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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Onde Fica o Meu País? O exílio e a migração na ficção pós-apartheid de Nadine Gordimer. Anderson Martins. «… mas por ora, é importante reconhecer a existência de um conflito entre o que podemos chamar de ‘literatura do exilio produzida pelo exilado e literatura do exilio produzida pelo não exilado’»

Cortesia de wikipedia

Aquele precário reino do exilio
«(…) Uma vez que a educação escolar e académica ocidental possui conhecidas bases europeias, não surpreende que o famoso banimento dos poetas em A Republica de Platão seja frequentemente apontado como o exemplo mais categórico da tumultuada convivência que sempre caracterizou as relações entre artistas e intelectuais com as instâncias estabelecidas pelo poder político. A partir desta cena original, a historiografia das artes em geral, e da literatura em particular, tem pesquisado à exaustão as afinidades entre o exilio e a produção artística. Os anelos por Canaã em terras babilónicas e a evocação dos orixás em solo brasileiro, os versos revoltados de Calibã e os versos satânicos de Gibreel Farishta, a poesia de Petrarca e a de Mahmoud Darwish, o jazz nascido nos Estados Unidos e o hip-hop norte americano adoptado por jovens palestinos para expressar a sua animosidade contra Israel, o fado e o flamenco, todos são belíssimos exemplos da exuberante constelação de canções do exílio produzidas nos mais diversos momentos e nas mais complexas circunstâncias que sempre pontuaram a instintiva necessidade humana de simbolização da experiência de separação entre o sujeito e suas origens. Diante disto, os historiadores e críticos literários cunharam o termo literatura do exilio, que, por muitos anos, guiou as análises das narrativas que nasceram do trauma desta separação. Rapidamente, porém, tal conceito começou a revelar as suas imperfeições e limitações. Entre outras, destaca-se a própria ambiguidade que o termo é incapaz de recobrir, uma vez que a literatura do exílio pode ser constituída tanto pelos textos escritos por autores exilados em reflexão sobre a sua experiência quanto por outros, exilados ou não, que adoptem o tema do exilio como fio condutor de suas construções ficcionais. Apesar de unidas pela temática, as diferentes narrativas criadas trazem um problema teórico muito importante para o centro do debate: a experiencia. Este assunto será abordado mais detalhadamente em relação específica com os exilados sul-africanos, mas por ora, é importante reconhecer a existência de um conflito entre o que podemos chamar de literatura do exilio produzida pelo exilado e literatura do exilio produzida pelo não exilado.
Alem desta questão particular, em pouco tempo foi ficando claro que a adopção, especialmente no âmbito do senso comum, do termo exílio para designar de maneira relativamente indiscriminada as diversas formas de deslocamento humano, poderia vir a esvaziar o conceito de sua relevância adquirida nos primeiros ensaios e teses que contribuíram para estabelecê-lo no meio académico. Por esta razão, surgiram novas nomenclaturas em meio as reflexões acerca do impacto do deslocamento espacial sobre o espaço textual, e os teóricos e novos estudiosos foram-se adaptando a termos como literatura da diáspora, literatura migrante e nomadismo literário. Um estudo extremamente instigante e que já percebe a limitação da expressão literatura do exilio foi publicado por T. Eagleton ainda na segunda metade da década de 1960. Talvez um dos aspectos mais atraentes desta obra resida no facto de seu autor ter lançado mão da escrita de autores em exilio na Inglaterra para avaliar a obra de escritores nascidos no país, como E. Waugh, G. Greene, W. H. Auden e D. H. Lawrence. Para Eagleton, o facto de que estes últimos se tornaram exilados em determinado momento de suas vidas precisa ser lido à luz do impacto causado sobre as letras britânicas por artistas estrangeiros que haviam se estabelecido no país anteriormente, como J. Conrad, H. James, T. S. Eliot e E. Pound.
Para Eagleton, a figura do escritor exilado está na base de uma importante distinção entre a literatura britânica do século XIX e a do século XX. Enquanto, no primeiro período, os principais autores seriam aqueles nascidos em solo inglês, no segundo, o cânone das letras britânicas teria sido dominado por autores vindos de outros países. No entanto, a explicação encontrada por Eagleton para este facto depende de conceitos de fraca aceitação na teoria literária actual, como transcendência e universalismo. Em linhas gerais, o autor acredita que os escritores novecentistas, a despeito de suas origens em classes sociais específicas e de seus comprometimentos particulares, eram capazes de transcender as suas subjectividades a fim de criar uma representação universal da sociedade de sua época». In Anderson Bastos Martins, Onde Fica o Meu País?, O exílio e a migração na ficção pós-apartheid de Nadine Gordimer, Tese, Universidade F. de Minas-Gerais, Faculdade de Letras, Brasil, 2010.

Cortesia da UFMGerais/JDACT

terça-feira, 29 de julho de 2014

Onde Fica o Meu País? O exílio e a migração na ficção pós-apartheid de Nadine Gordimer. Anderson Martins. «Em certo sentido, a dificuldade de se traçarem fronteiras exactas entre o exilio e a diáspora e compensada pela possibilidade de se pensar que esta última pode trazer a experiência do exílio uma leveza…»

Cortesia de wikipedia

Aquele precário reino do exilio
«(…) Em seguida, o autor tenta traçar uma forma de diferenciar o exilio da diáspora. Segundo Peters, o contraste-chave com a diáspora esta na ênfase desta sobre relações laterais e descentradas entre os dispersados.

O exilio sugere um pesar (pining) pela ausência do lar; a diáspora sugere redes entre os compatriotas. O exílio pode ser solitário, mas a diáspora e sempre colectiva. A diáspora sugere relações reais ou imaginadas entre companheiros disseminados, cuja noção de comunidade e sustentada por formas de comunicação e contacto tais como o parentesco, a peregrinação, o comércio, a viagem e a cultura comum, língua, ritual e escritura. Algumas comunidades na diáspora talvez se movimentem para retornar ao país de origem, mas a norma que diz que o retorno é desejável ou mesmo possível não faz necessariamente parte da diáspora hoje em dia.

