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terça-feira, 2 de abril de 2013

Através do Continente Negro. Henry Morton Stanley. Tradução de Mac-Noden. «Quer o sr. J. Bernett associar-se ao Daily Telegraph para enviar Stanley à África a completar as descobertas de Speke, Burton e Livingstone? Vinte e quatro horas estava resolvida a nova missão, transmitida através do Atlântico: “Sim. Bennett”»

jdact

NOTA: De acordo com o original.

Explicação. Parte I
«Algum tempo depois ao passar por uma antiga livraria prendeu-me a attenção um volume com o titulo singular How to observe.  Reconheci ao abril-o, que continha instrucções bastante claras sobre o que se devia observar e o modo de o fazer. Interessou-me imenso, e senti o desejo de saber; fui assim levado a comprar quasi uma collecção completa de livros ácerca da Africa, sua geographia, geologia, botanica e ethnologia. Vi-me d'este modo cercado de mais de cento e trinta volumes ácerca d'Africa, e a cujo estudo me entreguei com a paixão de quem n'isso punha um interesse vital e com a percepção de quem já por quatro vezes estivera n'aquella parte do mundo. Estudei quanto fôra descoberto pelos exploradores africanos e fiquei sabendo o que ainda restava mysterioso para o mundo no interior da Africa.
Muitas vezes me conservei sentado á mesa de estudo até adiantada hora da noite planeando e traçando estradas, delineando compridas vias possiveis de exploração, atendendo ás numerosas observações que resultavam d’este incessante estudo. Escrevi numerosas listas de instrumentos e de todos os mais objectos, que poderiam ser necessários para levantamento de terrenos, coordenação de mappas e descripção das novas regiões, que me propunha atravessar. Um dia, passeiando, dirigi-me acaso para o escriptorio do Daily Telegraph, pensando sempre no meu projecto: emquanto discutia com um dos directores, acerca de emprezas jornalisticas entrou o redactor-proprietario. Fallamos de Livingstone e do que elee deixara por fazer. Em resposta a uma observação mais viva da minha parte tornou-me subito o redactor. - Quer o Stanley completar a obra? Póde fazel-o? E que falta ainda conhecer? - O escoante do lago Tanganika é ainda desconhecido, respondi logo.
Do lago Victoria, se exceptuarmos o que Speke esboçou, pouquissimo se conhece; nem mesmo sabemos se esta bacia hydrographica é um lago apenas ou se formada de muitos; e por consequencia continuam ainda desconhecidas as nascentes do Nilo. Atém d'isso a metade occidental do mappa d'Africa está ainda completamente em branco. - E julga o Stanley que poderá resolver todos esses problemas se nós lhe fornecermos os meios necessarios? - Em quanto eu fôr vivo alguma coisa se irá fazendo. E se a morte me não arrebatar muito cedo ao cumprimento da minha missão, creio que tudo ficará resolvido. Terminou por aqui a discussão, porque tendo James Gordon Bennett, do New-York Herald, o principal direito aos meus serviços, nada se poderia decidir sem seu consentimento. Entretanto expediu-se-lhe immediatamente para Nova-York o seguinte telegramma:
  • Quer o sr. J. Bernett associar-se ao Daily Telegraph para enviar Stanley á Africa a completar as descobertas de Speke, Burton e Livingstone?
Vinte e quatro horas depois estava resolvida a minha nova missão á Africa por esta laconica resposta transmittida atravez do Atlantico: Sim. Bennett. Poucos dias antes da minha partida para o continente africano annunciou o Daily Telegraph, que os seus proprietarios se haviam associado a J. Bennett a fim de enviar uma expedição de descoberta ao interior d'Africa, sob o commando de Henrique M. Stanley:
  • O fim da empreza, dizia o jornal, é completar os trabalhos interrompidos pela morte do saudoso Livingstone; resolver, sendo possivel, os restantes problemas da geographia da Africa Central; e saber e apontar quaes os logares frequentados pelos mercadores de escravos… O commandante da expedição representará as duas nações, cujo interesse commum pela regeneração da Africa foi assaz claramente manifestado, quando o enérgico correspondente americano foi procurar ao seio d'Africa o audaz explorador inglez, julgado perdido por tão demorada falta de noticias. N'esta memoravel viagem patenteou Stanley as mais eminentes qualidades de explorador africano; e os vastos recursos postos á sua disposição, juntos ao seu completo conhecimento das condições de uma viagem na Africa, devem fazer esperar d'esta empreza os mais importantes resultados para a sciencia, para a humanidade e para a civilisação.
In Henry Morton Stanley, Atravez do Continente Negro (ou as nascentes do Nilo, Circumnavegação dos grandes lagos da Africa Equatorial e descida do rio Livingstone ou Congo até ao oceano Atlantico), tradução do inglês por Mac-Noden, Lisboa, Mendonça & Irwin, Empresa Editora, Lallemant Frères, Typ. Lisboa (fornecedores da Casa de Bragança), 1880.

