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sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «A voz de Lorena tornou-se um guincho. Eu preciso sair daqui! Sinto muito. O pai falou mais delicadamente. Você não pode ir. Direi que estou grávida. Seria bom que estivesse…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Zarita

«(…) Estava acontecendo algo ali naquele aposento que eu não entendia, mas era jovem, insensata e obstinada demais para ser prudente e esperar e escutar. Explodi. Não há outros!, bradei. As pessoas desta cidade são almas boas. Você tem de soltar Bartolomé imediatamente! Ambos os homens se viraram para me encarar. A cor abandonou o rosto de meu pai. Zarita! Você não deveria estar aqui. Ao contrário, afirmou o padre Besian. É aqui exactamente onde sua filha deveria estar. Ela tem idade suficiente para distinguir o bem do mal e precisa saber o que não será tolerado pela igreja e pelo Estado. Virou-se para meu pai. Vou dar-lhe uma ordem agora. Ninguém pode sair desta cidade sem antes recorrer a mim para pedir permissão. Essa regra inclui cada membro da sua criadagem e família. Quem tentar sair será preso e mantido sob a custódia dos agentes da Inquisição (maldita).

Na manhã seguinte fui acordada por um grito. Num instante, fiquei totalmente desperta, pensando que era um sonho ruim no qual eu atravessava um mar tempestuoso em direcção à minha mãe, só para ver o bote em que ela estava a afundar-se. Outro grito.

Dessa vez, percebi que ele não fazia parte do meu pesadelo. O grito veio da direcção do nosso celeiro, no lado mais distante do padoque. Sentei-me. Meus olhos se arregalaram quando ouvi outro grito agudo, depois outro, e mais outro, e, depois disso, um longo gemido. Soou como um animal nos espasmos da morte. Saltei da cama, coloquei um longo agasalho e saí do quarto para o patamar superior. Abaixo de mim, no saguão, Lorena discutia com o pai. Quero ir para a casa de meu pai! O padre Besian deu ordens em nome da Inquisição (maldita), disse-lhe o pai. Ninguém deve sair da cidade sem sua autorização expressa. Não fazemos de facto parte da cidade. Lorena abanou os braços no ar. Esta casa fica quase fora da cidade. O terreno é parte da zona rural. Não podemos ser incluídos na ordem que controla o município. O padre Besian declarou que mantém os ocupantes desta casa sob a jurisdição da Inquisição (maldita). Como magistrado, certamente você tem mais poder, mais direitos do que pessoas comuns. Comecei a descer a escada.

A voz de Lorena tornou-se um guincho. Eu preciso sair daqui! Sinto muito. O pai falou mais delicadamente. Você não pode ir. Direi que estou grávida. Seria bom que estivesse, retrucou o pai, com um traço de amargura na voz. Você pode dizer que eu desmaiei e que tememos pela vida da criança, por isso fui para a casa de meu pai, nas colinas, onde é mais fresco. Não, disse papa. Não farei isso. Lorena atingiu-o na face com os punhos. Ele deu um passo para trás, diante da agressão, e tentou segurar suas mãos. Ela se livrou dele e correu para subir a escada, berrando pela sua criada. Quase me derrubou na sua pressa. O pai olhou para ela e me viu parada ali. Zarita! Talvez seja melhor ir para o convento e ficar lá com sua tia Beatriz. Talvez seja..., mais seguro. Não tenho a certeza, respondi. O padre Besian não aprova a ordem de irmãs de minha tia. Olhei na direcção da porta externa. Ouvi um grito, como se um dos cavalos estivesse sofrendo. Há algo errado? O pai baixou a cabeça para evitar meu olhar. Preciso voltar ao celeiro e ver o que está acontecendo. Fique aqui até eu voltar. E deixou-me ali e se apressou em sair de casa. Fui à sala de jantar. O café da manhã ainda não fora servido, portanto segui até à cozinha. Era cedo, mas não tão cedo para que os empregados não estivessem em actividade, preparando a comida. Não havia ninguém lá. A porta da cozinha estava entreaberta. Fui até lá e olhei para fora. Serafina e Ardelia estavam paradas na horta, olhando em direcção ao celeiro. Apoiavam-se uma na outra de um modo receoso. O que está havendo?, gritei para elas. Um dos cavalos está doente? Como não responderam, continuei: Onde está Garci? Está com meu pai? Viraram os rostos para mim. Os olhos de Serafina estavam vermelhos e suas bochechas, lívidas. Ardelia também estava chorando. Outro grito soou. Bartolomé!, Serafina caiu de joelhos, estendendo as mãos para o céu e gritando: Maria Santificada, interceda por ele! A verdade me atingiu com tal violência que me curvei com força. Engoli em seco e coloquei as mãos sobre a barriga. Os sons que pensei virem de um animal sofrendo foram proferidos por Bartolomé. Endireitei-me, apertei o agasalho em volta do corpo e corri para fora da casa». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «Vivenciei um surto de lealdade por nosso louco capitão e pensei que, no futuro, eu realmente tentaria cuidar dele. Esse dia chegou mais cedo do que eu esperava. O dia em que deixei minha juventude para trás…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

 Saulo

«(…) Ambos pareciam educados e bem articulados, nenhum dos dois era inferior ao outro. Talvez fosse uma diferença de religiões. Eles nunca comentavam isso, mas vivíamos mudando constantemente de casa. Meu pai tinha um bom conhecimento de cavalos e, na minha tenra juventude, ele conseguiu encontrar emprego e começou a me ensinar o seu ofício de treiná-los. Mas, desde que me lembro, minha mãe vivia doente. E, enquanto eu crescia, ela ficava mais e mais doente, até a maior parte do nosso dinheiro ser gasto com seus remédios. Não muito tempo após chegarmos a Las Conchas, ela foi acometida por uma nova enfermidade que a deixou acamada. Minha mãe não tinha mais condições de viajar para longe, e nem meu pai nem eu conseguíamos encontrar emprego. Nossas economias logo desapareceram e, sem uma família a quem recorrer, nos tornamos mendigos. Era uma história triste e preferi não contá-la inteira, pois, quando pensava na minha mãe e no meu pai, a dor de perdê-los alimentava o cancro de veneno que era o juramento de vingança que trazia comigo. Aos meus companheiros, contei apenas que um infortúnio havia me roubado meus pais. Cheios de vinho e sonolentos, os homens faziam pilhérias e gargalhavam, e eu, sentado com eles, me sentia parte do seu grupo. Na ausência de meus pais, sentia-me feliz por estar naquele barco. Vivenciei um surto de lealdade por nosso louco capitão e pensei que, no futuro, eu realmente tentaria cuidar dele. Esse dia chegou mais cedo do que eu esperava. O dia em que deixei minha juventude para trás e matei um homem.

Zarita

Você ordenou a prisão do meu criado Bartolomé. Pude ouvir claramente a voz de meu pai, embora a porta do seu gabinete estivesse fechada. A resposta do padre Besian foi mais baixa, porém audível. Ele foi desrespeitoso a ponto da blasfémia. Bartolomé não faz ideia do que os seus actos poderiam ser interpretados desse modo. Dei um leve empurrão na Serafina em direcção à cozinha. Vá cuidar dos seus afazeres. Vou juntar minha voz aos argumentos do pai. Tenho direito de prender quem eu achar que pode ser um herege ou que possa estar conspirando contra a Santa Madre Igreja. O padre Besian e meu pai estavam de pé, encarando-se, quando entrei no aposento. Encontravam-se tão envolvidos na discussão que não notaram a minha presença. O rapaz que prendeu é um simplório que nem faz ideia do que seja um herege. Ontem, meus homens lhe perguntaram se alguma vez nutrira maus pensamentos contra sacerdotes da igreja e ele respondeu que sim. Bartolomé concordaria com qualquer coisa que alguém dissesse, vociferou em resposta meu pai, um homem nunca dado à paciência. É da sua natureza fazer isso. Ele não tem pensamentos próprios e procura agradar a todos que encontra. Além do mais, prosseguiu o padre, quando indagado se alguma vez planeou atacar o padre durante a missa, ele disse que, às vezes, nutria essa ideia ao frequentar a cerimónia religiosa. Meu pai gargalhou rudemente.