A fim de melhor organizar o esforço conceitual apresentado até aqui, é possível afirmar que uma das bases fundamentais do pensamento sobre o exílio e a separação traumática, presente no pensamento de Suvin, na sua postulação de que o exílio normalmente afasta qualquer possibilidade de retorno, mas que, por sua vez, reflecte-se em sentido inverso sobre a noção de Peters da presença permanente do desejo por este retorno. Trata-se de um desenrolar psíquico da experiência do exílio, localizado nas fantasias compensatórias e mesmo nas paranóias engendradas por toda forma de proibição e que, com frequência, interfere nos projectos políticos aos quais muitos exilados se dedicam. Ambos, no entanto, deixam de considerar os casos em que os exilados se adaptam de forma tão absoluta ao novo país que deixam de ser exilados e comumente adquirem uma cidadania substituta ou alternativa.
A diáspora, por sua vez, representa um problema conceitual mais aberto. Segundo a leitura feita por James Clifford do trabalho de Safran, ela encontra traços comuns com o exilio em sua ênfase na sustentação de um mito da terra natal, a pátria, e no desejo de retorno a esta pátria. Entretanto, se comparada com a nomenclatura de Suvin, a diáspora pode congregar tanto os refugiados quanto os emigrados, não apenas por seu carácter colectivo, que a diferencia do exílio, mas também pelo facto de que sua origem pode ser tanto politica quanto económica. Ainda segundo Suvin, o retorno é uma possibilidade remota para refugiados e emigrados. Este ponto afasta os refugiados e emigrados, na análise de Suvin, do conceito de diáspora formulado por Safran e citado por Clifford, ao mesmo tempo em que os aproxima da noção de Peters, muito mais interessado em redes formadas no país anfitrião pelas comunidades diaspóricas do que na fixação sobre um projecto de retorno ao país natal.
O que se depreende das complexas inter-relações apresentadas acima e que os exilados, refugiados e emigrados podem, eventualmente, no âmbito de determinadas circunstancias, estabelecer colectividades diaspóricas. Isto depende enormemente da forma com que os agrupamentos formados no exterior interagem com as causas que os levaram a deixar a sua terra natal e com as relações estabelecidas no país anfitrião. Em certo sentido, a dificuldade de se traçarem fronteiras exactas entre o exilio e a diáspora e compensada pela possibilidade de se pensar que esta última pode trazer a experiência do exílio uma leveza que e negada toda-vez que o pesar pela perda (temporária ou não) do contacto com a pátria ocupa todo o espaço experiencial daqueles que vivem longe da terra das suas memórias mais estruturantes. Por esta razão, muitos dos pensadores que analisam os deslocamentos humanos tendem, hoje, a concordar com a noção de que o exílio criou relações históricas com o nacionalismo, que pode se tornar o companheiro ideal para a xenofobia, ao passo que a diáspora se aproximou, nas décadas mais recentes, das relações transculturais e transnacionais. Enquanto o estudo dos movimentos humanos sistematizou-se a partir do surgimento de novas disciplinas no campo das ciências humanas, como a antropologia e a sociologia, e do fortalecimento de outras mais antigas, como a história e a geografia, a relação entre tais movimentos e deslocamentos e a literatura remonta à Antiguidade ou, talvez, aos primórdios da escrita». In Anderson Bastos Martins, Onde Fica o Meu País?, O exílio e a migração na ficção pós-apartheid de Nadine Gordimer, Tese, Universidade F. de Minas-Gerais, Faculdade de Letras, Brasil, 2010.

Cortesia da UFMGerais/JDACT

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Onde Fica o Meu País? O exílio e a migração na ficção pós-apartheid de Nadine Gordimer. Anderson Martins. «… características da diáspora: uma história de dispersão, mitos/memórias da pátria, alienação no país anfitrião (‘mau anfitrião?’), desejo de retorno eventual…»

Cortesia de wikipedia

Aquele precário reino do exilio
«(…) Como é comum em toda tentativa de se estabelecer uma taxonomia no campo das ciências humanas, Suvin ocupa boa parte do seu artigo debatendo as chamadas áreas cinza de sua categorização. Realmente, desde o principio fica claro para o investigador que nem sempre é possível distinguir de maneira inequívoca um exilado, um cidadão da diáspora, um refugiado ou um imigrante. No entanto, é preciso ao menos identificar algumas características particulares de cada um destes grupos a fim de que as semelhanças e confluências não impeçam a compreensão de que existem demandas específicas a cada uma das diversas modalidades de migração. Na taxonomia de Suvin, o grupo do exilado inclui muitos dos intelectuais que se viram forçados a deixar seus países durante a vigência de regimes ditatoriais e períodos de conflito armado. Podem ser citados como exemplos os cientistas e académicos judeus que se estabeleceram nos Estados Unidos durante a II Guerra Mundial e os intelectuais e artistas da África pós-colonial que foram forçados a se mudar para a Europa e América do Norte nos primeiros anos do nacionalismo pós-independentista. O grupo dos refugiados se confunde um pouco com o dos emigrados, especialmente porque a imprensa actual, em seu duplo papel de formadora de opinião e árbitra dos usos da língua,  prefere usar o primeiro termo para nomear as massas de desabrigados criadas tanto pelos conflitos políticos quanto pelos desastres naturais e pelas crises económicas. Seguindo Suvin, porém, é possível tratar como refugiados aos milhares de libaneses que se estabeleceram no Brasil após a invasão do sul do Líbano por tropas israelenses na década de 1980, enquanto as primeiras levas de sírios e libaneses que vieram para o país no início do seculo XX podem ser chamadas de emigrados, já que a principal motivação para o seu deslocamento foi de ordem económica.
Finalmente, entre os exemplos de expatriados normalmente se incluem, por exemplo, os artistas norte-americanos que se estabeleceram na Europa após a I Grande Guerra muito mais por opção profissional do que por qualquer outro tipo de pressão externa. Em relação aos intelectuais provenientes das jovens nações recém-independentes da África e Ásia, alguns também se enquadram nesta categoria. Entre estes, especialmente nos últimos anos, muitos passaram a desempenhar tarefas importantes no meio académico, por exemplo, alternando seus períodos de actividade entre continentes diferentes. O esforço conceitual de Suvin serve de ponto de partida para a tentativa de diferenciação entre alguns dos pontos de sustentação do estudo das relações entre o deslocamento espacial e o trabalho literário. No entanto, algumas ausências são sentidas no seu ensaio, especialmente no que diz respeito aos termos diáspora e migração. A frequência com que o conceito de diáspora é mencionado nos estudos culturais e literários actuais criou o risco de apagamento das fronteiras entre, por exemplo, o que se entende por diáspora e o que se tem em mente quando o termo exilio é empregue. Diante das dificuldades que tal indiferenciação pode ocasionar, muitos autores vêm-se esforçando no sentido de mapear de alguma forma estas noções, as quais, ainda que possuam diversos elementos em comum, também apresentam diferenças que não devem ser ignoradas.
Num texto bastante elucidativo intitulado Diásporas, James Clifford recorre a uma clássica definição da diáspora, de autoria de Safran, para, em seguida, procurar compreender a maneira como tal conceito tomou novas colorações no interior do discurso académico. Segundo Clifford, Safran define as diásporas do seguinte modo:
  • Comunidades minoritárias expatriadas, que se encontram dispersas a partir de um centro original na direcção de ao menos dois locais perifericos; que mantem uma memória, visão, ou mito acerca da sua pátria original; que acreditam que não são, ou talvez que não possam ser, totalmente aceitas pelos países anfitriões; que vêem o lar ancestral como um local de retorno eventual, quando o momento propício chegar; que estão comprometidas com a manutenção ou restauração desta pátria natal; e das quais a consciência e solidariedade do grupo são significativamente definidas por esta relação continuada com a pátria (...). Estas são as principais características da diáspora: uma história de dispersão, mitos/memórias da pátria, alienação no país anfitrião (mau anfitrião?), desejo de retorno eventual, apoio permanente da pátria e uma identidade colectiva marcadamente definida por esta relação.
Ao tentar estabelecer uma distinção entre a diáspora e o exilio, Peters segue um caminho que acaba por criar algumas confluências e divergências entre os conceitos de Suvin e os de Clifford. Segundo Peters (1999), o exílio sugere um banimento doloroso ou punitivo da terra natal. Alem disto, seja voluntario ou involuntário, o exilio geralmente implica um facto traumático, um perigo iminente, normalmente político, que faz com que o lar não mais seja habitável com segurança». In Anderson Bastos Martins, Onde Fica o Meu País?, O exílio e a migração na ficção pós-apartheid de Nadine Gordimer, Tese, Universidade F. de Minas-Gerais, Faculdade de Letras, Brasil, 2010.

