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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O Diabo dos Números. Hans Enzensberger. «Pois bem, Roberto, o velhote sorria agora outra vez, não há apenas números infinitamente grandes, mas também infinitamente pequenos. E eles são infinitos. Com estas palavras, o mafarrico fez rodar a bengala como uma ventoinha»

jdact

«(…) Estás apenas a fazer pouco de mim, disse o Roberto. Não confio em ti. Se me atormentares com trabalhos de casa, ainda por cima no sonho, começo a gritar. Isso é exploração do trabalho infantil! Se eu tivesse sabido que eras um cobarde tão grande disse o Diabo dos Números, nem sequer tinha vindo. Afinal, vim apenas para conversar um pouco contigo. Tenho a maioria das noites livres, e então pensei: … vou visitar o Roberto, deve estar farto de deslizar sempre pelo mesmo escorrega. É verdade. Pois então. Mas não me deixo enganar!, gritou o Roberto. Põe isso na tua cabeça. Então o Diabo dos Números deu um grande salto, e de um momento para o outro já não era assim tão pequeno. Não se fala dessa maneira com um Diabo!, gritou. Pisoteou a erva em volta até os caules ficarem espalmados no chão; os seus olhos deitavam chispas. Desculpa-me, murmurou o Roberto. Tudo aquilo começou a parecer-lhe um pouco inquietante.
Se é tão simples falar de Matemática da mesma maneira que de filmes ou de bicicletas, para que é preciso um Diabo? Por isso mesmo, meu caro, continuou o velhote. O que há de diabólico nos números é o facto de serem tão simples. Na realidade, tu nem precisas de uma máquina de calcular. Para começar, precisas apenas de uma coisa: o um. Com ele podes fazer quase tudo. Por exemplo, se tens medo dos números grandes, digamos, de cinco milhões setecentos e vinte e três mil oitocentos e doze, começa simplesmente assim:

1+1
1+1+1
1+1+1+1
1+1+1+1+1

e assim sucessivamente até chegares aos cinco milhões e tal. Não digas que isto é demasiado complicado! Isto até o mais idiota compreende. Ou não?
Sim, disse o Roberto. E isto não é tudo, continuou o Diabo dos Números. Tinha agora na mão uma bengala com castão de prata e esgrimia-a à frente do nariz do Roberto. Quando chegares aos cinco milhões e tal, limitas-te a continuar a contar. Vês logo que isso vai até ao infinito. Na verdade, existem infinitos números. O Roberto não sabia se devia acreditar nele. Como é que sabes?, perguntou ele. Já tentaste? Não, não tentei. Primeiro, porque iria demorar demasiado tempo; e, segundo, porque é supérfluo. O Roberto não se deixou impressionar.
Ou eu consigo continuar a contar até lá chegar, e então não é infinito, contrapôs, ou é infinito e eu não consigo contar até chegar lá. Errado!, gritou o Diabo dos Números. O seu bigode tremia, a cara ficou vermelha, a cabeça inchou de raiva e crescia cada vez mais. Errado? Errado porquê?, perguntou o Roberto. Burro! Quantas pastilhas elásticas pensas tu que foram mastigadas até ao dia de hoje em todo o mundo? Não sei. Mais ou menos. Muitas, disse o Roberto. Só o Alberto, a Berta e o Carlitos, e os da minha turma, e os da minha cidade, e os da Alemanha inteira, e os da América..., isto vai para os milhões.
Pelo menos, disse o Diabo dos Números. Bem, suponhamos que chegámos à última pastilha elástica. O que é que eu faço? Tiro do bolso uma nova pastilha elástica e já temos o número de todas as que foram mascadas até então mais uma: a seguinte. Percebeste? Não é preciso contar as pastilhas elásticas. Dou-te apenas uma receita, a maneira como isto continua. Não precisas de mais nada. O Roberto pensou durante um momento. Depois teve de concordar que o homem tinha razão. - A propósito, isto também funciona ao contrário, continuou o velhote. Ao contrário? O que queres dizer com ao contrário?
Pois bem, Roberto, o velhote sorria agora outra vez, não há apenas números infinitamente grandes, mas também infinitamente pequenos. E eles são infinitos. Com estas palavras, o mafarrico fez rodar a bengala como uma ventoinha diante da cara do Roberto. Assim fico tonto, pensou o Roberto. Era a mesma sensação de quando estava no escorrega, no qual tantas vezes deslizara para a profundidade. Pára!, gritou. Por que estás tão nervoso, Roberto? Isto é tão inofensivo. Repara, vou buscar outra pastilha elástica. Cá está ela…» In Hans Magnus Enzensberger, O Diabo dos Números, 1997, Asa Editores, Porto, 2001, ISBN 972-41-2000-7.

