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sexta-feira, 4 de março de 2016

As Filhas de Rashi. Rachel. Maggie Anton. «Eliezer acordou com o chilrear de pássaros acima dele, e agradeceu aos céus por ainda estar vivo. Podia sentir que algo estava a ser cozinhado e o seu estômago contraiu-se de dor»

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Troyes, França. Verão de 4851 (1091 D. C.)
«(…) Era evidente que o seu desprendido marido não podia dar-se ao trabalho de lhe escrever para lhe comunicar que se atrasara. Não lhe teria passado pela cabeça o quanto ela se preocupava? Rachel começou a cerrar os punhos, mas deteve-se antes de amarrotar aquele valioso documento que era o seu get condicional. Que uma praga se abata sobre Eliezer! Não fazia a menor ideia do que era, para ela, passar dias e dias, ansiosa, e longas noites solitárias, a perguntar a si própria o que poderia ter-lhe acontecido. Seria bem feito para Eliezer se ela se dirigisse ao beit din, na quinta-feira, seis meses e um dia depois de ele haver partido, apresentasse o seu get condicional e ficasse divorciada. Teria de aguardar mais três meses antes de voltar a casar-se, e, por essa altura, já Eliezer certamente estaria de regresso a casa. Então, seria a vez de ele esperar e sofrer, enquanto Rachel se decidisse se deveriam ou não reconciliar-se. Aquela ideia era tentadora, mas atrever-se-ia ela a concretizá-la? Voltou a respirar fundo. Provavelmente, Eliezer estava à espera da chegada de um barco que trazia a sua mercadoria, ou a negociar um contrato com alguém que podia estar a aproveitar-se do seu desejo em apressar-se. Rachel podia pensar numa dúzia de motivos legítimos para o facto de Eliezer ainda não haver regressado. Olhou, com expressão carregada, para o papel que tinha na mão. Quando um marido decente e carinhoso sabe que vai demorar-se, faz um esforço para informar a mulher. De novo, a fúria a invadiu, ao imaginar Eliezer a tratar de negócios no Magrebe, talvez a marcar encontro com uma meretriz da região que servisse à mesa, sem pensar sequer na sua fiel esposa, que tanto se atormentava em casa.
Contudo, podia haver um outro motivo para aquele atraso, motivo esse que a fazia estremecer só de pensar nele. E se algo horrível o tivesse detido, algo que o incapacitara de lhe escrever? De súbito, Rachel pensou em Shemiah e em Asher, o pai e o irmão de Eliezer, arrastados pela corrente tumultuosa de um rio, durante as cheias, há seis anos, depois de o seu barco se haver virado, durante uma viagem mercantil de rotina a Praga. Por favor, mon Dieu, protege o meu marido e trá-lo de volta para mim, são e salvo. Talvez pressentindo a sua agitação, a pequena Rivka começou a mexer-se no berço. Rachel apressou-se a guardar novamente o get na arca e pegou ao colo na filha de um ano de idade. A bebé agarrou com as mãozinhas a sua camisa à procura dos seios, e Rachel deitou-se na cama para a amamentar. Enquanto afagava a sua cabecinha coberta de caracóis pretos, disse a si mesma que tinha de ser paciente. Eliezer nunca faltara à inauguração da Feira de Verão. Com certeza estaria de regresso antes do final da semana. E quando aparecesse, Rachel faria tudo para que ele nunca mais se atrasasse sem a informar devidamente. Soltou um leve suspiro. Pára de te atormentares por causa de Eliezer, ordenou a si própria. Pensa em como os sorrisos da tua filha te deliciam, no orgulho que sentes por Shemiah, de cinco anos, estar a aprender a ler tão depressa a Torá. Imagina os preços que irás conseguir pelas jóias que obtiveste através da tua casa de penhores. Contudo, nenhum daqueles pensamentos agradáveis impedia de se inquietar com o que teria acontecido ao marido.

