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sábado, 30 de maio de 2015

Mulher de Ferro. Dona Beatriz (1429-1506). «… não foi recusado o governo da Ordem de Cristo a Diogo, governo aliás delegado a sua mãe, dada a menoridade do titular, pela bula Nuper carisimo, de Sisto IV datada de 19 de Junho de 1475»

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«(…) É então na sequência da viuvez, e liberta de preocupações quanto ao futuro das suas meninas, que dona Brites emerge desse quase anonimato, revelando as qualidades e aptidões que detinha, até aí ocultas- Ora, se as filhas trilhavam já caminhos que lhes haviam sido destinados e não exigiam, de momento, particulares desvelos, havia que velar pelos varões, ainda de menor idade, que iriam herdar a casa e dona Brites não iria delegar essa competência a outrem. Também assim o entendeu Afonso V que, por carta dada a l0 de Outubro desse mesmo ano de 1470, lhe concederia a curadoria e tutoria dos filhos, considerando nom aver hii pessoa que tamta rrazom amor e afeiçam deua nem posse teer carreguo delles e dos feitos e cousas a elles tocamtes, autorizando-a a gouernar e aministrar a elles seus beens e cousas e pessoas e que lhe pertencerem como milhor ouuer e lhe perecer (...) sem embarguo de quaasquer lex canónicas ciuees groses e openiõoes de doutores hordenaçõoes façanhas ou costumes de nossos regnos, ou seja, o monarca assinava a possibilidade de dona Brites se tornar a verdadeira gestora da casa senhorial: do património e de uma corte que já se divisava como alternativa.
O seu primogénito, João, herdou a casa e os títulos do pai. Foi, portanto, 2.ºduque de Beja e 3.º duque de Viseu, fronteiro de Entre Tejo e Guadiana e reino do Algarve, mestre das ordens de Cristo e de Santiago, condestável de Portugal, senhor da Covilhã, de Moura e das ilhas atlânticas. O rei iria ainda fazer-lhe mercê da cidade de Anafé, com toda a jurisdição e senhorios, apenes com ressalva das alçadas.
Mas, prudentemente, dona Brites, prevenindo um qualquer desaire que roubasse a vida ao jovem duque, obteve de Afonso V uma carta dada em Lisboa, a 14 de Agosto de 1471, que, com dispensa da Lei Mental, permitia a sucessão na pessoa do filho seguinte, caso João falecesse sem deixar descendência. Não se contentou a duquesa com a mercê régia e de novo solicitou, e foi-lhe deferida, por carta dada no Porto, a 7 de Agosto de 1476, a extensão da sucessão aos restantes filhos, considerada a ordem cronológica dos seus nascimentos.
Tivera razão a duquesa, nas suas preocupações! João iria, de facto, ter uma curta vida. Tal como o diploma obtido previa, seguiu-se-lhe Diogo, como 4.º duque de Viseu e 3.º duque de Beja. Porém, não seria contemplado como o irmão. O cargo de condestável seria então outorgado a seu primo, João, marquês de Montemor, cargo de há muito ambicionado pela Casa de Bragança, que se reclamava herdeira directa de Nuno Álvares Pereira. Perderia também o mestrado de Santiago que Afonso V entregou a seu filho, o príncipe João, adentro de uma política de concentração do poder, determinação que não teria agradado a dona Brites, que tentou, desta vez sem êxito, obter o mestrado de Avis, detido também por João, para seu filho Manuel. Argumentou a duquesa que a concessão do mestrado a João, agora João II, ocorrera num tempo em que ereasomente príncipe, pelo que não seria curial continuar a detê-lo. Mas estava-se já noutra era e a dona Brites foi-lhe negada mais esta pretensão, escusando-se, habilmente, o monarca com o depauperamento do reino.
Todavia, não foi recusado o governo da Ordem de Cristo a Diogo, governo aliás delegado a sua mãe, dada a menoridade do titular, pela bula Nuper carisimo, de Sisto IV datada de 19 de Junho de 1475. Dona Brites não se limitou então a aguardar a maturidade do filho, empenhando-se directamente na governação da Ordem, como aliás o havia feito, em relação à Ordem de Santiago, ao tempo detida por seu filho João, que contaria apenas cerca de 13 anos. Assim, considerando que no cartório faltava documentação que convinha deter, nomeadamente quanto a constituições, enviou a Badajoz frei Pedro Abreu, vigário da ordem de Cristo, a fim de obter cópias das directrizes em vigor no reino vizinho». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria Odete Martins. «… referem que Afonso V teria admitido o casamento de seu filho com uma outra sobrinha, a princesa D. Juana, matrimónio muito do agrado do pai desta, Enrique IV de Castela, mas para confortar o irmão…»

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D. Brites no governo e na administração da sua Casa
«(…) Donde, levar-nos a pensar que o infante Fernando não se conformava em permanecer num plano mais secundário. Daí que preferisse agir sozinho. Em caso de sucesso, permitir-lhe-ia alcançar glória, prestígio e mais riqueza, já que também não se mostrava indiferente aos despojos que poderia obter. Em 1463, todavia, acompanhou Afonso V numa expedição que tinha como objectivo atacar Tânger, mas o projecto redundou em fracasso, face à fúria dos elementos que dificultaram o desembarque. Logo a seguir, obtido o consentimento régio, o infante lançou-se sobre povoações situadas nas faldas da serra de Benaminir, exigindo para si o quinto do espólio, fazendo tábua rasa do direito cometido a Duarte Meneses, conde de Viana, primeiro capitão de Alcácer Ceguer. Ignorando conselhos prudentes e assentes na experiência, voltou a tentar a conquista de Tânger, em 19 de Janeiro de 1464, mas a surtida saldou-se, do lado português, por duas centenas de mortos e uma centena de prisioneiros. Apesar do desastre, retornou a África e atacou Arzila, sem quaisquer resultados positivos. Em 1469, promoveu nove expedição a Marrocos, atacando a cidade de Anafé, que arrasou e destruiu.
Nota Vitorino Magalhães Godinho que, se Anafé era um importante ninho de galés e fustas bem armadas para a guerra de corso, que continuamente salteavam as costas de Portugal, era igualmente um activo porto de comércio, por onde se escoava o trigo, a seda fina, a fruta e as moedas de ouro e prata. E, ao levianamente arrasar Anafé, atraído apenas pela colheita de um valioso espólio e pela satisfação de orgulho cavaleiresco, o infante não ponderou a real importância da cidade. Enquanto aguardava o marido, D. Brites remetia-se ao seu papel de mãe. Foram nove as crianças nascidas do matrimónio:
  • João (? – 1472 ou 1473);
  • Diogo (? - 1484);
  • Leonor (1458 - 1525);
  • Isabel (1459 - 1521);
  • Duarte (? - ?);
  • Dinis (? - ?);
  • Simão (? - ?);
  • Catarina (? - ?);
  • Manuel (1469-1521);
  • Mas apenas cinco iriam sobreviver à mortalidade infantil: João, Diogo, D. Leonor, D. Isabel e Manuel.
Mas a 18 de Setembro de 1470, D. Brites viria novamente partir o infante Fernando, mas desta vez para ume viagem sem regresso. Fechava-se um ciclo, que se iniciara em Alcáçovas, quando o recebera por marido. Outro se abria agora, que não lhe iria permitir que e tristeza do momento pudesse aniquilar ou sequer intervir na vida que continuava. As filhas, D. Leonor e D. Isabel, haviam celebrado os esponsais, desde muito jovens, no paço de Setúbal e ainda em vida de seu pai. A primeira, pelo seu casamento com o príncipe herdeiro, João, futuro João II, cingiria a coroa de Portugal; a segunda tornar-se-ia duquesa de Bragança, unindo os seus destinos ao duque Fernando, vinte e oito anos mais velho do que ela, viúvo de D. Leonor Meneses, filha de Pedro Meneses, conde de Viana e marquês de Vila Real. Voltando a citar o conde de Sabugosa, diremos que as duas irmãs tiveram assim em sorte os mais cobiçados maridos da Península, o que mais uma vez vem demonstrar a grandeza da Casa de Viseu - Beja, ou a continuada ambição de Fernando, já que, tanto Rui Pina como Garcia Resende referem que Afonso V teria admitido o casamento de seu filho com uma outra sobrinha, a princesa D. Juana, matrimónio muito do agrado do pai desta, Enrique IV de Castela, mas para confortar o irmão, anojado e triste, com o insucesso da pretendida conquista de Tânger, acedera ao pedido que o infante anteriormente lhe fizera.
Quanto ao outro noivo, naturalmente que havia todo o interesse em reforçar os elos com a poderosa Casa de Bragança, não esquecendo que outra não havia que se lhe comparasse. Fernando não poderia eleger diferentes maridos para suas filhas, sob pena de se constranger a si próprio». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria Odete Martins. «Sisto IV pretendendo demover João II da aplicação rigorosa da lei do beneplácito, no preciso momento que enviava o núncio João Mierli a Lisboa, solicitava à infanta que envidasse esforços no sentido de aconselhar o rei…»

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Duquesa de Viseu e duquesa de Beja. Uma rica e poderosa dona
«(…) E se visitássemos a botica, poderíamos observar as burnees alinhadas, conferindo os xaropes: de mel rosado, de mel de rosmaninho, de mel de avenca; ou espreitar as almotolias com óleo de raposa e com óleo de hortelã; e as arredomas com água de flor de laranjeira, de erva-cidreira e mais vinte e oito cõ xaropes de muitas maneiras e cãtidades. Se o boticário o permitisse, poderíamos ainda reparar nos utensílios que usava para elaborar as mezinhas, e talvez, com um pouco sorte, nos mostrasse os gatos de algália.
Mas não era só o extenso património ou a demonstração da magnificência do seu palácio de Beja, a que acresciam os paços de Azeitão e de Belas, que revelavam o poder de D. Brites. Para além das ligações familiares com as casas mais influentes do reino, a sua corte contava com fidalgos que detinham altos cargos na administração e nas ordens militares, dos quais desatacaremos: Álvaro Almeida, comendador da Ordem de Santiago, Álvaro Cunha, estribeiro-mor de Afonso V e de João II, Antão Oliveira, cavaleiro da Ordem de Cristo, Artur Brito, alcaide-mor de Beja, Duarte Sodré, comendador da Ordem de Cristo, Fernão Sousa, comendador da Ordem de Cristo e alcaide de Salvaterra de Magos, Francisco Góis, alcaide-mor de Mértola, Garcia Melo, comendador da Ordem de Cristo, Gil Vaz Cunha, comendador da Ordem de Cristo, Gonçalo Vaz Cunha, senhor de Vila Nova de Portimão, vedor da Fazenda e governador da Casa do Cível, Henrique Albuquerque, alcaide-mor de Marvão, Henrique Pereira, comendador da Ordem de Santiago, Leonel Rodrigues, cavaleiro da Ordem de Cristo, Rodrigo Afonso Atouguia, membro do conselho de João II e capitão donatário da ilha de Santiago, e Rodrigo Castro, membro do conselho de João II e alcaide-mor da Covilhã.
A Cúria Romana também não ficou alheia à infanta-duquesa, que manteve relações privilegiadas com a Santa Sé, nomeadamente nos pontificados de Sisto IV e de Inocêncio VIII, de quem obteve por intercessão do cardeal de Portugal, Jorge Costa, personalidade sempre muito próxima da Casa de Viseu-Beja, diversas letras apostólicas que, nomeadamente, favorecerem o Mosteiro de Santa Maria da Conceição, que a duquesa edificara em Beja. Ao invés, também o Sumo Pontífice recorreu a D. Brites. Assim, Sisto IV pretendendo demover João II da aplicação rigorosa da lei do beneplácito, no preciso momento que enviava o núncio João Mierli a Lisboa, solicitava à infanta que envidasse esforços no sentido de aconselhar o rei a não attentar contra liberdade eclesiástica.