Cortesia da UFMGerais/JDACT

Onde Fica o Meu País? O exílio e a migração na ficção pós-apartheid de Nadine Gordimer. Anderson Martins. «… estabelece que o ‘exilado’ é aquele que deixa a sua terra individualmente, por razões políticas, e raramente retorna a seu país de origem. Já o ‘refugiado’ se diferencia pelo carácter colectivo da sua partida»

Cortesia de wikipedia

Resumo
«Esta tese analisa dois dos mais recentes romances de Nadine Gordimer, Ninguem para me acompanhar (1994) e O engate (2001), que pertencem à categoria de literatura sul-africana pós-apartheid. Apesar de ambos fazerem parte da ficção sul-africana, a abordagem analítica usada na tese expande o seu alcance a fim de enxergá-los como literatura transnacional, particularmente no caso de O engate. O estudo de Ninguem para me acompanhar segue em duas direcções principais. Em primeiro lugar, o objectivo e compreender alguns temas e técnicas narrativas selecionados por Nadine Gordimer a fim de ficcionalizar o período de transição, entre 1990 e 1994, em que uma nova elite negra, que havia retornado do exílio recentemente ou sido libertada da prisão, passou a ocupar os principais cargos políticos do país. Em segundo lugar, o foco do estudo volta-se para a presença de elementos autobiográficos na narrativa, numa tentativa de explicar a decisão tomada por Gordimer de recorrer a autoficção, uma vez que ela é conhecida por ter recusado diversas propostas para escrever as suas memórias ou a sua autobiografia. Simultaneamente, é possível discutir o pensamento abstrato de Gordimer em relação aos temas da lei e da verdade. A análise de O engate é também dividida em duas partes. A primeira delas se situa na África do Sul e narra o envolvimento sexual de uma jovem branca e rica e um imigrante ilegal vindo de um pais muçulmano não identificado. Isto dá acesso ao posicionamento de Nadine Gordimer em torno da chamada nova África do Sul e suas novas formas de segregação. A segunda metade do romance se situa na vila às margens do deserto onde o imigrante e a jovem vão viver temporariamente com a família do rapaz. O foco da analise recai sobre a visão critica de Nadine Gordimer no tocante à exploração da força de trabalho do migrante nas grandes cidades ocidentais. Paralelamente, a autora convida a considerar formas alternativas de viver e partilhar experiências transnacionais no século XXI».

Aquele precário reino do exilio
«Os diversos matizes de deslocamento espacial já se tornaram lugar-comum no campo dos estudos literários. No entanto, como toda aproximação interdisciplinar, os pontos de contacto entre a literatura e a migração exigem cuidados metodológicos e bibliográficos que minimizem o emprego inconsistente de conceitos e terminologias. Tradicionalmente, os movimentos humanos têm sido tratados pelos especialistas em disciplinas como a geografia e a história e, mais recentemente, por antropólogos, sociólogos e psicanalistas. O número de periódicos especializados é significativo. Além disto, a própria facilidade de deslocamento ocasionada pelos desenvolvimentos tecnológicos, bem como os eventos devastadores do último século e princípio do actual, conduziram a um forte recrudescimento das chamadas ondas de migração. No esforço de sistematizar o estudo dos movimentos humanos, os especialistas viram-se diante de um quadro marcado pela diversidade, seja em relação às causas do deslocamento, seja em relação às expectativas e projectos criados, no exterior, pelos sujeitos deslocados. Desta maneira, termos como migração e exílio precisaram ser bem definidos, o que redundou na elaboração de uma nomenclatura mais complexa em que conceitos como expatriação, diáspora e nomadismo adquiriram importância. Além disto, a apropriação destes estudos por disciplinas relacionadas às artes e à filosofia criou uma nomenclatura complementar, desta vez mais metafórica, que trouxe à cena conceitos como deriva, migrância, errância, deslizamento, etc. Em contrapartida, o estudo sistemático dos movimentos humanos revelou a necessidade de se pensar acerca de seu contrário: a permanência. A partir daí, surgiram profundas reflexões em torno do lar, da casa, da família, da nação, sempre numa relação contrapontística com tudo aquilo que interfere na sua estabilidade. Tal quadro, multifário e multidisciplinar, exige um trabalho preliminar em que os campos conceituais se delimitem minimamente, a fim de que o estudo da literatura vis-a-vis o deslocamento espacial não se perca em inconsistências. Na tentativa de reduzir os efeitos do uso indiscriminado de termos relacionados aos movimentos humanos, Darko Suvin (2005) estabeleceu alguns pré-requisitos para que ao menos quatro destes conceitos fossem devidamente diferenciados. Através de duas tabelas bastante simples, o autor procura distinguir os exilados, os expatriados, os refugiados e os emigrados.
De acordo com Suvin, a primeira categoria de distinção é regida pelo aspecto quantitativo do deslocamento. A segunda categoria diz respeito as causas da partida, e, finalmente, o terceiro critério aponta para a possibilidade e/ou desejo de retorno ao país de origem. A partir dai, Suvin estabelece que o exilado é aquele que deixa sua terra individualmente, por razões políticas, e raramente retorna a seu país de origem. Já o refugiado se diferencia do exilado pelo carácter colectivo da sua partida, que também tem razões políticas e normalmente não prevê o retorno. À semelhança do exilado, o expatriado parte individualmente, embora o faça por razões ideológicas e económicas e tenha a liberdade de retornar ao seu pais de origem sempre que deseje ou quando tenha adquirido as condições materiais para tanto. Por fim, os emigrados diferem da categoria anterior pela partida em grandes grupos, causada normalmente por razões económicas e envolvendo uma possibilidade apenas remota de retorno». In Anderson Bastos Martins, Onde Fica o Meu País?, O exílio e a migração na ficção pós-apartheid de Nadine Gordimer, Tese, Universidade F. de Minas-Gerais, Faculdade de Letras, Brasil, 2010.

Cortesia da UFMGerais/JDACT

A Representação da Diáspora Contemporânea e suas Implicações no Romance ‘O Engate’. Nadine Gordimer. Alba Topan Feldman. «Onde a rua acabava, havia o deserto (...). Era desconcertante, a seu ver, chegar a um término. No fim de uma rua tem de haver outra rua. Um bairro leva a outro bairro. (...) Areia. Forma nenhuma...»