Os sermões de certos padres talvez mereçam tal reacção. Advirto-o a ter cautela com o que diz. Havia rispidez na voz do padre. Eu já lhe disse, o rapaz é um simplório! Ele mal sabe se vestir sem ajuda. Ele não é mais capaz de conspirar contra a igreja do que consegue contar de um a cem. Certamente deve ter percebido isso. O mal tenta encontrar um lugar até mesmo nas pessoas mais simples. Ele é apenas um garoto!, explodiu o pai, exasperado. Com quase 20 anos de idade, o que o torna um homem, mas eu me lembrarei do que alegou, quando for feito o interrogatório. Interrogatório? Meu pai pareceu aterrorizado. Certamente não pretende interrogar o rapaz num julgamento. Se eu ficar insatisfeito com as suas respostas iniciais, sim. Mas, se sabe quais serão suas respostas iniciais, porquê continuar... O pai parou, como se começasse a entender a importância do que acabara de ouvir. Olhou o padre mais atentamente. Que jogo pretende fazer aqui, para usar o rapaz como peão? O padre Besian hesitou. Então disse: Pode ser que a nossa investigação dessa primeira pessoa acusada de transgressão induza os habitantes a nos levar a outros». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «Eles me perguntaram sobre minha vida anterior, mas eu não tinha muita coisa para contar, excepto que sempre tínhamos vivido com medo»

Cortesia de wikipedia e jdact

Saulo

«(…) Pilhas de condimentos e remédios para cada doença, de dor de dente a calvície, eram comercializadas por enrugados vendedores ambulantes, chocando címbalos e batendo tambores enquanto tentavam atrair fregueses usando a língua comum ou sinais e mímica para anunciar seus artigos. O capitão Cosimo deixou o intendente e o carpinteiro-cozinheiro regatear os preços da comida e das substitutas para nossas lâmpadas e panelas roubadas e puxou-me em direcção a um canto mais tranquilo da feira. Ali se encontravam os vendedores de tapetes e tecidos, os tecelões, os alfaiates e, quase certamente, os aposentos de fundo onde um homem podia jogar dados e perder o dinheiro que carregava. Entramos num prédio e o capitão soltou a corrente do pulso e me prendeu a uma barra no chão. Deu-me um tapinha na cabeça. Eu o trato bem, não é mesmo, rapaz?, perguntou. Sim, capitão Cosimo, respondi. Então não vai fugir? Sacudi a cabeça. Se fugisse, suspirou o capitão, Panipat se dedicaria apenas a procurá-lo e o castigaria tão severamente que o faria preferir a morte. Mas, se continuar no meu barco, poderemos trabalhar juntos, pois acho que poderia lhe ensinar as habilidades apropriadas de um homem do mar; com o tempo, talvez haja alguma recompensa para si. Ele viu minha expressão mudar quando disse isso. Pois, na verdade, eu pretendia fugir assim que ele desse as costas. Mas agora essa era uma proposta diferente. Não me tornaria um escravo remador?, indaguei. Isso seria um desperdício de seus talentos. Você aprenderia sob minhas instruções? Talvez pudesse calcular a rota sozinho, embora eu sempre daria as coordenadas. O que me diz?

Eu desconfiava de que ele sabia que, se cometesse muitos erros mais, não conseguiria mais enganar os tripulantes em relação à sua vista deficiente. Agora esperava mascarar seus erros de navegação usando-me como bode expiatório para qualquer coisa que desse errado. Sim, eu gostaria de fazer isso, concordei. Bom rapaz. Poderemos ter algum problema com Panipat, que não se afeiçoou como eu. Mas cuidarei de você. E você fará o mesmo por mim. Deu-me outra tapinha na cabeça. Descanse um pouco aqui. Volto já. Ao retornar, o capitão Cosimo parecia bem satisfeito. Deve ter sido o efeito do álcool, pois, quando voltamos ao barco e ele apanhou a sua bolsa, ela estava muito mais leve do que antes. O capitão parecia imperturbado por ter perdido seus próprios lucros. Após distribuir as quotas aos remadores e ao resto da tripulação, restaram-lhe apenas algumas moedas que ele trancou na sua caixa de dinheiro. Partimos daquele porto de bom humor, com uma nova carga e provisões recém adquiridas. Poucos quilómetros ao largo, paramos o barco, pois mais ou menos uma vez por mês os escravos eram desacorrentados para se lavar e nadar no mar, onde não havia chance de fugirem. Nenhum deles jamais tentou nadar para longe. Panipat, observando-os com um pontudo arpão mortal atravessado no colo, era o suficiente para deter até mesmo o mais imprudente. Em todo caso, quando o cozinheiro começou a preparar uma refeição quente, o cheiro de comida chiando e a perspectiva de uma barriga cheia com uma ou duas canecas de vinho trouxeram-nos escalando de volta a bordo.

Essa era a ocasião em que os tripulantes, tanto os escravos quanto os homens livres, falavam sobre o mar. E, embora se apavorassem com tanto poder, eles sentiam afecto por aquele provedor do seu sustento. É melhor do que a mulher com quem me casei disse um. Que mulher se casaria com você?, zombou outro. O primeiro apenas riu. Eu já vi a sua, e sei porque se empregou por sete anos. Se tivesse que encontrar isso ao voltar para casa, eu me empregaria pelo dobro do tempo. Alguns dos remadores contavam histórias de suas vidas anteriores. Os quatro escravos árabes, que eram colocados juntos a boreste do barco, murmuravam baixinho entre eles, mas, quanto aos outros quatro escravos, dois eram ladrões confessos e um terceiro culpado de assassinato. Jean-Luc, um francês, tinha sido soldado e, embriagado, matara a esposa num acesso de raiva; Sebastien, um homem magro e muito alto, era padre. Fui preso pela Inquisição (maldita), contou-nos, por pregar heresia. Escapei. Era passar a vida numa galé ou queimar na estaca. Escolhi isto aqui. Alguns dias, quando por nosso louco capitão se perde, penso que talvez tivesse sido melhor tostar numa fogueira do que assar aqui lentamente ao sol.

Eles me perguntaram sobre minha vida anterior, mas eu não tinha muita coisa para contar, excepto que sempre tínhamos vivido com medo. Acho que meu pai acreditava que éramos perseguidos pelos familiares de minha mãe, que tentavam matá-lo por tê-la tirado deles sem permissão. Não sei porque proibiram o casamento». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «Panipat colocou um grilhão nos meus tornozelos e prendeu a eles uma corrente leve. Entregou a ponta da corrente ao capitão, que a envolveu no punho»

Cortesia de wikipedia e jdact

Saulo

«(…) E ele vai fazer isso? Ele deve ser maluco em pensar que alguém jogaria dinheiro fora em tal aventura! Acha que isso não existe? Não é porque talvez não exista. O que torna a expedição impossível é que o Mar Oceano é muito vasto para ser atravessado. Pode haver tempestades mais violentas do que podemos imaginar, grandes remoinhos capazes de tragar um navio de forma que nunca mais será visto, vastas extensões de água estagnada com algas marinhas por milhares de quilómetros, onde o vento não sopra e remos não conseguem remar. Ali um navio ficaria eternamente paralisado por uma calmaria e sem água potável. Homens morreriam de sede, ou ficariam loucos e se matariam uns aos outros. Sim, mas se conseguir chegar ao outro lado... Minha voz foi falhando porque o capitão perdera interesse na conversa e estabelecia nossa rota para o próximo porto. Acho que foi neste momento que me ocorreu que era possível viajar não apenas por comércio, mas por aventura, e isso talvez fosse algo que eu pudesse fazer. Pois eu começara a me apaixonar pelo mar, e seus humores e caprichos conspiravam para me arrebatar. O enjoo que começara a sentir ficara no passado e passei a ansiar pelo sopro do vento no meu rosto e a visão da água tão aflitivamente azul sob o sol da manhã. Naquele Verão descobri o quanto a água do mar podia ser morna. Os únicos banhos que eu havia tomado tinham sido num rio gelado, e talvez não mais do que cinco ou seis vezes em minha vida. Agora mergulhava nu do lado do barco para a cintilante água azul-celeste e me divertia com os homens, enquanto eles espirravam água e nadavam, depois deitava na areia branca e deixava que as ondas rastejassem sobre meu corpo, preguiçosa e languidamente com o calor.

Adorava observar a proa da galé repartindo as ondas enquanto seguíamos nosso curso. Com o Outono, os dias chegavam ao fim com um céu exibindo as mais maravilhosas cores de pôr do sol, rosa, amarelo, violeta, lavanda, índigo, carmesim. E, quando o perfurante brilho das estrelas aparecia no obscuro azul da grande abóbada de céu sobre as nossas cabeças, eu dormia com a canção do bate-bate da marulhante água contra os costados da nave. Nossas cargas eram pequenas e na maioria mercadorias em estado bruto: minério e grãos, amêndoas e óleo, goma de mástique, pedra-ume, açafrão e sal. Navios que carregavam metais preciosos, peles ou joias eram maiores e viajavam com escolta. Entrávamos e saíamos de portos na costa do norte do mar Mediterrâneo, e partíamos para o Atlântico para alcançar o movimentado porto espanhol de Cádiz, para onde navios maiores traziam mercadorias das terras setentrionais, tais como lã da Inglaterra e peles de animais da Islândia. Evitávamos navegar perto da África do Norte por temer os piratas que agiam ao longo da Costa da Barbária, e por causa da guerra travada pela rainha Isabel e o rei Fernando contra o povo muçulmano. Eles agora queriam o Reino de Granada no sul da Espanha, que por centenas de anos fora governado pelos mouros. Lomas achava que eles acabariam por banir completamente os muçulmanos e os judeus, embora, no passado, os judeus os tivessem servido muito bem em altos cargos do governo.