D. Brites no governo e na administração da sua Casa
O infante Fernando haveria de falecer ainda jovem, aos 37 anos de idade, em Setúbal, a 18 de Setembro de 1470, sucumbindo à doença que o vinha afligindo desde há alguns meses. Nos anos em que decorreu o casamento, pouco se sabe da duquesa que, certamente, estaria cuidando da sua casa e da família, conforme ao modelo estatuído, que congregava o consenso de clérigos e laicos: Boa espose é aquela que está em casa e que da casa toma conta. O marido, demasiadamente ambicioso para se satisfazer com o governo de sua casa, perdidas as esperanças de cingir a coroa portuguesa ou a de Nápoles, já que não obtivera autorização para integrar o séquito que levara sua irmã, a imperatriz D. Leonor, à Itália, ao encontro de Frederico III, o que lhe permitiria contactar seu tio Afonso V, o Magnânimo, que não dispunha de herdeiro legítimo, voltara-se para outro cenário, concretizado em surtidas ao Norte de África, conquanto, numa primeira fase, não houvesse apoiado o irmão na prossecução da política africana». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

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sábado, 9 de agosto de 2014

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria Odete Martins. «… sem esquecer o velho livro ‘roto em partes’, com sua funda de chamalote azul. O breviário de pergaminho, de letra de pena, com brochas de prata com as divisas de D. Brites; […] o caderno de pergaminho, anotado, em que ‘estam certas misas d’oficio do amjo’»

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Duquesa de Viseu e duquesa de Beja. Uma rica e poderosa dona
«(…) A capela, iluminada por castiçais e lâmpadas de prata, adornar-se-ia com ricas alfaias sagradas, entre as quais uma ara de jaspe verde, encastoada num castão de marfim; um porte-paz de prata com sua caldeira de água benta e palea da Holanda lavrada a ouro e aljôfar; um cálice grande de prata dourada cinzelada, com seis campainhas de prata pendentes e respectiva patana, com um esmalte no centro; duas galhetas de prata dourada, em forma de gomis; uma naveta de prata dourada; paramentos de brocado, de damasco, de veludo, de pano da Índia, muitos deles lavrados e ouro. Nas estantes, recobertas com panos de veludo, de damasco ou de chamalote colocar-se-iam os livros litúrgicos: o missal de letra de pena, em pergaminho, que pertencera ao infante João; o missal, também em pergaminho, manuscrito e iluminado; o missal de pena que servia pelas festas; um outro, igualmente de letra de pena, em pergaminho, encadernado em couro vermelho; sem esquecer o velho livro roto em partes, com sua funda de chamalote azul. Seguir-se-iam o breviário de pergaminho, de letra de pena, encadernado, com brochas de prata com as divisas de D. Brites; outro breviário, também de letra de pena, em pergaminho, iluminado; os seis livros de canto de órgão; os doze cadernos de procissões; o santoral anotado, de pergaminho, encadernado em couro vermelho, com brochas de latão; o caderno de pergaminho, anotado, em que estam certas misas d’oficio do amjo; o livro de vésperas, de pergaminho; o oficial de missas, de pergaminho, anotado; o diurnal; o sacramentário; o confessional; o catecismo, em forma purtuguesa, e os livros da educação cristã: Vita Christi, Genesy Alfonse, Vida Amgelica, Flos Santorum, Corte empereal e o livro Das Penas do Imferno e da Gloria Final. Expostos ou resguardados encontravam-se também os relicários: uma cruz, que pertencera ao infante João, encimada por uma coroa de espinhos, tendo ao centro uma bolsa de ouro, ornada com duas vieiras esmaltadas de branco e rodeada por cinco diamantes encastoados, contendo uma relíquia do Santo Lenho; um relicário de ouro, grande, encimado por uma cruz, com três rubis barrocos, três diamantes, seis pérolas grossas, encastoadas em esmalte e um terceiro, também de ouro, esmaltado, em que se continha um osso de São Brás. Enfim, nos armários guardar-se-iam os panos de cetim destinados ao púlpito e as tolhas de altar, de pano da Holanda e de lenço da Índia, lavradas e ouro.
Deixemos a capela e entremos na cozinha. Para a confecção e apresentação dos alimentos dispunha a infanta de uma apreciável quantidade de tachos de cobre, de sertãs, de espetos, de caldeiras, de enfusas, de alguidares, de bocetas, de púcaros, de bandejas, de pratos de estanho e de prata, de talheres de prata, de copos de cristal de variadas cores, de gomis, de jarros, de açucareiros de prata, de porcelanas, de toalhas de damasco, provenientes da Holanda e da Flandres. À sua mesa não faltavam as frutas frescas, as conservas, os confeitos, as especiarias: canela, cravo, gengibre, malagueta, noz-moscada, pimenta». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria Odete Martins. «… três rubis barrocos e dois diamantes de pontas finas; uma safira muyto gramde encastoada em ouro; um anel de ouro grande com uma safira azul; um anel de ouro com uma safira branca e olho-de-gato; um anel pequeno com um diamante…»

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Duquesa de Viseu e duquesa de Beja. Uma rica e poderosa dona
«(…) Para o lado da rua dos Infantes ficavam as residências dos moradores. No quintal, plantado de árvores, localizavam-se as necessárias. Se são escassos os elementos de descrição externa do edifício, o que dizer do seu interior para o qual dispomos apenas do auxílio de dois documentos: o que refere o enxoval da infanta e as disposições testamentárias da mesma, que seu filho Manuel I faria executar? Tentemos, ainda assim, entrar no palácio.
Sobre o pavimento, revestido de azulejos valencianos, avultariam as alcatifas, vindas de Castela e do Levante. As paredes deveriam ser total ou parcialmente cobertas por panos de rás (de que D. Brites levara doze, por ocasião do casamento), de dimensão e lavor variado, reflectindo a opulência da casa. Os mais pequenos representavam apenas uma figura, como, por exemplo, um rei detendo na mão o ceptro; outros narravam a história dos profetas. Face à abundância dos cercamentos de câmara, provavelmente de acordo com a dependência, e porventura com a ocasião, assim se colocariam os de cetim azul com esteios de veludo carmesim, os de damasquim pardo ou os de sarja. De entre o mobiliário avultavam as arcas, de primordial importância no acervo de uma casa pela multiplicidade de funções que ofereciam. Nelas se se aconchegavam os objectos de adorno, as peças de indumentária, se guardavam as roupas de casa, os livros, a loiça, mas poderiam igualmente servir de leito, como bem notou Oliveira Marques. A infanta dispunha de setenta e nove. Havia também os cofres: em âmbar, marchetados de marfim, provenientes da Alemanha, da Flandres, de Aragão, de Pisa, onde D. Brites guardaria as muitas jóias de que dispunha, como, por exemplo: uma vieira de ouro; dois negros de ouro; um firmal de ouro com uma figura de donzela esmaltada; um anel de sinete; uma mãozinha de ouro cheia de âmbar; uma cadeia com duas pontas de ouro e esmalte preto; uma lancinha de ouro com uma bandeira e as armas de Castela, sobre esmaltes e ferro de prata; uma língua de escorpião encastoada, em ouro, em forma de faixa com dois escudos das armas de Castela, também de ouro e esmaltados; um escudo das armas de Portugal, de ouro, esmaltado, encimado pela respectiva coroa em que brilhavam três rubis barrocos e dois diamantes de pontas finas; uma safira muyto gramde encastoada em ouro; um anel de ouro grande com uma safira azul; um anel de ouro com uma safira branca e olho-de-gato; um anel pequeno com um diamante; cinco diamantes soltos; cinco esmeraldas; seis safiras grandes, das quais quatro encastoadas em ouro; oito rubis grandes encastoados em ouro; dois castões de ouro, um deles esmaltado de branco; cinco amuletos, três de pérolas e dois de ouro; um castão de ouro, esmaltado, contendo uma pérola; dezoito rubis pequenos; dezasseis safiras; três botões de ouro, cheios de âmbar; uma sobrecopa de ouro, com esmaltes verdes e brancos, em forma de tenda, em que em torno da franja brilhavam seis rubis barrocos, encastoados em ouro, uma safira, também encastoada, entremeadas de pérolas, sendo o conjunto encimado por uma safira grande, três rubis barrocos e três pérolas pendentes entre os rubis e à porta da tenda apresentava-se uma figura de donzela com um rubi barroco na mão; cinco cordões, um de quarenta e cinco corais, outro de cinquenta corais, longos e grossos, com as extremidades de ouro cobertas de âmbar; um outro de contas cobertas de âmbar, com pontas de prata; um quarto, longo, de contas de âmbar e por fim o quinto composto por sessenta corais pequenos e longos, com sete extremidades de ouro. Relativamente às roupas de cama abundavam as colchas da Bretanha, as almofadas, os lençóis da Holanda, os cobertores de grã-vermelha, de Londres e de papa». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