Cortesia de wikipedia

O Fenómeno da Diáspora
«(…) Um facto histórico interessante para o estudo da obra é que o livro foi lançado mundialmente poucos dias antes dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, o que enriqueceu a polémica e colocou em relevo a oposição existente entre o mundo europeizado cristão ocidental, e o mundo árabe islâmico oriental. Tal temática passou a ser ponto obrigatório em debates por todo o mundo. O Engate (2004) trata da convivência de pessoas diferentes em situações de conflito individual. Um homem e uma mulher relacionam-se em dois ambientes totalmente distintos: o mundo dela, a África do Sul, e o mundo dele, um país islâmico indeterminado no norte da África. A narrativa inicia-se quando o carro de Julie Summers quebra. Ela irrita-se, mas isso não a impede de encontrar-se com os seus amigos, um grupo multirracial num bar localizado num bairro pobre de Johannesburgo. Tal grupo é conhecido por ela como a Mesa, composto por pessoas de diferentes cores e profissões, ricos e pobres. O bar tem um nome globalizado que mostra que é frequentado tanto por modernos quanto pelos tradicionalistas, assim como pelos habitantes do bairro. Como fica claro várias vezes no texto, o país é a África do pós-apartheid e uma de suas metrópoles, onde há um pouco mais de tolerância racial, e brancos e negros procuram viver em paz.
Ao levar o seu carro velho a uma oficina perto do bar onde estava, Julie conhece Abdu, mecânico que trabalha ilegalmente ali, com um nome falso. Tudo começa com esse episódio, e se desenvolve para encontros casuais, quando Julie tem que voltar mais uma ou duas vezes por causa de seu carro e, depois disso, no interesse de comprar um outro carro. Julie não pertence àquele mundo de classe média-baixa: ela é filha de um banqueiro e, embora renegue sua família trabalhando como relações públicas, organizadora de eventos, não perdeu totalmente o vínculo com eles. Mesmo contra sua vontade, Julie introduz Abdu no mundo da burguesia no qual vive sua família. O encontro acontece num almoço de domingo, promovido por seu pai  e por sua madrasta. Naquele almoço, Abdu busca conviver com a burguesia do país, mas fala de coisas que os ricos desconhecem. Ali se encontra também uma família negra da nova burguesia africana, o Motsamai e a esposa. Motsamai atingira um alto patamar na sociedade como investidor financeiro, mas começou como advogado de famílias ricas. Abdu tenta fazer-se à vontade, pois é naquele lugar que gostaria de estar. Porém, é notável que a sociedade da família de Julie apenas o tolera. Como destaque entre as pessoas presentes no almoço, há um casal que também irá migrar para a Austrália, mas que não teve nenhum problema de passaporte ou de visto, como Abdu teve, levando inclusive o motorista com eles. Abdu e Julie seguem com suas vidas, até que ele recebe uma notificação do Ministério do Exterior, avisando que deve deixar o país imediatamente, pois há dois anos já está no país como imigrante ilegal. A partir daí, a fábula sofre uma reviravolta: Julie tenta de todas as formas que conhece impedir que Abdu saia do país. Tudo em vão. O casal pede ajuda ao tio de Julie, um médico, e a única pessoa da família com quem ela tem um bom relacionamento. O tio também tem na sua vida a história de um casamento feito contra a vontade da família. Ele tenta ajudar, mas nesse momento surge um problema na sua vida.
Por fim, após convencerem-se de que não há maneira dele permanecer na África do Sul, ela toma uma atitude que surpreende a todos, inclusive ao próprio Abdu: decide acompanhá-lo até ao seu país. Tal atitude provoca grande revolta, e certo desconforto para seus amigos da Mesa, muito embora eles procurem ao máximo não se envolver com os problemas dos amigos. Apesar de ver os esforços de Julie, Abdu não acredita que ela possa realmente querer ir com ele para um país desértico, do qual ele quer fugir a qualquer preço. Ele imagina que sua atitude nada mais é que o capricho de uma menina rica e mimada e que, ao primeiro problema, ela voltará para casa. Mesmo assim, casa-se com ela para não ofender a família, para a qual retornava como um fracassado, levando uma amante para sua casa. Eles despedem-se de todos e, sem o consentimento do pai dela, partem para o país árabe de origem de Abdu. A chegada do casal no país de Abdu marca o início da segunda parte do romance.
A aldeia onde eles moram é pequena, totalmente dominada por uma mesquita islâmica, que chama todos à oração bem cedo, todos os dias, e pelo deserto que a cerca. Ao levantar-se muito cedo e caminhar, Julie trava uma ligação muito forte, quase mística com o deserto. Também faz amizade com as mulheres da casa. Ao participar do Ramadã, mês de Jejum da família islâmica de Ibrahim, Julie consegue a aprovação da mãe dele. Enquanto isso, dá aulas de inglês para alguns jovens e mulheres da aldeia e, ao mesmo tempo, que ganha algum dinheiro, consegue aprender a língua do país.
Ibrahim começa imediatamente a procurar um novo país que o aceite, utilizando-se, para tanto, de todos os meios que conhece, lícitos e ilícitos. Julie ama a tradição e o pertencer a algo de sua família: conhece mais profundamente a vida da aldeia, os tuaregues (na forma de uma beduína), um oásis, entre outras coisas. A ida ao oásis deixa profunda impressão em Julie, que chega a pensar na possibilidade de ela mesma montar uma plantação irrigada, um oásis para produzir verde no deserto.
Finalmente, consegue um visto para os Estados Unidos, com a ajuda de cartas de recomendação de pessoas indicadas pela mãe de Julie, que mora no país com o actual marido. A partir desse momento, Julie começa a entristecer-se por ter de deixar a terra que havia começado a amar. Por isso, poucos dias antes da partida, ela informa-o que ficará. Ibrahim fica pasmo com a notícia, e depois, extremamente zangado. Porém, nada muda a ideia de Julie a respeito de ficar.
Como foi visto, o presente trabalho terá como objectivo geral verificar a representação da diáspora em O Engate, de Nadine Gordimer. É também seu objectivo verificar como a diáspora afecta o relacionamento pessoal, afectivo e social das personagens». In Alba Krishna Topan Feldman, um longo caminho até o lar, A Representação da Diáspora Contemporânea e suas Implicações no romance ‘O Engate’, de Nadine Gordimer, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Dissertação de Mestrado, Maringá, Brasil, 2006.

Cortesia de UEM/JDACT

A Representação da Diáspora Contemporânea e suas Implicações no Romance ‘O Engate’. Nadine Gordimer. Alba Topan Feldman. «Actuava sempre em causas humanitárias em prol de seu país, e transferia as suas ideias políticas para a escrita. Como parte de uma realidade quotidiana e conhecida no mundo, a diáspora é ligada a sentimentos»