À medida que o tempo esfriava e as horas com luz do dia encurtavam, o capitão me consultava mais e mais ao ler seus mapas. Além da habilidade de ser capaz de decifrar letras, eu tinha aptidão para aritmética e rapidamente aprendera a interpretar as cartas, usando o almanaque e outros auxílios. Por todo o Inverno e entrando pela Primavera do ano seguinte, aprendi os nomes das constelações e a calcular nossa posição com base na ascendência da Estrela Polar no horizonte. Quando Panipat grunhia seu desprazer por eu realizar tarefas mais fáceis, o capitão Cosimo ria das suas objecções. O mestre dos remadores me olhava desconfiado e ficou ainda mais aborrecido quando, certo dia, após atracar num porto ao sul de Cádiz, o capitão declarou que me levaria à terra com ele enquanto realizava os seus negócios.

Panipat colocou um grilhão nos meus tornozelos e prendeu a eles uma corrente leve. Entregou a ponta da corrente ao capitão, que a envolveu no punho. Embora a corrente fosse fina e bem discreta, senti-me humilhado, não estava sendo tratado melhor do que um animal selvagem. Mas sabia que não deveria protestar. Panipat ficou de olho em mim ao deixarmos o barco. Ele bateu o cabo do chicote violentamente na palma da mão, como se para me lembrar qual seria o meu destino se tentasse escapar. O capitão Cosimo girou a bengala e usou-a para me empurrar à sua frente. Acompanhados por dois tripulantes, descemos a prancha, seguimos pelo lado do cais e através do portão arqueado para a cidade. Visitamos o representante dos mercadores, e o capitão fez seus negócios e encheu a bolsa. Pagou os salários dos tripulantes e lhes deu dinheiro para a compra de provisões, então seguimos as vielas tortuosas que levavam ao mercado e à cacofonia de sons de animais domésticos amarrados e aos granidos de aves com deslumbrantes plumagens». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião, 

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «… acesso às riquezas que existem lá, sem o risco de tentar uma passagem pela extremidade inferior da África ou ter de pagar tributos aos turcos para trazer as mercadorias através de suas terras. Ele procura fundos para uma expedição que vá descobrir a rota ao redor da parte de trás do mapa»

Cortesia de wikipedia e jdact

Saulo

«(…) Olhei-o então mais detidamente e pensei no que havia acontecido hoje. Como havíamos sido forçados a esperar na ilha até os piratas irem embora, e eu não estava mais correndo o tempo todo para fornecer água a homens sedentos, tive mais tempo para pensar nos vários aspectos daqueles acontecimentos. Percebi que o nosso capitão Cosimo tinha um segredo que não dividia com ninguém. Sua vista estava falhando. Agora eu sabia o motivo porque, embora fosse um bom marinheiro e um homem sagaz, ele às vezes fazia asneiras na sua navegação. Essencialmente, seguíamos uma rota de porto a porto, nunca nos afastando muito do continente, porque o nosso capitão não conseguia distinguir apropriadamente objectos distantes. Foi quando tivemos de nos aventurar em mar aberto que ele encontrou grandes dificuldades. Ele não enxergara aquela pequenina ilha no seu mapa porque a marca impressa que indicava a sua localização era minúscula e fraca. Ele me mandara adiante para encontrar o caminho para a colina da ilha e seguiu atrás de mim, atacando o que havia à frente com a bengala, como fazia no barco, para sentir o caminho adiante. Durante as horas do dia, enquanto esperávamos os piratas irem embora, ele me dava a luneta para que eu o informasse do que via, pois, possivelmente, só enxergava as figuras como borrões à distância. E não queria que ninguém soubesse de nada disso. Devia ser um problema recente, e o capitão não conseguiria escondê-lo por muito mais tempo da sua tripulação, mas, por enquanto, preferia que o achassem um idiota a deixar que descobrissem que estava ficando cego. Admirei-o pela sua coragem. E porque nunca me tratou cruelmente, decidi que não o trairia. Com uma espécie de lealdade inapropriada, mantive o seu segredo e não contei a ninguém o que sabia. Eu era muito jovem e inexperiente para perceber que um capitão semicego, final e inevitavelmente, conduziria seus homens à morte.

Esperámos a noite toda, após os piratas terem ido embora, antes de voltar ao nosso barco. O vinho, a maior parte da água, duas lanternas e uma panela tinham desaparecido. Eles haviam levantado com uma alavanca a tampa da caixa de dinheiro pregada ao chão do minúsculo dormitório do capitão e levado todas as moedas guardadas ali. Alguns peixes salgados tinham sumido, mas eles deixaram o resto dos suprimentos, inclusive um barril de água. Não tocaram na carga nem danificaram a embarcação. Isso me surpreendeu, mas o capitão disse: Não é a mesma coisa ao ser alcançado numa perseguição. Não éramos uma ameaça para eles, e seria uma atitude muito ruim para um marinheiro deixar outro marinheiro naufragado sem água e sem meios de deixar a ilha. Ao nos prepararmos para sair, o capitão Cosimo chamou-me para ficar a seu lado debaixo do toldo onde ele mantinha os mapas espalhados sobre a mesa. Deve haver um porto a alguns quilómetros a oeste, onde poderemos vender o nosso óleo. Não creio que saiba ler, rapaz. Eu sei, respondi. Minha mãe me ensinou as letras de vários alfabetos. Ela sabia? Ele ergueu uma sobrancelha.

Não havia pensado muito sobre os ensinamentos de minha mãe até descobrir, ao ficar mais velho, que poucos homens conheciam igualmente as letras ocidentais e orientais. A maior parte ignorava como se formavam e como soavam as palavras das diferentes línguas. Eu sabia que os pais de minha mãe tinham-se oposto ao relacionamento dela com o meu pai, e eles fugiram juntos, desafiando-os. Somente então me dei conta de que ela devia ter tido uma boa educação, para poder mostrar-me as letras e me ajudar a ler e a escrever. Então soletre isto aqui para mim. O capitão apontou para algo escrito no pergaminho colocado diante dele. Eu nunca havia examinado um mapa tão de perto e fiquei maravilhado de como tal coisa podia ser feita, e disse isso ao capitão. Aquele mapa mostrava os contornos das costas da França, Espanha e Portugal, com uma parte também da África, e exibia os nomes de lugares e portos escritos em ângulos rectos às suas posições na terra. É um desafio à crença de que um homem consiga fazer mapas completamente correctos, observei.

Sim, exactamente, rebateu sombriamente o capitão Cosimo. De facto, desafia a crença, pois eles não têm a exactidão que alegam. As cartas marítimas listam portos, características costeiras, embocaduras de rios e pontos de referência, e os mapas nos mostram os mares e a terra. Contudo, já encalhei em ilhas onde não deveria existir terra, e não encontrei muitos portos onde o cartógrafo me prometera um abrigo seguro. Olhei ao longo das partes de baixo e de cima do mapa e depois de cada lado. Isso indicou que havia mais terras a norte e a leste. Virei o pergaminho para olhar na parte de trás. Isso é tudo que existe? O capitão me lançou um olhar estranho. Numa época, a resposta a essa pergunta teria sido sim. Mas agora, deu de ombros, há muitas histórias sobre o que pode haver de um lado do Atlântico ou a oeste, mais além do Mar Oceano. Um dos meus conterrâneos, um homem chamado Cristóvão Colombo, apregoa suas ideias a quem quiser ouvir. Isto é, qualquer pessoa rica e poderosa que queira ouvir. Ele se propõe a encontrar um caminho pelo oeste para o Oriente a fim de ter acesso às riquezas que existem lá, sem o risco de tentar uma passagem pela extremidade inferior da África ou ter de pagar tributos aos turcos para trazer as mercadorias através de suas terras. Ele procura fundos para uma expedição que vá descobrir a rota ao redor da parte de trás do mapa». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

 Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião, 

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «O navio pirata estava distante apenas poucas centenas de metros. Cada um por si!, bradou o capitão. Corram! Corram! Ele estendeu a mão para alcançar a magnífica jaqueta azul-pavão, e eu me inclinei para apanhá-la…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Saulo

«(…) O que podemos fazer?, perguntei ao capitão. Não conseguiremos lutar contra eles em terra muito mais do que conseguiríamos no mar. Nós vamos encalhar o barco, revelou-me. Ele agora estava ocupado enrolando os mapas e recolhendo seu material de navegação. O carpinteiro-cozinheiro jogava seus apetrechos num saco enquanto o resto da tripulação juntava a caixa de pederneiras, arpão, lanças e outras peças vitais do equipamento. Encha a garrafa de cada homem o mais depressa que puder. Vá!, gritou o capitão no meu rosto, enquanto eu o encarava estupidamente. Apressei-me a cumprir sua ordem. Panipat já estava ajoelhado ao lado dos escravos acorrentados, usando a chave na sua cintura para abrir os grilhões. Vislumbrei uma extensão de terra branca. Então o barco bateu nela fortemente e fui arremessado à frente. Fora! Fora!, berrou Panipat, e os homens saltaram para fora e arrastaram o barco pela areia o máximo que puderam. O navio pirata estava distante apenas poucas centenas de metros.

