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terça-feira, 2 de abril de 2013

Mapas. Sem Erros mas com Segredos. Encoberto. Ou seja “o Encoberto”. Alvor Silves. «Há coisas que parecem estar mal no mapa... De facto, para ficar mesmo bem teria que se retirar a Península Ibérica, tirar o contorno de Tunis, etc... Mas depois, quem visse os mapas não iria estranhar não estar a Península Ibérica?»

Carta ‘Pedro Reinel me fez’, 1484
Cortesia de wikipedia

«Colombo pôs a descoberto a América à Europa. É verdade!... Só que descobrir não teria o mesmo significado que lhe damos hoje. Quando Colombo chegou, foi por onde os portugueses tinham carreiras regulares... esse foi o perigo da viagem dele, chegar sem ser Descoberto no caminho pelos Portugueses! Não conseguiu... de tal forma a situação estava bem controlada!

Mapas. Sem erros, mas com Segredos
Quando olhamos para a Carta Portulana de Pedro Reinel, de 1484-85, em baixo, parece ter um mapa de África! Parece... mas Pedro Nunes avisa-nos que pode não ser bem assim, e chega mesmo a dizer:
  • O outro género de informações é dos que notaram algumas alturas. Mas isto somente fizeram, nos lugares que estavam num mesmo paralelo, e isto também aproveitava pouco. O terceiro genero é o dos mareantes; os quais diz que não sabiam mais que as distâncias dos lugares, que a eles lhes parecia estarem norte-sul donde partiam; e os que estavam leste-oeste sabiam muito mal porque isto era outrossim muito incerto (...). In Pedro Nunes, Tratado em Defensam da Carta de Marear, 1537, (publicado depois de Carlos V de Espanha mandar queimar todas as Cartas Náuticas).
Este texto de Pedro Nunes serviu para confirmar um ligeiro detalhe que já tinha previamente reparado na carta de Pedro Reinel... voltando-a na direcção leste-oeste e não norte-sul... ou seja, rodando, obtemos, um contorno que se assemelha à costa Mexicana... até mesmo na zona de latitude onde essa costa deveria aparecer. Assim:
  • Coincidência?... mesmo que o Pedro Nunes diga para virar a carta? A capacidade náutica portuguesa tem sido menosprezada. Há coisas que parecem estar mal no mapa... De facto, para ficar mesmo bem teria que se retirar a Península Ibérica, tirar o contorno de Tunis, etc... Mas depois, quem visse os mapas não iria estranhar não estar a Península Ibérica?
Há até bandeiras, que delimitam bem a zona de validade do contorno, e permitem ainda datação... a bandeira moura em Espanha permite datar o mapa como anterior a 1492 seguramente, e até como anterior a 1485, data da conquista de Marbella que é a datação constante dos Arquivos onde foi encontrada. De facto, a múltipla informação nos mapas não deve ser encarada apenas como decorativa, ou fruto de erro, deve ser compreendida. Há um detalhe, que justifica distorções, que só percebi com Pedro Nunes. As cartas de marear usavam coordenadas zenitais, semi-polares e locais... o nome é grande, mas quem for entendido perceberá um pouco do que quero dizer. É algo que eu nunca tinha visto, e usará conceitos mais próprios do séc. XIX, quase XX, na questão da utilização de representação cartográfica seccional. O Tratado de Defensam da Carta de Marear, serve para esclarece parte desse propósito encoberto!
É claro que Pedro Nunes tenta argumentar no seu Tratado, dizendo que a representação planar é pior do que esta, mas não será posteriormente compreendido, os planisférios acabarão por se evidenciar uma verdade mais simples, sem segredos. As rosas-do-vento servem de polos, para zénites a descoberto, de onde saem meridianos locais!;
Há outros centros que servem de polos, para zénites a encoberto!

Detalhe da mesma Carta, depois de Rodar. Costa do México.
Cortesia de wikipedia

Assim, a informação nos mapas, não é apenas a que está a descoberto... há tanto, ou muito mais que está encoberto, e que já na época era tomado por erro, é isso que Pedro Nunes tenta explicar! É por isso que o Mapa de Cantino (1502) tem deformações e será menos fiável... tratando-se de uma cópia para Alberto Cantino, um espião a serviço do duque de Ferrara (... informação que no entanto ficou como muito útil). Como foi possível a Pedro Nunes passar informação, sob olhares inquisitores minuciosos? Primeiro, tem a protecção do esclarecido Infante Luís, irmão de João III, mas depois Pedro Nunes tem mesmo que sair da Corte e de Lisboa! Regressa, num pequeno período áureo, sob protecção do monarca Sebastião... e, já velho, morre naturalmente, logo a seguir à partida do bravo Sebastião para a batalha de Alcazar na Barbária, em 1578.
Também há mapas na Torre do Tombo?... Sim, mas mais recentes. Por exemplo, existe a Biblioteca Nacional Digital, ainda que incompleta, tem já muita coisa! Aí encontra-se outra pérola, chamada Livro de Marinharia. É atribuído a João de Lisboa, a quem são reportadas viagens até 1506, e morte em 1525.

In Alvor Silves, Tese, Mapas. Sem erros, mas com Segredos, Encoberto, Ou seja “o Encoberto”, o oposto “ao Descoberto”, wikipédia, 2009.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

quarta-feira, 27 de março de 2013

O Prior do Crato. 1902. Prelúdios de Amor. J. Oliveira Mascarenhas. «Não é apto para se apaixonar por Egérias imaginárias, - não é assim João?... Pois apaixonei-me eu. João de Castro escutava atentamente. Fazia-lhe estranheza aquela linguagem do jovem príncipe, que não compreendia bem. Luiz deu-se pressa em desfazer-lhe a ostensiva confusão»

jdact

D. Luiz e a Pelicana
« - Dizei-me senhor - prosseguiu ele: como é que os sentidos versos que fizestes e ocultais, têm artes de nos arrebatar docemente, e de pôr-nos no ânimo sensações desconhecidas?... Já amaste alguma vez como Dom-Duardos?... Já no vosso caminho topastes alguma linda Flérida?... Não! – Respondeu sentidamente o infante. Flérida é o vago… É o desconhecido... É um capricho… É um desejo... João de Castro confessou-se intimamente vencido por este singular arranco metafísico, e ficou mudo como os môrros revestidos de aveludada relva, que os seus possantes solípedes impiedosamente calcavam. Luiz fitou-o a furto, e notou a confusão em que o havia deixado a resposta que lhe dera.
 - Dizei-me - perguntou-lhe o moço príncipe. Nunca ouvistes falar na Egéria da antiga Roma?  - Era uma célebre ninfa que inspirava o velho Numa. - Pois eu, como Numa Pompílio, sinto-me preso às seduções de uma outra ideal Egéria. – Ah!... Ah!... Ah!... deixai-me rir,senhor. - Será motivo para chufa, um afecto tão inocente?! – Perdão. Eu não sei rir de escárnio, e muito menos quando se trata de afectos vossos… que são sempre imaculados! Mas quem vai rejeitado, dia a dia, princesas e rainhas tão belas como poderosas…