Cortesia de wikipedia

Resumo
«A presente dissertação pretende mostrar a representação da diáspora contemporânea na obra de Nadine Gordimer, O Engate. Para tanto, será utilizado o ferramental teórico baseado em autores de estudos pós-coloniais e de estudos culturais. Fenómeno cada vez mais comum no mundo, a diáspora constitui um movimento voluntário, ou forçado, de pessoas e povos de suas terras natais para novos locais. A diáspora tem acontecido desde a dispersão dos judeus na antiguidade, perpassa pela escravidão africana, e as migrações dos países europeus para as colónias, no final do século XIX, ganhando força renovada após a II Guerra Mundial. A renovação da diáspora após 1945 envolve factores como a globalização, a flexibilização das fronteiras, a facilidade de transportes e comunicação, além de factores económicos e sociais. A diáspora afecta grandemente a identidade, não apenas da pessoa diaspória, mas também as pessoas com quem ela tem contacto, seja no seu local de origem, seja no local de chegada, pois envolve aspectos sociais, culturais e identitários, sentimentos de lar e deslocamento, que significa sentir-se como não pertencente a algum lugar. O livro apresenta dois tipos de diáspora distintos, ambos marcados pelo deslocamento: a primeira, de Ibrahim, que passa por diversos países até chegar à África do Sul, levado, em primeira instância, por razões económicas; e a de Julie, que sai da África do Sul e vai até ao país árabe desértico onde Ibrahim nasceu, para acompanhar o marido, fugindo do mundo superficial em que vivia. A diáspora afectou negativamente Ibrahim que, para manter-se num país onde é outremizado e tratado como inferior, por sua condição de imigrante ilegal, procura esconder-se na multidão, e até mesmo muda de nome. Julie não tem nenhuma razão aparente para efectuar a diáspora, pois tem tudo o que Ibrahim sonha. No entanto, acaba seguindo Ibrahim para seu país de origem, depois que se casam, e ele é deportado da África do Sul. Esta atitude provoca uma mudança profunda na vida de Julie, que se adapta ao clima árido e apaixona-se pelo país. A diáspora de Julie, portanto, é uma busca por um sentimento de lar e completude, que ela encontra na família de Ibrahim. Assim, quando Ibrahim busca fugir mais uma vez do país que o oprimia, Julie opta por ficar com a família dele. Ambas as diásporas, no final do romance, representam a busca do sentimento de pertencimento, de lar: enquanto Ibrahim o busca novamente num país desenvolvido (os Estados Unidos), Julie o encontra no país pobre do marido. A obra de Gordimer mostra a diáspora contemporânea, motivada não apenas por razões económicas e sociais, mas também pela fragmentação do indivíduo da pós-modernidade».

O Fenómeno da Diáspora
«Originalmente sendo o termo que designava a dispersão dos judeus após o exílio na Babilónia, estendendo-se depois para outras dispersões, a palavra diáspora actualmente tem um sentido mais amplo, e pode designar qualquer movimento de povos ou grupos sociais que possuam alguma origem comum. Diariamente, por todo o mundo, grupos sociais deslocam-se pelos mais variados motivos: busca de trabalho, melhores condições de vida, estudo, fuga de guerra, ou até diversos desses factores interligados. Méier (2005) afirma algo relevante sobre o assunto: … talvez nós possamos sugerir agora que as histórias transnacionais de migrantes, os colonizados ou refugiados políticos, estas condições de fronteiras, possam ser o terreno da literatura mundial. Como parte de uma realidade quotidiana e conhecida no mundo, a diáspora é ligada a sentimentos de fragmentação, de deslocamento e de perda de identidade. Outro assunto para análise é o status ocupado, no mundo globalizado, pelo sujeito diaspório. Por sua característica de formação da identidade, o tema é muito abordado na literatura mundial, e também na literatura de língua portuguesa, em vários de seus aspectos: seja na viagem de exploração da dominação europeia, seja na fragmentação do indivíduo das colónias, quando se trata de demonstrar numa única pessoa, e suas tentativas de fuga, a busca pela identidade, pela liberdade ou pelo conforto. O sujeito das colónias, ao mudar de país ou de região, tem que enfrentar uma nova cultura, geralmente hegemónica, que entrará em conflito com a sua própria.
Quando há um enfoque sobre as nacionalidades, busca-se sempre uma unidade política, que praticamente tornou-se impossível no mundo globalizado. No entanto, as populações híbridas, resultantes dos movimentos diaspórios, que se sentem deslocadas e fragmentadas devido a esse mito da unidade, têm sido esquecidas ou ignoradas. Mesmo existindo certo consenso teórico internacional sobre o assunto, mas uma revisão de literatura bem articulada, além de traduções importantes para o tema. Sabe-se que, após a II Guerra Mundial e, principalmente, após a Guerra Fria, as fronteiras dos países em desenvolvimento tornaram-se mais flexíveis, e a globalização tem levado ao deslocamento de grupos numerosos de pessoas em busca da realização dos sonhos provocados por um mundo capitalista. A diáspora precisa ser estudada, assim como os seus desdobramentos na literatura e nas artes em geral. Nadine Gordimer recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1991, chamando, mais uma vez, a atenção para a ignomínia que era o apartheid, na África do Sul. Actuava sempre em causas humanitárias em prol de seu país, e transferia as suas ideias políticas para a escrita. Afirmou, numa entrevista, que o dia em que se sentira mais orgulhosa na sua vida, não fora quando recebeu o Nobel, mas quando, em 1986, foi testemunha em um julgamento, para salvar as vidas de 22 membros do Congresso Nacional Africano, acusados de traição. A autora nasceu na cidade de Springs, no Transvaal, em Novembro de 1923, e é filha de imigrantes judeus de classe média alta. O pai era joalheiro, nascido na Lituânia, e a mãe originária de Londres. A mãe de Gordimer, impressionada com o modo como eram tratadas as crianças negras, abriu uma creche para dar apoio gratuito a essas crianças. Tal atitude contribuiu para a formação social e política da escritora, que iniciou a sua carreira aos 15 anos, quando escreveu pequenas histórias, publicadas dez anos depois, sob o nome de Face to Face. Estudou na Universidade de Witswatersrand, Joanesburgo, e viajou bastante pela África e pela América do Norte. Até 1994, Gordimer já havia publicado treze novelas, duas centenas de contos, e diversos livros de ensaio. Seus escritos foram traduzidos em mais de trinta línguas, e recebeu numerosos prêmios e doutoramentos honoris causa.
A obra que a lançou mundialmente foi A filha de Burguer (1979). O seu estilo é pessoal, mas sem nunca deixar os aspectos mais amplos de política e história. É sua a frase, a política é uma personagem na África do Sul. Assim, a maior parte de suas obras trata das tensões morais e psicológicas de seu país. É um dos membros fundadores do Congresso Sul-Africano de Escritores. Nadine Gordimer sempre se interessou pelas complexidades da alteridade: cresceu numa África pós-colonial, e viveu os vários estágios do regime do apartheid, analisando a alteridade sofrida pelos negros nas suas primeiras obras. Agora, com a população negra sendo absorvida lentamente pela sociedade branca sul-africana, alguns críticos chegaram a considerar que Gordimer havia perdido sua razão de luta com a literatura, tornando-se uma rebelde sem causa». In Alba Krishna Topan Feldman, um longo caminho até o lar, A Representação da Diáspora Contemporânea e suas Implicações no romance ‘O Engate’, de Nadine Gordimer, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Dissertação de Mestrado, Maringá, Brasil, 2006.

