terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «O navio pirata estava distante apenas poucas centenas de metros. Cada um por si!, bradou o capitão. Corram! Corram! Ele estendeu a mão para alcançar a magnífica jaqueta azul-pavão, e eu me inclinei para apanhá-la…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Saulo

«(…) O que podemos fazer?, perguntei ao capitão. Não conseguiremos lutar contra eles em terra muito mais do que conseguiríamos no mar. Nós vamos encalhar o barco, revelou-me. Ele agora estava ocupado enrolando os mapas e recolhendo seu material de navegação. O carpinteiro-cozinheiro jogava seus apetrechos num saco enquanto o resto da tripulação juntava a caixa de pederneiras, arpão, lanças e outras peças vitais do equipamento. Encha a garrafa de cada homem o mais depressa que puder. Vá!, gritou o capitão no meu rosto, enquanto eu o encarava estupidamente. Apressei-me a cumprir sua ordem. Panipat já estava ajoelhado ao lado dos escravos acorrentados, usando a chave na sua cintura para abrir os grilhões. Vislumbrei uma extensão de terra branca. Então o barco bateu nela fortemente e fui arremessado à frente. Fora! Fora!, berrou Panipat, e os homens saltaram para fora e arrastaram o barco pela areia o máximo que puderam. O navio pirata estava distante apenas poucas centenas de metros.

Cada um por si!, bradou o capitão. Corram! Corram! Ele estendeu a mão para alcançar a magnífica jaqueta azul-pavão, e eu me inclinei para apanhá-la e lhe entregar. Era pesada. Ele correria menos com aquilo às costas. Sua vaidade devia ser enorme, pensei, levando-o a querer manter o casaco consigo mesmo que isso pudesse lhe custar a vida. Tome, falou. Você é mais rápido do que eu. Colocou os mapas num comprido estojo cilíndrico feito de couro endurecido, oleado para ser à prova d’água, e entregou-me para carregá-lo. Abrigue-se primeiro, disse-me, depois corra para o ponto mais alto da ilha. Os remadores apanharam as posses que mantinham debaixo dos bancos, cada marinheiro com seu saco de bugigangas contendo os objectos pessoais. Eu nada tinha, além do estojo com os mapas, mas sabia que ele era importante. E, de um modo infantil, senti-me contente por aquilo ter sido confiado a mim. Nós nos espalhamos, correndo para longe do barco em direcção à densa folhagem do interior da ilha.

Eu acenderei uma fogueira na praia quando eles tiverem ido embora, gritou o capitão Cosimo para os seus homens. Vocês verão a fumaça e saberão que poderão sair. Rezem para que não haja canibais aqui. Ouvi um dos homens dizer ao nos embrenharmos entre as árvores. Ou, se houver, vamos rezar para que não estejam com fome. O alívio por terem escapado da linha de fogo do inimigo levava-os a gracejar. O capitão me seguiu, golpeando cada lado à frente com sua bengala de bambu. Enquanto os homens corriam em todas as direcções para se proteger o melhor possível entre árvores e arbustos, o capitão me mandava seguir para terreno alto. Pelejando sob o peso da jaqueta, o capitão avançou acima com dificuldade até se encontrar a alguma distância da praia e a uma boa altura. Vamos descobrir o que eles pretendem. O capitão tomou posição atrás de uma árvore e me passou sua luneta. O que vê?, perguntou-me.

Focalizei o navio pirata, parado pouco antes dos recifes que protegiam a baía onde tínhamos encalhado. Eles lançaram um esquife com alguns homens armados a bordo. Será que vão destruir nosso barco?, indaguei, com medo de que pudéssemos ficar isolados e abandonados para morrer de fome. O capitão sacudiu a cabeça. Não creio. Essa tripulação não é do tipo que se dedica à guerra política ou religiosa. É uma questão de comércio; o modo como eles fazem negócio. Roubam e vendem. Olhou ele mesmo pela luneta e então a devolveu. Tomara que eles queiram apenas nossa água. Nossa carga é de pouca utilidade para eles. Olhou de relance para o céu. A noite está quase caindo. Não vão perder tempo nem gastar energia ou munição para nos caçar aqui nesta vegetação rasteira, pois poderíamos matar alguns deles antes que conseguissem capturar qualquer um de nós. Se tivéssemos sido capturados no mar, a história teria um fim diferente. Eles levariam os homens mais aptos como escravos e, provavelmente, colocariam o barco à deriva com o resto de nós dentro. Observei os piratas irem à praia e vasculharem a nossa nau. Pareciam marinheiros comuns, e comentei isso com o capitão. Ele deu uma gargalhada. O que você esperava? Que tivessem 3 metros de altura e barbas longas, carregando uma espada em cada mão e uma faca entre os dentes? A maioria de nós que está no mar de vez em quando faz uma pirataria. Soltou outra gargalhada ao ver meus olhos se arregalarem. Até mesmo navios de linha, portando bandeiras dos seus países, assegurou-me. Não hesitam em parar e, usando um ou outro pretexto, tomar mercadorias da sua preferência. Apertou mais em volta do corpo a jaqueta de pavão e alisou a manga. Em alguma ocasião, eu mesmo devo ter feito isso. E sorriu de modo astuto». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,