Eliezer acordou com o chilrear de pássaros acima dele, e agradeceu aos céus por ainda estar vivo. Podia sentir que algo estava a ser cozinhado e o seu estômago contraiu-se de dor. Além do mais, tinha uma cãibra na perna direita, mas, quanto tentou esticá-la, percebeu que não podia mexer-se. Tinham-no amarrado ainda mais do que o habitual, na noite anterior. Há quantos dias estava ali prisioneiro, amarrado a uma árvore, algures na Floresta da Borgonha? Há uma semana, pelo menos. Quanto tempo se passaria até que algum mercador passasse pela zona ou um grupo de judeus pudesse resgatá-lo?» In Maggie Anton, 2009, Rachel, As Filhas de Rashi, tradução de Catarina e Joel Lima, Círculo de Leitores, 2012, ISBN 978-972-42-4776-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

As Filhas de Rashi. Rachel. Maggie Anton. « Os dedos de Rachel tamborilaram pela arca que continha os seus bens mais preciosos, enquanto procurava, uma vez mais, o pergaminho que dela retirara nada menos do que umas dez vezes naquela semana»

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«As décadas finais do século XI viram os judeus de Troyes, França, entrar numa época de prosperidade financeira sem qualquer paralelo, de segurança política e de realização intelectual. Não houvera qualquer invasão por parte de exércitos durante gerações, e a última grande fome de vários anos já acontecera há mais de cinquenta anos. Sob o reinado iluminado do conde Teobaldo e da condessa Adelaide, as grandes feiras de Champagne atraiam mercadores de todos os cantos do mundo, alimentando o florescer de uma economia local que iria continuar ao longo de quase duzentos anos. Em todo o resto da Europa, as descobertas e as inovações estavam igualmente em ascensão. Os eruditos europeus haviam descoberto as perdidas filosofia e ciência dos gregos, que tinham sido traduzidas para árabe e melhoradas pelos seus homólogos muçulmanos, criando o cenário para o que, hoje em dia, é chamado Renascimento do século XII. Os judeus que viviam em terras muçulmanas mergulharam avidamente neste novo conhecimento, produzindo grandes poetas, filósofos, astrónomos e matemáticos. Os seus compatriotas em Ashkenaz (França e Alemanha) desviaram-se dos assuntos seculares e dedicaram-se ao estudo da Torá. Fundaram grandes yeshivot, academias avançadas para o estudo e a discussão do Talmude, a Lei Oral Judaica. Uma dessas yeshivot, embora mais pequena e situada em Troyes, onde se inicia a nossa história, foi fundada pelo Rabi Salomon bem Isaac, que ficaria conhecido e se tornaria venerado, séculos mais tarde, como Rashi, um dos grandes eruditos do judaísmo, autor de comentários tanto acerca da Bíblia como do Talmude. Não tendo filhos, Salomon quebrou a tradição e ensinou a Torá às suas filhas, Joheved, Miriam e Rachel. Embora a sua mulher receasse que nenhum homem iria querer casar com mulheres letradas, Salomon não teve qualquer dificuldade em encontrar, entre os seus melhores alunos, maridos para as filhas.
As duas filhas mais velhas tiveram casamentos combinados. Joheved foi prometida a Meir ben Samuel, filho de um senhor feudal dos arredores de Ramerupt, enquanto Miriam concordou em casar-se com Judah ben Natan, um órfão de Paris, cuja mãe conseguira sustentar-se a si e ao filho penhorando jóias e emprestando dinheiro a mulheres. Rachel, a filha mais nova, insistira que nada a deixaria feliz a não ser um casamento por amor, e casou com Eliezer ben Shemiah, filho de um rico mercador da Provença. No final do século XI, a yeshiva de Salomon expandiu-se, e eram cada vez mais os mercadores estrangeiros que aprendiam com ele enquanto vinham às duas feiras sazonais que tinham lugar em Troyes. E enviavam os seus filhos a Salomon para que passassem o resto do ano com ele; assim, os jovens poderiam aprender o Talmude, o que lhes daria acesso ao escalão mais elevado da sociedade judaica. Os genros de Salomon ajudavam-no, crescendo a cada ano a população de estudantes. Isso dava tempo a Salomon para escrever e rever os seus agora autorizados comentários. Além disso, Salomon e os seus trabalhavam nas vinhas da família, tratando das videiras, fazendo colheitas, e vendendo o vinho da sua adega.
Tal como as irmãs mais velhas, Rachel continuou a estudar o Talmude com o pai, embora isso não tivesse de ser mantido em segredo. Deu dois filhos a Eliezer, um rapaz e uma rapariga, e juntou-se a Miriam para estabelecer um negócio de penhores de jóias e de empréstimo de dinheiro, em Troyes, semelhante ao que a sogra de Miriam ainda mantinha em Paris. O futuro de Rachel parecia assegurado e feliz, afinal, era a filha favorita de Salomon, adorada pelo marido e, ao que tudo indicava, a matriarca de uma grande família de eruditos. Contudo, infelizmente para Rachel, o destino pareceu conspirar contra ela.

