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segunda-feira, 22 de julho de 2019

A Ronda da Noite. Agustina Bessa Luís. «O Rogério Conceição, em oito segundos, resolve isto. Oito segundos é o recorde dele. Maria Rosa olhou para ela com inquietação»

Cortesia de wikipedia e jdact

Dia de Finados
«(…) A avó apoiou-se ao gradeamento da campa e ficou um instante recolhida depois de fazer o sinal da cruz. Martinho tomou um ar compungido, se bem que com a avó não se podia ter a certeza de nada. Decerto estava a pensar em coisas completamente alheias à ocasião e que tinham que ver com necessidades básicas, pequenas compras ou contactos com as amigas. Tinha poucas, grande parte delas tinham morrido, o que a não a afectara muito. Os velhos são para morrer e as capoeiras devem ser remoçadas, com o cacarejo alegre das novas frangas. Sempre o galo de plumas ruivas e brilhantes a fazia rir. Parece um mosqueteiro com esporas e tudo! Ela ajuntou as pregas do vestido e endireitou-se como se lhe fossem tirar uma fotografia. Odiava que a fotografassem. Tinha, como muitos povos antigos, um receio de que a fotografia lhe levasse a alma, o que não deixava de ter algum fundamento. Martinho pensou que ela tinha a pose perfeita para ser retratada, tendo aos pés, até à cintura, a massa de crisântemos brancos e enormes. Era uma mulher linda, mais ainda do que fora em nova. Paula tinha muitos ciúmes dela, passara o tempo a imitá-la, rastejando em volta dela como um cãozinho que implorasse carinhos. A avó era parca em beijos e afagos. Dão-me volta ao estômago, as crianças felizes dispensam-nos muito bem, dizia. Cabelos pretos. A primeira vez que Martinho verificou o indestrutível dos cabelos foi quando abriram o túmulo de Patrícia Xavier para procederem a reparações de alvenaria. Os cabelos estavam intactos. Enrolados debaixo da cabeça reduzida a caveira completamente descarnada, pareciam uma almofada. Martinho estava presente porque o jazigo pertencia aos Nabasco e, por deferência, estando o túmulo dos Xavier ocupado pelos sucessivos mortos desta família, Patrícia ficou sepultada numa antiga capela do cemitério da Lapa, duas vezes assaltada depois da Revolução dos Cravos.
Tinha as proporções majestosas dum andar de boa área, um T1, digamos assim. Velhas rendas pingavam do altar, donde os candelabros de prata tinham sido roubados; e, por terra, jaziam alfaias do culto, o suporte do Evangelho e umas galhetas com borras de vinagre. O lampadário, que viera de Veneza, também faltava. O ar era húmido, havia infiltrações e os ratos tinham roído papéis, talvez pagelas com a vida dos santos ou restos de bouquets amarrotados como lixo e deixados a um canto. E os cabelos. Espessos, abundantes, como tantas vezes Martinho vira em Patrícia. Ela ia jogar bridge com Maria Rosa Nabasco, às quartas-feiras. Ao todo, quatro mulheres vestidas a rigor e que calçavam luvas de suède e tomavam chá na confeitaria Oliveira, uma vez por outra, quando saíam para compras. Eram mulheres em que se sentiam os hábitos caros, que não perguntavam o preço das coisas, que se limitavam a mandar a casa. Não estavam dependentes do orçamento e, praticamente, eram seguras do marido que tinham e da modista que as vestia. O género de mulheres de que Maria Rosa Nabasco era a última, como relíquia dum tempo acabado, tempo de privilégios que tinham a sua moda, como os chapéus e as receitas de pastelaria e os pudins sem um pó de farinha.
Patrícia Xavier fora a primeira a faltar, como se dizia. Era alta, sempre bem calçada e com meias tão finas que era preciso vesti-las com luvas, como se recomendava sempre na embalagem de origem. Não se podia imaginar que ela morrera dum aborto mal sucedido, mas foi assim. O espanto varrera as salas descobrindo o segredo mais do que era permitido. Mas, para Paula, que tinha doze anos, aquilo ficou encoberto e ela não sofreu nenhum prejuízo no seu Natal em que tudo correu normalmente; sem faltarem os presentes de Patrícia Xavier, coisas de preço como era costume ela dar, caxemiras e estojos para as unhas de pele de qualquer bicho raro, ventre de aligator ou assim. Patrícia foi sepultada na capela dos Nabasco, não porque não houvesse lugar no jazigo da família dela, mas porque se levantou uma resistência muito dura devido às causas da morte. Um aborto não era tão extraordinário e sobretudo depois dos quarenta anos as mulheres recorriam aos médicos para se recomporem dum acidente que, na verdade, tinham previsto mas não acautelado. Patrícia disse apenas a Maria Rosa o que tencionava fazer.
O Rogério Conceição, em oito segundos, resolve isto. Oito segundos é o recorde dele. Maria Rosa olhou para ela com inquietação. Não a censurava, mas tudo aquilo lhe parecia parte duma maldição que pesava sobre as mulheres. Alguém lhe tinha dito que o mundo só tinha salvação quando as mulheres deixassem de ter filhos e os sexos fossem um só. Era inconcebível, mas talvez se chegasse lá um dia. Onde ouviste isso?, disse Patrícia. Aquilo parecia-lhe um atentado à sua dignidade, embora ela visse, nesse momento, a sua dignidade bastante comprometida. Não sei. Comigo não faças mistérios. Não faço mistérios, não sou pessoa para isso. Foi uma coisa que li. O que andas tu a ler, menina? Depois da lady Chaterley julguei que já tinhas lido tudo. E agora vens-me com essa do sexo único. Fazes ideia do que estás a dizer? Faço. Já não te metias em sarilhos nem ias parar a uma clínica onde te remexem nas entranhas como se estivessem a abrir um cofre em oito segundos! Já é ser perito de arrombamento! Fazes-me rir e chorar ao mesmo tempo. Tu nunca choras, Maria Rosa. Às vezes. Chorei um dia, quando tinha quatro anos e me cortaram o cabelo à-rapaz. Dei gritos tamanhos que até se ouviram nos vizinhos. E não era pequena distância; nós vivíamos num chalé dentro dum jardim grande. Não querias parecer um rapaz». In Agustina Bessa Luís, A Ronda da Noite, Guimarães Editores, 2006, ISBN 972-665-513-7, Relógio d'Água, 2017, ISBN 978-989-641-811-3.

Cortesia de GuimarãesE/Rd’Água/JDACT

quarta-feira, 5 de junho de 2019

A Sibila. Agustina Bessa Luís. «Vivia assaltado por vários males, e, na realidade, o possuir uma mulher jovem que não lhe impunha folias elegantes, viagens, um nomadismo impenitente de exibição e de gozo, parecia-lhe providencial»