Cortesia de UEM/JDACT

sábado, 14 de dezembro de 2013

Nelson Mandela. Uma Lição de Vida. Jack Lang. «Estes incontáveis seres humanos, da África do Sul ou não, tiveram a nobreza de espírito de barrar o caminho à tirania e à injustiça sem tentarem tirar disso o mínimo proveito pessoal. A ferida de um indivíduo é de todos, e por isso eles agiram em coerência na defesa da justiça e do elementar respeito humano»

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Discurso de Aceitação do Prémio Nobel
«Gostaria de aproveitar esta oportunidade para felicitar o meu compatriota e colega laureado, o presidente Frederik W. De Klerk, pela sua reacção à grande honra que me é dada. Vimos aqui juntar-nos a dois eminentes sul-africanos, o chefe Albert Luthuli e o arcebispo Desmond Tutu, aos quais haveis prestado uma homenagem plenamente merecida pela sua colaboração frutuosa na luta pacífica contra o regime maléfico do apartheid atribuindo-lhes o Prémio Nobel da Paz. Não creio que seja presunção da nossa parte acrescentar, de entre os nossos predecessores, o nome de outro excepcional laureado com o Prémio Nobel da Paz, o reverendo Martin Luther King Jr. Também ele lutou e morreu na busca de uma solução justa para os mesmos grandes problemas que nós tivemos de enfrentar na África do Sul. Refiro-me ao desafio que resulta das dicotomias entre guerra e paz, violência e não-violência, racismo e dignidade humana, opressão e liberdade, repressão e direitos humanos, pobreza e liberdade de acção. Estou aqui como representante dos milhões de pessoas que ousaram insurgir-se contra um sistema social que tem na sua essência a guerra, a violência, o racismo, a opressão, a repressão e o empobrecimento de uma população inteira. Estou também em representação dos milhões de pessoas do movimento antiapartheid espalhadas pelo mundo inteiro, dos governos e organizações que se juntaram a nós, não para combater a África do Sul enquanto país, mas sim para se opor a um sistema desumano, e pôr rapidamente cobro ao crime contra a humanidade perpetrado pelo apartheid.
Estes incontáveis seres humanos, da África do Sul ou não, tiveram a nobreza de espírito de barrar o caminho à tirania e à injustiça sem tentarem tirar disso o mínimo proveito pessoal. A ferida de um indivíduo é de todos, e por isso eles agiram em coerência na defesa da justiça e do elementar respeito humano.
Graças à sua coragem e determinação ao longo de muitos anos, podemos mesmo, hoje, prever o dia em que a humanidade inteira se reunirá para festejar uma das mais memoráveis vitórias humanas do nosso século. Quando esse dia chegar, congratular-nos-emos, todos juntos, com a nossa vitória comum sobre o racismo, o apartheid e a supremacia da minoria branca. Esse triunfo encerrará finalmente quinhentos anos de colonização africana que remonta à instauração do império português. Marcará assim um grande passo em frente na História e ilustrará a determinação comum dos povos no combate ao racismo, seja ele qual for e onde for. No extremo austral do continente africano, aqueles que sofreram em nome da humanidade inteira, tudo sacrificando pela liberdade, pela paz, pela dignidade humana e pelo progresso humano, estão prestes a receber uma recompensa incomparável, um presente inestimável. Esta recompensa não se mede em dinheiro. Nem será avaliada em função do preço dos metais raros e das pedras preciosas desta terra africana que nós pisamos na esteira dos nossos antepassados. Será e deverá ser avaliada em função da felicidade e do bem-estar das crianças, ao mesmo tempo as mais vulneráveis de qualquer sociedade e o mais precioso dos nossos tesouros. E preciso que as crianças possam finalmente brincar ao ar livre na estepe, sem mais serem torturadas pela fome, dizimadas pela doença e ameaçadas por esses flagelos que são a ignorância, a brutalidade e todas as formas de abuso, ou obrigadas a envolver-se em actos cuja gravidade ultrapassa a sua compreensão. Perante esta distinta assistência, comprometemos a nova África do Sul a prosseguir sem desfalecimentos as resoluções definidas na Declaração mundial sobre a sobrevivência, a protecção e o desenvolvimento das crianças (NOTA: Declaração dos Direitos da Criança, aprovada por unanimidade pela Assembleia Geral das Nações unidas no dia 20 de Novembro de 1959, que estabelece dez direitos fundamentais, entre os quais os que Nelson Mandela mencionou). Esta recompensa será também, e deverá ser, avaliada em função da felicidade e do bem-estar das mães e dos pais dessas crianças, que devem poder viver nesta terra sem medo de serem espoliados por razões políticas ou materiais, injuriados porque reduzidos à mendicidade.

Também eles devem ser aliviados do fardo pesado que é o desespero, provocado pela fome, pela privação e pelo desemprego. O valor desta recompensa para todos os oprimidos será medido, e deverá sê-lo, em função da felicidade e do bem-estar de todas as pessoas do nosso país que tiverem derrubado os muros desumanos que as dividem. Estas grandes massas terão virado as costas ao insulto grave dirigido à dignidade humana, que pretendia designar uns como senhores e outros como servos, e que tinha como resultado fazer de cada indivíduo um predador cuja sobrevivência dependia da destruição do outro. O valor da recompensa que todos vamos partilhar será avaliado, e deverá sê-lo, em função da paz jubilosa que triunfará, porque a humanidade, que junta negros e brancos em uma só e a mesma raça, quer que cada um de nós possa daqui para o futuro viver como um filho do paraíso. Assim viveremos, porque teremos criado uma sociedade em que todos nascemos iguais e todos teremos direito a uma parcela justa de vida, de liberdade, de prosperidade, de dignidade humana e de bom governo. Uma tal sociedade nunca deverá tolerar que haja presos políticos, nem que sejam violados os direitos humanos de qualquer pessoa. Assim como nunca deverá acontecer que os caminhos que conduzem a uma mudança pacífica sejam de novo entravados por usurpadores que procuram privar o povo de todo e qualquer poder para atingirem os seus próprios e ignóbeis objectivos […]»In Jack Lang, Leçon de vie pour l’avenir, Perrin 2004, Nelson Mandela, Uma Lição de Vida, Editorial Bizâncio, Lisboa, 2005, ISBN 978-972-53-0275-0.

O meu singelo contributo. Obrigado MADIBA
Cortesia de Bizâncio/JDACT

Nelson Mandela. Uma Lição de Vida. Jack Lang. «Há demasiado tempo que esperamos pela liberdade. Não podemos esperar mais. E tempo de intensificar a luta em todas as frentes. Esmorecer na nossa combatividade seria uma falta que as gerações futuras não iriam perdoar-nos»

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Discurso perante a multidão na cidade do Cabo, no dia da sua Libertação
Dia 11 de Fevereiro de 1990
«Amigos, camaradas e compatriotas sul-africanos. Saúdo-vos em nome da paz, da democracia e da liberdade para todos! Estou aqui, perante vós, não como um profeta mas como um humilde servo vosso, do povo. Os vossos sacrifícios incansáveis e heróicos tornaram possível a minha presença hoje aqui. Deposito, pois, os anos de vida que me restam nas vossas mãos. Neste dia da minha libertação, quero também exprimir a minha sincera e mais viva gratidão aos meus milhões de compatriotas e a todos quantos, nos quatro cantos do mundo, nunca se cansaram de fazer campanha pela minha libertação.
[…]