NOTA: O infante Luiz rejeitou a mão de Maria Tudor, rainha de Inglaterra, e a da princesa Edwiges, mais tarde rainha da Polónia.

 - Não é apto para se apaixonar por Egérias imaginárias, - não é assim João?... Pois apaixonei-me eu. João de Castro escutava atentamente. Fazia-lhe estranheza aquela linguagem do jovem príncipe, que não compreendia bem. Luiz deu-se pressa em desfazer-lhe a ostensiva confusão. – Vejo que vos embaraçaram as minhas revelações... Pois bem. Ides saber por completo o meu mais íntimo sigilo. – Como poderei corresponder a tamanha honra, senhor? - É muito fácil, e difícil. Fácil, se guardardes o meu segredo, como se guardam as sagradas fórmulas no interior de um sacrário; e difícil, se me ajudardes a realizar o meu sonho... meu desejo.
 - Como?!... - É que ainda não vi, nem ouvi, aquela por quem me apaixonei. João de Castro fitou suspeitosamente o interlocutor. Custava-lhe a crer que estivesse ali aquele príncipe de espírito esclarecido… aquele príncipe que fora o orgulho de um grande mestre… aquele príncipe de vinte e três ridentes primaveras, tão respeitado por velhos e rapazes… aquele príncipe, enfim, que era um dos mais suaves trovadores da corte. - Ainda me não compreendestes, João? - Senhor, não! - Amo, e não sou amado! - Será possível?! Desenhou-me o cérebro no coração a imagem de um ente peregrino, que não vi ainda personificado. E amo a quimera… o vago... o desconhecido!...
E jornadeio na esperança de encontrar a realização deste sonho febril, que não é um pesadelo, mas que me deixa em luta com essa visão querida, cujos dedos vaporosos me apertam e torturam. - Mas... o que desejais de mim, senhor? - Que me ajudeis a procurar a realização desse ideal, percorrendo comigo o mundo até a encontrarmos. - Percorrerei!... - Está pactuado». In J. A. Oliveira Mascarenhas, P Prior do Crato, romance histórico, ilustrações de Bemvindo Ceia, Typ. Lusitana-Edirora de Arthur Brandão, Lisboa, 1902.

continua
Cortesia de Typ. Lusitana/JDACT

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Infante D. Luís: Deste infante, diz-se que só faltou ser rei, dadas as suas qualidades. Pai de D. António, prior do Crato

(1506-1555)
Abrantes
Cortesia de wikipédia

D. Luís de Portugal  foi filho de D. Manuel I e da infanta espanhola Maria de Aragão, 5.º duque de Beja, Condestável do Reino e prior da Ordem Militar de S. João de Jerusalém, com sede portuguesa no Crato. Afirmou ter casado em segredo com Violante Gomes tendo um filho, D. António, Prior do Crato, o que garante a Legitimidade de D. António, que não é socialmente aceite, e que mais tarde viria a ser aclamado rei de Portugal e lutado contra o domínio Filipino.

Do Infante D. Luís, diz-se que só faltou ser rei, dadas as suas qualidades.


Soneto à música
Do número nasce a proporção;
da proporção se segue a consonância;
a consonância causa deleitação;
a nenhum sentido apraz a dissonância.

Unidade, igualdade e semelhança
são princípios do contentamento.
Em todos os sentidos o exprimento;
a alma em unidade glória alcança.

Em todas cantidades a igualdade
é perfeição remota ou mais chegada,
seguindo a natural autoridade.

E assi está nas qualidades assentada,
da mesma maneira, a semelhança,
dina de ser sentida e contemplada.
Infante D. Luís (1506-1555)

Cortesia de wikipédia

Soneto (Cancioneiro de Fernandes Tomás)
Mal que de tempo em tempo vai crescendo,
quemde algum bem te visse acompanhado
desta vida passara descansado,
a morte, confiado, não temendo.

Se os vãos desejos fosse convertendo
em sospiros que vem de outro cuidado,
oh, quão prudente e bem afortunado!,
que capela de louro iria tecendo!

Tempo é de trastornar os fundamentos
passados co'a esperança que passou:
triunfem já os novos pensamentos,

e a fe que n'alma viva me ficou
dê fim aos mundanos sentimentos
em que o viver passado a condenou.
Infante D. Luís (1506-1555)


HALP 19/2001
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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Salvaterra de Magos: Parte V (B). A Falcoaria. A caça, desde sempre ocupação de monarcas, foi o principal atractivo para à deslocação da Família Real a Salvaterra, aproveitando a época propícia, de Novembro ao «Entrudo»

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Com a devida vénia a Joaquim Manuel S. Correia e Natália Brito C. Guedes, «O Paço Real de Salvaterra de Magos», Livros Horizonte, 1989, ISBN 972-24-0723-6, publico algumas palavras.

No reinado de D. Sebastião, em 1569, é aprovado o «Regimento da coutada de Salvaterra». Documento da maior importância para o concelho, determina as «demarcações e da pena que haverão os que caçarem perdizes, lebres, coelhos ou montearem porcos, veados ou qualquer outra veação ou não cumprirem e fizerem o contrario do que nele se contem nos tempos defezos». A coutada confrontava a Sul com o termo da vila de Benavente, a Norte com os termos das vilas de Santarém e de Muge e do Levante com o termo da vila de Coruche.