Troyes, França. Verão de 4851 (1091 D. C.)
Os dedos de Rachel tamborilaram pela arca que continha os seus bens mais preciosos, enquanto procurava, uma vez mais, o pergaminho que dela retirara nada menos do que umas dez vezes naquela semana. Respirou fundo e forçou as mãos trémulas a imobilizarem-se para que pudesse ler o texto relativo ao divórcio condicional. Caso eu não regresse após uma ausência de seis meses... Eu, Eliezer ben Shemiah, da cidade de Arles..., estando de mente sã e por minha livre vontade, liberto-te, desobrigo-te e renego-te, Rachel bat Salomon, que foste minha mulher, desde o passado até ao presente…, a fim de que possas ter permissão e controlo sobre ti própria para casares com qualquer homem que quiseres... Isto será da minha parte uma declaração de rejeição, um documento de libertação e uma carta de liberdade, de acordo com a Lei de Moisés e de Israel. Shemayah ben Jacob, como testemunha, Moses haCohen, como testemunha. Após terem feito amor durante toda a noite, ela e Eliezer tinham-se despedido com um beijo, no último domingo de Dezembro, depois do fim da Feira de Inverno, o que significava que os seis meses terminariam na semana seguinte. Os mercadores já tinham começado a chegar para a Feira de Verão, mas nenhum deles lhe trouxera uma carta». In Maggie Anton, 2009, Rachel, As Filhas de Rashi, tradução de Catarina e Joel Lima, Círculo de Leitores, 2012, ISBN 978-972-42-4776-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

domingo, 26 de agosto de 2012

José Marques. Os Pergaminhos da Confraria de S. João do Souto da cidade de Braga (1186-1545). «Exemplos típicos desta actividade associativa são as confrarias da Conceição de Sintra, datada de 1346, que além, da prática de actos do culto, exercia uma notável acção social junto dos irmãos necessitados…»


Documento nº 3
jdact

«Nestas circunstâncias, impõe-se observar que a Confraria de S. João do Souto é muito mais antiga, remontando a tempos anteriores à primeira referência conhecida, constante da carta de venda de uma casa que Maria Pires, viúva de Rodrigo Pires, lhe fez em Fevereiro de 1253.
Embora não possamos fixar com rigor a data da sua fundação, cremos que deverá ser antecipada algumas décadas, como sugere o facto de o pergaminho mais antigo pertencente a este núcleo ser de 1186, seguindo-se-lhe outros de 1210, 1221 e 1239. É certo que neles não há qualquer alusão à confraria, o mesmo acontecendo com outros posteriores a 1253. Para o facto só encontramos explicação na transferência para a confraria, por doação, não só de propriedades, mas também dos respectivos títulos de posse. Podemos, assim, admitir a versão dos ‘Estatutos’ de 1652 quanto à sua antiguidade e indiscutível primazia face às demais confrarias bracarenses até agora conhecidas.