Cada um por si!, bradou o capitão. Corram! Corram! Ele estendeu a mão para alcançar a magnífica jaqueta azul-pavão, e eu me inclinei para apanhá-la e lhe entregar. Era pesada. Ele correria menos com aquilo às costas. Sua vaidade devia ser enorme, pensei, levando-o a querer manter o casaco consigo mesmo que isso pudesse lhe custar a vida. Tome, falou. Você é mais rápido do que eu. Colocou os mapas num comprido estojo cilíndrico feito de couro endurecido, oleado para ser à prova d’água, e entregou-me para carregá-lo. Abrigue-se primeiro, disse-me, depois corra para o ponto mais alto da ilha. Os remadores apanharam as posses que mantinham debaixo dos bancos, cada marinheiro com seu saco de bugigangas contendo os objectos pessoais. Eu nada tinha, além do estojo com os mapas, mas sabia que ele era importante. E, de um modo infantil, senti-me contente por aquilo ter sido confiado a mim. Nós nos espalhamos, correndo para longe do barco em direcção à densa folhagem do interior da ilha.

Eu acenderei uma fogueira na praia quando eles tiverem ido embora, gritou o capitão Cosimo para os seus homens. Vocês verão a fumaça e saberão que poderão sair. Rezem para que não haja canibais aqui. Ouvi um dos homens dizer ao nos embrenharmos entre as árvores. Ou, se houver, vamos rezar para que não estejam com fome. O alívio por terem escapado da linha de fogo do inimigo levava-os a gracejar. O capitão me seguiu, golpeando cada lado à frente com sua bengala de bambu. Enquanto os homens corriam em todas as direcções para se proteger o melhor possível entre árvores e arbustos, o capitão me mandava seguir para terreno alto. Pelejando sob o peso da jaqueta, o capitão avançou acima com dificuldade até se encontrar a alguma distância da praia e a uma boa altura. Vamos descobrir o que eles pretendem. O capitão tomou posição atrás de uma árvore e me passou sua luneta. O que vê?, perguntou-me.

Focalizei o navio pirata, parado pouco antes dos recifes que protegiam a baía onde tínhamos encalhado. Eles lançaram um esquife com alguns homens armados a bordo. Será que vão destruir nosso barco?, indaguei, com medo de que pudéssemos ficar isolados e abandonados para morrer de fome. O capitão sacudiu a cabeça. Não creio. Essa tripulação não é do tipo que se dedica à guerra política ou religiosa. É uma questão de comércio; o modo como eles fazem negócio. Roubam e vendem. Olhou ele mesmo pela luneta e então a devolveu. Tomara que eles queiram apenas nossa água. Nossa carga é de pouca utilidade para eles. Olhou de relance para o céu. A noite está quase caindo. Não vão perder tempo nem gastar energia ou munição para nos caçar aqui nesta vegetação rasteira, pois poderíamos matar alguns deles antes que conseguissem capturar qualquer um de nós. Se tivéssemos sido capturados no mar, a história teria um fim diferente. Eles levariam os homens mais aptos como escravos e, provavelmente, colocariam o barco à deriva com o resto de nós dentro. Observei os piratas irem à praia e vasculharem a nossa nau. Pareciam marinheiros comuns, e comentei isso com o capitão. Ele deu uma gargalhada. O que você esperava? Que tivessem 3 metros de altura e barbas longas, carregando uma espada em cada mão e uma faca entre os dentes? A maioria de nós que está no mar de vez em quando faz uma pirataria. Soltou outra gargalhada ao ver meus olhos se arregalarem. Até mesmo navios de linha, portando bandeiras dos seus países, assegurou-me. Não hesitam em parar e, usando um ou outro pretexto, tomar mercadorias da sua preferência. Apertou mais em volta do corpo a jaqueta de pavão e alisou a manga. Em alguma ocasião, eu mesmo devo ter feito isso. E sorriu de modo astuto». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «Terra! Terra! O vigia, agachado na proa por questões de segurança, havia arriscado erguer a cabeça. Gritava e apontava: A ilha! Eu a vejo! Louvado seja Jesus e Sua Santa Mãe!»

Cortesia de wikipedia e jdact

Saulo

«(…) Panipat, espreitando ao longo da passarela de madeira, estava ciente do perigo. Estalava o chicote acima das cabeças deles, resmungando e rosnando, enquanto procurava estender as remadas para maximizar sua energia. Os músculos ondulavam nos seus torsos. Com cada puxada para trás, eles praticamente se levantavam e, no movimento de volta, dobravam os joelhos quase a uma posição sentada, usando a almofada ou o estofado debaixo das coxas para deslizar rapidamente o corpo adiante. Puxem!, vociferava o mestre dos remadores. Remem! Remem! Remem, seus cães! Seus filhos bastardos de Adão! Suas carcaças desprezíveis de carne podre! Panipat pareceu aumentar de estatura, e partículas de saliva branca salpicavam da sua boca, junto às injúrias que despejava sobre as cabeças dos seus homens. Sua escória, repreendia-os. Monte de madeira flutuante! Seus vermes repletos de insectos! Bando de carne podre e bolorenta de cadáveres infestada de ratos! Seus restos imprestáveis de naufrágio! Seus inúteis e imprestáveis corruptores de mulheres. Bando de cobras raivosas que rastejam com as barrigas e comem a sujeira da terra! Remem! Remem, estou mandando! Minha boca se escancarou em choque. Corria suor do rosto, do peito, das costas, dos braços e das pernas de cada homem. Remem!, berrou Panipat. Remem! Ou matarei vocês aí mesmo onde estão! E eles remaram: pelo seu mestre de remadores, pelo capitão que os mantinha bem alimentados e bem pagos, pela carga da qual esperavam tirar lucro, pelo orgulho no seu trabalho, pela corrida para superar o inimigo, pelas suas próprias vidas. Nosso barco disparou pela água, rápido e exacto como uma flecha no voo. Mesmo assim, o barco inimigo se aproximava de nós. Remem!, A voz de Panipat estava rouca. Seu chicote estalava. Remem! Remem!

O capitão pulava num pé e noutro, numa dança furiosa, mas ele sabia muito bem que devia ficar fora do caminho de Panipat e não interferir. Notei que os escravos remavam duramente, no mesmo compasso que os outros, coisa que nem sempre faziam. E não era medo de Panipat que os levava a isso, pensei, pois, naquele momento, ele não conseguiria destacar um homem sequer para castigar; devia ser porque acreditavam que seu destino seria pior num navio pirata do que se permanecessem com o capitão Cosimo. Notei, então, que os ocupantes do nosso barco tinham algum respeito por aquele homem a quem chamavam de capitão maluco, embora acreditassem que sua perícia em navegação fosse pequena. Mas parecia que estavam certos na sua crença, pois ainda não havia qualquer ilha à vista, e o preço de todo aquele esforço começava a ser cobrado deles.

Lomas gritou: O que estamos fazendo? Não nos mande directo pelo mar até as terras perdidas! Uma ilha, gritou de volta o capitão Cosimo, confiante. O rapaz viu uma ilha no mapa. Vamos nos refugiar lá. O horizonte permanecia vazio, e, subitamente, dei-me conta de que, no passado, o capitão prometera um porto e este não havia aparecido. Havia mesmo uma ilha no mapa, bem indicada: eu a tinha visto. Teria sido apenas uma marca do cartógrafo ou um avistamento impreciso de algum homem do mar? Se existia, onde estava ela? O capitão percebeu a minha preocupação e falou rapidamente. O mar é enganador. Ele é como uma mulher: quando se é apresentado a ela, mostra-se agradável e calma, cintila com luzes e o enfeitiça; mas, quando se revela caprichosa, não revela seus segredos. Bateu a mão na mesa e condenou todos os cartógrafos ao fogo eterno do inferno.

O barco pirata disparou outro tiro e, dessa vez, a bala do canhão cantou acima de nossas cabeças e pousou com um espirro a bombordo. O nosso barco reduzia uma quantidade infinitesimal a velocidade à medida que o desânimo penetrava a mente dos homens. E nem mesmo toda a fúria de Panipat foi capaz de levá-los de volta ao ritmo anterior. Senti o relaxamento da movimentação debaixo dos pés, e, com o medo, minha respiração encurtou, pois, assim como o resto da tripulação, eu sabia que não me sairia muito bem sob as ordens de um comandante pirata.