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No início do século XVII de novo a coutada de Salvaterra é referida no «Regimento do Monteiro-mor» onde se determina não ser permitido «viver Fidalgo algum, nem residir por mais tempo que o de passagem, salvo se tivessem fazendinha de raiz mas não casa, nesses lugares».
Diz-nos João Baptista de Castro que as reais coutadas de Salvaterra e de Almeirim eram «férteis de veados, porcos e toda a espécie de caça; cómodas para as montarias de cavalo, fáceis para as caçadas de lança e de espingarda, abundantes nas voltarias, dispostas para o entretenimento das damas com tal comodidade que dos fizemos coches vêem alancear os veados, correr as lebres, apanhar os coelhos e voar as aves tão suavemente e sem fadiga que na maior distância se escusa todo o desvio, porque a fecundidade do sítio facilita os exercício a quem os vê e a quem os segue».
Caçadas que iriam motivar o aparecimento de uma literatura específica, «o romance em verso», que encontrou vários autores em Salvaterra na transição do século XVII para XVIII - Caetano Manuel Martins de Barros, Pe. Martinho Pereira, Thomas Pinto Brandão e, a darmos crédito a uma nota à margem de um manuscrito da Biblioteca Nacional, o próprio Pe. António Vieira.


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Na Idade Média dois tipos de caça eram preferidos - a montaria ou caça de perseguição utilizando armas ou armadilhas, a animais como o urso, o javali, o lobo, o cervo; e a etraria ou caça através de aves de rapina domesticadas (falcões, açores, gaviões, etc.). Encontramos na Crónica de El-Rei D. Fernando uma das mais vivas descrições de uma caçada medieval com falcão «... Era ainda el-rei D. Fernando muito caçador e monteiro, em guisa que nenhum tempo asado para ele deixara que o não uzasse. A ordenança como ele partia o ano em tais desenfadamentos, juntado tudo pelo miúdo, seria longo de ouvir, cá ele mandava chamar todos seus monteiros, no tempo para ele pertencente e não se partiam de sua casa até que os falcões saiam da muda e então, desembargados, iam-se para onde viviam e vinham os falcoeiros e outros que de fazer aves tinham cuidado. Ele trazia quarenta e cinco falcoeiros de besta, afora outros de pé e moços de caça e dizia que não havia de folgar até que povoasse em Santarém uma rua em que houvesse cem falcoeiros. Quando mandava fora da terra por aves, não lhe traziam menos de cinquenta, entre açores e falcões nevris e gerifalcos, todos primas. Com ele andavam mouros que apresavam garças e outras aves e estes nadavam os pegos e pauis se os falcões caíam neles.


Acessórios para caçar com falcão. Séc. XVII-XVIII
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«Quando el-rei ia à caça, todas as maneiras de aves e cães que se cuidar podem para tal desenfadamento todas iam em sua companhia, em guisa que nenhuma ave grande nem Pequena se levantar podia, posto que fosse grou e betarda, até o pardal e pequena folosa, que antes que suas ligeiras penas a podessem pôr em salvo primeiro era presa do seu contrário; nem as simples pombas, que a venham fazer impedimento, em semelhante caso, não eram isentas de seus inimigos. Para raposas, coelhos e lebres e outras semelhantes selvagens montezes, levava el-rei tantos cães de seguir suas pegadas e cheiro, que nenhuma arte nem multidão de covas lhes prestar podia que logo não fossem tomadas. E porém nunca el-rei ia vez nenhuma alguma à caça que sempre nela não houvesse grande sabor e desenfadamento».
Os ascendentes Hohenstaufen e Castela explicam bem esta atracção de D. Fernando pela cetrarias. Os tratados de alveitaria e cetraria de Mestre Giraldes, físico de D. Dinis, o Tratado Falcoaria de Pero Menino, falcoeiro de D. Fernando, seriam os compêndios da época, citados internacionalmente.

Afirma Diogo Fernandes Ferreira «o infante D. Luís, filho de el rei D. Manuel, irmão d'el rei D. João III, príncipe de altos pensamentos, foi um grande caçador de falcão e teve em seu serviço, oitenta caçadores assalariados, muitos deles estrangeiros, mui práticos nesta arte; e ele no paço, casa donde estava, tinha falcões e os dava em cuidado aos seus moços da câmara, dos quais eu conheci alguns muito nobres e cada caçador tinha à sua conta dois e três falcões».
«Meu Pai, Pero Ferreira (que também o servia de seu moço da câmara) foi excelente nesta arte e depois da morte deste príncipe, serviu ao Senhor D. António, prior do Crato, filho natural deste príncipe, o qual seguindo as pisadas e pensamentos do Pai teve mui redonda caça de falcões, garceiros e milhaneiros e altaneiros e Gaviões e Açores". Sobretudo a cetraria era a modalidade mais apreciada no Ribatejo: - Salvaterra tal como Muge, Almeirim, Santarém, possuíam coutadas onde a caçada com falcão era preferida, informam-nos numerosos documentos coevos. O rei encomendou com todo o empenho 20 falcões da Noruega ao feitor da Flandres.


Cruzado de prata de D. António I (Prior do Crato), 18º Monarca
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É muito provável que a seguir a Alcácer Quibir se tenha verificado um afrouxamento nas actividades de altanaria, mas por certo de curta duração. Efectivamente, na obra publicada em 1616, Diogo Fernandes Ferreira diz: «Durou este passatempo tão justo até o tempo del-rei D. Sebastião, no qual acabaram todos os senhores a esta caça afeiçoados e os homens práticos nela e a altanaria juntamente com eles»Durou este passatempo tão justo até o tempo del-rei D. Sebastião, no qual acabaram todos os senhores a esta caça afeiçoados e os homens práticos nela e a altanaria juntamente com eles»Durou este passatempo tão justo até o tempo del-rei D. Sebastião, no qual acabaram todos os senhores a esta caça afeiçoados e os homens práticos nela e a altanaria juntamente com eles»Durou este passatempo tão justo até o tempo del-rei D. Sebastião, no qual acabaram todos os senhores a esta caça afeiçoados e os homens práticos nela e a altanaria juntamente com eles»Durou este passatempo tão justo até o tempo del-rei D. Sebastião, no qual acabaram todos os senhores a esta caça afeiçoados e os homens práticos nela e a altanaria juntamente com eles»Durou este passatempo tão justo até o tempo del-rei D. Sebastião, no qual acabaram todos os senhores a esta caça afeiçoados e os homens práticos nela e a altanaria juntamente com eles»Durou este passatempo tão justo até o tempo del-rei D. Sebastião, no qual acabaram todos os senhores a esta caça afeiçoados e os homens práticos nela e a altanaria juntamente com eles»Durou este passatempo tão justo até o tempo del-rei D. Sebastião, no qual acabaram todos os senhores a esta caça afeiçoados e os homens práticos nela e a altanaria juntamente com eles». Mas, logo a seguir, acrescenta: «e por não faltarem hoje senhores desejosos de renovarem a caça e carecerem de homens que nela os soubessem servir, me Pareceu ter obrigação, assim à arte como à nobreza deste reino, fazer este trabalho»... Parece, pois, que o interesse pela arte não tinha morrido, antes se mantinha tão vivo que estimulou a obra de Diogo Ferreira.