Cortesia ASA/JDACT

domingo, 23 de novembro de 2014

O Diabo dos Números. Hans Enzensberger. «Até que um dia apareceu o Diabo dos Números. O Roberto ficou aliviado por já não sonhar com um peixe esfomeado nem com deslizar sem parar de uma torre muita alta e vacilante por um escorrega interminável»

jdact e rotrautberner

A Primeira Noite
«Há já muito tempo que o Roberto estava farto de sonhos. Dizia para si mesmo; Faço sempre o papel de tolo. Por exemplo, nos sonhos era muitas vezes engolido por um peixe enorme e asqueroso, e quando isso acontecia vinha-lhe ao nariz um cheiro terrível. Ou então deslizava por um escorrega interminável, cada vez mais para baixo. Podia gritar alto! ou socorro!, tanto quanto quisesse que caía sempre cada vez mais depressa e durante muito tempo, até que acordava ensopado em suor. E os sonhos pregavam-lhe outra partida quando desejava alguma coisa com muita força: por exemplo, uma bicicleta de corrida com pelo menos vinte e oito velocidades. Sonhava então que a bicicleta, de cor lilás metalizada, estava à sua espera na cave. Era um sonho de uma incrível exactidão. Ali estava a bicicleta, à esquerda da garrafeira, e ele até sabia a combinação do cadeado: 12345. Até a brincar conseguia memorizar! Por vezes acordava a meio da noite, agarrava na chave da prateleira, ainda meio-bêbado de sono, e descia em pijama os quatro degraus..., e o que descobria ele à esquerda da garrafeira? Um rato morto. Que aldrabice! Uma partida de muito mau gosto. Com o tempo, o Roberto descobriu como defender-se daquelas maldades. Assim que começava um destes sonhos, pensava logo, sem acordar: Lá está outra vez aquele peixe velho e nojento. Sei muito bem como isto vai continuar. Quer engolir-me. Mas é óbvio que se trata de um peixe sonhado que, naturalmente, só me pode engolir em sonhos, e nada mais. Ou pensava: Lá estou eu a escorregar outra vez! Não há nada a fazer, não consigo parar de maneira nenhuma, mas não estou realmente a escorregar. E logo que apareceu pela segunda vez a maravilhosa bicicleta de corrida, ou um jogo de computador que ele queria a todo o custo, lá estava, bem visível e à mão de semear, ao lado do telefone, já sabia que se tratava outra vez de uma grande aldrabice, e então não voltava a olhar para a bicicleta. Deixava-a simplesmente ali. Mas, por mais esperto que fosse, era sempre tudo uma grande maçada, e por isso não se podia falar com ele dos seus sonhos. Até que um dia apareceu o Diabo dos Números. O Roberto ficou aliviado por já não sonhar com um peixe esfomeado nem com deslizar sem parar de uma torre muita alta e vacilante por um escorrega interminável. Em vez disso, sonhava com um prado. Só estranhava que as ervas fossem tão altas que ultrapassavam os seus ombros e a cabeça. Olhou em volta e viu à sua frente um senhor muito velho e muito pequeno, mais ou menos do tamanho de um gafanhoto, que se baloiçava na folha de uma azeda e o olhava com olhos brilhantes. - Quem és tu?, perguntou o Roberto. O homem gritou-lhe, surpreendentemente alto: - Sou o Diabo dos Números! Mas o Roberto não tinha vontade nenhuma de aturar fosse o que fosse de um anão daqueles. – Primeiro, disse ele, não existe nenhum Diabo dos Números! - Ai não? Se eu não existo, por que é que estás a falar comigo? - E, segundo, odeio tudo o que tenha a ver com a Matemática. - E porquê? Se dois padeiros cozem 444 biscoitos em seis horas, quanto tempo demoram cinco padeiros a cozer 88 biscoitos? Que parvoíce!, continuou o Roberto a resmungar. – É uma maneira idiota de passar o tempo. Por isso, desaparece! Vai-te!
O Diabo dos Números saltou elegantemente da sua folha de azeda e sentou-se ao lado do Roberto, que em protesto se sentara na erva tão alta como um tronco de árvore. De onde vem essa história dos biscoitos? Provavelmente da escola. - Claro que sim, disse o Roberto. - O professor Bockel, aquele principiante que dá Matemática à nossa turma, tem sempre fome embora já seja muito gordo. Quando pensa que não estamos a ver, porque estamos entretidos a fazer os nossos exercícios de Matemática, tira com cuidado um biscoito da pasta e devora-o enquanto nós fazemos contas. - Bem, bem, disse o Diabo dos Números, sorrindo. - Não quero dizer nada contra o teu professor, mas isso não tem nada a ver com a Matemática. Sabes uma coisa? A maioria dos verdadeiros matemáticos não sabe fazer contas. E, depois, o tempo é-lhes demasiado precioso para perderem tempo a fazer contas. Para isso há as máquinas de calcular. Não tens uma? Tenho, mas não podemos utilizá-la na escola. - Ahá!, disse o Diabo dos Números. – Deixa lá. Um pouco de tabuada não faz mal a ninguém. Pode ser até muito útil quando a pilha acaba. Mas a Matemática, meu caro cisne, é uma coisa totalmente diferente!» In Hans Magnus Enzensberger, O Diabo dos Números, 1997, Asa Editores, Porto, 2001, ISBN 972-41-2000-7.