Cortesia de Mendonça & Irwin/JDACT

Através do Continente Negro. Henry Morton Stanley. Tradução de Mac-Noden. «A geração presente parece porém dar um certo número de garantias, que nos fazem crer num futuro brilhante. O amor pelo estudo e pelo trabalho parece ressuscitar de novo e animar e dar movimento a esta máquina prestes a parar»

H. M. Stanley, 1874
jdact

NOTA: De acordo com o original.

Nota do Traductor
«Esse quadro sublime, onde diviso os vultos giganteos dos esforçados cavalleiros, que nos conquistaram e defenderam a patria, é para mim o que devera ser para todos, um incentivo ao estudo, á civilisação e ao progresso. O nosso nome eleva-se acima do de todas as nações, mas lamento e córo de vergonha, que o não sigamos de perto; que não mostremos hoje, como deviamos fazer, que o sangue dos Affonsos, dos Henriques, Albuquerques e Gamas nos corre ainda nas veias! Portugal adormeceu á borda do seu caminho de gloria e deixou que as outras nações lhe passassem além, e tão profundo é o somno lethargico em que jaz ainda, que não vê que os povos que passam, nos pizam os louros e rasgam o manto immaculado que as gerações passadas nos legaram. Portugal julgou, se não julga ainda, que com elle dormirá o progresso e não pensa que o nosso nome é sem duvida o encargo mais pesado que nos deixaram os seculos, que tombaram no pó dos tempos; não quer reconhecer a necessidade de conservar e transmittir ás gerações vindouras esse nome grandioso.
A geração presente parece porém dar um certo numero de garantias, que nos fazem crer n'um futuro brilhante. O amor pelo estudo e pelo trabalho parece resuscitar de novo e animar e dar movimento a esta machina prestes a parar. As edições romanticas vão tendo menos apologistas e procuram-se com mais interesse os livros de sciencia. A empreza, Horas de Viagem, merece n'este ponto o maior elogio, pois não trepida entre milhares de obstaculos e concorre para o estudo do grande assumpto colonial com a publicaçao do melhor livro de viagens africanas, que o seculo XIX tem produzido.
A illustração é a maior alavanca do progresso e a nação mais illustrada caminhará sempre na vanguarda das outras. É preciso não deixar approximar mais do abysmo a nossa pobre patria, pois é sabido que tanto maior será a queda, quanto mais elevado fôr o ponto de partida e não será facil no meio da queda suster o movel, não haverá força por maior que seja, sciencia por mais solida, que tenha esse poder. É para a mocidade de hoje, que olho com respeito, que eu appello! Estudae e estudae sempre. Respeitae as tradições dos nossos maiores, mas em logar de dizer com intonação balôfa, já fômos grandes, procurae poder dizer, somos ainda hoje grandes como o fômos outr'ora, e tereis assim conquistado o direito de serdes, pelos vossos compatriotas chamados benemeritos.

Explicação. Parte I
De volta a Londres em abril de 1874 da guerra dos Ashantis, fui informado de que morrera Livingstone e que o seu corpo vinha em caminho da Inglaterra! Morrera pois Livingstone! Nas margens do lago Bemba, no limiar da mysteriosa região, que tanto desejara explorar, é que lhe fugira a vida. E assim a obra, que me promettera executar, estava apenas começada quando a morte o arrebatou! Passada a primeira commoção ao receber tão fatal noticia, impuz a mim mesmo a inabalavel resolução de completar a grandiosa obra, que Livingstone emprehendera: e, ou seria mais um martyr da sciencia militante, ou, se Deus me conservasse a existencia, arrancaria ao continente negro não só os segredos do seu grande rio, mas tambem completaria tudo quanto ainda houvesse de problematico nas descobertas de Burton e Speke, e de Speke e Grant.
Chegou o dia da inhumação do corpo do meu malogrado amigo. Fui um dos que na abbadia de Westminster pegaram nas borlas do caixão; e, quando depois o vi descer á sepultura e ouvi resoar a primeira pá de terra, que sobre elle caiu, affastei-me consternado e lastimei a sorte de David Livingstone. D'ahi .* aiuote trabalhei noite e dia n'um livro que desejava publicar Commassie and Magdala; e no impaciente ardor, em que estava de dar principio á obra que me impozera, tres semanas me bastaram para terminar aquelle trabalho litterario. Estava livre». In Henry Morton Stanley, Atravez do Continente Negro (ou as nascentes do Nilo, Circumnavegação dos grandes lagos da Africa Equatorial e descida do rio Livingstone ou Congo até ao oceano Atlantico), tradução do inglês por Mac-Noden, Lisboa, Mendonça & Irwin, Empresa Editora, Lallemant Frères, Typ. Lisboa (fornecedores da Casa de Bragança), 1880.