A iconografia é única em cenas de caça com falcão, o caçador nobre do «Missal Antigo do Lorvão», os falcoeiros representados «no baixo-relevo do túmulo de Afonso Sanches e na iluminura do mês de Maio do "Livro de Horas de D. Manuel», são alguns exemplos, que reproduzimos, escolhidos de entre colecções Portuguesas.




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O falcoeiro-mor era o caçador de confiança do rei, dele dependendo directamente, a quem era concedida a mercê de terras, casas e herdades; foram reconhecidos os altos préstimos, em tempos medievos, aos falcoeiros Vicente Pires (de Torres Vedras), Rui Pires (de Arronches), João Garcia, Pedro Esteves, Luís Eanes, Geraldo Fernandes e João Gonçalves (de Santarém). 

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Cortesia da CMSalvaterra de Magos/JDACT

Salvaterra de Magos: Parte V (A). A Falcoaria. A caça, desde sempre ocupação de monarcas, foi o principal atractivo para à deslocação da Família Real a Salvaterra, aproveitando a época propícia, de Novembro ao «Entrudo»

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Com a devida vénia a Joaquim Manuel S. Correia e Natália Brito C. Guedes, «O Paço Real de Salvaterra de Magos», Livros Horizonte, 1989, ISBN 972-24-0723-6, publico algumas palavras.

A caça, desde sempre ocupação de monarcas, foi o principal atractivo para à deslocação da Família Real a Salvaterra, aproveitando a época propícia, de Novembro ao «Entrudo», ou, se o tempo o permitia, até Abril; raramente o fazendo nos meses de Verão. Reuniam-se naquela vila condições especiais para a exercer, justificando a determinação de terra «coutada», ou reserva venatória.

As grandes montarias (aos lobos, raposas, veados, cervos e javalis) iniciavam-se de manhã, partindo a comitiva com «tendas de campanha e apoio de mesas, servidas magnificamente»; só num dia, a 28 de Setembro de 1730 mataram 90 veados e javalis. O excedente era «mandado distribuir pelos Ministros estrangeiros e Senhores da Corte»; a altanaria era especialmente preferida, provindo os falcões de faustosos presentes oferecidos anualmente ao monarca pelo Grão-Mestre da Ordem de Malta ou pelo rei da Dinamarca.


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Na sua «Casa Real de Campo» S. Majestade «sem embargo do divertimento das montarias não deixava de se aplicar ao despacho dos negócios» esclarece-nos a Gazeta de Lisboa.
Tal como todas as coutadas reais, a de Salvaterra estava sob a jurisdição do Monteiro-mor do Reino, responsável por fazer cumprir as determinações régias de âmbito cinegético e florestal. No «Regimento» de 1605 (de novo referimos a época de Filipe II que à administração dos Paços Reais e coutadas régias Portuguesas dedicou especial atenção) estipulava-se a hierarquia subalterna ao Monteiro-mor, serviços de justiça, locais e períodos autorizados para caça, género de espécies a proteger ou abater, penas por infracção ao «Regimento» (que poderiam ir até ao açoite na praça pública ou degredo, sem remissão).

Com o Monteiro-mor do Reino colaboravam os Monteiros-mores das Comarcas, Monteiros de Cavalo e Moços do Monte: Se inicialmente grande percentagem do território português era coutado, a pouco e pouco essas prerrogativas foram sendo extintas «pelo manifesto prejuízo causado nas sementeiras». D. João II e D. Manuel, ouvindo as cortes reduziram drasticamente as terras reais coutadas. Com Filipe II, em 1594, apenas pertenciam à coroa as coutadas de Lisboa (Alcântara e Belém), Sintra, Colares, Almeirim, Salvaterra e as montarias de Santarém.
No termo de Salvaterra vastas propriedades rústicas foram pertença durante os séculos XVII e XVIII de diversas entidades - Ordem de Avis, Monteiro-mor do Reino, Manuel do Quental Lobo (Capitão-mor da Vila de Santarém), Francisco Cotta Falcão, Conde de Unhão, etc.

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A Casa Real era no entanto a maior detentora, especialmente de matas e coutadas; por mercê do Cardeal D. João Esteves, confirmada pelo rei D. João I, igualmente pagavam dízimos ao Convento de Sta Joana, de Lisboa, uma vasta área, registada em escritura pública em 1614 e demarcada por grandes blocos de pedra-lioz, alguns ainda hoje existentes; iniciava-se junto à vala real,.no sítio chamado Boca da Goiva, seguia pela "Pichota", "Casas da Falcoaria", "Gatinheiras", "Coutadinha del'Rei", "Feteira", "Lagoa do Donzel", "Garrocheira", "Arneiro", "Bilrete", "Vale do Pereiro", "Morite das Figueiras", "Monte do Colmeeiro", "Monte da Misericórdia", "Paul", "Monte do Colmeirinho", "Serra da Galega", "Pego da Caldeira"' "Moinho de Magos", "Arneiro do Marco", "Vale da Sardinha ', "Estrada de N.' Sra da Gloria", "Torjaes da Sardinha", "Arneiro da Alpifeita", "Escaroupim”.