jdact

«(…) Fez-se uma fidalga. Um ano depois, o marido obtinha um título, conde de Monteros, depois de ter imposto o apelido Fattoni, espiolhado numa genealogia que os seus brios elegiam simpatizante. Elisa Aida Fattoni, condessa de Monteros, possuía então preceptora inglesa, e tinha lições de piano com um compositor que se deslocava do Porto para lhe dedicar um pequeno concerto no Pleyel do seu salão abobadado, com grinaldas de gesso circundando a meia altura as paredes cheias de frescos das fábulas de La Fontaine. O palacete era um monumento meio barroco protegido de para-raios cuja platina fora avaliada ao preço da terra bastante para sustentar uma família. Balbina assistira ao casamento, dos bastidores, ajudara a ataviar a noiva, que era magrinha, escura, e em cuja cabeça a coroa de flores de laranjeira fazia o efeito duma rodilha. Os esplendores da sua alcova, com o tecto onde adejavam cupidos e mariposas, e o tapete Savonnerie fornecido por um museu, ficaram lendários. Dizia o de Lago, loiro e pomposo, amador de bons ditos como seu pai, que o casal lhe dava a impressão de baratas numa loja de bricabraque. Mas foi ele o primeiro a fazer a corte à condessa Monteros, quando, cinco anos depois, regressada da Itália e Constantinopla, franqueou o seu salão às notabilidades. Tinha-se feito bela, com essa beleza que resulta mais duma aliança perfeita com o que é moda, inesperado, actual, do que de verdadeiros encantos físicos. Tinha o ar duma adolescente de Proust, com os seus vestidos de popeline cor-de-rosa, túnica panier listada de branco, e os pequenos chapéus de amazona onde esvoaçavam véus que se confundiam no ar cinzento. Estina, que tinha sido sua companheira na velha escola onde com ela aprendera caligrafia e croché, viu-a e não a reconheceu.
É a Lisa, informou a tia Balbina, impante, ruborizada, feliz, porque a condessa, se não lhe pedia a bênção submissamente como dantes, mostrava grande apego às antigas relações, e gostava de passear a pé e visitar como que casualmente as velhas amigas de Água-Levada. Com o vestido curto, de barra de folhos e que deixava ver as botas verdes ou cor de mel, abrigando-se sob um guarda-sol minúsculo, era muito notada nos caminhos que percorria devagar, parando sob as latadas de morangueiro, extasiando-se com o perfume dos cachos que a tentavam muito e faziam gratificar um garoto para que trepasse nos lódãos, a colher para ela os cachos empoeirados. O marido gostava de a ver fidalga, muito arreada de luxos, de prendas, de brilhantes, e fazendo sala entre uma caterva de criaturas de linhagem ou de dinheiro que acudiam aos seus jantares, para os quais o peixe se pagava com libras e viajava em reservatórios revestidos de junco, nas diligências. Mas Elisa ficava indiferente a tais esplendores; entranhava-se-lhe o hábito da grandeza, a ponto de não destrinçar valores, e usar com perfeito descaso a sua manta de marta como ninho de gatos recém-nascidos e, mais tarde, entregar um enorme Rolls Royce com faróis de prata, para poleiro de galinhas. Enquanto rapariga, ela tomava como divertimento mascarar-se de camponesa e, com uma toalha de renda pelo rosto, comparecer nas eiras das desfolhadas, gozando a sensação, o gáudio e as agridoces ilusões dos moços que tentavam saber-lhe a identidade. Que china pueblana você me saiu!, recriminava o conde.
Vivia assaltado por vários males, e, na realidade, o possuir uma mulher jovem que não lhe impunha folias elegantes, viagens, um nomadismo impenitente de exibição e de gozo, parecia-lhe providencial. De resto, Elisa só com o tempo se fez coquete e provocadora de cortesias; mas já estava viúva nessa altura, poupando assim ao velho tio o rabiar dos predestinados psicólogos. Esta personalidade de mulher acompanhou muito a meninice de Quina. Ouvia falar dela e impacientava-se, pois a achava um mito provocado por uma desprezível adulação. Não a vira nunca, mas o seu nome era o bastante para a fazer empalidecer; nos seus olhos, que as pregas das pálpebras desfeava muito, havia um cintilar de rancor, atenuado com uma ironia. Que me interessa essa gente?, dizia. A quem pode interessar é ao José do Telhado». In Agustina Bessa Luís, A Sibila, 1954, Relógio d’Água, 2017, ISBN 978-989-641-747-5.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

terça-feira, 4 de junho de 2019

A Ronda da Noite. Agustina Bessa Luís. «Tem frio, avó?, perguntou. Não, só um pouco de fome. Mas, espera: não é fome, talvez não seja. A morte é excitante. Esta gente toda vai comer demais e enrolar-se na cama com peúgas e tudo»

Cortesia de wikipedia e jdact

Dia de Finados
«(…) Martinho apertou, sem querer, o braço da avó ao ter diante dos olhos a pesada pedra do túmulo. Era de facto terrível, com as argolas de ferro enferrujadas e o musgo negro que a cobria. Não vou deixar que a metam aqui, pensou, desolado. E um toque de pó-de-arroz na face dela, junto à orelha esquerda, enterneceu-o como o rasto duma mulher bonita. Até ao fim somos amantes uns dos outros, pensou, triste. A educação de mulheres dera-lhe um descaramento ritual, sem nada de perverso, só amadurecido pela reflexão. Deteve-se a olhar para as campas cobertas de inscrições saudosas, de flores caras, de candeeiros vermelhos dentro dos quais uma chama curta ia sucumbindo. A morte tinha-se tornado uma vaidade mais, uma festa de anos em que só faltava o parabéns a você mas não a mesa abundante.
Tem frio, avó?, perguntou. Não, só um pouco de fome. Mas, espera: não é fome, talvez não seja. A morte é excitante. Esta gente toda vai comer demais e enrolar-se na cama com peúgas e tudo. Não se devem frequentar lugares destes na minha idade. São lúbricos e quase mal-afamados. Um dente dela abanava quando ela falava, e Martinho podia distinguir um ligeiro ciciar da voz que dantes não tinha. Pronto, a velhice está a bater-lhe à porta. Não vamos pensar nisso, não quero pensar nisso. Pronto, acabou, pensamentos vagabundos! Beijou-a, a rir-se, e notou que os cabelos dela tinham um cheiro de ferro frisado. Os cabelos. De repente as mulheres puseram-se a usar franja e Nietzsche disse que era para esconder a testa e o que ela presume: inteligência, independência de vida, sexo, gerência dos negócios e outras coisas. Por mais que olhasse para todos os lados, as mulheres não pareciam diferentes. Quer dizer: talvez se adaptassem com mais dificuldade a um destino de donas de casa e mães de cinco filhos ranhosos e impertinentes. A verdade estava à vista, a crueldade era uma forma de razão prática, mas isso sempre existira entre as mulheres e os homens também. Só uma educação muito rígida as controlava. Casavam-se por amor, mas o amor incluía tudo o que se pode imaginar como na história do Humpty Dumpty. Cascas de ostras e peles de raposa ou daquelas águas de Colónia estafadas cujos frascos eram sempre uma ralação pois não pertenciam a nenhum lugar: nem ao lixo nem a uma colecção, nem para encher outra vez. Paula Nabasco disse que outra vez que lhe dessem um frasco desses, o mandava de volta de presente para outra pessoa. Eu, só gosto de lavanda. Mas quando fiquei grávida do Martinho enjoei a lavanda e nunca mais a pude suportar. Isto deve ter um sentido, não sei.
Paula penteava os compridos cabelos pretos. Tão pretos quanto podiam ser, com reflexos metálicos. Há coisas que se lêem nos livros mas que, nem por isso, deixam de ser assim. Negro-asa de corvo existia. Eram os cabelos de Paula. Aí está uma coisa que não se desfaz depressa. O cabelo, pensou Martinho. Pôs-se a olhar para a cabeça das pessoas que enchiam o cemitério e ficou desconcertado. Pareciam todas como as dos condenados à guilhotina ou ao machado, pontas cortadas ao acaso segundo o critério do barbeiro da prisão. Os pensamentos dele voaram noutra direcção, conduzidos por uma curiosidade que o fazia memorizar os momentos menos interessantes da vida. Coisas de que ninguém se lembrava saíam da memória como ratos dum queijo gigantesco. Era uma ideia tola mas divertida como as crianças costumam gostar». In Agustina Bessa Luís, A Ronda da Noite, Guimarães Editores, 2006, ISBN 972-665-513-7, Relógio d'Água, 2017, ISBN 978-989-641-811-3.

Cortesia de GuimarãesE/Rd’Água/JDACT

A Sibila. Agustina Bessa Luís. «A fama dos seus amores, às vezes com que deploráveis pormenores!, chegava-lhe juntamente com um eco de suspiroso desdém que Quina repelia…»