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terça-feira, 4 de março de 2014

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria Odete Martins. «A fachada, onde se rasgava a porta principal, era dotada de uma magnífica escadaria de pedra da região que, nascendo no tabuleiro do adro da Igreja e extradorso do paço, atingia em forma de leque de secção pentagonal, o recinto público do Terreiro»

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Duquesa de Viseu e duquesa de Beja. Uma rica e poderosa dona
«(…) Poder que se espelhava no património do ducado, que aos bens anteriormente descritos iria posteriormente acrescer a parte da herança do condestável Nuno Álvares Pereira, adquirida por direito de sucessão aos familiares directos de D. Brites: seus irmãos, Diogo e D. Filipa, ambos falecidos solteiros e sem descendentes. É certo que a primeira herdeira de Diogo seria D. Isabel, a irmã mais velha das meninas, mas esta era rainha de Castela, pelo que Afonso V entendeu comprar-lhe a herança por 60 mil florins de ouro do cunho de Aragão, evitando que esse património passasse a mãos estrangeiras. Do adquirido fez o monarca doação a Fernando, a título de dote de casamento. Entravam, assim, na posse da Casa de Viseu-Beja a vila de Almada, a vila de Loulé e seus termos, com todas as suas rendas e direitos, incluindo os tributos de mouros e cristãos que lavrassem no reguengo, as terres e julgados de Lousada e de Paiva, o montado de Campo de Ourique, com todo o direito do cardo e do verde, a quintã e paço de Belas, com todas as suas rendas, foros, tributos e padroados, a quintã e paço de Azeitão, o reguengo e lugar de Colares, as rendas e direitos de Serpa e a quinta de Alagoa Alva, sita no termo de Santarém, coutada com todas as herdades, ribeiras e águas.
Mais tarde, já no estado de viúva, D. Brites iria adquirir diversos bens de raiz nas vilas de Beja, Serpa, Moura, e seus termos, bens que, na sua quase totalidade, legaria ao Mosteiro de Santa Maria da Conceição de Beja, que fundou. Residiu D. Brites, grande parte da sua vida, em Beja, no paço edificado por ocasião do casamento. Localizava-se no largo onde se erguia a Igreja de Santa Maria da Feira, com as traseiras viradas para a rua que, por extensão, tomou o nome dos nobres residentes: Rua dos Infantes. A sua casa era opulenta, ostentosa, e servida com tanta magnificência (…) que dava a impressão de uma verdadeira Corte, constata uma vez mais o conde de Sabugosa. Cremos também que deveria ter sido imponente. Nem outra coisa seria de esperar dos duques, cuja linhagem, estatuto e atitude se comparavam à Casa Real. E dizemos que devia, porque, infelizmente (é sempre doloroso admitir a perda de património onde se inscreve a nossa História), o peso dos anos não poupou o palácio e a degradação foi-se acentuando. Nos finais do século XIX, apresentando já um estado deplorável, a Câmara de Beja, aproveitando as leis emanadas no liberalismo, que determinaram a desamortização dos bens das instituições eclesiásticas e monásticas, solicitou ao poder central, em 12 de Abril de 1894, a cedência do edifício e terrenos adjacentes para demolição, com vista ao alargamento de ruas. Por despacho de 4 de Outubro do mesmo ano, o rei Carlos I havia de deferir o pedido. Donde, da nobre residência de D. Brites apenas hoje restam alguns vestígios, integrados ou recolhidos no Museu Regional de Beja, denominado Museu Rainha D. Leonor, instalado, a partir de 1927, em dependências que haviam pertencido ao extinto Mosteiro de Santa Maria da Conceição: uma belíssima janela geminada de mármore cinzento, que se inseriu na fachada do mosteiro, que Raul Proença classificou como um dos mais lindos e originais ajimeces do mourisco alentejano, algumas pedras de armas e a reconstituição, a partir de uma parte original, de uma grelhagem em terracota do antigo passadiço, composto por arcaturas cegas de ladrilho e gelosias com ornatos geométricos e vegetalistas, que ligava o palácio ao coro alto do mosteiro. Não podendo contemplar o palácio, socorremo-nos da descrição de Túlio Espanca, que inventariou o património artístico, nomeadamente do Sul de Portugal.
A fachada, onde se rasgava a porta principal, era dotada de uma magnífica escadaria de pedra da região que, nascendo no tabuleiro do adro da Igreja de Santa Maria da Feira e extradorso do paço, atingia em forma de leque de secção pentagonal, o recinto público do Terreiro. Um terraço de grelhas de tijolo e balcões geminados com arcos de ferradura dava acesso ao andar nobre, coberto por telhado de quatro águas. Sobranceira à escadaria abria-se um ajiméz de arco em ferradura, em mármore cinzento, denunciando a preferência pela arquitectura mudéjar. Um outro ajiméz, em mármore branco, ornamentava também o palácio. Ao nível do andar nobre corria um balcão, muito provavelmente também de estilo mudéjar, onde se abriam duas largas portas que comunicavam com o salão de recepção. No piso térreo, que deitava para um espaçoso pátio, localizava-se uma enorme sala, sustentada por colunas de tijolo. De cada lado do pátio, situavam-se as habitações dos criados, as cocheiras e as arrecadações». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria O. Martins. «Um enxoval em que, a par das peças que deviam bem apetrechar uma casa, fossem ornamentos, como panos de rás ou cortinas douradas e prateadas, fossem de uso quotidiano, como os gomis, os picheis, os saleiros, as confeiteiras ou os castiçais para brandões…»

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D. Brites (Beatriz)
«(…) Em Alcáçovas, em 1447, em cerimónia conjunta, a que assistiram o rei, o regente Pedro e a mãe das noivas, a viúva do infante João, celebraram-se os matrimónios das duas irmãs. D. Isabel toucar-se-ia com uma coroa de rainha, mas D. Brites, tomando as palavras de António Caetano Sousa, desposava o mayor senhor que nunce houve em Hespanha, que não fosse Rey. De facto, não é de estranhar que o notável teatino, académico da Real Academia da História Portuguesa, assim considerasse o infante Fernando, já que o mero elencar dos títulos e senhorios, que iria reunir no curto percurso da sua vida, comprovava a importância e poder da sua casa: 1º duque de Beja; 2º duque de Viseu, por sucessão do infante Henrique que, não tendo tomado estado e carecendo de descendentes que pudessem perpetuar a sua memória, elegera o sobrinho como filho adoptivo, em testamento lavrado em Estremoz, a 7 de Março de1436; 5º condestável do reino, ocupando a vacatura deixada pelo condestável Pedro, filho do regente Pedro; 9º mestre da Ordem de Cristo e 12º o mestre da Ordem de Santiago; fronteiro-mor do Alentejo e do reino do Algarve; alcaide-mor da Guarda, de Tavira e de Marvão; senhor da Covilhã, de Serpa, de Moura, de Lagos, de Gouveia, da terra de Besteiros, de Lafões, de Sátão, detendo ainda a exploração das saboarias do reino com o respectivo monopólio do fabrico e venda do sabão; os direitos reais, judiaria e mouraria nas terras de Santarém; as rendas e direitos das lezírias dos barrocais da Redinha e a posse e administração dos arquipélagos da Madeira e dos Açores e das ilhas de Santiago, Maio, Boavista e Sal, no arquipélago de Cabo Verde, e ainda o senhorio de Anafé, no Norte de África.
Tão vasto património provinha das régias doações de seu irmão, mas continha-se essencialmente no legado do infante Henrique, seu tio. As mercês concedidas ao infante Fernando foram de tal grandeza que, na relação extraída do Livro dos Contos do Reino, relativos a 1461 a 1469, regista-se que a mor contia (...) foy despachada ao Iffamte dom Fernando, em que para seu assentamento recebera da coroa, no ano de 1461, dois milhões duzentos e oito mil quinhentos e sessenta e um reais, pagos nos almoxarifados de Setúbal, Faro, Tavira e Beja.

Duquesa de Viseu e duquesa de Beja. Uma rica e poderosa dona
Nada nos é dito sobre o que teria pensado a jovem em relação ao noivo que lhe impunham. Era ainda uma adolescente quando se celebraram os esponsais. Talvez tenha ficado agradada pelo facto de Fernando ser tão jovem quanto ela, enquanto sua irmã iria encontrar um marido vinte anos mais velho. Decerto teria ficado embevecida com o riquíssimo enxoval com que sua mãe a presenteara. Um enxoval em que, a par das peças que deviam bem apetrechar uma casa, fossem ornamentos, como panos de rás ou cortinas douradas e prateadas, fossem de uso quotidiano, como os gomis, os picheis, os saleiros, as confeiteiras ou os castiçais para brandões, avultavam as jóias de fino lavrado, onde brilhavam os diamantes, as esmeraldas, os rubis, as pérolas grossas, e se arrolavam as crespinas de ouro, de veludo e de cambraia, as toucas estufadas, as opas e mantos de brocado, de veludo e de damasco, os chapins dourados, os espelhos de âmbar, os perfumes, as alfaias sagradas, as arcas de Flandres, os cofres de Aragão. Um enxoval digno de uma princesa ou de uma sultana, nas palavras do conde de Sabugosa, que, extasiado na leitura do registo, não encontrou similitude para tanta grandeza senão nos lendários faustos do Oriente. Ou seja, o enxoval, demonstrando a generosidade de quem dava e a magnificência de quem o recebia, antecipava a grandeza e o poder que constituiriam apanágio da Casa de Viseu-Beja». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

domingo, 15 de dezembro de 2013

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria Odete Martins. «Quanto a D. Brites, o lance não era de menor monta. O noivo seria um primo directo, Fernando, terceiro filho varão do rei Duarte I, que o Regente, avisadamente, havia feito jurar príncipe herdeiro em Tomar em 1438»

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D. Brites
«(…) Não rezam as crónicas nada sobre e sua infância, tão-pouco sobre a educação que lhe teria sido ministrada por seus pais que, ainda assim, cremos ter sido esmerada, na esteira da tradição dos fundadores da dinastia. É certo que, na esfera da cultura, o infante João não deixou um rasto como seu pai, João I, ou como seus irmãos Duarte e Pedro, mas tal não significa que a sua formação tenha sido descuidada. Aliás, recordamos que o infante João, na sequência do falecimento de D. Filipa em Odivelas, em 1415, foi acolhido na casa do futuro Eloquente. Igualmente desconhecemos os interesses ou aptidões de D. Isabel, mas lembramos que em relação a seu irmão Fernando, conde de Arraiolos, marquês de Vila Viçosa e futuro 2.º duque de Bragança, conhece-se uma carta que dirigiu, em 1460, a Afonso V, no contexto dos debates que então se verificavam em torno do prosseguimento da política africana, em que fundamentou a sua argumentação com recurso aos clássicos e à patrística. De qualquer modo, estamos, ainda assim, no campo das conjecturas e apenes podemos afirmar que a infanta sabia ler e escrever. Do domínio da escrita dá testemunho os documentos em que apôs a sua assinatura, e em que não raras vezes adicionou algumas palavras precisando intenções ou afirmando autoridade. No tocante à leitura, e à semelhança das suas familiares, lia o breviário e, provavelmente, as obras piedosas, que se encontravam na biblioteca do palácio de Beja, tais como a Vita Christi, de Ludolfo de Saxónia, ou a Contemplação de Nossa Senhora, de São João Boaventura.