Natureza
Para melhor se compreender o funcionamento e vitalidade desta confraria durante mais de sete séculos, impõe-se proceder à definição da sua natureza específica. Recorde-se, entretanto, que à necessidade e urgência de conseguir tal objectivo está subjacente uma grave dificuldade, decorrente da inexistência de estatutos relativos ao período inicial e de o estudo das confrarias medievais portuguesas estar praticamente ainda por fazer, não havendo sequer, à escala da arquidiocese de Braga, um levantamento, por incompleto que seja, das confrarias então existentes. Idêntica situação se verifica no resto do País. Embora as confrarias dos mesteres se desenvolvam no século XVI, o referido autor registou, com muita propriedade, a actividade associativa anterior, cujos objectivos eram a ajuda mútua material e espiritual, prestada pelos confrades das mais variadas confrarias, e o culto do respectivo patrono celeste.
É assim que no período medieval se considera confraria:
  • Qualquer associação formada por homens livres para se ajudarem mutuamente no material como no espiritual, tratando-se como irmãos.
Exemplos típicos desta actividade associativa são as confrarias da Conceição de Sintra, datada de 1346, que além, da prática de actos do culto, exercia uma notável acção social junto dos irmãos necessitados, acudindo-lhes com o necessário na doença, solucionando litígios surgidos entre eles e providenciando para os sepultar com dignidade e que não lhes faltassem os sufrágios estatutários. Quase meio século mais antiga, de 1297, era a confraria instituída pelos ‘homens bons de Beja’, mais voltada para aspectos assistenciais». In José Marques, Os Pergaminhos da Confraria de S. João do Souto da cidade de Braga (1186-1545), revista Bracara Augusta, vol. XXXVI, números 81 e 82, Braga, 1982. 

Documento nº 3

A amizade de IPM e APC
Cortesia de Livraria Cruz/JDACT

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

José Marques. Os Pergaminhos da Confraria de S. João do Souto da cidade de Braga (1186-1545). «… revela bem o total desconhecimento das origens desta confraria e quanto a tradição seiscentista andava deturpada a seu respeito, sendo particularmente expressiva e dispensando comentário a afirmação de que ela é inferior à própria igreja!»


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Em torno da confraria
«Foi nesta nova igreja paroquial que a Confraria de S. João do Souto, segundo a documentação conhecida a mais antiga da cidade de Braga, Veio instalar-se. Sobre ela vamos tecer algumas considerações.