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«(…) Ele cortejava-a profundamente, de resto, como usava fazer com todas as mulheres sem excluir as filhas, incapaz de rispidez perante elas, domado por aquele sortilégio de saias, de vozes cantantes, de risos e meneios, de nervosismos lacrimosos e doces tiranias do instinto. Era Quina a primeira a aparecer-lhe no patamar da cozinha, quando o distinguia no declive do monte, de regresso das feiras que frequentava sempre com uma paixão de aventura. A sua bênção, meu pai, pedia, com uma exultação íntima, impaciente e quase feliz. Ele encarava-a com o olhar pícaro e fino, que não sabia tornar de todo paternal. Deus te abençoe..., dizia, devagar. E aquilo tinha o sabor duma cumplicidade, duma pequena folia trocista, contra o próprio Deus. Ele era também o seu herói , sob o aspecto do mistério, desses factos que polvilham de pitoresco a história das famílias e que, na infância, quando se decifram apenas no círculo dos adultos, surgem como a fábula mais original. A fama dos seus amores, às vezes com que deploráveis pormenores!, chegava-lhe juntamente com um eco de suspiroso desdém que Quina repelia como vivas injúrias aos actos de seu pai. Na verdade, ela aplaudia com fanatismo a integridade do homem na sobriedade das suas leis, junto das quais as lágrimas duma mulher não passavam de superfluidades sentimentais. A corte feminina sempre tão numerosa em que vivia, incluindo suas tias e casas continuadas por elas, causava-lhe irritação, pois ela lastimava desde menina o ser considerada um número entre a descendência de raparigas submissas e incapazes que se destinam a uma aliança tutelada, e que, mesmo atingindo o matriarcado, eram vencidas. Todas as irmãs de Maria tinham casado. Balbina, escolhida como madrinha de Quina, vinha às vezes, da sua casa de Água-Levada, procurá-la para lhe oferecer hospitalidade durante o tempo das sachas ou das esfolhas, convocando assim uma jornaleira gratuita. Quina ia, sem que mesmo a sua vontade fosse consultada, mas, uma vez aboletada em casa de sua tia, vivia galhardamente aquela turbulência de trabalho, de gente que se desconhece ou se reencontra, e divertia-se muito. Balbina era um especial carácter que preferia a mentira quando lhe era indiferente optar pela verdade. Mentia muito, sem desviar nunca os belos olhos inocentes, era mesquinha, trafulha, com um gosto acentuado pelas aparências, as honras, as falsas tafularias. Degenerou, dizia Maria, que não seria capaz de usar no dedo um anel de plaqué. Mas Quina gostava da sua madrinha, se bem que ela jamais a convidasse sem lhe extorquir retribuição e a presenteasse pela Páscoa com um folar pobre, muito chorado à conta das suas dificuldades, as suas perdas, as obrigações que devia ao lar e aos filhos. À ceia, quando queria avisar discretamente uma parcimónia geral, recostava-se, com um pequeno suspiro enfastiado, e dizia: estou até... Agora, nem cavacas...
Porém, não tinha comido senão um magro caldo, em cujos restos, num fundo de migas de broa, pousavam estilhaços de ossos. Amava as pompas, as grandes relações. O único irmão, José, de todos o mais semelhante a Maria, emigrara e, longe, fazia fortuna; outra afilhada sua e parenta não muito próxima casara com um tio regressado do Tucumán onde as plantações de açúcar lhe tinham proporcionado a auréola dum pequeno Cresus. Chamava-se Elisa Aida, a moça e com catorze anos entrara no leito com baldaquino e penas de avestruz, copiado duma água-forte de Moreau le Jeune, à ordem do velho achacoso, muito afeito a caprichos pantagruélicos, bufos, que era o noivo, seu tio. Dizia-se, com sorriso de piedade, que a rapariga pespontara castamente a camisa, encerrando-se dentro dela, no temor de se achar descomposta junto do homem que a comprara, mercê duma assinatura rabiscada no constrangimento da luva de quinze botões que ela não lograra esfolar da mão. Ela acadima, disse Balbina, como costumava, ao colocar uma galinha riça sobre o indez. Está em boa idade de se fazer uma fidalga». In Agustina Bessa Luís, A Sibila, 1954, Relógio d’Água, 2017, ISBN 978-989-641-747-5.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

domingo, 19 de maio de 2019

A Ronda da Noite. Agustina Bessa Luís. «Os Cunhas eram bons tocadores de viola e cavaquinho, sabiam cantigas completamente graciosas e cozinhavam muito bem»

Cortesia de wikipedia e jdact

Dia de Finados
«(…) Mas Maria Rosa Nabasco, a avó de Martinho, limitou-se a dar à luz um rapaz e uma rapariga a quem pôs o nome de Paula, nome que ainda não existia na família e que ela, a avó, achava indispensável numa genealogia católica. S. Paulo era, entre outros, o seu amigo preferido por razões que ela, dificilmente abordava mas que não eram as mais canónicas. Até aos nove anos, Martinho Nabasco esteve convencido que o mundo era partilhado por pessoas inteligentes, inventivas e criadoras. Quando se apercebeu que havia muita gente parada, como a avó Maria Rosa dizia, isso perturbou-o. Numa família em que até os deficientes mentais eram bem servidos de massa cinzenta que dava origem a anedotas, ditos de espírito e calembures geniais, o facto de se perceber que aquilo não era tudo e que podia haver verdadeiras hordas de brutos e de melancólicos activos e passivos, teve grande efeito em Martinho. Até os Cunhas, que eram por tradição criados dos Nabasco, constituíam uma elite de gente apurada de gostos e de entendimento. Os Cunhas eram sete irmãos e uma irmã chamada Ana. Muito feia, ao contrário dos outros, que eram elegantes e bonitos rapazes, ela detinha o espírito mais elevado e a graça correspondente. Nunca casou e Maria Rosa chamava-a muitas vezes para lhe alegrar o coração, que era dado a súbitas apreensões, como o rei David.
Acho que somos parentes. Também eu gosto de música como remédio e não como prazer, dizia. Os Cunhas eram bons tocadores de viola e cavaquinho, sabiam cantigas completamente graciosas e cozinhavam muito bem. Durante duas gerações foram presentes na casa dos Nabasco e contribuíram para a felicidade dos dias que nem sempre eram de aproveitar. Atrás de Maria Rosa e do neto Martinho ia uma herdeira dos Cunhas e que carregava as flores do dia de finados. Simples crisântemos, novelo, brancos e redondos como nuvens brancas e redondas. A Elisa era uma mulher robusta que vestia um uniforme azul-marinho, ou o que ela fazia parecer um uniforme, com colarinho e um gilet cinzento a completar. O efeito era sóbrio mas parecia uma extravagância numa época em que os costumes eram ditados pelos espaços de pronto-a-vestir. Ela orgulhava-se de não se converter aos jeans, se bem que ao preferir as saias de pregas estava a valorizar o porte de matrona. Ainda havemos de ver o dia em que os homens usem saias. São mais cómodas e mais arejadas, dizia. Estabeleciam-se grandes discussões em volta de questões pequenas, e aquilo despertava o espírito e tornava-o incandescente. Na hora perto do jantar, quando se entrava na cozinha para destapar as panelas e provar os molhos, acontecia aquela variada conversa sobre palavras, hábitos e o que os explicava. Martinho já não conhecera a casa da Rua de Belomonte que tinha a cozinha e a sala de jantar no terceiro andar voltado ao rio. Ao que parecia, era uma casa mítica. Às seis horas da tarde abria-se a porta do quintal aos cães e eles subiam pelas escadas como um esquadrão da guarda. Iam para a cozinha, derrubando cadeiras, abanando as caudas como chicotes. Ganindo de alegria. Eram cães de caça; e embora não houvesse mais caçadores em casa, alimentava-se essa tradição com os setters bonitos, cor de fogo cujo pêlo luzia ao lume do fogão de lenha. Porque até muito tarde se cozinhava a lenha e se usava a lenha para os fogões de sala. Ouvia-se o crepitar das achas secas como um ruído de bom augúrio na manhã enevoada. O rio tinha ainda humores de estação, crescia no Inverno e acumulava nas margens laranjas e traves partidas; e algum cabrito morto vinha na corrente, rápido na flor das ondas já invadidas pelo mar aberto. Tudo isso Martinho não tinha conhecido. Nem a mãe dele, Paula, que se distinguia por ser dessas mulheres enclausuradas ainda, e que aprendem equitação para o caso de ir viver em grande estilo com um senhor das lezírias ou com um lorde inglês. Imaginações que se desvaneciam ao primeiro baile de debutantes, já em declínio mas ainda consultoria de casamentos». In Agustina Bessa Luís, A Ronda da Noite, Guimarães Editores, 2006, ISBN 972-665-513-7, Relógio d'Água, 2017, ISBN 978-989-641-811-3.