Terra! Terra! O vigia, agachado na proa por questões de segurança, havia arriscado erguer a cabeça. Gritava e apontava: A ilha! Eu a vejo! Louvado seja Jesus e Sua Santa Mãe! Os homens gritaram de alegria e agradeceram aos santos do céu. Pude sentir lágrimas começarem a brotar nos meus olhos e as enxuguei com a mão. Giramos um grau ao sul. Os remadores renovaram seus esforços. Então começaram a bradar: Uma ilha! Terra à vista! Louvado seja! Há uma praia? Não nos guie para as pedras, Panipat! Agora o vigia e os remadores trabalhavam juntos, guiando-nos através do círculo de recifes semi-submersos em direcção a uma margem arenosa. Meu coração continuava a bater forte. Não entendia como isso nos deixaria em segurança. Eu podia ver que a ilha era desabitada, nenhum povoado ou sinal de edificação, nem cidadãos a quem se pudesse apelar por ajuda, e a galé pirata se aproximava rapidamente». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «Os remadores não podiam se permitir perder a concentração. O bem-estar de todos a bordo dependia agora de sua habilidade e do seu esforço»

Cortesia de wikipedia e jdact

Saulo

«(…) Piratas! O veleiro de vigia girou da sua posição na proa de nosso barco para encarar o capitão. Piratas!, gritou novamente. Poderemos negociar com eles?, quis saber o capitão Cosimo. Sob que bandeira velejam? Nenhuma. Veio a resposta. É por isso que sei que são salteadores. E, a julgar por seu tamanho, o barco tem mais canhões e homens do que nós. Parei com minha concha a meio caminho do barril de água e olhei para onde o vigia apontava. A vela de uma galé maior agora era visível na direcção sul. O capitão praguejou e deu um soco na mesa à frente, fazendo com que sua moringa de água caísse e saísse rolando pelo convés inferior. Saltei adiante, apanhei-a e a enchi novamente com a água do barril. Olhei de relance para Panipat e o mestre dos remadores fez um gesto com a cabeça para eu devolvê-la ao capitão. Uma conversa correu entre os homens. Eles nos viram? Mudaram de direção? Porque se incomodariam? Não veem que somos um barco mercante?

Agora podíamos ver o outro barco mais claramente, uma embarcação baixa e comprida com bancos duplos de remadores. Também vimos que estavam alterando seu curso para nos interceptar. Talvez pensem que transportamos ouro, em vez de óleo de amêndoas e peixe salgado. Devem estar atrás de bons remadores para vender como escravos, ouvi Lomas dizer. Falou para Panipat numa voz ainda mais alta. Tire-nos do caminho dele, mestre dos remadores! Quero ver meu filho novamente, e não ser levado como escravo ou morrer numa luta que não podemos vencer! O resto dos remadores homens livres se uniram a ele com gritos de concordância: Vamos, Panipat! Use o chicote, se precisar! Estabeleça um ritmo que nos faça remar para longe daqui! Os piratas estavam baixando a vela para se preparar para a perseguição usando seu poder superior de remada.

O capitão Cosimo mordeu o lábio. Estudou o mapa diante de si. Segui seu olhar e vi um disco de madeira colocado à esquerda de uma grande ilha com a letra M entalhada nele. Seria Maiorca? Ele ergueu novamente a vista. Qual a potência deles? Três, gritou o vigia. Um canhão completo e duas colubrinas, com talvez outra peça de artilharia na popa. Superados em homens e em armas, murmurou o capitão. Como se para confirmar a sua observação, ouviu-se um rugido surdo quando o inimigo disparou um tiro de advertência para que parássemos o barco. A bala pousou bem perto, mas provocou uma gritaria nos tripulantes. Começaram a praguejar contra o capitão pela sua incompetência por estabelecer um curso que nos levara directo ao predador. Culparam o vigia, como se, por ter avistado a galé pirata, ele fosse o responsável por ter conjurado o inimigo do ar. E, após descarregar a ira inicial, alguns, de medo, passaram a rezar, implorando a Deus e a outros poderes sobrenaturais, até mesmo aos espíritos do mar, que viessem em seu socorro.

O capitão examinou o mapa, alvoroçado. Precisamos de uma ilha..., algum lugar, qualquer lugar onde possamos encalhar. Levou a lupa ao olho e baixou o rosto para bem perto do mapa. Ali, falei, e apontei para o desenho de uma minúscula ilha a oeste do disco de madeira que eu acreditava representar nosso barco. Bem localizado, rapaz, murmurou ele. Encontramos uma ilha!, disse um pouco mais alto. Então berrou uma instrução para Panipat. A tripulação já havia atravessado águas perigosas antes. Nossa vela já tinha sido recolhida, os homens se encontravam em posição e Panipat estava alerta, esperando a ordem do capitão. O mestre dos remadores rugiu suas instruções, e o nosso barco fez a volta. Os remadores se empenharam e disparamos através do mar. Os homens gargalharam quando, imediatamente, o espaço entre os dois barcos aumentou. A ilha, porém, estava mais distante do que parecia no mapa e, quando olhei para trás, a embarcação pirata vinha numa furiosa perseguição. A visão daquele barco viajando em tal velocidade atrás de nós, os remos flamejando para a frente e para trás, me fascinou. Não conseguia desviar os olhos. Não havia tempo de dar água aos homens, e, de qualquer modo, eu tinha bastante dificuldade em manter o equilíbrio, pois nosso barco nunca tinha viajado a tal velocidade. Enquanto observava, podia perceber que a embarcação pirata se aproximava. Os remadores não podiam se permitir perder a concentração. O bem-estar de todos a bordo dependia agora de sua habilidade e do seu esforço». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião, 

Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «Agora, descontraiu o rosto e segurou meu braço, vamos caminhar um pouco no jardim e poderá colocar flores na sepultura da mulher do mendigo»

Cortesia de wikipedia e jdact

Zarita

«(…) Eu estava prestes a bater, disse ele sem hesitação. Minha tia, intencionalmente, olhou para o corredor mais além dele. Que descortesia da irmã que está como porteira hoje não tê-lo conduzido pessoalmente aos meus aposentos. Eu recusei a ajuda de sua porteira, explicou o sacerdote, e disse-lhe que encontraria sozinho o caminho para a sua sala. Espero que não se importe. De modo algum, retrucou minha tia agradavelmente. Entre. A irmã Maddalena levantou-se. Vou trazer uma infusão de menta para refrescá-lo. O padre se instalou numa cadeira. Passa um dia agradável... ,conversando?, indagou-me. Minha sobrinha e eu rezamos enquanto trabalhamos, padre, respondeu minha tia. Ah, sim, Zarita é filha de sua irmã, não é mesmo? Posso ver a semelhança entre vocês, principalmente os olhos. Zarita é parecida com a mãe, e diziam que nós duas éramos como irmãs gémeas. Mas diga-me, padre, minha tia baixou o véu sobre o rosto, como andam as suas investigações? O padre Besian franziu a testa. Os muçulmanos fugiram, e os judeus se isolaram. Como deveriam, acrescentou. Temos sido convocados a arbitrar pequenas disputas, mas, até agora, ninguém nos forneceu qualquer informação séria a respeito de práticas heréticas. Alegro-me em ouvir isso. Mas eu não. Não? Não. Isso apenas significa que há coisas profundamente ocultas. Isso não significaria que não há nada impróprio por aqui? Tenho notado hábitos relaxados. Irmã Maddalena retornou com os copos cheios de água quente adocicada na qual foi colocada uma infusão de folhas de menta. O padre Besian apanhou o copo que lhe foi oferecido. Vejam, eis um exemplo do que digo. A bandeja sobre a qual servem essas bebidas é de origem árabe com escritos na linguagem deles. Sabem o que significa? Houve uma pausa que durou o tempo de uma batida cardíaca. Eu não saberia dizer.

Minha tia havia falado uma inverdade, se não uma mentira directa, certamente uma afirmação feita com a intenção de enganar o ouvinte, e fiquei imaginando como justificaria isso a seu confessor. Eu sabia que minha tia estudara árabe a fim de ler certos textos para que seus pacientes pudessem beneficiar do conhecimento superior que ela afirmava que os mouros tinham de medicina. Pode até ser alguma blasfémia trazida para o interior das paredes de um mosteiro e que ignoram. Como minha tia nada disse, ele ergueu seu copo. Esta bebida também é de origem moura. Minha tia pestanejou. Creio que vai descobrir que a própria rainha bebe uma infusão feita com folhas de menta. O padre Besian abanou a mão. Não cabe a alguém saber o que a rainha faz ou deixa de fazer. Esses são exemplos de irregularidades nesta cidade que me causam inquietação. Sua ordem não é reconhecida pela igreja..., isso por si só poderia constituir uma heresia, combinada com a falta de respeito mostrada na Santa Missa pelo criado de seu cunhado.

Minha tia levantou-se e foi até um armário no canto da sala. De lá, tirou uma caixa, a qual abriu. Entregou ao padre Besian o pergaminho que ela continha. Esta é a escritura do terreno deste convento-hospital, terras que me foram concedidas pela rainha Isabel para que eu pudesse fundar um hospital com um grupo de irmãs para cuidar dos necessitados. A fundação de minha ordem foi feita com sua aprovação. Nossa petição por reconhecimento, apoiada pela rainha, está no Vaticano à espera da atenção do Santo Padre. O rosto do padre Besian se comprimiu ao ler o pergaminho. Minha tia devolveu-o à caixa e fechou a tampa com um forte estalo. Se isso é tudo o que consegue encontrar de errado na nossa cidade, comentou decisivamente, um adulto com a mente de uma criança e uma freira que bebe chá de menta, receio que possa estar escarnecendo do trabalho da Inquisição (maldita). O corpo do sacerdote vibrou com raiva contida enquanto ele se levantava para ir embora.