De novo no seio da família: o casamento na Casa Real
O infante João faleceu cedo, em Outubro de 1442, deixando a sua viúva o encargo de seus filhos: Diogo, D. Isabel, D. Brites e D. Filipa. Do destino de Diogo encarregar-se-ia o Regente Pedro que, projectando desta forma a afeição que dedicara ao irmão dilecto, o faria ascender ao mestrado de Santiago, para cujo cargo foi eleito a 24 de Janeiro de 1443. Deteria o governo da Ordem por um escasso período de tempo, pois a morte viria surpreendê-lo um ano depois, sem haver tomado estado, ou ter deixado sucessão. D. Isabel, como anteriormente se referiu, ascenderia ao trono de Castela. Todavia não era esta e coroa com que seu avô, Afonso, havia sonhado. Projectara, ao invés, um matrimónio com o rei português, D. Afonso V, terçando armas que o levariam mesmo a deitar mão da calúnia que pretendia manchar a reputação de sua sobrinha, também de nome Isabel, já esposa do monarca, filha de seu meio-irmão, o Regente Pedro. Quanto a D. Brites, o lance não era de menor monta. O noivo seria um primo directo, Fernando, terceiro filho varão do rei Duarte I, que o Regente, avisadamente, havia feito jurar príncipe herdeiro em Tomar em 1438, precavendo-se contra um eventual insucesso do jovem monarca, Afonso V recordando a elevada mortalidade infantil que grassava na época, e que já anteriormente havia ceifado o infante João, primogénito real. Fernando perfilava-se, assim, como segundo na ordem da sucessão, indo de novo alimentar a secreta esperança de Afonso de Bragança de ver uma das suas netas sentada no trono de Portugal, o que lavaria a mancha de bastardia que incomodava a sue linhagem. D. Filipa, a mais moça, permaneceu solteira. Crê-se que ainda se teria negociado a sua união com seu tio Afonso, marquês de Valença, primogénito do duque de Bragança, mas o projecto acabou por gorar-se, dado o falecimento do presuntivo noivo». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

Mulher de Ferro. D. Brites (Beatriz). 1429-1506. Maria Odete Martins. «… a pequenina infanta era próxima familiar das duas principais figuras donde emergiu a novel dinastia: ‘o rei e o seu condestável que, com a força do seu braço armado, abriu o caminho que levaria ao trono o Mestre de Avis’»

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D. Brites
«Ao observarmos a tela exposta na igreja do extinto Mosteiro de Santa Maria da Conceição de Beja, em que se pretende representar a infanta D. Brites, deparamo-nos com uma figura serene, conforme, é certo, aos cânones a que deviam obedecer os retratos. E, todavia, a infanta, duquesa de Viseu e duquesa de Beja, foi uma mulher continuamente inquieta, prosseguindo objectivos que traçou e que nortearam a sua vida. A gravura inserta no manuscrito de Vasco Freire, intitulado Livro das antiguidades de Beja, apresenta uma imagem, em nosso entender, bem mais consentânea com a sua vincada personalidade. Ambas as imagens são posteriores, mas na gravura do manuscrito o iluminador, que talvez tenha lido ou ouvido contar o percurso de vida da infanta, captou um olhar enigmático, sagaz, próprio de alguém que se resguardava, que media o interlocutor, que calculava e calculava eventuais confrontos. Mas quem foi, afinal, a infanta D. Brites?
Qualquer biografia costuma iniciar-se com a referência à data de nascimento e ao local onde tal ocorreu, mas para os tempos medievais frequentemente não nos é possível precisar tais dados, face à ausência de registos. É o caso da infanta D. Brites. A crer na inscrição gravada na sua sepultura, e neste caso não temos razões para duvidar porquanto a cotejámos com outras fontes, faleceu em 1506, contando então 77 anos. Sendo assim teria nascido em 1429. Mas se chegamos a uma data, se bem que estimada, outro tanto não o poderemos fazer relativamente ao local onde abriu, pela primeira vez os olhos pera a vida. Belas? Azeitão? Alcochete? Estremoz? Palmela? Alcáçovas? Alcácer do Sal? Setúbal? Qualquer delas poderia ter sido berço da infanta. Mas se temos suporte para as elencarmos, considerando que as duas primeiras se inscreviam no senhorio de seu pai e as últimas estavam na órbita da Ordem de Santiago, de que o progenitor era mestre, desviar-nos-íamos do rigor científico se ousássemos, sem um fundamento sólido, fixarmo-nos numa determinada, até porque poderíamos aventar ainda a hipótese de Lisboa. Desconhecemos também se o local do nascimento constituiu referência para a infanta, mas referência sem dúvida foi a família de que nasceu.
D. Brites foi o terceiro rebento originado do matrimónio do infante João com sua sobrinha D. Isabel, celebrado em 1424. O infante João, mestre da Ordem de Santiago e condestável do reino, era o penúltimo filho do rei de Boa Memória e da rainha D. Filipa de Lencastre. Os pais de D. Isabel eram Afonso, então conde de Barcelos e futuro l.º duque de Bragança, bastardo de João I, e D. Brites Pereira de Alvim, única filha de Nuno Álvares Pereira e de D. Leonor de Alvim. Donde, a pequenina infanta era, simultaneamente, próxima familiar das duas principais figuras donde emergiu a novel dinastia: o rei e o seu condestável que, com a força do seu braço armado, abriu o caminho que levaria ao trono o Mestre de Avis. Ambos bastardos, ambos de linhagem, um filho do rei Pedro I, o outro de Álvaro Gonçalves Pereira, mestre da Ordem de S. João de Jerusalém. Não seriam os pergaminhos que iriam faltar à infanta, cujas raízes se imbricavam duplamente na Casa de Avis e na poderosa Casa de Bragança. Mas as suas redes familiares não se quedavam na Casa Real portuguesa. Em Castela, reinaria sua irmã, D. Isabel, por consórcio com Juan II, então viúvo de D. Maria de Aragão. É certo que não logrou por muito tempo a afeição da irmã. A rainha, segundo os cronistas, caíra em depressão profunda logo após o falecimento do marido, depressão que se tornaria crónica. Correu D. Isabel, a mãe, a Arévalo a fim de acompanhar a filha na sua doença e prestar os devidos cuidados aos netos. Aí acabaria por falecer em 1465. Não voltaria, D. Brites, a abraçar sua mãe e sua irmã. Mas restava-lhe a sobrinha, também de nome Isabel, a futura rainha Católica, com quem iria manter laços de grande afectividade e até de cumplicidade». In Maria Odete Sequeira Martins, D. Brites (Beatriz). 1429-1506, Mulher de Ferro, Quidnovi, 2011, Via do Conde, ISBN 978-989-554-789-0.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

domingo, 23 de setembro de 2012

A Infanta D. Beatriz. Mãe de Manuel I. João Oliveira e Costa. «Viveu os últimos anos da sua vida, em regra retirada em Beja, embora saibamos que, por exemplo, no Natal de 1500 estava em Lisboa, tendo participado nos festejos organizados por seu filho Manuel I. A Infanta D. Beatriz foi o poder em Portugal no século XV, início do século XVI»


(1429 ou 1430-1506)
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«Filha do infante João, filho de João I, e de D. Isabel, sua sobrinha, filha Afonso, 1º duque de Bragança, e neta de Nuno Álvares Pereira, nasceu em 1429 e morreu em Beja, a 30 de Setembro de 1506. Em 1445, sua mãe e seus tios decidiram o seu casamento com o infante Fernando, seu primo co-irmão, filho segundo do rei Duarte I. A existência de D. Beatriz pautou-se pela discrição até ao mês de Setembro de 1470, aquando da morte de seu marido. Registe-se apenas que deu à luz oito filhos entre 1458 e 1469, o último dos quais, o futuro rei Manuel de Portugal. Quando o infante Fernando faleceu, todos os filhos do casal sobreviventes eram menores. As duas raparigas estavam prometidas para casamentos distintos: D. Leonor fora destinada para ser rainha de Portugal, pelo enlace com o herdeiro do trono, o futuro João II, enquanto D. Isabel foi encaminhada para Fernando, duque de Guimarães e herdeiro da Casa de Bragança. À morte do infante Fernando, Afonso V concedeu ao filho primogénito de seu irmão o património da Casa de Viseu-Beja: os ducados, o senhorio da Covilhã, o senhorio das ilhas atlânticas e o monopólio das saboarias do reino. No entanto, evitou a excessiva concentração de poder que havia ocorrido em seu irmão, pois o cargo de condestável passou para João, filho segundo do duque de Bragança, o governo da Ordem de Santiago recaiu no príncipe João e o governo da Ordem de Cristo transitou para Diogo, o filho segundo do infante Fernando e D. Beatriz.
O rei assumiu a tutoria deste sobrinho, procurando assim ganhar o controlo da Ordem de Cristo, enquanto D. Beatriz ficou com a tutoria do seu primogénito e, consequentemente, com a governação do ducado e das ilhas. No início de 1472, faleceu João, o 3º duque de Viseu, pelo que lhe sucedeu no título seu irmão Diogo e o ducado de Viseu voltou a ser acumulado na mesma pessoa com o governo da Ordem de Cristo. D. Beatriz continuou a gerir o património do ducado, agora em nome do filho Diogo.