Cortesia de GuimarãesE/Rd’Água/JDACT

sábado, 18 de maio de 2019

A Ronda da Noite. Agustina Bessa Luís. «O mesmo que Martinho herdara, um pouco fugidio, o que fazia sobressair o nariz avançado e estreito. Um nariz de judeu, e está tudo dito»

Cortesia de wikipedia e jdact

Dia de Finados
«Naquele ano coube a Martinho Dias Nabasco acompanhar o que restava duma família numerosa e abastada, ao cemitério da terra natal. Ainda havia muitos descendentes no estrangeiro, mas a casa em que se reuniam objectos e memórias mais presentes estava praticamente desabitada. Com o mau humor que caracteriza os jovens ao ter que proteger publicamente os velhos, Martinho deu a mão à avó para ela não tropeçar nos seixos levantados da calçada. Um mar de automóveis cobria a estrada. Uns em movimento, outros procurando um lugar mesmo diante dos portões e entradas que prometiam não ser frequentadas na manhã austera de Finados, as carrocerias brilhavam ao sol aberto. O cemitério, que Martinho conhecera ainda meio rural, com alguns jazigos de capela elevando-se sobre as campas de terra, alargara-se, apinhado de sepulturas recentes; os mármores e o granito polido davam ao campo-santo um aspecto de cozinhas bem arrumadas, alegradas por braçadas de flores. Entre a massa de crisântemos, despontavam orquídeas claras. Era um luxo, uma glória prestada aos mortos. E que mortos! Martinho admirava os rostos patéticos em caixilhos dourados e as letras também douradas nas lápides novas em folha.
Parece que morreram todos ao mesmo tempo, disse, ainda a segurar a mão da avó, fria e de dedos esqueléticos e bonitos. Tem compostura e sobretudo não me faças rir. Eu? A avó é que se ri de tudo sem compaixão. Sabe bem que sim. Como o nosso jazigo está estragado! Mas tem dignidade assim como está. O fio da sua camisola pegou-se à balaustrada do jazigo que fora inovador no seu tempo. Era cercado por troncos fingidos de cimento, o que na época devia representar o máximo, se não de bom gosto, pelo menos de ousadia. Começava a época do betão, e o velho engenheiro, de quem Martinho mal sabia o nome, deixava ali a sua marca desafiadora. Era avô do avô, o que para Martinho vinha a dar um parentesco distante e labiríntico. Pelos retratos, via-se que era um homem elegante, no seu fato de pied-de-poule cinzento e a barba que provavelmente lhe escondia o queixo fraco. O mesmo que Martinho herdara, um pouco fugidio, o que fazia sobressair o nariz avançado e estreito. Um nariz de judeu, e está tudo dito. Não deixava por isso de ser bonito, o jovem Martinho. Era doce como o açúcar quando queria e paciente como Cristo. Se bem que, também como Cristo, tivesse súbitas cóleras que só a avó compreendia.
Isto vai passar. É um homem e os homens são imprevisíveis, dizia ela à mãe de Martinho, a sua filha Paula, uma morena de olhos soberbos, quase verdes, e que não tinham perdido ainda o brilho. A avó passara o cabo dos cinquenta anos com alguma dificuldade, e um fibroma que se desenvolvera nessa idade diminuía-a a ponto de a pôr nervosa e pronta a desfazer-se em lágrimas. Consultou em Paris um médico velho e compassivo; passou-lhe uma receita que ela aviou numa farmácia da Praça da Ópera, indo depois comer ostras entre desenganada e ligeira de sentimentos. Como Proust, Martinho Dias Nabasco crescera entre duas mulheres que o amavam. Era um amor sujeito a mudanças, como tudo na vida. Nesse ano, Paula Nabasco demorou mais tempo as férias em Biarritz e não pôde ir florir a campa dos mortos, cada vez mais distante na província que fora o berço dos Nabasco e que se urbanizara até ficar irreconhecível. O que ligava Paula a Biarritz era uma velha história de família; o exílio dos Nabasco nos tempos da República e também a fortuna de que dispunham para se fazerem respeitar sem se olhar ao nome ou à origem. Duma irmandade de muitos irmãos, que mais parecia convento do que lar de proporções normais, os Nabasco tinham-se corrompido a ter poucos filhos, depois da guerra de 14, quando a vida se tornou bizarra e divertida. Ter só um filho ou um casalinho tornou-se um capricho da burguesia bem nascida. O tempo do avô Nabasco, o do jazigo em betão armado, fora o último da procriação natural sem o recurso ao preservativo e ao coito interrompido. Teve nove filhos, dos quais três eram deficientes mentais, de instintos matreiros e pirómanos, e assim por diante». In Agustina Bessa Luís, A Ronda da Noite, Guimarães Editores, 2006, ISBN 972-665-513-7, Relógio d'Água, 2017, ISBN 978-989-641-811-3.

Cortesia de GuimarãesE/Rd’Água/JDACT

sexta-feira, 17 de maio de 2019

A Sibila. Agustina Bessa Luís. «Olha que a minha prima do Soito casou aos onze anos. Aos treze teve dois filhos dum ventre, e criou-os, que ninguém lá foi criar-lhos, ripostava Maria»

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«(…) Com cinco anos, enquanto Estina, calçada com as suas meias de lã parda e branca, corria para a mestra, Quina, ficava sentada no degrau que comunicava a nova cozinha com os outros aposentos, e que era um pequeno caixote oscilante, posto ali para facilitar a subida das crianças. Ela segurava nos braços o mais novo dos irmãos, e cantava com a vozinha trôpega, quadras irreverentes a respeito da Patuleia, em cujas trincheiras combatera o marido de Narcisa Soqueira, um homem bronco até ao inverosímil, herói de muitas histórias galhofeiras. Dos caibros, cujo pinho claro se defumava já, pendiam tranças de cebolas, e a dobadoira, com a meada enfiada nos braços, estava sobre uma prateleira junto à fila de pepinos maduros que se guardavam para semente. No boqueirão da chaminé, que parecia a forma duma pirâmide, brilhavam oleosas fuligens. Chovia. A água repicava de encontro ao zinco que forrava até meio a porta que ficaria depois cheia de entalhaduras a canivete, marca e presságio da futura estatura de todas as crianças da família que ali se mediam aos dois anos, e cuja altura dobrada seria, diziam, a definitiva. O armário embutido ao canto da banca, em triângulo, supurava ainda resina dos seus nós. Aquela era a cozinha nova, a que substituía a dependência térrea onde se cozia o pão, e que ficava no seguimento das cortes do gado, no quinteiro, terreiro muito afofado de matos onde a chuva e a urina do gado empoçavam, e onde a geada fazia efeitos de corais brancos nos gravetos de urze. Por um fenómeno não muito raro no coração das mais extremosas mães, Joaquina Augusta encontrou um terreno de afectos quase totalmente dedicado à primeira filha, Estina. Talvez porque ao nascimento desta se ligassem mais vivos pormenores sentimentais, ou porque a criança ao crescer se revelasse detentora de perfeições e afinidades que seriam réplica da própria mãe, Maria distinguiu-a desde sempre, fosse no desvelo da educação ou no poupar-lhe as canseiras mais pesadas do lar. Entretanto, Quina, desde muito nova, lidava sob o estímulo da mãe, que a exigia activa e responsável, mais do que seria de desejar em menina tão miúda. Mas ela vergava-se àquela seca disciplina, adquirindo uma consciência de adulto, um orgulho de capacidade que seria o remorso de Maria, se esta tivesse ócios disponíveis para tais subtilezas. Deixa-a brincar também, dizia Francisco, tocado pelo azafamado jeito da cachopinha, que corria da adega à horta, acamava a roupa no cortiço da barrela, vedava com bosta húmida à porta do forno, carregava o linho que demolhava nas presas ou corava no limiar do pomar.
Olha que a minha prima do Soito casou aos onze anos. Aos treze teve dois filhos dum ventre, e criou-os, que ninguém lá foi criar-lhos, ripostava Maria. Este argumento da parenta, cujo casamento fora tratado por inculcas entre duas casas fartas, era fatídico. Quina deteve-o como exemplo desde o alvorecer da razão e, quando velha, ouvia ainda a mãe falar daquela heroína prima do Soito, quando alguém aludia à extrema juventude duma noiva ou duma esposa, para desculpar-lhe as leviandades e os feitos ingénuos. Quina chegara a ganhar raiva à pobre criaturinha, agora feita uma mulher gemebunda, a quem os muitos e sucessivos partos tinham abalado o coração. Apenas o pai ela tinha por aliado, somente ele a socorria com o disfarçado conforto dum sorriso, uma palavra, quando Quina passava, os olhos pregados no chão, sob o acicate da mãe sempre implicante, sempre manejando o fueiro e a chinela com uma expressiva agilidade. Entre Quina e o pai foi aos poucos surgindo uma espécie de aliança secreta, uma cumplicidade quase irónica que atingia Maria, caçoando da sua brusquidão, uma vez que não seria possível pôr-lhe cobro. E, naquele lar em que o chefe aparecia apenas para ser servido, para aceitar a escolha do melhor bocado e a servidão feliz de todos os que levavam afinal o fardo das monótonas canseiras, Quina recolhia com gratidão a deferência que o pai, tão admirável, tão estranho, tão difícil, lhe insinuava. O amor por ele tornou-se devoção». In Agustina Bessa Luís, A Sibila, 1954, Relógio d’Água, 2017, ISBN 978-989-641-747-5.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

A Sibila. Agustina Bessa Luís. «Ele não tinha mudado. As suas aventuras eram inumeráveis, e o lar significava para ele um poiso cujo encanto resultava sobretudo de manter a toda a hora as portas franqueadas sobre o mundo»

