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Com a devida vénia a Joaquim Manuel S. Correia e Natália Brito C. Guedes, «O Paço Real de Salvaterra de Magos», Livros Horizonte, 1989, ISBN 972-24-0723-6, publico algumas palavras.
Sob a coroa filipina o Paço de Salvaterra foi reconhecido como um bom aposento régio; a nomeação de um dos melhores arquitectos de então para dirigir as obras,
Baltazar Álvares, arquitecto dos
Mosteiros de S. Vicente de Fora, de
S. Bento da Saúde e de
S. Antão de Lisboa, assim o comprova.
Discretamente, seis meses antes de se fazer aclamar rei de Portugal, nas Cortes de Tomar, Filipe I no fim do ano de 1580 pediu ao duque de Alba informações concretas sobre os paços reais portugueses. Filipe Tercio (o Arquitecto e Engenheiro italiano que viera para Portugal ao serviço do Cardeal D. Henrique) lhe entregara os planos pretendidos, esclarecendo o duque, em cartas datadas de 13 e 18 de Novembro: «las
del Rusio y la Marina saco el, y la del castillo saco Joan Bautista Antonelli. Tambien lleva la de Salvatierra; la de Almeirin no la ha podido llevar, porque aquel mozo de camara del Rey D. Sebastian, que envie a sacar esta de Salvatierra se ha detenido tanto que no ha tenido tiempo de ir a Almeirin»
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Filipe I fará jornada por Salvaterra em Junho do ano seguinte, quando se deslocou a Lisboa. Para o arcanio dos
jardins do Paço, cujos primeiros trabalhos são datáveis da época do
Infante D. Luís, candidata-se em
1581 o jardineiro
Rodrigo Alvarez, de origem portuguesa, que durante 15 anos servira na Casa de Campo de Madrid, às ordens do conhecido jardineiro real
Jerónimo de Algora e dos arquitectos
Gaspar de Vega e Juan de Herrera, garantindo que o recuperaria e punha «
en la ordem e perfeição que estão os da Casa de Campo e os de Aranjuez», dos mais afamados da Península.
Dois regimentos, o de 1589 e o de 1595, estipulavam as verbas a dispender na «fábrica do Paço». Filipe II atribuiu como orçamento anual para conservação e ampliação do edifício, oitenta mil réis, verba razoável se a compararmos à que se dispendia com a «fábrica dos Paços de Lisboa, duzentos mil réis; aquele monarca, por alvará de 28 de Janeiro de 1616, nomeia João Rodrigues "Mestre das obras de Pedraria».
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Em
1626 o arquitecto espanhol
Juan Gomez de Mora, de novo faz um relatório das «
casas que tiene el Rey de Espana», em que inclui Salvaterra «
Dista de Lisboa doce léguas», diz-nos, «
doce léguas de Santarém que por ser tierra de caça el Rey don Sebastian acudia mucho ay un palácio de los Reys capas para aposentar toda su casa, está a un lado del Rio Tajo».
O interesse da coroa espanhola por Salvaterra está bem explícito nos cuidados de conservação dos imóveis de propriedade régia e da Igreja Matriz.
A
princesa Margarida, viúva do duque de Mântua (a quem o conde-duque de Olivares confiara em
1634 o governo de Portugal) em carta datada de
6 de Janeiro de 1640 determina que lhe sejam dadas expressas informações sobre as obras naquela Igreja que já duravam «
há mais de sessenta anos». Aos campos de Salvaterra «
com tempo austero, frio e húmido» irá por diversas vezes caçar, nos meses de Inverno,
D. João IV.
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As obras do
Paço prosseguem no reinado de
D. Pedro II. Sob a orientação de
Mateus do Couto, em
1681, foram pintados de têmpera os tectos dos
Paços Reais de Salvaterra, «
trabalho feito por Francisco Ferreira de Araújo de parceria com Miguel Mateus de Cardenas, pintor de óleo e João da Costa pintor de têmpera». A 15 de Dezembro de 1689 é nomeado o arquitecto Manuel do Couto como «
Mestre das Obras» proporcionando no ano seguinte a promoção de Diogo Tinoco da Silva a aprendiz de arquitecto.