O Infante D. Luís «costumava passar alguma parte do Inverno na sua vila de Salvaterra pelo grande divertimento de caça de que é abundante a perdiz e a cujo exercício era sumamente inclinado».
Foram seus Monteiros-mores Simão Freire, Fernão Martins Freire; como Caçadores-mores D. Brás Henriques e seu filho D. Jorge Henriques; oito Trombetas, cinco moços de caça completavam a equipagem do Infante para a caça. D. Sebastião «ajuntou também o gosto de todo o género de caça e montaria no qual se ocupava e gastava a maior parte do tempo nas suas coutadas de Almeirim e Salvaterra; no Inverno». Este monarca na «Lei sobre a caça e pescaria» de 19 de Dezembro de 1560, ao estabelecer o defeso nos meses de Março, Abril e Maio, refere-se além de outras e até em primeiro lugar à caça «… com aves, de qualquer qualidade que sejam», o que, provavelmente, não faria se só ou pequeno número a praticasse, como arte e sem prejuízo apreciável para a conservação das espécies. Filipe II na viagem triunfante que fez a Portugal, passou por Salvaterra; diz-nos o cronista João Baptista Lavanha «... saiu Sua Majestade a montaria, servindo neste exercício o Monteiro-mor Francisco de Melo e os monteiros portugueses; mataram-se alguns porcos montezes».

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A tradição da escolha de Salvaterra para as caçadas reais mantém-se com D. Afonso VI António de Sousa de Macedo, seu biógrafo, recorda uma jornada de 19 de Janeiro de 1663 às duas horas da madrugada, partiu El-Rei e o Infante para Salvaterra. El-Rei se embarcou em um bergantim que não era o Real e o Infante com outro de Henrique Henriques. Foi El-Rei deitado na cama, em sua companhia o Conde de Castelo Melhor e o Marquês de Fontes. Acompanhavam-no Oficiais da Casa em várias embarcações. Convidou para a mesma jornada os fidalgos seguintes: o Conde de Unhão, o Conde de Aveiras, Lourenço de Mendonça, Bernardo de Miranda, Jorge Furtado, Luís Lobo, Diogo Luís, Henrique Henriques, D. Luís de Lencastre, Cristóvão de Almada, o Conde de Sarzedas, o Conde de Serém, Jorge Furtado de Mendonça, António Cavide e o Conde de Mesquitela». A 2 de Fevereiro do ano seguinte «... o Infante levou seus criados à parte. Divertiram-se S. Majestade e Altezas em Salvaterra nos costumados exercícios de caça touros e campo até 25 de Fevereiro, embarcando-se cada um em sua falua e os criados e alguns fidalgos que se não tinham vindo diante do bergantim. Aportou no cais do carvão pelas dez horas e a cavalo veio jantar ao Paço».

Cortesia da CMSalvaterra de Magos/JDACT

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Salvaterra de Magos: Parte IV. O Teatro. A Ópera. De 1753 a 1792, foram representadas em Salvaterra 64 produções operáticas e ali actuaram os mesmos artistas dos restantes teatros régios


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O Teatro

Com a devida vénia a Joaquim Manuel S. Correia e Natália Brito C. Guedes, «O Paço Real de Salvaterra de Magos», Livros Horizonte, 1989, ISBN 972-24-0723-6, publico algumas palavras.

«Sobressai a toda esta vila a eminência da Casa da Opera de Sua Majestade e adjunto a esta o Palácio Real» observava o P. Miguel Cerqueira nas «Memórias Paroquiais» que redigiu em 1758.

«O Real teatro de Salvaterra de Magos foi inaugurado em 2I de Janeiro de 1753 com a Opera «Didone Abandonata» (composição de Metastásio e música de David Perez) tendo-se representado também no Carnaval desse ano e talvez no mesmo dia o «intermezzo» a duas vozes «La Fantesca, de Adolfo Hasse». Diversas representações, dramas, sérios ou jocosos, «intermezzos», se lhe sucedem com grande êxito cénico e musical sempre que no Inverno a Familia Real permanecia em Salvaterra.

Um ilustre viajante francês que ali se deslocou, no Carnaval, em 1765 registou, nas suas «Memórias»: «À noite assistimos à Ópera composta por oitenta músicos italianos, não só instrumentistas mas também cantores; como a Rainha não gosta de actrizes, os papéis femininos são executados por jovens castrados que têm vozes encantadoras, tão bem vestidos e representando com tanta perfeição que quem não estiver prevenido, enganar-se-á .. Tocava-se «Demetrius, de Metastásio, em que a música do Sr. Perez é de grande beleza, quer em frases quer em acompanhamento, e os instrumentos estão tão bem ligados às vozes que se pode dizer que é uma das melhores óperas que existe na Europa.

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«Esta Ópera de «Demetrius» custou ao rei 200 mil cruzados. O guarda-roupa, bordado a ouro e prata finos, é riquissimo, bordado em Milão. As decorações são pintadas pelos melhores pintores. O rei, a rainha, a princesa do Brasil e as princesas suas irmãs, são grandes músicos e cantam bem (...).