Hoje, a maioria dos sul-africanos, negros e brancos, reconhece que o apartheid não tem futuro. Temos de acabar com ele, pela nossa acção conjunta e decisiva, para construir a paz e a segurança em todo o país. A resistência colectiva e as outras acções empreendidas pela nossa organização e pelo nosso povo não podem deixar de conduzir à instauração da democracia. A destruição causada pelo apartheid no nosso subcontinente é incalculável. Para muitos, deixou de existir estrutura familiar. Há milhões sem casa e sem emprego. A nossa economia está arruinada e o nosso povo mergulhado no conflito político. O nosso recurso à luta armada em 1960, com a formação do braço armado do ANC, Umkhonto we Sizwe, era uma acção meramente defensiva contra a violência do apartheid. Os factores que levaram à luta armada persistem hoje. Não nos resta outra alternativa senão continuar com ela. Resta-nos esperar um clima favorável às negociações para que a luta armada não seja por muito mais tempo uma necessidade.
Sou um membro leal e disciplinado do Congresso Nacional Africano. Estou por isso plenamente de acordo com todos os seus objectivos, as suas estratégias e as suas tácticas. Unir os habitantes do nosso país é uma tarefa tão importante e necessária hoje como sempre foi. Nenhum dirigente, qualquer que ele seja, pode levá-la a bom porto sozinho. Nós, os líderes políticos, temos de submeter os nossos pontos de vista à nossa organização e deixar que seja ela a decidir de acordo com o processo democrático que é o seu. É meu dever, a este propósito, sublinhar que um dirigente do movimento é uma pessoa eleita democraticamente em congresso nacional. É um princípio que tem de ser observado, sem lugar à mínima derrogação. Hoje, desejo comunicar-vos que as minhas conversações com o governo se destinaram a normalizar a situação política no país. Ainda não começámos a discutir as reivindicações fundamentais da nossa luta. Quero também salientar que eu, pessoalmente, em nenhum momento encetei negociações quanto ao futuro do nosso país, a não ser para insistir num encontro entre o ANC e o governo. O Sr. De Klerk foi mais longe do que qualquer outro presidente nacionalista, ao tomar medidas concretas no sentido de normalizar a situação. Porém, outras diligências, como as que ficaram esboçadas na Declaração de Harare, terão de ser desenvolvidas antes de podermos negociar os direitos fundamentais que o nosso povo exige. Aproveito esta oportunidade para reiterar a nossa reivindicação, entre outras, do levantamento imediato do estado de emergência e da libertação de todos os presos políticos não apenas de alguns. Só uma situação normalizada, que garanta uma livre actividade política, pode permitir-nos consultar o nosso povo para dele obter um mandato.
O povo tem de ser consultado para decidir quem vai negociar e quais são as negociações a fazer. Nenhuma negociação deve ter lugar sem o parecer dos nossos concidadãos. O futuro do nosso país só pode ser decidido por um órgão eleito democraticamente numa base não racial. As negociações, que incidirão sobre o desmantelamento do apartheid, terão de tomar em consideração o desejo irreprimível do nosso povo de uma África do Sul democrática, não racial e unitária. É preciso acabar com o monopólio branco do poder político e preparar uma reestruturação dos nossos sistemas político e económico, para se poder assegurar que as desigualdades devidas ao apartheid sejam eliminadas e a nossa sociedade seja perfeitamente democratizada. E bom que se diga que o Sr. De Klerk é um homem íntegro, que tem uma consciência apurada dos perigos a que se exporia uma personalidade pública que não honrasse os seus compromissos. Dito isso, a nossa organização tem o dever de definir a sua linha de conduta e a sua estratégia em função da dura realidade com que estamos confrontados. E esta realidade traduz-se no facto de continuarmos a sofrer os efeitos da política posta em prática pelo governo nacionalista. A nossa luta está num momento crucial da sua história. Apelamos ao nosso povo para que se mobilize no sentido de tornar rápido e ininterrupto o caminho que conduz à democracia. Há demasiado tempo que esperamos pela liberdade. Não podemos esperar mais. E tempo de intensificar a luta em todas as frentes. Esmorecer na nossa combatividade seria uma falta que as gerações futuras não iriam perdoar-nos. A liberdade que se desenha no horizonte tem de nos dar ânimo para redobrarmos os nossos esforços. Só uma acção maciça e disciplinada pode garantir-nos a vitória. Apelamos aos nossos compatriotas brancos para que se juntem a nós na construção de uma nova África do Sul, o movimento pela liberdade pertence a uma família política em que eles também têm lugar. Apelamos à comunidade internacional para que prossiga a sua campanha para isolar o regime do apartheid. Levantar agora as sanções seria correr o risco de fazer abortar o processo que há-de levar à erradicação total do apartheid.
A nossa marcha para a liberdade é irreversível. Não podemos permitir que o medo se atravesse no nosso caminho. O sufrágio universal, assente na participação comum de todos os eleitores numa África do Sul unificada, democrática e não racial, é a única via que leva à paz e à harmonia racial. Para concluir, gostaria de repetir as palavras que já pronunciei no decurso do meu julgamento, em 1964. São tão verdadeiras hoje como eram na época:
  • Tenho lutado contra a dominação branca e contra a dominação negra. Tenho acalentado o ideal de uma sociedade democrática e livre em que todas as pessoas possam viver juntas, em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para cuja concretização espero viver. Mas se for necessário, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer.
In Jack Lang, Leçon de vie pour l’avenir, Perrin 2004, Nelson Mandela, Uma Lição de Vida, Editorial Bizâncio, Lisboa, 2005, ISBN 978-972-53-0275-0.

Cortesia de Bizâncio/JDACT

Nelson Mandela. Uma Lição de Vida. Jack Lang. «... procurar trabalho onde quiserem e não onde os serviços de emprego os mandam ir. Os africanos querem uma partilha justa da totalidade da Africa do Sul; querem segurança e participação na sociedade. Acima de tudo, queremos direitos políticos iguais, porque, sem eles, as nossas desvantagens serão permanentes»

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Estou disposto a morrer
Declaração de Nelson Mandela no banco dos réus, em sua defesa, na abertura do julgamento de Rivonia

Ao Tribunal Supremo de Pretória, 20 de Abril de 1964.
[…]

«(…) O governo responde muitas vezes às críticas que lhe são dirigidas com a afirmação de que os africanos da África do Sul vivem muito melhor do que os dos outros países de África. Não sei se isso é verdade, porque se não tivermos em conta o índice de custo de vida a comparação não faz qualquer sentido. Mesmo que tenha fundamento, tal afirmação é descabida. De facto, o que interessa não é saber se somos pobres em comparação com outros países, mas sim que somos pobres em relação à população branca no nosso próprio país, e que a legislação nos impede de repor o equilíbrio.
A falta de dignidade humana vivida pelos africanos era resultado directo da política de supremacia branca. Supremacia branca implica inferioridade negra. A legislação destinada a preservar a supremacia branca reforça este conceito. As tarefas inferiores na África do Sul são invariavelmente desempenhadas pelos africanos. Quando alguma coisa tem de ser carregada ou limpa, o homem branco olha à sua volta, à procura de um africano que o faça na sua vez, quer o africano seja seu empregado, quer não. Em consequência deste tipo de atitude, os brancos têm tendência para considerar os africanos como uma raça à parte. Esquecem que eles têm família:
  • são capazes de emoções, que se apaixonam como qualquer branco;
  • que tal como eles desejam estar com a mulher e os filhos;
  • que querem ganhar o suficiente para garantir a subsistência da família, alimentá-la, vesti-la, mandar os filhos à escola.
E qual é o pau para toda a obra ou o trabalhador braçal que pode ter esperanças de 1á chegar?
[…]