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«(…) Se já tinham esmorecido havia muito, as relações com Isidra ficaram desde então definitivamente acabadas. Nem Francisco procurou vê-la mais, nem ela de algum modo se interpôs na sua passagem. O filho que ia nascer preocupava-o, pois conhecia bem aquela mulher a quem a cólera faria rasar todos os crimes. Pagou espiões que a vigiassem na sua própria casa, soube-lhe todos os pensamentos e os diálogos em detalhe com as comadres de confiança; soube que a criança a destinava à roda, contratou cúmplices e sentinelas, esperou, muitas noites, nos esconsos da quinta, que alguém viesse entregar-lhe nos braços o fardo do recém-nascido. E assim aconteceu. Era um menino, que mandou criar cheio de amparo, e a quem a própria Maria recebia mais tarde com deferências, homem probo que muito honrava o nome paterno, e por isso ela lhe dedicou um respeitoso afecto. Isidra foi habitar uma residência no Porto, pertença do avô de Borba que morrera, muito destemperado de génio e blasfemando contra os filhos varões, cujos casamentos tinham resultado estéreis. A moça viveu até à idade madura no casarão sobranceiro ao rio, e cujas velhas salas ela franqueava às pombas. As raras damas que a visitavam entreolhavam-se com espanto perante aquela criatura lívida, cuja arrogância sobressaía até nos seus próprios atavios negros, sem uma garridice, sem uma jóia. Nos damascos esfiados dos estofos, nos mármores róseos das mesas, havia ressequidos excrementos de aves; pelas altas janelas, cujos estores caíam aos pedaços, entrava o sol que desbotava as tapeçarias e a seda cor de palha das paredes. Ela possuía o snobismo da rudeza, não tentou jamais demonstrar cultura ou preferir certas elegâncias volúveis que faziam moda, e não falava melhor do que os caseiros com quem privara desde pequena. Havia nela, porém, um gosto inato de nobreza que a fazia distinta entre todas as mulheres. Tem virtudes de homem, dizia o fidalgo de Lago, muito velho já, e que a admirava sem excluir aversão por ela. Enfim, a sua opulenta trança branqueava quando Isidra casou com um magistrado, homem balofo e sem humor, que foi nomeado pouco depois juiz do Supremo Tribunal. Francisco Teixeira perdeu-lhe o rasto para sempre.
Ele não tinha mudado. As suas aventuras eram inumeráveis, e o lar significava para ele um poiso cujo encanto resultava sobretudo de manter a toda a hora as portas franqueadas sobre o mundo. Maria viveu um inferno de desesperos mudos, e a sua reprovação manifestava-se apenas pelo silêncio, lidava até à exaustão mais profunda, e não comia. Quando Francisco chegava, via-lhe os olhos queimados, os modos secos, aquele cirandar cheiro de dignidade que o vexava e lhe produzia remorsos; então calava-se também, e no seu coração aquela atitude ia roendo até a imaginação a transformar em ofensa e ele acabar por sobrepor-se às suas culpas como a vítima mais lamentável. O seu egoísmo fazia-o infantil, e das dores que ele próprio motivava restava-lhe na consciência um sabor de injustiça por qualquer mínima represália. Assim, os primeiros anos foram muito amargos, se bem que Maria no futuro, os recordasse com uma ternura muito viva, e os achasse, de facto, os mais risonhos da sua vida; três filhos perderam-se, e a criança que logo nasceu em condições de sobreviver deveu-a a Narcisa, conselheira assídua de Maria. Come sempre antes de o teu homem chegar a casa, disse-lhe. Se ele não tiver ceado, comes outra vez com ele; se não, podes deitar o teu caldo na pia, que já não faz falta... Isto desagradava os seus ingénuos pundonores de mulher, e, como Maria só sacrificava a prudência a uma história de honra, conciliando ambas atingia uma satisfação suprema. Um ano depois, nasceu Justina, menina afouta e que prometia ser bela; depois seguiu-se Joaquina Augusta e ainda três rapazes, o último baptizado, por um lapso de registo ou como fora em tempos costume, com o sobrenome da mãe. A família enraizava-se de novo e estendia os seus ramos naquela casa da Vessada que se reedificava lentamente». In Agustina Bessa Luís, A Sibila, 1954, Relógio d’Água, 2017, ISBN 978-989-641-747-5.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

A Sibila. Agustina Bessa Luís. «Não restava um tabique, um fio de bragal; o fogo apenas poupara os caldeiros de ferro que, esbraseados, tinham rolado sobre os charcos do quinteiro, fazendo soltar uivos de espanto ao povo»

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«(…) Porém, Maria precipitou aquele enredo, escapulindo-se de casa, para reclamar o seu lugar no novo lar que lhe competia. Não recebeu aplausos por isso, se bem que Francisco Teixeira não resistisse a aceitá-la com honras de noivado. Ele desacompanhava-a muito, deixava-a sozinha na casa, que ela percorria vagarosamente, empunhando a candeia, cuja luz vacilante aplicava nos recantos, no patamar da adega, onde se situavam as talhas do azeite, sobre calços de vimieiro. Se ele não chegava, deitava-se sem cear; se ele vinha e dizia, com uma voz acobardada: já comi, Maria ia lançar o seu caldo no bocal de madeira esbeiçado de lavagens e que comunicava com a pia dos porcos, em baixo, sob a cozinha que estava em construção. Porque a casa tinha totalmente ardido. Não restava um tabique, um fio de bragal; o fogo apenas poupara os caldeiros de ferro que, esbraseados, tinham rolado sobre os charcos do quinteiro, fazendo soltar uivos de espanto ao povo que acorria com escudelas de água e cântaros que pareciam pairar magicamente à cabeça das mulheres. Acontecera pouco tempo depois da chegada de Maria. Ela sentara-se, exausta, na velha mó de lagar de azeite que estava meio tombada na margem da eira, e olhara os escombros donde o fumo subia misturando-se com a névoa da madrugada. Tinha apenas uma saia mal acolchetada sobre a camisa, e tiritava. Os moços moviam-se à sua frente, enfarruscados pelo travejamento que desabara e sobre o qual pulavam, e que ardia ainda com um serpear de lume no cerne seco; Narcisa Soqueira, vizinha muito afecta à casa da Vessada, chorava, cirandando, seminua, um ombro esquálido aparecendo pelos rasgões do velho chambre.
Ah, mulher, mulher! Isto foi a amiga do teu Chico, que é fêmea que o diabo enjeitava, disse-lhe, muito sufocada de aflição. Cantés, murmurou Maria. E voltou o rosto das paredes calcinadas, junto das quais a grande meda de palha centeia se consumira, ficando apenas a armação de ferro onde a velha pintura escamara, derretendo em gotas vermelhas sobre as lajes. Francisco Teixeira não voltara ainda. E ali estava aquela jovem mulher, cujas feições contraídas, porém, frias, se desenhavam na esverdeada luz da madrugada; não confiava uma emoção à turba que a rodeava, que ia e vinha, num afadigado fervor de auxílio, que se aproximava na timidez daquela dor que não sabia como aliviar, e se afastava sem ter proferido senão palavras bruscas e banais, vexada pela própria impotência, desejando apenas distrair-se da desgraça que não podia vencer. Maria não chorava. Com a palma da mão arrepiava às vezes os cabelos frisados das fontes e que lhe descaíam sobre os olhos; o seu coração estava fechado, porém na expectativa de alguma coisa que nele renovasse a felicidade, pois ela pertencia a essa casta rara e invencível dos que, a par da mais crua teoria do pessimismo, se mantêm fiéis à esperança, e que mesmo na morte não sucumbem. Francisco Teixeira veio então, sem se apressar muito em se chegar, alisando-lhe as pregas do xaile, como se, com esse gesto humilde e repetido, quisesse definir um arrependimento.
Eu tinha pensado já fazer umas obras..., disse. Ainda bem que estou aqui para vigiar isso, contestou Maria. O seu tom possuía a nota irónica que nela testemunhava bom humor e generosidade. As contas estavam saldadas. Assim, ela confessava que o amava através de todos os incidentes e catástrofes, todos os esquecimentos e abandonos. Morreria muito velha e, com a idade, a mente havia de se debilitar, provocando-lhe arrazoados vagos, atropeladas recordações, esse viver retrospectivo cheio de visões passadas, de factos e pessoas mortas. Mas o seu homem estava sempre presente junto dela, vivendo as suas seduções, fazendo-a vibrar em cuidados e penas, como quando ela era jovem e se entregava às suas íntimas batalhas de cólera e de perdão. Que culpa tinha ele de ser bonito?, dizia, tomada duma filosofia gracejadora e doce. E, avistando da janela o filho que tomava o caminho dos lameiros, num dia outoniço em que chovia, alarmava-se, julgando que era Francisco Teixeira que partia desprevenido de abafos. Vai-se molhar todo, o meu Chico. Levem-lhe um capote, porque se vai molhar. No entanto, havia quarenta anos que ele tinha morrido». In Agustina Bessa Luís, A Sibila, 1954, Relógio d’Água, 2017, ISBN 978-989-641-747-5.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