Cortesia de Mendonça & Irwin/JDACT

quarta-feira, 13 de março de 2013

Através do Continente Negro. Henry Morton Stanley. Tradução de Mac-Noden. «Rasgar ao mundo as trevas, em que ainda hoje se envolve aquelle continente, abrir mil veredas por onde podesse caminhar avante a roda do progresso; lançar a luz brilhante da sciencia nos cerebros obscuros dos seus habitantes»


H.M. Stanley, 1874
jdact

NOTA: De acordo com o original

Nota do Traductor
«Ha tres seculos que Portugal caminhava ainda na vanguarda de todas as nações, em tudo quanto dependia da sciencia e da coragem. As nossas esquadras sulcavam os mares desconhecidos guiadas pelos seus corajosos capitães a quem sobejava a pericia e o arrojo. Novas terras, novos dominios, onde podia alargar-se á vontade a gigantesca e nobre aspiração do povo, surgiam como por encanto do salso elemento deante das prôas das nossas caravellas. As outras nações tomavam-nos como mestres seguindo-nos como exemplo, e não poucos dos seus mais esforçados capitães serviram nas nossas armadas e n'ellas colheram os seus vastissimos conhecimentos e aprenderam a mostrar no perigo a desusada coragem lusitana.
Os mais afastados confins do mundo viram de perto as laminas sem macula das espadas portuguezas e a bandeira das quinas hasteada em qualquer ponto era olhada como padrão de gloria desejada e acatada como arvore protectora. Portugal respeitava-se fazendo respeitar-se. Os vastos sertões africanos, onde tudo parece conspirar contra os europeus que intentam resolver os seus numerosos e difficeis problemas, foram tambem testemunha da ousadia, saber e coragem da lusitana gente. E o triste fim de muitos exploradores, longe de atemorisar os animos, promovia o alistamento de novos e numerosos combatentes para aquella crusada de paz e de sciencia, d'amor e humanidade.
Rasgar ao mundo as trevas, em que ainda hoje se envolve aquelle continente, abrir mil veredas por onde podesse caminhar avante a roda do progresso; lançar a luz brilhante da sciencia nos cerebros obscuros dos seus habitantes; prégar-Ìhe os sãos principios da sociabilidade e do trabalho, da moral e da religião, eis o fim gigantesco d'essas novas crusadas. E os missionarios portuguezes desempenhavam brilhantemente o seu grandioso mister! Allucinados muitas vezes pela febre, mordidos pela fome e pela sêde, luctando com o clima, com as feras e com os habitantes, mais ferozes ainda, a sua palavra inspirada retumbou sempre em muitos pontos d'aquelle paiz mortifero!
E como na linha de batalha cada soldado que cae é substituido por outro, assim tambem por cada apostolo que caía, por cada combatente que deixava de poder manejar a sua unica arma, a palavra, muitos se apresentavam para occupar na fileira o logar deixado pelo primeiro, corajosos e convictos, orando com a eloquencia, que dá a verdade inspirada. Esta crusada d'amor, de paz, quanto mais sympathica não é que a anterior, que tinha por fim o exterminio dos infieis, não convertendo-os ao christianismo, não illuminando-lhes o cerebro, mas rasgando-lhes as carnes, arrancando-lhes a vida; como se a religião de Christo, religião de paz e caridade podesse aconselhar um tal meio, abençoar um tal fim; como se ella podesse empregar outra arma a não ser a que falla ao espirito e purifica as consciencias. Portugal olhando o seu passado de grandeza verá no primeiro plano estes nobres vultos, os missionarios, destacarem-se envoltos n'um manto de gloria e de martyrio; deve a elles um grande numero dos seus factos gloriosos.
Os trabalhos geographicos dos missionarios na Africa representam para nós um protesto energico e constante contra os que dizem, que a Portugal não pertence o minimo quinhão na civilisação e exploração da Africa. Podem elles apontar-nos como ociosos e atrazados; podem mesmo alcunhar-nos de ignorantes e degenerados, mas o que nunca poderão fazer é rasgar da historia dos povos, as paginas da nossa passada grandeza. Essas são immorredouras e indeleveis porque foram escriptas com o sangue generoso dos nossos avós, e o nosso nome eccoará soberbo e brilhante em todas as aridas plagas africanas. .Mas para mim esse passado de grandeza representa uma coisa diversa do que geralmente se diz». In Henry Morton Stanley, Atravez do Continente Negro (ou as nascentes do Nilo, Circumnavegação dos grandes lagos da Africa Equatorial e descida do rio Livingstone ou Congo até ao oceano Atlantico), tradução do inglês por Mac-Noden, Lisboa, Mendonça & Irwin, Empresa Editora, Lallemant Frères, Typ. Lisboa (fornecedores da Casa de Bragança), 1880.

Cortesia de Mendonça & Irwin/JDACT