Primórdios
Os seus primórdios continuam geralmente ignorados, impondo-se corrigir o pretenso esboço histórico traçado nos ‘Estatutos de 1652’, que só por curiosidade vale a pena transcrever:
  • ‘Não ha memória da origem desta confraria mas todos sem discrepancia confessão ser a primeira, e a prova do Livro das Lembranças fol. 1 e pergaminho piqueno, por doaçoes feitas no ano de 1373 e de outros mais antiguos do cartoreo podera constar de seu principio se as letras daquella idade se conhecerão nesta, e o tempo as não tivera consumidas. A tradissão dos velhos he terem ouvido a seus passados, de cujo principio não ha memôria, que esta confraria se instituiu primeiro que a freiguesia, e que esteve no castello junto a torre maior, onde de presente ainda se vem vestigios desta antiguidade. Depois se ordenou a cadea no castello, pello que se transferiu a confraria ,a esta igreja e se lhe agregou a do socino desta cidade, que estava na capella, onde esta depositado o corpo do nosso Patrão São Pedro, pello que teve sempre, e tem poder a ditta confraria para ter esquife, e tumba, e posse de sepultar com ella nos ombros a quem queria sem differença de pessoas.He livre e izenta da fabrica da igreja como consta da sentença que esta no Cartoreo da Caza, ,Camara e Seminario’.
Esta longa citação revela bem o total desconhecimento das origens desta confraria e quanto a tradição seiscentista andava deturpada a seu respeito, sendo particularmente expressiva e dispensando comentário a afirmação de que ela é inferior à própria igreja! Para realçar o tremendo ilogismo desta asserção, basta atender ao exposto sobre os primórdios da paróquia de S. João do Souto. Que a sede da confraria, em 1315, estava na cidadela, de que subsiste apenas a torre de menagem, consta do documento nº 31, onde se lê:
  • ‘... persone esse obedientes dicte conffrarie in novo castelum...’
Em contrapartida, na colecção de pergaminhos não se encontra nenhum referente ao ano de 1373. Para mais, a incapacidade de penetrarem na história da confraria, quer através dos pergaminhos quer mediante os dois ‘livros de acordos’ ou ‘actas’ do século XV, ficou registada nestes termos:
  • ‘... se as letras daquella idade se conhecerão nesta, e o tempo as não tivera consumidas’
Testemunhando, deste modo, a deterioração dos pergaminhos há mais de três séculos». In José Marques, Os Pergaminhos da Confraria de S. João do Souto da cidade de Braga (1186-1545), revista Bracara Augusta, vol. XXXVI, números 81 e 82, Braga, 1982.

Documento nº 2

A amizade da I. P. M. e A. P. C.
Cortesia de Livraria Cruz/JDACT

sábado, 11 de agosto de 2012

José Marques. Os Pergaminhos da Confraria de S. João do Souto da cidade de Braga (1186-1545). «A criação da paróquia de S. João do Souto e a transferência da antiga igreja de Pedro Ourives com todos os seus bens da ordem do Hospital para a jurisdição do arcebispo desencadeou um conflito entre João Peculiar»


jdact

«No mesmo dia, 9 de Fevereiro de 1150, Pedro Ourives e Elvira Mides, sua esposa, doaram à ‘Ordem do Hospital’ na pessoa do referido Paio, agora designado como ‘prior’ a igreja também por eles construída em honra de S. João Baptista, no subúrbio oriental da cidade de Braga. Tratava-se da Igreja de S. João do Souto. A dádiva incluía as casas existentes ou a construir junto da igreja, além de outras propriedades e moinhos, em condições minuciosamente descritas. Por este documento ficamos a saber que, além das motivações de ordem espiritual na ‘arenga’, esta generosa oferta visava, de algum modo, recompensar o Prior do Hospital por ter dado ao arcebispo um cálice de ouro, outrora pertencente a Paio Guterres, descrevendo, ao mesmo tempo, as penhoras que nele incidiram.
Da importância deste acto diz bem o facto de ele ter sido confirmado pelo arcebispo João Peculiar, por Afonso Henriques e pelos dignitários capitulares.
É esta a primeira alusão conhecida à igreja de S. João do Souto, que era e continuou a ser particular, embora na posse de uma ordem religiosa militar, até ser elevada a igreja paroquial.