Cortesia ASA/JDACT

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Visão Imperfeita dum Parnaso Cristão. Carlos Corrêa Silva. «Frio não é Camões, que nunca talvez leste, quando Lianor cai pela fome vencida; ardente foi também a paixão dolorida que ao encerrar-me aqui senti por ti, Celeste»

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A uma Rapariga Linda e Doente
«Há frio no meu quarto onde sopra o nordeste,
branca parede está de retratos despida,
é de neve a ciência a que votei a vida,
deserto sem calor o da minh’alma agreste.

Frio não é Camões, que nunca talvez leste,
quando Lianor cai pela fome vencida;
ardente foi também a paixão dolorida
que ao encerrar-me aqui senti por ti, Celeste.

Brasa que se extinguiu, quimera que passou!
Diz-me uma voz que Deus ao tísico outorgou
o prazer de estudar, mas não o de casar.

Doce esquivança a tua e foi Deus que a mandou.
Minh’alma já não sonha o bem que então sonhou
e há muito tempo já por ti só quer’ rezar.

II
A minha poesia, eco do meu penar
ou sonho cerebral para o verso transcrito,
nasceu no sanatório e num quarto maldito
que o matutino sol não vinha visitar.

De longe em longe a aurora, em rápido passar,
dourava o pinheiral e à noite aerolito
de rumo incerto e vão fendia o infinito...
Mas tudo era fugaz, como a espuma do mar.

Hoje mudei de quarto... Alma desoprimida
horizontes de luz a tragos eu bebi
e a cura divisei que julgava perdida...

E tu, linda Celeste, irmã que eu tarde vi,
és a estrela a dizer ao náufrago da vida:
não te posso valer, mas tenho dó de ti.