A Sibila. Agustina Bessa Luís. «Esperava manter secreto este passo até que a história de Isidra chegasse a um natural epílogo; ou, possivelmente, preferia não encarar de frente qualquer solução»

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«(…) Partiam estafetas com ordens e avisos, e, entre suspiros de cólera, as vendedeiras salgavam nos alguidares de barro os tremoços, dispondo, nas mesas adornadas com um ramo de cravos bravos da Índia, os copos embaciados onde vertiam limonadas e refrescos de aguardente. Os foguetes explodiam, deixando no ar pompons de fumo alvo que lentamente se deslocava e diluía. Quem é o homem?, disse Isidra. Fechara o leque sobre o regaço, repuxando as suas mitenes de malha de seda preta. Olhava Francisco Teixeira, viu como ele, esgotando os adversários, se detivera no largo varrido, verificando a solidez do varapau, que varava o ar com silvos prolongados. Depois, calmo, afastou-se por entre a multidão, e nem uma vez se voltou. Isidra ficou-se na escada até tarde, batendo, absorta, com o leque nos joelhos, fixando os copinhos de papel escarlate que balançavam suspensos por barbantes e às vezes ardiam, despenhando-se as fagulhas sobre a praçazinha coalhada de povo. Na sala, atrás de si, as senhoras bebericavam chá, comunicando-se as receitas dos acepipes que provavam com suaves estalinhos de língua, de aprovação, de entendimento, de gula. Eram mulheres que se espartilhavam em barbas de baleia, sinistramente iguais, e que usavam ganchos bafientas sobre os cabelos que pareciam brunidos, penteados com o único intuito de ficarem arrumados. Vem para dentro, menina. Olha esse relento. Sobre os tremós cintilavam os pingentes dos candeeiros onde se derretiam as velas. Um largo espelho de caixilho de esmalte branco com filetes de oiro reflectia aquela reunião, os homens medonhos, com coletes acolchoados, e que falavam, preguiçosamente, das finanças e da política, as santas criaturas que cochichavam agravos de parentela e de criados, empinando pelas ventas dedadas de rapé. Isidra entrou na sala, mordiscou uma cavaca, chegou-se ao piano, onde apoiou o indicador, experimentando uma escala. Vida estuporada!, disse. O fidalgo de Lago, negro como um moiro e que explicava o loiro dos filhos pelo processo de lhes banhar a cabeça com cerveja quando nasciam, observou-a de través. Odiava os de Borba, parentes seus, rivais na opulência das casas, na excentricidade, nas espaventosas histórias de cavalos e de mulheres. Famoso ninho que tais pegas dá, falou, para si, como costumava dizer, com essa espécie de espírito que era como um atributo da sua cólera. Isidra captou a frase, sem a ouvir. Quando, logo depois, ele lhe perguntou, com um ressaibo de velha galantaria, quase lânguido, se ela gostava de versos, Isidra disse-lhe, com uma arrogância fria, sem mesmo o olhar: versos? Meta-os pelo rabinho acima… O de Lago passou a temê-la, o que, dizia Isidra, era muito melhor do que se a respeitasse. Caprichou a moça nos seus amores com Francisco Teixeira. Era fogosa e indomável, e, passados os primeiros arroubos da conquista, ele fatigou-se dos seus repentes de despeito, das suas juras que previam desagravos de traições, das suas corridas pela quinta, que ela atravessava noite alta para comparecer aos encontros, embuçada numa mantilha de renda de lã negra, os cabelos escorrendo-lhe pelas costas, pesados, trazendo enredadas as gavinhas secas que se desprendiam dos lódãos. Ela não o amava, apenas se lhe entregava por desafio ao nome que comprometia, pois à vertigem da sua queda sucedera a preocupação pelo seu orgulho. Francisco Teixeira enfadou-se depressa daquele temperamento tão viril, daquela voz ferina e fria que lhe impunha ordens e que, no fim de contas, o desfrutava. Gostava das mulheres submissas, mansas, que o admirassem sem jamais adquirirem a confiança de especificar, decompor, calcular, essa admiração. Mas Isidra ia ser mãe, e ele receava-a. Talvez para evitar a tentação daquela imperiosa criatura cujos ardores, cujos olhares terríveis o venciam e cuja fortuna lhe parecia um subsídio notável para uma vida de camarilha com arruaceiros e ciganas, ele casou precipitadamente com Maria. Esperava manter secreto este passo até que a história de Isidra chegasse a um natural epílogo; ou, possivelmente, preferia não encarar de frente qualquer solução, e o facto de se ligar irremediavelmente a Maria representasse um golpe de defesa que corrigiria muitos dos desvarios a que se sabia sujeito. Este traço do seu carácter transmitiu-se depois a quase todos os filhos, e podia definir-se pelo estilo hamletiano, o choco de indecisão, a cobardia da violência, que se resgatam de súbito com um acto que transcende toda a razão». In Agustina Bessa Luís, A Sibila, 1954, Relógio d’Água, 2017, ISBN 978-989-641-747-5.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

A Sibila. Agustina Bessa Luís. «Mas a luta embraveceu, magotes como vagas chocaram-se, confluindo das margens do largo, ouvia-se entre gritos o seco rumor dos paus que embatiam»

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«(…) Sua mãe, nascida numa dessas fidalguias broncas onde os rebentos fêmeas sofrem o desprezo paterno, criara-se pelos casebres dos caseiros, entre a canzoada dos perdigueiros e filhotes de labrego, na promiscuidade das cozinhas térreas onde a fumaça se enovela para a cura do fumeiro, onde a vida do campónio se concentra, onde se come, se projectam tarefas, se louvam e se maldizem os amos, o tempo, as crias, o próprio Deus. Só com dezoito anos a rapariga foi chamada ao solar, a coabitar com os irmãos. Era analfabeta, e tinha como divertimento predilecto o aproximar-se à socapa dos cães que lambiam nas escudelas o caldo de abóbora, e cortar-lhes com um podão as caudas que abanicavam. De resto, bonita, de pele clara, com sinaizinhos negros distribuídos com mimo pelas faces. Dizia milhão em vez de milho, vestia-se como uma imagem de andor, com muito gosto pelos vidrilhos, as sedas bordadas, não hesitando em retalhar as velhas colchas orientais, para franzir uma saia. Ainda não atingira a maioridade, apareceu grávida. O pai zurziu-a a rebenque de baleia, cruzando-lhe vergões empolados e azuis, dos ombros até às ancas; os seus uivos atravessavam as enormes salas consecutivas cujos reposteiros de damasco as crianças tinham denegrido, e as servas ficavam-se nos corredores, arrepiadas de susto, rezando baixo e correndo em debandada quando ouviam no patamar o estrupir das botifarras dos fidalgos novos que chegavam da caça, um tanto bêbados, altercando entre si. Um ano depois, a moça foi entregue em casamento a um proprietário rico que a aceitou, escurecendo o percalço havido com o dote fabuloso que a acompanhava. O povo recordava ainda a baixela de prata que carregava uma cibana e cujo peso fazia oscilar o andamento dos bois. Não foi feliz, a pobre. Sete anos depois nascera-lhe Isidra, e, um pouco além dessa data, ela morrera, no recolhimento da sua alcova, assistida apenas pelo capelão, um homenzinho untuoso e triste e que mascava tabaco, bufando escarros negros nas bacias onde boiavam compressas sujas de vinagre. A clausura fizera-a doente, vivia mergulhada em banhos de farelos, o seu hálito tinha um odor de drogas, e os dentes tinham-lhe caído. O marido chamava-lhe senhora, fingindo desconhecer que ela troçava dele e lhe punha alcunhas sórdidas, porque sempre lhe foi odioso e gostava de o vexar lançando-lhe em rosto a sua fidalguia, a sua casa de Borba, enorme, com salões revestidos de chumbo e carrancas de pedra na extremidade das varandas. Dizia-se que um dos próprios irmãos a desflorara e que ela o amava ainda, com desafio, e, pronunciando-lhe o nome, chorava, revendo a sua galhardia, o seu talento para esporear cavalos, fazendo-os caracolear, com placas de espuma sanguinolenta sob a espora de prata.
Isidra, com vinte anos, era designada como boa estampa, pelo avô. Era grande, com esses olhos sombrios e um tanto vítreos que a palidez dum rosto favorece. Fora sempre relutante à educação, falava mal, gostando de desorientar os homens com a sua bruteza de linguagem e rindo-se quando eles, tolhidos de espanto, enrubesciam. Conhecera Francisco Teixeira numa tarde de romaria que ela presenciava da sacada aberta sobre o largo da povoação em festa: vestida de tafetá negro, sem jóias, a trança dos cabelos um tanto solta nas espáduas, abanava-se com um grande leque de moiré e azeviche, contemplando com o olhar indolente a procissão que descia do adro, as torres dos andores oscilando, com as suas fitas e as suas palmas de papel tremendo e voando entre as copas poeirentas das acácias. Subitamente, um redemoinho de desordem ferveu, alastrando logo com um corricar de cachopos que se arrastavam sob as pernas do poviléu, e o escândalo ainda morno, ainda lento, das mulheres, que reajustavam na nuca os lenços de algodão e buscavam no poial das portas um degrau seguro para abrigadamente presenciarem. Mas a luta embraveceu, magotes como vagas chocaram-se, confluindo das margens do largo, ouvia-se entre gritos o seco rumor dos paus que embatiam, estalavam, eram lançados longe, caindo sobre as tendas ou os arraiais das louceiras. E, então, numa clareira que se foi desenhando mais vazia, mais circular, destacou-se o pequeno vulto de Francisco Teixeira que avançava, grave e tranquilo, repelindo à sua volta o eriçado dos marmeleiros que combatiam, iam cedendo, recuavam, dispersando-se nas alas da multidão que se agitava, ondulando como um corpo que voga na maré. Havia sangue; os andores tinham parado na ladeira e os anjos choravam, não se atrevendo a abandonar o posto, suados sob as vestes debruadas com pele branca, de coelho, as botas amarelas de dusaque muito atufadas na poeira. Sob o pálio, o abade, recolhido, mansamente esperava, entre as opas vermelhas cujas pregas o sol riscara de violeta e as filas de crentes ajoelhados sobre os lenços de bolso. Então essa guarda?, impacientavam-se os mesários». In Agustina Bessa Luís, A Sibila, 1954, Relógio d’Água, 2017, ISBN 978-989-641-747-5.