Não terá sido fácil conduzir os negócios da Casa de Viseu. Uma acta da vereação do Funchal de 31 de Janeiro de 1472, refere que após ter sido lida uma carta da duquesa em que esta pedia que os homens bons da vila que não se escusassem ao serviço camarário, “logo Rui Lopes, escudeiro, disse que a carta susodita era carta de mulher”. A mulher, porém, impôs-se a esse mundo dos homens e governou com autoridade os vastos domínios que pertenciam ao duque Diogo. Durante o governo das ilhas por Fernando (1461-1470), a atenção da Casa de Viseu concentrara-se sobretudo no desenvolvimento económico da ilha da Madeira e no início do povoamento da ilha de Santiago, no arquipélago de Cabo Verde.
D. Beatriz, distinguiu-se pela atenção especial que prestou às ilhas dos Açores, tendo promovido a troca do capitão de São Miguel e tendo dividido a ilha Terceira em duas capitanias. A partir de 1475 passou também a ser a tutora de Diogo para a governação da Ordem de Cristo, quando Afonso V se envolveu na guerra com Castela em defesa da candidatura de sua sobrinha, D. Joana, ao trono castelhano.
A guerra luso-castelhana de 1475-1479 foi decisiva para a recomposição do mapa político peninsular, pois a vitória de Isabel possibilitou o estreitamento dos laços e a futura união das coroas de Castela e de Aragão, pois a princesa castelhana era casada com Fernando, o herdeiro do trono aragonês. Embora o conflito se relacionasse com a obtenção do ceptro castelhano, os combates não se circunscreveram ao território peninsular, pois alastraram para o Oceano. Era a primeira guerra luso-castelhana depois do início dos ‘Descobrimentos’ e logo as novas áreas sob influência portuguesa foram envolvidas no conflito. Isabel pretendia retomar a política de seu pai, o rei João II de Castela, que sempre se opusera ao avanço das caravelas portuguesas ao longo da costa da Guiné, ao contrário de seu irmão Henrique IV que nunca se interessara pelo assunto. Por isso, várias esquadras castelhanas foram enviadas à Guiné, sobretudo na tentativa de controlar a região da Mina. Foi nessa ocasião que se procedeu à construção da primeira fortificação em Angra, e navios castelhanos atacaram pelo menos as ilhas de Porto Santo e de Santiago. Os territórios continentais da Casa de Viseu-Beja, estavam, em regra, suficientemente longe da fronteira para que as destruições causadas pela guerra não fossem significativas, mas os domínios insulares da Casa estavam expostos aos ataques castelhanos e as riquezas auferidas pela exportação do açúcar madeirense ou os rendimentos que a Ordem de Cristo obtinha pela vintena do comércio da Guiné foram afectados nestes anos. Além disso, o interesse de Isabel pelo Atlântico colocava os domínios da Casa de Viseu no campo das moedas de troca quando a diplomacia fosse chamada a sarar as feridas da guerra. Quando o conflito caiu num impasse, foi precisamente D. Beatriz quem representou Portugal no encontro que veio a decidir os termos da paz entre os dois reinos. 


Isabel, a princesa que venceu a guerra na sua dimensão ibérica, era filha do segundo casamento do rei João II; sua mãe, era D. Isabel, irmã de D. Beatriz. A duquesa de Viseu era, assim, tia da castelhana o que a colocou numa posição de maior proximidade pessoal para tentar resolver o conflito. Em meados de Março de 1479, D. Beatriz, seguida por um pequeníssimo séquito, cruzou a fronteira luso-castelhana em Segura e dirigiu-se para Alcântara, onde era esperada pela sobrinha. Ambas as mulheres corriam riscos e confiavam uma na outra:
  • a duquesa entrava em território inimigo indefesa e a rainha de Castela colocava-se num castelo próximo da fronteira portuguesa sem ter um exército a protegê-la. As conversações duraram cerca de uma semana, e no final saiu um acordo, que é conhecido nos seus termos gerais: Portugal reconhecia a realeza de Isabel e comprometia-se a impedir que Joana, a rival, continuasse a ser uma pretendente ao trono castelhano; Castela ficava com o direito de conquistar o arquipélago das Canárias, mas reconhecia o direito de Portugal sobre o Oceano.
D. Beatriz era a artífice da paz e conseguia assegurar a integridade dos domínios e rendimentos atlânticos da Casa de Viseu-Beja. Depois, foi D. Beatriz quem reuniu em Moura, nas célebres “Terçarias” os reféns que ambos os reinos entregaram como penhores da paz, ao mesmo tempo que entregava um dos seus filhos (alternadamente Diogo e Manuel) que permaneceram como reféns em Castela.
D. Beatriz assistiu depois à execução de seu genro, o duque de Bragança, em 1483, e ao assassinato de seu filho Diogo, em 1484, mas soube permanecer discreta, apoiando seu último filho, Manuel na governação do ducado de Beja. Quando o seu neto, o príncipe Afonso, morreu de acidente, em 1491, D. Beatriz congregou as forças da sua Casa para defender os direitos de Manuel à sucessão de D. João II. Viveu os últimos anos da sua vida, em regra retirada em Beja, embora saibamos que, por exemplo, no Natal de 1500 estava em Lisboa, tendo participado nos festejos organizados por seu filho Manuel I. A Infanta D. Beatriz foi o poder em Portugal no século XV, início do século XVI». In João Paulo Oliveira e Costa, The Carnegie Institution of Washington/DAVENPORT, Frances Gardiner/Biblioteca de Barcelona/CESÁREO FERNÁNDEZ DURO / Biblioteca Nacional / Biblioteca de Sevilha.

(DOS ANÁLISIS HISTÓRICO-JURÍDICOS EN TORNO AL DESCUBRIMIENTO DE LAS INDIAS: LA ACCESIÓN Y LA OCUPACIÓN);
(Enxoval da Infanta);
(Versão do Tratado).

domingo, 1 de janeiro de 2012

Fina d’Armada. Leituras. Parte XLII. O Segredo da Rainha Velha. «Quem és tu? - perguntou ‘Bastião’, pois não se lembrava de ter visto aquela menina antes, vestida à fidalga, como se fosse mulher grande. - Beatriz - disse a menina, esgueirando-se para detrás de uma oliveira, na tentativa de se esconder e não a descobrirem, enquanto não explorasse mundo»

Morte de D. João II
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«O terreiro dos Paços de Alcáçova tinha sido preparado para a cerimónia. Carpinteiros e costureiros, servidores diversos não tinham tido parança na preparação do espaço onde o Infante seria alevantado como novo Rei.
D. Duarte desceu as escadas. Todos ficaram maravilhados quando o viram sair do Paço para o terreiro arrastando seu manto. Como era alto e forte, era uma figura imponente. Vinha acompanhado de gente nobre, vestida de brocados e opas de veludo. Todos demonstravam alegria. O mestre-sala indicou a D. Duarte a cadeira real, posta sobre um cadafalso alto, que se estendia encostado ao longo do Paço. Estava cercado dos Infantes, seus irmãos, e de outros senhores e oficiais, postos pelo mestre-sala na posição que a cada um pertencia pela importância do título ou do posto. D. Pedro de Meneses, primeiro Capitão de Ceuta, por ser alferes-mor, tomou a bandeira real e a teve à mão direita de Elrei, enrolada na haste, que dali a pouco desfraldaria ao vento. Já se tinha preparado para o pregão que aclamaria o novo Rei, pois D. João I, seu pai, jazia na Sé, desde ontem. Mas as leis de Deus e dos homens determinavam que um reino e um povo não podiam estar sem rei, dois sentimentos se misturavam numa só frase: «morreu o Rei, viva o Rei», «Rei morto, Rei posto». Tristeza e alegria, esperança num novo tempo, temor pelo futuro, no espaço de um dia.

Se à direita se perfilava o conde de Viana com a bandeira real enrolada, à esquerda do cadeirão real via-se uma cadeira baixa. Sobre ela, repousava uma almofada de seda vermelha e ouro, contendo um missal de rica encadernação. Seria sobre ele que o novo soberano prestaria seu juramento.
Quando todos ocuparam os seus devidos lugares, Dom Álvaro de Abreu, bispo de Évora, proferiu uma alocução pública, que se chamava arenga nesses tempos. Terminada a arenga, o bispo pôs-se de joelhos e dispôs-se a beijar a mão ao homem que por suas palavras consagrara como Rei. Mas D. Duarte não lha quis dar ainda não tinha assimilado que era um homem importante do mundo, a quem um reino inteiro tinha de obedecer e os estrangeiros respeitar. Com quarenta e dois anos feitos, sentia-se um menino sem saber como devia actuar.

Tratado de Toledo_Alcácofas
Cortesia de wikipedia

Apenas se lembrava da pequenez humana. Por isso, em vez de dar a beijar ao bispo, fez-lhe um pedido:
  • - Bispo, se vos bem parecesse, eu queria que no fim deste auto de aclamação se queimassem aqui ante mim, uns panos, umas poucas de estopas, como lembrança e comparação que esta glória e pompa do mundo duram pouco e passam mui brevemente.
Mas ao bispo não pareceu bem. E, ao se aperceber da atrapalhação daquele Rei menino de 42 anos, que ainda não tinha acordado para o oficio de Rei, como dissera o seu confessor, segredou-lhe:
  • - Parece-me, Senhor, que a memória e conhecimento que disso tendes dispensa por agora outra cerimónia.
O soberano calou-se, como se concordasse, e nada mais disse. Logo a sua primeira vontade, uma expressão da sua intelectualidade filosófica de que tudo é temporário na Terra, foi contrariada pela vontade de um bispo. Apercebeu-se de que entenderiam se ele fosse soldado, matador de infiéis, cruel ou sanguinário, mas nunca entenderiam um Rei intelectual, escritor e poeta.
Começava mal D. Duarte. Primeiro o astrólogo a aconselhá-lo a mudar o horário da cerimónia. Agora o bispo a mandar nele em vez de ele mandar no bispo. E ainda desconhecia que, nesse momento, em Leiria, o irmão D. Pedro, como político maduro e vocacionado para o mando, lhe escrevia uma longa carta com conselhos de administração. D. Duarte ansiava apenas que tudo terminasse depressa. Queria continuar a chorar o pai e adiar a ideia de que era o Rei e todos lhe deviam obedecer agora, até o bispo, pois tinha direito de vida e de morte sobre todos, como se fosse Deus, sem nunca ser julgado. Mas isso era coisa que não queria puxar ali. Agora era hora de obedecer aos ritos.