III
Celeste, eu já parti… desta vez foi verdade.
Febre, sangue a correr, a saúde perdida
fez os meus procurar a mudança de vida
que dê vida às visões da sua ansiedade.

E tu foste ao partir anjo de caridade
dando-me o coração em terna despedida.
Vi então a amparar-me em trágica descida
a Heloísa ideal da minha mocidade.

Deus há-de coroar tua fronte formosa
pois bálsamo trouxeste ao pobre Prometeu
Agrilhoado ao leiro, à noite dolorosa.

Onde vou? Ninguém sabe. À morte? À vida? Ao céu?
... Quiseste ser p’ra mim a aurora luminosa
de um dia mais feliz que nunca amanheceu.
Sonetos de Carlos Corrêa Silva, in ‘Visão Imperfeita dum Parnaso Cristão’, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1932

JDACT

domingo, 6 de julho de 2014

Intervenção. Juventude / Adulto. Esperança. «Vida que às costas me levas porque não dás um corpo às tuas trevas? Porque não dás um som àquela voz que quer rasgar o teu silêncio em nós? Porque não dás à pálpebra que pede aquele olhar que em ti se perde? Porque não dás vestidos à nudez que só tu vês?»

jdact e cortesia de roquegameiro


«Pássaro breve
rompendo a chuva caída
na minha melancolia.
Ave voando
na chuva que vai caindo
em mim sem cair no dia.
Pássaro leve
cantando o sol que amanhece
Na noite que me entristece».


«Hoje quero com a violência da dádiva interdita.
Sem lírios e sem lagos
e sem gesto vago
desprendido da mão que um sonho agita.
Existe a seiva. Existe o instinto. E existe eu
suspensa de mundos cintilantes pelas veias
metade fêmea metade mar como as sereias».


«Baile de corpos intermédios
com luas mortas nos braços
sem desenlace e sem consequência.
Dança da solidão de mim e de outros
comigo no centro ignorada.
Bailado das palavras
com suportes de morte imediata.
Rio sem águas e sem fundo
com margem numa boca emudecida.
Silvo de serpentes que rastejam
famintas para o vértice da vida
onde me aparto de cansaços inúteis».


JDACT

Moody Blues. Adolescência / Juventude. «Estou, e num breve instante sinto tudo, sinto-me tudo. Deito-me no meu corpo e despeço-me de mim para me encontrar no próximo olhar»

jdact e wikipedia(Howard)


Trajecto
«Na vertigem do oceano
vagueio,
sou ave que com o seu voo
se embriaga.
Atravesso o reverso do céu
e num instante
eleva-se o meu coração sem peso.
Como a desamparada pluma
subo ao reino da inconstância
para alojar a palavra inquieta.
Na distância que percorro
eu mudo de ser,
permuto de existência,
surpreendo os homens
na sua secreta obscuridade,
transito por quartos
de cortinados desbotados
e nas calcinadas mãos
que esculpiram o mundo,
estremeço como quem desabotoa
a primeira nudez de uma mulher».


Manhã
«Estou,
e num breve instante
sinto tudo,
sinto-me tudo.
Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar.
Ausento-me da morte
não quero nada,
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão».


«Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira
A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos.
Educadamente mortos».


JDACT

Dire Straits. Adolescência / Juventude. «Mas se amanhã me olhares o teu olhar levantará nuvens de séculos sobre o meu caminho de pó. As folhas são pelo menos tão naturais como as palavras e a radical árvore tinha sido embora trabalhada vegetal e verde»

jdact e wikipedia


Povoamento
«No teu amor por mim há uma rua que começa.
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas.
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera.
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem.
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera».


JDACT

Filarmónica Fraude. Adolescência / Juventude. «Entre os canteiros cercados de buxo, sorri à sombra tremendo de medo. De joelhos na terra abri o repuxo, e os meus gestos foram gestos de bruxedo. Foram os gestos dessa encantação, que devia acordar do seu inquieto sono a terra negra dos canteiros»

jdact


O Jardim e a Noite
«Atravessei o jardim solitário e sem lua,
correndo ao vento pelos caminhos fora,
para tentar como outrora
unir a minha alma à tua,
ó grande noite solitária e sonhadora.