Vejo essas transgressões como indícios de delitos mais profundos. Mas sou um homem paciente e determinado e vou descobrir o que as pessoas desejam ocultar. Houve silêncio entre mim e minha tia enquanto a irmã Maddalena conduzia o padre Besian para fora do convento. Eu senti medo, mas não entendi porquê. Minha tia se aproximou de mim e colocou os lábios perto do meu ouvido. Providencie para que a sua governanta, Serafina, sirva carne de porco no jantar de amanhã. Dei um sorriso intrigado. Meu pai não gosta de carne de porco. Nunca é servida em nossa casa. Sabe disso. Minha tia não retribuiu meu sorriso. Em vez disso, adoptou uma aparência muito séria e continuou falando num tom de voz bem baixo. Ouça, Zarita. Faça o que estou mandando. Diga a seu pai, em particular, que eu falei que isso deve acontecer. Ele entenderá e concordará. Agora, descontraiu o rosto e segurou meu braço, vamos caminhar um pouco no jardim e poderá colocar flores na sepultura da mulher do mendigo. Eu sei que gosta de fazer isso. Passear pelas trilhas bem cuidadas do jardim murado me acalmou, e passei algum tempo rezando ao lado da sepultura que eu zelava. A caminho de casa, porém, minha paz foi despedaçada. Fui recebida por Serafina, que veio correndo para mim enquanto me aproximava de nossa propriedade. Ela chorava e torcia as mãos. O que houve?, perguntei-lhe. Eles o prenderam! Os soldados da Inquisição (maldita) o levaram para ser interrogado. Quem?, indaguei. Quem foi levado para ser interrogado? Meu sobrinho, bradou, e caiu no choro mais uma vez. Eles prenderam Bartolomé». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «E o que diria o bondoso Jesus da decisão dela de instituir uma Inquisição (maldita) que pode usar tortura ao questionar um acusado?»

Cortesia de wikipedia e jdact

Zarita

«(…) Em poucos dias a cidade de Las Conchas mudou completamente. As lojas e as barracas da feira tornaram-se muito mais silenciosas. Havia menos pessoas nas ruas, e as que saíam de casa olhavam desconfiadas umas para as outras. Forasteiros, anteriormente bem-vindos como estímulo para o comércio, agora eram evitados. Os pescadores árabes partiram silenciosamente nos seus sambucos e não voltaram. Dizia-se que os judeus tinham trancado as suas casas e permanecido dentro delas a noite toda e a maior parte das horas do dia. Tínhamos sido uma cidade sossegada com um porto razoavelmente movimentado. Agora éramos uma comunidade fechada onde vizinhos mal se cumprimentavam ao se encontrar na rua. Para minha contrariedade, fui impedida de fazer minha cavalgada diária. Garci disse-me que o pai lhe dera instruções para que nem Lorena nem eu saíssemos da propriedade sem sua permissão. Para evitar encontrar-me com o padre Besian, eu normalmente ia ao convento-hospital após a missa de cada manhã e passava lá a maior parte do dia na companhia de minha tia e suas freiras.

Independentemente de qualquer consideração moral a respeito de uma religião ter ou não o direito de impor suas regras sobre as de outra, os actos da Inquisição (maldita) estão arruinando a economia de nossa cidade, comentou a irmã Maddalena, a suplente de minha tia no convento, ao nos sentarmos certo dia na sala de estar, enquanto preparávamos bandagens e conversávamos. Cuidado, irmã Maddalena, minha tia olhou em direcção à porta, nunca se sabe quem está ouvindo. Irmã Maddalena, uma mulher grande e agitada que havia criado uma família de dez filhos e enterrado três maridos antes de dedicar sua vida a Deus, sacudiu a cabeça. Nossas irmãs aqui jamais trairiam uma à outra, mas, de qualquer modo, não ligo para quem ouve quando falo a verdade. As pessoas estão com medo de sair, de negociar, de fazer qualquer coisa que possa ser interpretada como oposição à Igreja. Temem que alguma pessoa intrometida as denuncie. Baixei a voz e disse: Acredita que uma religião não tem o direito de impor suas regras à outra? Certamente, como bons cristãos, é nosso dever evangelizar. É também o do rei e o da rainha, rebateu minha tia cuidadosamente. A rainha Isabel, em particular, acredita que faz a Vontade de Deus em sua missão de unir toda a Espanha sob a bandeira da Cruz.

E o que diria o bondoso Jesus da decisão dela de instituir uma Inquisição (maldita) que pode usar tortura ao questionar um acusado? A irmã Maddalena bufou em escárnio. Ela acha que é melhor sofrer na terra e alcançar uma paz eterna no céu. Irmã Maddalena inclinou-se para mais perto. Meu primo de Saragoça contou que ela mandou que seis criminosos fossem castrados, depois enforcados, arrastados e esquartejados em público diante da catedral. Ela é uma rainha monstruosa, comentei com emoção, capaz de permitir que muitos sejam condenados a uma morte tão terrível. Não tão monstruosa, reflectiu minha tia. Ela é inteligente e possui uma certa bondade, principalmente em relação à família e aos amigos, mas, quando resolve fazer uma coisa, ela tem de ser feita. Tem de reconhecer que, quando ela herdou o trono de Castela do meio-irmão Henrique, assumiu um reino arruinado. Durante seu reinado, Henrique concedera favores a homens e mulheres malvados e venenosos. A corte era apenas uma instituição que buscava o prazer, com pouca distribuição de ordem ou justiça. Bandidos vagavam pelas terras. Não havia leis. Isabel mudou isso, mas o nível de corrupção era tal, mesmo entre os nobres, que ela teve de ser implacável para fazer isso. Tem sido criticada pela falta de piedade, mas agora os lavradores podem cultivar suas terras e colher as safras, e viajantes podem circular pelas estradas sem serem molestados. A conhece!, exclamei.

Minha tia confirmou com a cabeça. Conheci. Anos atrás, passei algum tempo na corte e sei que a vida dela não tem sido fácil. Quando criança, foi mantida num castelo sombrio, protegida e orientada apenas por uma austera e, segundo alguns, enlouquecida mãe. Foi influenciada por seu confessor, um fanático, e acho que ainda é o caso. E acredita nessa missão da rainha e do rei?, perguntei. Minha tia abriu a boca para responder, mas parou e pendeu a cabeça num gesto de quem está ouvindo algo. Ergueu a mão e colocou o dedo sobre os lábios. Então, levantando-se rapidamente, avançou e abriu a porta. O padre Besian estava parado ali». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião, 

Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «Será que Zarita me pode acompanhar até ao hospital para uma visita? Meu pai concordou com a cabeça, com certo alívio, pensei»

Cortesia de wikipedia e jdact

Zarita

«(…) O padre Besian chegara à parte do sermão em que exortava a congregação a ser vigilante e a informar a ele e aos seus agentes da Inquisição (maldita) qualquer delito que precisassem. Devem informar qualquer caso que possa ser um acto de heresia. Ainda se a pessoa de que se suspeita seja um irmão, uma irmã, um pai ou um filho. Sim, estrondeou, seja uma filha que suspeite de um pai, ou uma mãe do seu próprio filho! Eu os condenarei à dor do pecado mortal. Arriscarão a danação de sua alma imortal se permanecerem calados. Minha tia inspirou fundo. Arrisquei um olhar de relance para o pai e vi a sua mandíbula se apertar e o rosto ficar sombrio. Ao lado encontravam-se os ajudantes de nossa residência. Estavam sentados num banco, empertigados, numa atitude de apreensão. Todos, excepto Bartolomé, que sempre se portava da mesma maneira na igreja: sorria, brincava com os dedos e cantava baixinho para si mesmo. Mas, quando o sermão durou mais do que o normal, para temor de todos, ele começou a fazer ruídos de estouros com a boca.

O padre Besian ergueu a voz para cobrir a interrupção.

Bartolomé igualou-se ao desafio. Encheu as bochechas de ar e, antes que Serafina conseguisse impedi-lo, bateu nelas com ambas as mãos, causando o som de peido mais alto ouvido por algum tempo na igreja. Uma risadinha formou-se na minha garganta. Fingi tossir. Junto a mim, senti o corpo de minha tia se sacudir e notei que ela também contivera uma risada. As feições do padre Besian foram tomadas pela raiva. Fez uma pausa e olhou do púlpito abaixo para Bartolomé, que alegremente acenou para ele. Bartolomé costumava acenar para o padre Andrés quando este fazia a sua pregação, e ele acenava de volta. Bartolomé não via motivo para que esse padre fosse diferente do outro. O padre Besian encurtou o sermão e desceu a escada do púlpito.