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«A sala de espectáculos de Salvaterra tem uma lotação de 500 pessoas; tem três filas de camarotes de primeira (três camarotes de cada lado); ao fundo um anfiteatro com uma galeria que prolonga de cada lado os primeiros camarotes. Este anfiteatro está coberto com um reposteiro franjado, apoiado em pilares como uma tenda; neste se situa o lugar do Rei que se senta num cadeirão, ao meio, tendo à sua direita o Infante D. Pedro, seu irmão e seu genro e à sua esquerda a Rainha, a Princesa do Brasil e as três outras princesas e ao longo da galeria, à esquerda, as damas de honor. O outro lado, à direita da galeria, fica vazio há oito segundos e oito terceiros camarotes que são ocupados por portugueses aos quais se oferecem bilhetes. Os Ministros do Rei estão sentados na plateia com os fidalgos, sem distinção de categoria. A orquestra tem cerca de 25 a 30 instrumentos. O teatro é bastante grande, ocupando todo o comprimento da sala; o espectáculo começa logo que o Rei entra, vulgarmente cerca das seis e meia, sete horas. A ópera dura 4 horas; verificando-se o maior silêncio. O bailado do 1º «acto do «Demetrius» representa a sala de um mecânico ou maquinista que mostra a um curioso ou estrangeiro um autómato, em que premindo uma mola faz executar diferentes danças e bailados. Primeiro assiste-se a uma entrada de «Pierrots» em seguida a uma de «Espanhóis», de «Arlequins» e «Columbinas» às «mosqueteiros», etc., em que os passos são executados pelos dançarinos como se fossem comandados por molas. Vêm comunicar ao Maquinista que alguém o chama; este sai e o curioso aproveita a sua ausência para examinar os autómatos e observa a máquina, pressiona a mola e os autómatos recomeçam a dançar; como pretende mudar rapidamente a dança anima-se, embaraça-se e por fim escangalha-se a mola; a máquina desafina-se e os autómatos caem de cabeça para baixo, pés para cima, cada um com uma atitude diferente do que resulta um espectáculo divertido; com o barulho o Maquinista chega espantado ao ver as máquinas viradas; tenta recuperá-las e percebe que os fios ou molas estão partidos. Precipita-se sobre elas desesperado e corre atrás do curioso; este foge, atravessando os acessos em que tinham descido os autómatos. «Este bailado é muito bem desenhado e de agradável invenção. O bailado do2º acto é Pantomina. Vê-se ao longe uma ilha sobre o mar e um Príncipe que nela naufraga esta ilha é ocupada por uma feiticeira que quando se apaixona transforma os seus companheiros em estátuas».

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Ela apressa-se em fazer amizade com o Príncipe mas este está ocupado em procurar os seus companheiros; logo que os descobre fica furioso. A feiticeira toca-lhe com a sua varinha, adormecendo-o, e ele cai sobre uma cama de relva; algumas ninfas vêm com flores e saem de repente. Ele acorda e parece envergonhado por se encontrar prisioneiro; a feiticeira finge em ter pressa de o libertar. Ele aparenta querer agradecer-lhe beijando-lhe a mão, mas este era o pretexto para lhe apanhar a varinha. Com a varinha, toca a feiticeira que é arrastada por um carro puxado por dragões. Ele reanima os seus companheiros e imediatamente embarca para fugirem desta ilha.
...«No dia seguinte o Rei voltou da caça às 5 horas. Depois do jantar foi à Ópera ouvir um pequeno «intermezzo» italiano, intitulado «La Cacina».

Alguns cartazes da época
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O gosto pela música era timbre da Família Bragança, atraindo-os em especial a ópera; foi aliás no Paço Ducal de Vila Viçosa que o duque D. João, futuro rei, promovera os primeiros espectáculos pré-operáticos. Os tradicionais «vilancicos» cantados nas noites de Natal e dos Reis, «tragicomédias», «zarzuelas» (memorável a de 1704 «Hazer de cuenta sin ia huéspede» a que assistiu D. Pedro II) prepararam a boa aceitação, em Setecentos, da nova expressão teatral em moda, de influência italiana, a ópera. Se até final do século XVII eram preferidas as composições espanholas, com o início do reinado de D. João V será a Itália que se vão buscar os libretos dos «intermezzi» de Il D. Chisciotte della Mancia (1728), «La Pazienza dì Socrate» (1733), «La finta Pazza» (1731) e «La Spinalba» (I739) representadas num palco improvisado do Paço da Ribeira.

O primeiro teatro de ópera italiana em Portugal será organizado pelo violinista da Capela Real de Lisboa, Alessandro Paghetti, na Academia da Praça da Trindade; a este se sucedem o Teatro Novo da Rua dos Condes, onde se representava «ópera séria» de compositores italianos e o Teatro do Bairro Alto, em que desde 1733 se representavam «óperas Portuguesas» de António José da Silva.
Em Março de 1755 inaugura-se o Teatro junto ao Paço da Ribeira, a «Opera do Tejo», segundo projecto do Arquitecto italiano Giovanni Carlo Bibiena, que o terramoto, sete meses depois, reduziria a cinzas.

Alguns cenários 
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Os teatros do Paço de Queluz, da «Quinta de Cima» da Ajuda e o do Paço de Salvaterra passam então a ser frequentados com maior assiduidade pela corte. Sobretudo o de Salvaterra não interrompe a sua actividade; no período conturbado que se seguiu à grande catástrofe, a corte acompanhando a Família Real manteve as deslocações àquela vila, no início de cada ano.
«Demetrius» teria custado ao Rei, em 1765, duzentos mil cruzados, diz-nos o citado viajante francês, sem comentários. Soma diminuta para o seu País, habituado há quase um século a espectáculos musicais que envolviam grande aparato, mas para o erário português era considerável dispêndio; Por este motivo o Rei determinava saíssem do seu «Bolsinho Particular» grandes reforços, permitindo que à ópera assistissem desde «os simples burgueses», diz-nos o viajante francês, «ao mais alto Senhor» que, obedecendo à pragmática, trajava comummente de «saragossa castanha»; "O Conde de Oeiras, o Duque de Cadaval e outros, não trazem outras casacas"...

As despesas com as óperas de Salvaterra estão detalhadamente documentadas no «Arquivo da Casa Real» oscilando o total, na década de 70, entre 20 a 25.000$000 anuais; as parcelas mais elevadas eram sempre a iluminação, as comedorias, o guarda-roupa e as ajudas de custo.
Duzentas e noventa moedas de ouro de quatro mil e oitocentos réis cada, foi o "cachet" do casal de artistas italianos Vitalba, em 1754, tendo direito ainda a viagens pagas e «casa armada» em Lisboa.

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Nas últimas décadas do século XVIII o guarda-roupa Para as principais óperas era executado em Milão, encomendado por intermédio de João Piaggio, cônsul de Portugal em Génova; os materiais para decoração da cena e adorno dos artistas são minuciosamente descritos na correspondência que acompanhava as «guias de remessa». De 1753 a 1792, foram representadas em Salvaterra 64 produções operáticas e ali actuaram os mesmos artistas dos restantes teatros régios.

Cortesia da CMSalvaterra de Magos/JDACT

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Salvaterra de Magos: Parte III. O Paço Real nos séculos XVII a XIX

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Com a devida vénia a Joaquim Manuel S. Correia e Natália Brito C. Guedes, «O Paço Real de Salvaterra de Magos», Livros Horizonte, 1989, ISBN 972-24-0723-6, publico algumas palavras.