Entre os canteiros cercados de buxo,
sorri à sombra tremendo de medo.
De joelhos na terra abri o repuxo,
e os meus gestos foram gestos de bruxedo.
Foram os gestos dessa encantação,
que devia acordar do seu inquieto sono
a terra negra dos canteiros
e os meus sonhos sepultados
vivos e inteiros».


A amizade de João Brito e Capote 

The Shadows. Instrumental. Adolescência / Juventude. «E os telhados de Lisboa têm tábuas de chão e asas de silêncio atravessam o rio. Passeei contigo na solidão dos assentos etéreos dos amantes mal amados»

jdact e wikipedia

Era o Mar
«Era o mar límpido e movente
as pedras rasgadas por séculos de bater
há quanto não via o mar fascinante mover
salgada maresia no corpo deslizante
meu corpo deslizante para uma próxima dormência.
Eterna dormência que já sinto pesar
e há quanto tempo o mar foi
meu relógio de água, clepsidra para o fogo
futuro de uma justiça desejada movimento de maré
constante, comandado pela lua pálida mas forte no seu querer…».


JDACT

sábado, 23 de novembro de 2013

Os dias de Hoje. O Fim da Inocência. Diário Secreto de Uma Adolescente Portuguesa. Francisco Salgueiro. «Às vezes dava-me gozo perder uns minutos a pensar numa boa história para justificar a minha falta. Dizer que estava doente tinha sido utilizada apenas nos primeiros tempos, mas ultimamente gostava de coisas em grande»