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domingo, 12 de novembro de 2017

A Sibila. Agustina Bessa Luís. «Nem um só dia Francisco Teixeira alterou os seus hábitos e os seus princípios de boémia, e, se abandonava velhos amores, era para sem tardança os substituir»

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«(…) Onze anos depois, casavam. Estava nessa altura Francisco Teixeira no seu apogeu de sedutor, e não se dispunha a abdicar da sua liberdade de galaroz, as feiras, as noitadas, as amásias, quase sempre de boa nascença, raparigas de primeira mão, bonitas e muito assopapadas de paixão por ele. As mulheres perseguiam-no, vigiavam-no, confiando no ciúme umas das outras para o privar duma preferência fatal que lhes arrebatasse as esperanças para sempre. Os seus amores com Maria passaram despercebidos, tanto ele temia o escândalo das rivais, mais pelas suas lágrimas que pelas suas ameaças. Porque ele era afinal um fraco, teria casado com todas as moças que o fitassem com belos olhos marejados, acobardava-se, prometia, enredava-se nas mais ingénuas ciladas do amor, se a mulher se lhe apresentasse como uma vítima indefesa e se lhe rendesse. Com Maria, porém, foi diferente. Havia duas semanas que estavam casados e ela continuava, sigilosamente, em casa dos pais, sem que entre ambos houvesse mais do que os cumprimentos reservados, contrafeitos, de noivos por contrato. Ele amava-a, não teria escolhido nenhuma outra, porque se lhe fixara na alma o romanesco da sua promessa à criança ponderada e austera que ele encontrara uma vez esforçando-se por saltar sozinha a cachoeira, desafiando o seu próprio receio. Maria não mudara nada; era a mesma menina que sob o orgulho oculta uma lealdade sem limites, e possuía essa afeição dos tímidos que erradamente se confunde com velhacaria; fizera-se uma bela mulher, com o acréscimo vantajoso dum dote de dois moinhos e algumas ramadas, educara-se na sujeição e no trabalho, descendia duma tribo de gente prudente e casta. Sem dúvida que Francisco Teixeira a apreciara como um achado raro e se decidira sem hesitação a adquiri-la com todas as garantias legais. Mas todas as outras que choravam a seus pés, que se embalavam no seu regaço e se desgrenhavam cheias de apaixonados zelos, e lhe surgiam nas encruzilhadas, desfalecidas de pranto, e lhe rondavam a porta, com agonias de raiva no coração? Isto prolongou-se algum tempo ainda, até que Maria, assediada como Penélope pelos romeiros dos dotes, aos domingos, corrida pelas chufas das irmãs que a achavam mona e a apontavam aos namorados como exemplo doentio de altivez, abalou um belo dia.
Tão séria! É para casar rica?, gritou-lhe Balbina vendo-a cruzar a eira, descalça e com a roupa de cotio, mas levando no pescoço o seu cordão de ouro, donde pendia um pequeno crescente de filigrana. Maria olhou a irmã, que era ruiva e cuja cabeça parecia fosforejar como o cobre, vista através da névoa das suas lágrimas que apenas tinham assomado e se recolhiam sob a rápida pressão das pálpebras. Cantés!, disse, com voz sonora. E deitou a correr. Essa mesma noite a casa da Vessada recebeu a sua nova ama. Nem um só dia Francisco Teixeira alterou os seus hábitos e os seus princípios de boémia, e, se abandonava velhos amores, era para sem tardança os substituir. Houve um recrudescer de intrigas e paixões à sua volta, pois as mulheres pareciam vingar a traição daquele casamento, infligindo à escolhida a tortura do abandono, o tributo do ciúme, as impaciências iradas dos que orgulhosamente amam. Uma delas representara uma ligação mais séria, burguesa prendada como era, soberba da sua posição e haveres, criada no desleixo dum lar sem mãe, porque a sua, única legítima da casa de Borba, finara-se muito cedo, deixando a menina, que engatinhava apenas, nas sombras das saias de amas e governantas pingueiras, que mal cuidavam em escamar-lhe a ramela e engomar-lhe os esbicados dos calções de baptista que assomavam sob os vestidos curtos de baetilha cor de morango. Chamava-se Isidra, a moça; era de tipo majestoso, com uma cabeleira cuja opulência gostava de exibir ao retratar-se enrolando a trança como uma boa». In Agustina Bessa Luís, A Sibila, 1954, Relógio d’Água, 2017, ISBN 978-989-641-747-5.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

sábado, 11 de novembro de 2017

A Sibila. Agustina Bessa Luís. «Ela conhecia Francisco Teixeira, a quem as irmãs, criaturinhas espigadas e ladinas, celebravam muito, corando só de lhe pronunciar o nome»

