governo de Abderramão III e aí morreu rodeado de discípulos. Nenhum dos seus escritos chegou aos nossos dias. Para reconstituir a sua doutrina, temos de recorrer a Said al-Andalusi, a Ibn Hazm e a Ibn Al-Arabi, o seu mais conhecido herdeiro, por intermédio do movimento dos Muridines e do seu imã Ibn al-Kasi. Baseado nas indicações dos diferentes autores, Asin Palacios delineou as possíveis linhas do seu ensino e prática ascética. No seguimento do Pseudo-Empédocles, defendeu que o ser espiritual está sob a influência do princípio do amor puro enquanto o corpo, como todos os seres corporais, está submetido à acção da discórdia. A filosofia provoca na alma o desejo de partir deste mundo porque a alma não pertence cá abaixo, está prisioneira do corpo. O fim do homem é a purificação e a libertação da alma. Os caminhos para atingir esse fim são a pobreza voluntária, a mortificação, o silêncio e a prática da humildade, do perdão das ofensas, do amor dos inimigos. O exame quotidiano de consciência elevava a alma à estação mística da Sinceridade. Ibn Hayyan conservou-nos, num contexto condenatório, algumas informações sobre a doutrina de Ibn Masarra. A seita do suspeitoso Muhammad b. Abdallah b. Masarra, que aparentava piedade ocultando secretos desígnios e embustes de sedição, tinha-se propagado entre a gente no começo do reinado do califa an-Nasir (Abderramão III). Atraía-os graças ao ascetismo e piedade que aparentava, sendo mui rigoroso nos méritos do crente e negando a benevolência divina. Apartava-se das gentes e preferia afastar-se delas, aferrando-se na sua propriedade numa alqueria de Córdova… Com a sua doçura de expressão, solidez dialéctica, penetração exacta dos conceitos e variados conhecimentos arrebatava as mentes sem cuidar do caminho direito… Compôs livros excelentes, difundiu acertadas epístolas e elaborou artigos devastadores cuja intenção oculta cobriu com os véus do equívoco, difundindo o cumprimento das promessas e ameaças divinas e a falta de autoridade dos hadices sobre a intercessão, dando por inverosímil a benevolência e a misericórdia… Dispôs as Mudawwana maliquitas, pilar da Suna, por concomitâncias, dividindo-as, ao nosso querer, com a mais clara traça e criando secções extratadas excelentes, declaradas unanimemente, até pelos seus opositores, como melhores, mais resumidas e claras que qualquer outro compêndio da dita obra. Graças à solidez da sua extensa ciência e à sua paciência para confundir o adversário atraía e capturava os corações.
Os seguidores de Ibn Masarra foram condenados pelo califa Abderramão III que mandou ler uma proclamação em todos os pontos do Andaluz. Deus, exaltada seja a sua acção e glorificada a sua menção, fez do Islão a melhor religião, sustendo-a, enaltecendo-a e não aceitando nem querendo outra para seus servos, pois diz em sua excelente revelação: quem siga outra religião que não o Islão não se aceitará… Fostes a melhor nação que saiu da gente, pois ordenais o bom e condenais o reprovável. Ele vos estatuiu a religião que recomendara a Noé e que te temos inspirado e que recomendamos a Abraão, Moisés e Jesus: cumpri a religião e não discrepeis dela… Empenharam-se na sua ignorância, perderam-se no seu extravio e deram de cabeça no ódio da comunidade pia, professando aborrecê-la, declarando lícito o derramamento do seu sangue e justificável a violação de suas esposas e o cativeiro dos seus filhos: o ódio apareceu nas suas bocas, mas maior era o oculto em seus corações. O escrito foi lido em todos os púlpitos. Deus destrói nações por coisas como as que trouxe este grupo malvado, que adultera a tradição, ataca o grande Corão e os hadices do fiel Profeta. E Ibn Hayyan acrescenta. Al-Farabí, na sua obra sobre os sábios do Andaluz, diz dele que era grande conhecedor de história e das versões das obras e de variados conhecimentos: filósofo, sábio, médico, astrónomo, astrólogo, literato excelente, poeta, orador, cuja ciência era acompanhada pela habilidade dialéctica e domínio da gramática e o vocabulário do árabe… É sobejamente conhecido que a opinião de Ibn Masarra se separava de muitas crenças dos sunitas». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de I.Camões/JDACT