Pela leitura dos «Livros de Mercês» do Cartório da Casa de Bragança, conhecemos a generosidade do monarca que anualmente subsidiava a «Irmandade do Santíssimo Sacramento de Salvaterra« e o Convento de Nossa Senhora da Piedade de Jericó; atribui-se-lhe na «Corografia Portuguesa», o «acrescentamento de mais casa e jardins» ao Paço primitivo, tal como foi sua preocupação o repovoamento florestal do Paul de Magos e reforço do estatuto dos «oficiais da Câmara», «em razão da dita vila ser uma das mais autorizadas do Reino, assim pela assistência que eu e as mais Pessoas Reais nella faziam,como por ser muito populosa».
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De 1734 a 1747 a obra do Paço foi dirigida pelo arquitecto
Custódio Vieira, nomeado vitaliciamente, tal como vinha a ser praticado com os arquitectos seus antecessores, «
Arquitecto das Obras nos Paços reais de Sintra, Almeirim, Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na vila da Batalha e da Província do Alentejo»; à sua morte, em 1747, é Carlos Mardel que lhe sucede naquelas funções.
A época áurea do Paço decorre em pleno reinado de D. José, nos primeiros anos da década de cinquenta, em que um vasto plano de remodelação e ampliação se inicia, incluindo a construção de uma «nova e sumptuosa Casa da Ópera». «Palacete, Palácio, Palácio e Barraca de acomodação de Sua Majestade» (tal como era conhecida a instalação régia provisória em Nossa Senhora da Ajuda, improvisada após o terramoto de Lisboa de 1755), são expressões empregues para designar o mesmo conjunto de edifícios em Salvaterra; seria na realidade uma boa e ampla residência, casa de campo, com jardim e horta, ocupando uma área de cerca de 1500 m2 (área de implantação), compreendendo aposentos nobres para a Família Real e comitiva - aposentos das damas, casas de Secretário, quartos dos guarda-roupas, sala dos Tudescos, quarto do estribeiro-mor, residência do almoxarife e respectivos serviços, como a casa do padeiro, telheiro das galinhas, duas cozinhas, uxaria, cavalariças, cocheiras, casas da falcoaria.
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O
tremor de terra de I755 viria a provocar consideráveis estragos no
Paço; no ano imediato e durante quatro anos nele decorreram obras de profundo restauro, dirigidas por
José Joaquim Ludovice e
Carlos Mardel –
dois nomes ligados a grandes empreendimentos arquitectónicos de responsabilidade na Lisboa pombalina.
Não só o «Paço novo» (ampliação do Paço do Infante D. Luís) seria restaurado, mas igualmente as casas do Secretário, a casa do Sargento-mor Pedro Teixeira e a de António Pedro Virgolino, a casa do Almoxarife José dos Santos Freire (nomeado em 1750), e a do Cirurgião-mor Antonio Soares Brandão, o Teatro e a falcoarìa. Construiu-se uma nova cavalariça e reparou-se a ponte do desembarque «feita quasi toda de novo que a cheia a levou». Em carta dirigida ao «senhor tenente coronel Carlos Mardel», o arquitecto João Pedro Ludovice determina, por indicação de S. Majestade, que se «faça o acrescentamento da Casa que pretende o Secretário de Estado Sebastião Jozé de Carvalho e Mello».
Igualmente a Casa Real manda proceder a obras na Igreja Paroquial, ermida de S. Sebastião e Misericórdia. Segundo uma descrição pormenorizada feita em 1758 pelo vigário Miguel Francisco Cerqueira, na Vila, que pertencia à Província da Estremadura, Arcebispado de Lisboa e Comarca de Santarém, residiam 453 visinhos" (o.t fogos), compreendendo um total de 1562 habitantes, dos quais 1351 pessoas maiores na vila, 48 nas aldeias, 157 pessoas menores na vila e 6 nas aldeias; refere-se às aldeias de Cumieiro, Misericórdia, Coelhos, Cabides, Figueiras e Bilrete de Cima.