Documento nº 1
jdact

Está por esclarecer o que se passou, pouco depois, com os hospitalários, mas não há dúvida de que Pedro Ourives recuperou a posse da igreja, pois, em 12 de Julho de 1161, vivamente reconhecido por ter sido elevada a sede paroquial, doou-a com todo o seu património a João Peculiar e a Sé de Braga. Tratava-se, é certo, de uma pequena paróquia suburbana, erecta sobre uma igreja privada assim tornada pública, cuja área abrangia apenas algumas ruas abertas num ambiente ainda bastante ruralizado.
Não se dispõe de elementos seguros para proceder à sua delimitação rigorosa, mas pode-se afirmar qaue era essencialmente constituída por quatro ruas, das quais uma se estendia desde a porta da quinta do arcebispo até à mencionada Igreja, outra principiava junto das casas dos mestres Pedro Eita e Alberto, passava pelo forno da infanta D. Sancha e terminava na confluência de três vias, ao casal de Mido, e, finalmente, além da Rua dos Cegos, contava ainda com a Rua Nova, prolongada até ao postigo de acesso à vinha do cabido ou canónica bracarense.
A criação da paróquia de S. João do Souto e a transferência da antiga igreja de Pedro Ourives com todos os seus bens da ordem do Hospital para a jurisdição do arcebispo desencadeou um conflito entre João Peculiar e seu cabido e o procurador da Ordem do Hospital, Pedro Mouro, que fez subir a questão ao tribunal régio, vindo a terminar pela seguinte composição:
  • O prelado e o cabido pagavam oitenta morabitinos aos Hospitalários e estes desistiam de todas as apelações até então interpostas contra os primeiros outorgantes. Apesar destas vicissitudes, o documento mais antigo do arquivo da Confraria de S. João do Souto, datado de Abril de 1186, conserva intacta a memória de que esta igreja pertenceu a Pedro Ourives ‘ecclesia que fuit Petri Aurificis’».
In José Marques, Os Pergaminhos da Confraria de S. João do Souto da cidade de Braga (1186-1545), revista Bracara Augusta, vol. XXXVI, números 81 e 82, Braga, 1982.


Cortesia de Livraria Cruz/JDACT

terça-feira, 20 de março de 2012

José Marques. Os Pergaminhos da Confraria de S. João do Souto da cidade de Braga (1186-1545). «Não dispormos de indicações acerca da data exacta da fundação deste hospital, mas o facto de o prelado lhe conceder também todos os privilégios outorgados pelos seus antecessores e pela rainha Teresa obriga a situá-la antes de 1128. Esta doação ser-lhe-ia confirmada por João Peculiar e pelo cabido de Braga»

Paio Pais e Elvira Lopes, devidamente autorizados pelos seus pais, vendem a Cavaleiro e Maria Pires, sua esposa, […]. Carolina tardia; tem manchas de água…
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«No decurso da investigação destinada ao estudo sobre a arquidiocese de Braga no século XV, houve a oportunidade de compulsar a documentação do arquivo da Confraria de S. João do Souto, da cidade de Braga, onde se recolheu alguns elementos úteis.
Embora se tratasse de um ignorado arquivo particular, logo se vincou a noção da sua importância, não tanto pelo considerável volume documental que o integra, como, principalmente, por fornecer preciosas informações para a história da paroquia e Confraria de S. João do Souto, bem como da própria cidade de Braga, desde o último quartel do século XII até à actualidade.
O facto é tanto mais de realçar quanto é bem conhecida a degradação, e até completa destruição, dos arquivos de instituições, sobretudo no tocante ao período medieval, situação em muitos casos mais que centenária, como decorre do relatório da visita efectuada a numerosos cartórios do reino, nos finais do século XVIII, pelo insigne mestre de “Diplomática Portuguesa”, João Pedro Ribeiro.

Pretendemos salientar que a conservação deste arquivo, apesar das lacunas detectadas, se pode considerar exemplar e constitui um dos grandes méritos da Confraria, em especial quanto ao núcleo de pergaminhos. Com efeito, embora já em 1652 o seu conteúdo fosse desconhecido, inclusive por parte dos confrades mais cultos, por absoluta ignorância das mais elementares noções de paleografia.
Este fundo arquivístico, constituído por dois núcleos documentais bem distintos, um integrado por setenta e três pergaminhos, relativos ao período compreendido entre 1186 e 1545, e outro composto por numerosos códices cartáceos e papéis avulsos, carece de um correcto tratamento arquivístico, pois a tentativa realizada em 1968, à margem de qualquer critério científico válido, é absolutamente anárquica.
Dado o mau estado de conservação em que muitos se encontram, atingidos inclusive, pela implacável acção corrosiva do ‘cancro’. Tal circunstância, associada à dificuldade de leitura, motivada pelo referido mau estado de conservação, levou-nos a pensar na sua transcrição integral ou parcial, como única forma eficaz de salvaguardar para a posteridade esta parcela do nosso património histórico-cultural.