Felizmente, o conde D. Pedro de Meneses, depois de os reis de armas darem pregões e gritas de silêncio, despregou a bandeira para esvoaçar ao vento, que era apenas uma ligeira brisa. Em voz alta, que o povo de fora das muralhas do Paço ouvia, disposto pelas colinas do castelo, pisando a erva rasteira e abrigando-se à sombra das oliveiras, por três vezes fez o pregão costumado.

Interior de uma nau
Cortesia de wikipedia

«”Real, Real, Real, por Elrei D. Duarte Rei de Portugal”». Após o conde, bradaram os Infantes: «”Real, Real, Real»... O mesmo bradaram os Senhores, os membros das Ordens Militares, alinhados, de cruz identificativa da respectiva Ordem ao peito, e toda a outra gente que estava presente no terreiro. Como um eco, os de fora dos muros do Paço, mas dentro do castelo, repetiam alto o que chegava aos seus ouvidos. Os da cozinha e serviços também ouviram, distantes. Uns choraram outros riam com esperança de tempos melhores.
‘Bastião’ estava encoberto, afastado, ninguém reparava nele, mas também gritou «”Real, Real, Real”».
Seguiu-se o beija-mão, agora D. Duarte não podia escusar-se. Aquele beija-mão era a maneira oficial de o reconhecerem como legítimo e verdadeiro Rei, a aclamação regia-se pelo velho e sagrado rito. Quando já não havia mais bocas para o beija-mão, ao Rei foi permitido retirar-se para seus aposentos.
Graças a Deus e a Santa Maria de Agosto que tudo tinha terminado! Nem pensou que agora vinha o pior a direcção do leme, e muito pior seria se o Mestre Guedelha tivesse razão.

O conde alferes-mor e todos os senhores montaram a cavalo, trazidos pelos servidores, vestidos também de gala, e saíram pelas portas do Paço. Procuraram avançar por meio da multidão que continuava à espera sem saber de quê, apenas o de poder dizer que estivera lá. Alguns conseguiram mesmo ver alguma coisa que teriam para contar a conhecidos e aos netos, passos daquela cerimónia que não era vista há meio século. E muito povo se juntou atrás dos cavalos e foi acompanhando a bandeira despregada por toda a cidade. Nas praças maiores, o cortejo parava e, com a bandeira içada, lançava ao ar em alta voz os pregões, os vivas a Elrei D. Duarte, fazendo esvoaçar a passarada que devia pensar que as gentes daquela terra haviam enlouquecido.

‘Bastião’ não se atrevera a andar pela cidade a dar vivas, as suas pernas não lhe davam asas para esses voos. Ficou fora do Paço, no meio da gente amontoada. Uns queriam ver o Rei morto na Sé, esperavam vez de subir as escadas e ver seu rosto barbeado, pois tinham colocado o corpo num estrado alto, no meio da nave. Outros tinham vindo apenas assistir e ouvir alguma coisa. Era uma festa, um acontecimento. E muitos procuravam ganhar a vida. Aproveitaram aquele momento para montar banca e levantar a tenda, tinha-lhes sido permitido. Eram frades a escrever cartas ditadas para gente que estava na ilha da Madeira, eram ciganas a ler a sina, eram camponesas a vender couves e alfaces, eram ferreiros disponíveis para consertar ferraduras e rodas de carroças, eram taberneiros com pipas de vinho diferente que diziam ser do bom, eram mouros e judeus fazendo negócios e mostrando tecidos importados, eram raparigas procurando namorado, eram mulheres da vida disfarçadas lançando olhos marotos a presumíveis clientes, para terem pão.

No meio da confusão geral, e do cheiro a urina e excrementos de gente e de bichos, ‘Bastião’ reparou numa menina, vestida como princesa, aparentando ter fugido à sua ama, num momento de distracção. Teria aí uns quatro anos, cabelos aos cachos, com olhos que expressavam uma curiosidade do tamanho do mar, tudo olhando, tudo colhendo como informação do mundo.

- Quem és tu? - perguntou ‘Bastião’, pois não se lembrava de ter visto aquela menina antes, vestida à fidalga, como se fosse mulher grande.
- Beatriz - disse a menina, esgueirando-se para detrás de uma oliveira, na tentativa de se esconder e não a descobrirem, enquanto não explorasse mundo.

‘Bastião’ correu atrás dela com a sua perna coxa. Podia ser apanhada e feita refém. Tinha ouvido falar que isso acontecia entre mouros e cristãos. Aparentava ser uma criança importante. Se soubessem da fuga, a ama acabaria por ser despedida. Nisto, aproximou-se uma cigana. ‘Bastião’ ficou com receio que ela raptasse a menina. Ele não teria pernas para ir atrás dela, por isso gritou:

- Teu pai está ali, Beattiz.

Ao falar no pai, ‘Bastião’ pensou afugentar a cigana, mas esta não se moveu. Pelo contrário, aproximou-se ainda mais e pegou na mão da menina. ‘Bastião’ conseguiu chegar a tempo e pegou na outra mão da fidalguinha. Mas, de repente, estacou. A expressão da cigana exprimia espanto, ‘Bastião’ não sabia se era pavor ou admiração. A cigana não retirava os olhos das linhas da mão, olhou uma e depois quis olhar a outra, afastando a mão do rapaz. E proferiu:
  • - Não pode ser!
‘Bastião’, o curioso ‘Bastião’, que lia sempre a sina quando podia, a troco de qualquer coisa que tirava da cozinha sem ninguém ver, ficou quieto e mudo. A menina também olhava a cigana com a curiosidade do tamanho do mar.
  • - Serás uma mulher poderosa do mundo.
  • - Rainha? - perguntou a menina, com olhos que irradiavam inteligência.
  • - Não, mas será como se fosses, pois o teu futuro está enlaçado na vida de reis. Terás mais poder que rainha, decidirás até quem se sentará em tronos.
  • Serás senhora de um império, de mistérios e segredos, e mudarás a ordem do mundo. Mas...
A cigana calou-se. Os seus olhos arregalaram-se, os de ‘Bastião’ também.
  • - Mas ficarás aprisionada numa maldição... quer dizer, recairá sobre ti a maior maldição do mundo».
 In Fina d’Armada, O Segredo da Rainha Velha, Ésquilo, 2008, ISBN 978-989-8092-46-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

terça-feira, 1 de junho de 2010

D. Beatriz, infanta de Portugal: Mãe de D. Manuel I. O Tratado Alcáçova-Toledo (1480)

(1430-1506)
Cortesia CMBeja
D. Beatriz foi filha do Infante D. João e de D. Isabel de Bragança. Era neta de D. João I. Casou com D. Fernando, infante de Portugal, 2º duque de Viseu (filho adoptivo do Infante D. Henrique o «Navegador» na vila de Viana do Alentejo, Alcáçovas no ano de 1447. Os seus filhos foram:
  • D. João, infante de Portugal, 3º duque de Viseu, 2º duque de Beja;
  • D. Diogo, infante de Portugal, 4º duque de Viseu, 3º duque de Beja;
  • D. Duarte, infante de Portugal;
  • D. Dinis, infante de Portugal;
  • D. Simão, infante de Portugal;
  • D. Leonor, infanta de Portugal (casou com D. João II, rei de Portugal);
  • D. Isabel, infanta de Portugal ( casou com D. Fernando II, 3º duque de Bragança);
  • D. Manuel I, rei de Portugal (casou com Isabel de Aragón y Castilla, Princesa de Asturias, Infanta de España Maria, infanta de España Leonor, infanta de España);
  • D. Catarina, infanta de Portugal.

«D. Beatriz dominou o período áureo da história de Portugal. Casada com D. Fernando, filho adoptivo do infante D. Henrique, foi sogra de D. João II e mãe de D. Manuel I. O Papa outorgou-lhe oficialmente a governação da Ordem de Cristo e o seu poder foi imenso, mas há um segredo que a perseguiu». In Fina D'Armada, o Segredo da Rainha Velha.

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Fina D'Armada também afirma: «Este é o romance que narra com rigor histórico a vida fascinante e desconhecida de D. Beatriz, vida entrelaçada com a de Cristóvão Colombo mas que encerra muitos outros enigmas. Que leis e circunstâncias a levaram a ser governadora da Ordem de Cristo (antigos Templários) e herdeira do Infante D. Henrique? Como conseguiu que reis e papas legislassem para si? Que navegadores enviou à descoberta de ilhas a Ocidente, 19 anos antes de Colombo? Como concebeu o primeiro Tratado de Globalização? Como segurou o trono a Isabel a Católica? Que estranhas teias a aprisionaram mantendo-a esquecida até hoje?
Nesta obra, o leitor encontra também uma outra visão dos Descobrimentos Ibéricos, pistas sobre o provável envenenamento de D. Joao II, e um segredo que satisfaz incógnitas de 500 anos sobre as origens de Colombo. Segredo que inclui um documento secreto do Vaticano, da autoria do cardeal Garampi, sobre o Infante de Sagres».
Vejamos alguns factos históricos da época.

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Em 1415 os portugueses venciam os mouros e tomavam a cidade de Ceuta no norte da África. Em 1492 a Espanha, através do navegador genovês Cristóvão Colombo chagava na ilha de São Salvador nas Antilhas.
Dois marcos importantes que inauguram a expansão ultramarina, liderada por Portugal e Espanha, que foram as duas grandes nações europeias entre os séculos XV e XVI, na passagem para Idade Moderna. Se fizermos um paralelo entre a realidade sócio-político-económica de Portugal e Espanha encontraremos a resposta para o pioneirismo português na expansão marítima, mesmo porque, este pioneirismo deve ser explicado, frente ao atraso da Espanha.
Em primeiro lugar deve ser destacada a precoce formação de uma Monarquia Nacional em Portugal (desde 1385 com a Revolução de Avis), enquanto que a Espanha somente alcançará essa condição em 1469, com o casamento dos reis católicos Fernando de Aragão e Isabel de Castela. A situação de paz externa e interna do reino português e uma dinâmica burguesia mercantil aliada ao Estado, também foram factores importantes. Os reinos da Espanha ainda continuavam na luta contra os mouros, que terminou sómente em 1492 com a derrota muçulmana em Andaluzia na cidade de Granada.
Além desses factores, temos o apoio do Estado português aos estudos náuticos a cargo do infante D. Henrique, que transformou a cidade de Sagres num «centro de estudos náuticos» por volta de 1418.
Destaca-se ainda a posição geográfica privilegiada de Portugal, situado na rota e na escala Mediterrâneo-Atlântico.
Tratado de Alcáçovas-Toledo
Cortesia de Pregão do Tratado de Alcáçovas em Sevilla
O Tratado de Alcáçovas (também conhecido como Paz de Alcáçovas) foi assinado na villa portuguesa do mesmo nome (cujo topónimo tradicional em espanhol é Alcazovas) a 4 de Setembro de 1479 entre os representantes dos Reis Católicos, Isabel de Castela e Fernando de reino de Castela e Aragón, por um lado e do rei Alfonso V de Portugal e seu filho Joao pelo outro. O Tratado foi ractificado pelo rei de Portugal a 8 de Setembro de 1479 e pelos Reis Católicos em Toledo a 6 de Março de 1480, pelo que também se lhe conhece como Tratado de Alcáçovas-Toledo.