Encerrado o serviço religioso, saímos para o ar fresco, onde respiramos mais facilmente. Serafina segurou Bartolomé pela mão e saiu caminhando rapidamente, seguida pelo resto dos nossos criados. Notei que os outros habitantes fizeram o mesmo; após as cerimónias na igreja, eles normalmente se demoravam por ali para conversar com parentes e amigos e se actualizar com as notícias, mas, dessa vez, saíram apressadamente. Quem era aquele idiota que interrompeu meu sermão? O padre Besian aproximou-se de nós, obviamente ainda furioso pela afronta à sua dignidade. O pai abriu a boca para responder, mas tia Beatriz interrompeu delicadamente. Ele é de facto um idiota, mui reverendo padre. Uma alma simplória. Foi um sábio por ter percebido isso. Há aqueles, menos perceptivos, que teriam ficado incomodados com tal má educação. O padre Besian dirigiu olhos astutos para minha tia. Você é...? Minha tia curvou a cabeça. Beatriz Marzena, freira do convento-hospital dirigido pelas Irmãs de Compaixão. Como freira, não deveria estar no interior dos muros do seu mosteiro? Sou irmã da primeira esposa de dom Vicente e, como tal, sou parte da sua família. Ele me informou do desejo do reverendo de que todos os membros da família comparecessem à sua pregação hoje. O padre Besian inspeccionou minha tia e então disse: As Irmãs de Compaixão? Tenho viajado por muitas partes da Espanha, fazendo a obra da Santa Inquisição (maldita), e nunca ouvi falar de tal ordem.

Eu mesma a fundei, informou-lhe minha tia. Ainda não fomos reconhecidas formalmente pelo nosso Santo Padre, o papa. O padre Besian inspirou rapidamente. De facto?, disse. Foi a vez de meu pai interromper. Preciso cuidar de alguns assuntos, dirigiu-se ele ao padre. Se não precisa de mim no momento... O padre Besian abanou a mão num gesto de dispensa. Minha tia aproveitou a oportunidade para se afastar um pouco. E falou para meu pai: Será que Zarita me pode acompanhar até ao hospital para uma visita? Meu pai concordou com a cabeça, com certo alívio, pensei». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

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domingo, 5 de dezembro de 2021

Philippa Gregory. O Substituto. «A abadia é perto do castelo, creio que podemos pedir abrigo no mosteiro ou no convento. Iremos ao convento, decidiu Luca. A carta diz que esperam por nós»

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Abadia de Lucretili. Outubro de 1453

«(…) E está me espionando? Não..., nada faço e nada sei. Está espionando quem, então? Deve ser o jovem senhor, meu pardalzinho. Pois não há ninguém além dos cavalos, e eles não são hereges ou pagãos: são os únicos animais honestos aqui. Ele está aqui como meu copista, respondeu Luca, irritado. E terá de ficar, precise eu de um copista ou não. Então modere sua língua. Eu preciso de um copista?, perguntou Freize, falando sozinho enquanto puxava as rédeas do cavalo. Não. Pois nada faço e nada sei e, se eu fizesse, não escreveria a respeito... Não confiaria as palavras a uma página. Além disso, provavelmente não saber ler nem escrever fosse um impedimento. Tolo..., disse o copista Peter, ao passar no seu cavalo. Tolo, diz ele, murmurou Freize, dirigindo-se ao cavalo e à estrada que se inclinava suavemente diante deles. É fácil falar: difícil é provar. De qualquer modo, já me chamaram de coisa pior.

Cavalgaram o dia todo num trilho, não muito maior que um caminho estreito para cabras, que subia sinuosa para além do vale fértil, junto aos platôs suaves onde cresciam oliveiras e vinhedos, e ia ainda mais alto, adentrando o bosque onde as imensas faias se coloriam de ouro e bronze. Quando veio o poente e o firmamento arqueado sobre eles ficou rosado, o copista retirou um papel do bolso interno do casaco. Ordenaram-me que lhe entregasse isto ao pôr-do-sol, falou. Perdoe-me se forem más notícias, não sei o que diz. Quem lhe deu?, perguntou Luca. O selo no verso da carta dobrada era brilhante e liso, sem timbre algum. O mestre que me contratou, o mesmo que o comanda, respondeu Peter. É assim que suas ordens chegarão: ele me diz o dia e a hora ou, às vezes, um destino, e lhe entrego as ordens quando chegar. Ficarão escondidas no seu bolso o tempo todo?, perguntou Freize. O copista assentiu, imponente. Podemos sempre virá-lo de pernas para o ar e sacudi-lo, comentou Freize, em voz baixa, com seu senhor. Faremos como nos foi ordenado, respondeu Luca, jogando as rédeas do cavalo pelo ombro para deixar as mãos livres e romper o lacre, abrindo o papel dobrado. É uma instrução para ir à abadia de Lucretili, disse. A abadia fica entre duas casas, um convento e um mosteiro. Devo investigar o convento. Estão nos esperando. Ele dobrou a carta e a devolveu a Peter. Aí diz como chegar lá?, perguntou Freize, rabugento. Caso contrário, passaremos os dias em camas sob as árvores e sem nada além de pão frio para a ceia. Castanhas de faia, suponho. Todas as castanhas que conseguirmos comer. Podemos comê-las até enlouquecer. Talvez eu tenha a sorte de encontrar um cogumelo para nós. A estrada fica bem à frente, interrompeu Peter. A abadia é perto do castelo, creio que podemos pedir abrigo no mosteiro ou no convento. Iremos ao convento, decidiu Luca. A carta diz que esperam por nós.

Não parecia que o convento estivesse esperando por alguém. Estava escurecendo, mas não havia luzes calorosas e acolhedoras, e nenhuma porta aberta. As cortinas estavam fechadas em todas as janelas da parede externa, e apenas feixes estreitos da luz de velas bruxuleavam pelas frestas. No escuro, não era possível avaliar o tamanho do prédio, tinham apenas uma ideia dos grandes muros de cada lado do largo e arqueado vão de entrada. Uma fraca lanterna de chifre estava pendurada na portinhola do enorme portão de madeira, lançando uma luz amarela e fraca para baixo. Quando Freize desmontou e bateu no portão de madeira com o punho da adaga, eles puderam ouvir alguém lá dentro reclamando do barulho e abrindo uma pequena vigia na porta para espiar o grupo. Meu nome é Luca Vero, trago dois criados, gritou Luca. Esperam por mim. Deixe-nos entrar. A vigia se fechou com um estrondo, e eles ouviram o portão ser destrancado lentamente, e as travas de madeira, erguidas. Por fim, um lado do portão se abriu numa fresta, um pouco relutante. Freize levou seu cavalo e o burro. Luca e Peter cavalgaram pelo pátio calçado de pedras enquanto uma serviçal robusta fechava o portão. Os homens desmontaram e olharam em volta enquanto uma velha ressequida, usando hábito de lã cinza e trazendo um tabardo da mesma cor amarrado na cintura por uma corda, ergueu o archote que carregava para examinar os três. Você é o homem que enviaram para a inquisição? Pois se não for e quiser apenas nossa hospitalidade, é melhor ir ao mosteiro, nossa casa irmã, disse a Peter, olhando para ele e para seu belo cavalo. Esta casa vive tempos difíceis, não queremos hóspedes». In Philippe Gregory, O Substituto, 2012, Editora Galera Record, Colecção Ordem da Escuridão, 2015, ISBN 978-850-140-319-3.

 Cortesia de EGRecord/JDACT

Itália, Século XV, JDACT, Literatura, Philippa Gregory, 

sábado, 4 de dezembro de 2021

O Substituto. Philippa Gregory. «Alguns meses depois, Luca estava na estrada de Roma cavalgando para leste. Vestia um manto simples e uma capa marrom-avermelhada, e cavalgava a sua mais nova aquisição»

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O Castelo de Lucretili. Junho de 1453

«(…) Claro que não fiz isso. Lamento, fiquei bêbado como um idiota e disse a ele que poderia ir defender a própria causa. Porque abriu a porta? Porque acreditei que seu amigo era um homem honrado, assim como você. Agiu muito mal ao destrancar a porta, repreendeu o irmão. Abrir a porta de seus aposentos a um homem, a um bêbado! Você não sabe se cuidar. Meu pai tinha razão, temos de colocá-la num lugar seguro. Eu estava segura! Estava no meu próprio quarto, no meu próprio castelo, conversando com o amigo de meu irmão. Não deveria haver riscos, respondeu, zangada. Você não devia ter trazido um homem desses à nossa mesa de jantar. Meu pai nunca deveria ter acreditado que ele seria um bom marido para mim. Ela levantou-se e foi à nave central, seguida pelo irmão. Mas, afinal, o que disse que o aborreceu tanto? Isolde conteve um sorriso ao pensar na caçarola chocando contra a cabeça gorda do príncipe. Deixei meus sentimentos bem claros. E nunca mais me encontrarei com ele. Ora, isso vai ser fácil, disse Giorgio asperamente, já que nunca será capaz de se encontrar com homem algum. Se não se casar com o príncipe Roberto, terá de ir para a abadia. O testamento de nosso pai não lhe deixa alternativa. Isolde parou para absorver as palavras dele e, hesitante, pôs a mão no seu braço, perguntando como poderia convencê-lo a deixá-la livre.