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Os primórdios da paróquia de S. João do Souto estão intimamente ligados às iniciativas de Pedro Ourives e sua esposa, Elvina Mides, com frequência evocados na documentação bracarense do século XII, de que chamaremos à colação apenas as “cartas mais expressivas.
A primeira notícia a este abastado casal bracarense data de 29 de Janeiro de 1123, a propósito da compra de umas leiras, sitas em Arcos, no sopé do monte Penagate e junto do rio Este, pelas quais deram seis moios a Ausenda Guterres e seus três filhos. Anos depois, movidos pela caridade cristã, instituíram em casas suas e a expensas próprias um hospital destinado aos pobres e ofereceram-no ao arcebispo e cabido bracarenses, que, por sua vez, em 19 de Julho de 1145, o doaram à “Ordem do Hospital de S. João de Jerusalém” de que Paio era solícito ‘procurador’.

Não dispormos de indicações acerca da data exacta da fundação deste hospital, mas o facto de o prelado lhe conceder também todos os privilégios outorgados pelos seus antecessores e pela rainha Teresa obriga a situá-la antes de 1128. Esta doação ser-lhe-ia confirmada por João Peculiar e pelo cabido de Braga, em 9 de Fevereiro de 1150». In José Marques, Os Pergaminhos da Confraria de S. João do Souto da cidade de Braga (1186-1545), revista Bracara Augusta, vol. XXXVI, números 81 e 82, Braga, 1982.

Cortesia de Livraria Cruz/JDACT

quinta-feira, 29 de abril de 2010

José Fraústo Basso: O concelho de Nisa na doação da Açafa (Fins do século XII)

Cortesia A Cidade
Nº 1 (Nova Série)/Janeiro a Junho de 1988

Com a devida vénia para a revista A Cidade (Jan-Jun de 1988). Homenagem a José Fraústo Basso.
«Este artigo foi-nos confiado por Fernando Portugal, através do Dr. Brás de Oliveira, Director da Área de Espólios da Biblioteca Nacional, algumas semanas antes do falecimento do autor. A sua inserção nas páginas desta revista é, ao mesmo tempo, uma homenagem ao Dr. José Fraústo Basso, que foi um amigo e colaborador de A Cidade na sua 1." série.
José Augusto Fraústo Basso nasceu em Nisa a 22 de Agosto de 1901, e ali morreu a 7 de Setembro de 1987. Era filho de Júlìo da Graça Marques Basso e de Maria Augusta Fraústo Basso. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, exerceu advocacia na sua terra natal onde foi também notário. Ocupou diversos cargos públicos de relevo, com destaque para o de Procurador à Câmara Corporativa (1934), Presidente da câmara Municipal de Nisa (de 1932 a 1942, e novamente a partir de 1948), e Presidente do Grémio da Lavoura da mesma vila. Grande amigo das misericórdias, foi, durante 50 anos, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Nisa. Desempenhou ainda os cargos de Presidente da União Geral das Misericórdias Portuguesas e Vice-secretário da Confederação Internacional das Santas Casas da Misericórdia (Portugal e Brasil). Era Comendador da Ordem de Benemerência. Estudioso da história e da arqueologia local, trabalhou com José Leite de Vasconcelos, Rui de Azevedo, Manuel Heleno, D. Fernando de Almeida, Vera e George Leìsner, publicando alguns trabalhos sobre temática regional em diversos jornais e revistas como O Distrito de Portalegre e A Cidade». In A Revista

Ao ler o livro de Carlos Tomás Cebola «Nisa, A outra História», edições Colibri/CM de Nisa, (2005, Julho) fiquei desejoso de conhecer todo o trabalho realizado pelo Dr. Basso. Apoiado pelas conversas amenas de JCM de Alpalhão e MP (exerceu medicina em Nisa) aqui apresento a minha singela homenagem ao notável nisense. Em breve, falarei sobre o Prof. Carlos Cebola e a investigação que desenvolveu sobre a Outra História de Nisa, que considero muito relevante. Estamos a falar de cidadãos nascidos numa vila que é Mui Notável desde o tempo de D. João I.
   