Cláusulas principais:
  • Põe fim às hostilidades depois da Guerra de Sucessão Castelhana (1475-1479). Alfonso V renúncia ao trono de Castela e os Reis Católicos renunciam a mudança ao trono português;
  • Reparte os territórios do Atlántico entre os dois países. Portugal mantém o controle sobre suas posses da Guiné (região), a Mina de Ouro, Madeira, os Açores, Flores e Cabo Verde. A Castela reconhece-se-lhe a soberania sobre as ilhas de Canárias;
  • Reconhece a Portugal a exclusividade da conquista do Reino de Fez.

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Em paralelo ao Tratado de Alcáçovas negociaram-se as Tercerías de Moura, que resolviam a questão dinástica castelhana impondo a Juana de Castela, rival de Isabel pelo trono de Castela, a renúncia a todos seus títulos castelhanos. Também lembravam o casamento da infanta Isabel, filha dos Reis Católicos, com o filho do rei português chamado D. Alfonso. A enorme dote paga pelos pais da noiva representa a indemnização de guerra obtida por Portugal.

Ao falecer o rei de reino de Castela Enrique IV em 1474 existiam dois pretendientes ao trono:
  • sua filha única Juana;
  • e sua meia-irmã Isabel.

Juana tinha o apoio de uma parte importante da alta nobreza castelhana e de seu noivo, o rei Alfonso V de Portugal. Isabel contava com o resto da nobreza e com o apoio da Coroa de Aragón, já que estava casada com seu herdeiro Fernando.
As hostilidades estalaron em 1475. A guerra por terra desenvolveu-se principalmente na Meseta Norte castelhana, decantando-se a favor do bando isabelino a partir da Batalha de Toro (1476). A partir de então o conflito continuou sobretudo por mar, com frotas castelhanas e portuguesas lutando entre elas e competindo por trazer riquezas desde as longínquas terras da Guiné.

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A derrota castelhana no mar e a incapacidade portuguesa para ganhar a guerra em terra levaram aos contendientes a iniciar negociações de paz em 1479. Ao longo do século XV, os exploradores, comerciantes e pescadores de Portugal e de Castela foram internando-se cada vez mais no Oceano Atlântico. Os reis impuseram taxas às mercadorias trazidas de ultramar e rapidamente surgiram fricções sobre a que soberano correspondiam os impostos provenientes da cada um dos territórios descobertos. Uma controvérsia foi o controle sobre os territórios da Guiné e a Mina, muito ricos em ouro e escravos. Outro ponto importante foi a quem lhe correspondia o direito a conquistar as Ilhas Canárias.
As ilhas de Lanzarote, Fuerteventura e Ferro foram conquistadas por cavaleiros normandos para Castela entre 1402 e 1405 mas os navegantes portugueses não deixaram de tocar nas ilhas e capturar escravos nelas. Em 1431 D. João I de Portugal e Juan II de Castela assinaram um primeiro tratado de paz. No entanto, a disputa sobre a posse das Canárias continuou, sendo apresentada no Concilio de Basilea de 1435. Em 1449 o rei português Afonso V chegou a outorgar-se o monopólio do comércio de Canárias.

Em 1441 chegaram a Lisboa os primeiros carregamentos, documentados, de ouro procedentes da Guiné. Inicialmente o Papado tomou uma posição neutra entre Portugal e Castele quanto a seus direitos sobre África (bula Rex regum de Eugenio IV, 1443). Mas entre 1452 e 1455 o Papa Nicolau V favoreceu os esforços dos portugueses com uma série de bulas, outorgando-lhes o controle exclusivo sobre os territórios desde os cabos Bojador e Nam até toda a Guiné e «para além até onde se estende a praia meridional». Isto levou os portugueses a assaltar e apresar barcos castelhanos que regressavam de comerciar na Guiné, provocando um confronto diplomático entre os dois reinos, o qual não chegou a maiores devido à morte de Juan II em 1454 e à situação de debilidade de seu sucessor Enrique IV.

Cortesia de wikipedia
Em 1456 o Papa Calixto III confirmou o monopólio de Portugal e ademais outorgou à Ordem de Cristo portuguesa a autoridade eclesiástica em todas as terras desde os cabos de Bojador e Nam «até os índios». O rei de Portugal adoptou uma política comercial aberta, permitindo a súbditos estrangeiros comerciar na costa africana a mudança dos correspondentes impostos. O único prejudicado era assim o rei de Castela.
Em agosto de 1475, depois do início da guerra, Isabel reclamou que as partes de Africa e Guiné pertenciam a Castela por direito e incitou os comerciantes a navegar sem autorização portuguesa, iniciando a guerra naval no Atlántico. As primeiras conversas de paz tiveram lugar entre a rainha Isabel e sua tia Beatriz de Braganza no castelo de Alcántara entre 20 e 22 de Março de 1479. Não teve acordo imediato e seguiu um longo silêncio português. A principal dificuldade se esfumou quando, em Maio, Juana fez público o desejo de ingressar num mosteiro.
Os encarregados de negociar o acordo definitivo de paz foram, pelo lado dos Reis Católicos, Rodrigo Maldonado, oidor da Audiência, e pelo lado do rei de Portugal, Joao da Silveira, barão de Alvito. Ambos eram membros do conselho real.

O acordo final foi assinado pelos negociadores na localidade portuguesa de Alcáçovas a 4 de Setembro de 1479. Quatro dias depois foi ratificado pelo rei de Portugal e proclamado nesse reino. Isabel ratificou-o em Trujillo a 27 de Setembro mas, como seu marido Fernando não estava com ela nesse dia, foi necessário  um segundo acto de ratificação, a 6 de Março de 1480 em Toledo. O Papa Sixto IV referendou o Tratado mediante a bula Aeterni regis de 1481.

Em Alcáçovas assinaram-se um total de quatro acordos:
  • 1. Partilha das zonas de influência no Atlántico. A este acordo é ao que se costuma denominar propriamente Tratado de Alcáçovas;
  • 2. Destino da rainha/princesa Juana em caso de abandonar o convento, que não teve que ser aplicado;
  • 3. Contrato de casamento entre Afonso, herdeiro português, e Isabel, primogénita dos Reis Católicos. Estes dois documentos são habitualmente chamados as Tercerías de Moura;
  • 4. Perdão aos castelhanos juanistas.
Os monarcas reconhecem os prejuízos causados pela guerra, cuja causa principal afirmam que foi que os Reis Católicos «chamaram-se reis de Portugal» e Afonso V «rei de Castela». Mencionam o labor de mediação da infanta Beatriz e lembram restabelecer a paz entre seus reinos.

«...despues do fallescimiento do senor Rei Dom Enrrique de gloriosa memória, rrey que foi de Castilla e de Leon etc., fora e ao presente são grandes debates e quistiones, desençiones, e diferenças yntitulandose os ditos senores Rei Dom Ferrando e Reyna Doña Ysabel, rrey e rreyna de Castilla de Leon de Portogal e dos Algarbes etc., e o dito senor Rei Dom Alfonso, rrey de Castilla e de Leon etc., o qual desse principalmente causa a muito grandes e muito cruas guerras...
...a dita senhora Ynfante Doa Beatris (...) trato e tento com todas seus fuerças de tratar paz e conformidade entre eles, e movesse e praticara alguns meios para os atirar dos ditos debates e diferenças, guerras e males, e dar assento e paz entre eles...».  In Tratado de Alcáçovas, manuscrito de Lisboa

«...não turbaran e molestassem nem inquietassem, de facto nem de direito, em julgamento nem fora de julgamento, aos ditos senhores rei a príncipe de Portugal nem aos reis que pelo tempo forem de Portugal nem seus reinos, a posse e quase posse em que esteve, em todos os tratos, terras e resgates da Guiné, com suas minas de ouro e qualquer outras ilhas, costa, terras, descobertas e por descobrir, achadas e por achar, ilhas da Madeira , Porto Santo e Deserto e todas as ilhas dos Açores e Ilhas das Flores cabe as Ilhas de Cabo Verde e todas as ilhas que agora estão descobertas e qualquer outras ilhas que se acharem ou conquistarem, das Ilhas da Canaria para ayuso contra Guiné, porque todo o que é achado e se achar, conquistasse ou descobrir nos ditos termos, além de que é achado ocupado ou descoberto, fiquem ao ditos rei e príncipe de Portugal e a seus reinos, tirando somente as ilhas de Canaria, convém a saber Lanzarote, A Palma , Fuerteventura, A Gomera , o Ferro, a Graciosa , a Grande Canaria , Tenerife e todas as outras Ilhas de Canaria ganhadas e por ganhar, as quais ficam aos reinos de Castilla e León...». InTratado de Alcáçovas, pregão do 14 de março de 1480, conservado no Arquivo de Simancas