Os africanos querem auferir um salário decente, fazer um trabalho que são capazes de fazer e não um trabalho que o governo os acha capazes de fazer. Os africanos querem poder viver ou ter um terreno no sítio onde trabalham, sem serem excluídos desta ou daquela região a pretexto de que não nasceram nela, ou obrigados a arrendar casas que nunca podem considerar suas. Os africanos querem ser integrados no conjunto da população, e não ser remetidos para guetos. Os homens não querem ser separados das suas mulheres e dos seus filhos, nem ser forçados a levar uma existência que não tem sentido, longe dos seus. As mulheres querem estar ao lado dos seus maridos, e não continuar a viver como viúvas nas Reservas. Os africanos querem ter o direito de sair depois das onze horas da noite, e não ser confinados aos seus quartos como crianças pequenas. Os africanos querem ter o direito de viajar pelo seu próprio país e procurar trabalho onde quiserem e não onde os serviços de emprego os mandam ir. Os africanos querem uma partilha justa da totalidade da Africa do Sul; querem segurança e participação na sociedade.
Acima de tudo, queremos direitos políticos iguais, porque, sem eles, as nossas desvantagens serão permanentes. Sei que tal soa revolucionário aos ouvidos dos brancos deste país, porque a maioria dos eleitores será africana. Isto faz com que o homem branco receie a democracia. Mas tal receio não deve ser impeditivo de que seja garantida a harmonia racial e a liberdade para todos. Como não deve fazer pensar que o direito de voto universal trará consigo uma qualquer supremacia racial. A discordância política, assente na questão da cor, é totalmente artificial, e quando ela desaparecer deixará de haver supremacia de uma raça sobre a outra. O ANC passou meio século a combater o racismo. A sua vitória não o levará a alterar esta política [...]»In Jack Lang, Leçon de vie pour l’avenir, Perrin 2004, Nelson Mandela, Uma Lição de Vida, Editorial Bizâncio, Lisboa, 2005, ISBN 978-972-53-0275-0.

Público e jdact
Cortesia de Bizâncio/JDACT

Nelson Mandela. Uma Lição de Vida. Jack Lang. «A luta que nos oferecia melhores perspectivas, e menores riscos de vida para ambos os lados, era a guerra de guerrilha. Decidimos, por consequência, nos nossos preparativos para o futuro, tomar providências para a hipótese da guerra de guerrilha»

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Estou disposto a morrer
Declaração de Nelson Mandela no banco dos réus, em sua defesa, na abertura do julgamento de Rivonia

Ao Tribunal Supremo de Pretória, 20 de Abril de 1964.
[…]

«(…) Evitar uma guerra civil foi o nosso lema durante muitos anos, mas quando decidimos incluir a violência na nossa política, tomámos consciência de que talvez um dia tivéssemos de a enfrentar. Tivemos de contar com ela ao estabelecer o nosso plano de acção. Precisávamos de um plano suficientemente flexível para nos permitir agir em função da evolução da situação e que, acima de tudo, considerasse a guerra civil como último e extremo recurso, deixando para o futuro a decisão. Não queríamos lançar-nos numa guerra civil, mas queríamos estar preparados para o caso de ela se tornar inevitável. Para isso dispunhamos de quatro meios: a sabotagem, a guerrilha, o terrorismo e a rebelião aberta. Optámos pelo primeiro, determinados a esgotá-lo antes de tomar outra decisão. À luz dos nossos antecedentes políticos, a nossa opção era lógica. A sabotagem excluía a perda de vidas humanas, e o futuro das relações raciais apresentava-se esperançoso. O rancor atenuava-se e, se a nossa política produzisse frutos, um governo democrático poderia um dia tornar-se realidade.
[…]

Quantas Sharpevilles iriam ainda ficar registadas na história do nosso país? E quantas Sharpevilles poderia o país ainda suportar sem trazer de regresso à ordem do dia a violência e o terror? E, uma vez transposta esta etapa, que iria acontecer ao nosso povo? Estávamos certos de que iríamos vencer, mas a que preço para nós próprios e para o país? E se 1á chegássemos, como poderiam então negros e brancos voltar a viver juntos em paz e harmonia? Eram estes os problemas com que nos víamos confrontados, e era este o nosso estado de espírito quanto às decisões a tomar. A experiência convenceu-nos de que a rebelião daria ao governo oportunidades ilimitadas para o massacre indiscriminado do nosso povo. Mas foi precisamente porque o solo da África do Sul já estava empapado com o sangue de africanos inocentes que considerámos nosso dever prepararmo-nos, a longo prazo, para usar a força, com a finalidade de nos defendermos contra a força. Se a guerra era inevitável, queríamos que a luta fosse conduzida nos termos mais favoráveis possível para o nosso povo. A luta que nos oferecia melhores perspectivas, e menores riscos de vida para ambos os lados, era a guerra de guerrilha. Decidimos, por consequência, nos nossos preparativos para o futuro, tomar providências para a hipótese da guerra de guerrilha.
[…]

O credo ideológico do ANC é, e sempre foi, o credo do nacionalismo africano. Não é o conceito do nacionalismo africano expresso no grito Empurrar o homem branco para o mar. O nacionalismo africano que o ANC representa é o conceito de liberdade e realização para o povo africano na sua própria terra. O documento político mais importante alguma vez adoptado pelo ANC e a Carta da Liberdade. Nada tem a ver com um Estado socialista. Apela à redistribuição, e não à nacionalização das terras; se prevê a nacionalização das minas, dos bancos e do monopólio industrial, é porque os grandes monopólios pertencem a uma única raça e porque, sem isso, a supremacia racial continuaria, fosse qual fosse o poder político. Seria inútil revogar as proibições impostas aos africanos pela lei do ouro quando todas as minas de ouro pertencem a companhias europeias. Neste aspecto, a política do ANC corresponde à antiga política do actual Partido Nacional que, durante muitos anos, incluiu no seu programa a nacionalização das minas de ouro, então sob a tutela de capitais estrangeiros. De acordo com a Carta da Liberdade, só uma economia baseada na empresa privada permitiria a nacionalização. A aplicação prática da Carta ofereceria novas perspectivas de uma população africana próspera constituída por todas as classes, incluindo a classe média. Nunca o ANC, em nenhum período da sua história, advogou uma mudança revolucionária na estrutura económica do país, nem jamais, que eu me lembre, condenou a sociedade capitalista». In Jack Lang, Leçon de vie pour l’avenir, Perrin 2004, Nelson Mandela, Uma Lição de Vida, Editorial Bizâncio, Lisboa, 2005, ISBN 978-972-53-0275-0.

Cortesia de Bizâncio/JDACT