Em trabalho que, sob o pseudónimo de Zé Nisorro, publicámos em Agosto de 1981, abordámos ligeiramente os problemas da fundação de Nisa e da doação da Herdade de Açafa, efectuada em 1198, segundo uns, ou em 1199 segundo outros, pelo nosso rei D. Sancho I, em favor dos Templários e em troca das igrejas de Mogadouro e de Pedras Rubras. E nesse mesmo trabalho manifestámos o desejo e o propósito de tratar, com maior e com o devido desenvolvimento, em futura oportunidade, o magno e polémico problema dos limites da referida doação da Açafa.
É isso que, volvidos mais de cinco anos, vamos agora tentar realizar, no propósito, porventura imodesto, de contribuir com o resultado do nosso estudo e das nossas investigações, para o esclarecimento e rectificação de um problema sobre o qual se têm debruçado eminentes mestres e historiadores. É que, na realidade, «não basta dizer uma coisa, nem que muitos a digam: é necessário ver os fundamentos com que escrevem», como disse Frei António Brandão na Crónica de D, Sancho I e de D. Afonso II.

Em boa verdade, vamos tentar remar contra a maré dos tempos e contra conclusões, historicamente consideradas incontroversas e irreversíveis, perfilhadas ou admitidas por gentes de muito saber. De resto, já no nosso anterior e aludido trabalho anunciámos, muito claramente, as conclusões que sobre a matéria perfilhamos e que, aliás, já são aceites por diversas entidades que, ultimamente, se têm debruçado sobre o mesmo problema. E para que, logo de início, fique bem expresso o nosso pensamento, repetiremos o que, naquele trabalho, dissemos; julgamos servir a verdade, sem deixar de admitir, evidentemente, que possamos estar errados e de, consequentemente, submeter à apreciação alheia a rectificação dos nossos pontos de vista.
Assim, em 1981., escrevemos:

«É que, segundo nos parece agora, em desacordo frontal com a hipótese que Alexandre Herculano admite e que a generalidade dos autores tem seguido, o tão falado castelo de Terrom (e não Ferron), em tais limites referido (alusão aos limites da doação da Açafa) não se situava nas cercanias da vila de Nisa, nem tampouco o mosteiro de Alpalante, a que na doação também se alude, se situava nas proximidades da actual povoação de Alpalhão, nem ainda Moha de Salor tem qualquer ligação com a ribeira de Nisa».

Não vamos aqui repetir tudo o que escrevemos em 1981,mas é certo que, para bem se compreender o assunto, convém relembrar alguns pontos essenciais já focados. E assim, recordamos o que o grande historiador Alexandre Herculano nos ensina: «Não é possível, apenas à luz dos documentos escritos, atribuir às modernas vilas do Alto Alentejo, uma origem anterior à fundação da Monarquia Portuguesa. No século XII eram contínuas, nessa região, as lutas entre cristãos e Sarracenos e eram constantes as incursões cristãs da Beira nas zonas situadas a sul do Tejo, como também o eram as penetrações dos mouros a norte desse rio. É, por isso, de concluir que, nesses tempos remotos, o Alto Alentejo se encontrava, em geral, despovoaclo e a ninguém, de facto pertencia o respectivo território».
Cortesia A Revista, 1988, nº 1 (Nova Série)/Carlos T. Cebola/José Fraústo Basso/JDACT