«Os Reis Católicos reconhecem a Portugal a exclusividad da conquista do Reino de Fez. Otrosi os ditos senhores Rei e rainha de Castilla e de Aragón (...) não se entremeterán nem impedirão nem quererão entender nem entenderão em maneira nenhuma na conquista do Reino de Fez (...), dantes livremente o dito senhor rei e príncipe de Portugal e seus reinos e sucessores, poderão prosseguir a dita conquista e defendê-la-ão como os ditos gostarem e por bem tiverem. O quinto era um imposto percebido pela Coroa sobre as mercadorias trazidas por barco à Península desde os territórios do Atlántico denominados "Guiné" e "Mina de Ouro". No Tratado os Reis Católicos aceitam que este imposto seja percebido por Portugal nos portos castelhanos, incluindo aos barcos que tivessem zarpado para a Mina dantes da assinatura do mesmo. agora os ditos muito ilustres rei e príncipe de Portugal (...) têm sabido que destes nossos reinos (...) partiriam algumas verdadeiras carabelas à dita Mina de Ouro e recates da Guiné [nas] cuales o dito ilustre Príncipe tem de ter o quinto, por dar seu seguro que dito é às ditas carabelas. A rogo nosso, e oferecemos-no-lo que ser-lhe-á dado e pago o dito quinto.
A princesa Juana de Castilla, Juana a Beltraneja, filha de Enrique IV de Castilla. Em paralelo ao tratado de Alcáçovas (mas normalmente consideradas como acordos aparte) se negociaram as Tercerías de Moura, que resolviam a questão dinástica castelhana: A Juana de Castilla, rival de Isabel pelo trono de Castilla, impunha-se-lhe renunciar a todos seus títulos castelhanos e se lhe ofereciam duas alternativas: a reclusão em um convento português ou o casamento com o príncipe herdeiro Juan de Aragón e Castilla, se este assim o decidia ao cumprir os catorze anos. A excelente senhora, como a chamavam em Portugal, elegeu a opção religiosa, tomando o hábito o 15 de novembro de 1480. No entanto, isso não lhe impediu seguir activa na vida política até sua morte. Marcavam o casamento da infanta Isabel, primogénita dos Reis Católicos, com o herdeiro do rei português chamado dom Alfonso. Ambos meninos seriam guardados "em regime de tercerías" no castelo português dos Braganza em Moura. Ademais, fixava-se uma enorme dote para a noiva, mais de cem mil dobras, que compreendia em realidade uma indemnização de guerra paga pelos RR.CC. a Portugal
». In Tratado de Alcáçovas, pregão do 14 de março de 1480, conservado no Arquivo de Simancas.


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O casamento de Afonso e Isabel celebrou-se em 1490. Ao morrer Afonso aos poucos meses, Isabel contraiu casamento com o novo herdeiro ao trono português, Manuel «O Venturoso». Tiveram um menino, Miguel, que, dantes de morrer aos dois anos, chegou a ser herdeiro das três coroas peninsulares (Portugal, Castela e Aragón). Depois da morte de Isabel, foi sua irmã María a que se casou com «O Venturoso», dando à luz uma filha, Isabel de Avis, que depois casou com Carlos I de Espanha. Desta maneira, Felipe II, filho de Carlos e Isabel, pôde aceder ao trono português depois do desaparecimento de D. Sebastião I.

«Durante os preparativos para o primeira viagem de Cristóbal Colón, os Reis Católicos ordenaram aos habitantes de Paus da Fronteira embarcar nas carabelas de Colón mas com proibição expressa de ir à Mina, nem ao trato dela que tem o Serenísimo Rei de Portugal. Depois da volta de Colón, o embaixador de Portugal Ruy de Sande chegou ao corte dos Católicos em Barcelona a fins de abril de 1493 para reclamar que as terras descobertas por Colón correspondiam a Portugal. Não se conhecem com segurança os argumentos que utilizou. Segundo o cronista castelhano Jerónimo de Zurita, o embaixador alegou que em Alcaçovas ter-se-ia estabelecido tacitamente um paralelo à altura das Canárias que estender-se-ia sem fim para Occidente e que dividiria todo o mar na largura: ao norte a parte castelhana e ao sul a portuguesa. Em todo o caso, o rei português Juan II parece ter proposto em 1493 esta partilha do Atlántico a seus homólogos castelhanos, segundo afirmam os Reis Católicos: Juan II dezía bom médio, para evitar inconvenientes, quel mar Oceano partisse-se entre Nos [e] ele por uma linha tomada desde as Canárias contra o Poente por ramos em linha direita, e que todos os mares, ilhas, terras, desde a dita linha direita ao Poente até o Norte, sejam nossos, salvando as ilhas que naquela parte ao presente possui; e que todos os outros mares, ilhas e terras restantes que se acharem desde a dita linha para o Meio dia, sejam do dito Rei, nosso irmão, salvando as ditas ilhas de Canaria, que são nossas. O historiador Juan Manzano considera falaz o argumento português do Paralelo, já que segundo ele o Tratado de Alcáçovas só referir-se-ia ao que ele lume "mar da África", isto é, a parte do mar Oceano então navegada e ocupada por Portugal e Castilla, adjacente ao continente africano.
Outro historiador, Manuel Giménez Fernández, opina pelo contrário que o Tratado de Alcaçovas em realidade dava a Portugal todo o Atlántico salvo as Canárias, pelo que as ilhas descobertas por Colón forçadamente pertenciam a Portugal. Segundo Giménez, o motivo pelo que os Reis Católicos demorassem tanto tempo em organizar a expedição de Colón foi por essa insegurança jurídica, não por motivos náuticos ou por ignorância. Em uma interpretação mais heterodoxa, Luisa Isabel Álvarez de Toledo opina que o Tratado de Alcaçovas inclui explicitamente territórios americanos: Guiné seria o território hoje conhecido como as Guayanas enquanto as Ilhas de Canaria incluiriam ilhas e costa do Mar Caraíbas. Os Reis Católicos seriam, segundo ela, bem conscientes de que as terras que Colón queria descobrir pertenciam por direito a Portugal e teriam enviado a Colón só depois de se assegurar de que seu aliado Rodrigo Borgia acedia ao Papado como Alejandro VI, de tal maneira que os justificados protestos de Portugal pudessem ser contrarrestadas por uma nova Bula papal, favorável desta vez a Castela.
Seja como for, a raiz dos protestos portugueses se iniciou um período de intensas negociações diplomáticas entre as coroas de Portugal e de Castela. Os Reis Católicos obtiveram ao longo de 1493 uma série de bulas papales, hoje em dia Bulas Alejandrinas, que lhes outorgavam as terras descobertas por Colón e vinham a estabelecer uma nova partilha do Atlântico que deixava obsoleto ao Tratado de Alcaçovas. Não obstante, consideraram necessário voltar a recordar a Colón, justo dantes de partir em seu segunda viagem, a proibição de tocar na Guiné nem na Mina. O rei de Portugal protestou mas no Tratado de Tordesillas (1494) terminou aceitando uma nova partilha, ligeiramente mais favorável a Portugal que o das Bulas Alejandrinas». In O Tratado de Toledo e a  América

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Existem várias versões do Tratado, com ligeiras diferenças entre si:
  • 1. Manuscrito em castelhano ratificado pelos Reis Católicos em Toledo o 6 de março de 1480. Conservado nos Arquivos Nacionais de Lisboa, gav. 17,maço 6, nº 16. Transcrito em DAVENPORT, que inclui o texto original em castelhano e uma tradução ao inglês. A versão em inglês está disponível na site do projecto Avalon;
  • 2. Esse mesmo texto em castelhano foi, segundo Davenport, copiado por Joseph Soares dá Sylva em seu Colleccam dois Documentos, com que se Authorizam as Memórias para a Vida do Rei D.Joao ou I., tomo IV. de seus Memórias para a História de Portugal, que comprehendem ou Governo do Rei D. Joao ou I. (1730-1734);
  • 3. Pregão do Tratado em castelhano datado o 14 de março de 1480. Conservado no Arquivo Geral de Simancas, R.G.S. III-1480 302. Transcrito por Luisa Isabel Àlvarez de Toledo;
  • 4. Pregão do Tratado em português, dado em Évora o 8 de setembro de 1479, mencionado em Predefinição:Cita livro autor = HARRISSE, H;
  • 5. Fragmento do Tratado em castelhano, transcrito de uma cópia parcial realizada em 1565, sacado de uma cópia simples de letra deste tempo que existe no legajo 1° de gobernación geral de Índias, em seu arquivo geral. O original leva data de 16 de março de 1480;
  • 6. Versão em latín do artigo relativo à partilha do Atlántico recolhida na bula Aeterni regis de 21 de junho de 1481. (em Wikisource).
(La guerra civil castellana y el enfrentamiento con Portugal,1475-1479)
(A SIGLA DE «COLOMBO» - “A” DE ANRIQUE E ÚLTIMO REBENTO)
(Fina d'Armada - 2. O ÚLTIMO REBENTO DE HENRIQUE)
(Treaty Between Spain and Portugal, Concluded at Alcacovas, September 4, 1479)
(DOS ANÁLISIS HISTÓRICO-JURÍDICOS EN TORNO AL DESCUBRIMIENTO DE LAS INDIAS: LA ACCESIÓN Y LA OCUPACIÓN)
(Enxoval da Infanta)
(Versão do Tratado)

Cortesia de wikipédia
Alguns factos ficam por contar em relação ao Tratado de Alcáçovas-Toledo.  A Infanta D. Beatriz foi uma mulher de «garra» e com enorme poder na época. O Tratado de Alcáçovas-Toledo é demonstrativo desse poderio que soube desenvolver com mestria. Sendo família de D. João II «traçou planos de cálculo» para os seus «negócios» com base nos Descobrimentos. A influência que marcou na Ordem de Cristo (durante a menoridade do filho Diogo). Ser herdeira do Infante D. Henrique foi uma «manobra de bastidores» bem delineada e com êxito assegurado. Sem esquecer o segredo (??) de Cristóvão Colombo.

Muitas palavras ficam por dizer sobre Beatriz, infanta de Portugal, filha do Infante João (quarto filho do rei João I e de Filipa de Lencastre) e da sua esposa Isabel de Bragança, filha de Afonso, Duque de Bragança; Beatriz foi a esposa de seu primo, o Infante Fernando, Duque de Beja e de Viseu, irmão de Afonso V, mãe do rei Manuel I e da rainha Leonor. Mais, Beatriz era bisneta de D. Pedro I, rei de Portugal, de Nuno Álvares Pereira e de João de Gante, Duque de Lancaster.
Beatriz, através da sua irmã Isabel de Portugal, esposa de João II de Castela, era tia de Isabel, a Católica.

Cortesia wikipédia
A Infanta Beatriz foi o poder em Portugal no século XV, início do séulo XVI. 
Cortesia de The Carnegie Institution of Washington/DAVENPORT, Frances Gardiner/Biblioteca de Barcelona/CESÁREO FERNÁNDEZ DURO/Biblioteca Nacional/Biblioteca de Sevilha/wikipedia/JDACT