Cortesia de wikipédia

«(…) Tudo isto são coisas que me contaram. Obviamente que com cinco anos não sabia nada disto. Se soubesse, seria um génio, e neste momento não me encontraria sentada aos pés da cama com um homem de quarenta e cinco anos. Provavelmente estaria na NASA a projectar uma nave espacial que nos levasse a Marte. Apesar de a Cesária ter batido na porta várias vezes, não me levantei. De vez em quando ia olhando para o relógio e via os minutos a passar. Pensava nos meus amigos no colégio, a apanhar gigantescas secas dos professores, mesmo sendo o último dia de aulas. Eu andava num dos colégios mais caros da zona da Linha. Um colégio internacional, onde se fala inglês, e onde estudam todos os filhos de embaixadores e de presidentes de multinacionais. É um colégio onde aparentemente todas as pessoas que o frequentam devem ser um exemplo em comportamento. Não sei bem quem terá inventado que ter dinheiro é sinal de possuir filhos sem esqueletos no armário. Mas já lá vou.
Deitada na cama, a olhar para o relógio, não deixava de pensar nas aulas que estava a perder, mas sobretudo na aula que decorria naquele momento. A aula onde o professor era o Mr. X, que eu já tinha apanhado várias vezes a olhar para as minhas ma… As minhas ma… mas são perfeitas. Pelo menos é o que as pessoas com quem vou para a cama costumam dizer. Para mim são grandes demais. São um empecilho, pesam muito. Mas os homens ficam hipnotizados. E o Mr. X não era excepção, tendo-o eu apanhado a olhar para elas várias vezes. Quando contei isso às minhas amigas, decidimos envergonhá-lo. Passámos a ir para as aulas dele com dois botões da camisa da farda do colégio desabotoados. Ele olhava para as minhas ma… como se estivesse a olhar para o Sol. Os olhos estavam continuamente a focar-se nelas, mas ao fim de um segundo lembrava-se que era professor e desviava de imediato o olhar. O problema é que quase todas nós estávamos assim e, por isso, para metade da sala onde olhasse, via camisas desapertadas, com maminhas bastante visíveis.
Ele sabia que não podia dizer nada à direcção do colégio, porque ninguém iria dar-lhe razão, em como nós é que o provocávamos. Afinal de contas, no corredor, as camisas estavam sempre compostas. Sabíamos disso e picávamo-lo o mais possível. Sempre que a aula acabava íamos lá para fora fazer apostas. Por exemplo, apostávamos em qual de nós estaria ele a pensar enquanto se masturbava nessa noite. A maior parte das vezes seria eu a visada, porque era para mim que ele mais olhava. Frequentemente, à noite, antes de adormecer, imaginava-o a pensar em mim e a bater uma. Sentia-me enojada. Lembrei-me que assim que me levantasse teria de ligar para o colégio e dizer que nesse dia não iria às aulas, fingindo ser a minha mãe. O que não era difícil porque a nossa voz é muito parecida. Já tinha feito isso antes. Primeiro, tinha começado a usar essa técnica como arma de sobrevivência, devido às constantes ausências dela. Desde que casara com o Fernando, a quem aos poucos comecei a chamar pai, um dos seus principais hobbies era viajar. Apesar de, por vezes, mostrar algumas casas a clientes muito importantes, ela precisava de ter novas histórias para contar às amigas. Precisava de mostrar as fotografias dos hotéis de cinco estrelas onde tinha estado e falar sobre a comida dos melhores restaurantes aonde tinha ido. Por tudo isso, as viagens tornaram-se frequentes.
Porém, ao contrário do que acontecia quando éramos pequenas, já não havia muitos familiares dispostos a ficar connosco. A minha avó morreu quando eu tinha sete anos, as tias e os tios já tinham problemas suficientes com os meus primos, e as tias por afinidade, comecei eu na altura a perceber, eram como a migração das aves: iam e vinham conforme as épocas do ano. Como tal, ficávamos em casa com as empregadas que existiam na altura. Apesar de a nossa mãe não ser uma figura muito presente, sentimos que, se isso passasse a acontecer, perderíamos a liberdade a que nos estávamos a habituar. Assim, eu e a minha irmã começámos a arranjar mecanismos para que ninguém percebesse que ficávamos sós. Imitar a voz dela ao telefone para justificar as faltas foi um deles.
Às vezes dava-me gozo perder uns minutos a pensar numa boa história para justificar a minha falta. Dizer que estava doente tinha sido utilizada apenas nos primeiros tempos, mas ultimamente gostava de coisas em grande. Do género: o meu padrasto ia ser condecorado pelo Presidente da República e nós íamos com a família ao Palácio de Belém. Foi quando estava a pensar em tudo isto que bateram de novo à porta do meu quarto. Sabia que não era a Cesária. Ela apenas nos avisava uma vez das nossas obrigações, para ficar de consciência tranquila. Pelo tipo de toque, percebi que devia ser a Rita, a minha melhor amiga. A única rapariga que me tinha dado um orgas… o superior ao proporcionado por qualquer homem». In Francisco Salgueiro, O Fim da Inocência, Diário Secreto de Uma Adolescente Portuguesa, Oficina do Livro, Lisboa, 2010, ISBN: 978 989 555 19 6.

Cortesia de Oficina do Livro/JDACT

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Os dias de Hoje. O Fim da Inocência. Diário Secreto de Uma Adolescente Portuguesa. Francisco Salgueiro. «Coloquei-o no ‘snooze’ várias vezes. À quarta vez, tomei oficialmente a decisão de me baldar. Uns segundos depois senti vários toques na porta. Era a empregada. A Cesária. Uma cabo-verdiana que os meus pais trouxeram daquele país há uns dois anos e tal»