Não adianta ficar assim, disse ele, de forma rude. Os termos do testamento são claros, eu lhe disse ontem à noite. Era o príncipe ou o convento. Agora é só o convento. Partirei em peregrinação, propôs. Vou para longe daqui. Não partirá. Como sobreviveria, para começar? Não consegue manter-se segura nem dentro da própria casa! Ficarei com alguns amigos de pai, qualquer um. Posso procurar o filho do meu padrinho, o conde da Valáquia, ou posso ir atrás do duque de Bradour... Ele estava sério. Não pode. Sabe que não pode. Deve fazer o que o pai ordenou. Não tenho escolha, Isolde. Deus sabe que eu faria qualquer coisa por você, mas o testamento é claro e tenho de obedecer a meu pai, assim como você. Irmão..., não me obrigue a isso. Ele virou-se para a parede em arco da capela e encostou a testa na pedra fria, como se estivesse com dor de cabeça. Irmã, nada posso fazer. O príncipe Roberto era a sua única chance de escapar da abadia. É o testamento de nosso pai. Jurei sobre sua espada, sobre sua própria espada, que cuidaria para que fosse cumprido. Minha irmã..., não há nada que eu possa fazer, nem você. Ele prometeu que deixaria sua espada para mim. É minha agora, como todo o resto. Ela pôs a mão no ombro do irmão, gentilmente. Se eu fizer um juramento de celibato, não posso ficar aqui com você? Não me casarei com ninguém. O castelo é seu, bem vejo. No fim, ele fez como todos os homens e favoreceu o filho em detrimento da filha. No fim, fez como todos os grandes homens e excluiu a mulher da riqueza e do poder. Mas, se eu morar aqui, pobre e sem poder, sem jamais ver um homem, obediente a você..., não posso ficar? Ele negou com a cabeça. Não é minha vontade, mas a dele. E é assim, como você mesma admite, que o mundo funciona. Ele a criou quase como se você tivesse nascido menino, com riqueza e liberdade demais. Mas, agora, você deve viver como uma nobre. Deveria ficar feliz, pelo menos, com a proximidade da abadia, assim não precisará se afastar muito das terras que sei que ama. Não foi mandada para o exílio, ele podia tê-la enviado a qualquer lugar. Em vez disso, ficará na nossa propriedade: na abadia. Vou vê-la de vez em quando. Levarei as novidades. Talvez depois você possa cavalgar comigo. Ishraq poderá ir comigo? Pode levar Ishraq, pode levar todas as suas damas, se desejar e se elas estiverem dispostas a ir. Mas esperam por você na abadia amanhã. Terá de ir, Isolde. Terá de fazer seus votos de freira e tornar-se abadessa. Não tem alternativa. Ele a encarou novamente e viu que tremia como uma jovem égua forçada aos arreios pela primeira vez. É como ser aprisionada, sussurrou. E não fiz nada de errado. Ele também tinha lágrimas nos olhos. É como perder uma irmã. Estou sepultando um pai e perdendo uma irmã. Não sei como será sem você por aqui.

 

Abadia de Lucretili. Outubro de 1453

Alguns meses depois, Luca estava na estrada de Roma cavalgando para leste. Vestia um manto simples e uma capa marrom-avermelhada, e cavalgava a sua mais nova aquisição. Estava acompanhado pelo criado, Freize, um jovem de ombros largos e cara quadrada, que recobrara a coragem quando Luca saiu do mosteiro e se voluntariara para trabalhar para o jovem, seguindo-o aonde a missão o levasse. O abade teve suas dúvidas, mas Freize o convenceu de que era um péssimo cozinheiro e de que seu amor pela aventura era tão forte que serviria melhor a Deus se acompanhasse um senhor extraordinário numa busca secreta ordenada pelo próprio papa, em vez de queimar o bacon dos monges resignados. O abade, secretamente feliz em se desfazer do noviço trocado pelas fadas, considerou que a perda de um criado propenso a acidentes era um preço pequeno a pagar.

Freize montava um cavalo forte de pernas curtas e guiava um burro carregado com os pertences. Na rectaguarda da procissão, ia um anexo surpresa à parceria: um clérigo, o irmão Peter, que, em cima da hora, recebeu ordem de viajar com eles e manter um registo do trabalho. Um espião, murmurou Freize pelo canto da boca. Um espião, se é que já vi um. Pálido, de mãos macias, com olhos castanhos e crédulos. Tem a cabeça rapada de um monge, mas os trajes de um cavalheiro. Um espião, sem dúvida». In Philippe Gregory, O Substituto, 2012, Editora Galera Record, Colecção Ordem da Escuridão, 2015, ISBN 978-850-140-319-3.

Cortesia de EGRecord/JDACT

Itália, Século XV, JDACT, Literatura, Philippa Gregory,

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

O Substituto. Philippa Gregory. «Ele vai viver, afirmou, com convicção. Mas a sua falta não seria sentida se cortássemos sua garganta na surdina. É claro que não podemos fazer isso, respondeu Isolde, trémula»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Castelo de Lucretili. Junho de 1453

«(…) Nas suas costas, os dedos de Isolde apertaram o cabo da caçarola. Quando Roberto parou para desamarrar a frente dos calções, ela teve um vislumbre nauseante da sua roupa de baixo cinza. Ele tentou agarrar-lhe o braço. Não preciso machucá-la, disse. Talvez você até goste... Girando o braço que segurava a caçarola, ela acertou um golpe na lateral da cabeça do homem. Brasas e cinzas caíram no seu rosto e no chão. Ele soltou um uivo de dor enquanto ela se desvencilhava e o golpeava outra vez com força; ele caiu como um boi gordo no matadouro. Isolde pegou num jarro, despejou água no carvão em brasa no tapete debaixo do homem e, com cautela, cutucou-o com o pé calçado com chinelo. Ele não se mexeu: estava inconsciente. Ela entrou numa saleta e destrancou a porta, chamando em voz baixa: Ishraq! Quando a menina apareceu, esfregando os olhos para se livrar do sono, Isolde lhe mostrou o homem caído no chão. Está morto?, perguntou a garota, com calma. Não, acho que não. Me ajude a tirá-lo daqui. As duas puxaram o tapete com o corpo flácido do príncipe Roberto pelo chão, deixando para trás uma trilha viscosa de água e cinzas. Levaram-no para a galeria na frente do quarto e pararam. Imagino que seu irmão tenha permitido que ele a procurasse? Isolde assentiu, e Ishraq virou a cabeça e cuspiu na cara branca do príncipe com desdém. Porque abriu a porta? Pensei que ele me ajudaria. Ele disse que tinha uma ideia para minha situação e depois entrou à força. Ele a machucou? Os olhos negros da menina percorreram o rosto da amiga. O que houve com sua testa? A porta bateu em mim quando ele a empurrou. Ele ia violá-la? Isolde assentiu. Então, ele que fique aqui, decidiu Ishraq. Pode recobrar a consciência no chão, como o cão que é, e se arrastar até ao quarto. Se ainda estiver aqui pela manhã, os criados o encontrarão e ele será motivo de chacota. Ela se abaixou e tentou sentir a pulsação dele no pescoço, nos pulsos e sob o cós volumoso dos calções. Ele vai viver, afirmou, com convicção. Mas a sua falta não seria sentida se cortássemos sua garganta na surdina. É claro que não podemos fazer isso, respondeu Isolde, trémula.

Elas o deixaram ali, deitado de costas como uma baleia encalhada e com os calções ainda desamarrados. Espere aqui. Ishraq foi ao próprio quarto e voltou depressa com uma caixinha na mão. Com delicadeza, usando apenas as pontas dos dedos e fazendo uma careta de nojo, mexeu nos calções do príncipe, deixando-os abertos. Então ergueu a camisa de linho, para que sua nudez flácida ficasse bem visível, tirou a tampa da caixa e jogou a especiaria na pele nua. O que está fazendo?, sussurrou Isolde. É pimenta seca, muito forte. Ele vai se coçar como se tivesse varíola e ficará com bolhas de assadura. Vai se arrepender muito desta noite. Vai ficar se coçando, arranhando e sangrando por um mês, e não incomodará mulher nenhuma por um bom tempo.

Isolde riu, estendeu a mão para a amiga, como o pai teria feito, e as duas mulheres juntaram os braços com as mãos nos cotovelos, como fazem os cavalheiros. Ishraq sorriu, e elas se viraram e voltaram ao quarto, fechando e trancando a porta diante do príncipe humilhado. Pela manhã, quando Isolde foi à capela, o caixão do pai estava fechado e pronto para ser sepultado na cripta da família, e o príncipe fora embora. Ele retirou a proposta pela sua mão, disse o irmão, com frieza, ao assumir seu posto, ajoelhando-se ao lado dela nos degraus da capela-mor. Imagino que tenha acontecido alguma coisa entre os dois? Ele é um patife, respondeu Isolde. E se você o mandou à minha porta, como ele alegou, então você me traiu. Ele baixou a cabeça». In Philippe Gregory, O Substituto, 2012, Editora Galera Record, Colecção Ordem da Escuridão, 2015, ISBN 978-850-140-319-3.

Cortesia de EGRecord/JDACT

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