Existiam nessa época «sete ruas principais - Rua de S. António, a qual parte de Norte para o Sul e vai dar em a Capela Real, em cuja Capela está um altar de S. António do qual tomou o nome esta rua; Para a parte do Poente, ao pé desta se acha a Rua Direita, a qual também parte do Norte Para a Sul, ficando desta parte a praça desta vila; junto a esta se acha a Rua de S. Paulo a qual também parte de Norte a Sul e desta parte dá em o lado direito da freguesia desta vila da qual freguesia tomou esta rua o nome; adjunta a esta se vê a Rua do Pinheiro a qual também parte do Norte a Sul e desta parte antigamente se via um pinheiro e ainda as ruas da Água, do Calvário e do Arneiro». Menciona como construções de algum interesse, a Santa Casa da Misericórdia, o Hospital, as ermidas de S. Sebastião e de S. António e o Paço Real. O censo da população é realizado com maior rigor em 1788, sendo mencionados 2145 habitantes de diversas profissões especialmente dedicados à lavoura e à manutenção da coutada e Paços reais; em pormenor se menciona o estado, número de filhos e respectiva idade de cada habitante, remetendo para um mapa anexo o local de residência de cada agregado familiar.
Da vila se dominava vasto panorama onde se podiam distinguir «o lugar do Escaroupim, vila de Valada, o lugar das Virtudes, a vila de Azambuja e o Convento dos frades de Jericó».
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As diversas deslocações da
Família Real a Salvaterra durante toda a segunda metade do
século XVIII são-nos descritas pela Gazeta de Lisboa. «
Partia do Cais de Belém subindo o Tejo em falua, escaler ou majestosos bergantins com quarenta e oito remeiros, aportando primeiro em Vila Nova da Rainha e seguindo de carruagem, por terra; raramente embarcavam na Ribeira das Naus, seguindo até ao Montijo e dali por terra até Salvaterra; para maior comodidade a rainha seguia por vezes de carruagem até Vila Franca, onde pernoitava, e daí era conduzida em cadeira de mãos, de tela carmezim com franjões de ouro até à falua onde se abrigava sob o toldo rodeado de vidraças cristalinas».
Grande movimentação de pessoal que exigia igualmente a deslocação de «trastes» dos paços de Lisboa, tapeçarias, luminárias, móveis, baixela, para melhor conforto e decoração do Paço de Salvaterra; tarefa de que eram incumbidos os armadores, tal como sucedia em jornadas para outros Paços Reais. Instrumentos musicais e arreios faziam igualmente parte da bagagem, assim como mantimentos para toda a estadia.
A via de comunicação mais utilizada para atingir a vila era fluvial, «sangria ou vala real», que nascia na «ameixoeira», desaguando no leito o Paul e mais ribeiras; percorrido por barcos de vela latina, com capacidade para quarenta moios de pão, ou por «bateiras da mesma sorte armadas, carregando catorze moios de pão», a vala tinha capacidade para receber sessenta embarcações. Pela vala eram transportados os abastecimentos de cereais, linho, madeiras, louças, mobiliário, frutas (
Descrição de 1758).
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Em 1775 um novo
Picadeiro é construído junto do
Paço, sob a orientação de
Petronio Mazoni, constando da «
relação da despeza geral (orçada em 1.995$986) madeiras de Flandres e da terra, vigamentos de Riga e casquinha, decorações de interiores com veludos e galão carmesim de ltália».
No final do século XVIII ainda se mantinha a conservação periódica do Paço, sentindo-se, embora, um apagar lento da vida que durante décadas lhe imprimira a Corte. O órgão da Capela foi afinado em 1783 por Bento Fontanes Máqueira; uma «banqueta de seis castiçais e seus pertences» é executada em 1791 pelo entalhador Manuel Antunes; Pedro António Fidié, Mestre Armador, executa em 1805 uma armação de dossel e espaldar, também para a Capela.
Com a ausência da Família Real, no Brasil, o Paço perde o seu esplendor. Uma sucessão de incêndios (o de 1817 daria origem a graves acusações contra o Almoxarife, só ilibado dois anos depois) e, tremores de terra (1534, 1755, 1909) , ajudariam a intensificar a agonia.
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Desde 1819, insistentes pedidos de obras são dirigidos pelo Almoxarife do Paço e outros administradores. «Manda Sua Alteza», escrevia, em 1827, o visconde de Santarém a José Francisco Brancamp de Almeida Castelo Branco, «em nome de El Rei, que V. Senhoria dê as ordens e providências necessárias, compatíveis com os meios disponíveis para se acorrer a maior ruína procedendo-se aos concertos indispensáveis para a conservação do edifício».
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Cortesia da CMSalvaterra de Magos/JDACT