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«(…) Tudo começou esta manhã, quando o alarme tocou às dez. Senti-me com falta de pachorra para ir às aulas. Queria ficar a dormir, pelo menos, dois dias de seguida. A noite fora passada com o homem de quem eu gosto. Os meus pais estão no estrangeiro há vários dias, e em minha casa apenas se encontrava a nossa empregada. A minha irmã, Mafalda, mais velha um ano, tinha aproveitado a ausência deles para ir dormir a casa do namorado. Quando o alarme tocou, não me apeteceu levantar. Coloquei-o no snooze várias vezes. À quarta vez, tomei oficialmente a decisão de me baldar.
Uns segundos depois senti vários toques na porta. Era a empregada. A Cesária. Uma cabo-verdiana que os meus pais trouxeram daquele país há uns dois anos e tal. Os meus pais trabalham na área do imobiliário. Quero dizer, os meus pais, não. A minha mãe e o meu padrasto. Ele tem uma agência de imobiliário. Sempre morou em Cascais, sempre teve dinheiro de família e ficou com as várias lojas que herdou do pai. Ele trata da maior parte das vendas mais caras na zona de Cascais, Quinta da Marinha, Gandarinha e Quinta Patiño. Quanto à minha mãe, sempre se habituou a não fazer nada. O meu pai tinha uma empresa de construção civil. Segundo diziam, era um dos homens mais requisitados em Cascais nos anos oitenta.
Isso é a história que contam. Eu não sei, porque nunca o conheci realmente. Quando eu tinha três anos, ele morreu num acidente de carro na marginal. Naquele tempo, a marginal era a estrada mais perigosa da capital. Uma noite, depois de um jantar em Lisboa, os dois iam buscar-nos a casa da minha avó. Após uma intensa chuvada, a estrada estava toda molhada e um carro que vinha na direcção contrária perdeu o controlo e chocou de frente com eles. Na viatura iam uns miúdos bêbedos. Estavam a fazer uma corrida com um carro que seguia mesmo atrás deles. O meu pai teve morte imediata. A minha mãe ficou uns dias em coma, mas resistiu.
A minha mãe sempre se habituara a viver bem. O meu pai ganhava muito dinheiro. Com a morte dele, porém, a empresa desagregou-se e em pouco tempo faliu. A minha mãe ficou sem dinheiro vivo todos os meses. Como tinham bastantes reservas no banco, numas contas na Suíça e em offshores, a minha mãe não deixou de levar o estilo de vida a que estava acostumada. O dinheiro foi desaparecendo, e só quando o contabilista lhe disse que, se continuasse a gastar daquela maneira, iria ficar rapidamente sem nada é que ela percebeu que tinha de fazer alguma coisa. Na vida de uma pessoa normal o primeiro passo seria começar a trabalhar. Só que ela tinha apenas o décimo segundo ano. Sempre achara que iria ter a vida de sonho com o meu pai e não precisava de um curso superior. O que veio a acontecer. No entanto, esqueceu-se que no conto perfeito pode haver azares.
Nessa altura decidiu começar à procura de outro marido. A minha mãe sempre fora uma das mulheres mais bonitas de Cascais. Nos anos oitenta também era das mais concorridas, e apesar de na época não haver a quantidade de revistas que hoje se vêm, nas poucas crónicas sociais que existiam, ela aparecia quase sempre. Ela e o meu pai eram considerados um casal perfeito. Eu e a minha irmã tivemos a sorte de, fisicamente falando, ficar com o melhor dos dois.
Voltando à minha mãe. Ela recomeçou a sair socialmente para encontrar o marido seguinte. Dois anos depois da morte do meu pai, quando eu já tinha cinco anos, casou-se com o Fernando. Ele era rico, tinha bom ar (apesar de não ser tão bonito como o seu pai, segundo me dizem as amigas da minha mãe) e podia dar-lhe o estilo de vida a que sempre se tinha habituado. Entretanto, eu e a minha irmã estávamos entregues a várias pessoas da família. Alternávamos entre a casa da minha avó materna, e as de tias e tios de sangue e por afinidade». In Francisco Salgueiro, O Fim da Inocência, Diário Secreto de Uma Adolescente Portuguesa, Oficina do Livro, Lisboa, 2010, ISBN: 978 989 555 19 6.

Cortesia de Oficina do Livro/JDACT