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«(…) Joaquina Augusta nascera nessa mesma casa da Vessada, setenta e seis anos antes. Era uma menina de aspecto pouco viável, roxa, moribunda, e que apresentava no pulso esquerdo uma mancha cor de sépia, motivada pelo facto de sua mãe ter sido salpicada de fígado de porco, por ocasião duma matança, estando ela nos primeiros tempos de gravidez. Era a segunda filha que vingava num matrimónio de sete anos, porque os primeiros concebidos não atingiam o termo num organismo violentado por desesperados jejuns, angústias de mulher jovem que tem por marido o maior conquistador da comarca. Pois a senhora Maria da Encarnação, escolhida num alfobre de raparigas da casa do Freixo, delicadinha, esguia, os cabelos sobre as fontes, uma cintura muito torneada pelo cinto de cetim, como ficou de moda para todas as mulheres da família, ligara-se a um homem mais velho vinte anos e do qual diziam as avós da freguesia, em tom bonachão e um tanto cúmplice, que tinha pedrinha de encantar. Era mesmo. Casara à socapa, numa madrugada em que a noiva, depois da cerimónia, fora retomar o seu lugar no lar paterno, iludindo assim por algum tempo mais o cortejo das desprezadas, entre elas as próprias irmãs. Francisco Teixeira era, de facto um galã feliz. Possuía ele casa de lavoura e bens ao luar de sobejo interesse, e que administrava mal, pois era feirante por índole, amigo de gozos, vida larga, gostando de presumir grandezas, generosidades e essa bazófia genuína, mais feita de discrição do que de alardes pimpões. Se havia homem pronto a vingar afrontas de compadrio, a ensarilhar o pau, a varrer testadas, fazendo acudir a troa entre o escabrear do gado e os gritos das velhas que se esgueiram de rastos, salvando na abada do avental o que restasse do gigo dos ovos, era esse Francisco Teixeira. Tipo pequeno, de muito nervo, prudente e conciso de falas, ciente do prestígio das suas suíças loiras junto das mulheres, para quem o tisnado de árabe merecia descrédito em coisas apolíneas, assim era ele. Com nove anos, Maria da Encarnação apaixonara-se por ele, uma tarde em que, de passagem pelo lugar, se vira impedida de pular um córrego avolumado pela invernia: a água espumejava precipitando-se num barranco entre duas arribas, sobre as quais vergavam os lódãos, muito batidos pelo vento. Que fazes aqui, menina? Tu de quem és?, disse Francisco Teixeira, que passava, a gola picarça do capote afogando-lhe meio rosto. Maria respondeu com uma vozinha tímida, porém seca e rebelde: sou do Freixo... E tentou apear-se do muro, cuja interrupção oferecia uma espécie de degrau que permitia o acesso às veredas na margem dos campos. O moço disse, serenamente, quase severo: é já de noite: eu vou levar-te a casa. Eu conheço o teu pai, e sempre lhe vou perguntar se isto são horas de deixar andar por fora uma mulher como tu. Cantés!, bradou Maria, elevando a voz, para que o fragor da torrente que gorgolejava entre as lajes brancas não lhe sumisse as palavras. Ela conhecia Francisco Teixeira, a quem as irmãs, criaturinhas espigadas e ladinas, celebravam muito, corando só de lhe pronunciar o nome. Lado a lado, caminhavam juntos naquele crepúsculo que a chuva fazia alvacento, brilhando ao cair, espelhando nos charcos, nas lamas, nas folhagens. O homem falava, e a sua voz era cheia duma ternura irónica que comunicava no coração da criança um desejo de esforço e uma emoção quente, de aliança, de gratidão. Chegaram, e disse Francisco Teixeira, antes de se despedir, enquanto do portal iluminado pelo fogaréu do lar o espreitavam as moças, mordendo-se de risos impulsivos, incontroláveis e maganos: ora acautelem-me lá esta rapariga, que é com ela que eu vou casar... Adei... Adei..., sublinhou o pai, que assomara também, cambaleando um pouco sobre os tamancos tachados e que o faziam parecer alto, com enormes pernas anquilosadas, como as figuras do Greco. Houve grandes risadas, e Balbina, a mais velha das irmãs, correu de repente para Maria, a quem encheu de mimos e desvelos, palpando-lhe as roupas molhadas, desnastrando-lhe as trancinhas hirsutas, para que os cabelos enxugassem». In Agustina Bessa Luís, A Sibila, 1954, Relógio d’Água, 2017, ISBN 978-989-641-747-5.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

A Sibila. Agustina Bessa Luís. «Desde a morte de Quina, nunca mais a casa tivera aquela emanação de mistério grotesco ou ingénuo»

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«Há uma data na varanda nesta sala, disse Germana, que lembra a época em que a casa se reconstruiu. Um incêndio, por alturas de 1870, reduziu a cinzas toda a estrutura primitiva. Mas a quinta é exactamente a mesma, com a mesma vessada, o mesmo montado, aforados à Coroa há mais de dois séculos e que têm permanecido na sucessão directa da mesma família de lavradores. Uma espécie de aristocracia ab imo. E Bernardo riu-se, cheio de uma ironia afável e quase distraída; tirou do nariz as lunetas, muito maquinal, colocou-as de novo, ajustando as molas de ouro nos vincos que pareciam o sinal de unhadas, e, com um piscar precipitado como quem bruscamente transita da obscuridade para a luz, disse ainda, Ab imo, da terra, pois ele considerava a cultura como um privilégio pessoal, e nunca perdia a oportunidade de se mostrar generoso, transmitindo-a. Pertencia ele ao ramo da família que do capitalismo ascendera ao posto imediato da intelectualidade e nisso fixara uma aristocracia. Pois que é a aristocracia senão o grau mais alto que uma sociedade deseja atingir, a supremacia de determinada classe sobre as outras, a imposição dos seus valores, sejam eles de força, de trabalho, de espírito, conforme a época que lhes é propícia? A família de Bernardo Sanches tinha adquirido um estado aristocrático, o que quer dizer que estacionara no cumprimento de determinada herança de hábitos, frases, opiniões que, uma vez desprendidas da personalidade que os fizera originais, restavam agora somente como snobismos e ocas imitações. Enfim, o talento da imitação, pensava Germana, chegava a ser tão característico como uma originalidade, não só em determinadas famílias, como, mais genericamente, em determinados povos. Bernardo Sanches era o exemplo duma raça heróica e magnífica enquanto a sua história fora uma questão de sobrevivência, mas que, com a segurança e o conforto, resultara numa brilhante mediocridade. Germana, sua prima, era por seu lado, um tipo fatídico das degenerescências, o artista, o produto mais gratuito da natureza e que se pode definir como uma inutilidade imediata. Era ela uma criatura paciente, tímida, e que inspirava confiança sem limites. Os artistas, que, em geral, se fazem notar pela sua excêntrica banalidade e que se distinguem dos burgueses porque vivem as extravagâncias que os burgueses reprimem em si próprios, não se pareciam nada com Germa. Ela tinha o espírito de parecer vulgar. Um dos seus prazeres consistia em analisar-se como o conteúdo de todo um passado, elemento onde reviviam as cavalgadas das gerações, onde a contradança das afinidades vibrava uma vez mais, aptidões, gostos, formas que, como um recado, se transmitem, se perdem, se desencontram, surgem de novo, idênticos à versão de outrora. Ela balançava-se activamente numa velha rocking-chair que, a cada impulso mais violento, pulava no sobrado, onde se acumulavam pilhas de maçãs sustidas por tábuas muito esfareladas de serrim. Tal como Quina, pensou. E, absorta, pôs-se a murmurar um lento monólogo, olhando à sua frente o caixilho da porta que comunicava com a cozinha, onde se via a pedra da lareira, arrumada e varrida de cinza.
Você que diz, Germa?, perguntou Bernardo. Perscrutava-a com uma curiosidade passageira, um tanto mortificado porque alguma coisa que não ele próprio o obrigava a inquietar-se. Como ela o fitasse apenas, sorridente e sem lhe falar, achou mais cómodo sentir-se ali o hóspede venerável, e tomar aquele silêncio ainda como uma cortesia. Mas, na verdade, Germa nem sequer pensava nele. Suspeitar isto, ele sabia, seria o bastante para que Bernardo não voltasse mais e estabelecesse no fundo da sua alma permanente disposição de vingança. Preferiu, portanto, ignorar que Germa estava nesse momento totalmente desligada e ausente de si, e que subitamente o ambiente ficara repleto doutra presença viva, intensa, familiar, e que aquela sala, de tecto baixo, onde pairava um cheiro de pragana e de maçã, se enchia duma expressão humana e calorosa, como quando alguém regressa e pousa o olhar nos antigos lugares onde viveu, e o seu coração derrama à sua volta uma vigilante evocação. E, bruscamente, Germa começou a falar de Quina. Era em Setembro, e a casa, temporariamente habitada expulsava o seu carácter de abandono e de ruína, com aquele calor de vozes e de passos que amarrotavam folhelhos amontoados em todos os sobrados. O tempo estava morno, impregnado dessa quietude de natureza exaurida que se encontra num baque ondulante da folha, ou na água que corre inutilmente pela terra eriçada de canas donde a bandeira do milho foi cortada. Desde a morte de Quina, nunca mais a casa tivera aquela emanação de mistério grotesco ou ingénuo; e Germa não encontrava mais sabor nos serões ao borralho, mexendo as achas, fazendo rodinhas de fogo-preso com o atiçador esbraseado, ou catando nos escanos o rapa do Natal, em cujas faces as letras tinham sido desenhadas com tinta venenosa de bagoinhas. Ah, Quina, tão estranha, difícil, mas que não era possível recordar sem uma saudade ansiada, quem fora ela?» In Agustina Bessa Luís, A Sibila, 1954, Relógio d’Água, 2017, ISBN 978-989-641-747-5.

Cortesia de Rd’Água/JDACT