Sob a coroa filipina o Paço de Salvaterra foi reconhecido como um bom aposento régio; a nomeação de um dos melhores arquitectos de então para dirigir as obras, Baltazar Álvares, arquitecto dos Mosteiros de S. Vicente de Fora, de S. Bento da Saúde e de S. Antão de Lisboa, assim o comprova.

Discretamente, seis meses antes de se fazer aclamar rei de Portugal, nas Cortes de Tomar, Filipe I no fim do ano de 1580 pediu ao duque de Alba informações concretas sobre os paços reais portugueses. Filipe Tercio (o Arquitecto e Engenheiro italiano que viera para Portugal ao serviço do Cardeal D. Henrique) lhe entregara os planos pretendidos, esclarecendo o duque, em cartas datadas de 13 e 18 de Novembro: «las
del Rusio y la Marina saco el, y la del castillo saco Joan Bautista Antonelli. Tambien lleva la de Salvatierra; la de Almeirin no la ha podido llevar, porque aquel mozo de camara del Rey D. Sebastian, que envie a sacar esta de Salvatierra se ha detenido tanto que no ha tenido tiempo de ir a Almeirin»

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Filipe I fará jornada por Salvaterra em Junho do ano seguinte, quando se deslocou a Lisboa. Para o arcanio dos jardins do Paço, cujos primeiros trabalhos são datáveis da época do Infante D. Luís, candidata-se em 1581 o jardineiro Rodrigo Alvarez, de origem portuguesa, que durante 15 anos servira na Casa de Campo de Madrid, às ordens do conhecido jardineiro real Jerónimo de Algora e dos arquitectos Gaspar de Vega e Juan de Herrera, garantindo que o recuperaria e punha «en la ordem e perfeição que estão os da Casa de Campo e os de Aranjuez», dos mais afamados da Península.

Dois regimentos, o de 1589 e o de 1595, estipulavam as verbas a dispender na «fábrica do Paço». Filipe II atribuiu como orçamento anual para conservação e ampliação do edifício, oitenta mil réis, verba razoável se a compararmos à que se dispendia com a «fábrica dos Paços de Lisboa, duzentos mil réis; aquele monarca, por alvará de 28 de Janeiro de 1616, nomeia João Rodrigues "Mestre das obras de Pedraria».
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Em 1626 o arquitecto espanhol Juan Gomez de Mora, de novo faz um relatório das «casas que tiene el Rey de Espana», em que inclui Salvaterra «Dista de Lisboa doce léguas», diz-nos, «doce léguas de Santarém que por ser tierra de caça el Rey don Sebastian acudia mucho ay un palácio de los Reys capas para aposentar toda su casa, está a un lado del Rio Tajo».
O interesse da coroa espanhola por Salvaterra está bem explícito nos cuidados de conservação dos imóveis de propriedade régia e da Igreja Matriz.

A princesa Margarida, viúva do duque de Mântua (a quem o conde-duque de Olivares confiara em 1634 o governo de Portugal) em carta datada de 6 de Janeiro de 1640 determina que lhe sejam dadas expressas informações sobre as obras naquela Igreja que já duravam «há mais de sessenta anos». Aos campos de Salvaterra «com tempo austero, frio e húmido» irá por diversas vezes caçar, nos meses de Inverno, D. João IV.

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As obras do Paço prosseguem no reinado de D. Pedro II. Sob a orientação de Mateus do Couto, em 1681, foram pintados de têmpera os tectos dos Paços Reais de Salvaterra, «trabalho feito por Francisco Ferreira de Araújo de parceria com Miguel Mateus de Cardenas, pintor de óleo e João da Costa pintor de têmpera». A 15 de Dezembro de 1689 é nomeado o arquitecto Manuel do Couto como «Mestre das Obras» proporcionando no ano seguinte a promoção de Diogo Tinoco da Silva a aprendiz de arquitecto.

Pela leitura dos «Livros de Mercês» do Cartório da Casa de Bragança, conhecemos a generosidade do monarca que anualmente subsidiava a «Irmandade do Santíssimo Sacramento de Salvaterra« e o Convento de Nossa Senhora da Piedade de Jericó; atribui-se-lhe na «Corografia Portuguesa», o «acrescentamento de mais casa e jardins» ao Paço primitivo, tal como foi sua preocupação o repovoamento florestal do Paul de Magos e reforço do estatuto dos «oficiais da Câmara», «em razão da dita vila ser uma das mais autorizadas do Reino, assim pela assistência que eu e as mais Pessoas Reais nella faziam,como por ser muito populosa».

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De 1734 a 1747 a obra do Paço foi dirigida pelo arquitecto Custódio Vieira, nomeado vitaliciamente, tal como vinha a ser praticado com os arquitectos seus antecessores, «Arquitecto das Obras nos Paços reais de Sintra, Almeirim, Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na vila da Batalha e da Província do Alentejo»; à sua morte, em 1747, é Carlos Mardel que lhe sucede naquelas funções.

A época áurea do Paço decorre em pleno reinado de D. José, nos primeiros anos da década de cinquenta, em que um vasto plano de remodelação e ampliação se inicia, incluindo a construção de uma «nova e sumptuosa Casa da Ópera». «Palacete, Palácio, Palácio e Barraca de acomodação de Sua Majestade» (tal como era conhecida a instalação régia provisória em Nossa Senhora da Ajuda, improvisada após o terramoto de Lisboa de 1755), são expressões empregues para designar o mesmo conjunto de edifícios em Salvaterra; seria na realidade uma boa e ampla residência, casa de campo, com jardim e horta, ocupando uma área de cerca de 1500 m2 (área de implantação), compreendendo aposentos nobres para a Família Real e comitiva - aposentos das damas, casas de Secretário, quartos dos guarda-roupas, sala dos Tudescos, quarto do estribeiro-mor, residência do almoxarife e respectivos serviços, como a casa do padeiro, telheiro das galinhas, duas cozinhas, uxaria, cavalariças, cocheiras, casas da falcoaria.

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O tremor de terra de I755 viria a provocar consideráveis estragos no Paço; no ano imediato e durante quatro anos nele decorreram obras de profundo restauro, dirigidas por José Joaquim Ludovice e Carlos Mardeldois nomes ligados a grandes empreendimentos arquitectónicos de responsabilidade na Lisboa pombalina.

Não só o «Paço novo» (ampliação do Paço do Infante D. Luís) seria restaurado, mas igualmente as casas do Secretário, a casa do Sargento-mor Pedro Teixeira e a de António Pedro Virgolino, a casa do Almoxarife José dos Santos Freire (nomeado em 1750), e a do Cirurgião-mor Antonio Soares Brandão, o Teatro e a falcoarìa. Construiu-se uma nova cavalariça e reparou-se a ponte do desembarque «feita quasi toda de novo que a cheia a levou». Em carta dirigida ao «senhor tenente coronel Carlos Mardel», o arquitecto João Pedro Ludovice determina, por indicação de S. Majestade, que se «faça o acrescentamento da Casa que pretende o Secretário de Estado Sebastião Jozé de Carvalho e Mello».

Igualmente a Casa Real manda proceder a obras na Igreja Paroquial, ermida de S. Sebastião e Misericórdia. Segundo uma descrição pormenorizada feita em 1758 pelo vigário Miguel Francisco Cerqueira, na Vila, que pertencia à Província da Estremadura, Arcebispado de Lisboa e Comarca de Santarém, residiam 453 visinhos" (o.t fogos), compreendendo um total de 1562 habitantes, dos quais 1351 pessoas maiores na vila, 48 nas aldeias, 157 pessoas menores na vila e 6 nas aldeias; refere-se às aldeias de Cumieiro, Misericórdia, Coelhos, Cabides, Figueiras e Bilrete de Cima.
Existiam nessa época «sete ruas principais - Rua de S. António, a qual parte de Norte para o Sul e vai dar em a Capela Real, em cuja Capela está um altar de S. António do qual tomou o nome esta rua; Para a parte do Poente, ao pé desta se acha a Rua Direita, a qual também parte do Norte Para a Sul, ficando desta parte a praça desta vila; junto a esta se acha a Rua de S. Paulo a qual também parte de Norte a Sul e desta parte dá em o lado direito da freguesia desta vila da qual freguesia tomou esta rua o nome; adjunta a esta se vê a Rua do Pinheiro a qual também parte do Norte a Sul e desta parte antigamente se via um pinheiro e ainda as ruas da Água, do Calvário e do Arneiro». Menciona como construções de algum interesse, a Santa Casa da Misericórdia, o Hospital, as ermidas de S. Sebastião e de S. António e o Paço Real. O censo da população é realizado com maior rigor em 1788, sendo mencionados 2145 habitantes de diversas profissões especialmente dedicados à lavoura e à manutenção da coutada e Paços reais; em pormenor se menciona o estado, número de filhos e respectiva idade de cada habitante, remetendo para um mapa anexo o local de residência de cada agregado familiar.
Da vila se dominava vasto panorama onde se podiam distinguir «o lugar do Escaroupim, vila de Valada, o lugar das Virtudes, a vila de Azambuja e o Convento dos frades de Jericó».

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As diversas deslocações da Família Real a Salvaterra durante toda a segunda metade do século XVIII são-nos descritas pela Gazeta de Lisboa. «Partia do Cais de Belém subindo o Tejo em falua, escaler ou majestosos bergantins com quarenta e oito remeiros, aportando primeiro em Vila Nova da Rainha e seguindo de carruagem, por terra; raramente embarcavam na Ribeira das Naus, seguindo até ao Montijo e dali por terra até Salvaterra; para maior comodidade a rainha seguia por vezes de carruagem até Vila Franca, onde pernoitava, e daí era conduzida em cadeira de mãos, de tela carmezim com franjões de ouro até à falua onde se abrigava sob o toldo rodeado de vidraças cristalinas».

Grande movimentação de pessoal que exigia igualmente a deslocação de «trastes» dos paços de Lisboa, tapeçarias, luminárias, móveis, baixela, para melhor conforto e decoração do Paço de Salvaterra; tarefa de que eram incumbidos os armadores, tal como sucedia em jornadas para outros Paços Reais. Instrumentos musicais e arreios faziam igualmente parte da bagagem, assim como mantimentos para toda a estadia.

A via de comunicação mais utilizada para atingir a vila era fluvial, «sangria ou vala real», que nascia na «ameixoeira», desaguando no leito o Paul e mais ribeiras; percorrido por barcos de vela latina, com capacidade para quarenta moios de pão, ou por «bateiras da mesma sorte armadas, carregando catorze moios de pão», a vala tinha capacidade para receber sessenta embarcações. Pela vala eram transportados os abastecimentos de cereais, linho, madeiras, louças, mobiliário, frutas (Descrição de 1758).

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Em 1775 um novo Picadeiro é construído junto do Paço, sob a orientação de Petronio Mazoni, constando da «relação da despeza geral (orçada em 1.995$986) madeiras de Flandres e da terra, vigamentos de Riga e casquinha, decorações de interiores com veludos e galão carmesim de ltália».

No final do século XVIII ainda se mantinha a conservação periódica do Paço, sentindo-se, embora, um apagar lento da vida que durante décadas lhe imprimira a Corte. O órgão da Capela foi afinado em 1783 por Bento Fontanes Máqueira; uma «banqueta de seis castiçais e seus pertences» é executada em 1791 pelo entalhador Manuel Antunes; Pedro António Fidié, Mestre Armador, executa em 1805 uma armação de dossel e espaldar, também para a Capela.
Com a ausência da Família Real, no Brasil, o Paço perde o seu esplendor. Uma sucessão de incêndios (o de 1817 daria origem a graves acusações contra o Almoxarife, só ilibado dois anos depois) e, tremores de terra (1534, 1755, 1909) , ajudariam a intensificar a agonia.

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Desde 1819, insistentes pedidos de obras são dirigidos pelo Almoxarife do Paço e outros administradores. «Manda Sua Alteza», escrevia, em 1827, o visconde de Santarém a José Francisco Brancamp de Almeida Castelo Branco, «em nome de El Rei, que V. Senhoria dê as ordens e providências necessárias, compatíveis com os meios disponíveis para se acorrer a maior ruína procedendo-se aos concertos indispensáveis para a conservação do edifício».

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