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sábado, 22 de abril de 2017

Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões. Quatro Estudantes de Évora. 1589. Décio Carneiro. «Quando Francisco, bêbado espantoso, que em copo, frasco, taça é eminente, se ajuntou…»

Cortesia de wikipedia e jdact

[…]

Festas bacanais. Argumento

«(…) Fazem concílio os bêbados de porte,

opõe-se aos Bagulhentos Pedro ingente;

favorece-os o Catigela forte,

no Lamarosa tem seu lava-dente.

De inveja Lieo lhes busca a morte,

descendo a Monte-mor contra esta gente,

que vê em rio Mourinho a acção traidora,

e a Peramanca chega venceora.



XVII

De Castela se veem nessa morada

águas de duas cores deleitosas,

quando a nossa cidade está esgotada,

inda que o gesso as faz menos gostosas;

c’o licor novo espera ser tirada

a reima das entranhas sequiosas,

porque esse é o que aquenta a velha idade

desterrando a água-pé desta cidade.



XVIII

Mas em quanto com novo não me alento,

reparti com os pobres que o desejam;

ide largando dele, com intento

que seus poucos reales vossos sejam.

assim recolhereis o nosso argento,

e de todos aqueles que festejam

por tal ordem a Baco celebrado,

que costumam beber cada bocado.



XIX

Já de lá d’Alcochete caminhavam,

as formosas borrachas apertando,

e depois de vazias as largavam,

outras doutro licor melhor tomando,

de branca escuma os copos se mostravam

cobertos ao beber não lhe assoprando;

mas as águas nem doces, nem salgadas

delas vistas não foram nem provadas.



XX

Quando Francisco, bêbado espantoso,

que em copo, frasco, taça é eminente,

se ajuntou em conselho, desejoso

de dar favor a toda aquela gente.

Pisando esse caminho tão famoso

da rua das adegas prestemente,

convocados da parte do entornante

por um já n’outro tempo bom tocante».

[…]


In Décio Carneiro, Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões, Quatro Estudantes de Évora, 1589, 1880, autoria anónima, Projecto Livro Livre, livro 660, 2015, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes.


Cortesia de IbaMendes/JDACT

segunda-feira, 27 de março de 2017

Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões. Quatro Estudantes de Évora. 1589. Décio Carneiro. «Começarão a fugir d'água do poço os que em vê-la somente tem espanto, que em pagodes, merendas e jantares empinar querem só de Baco os mares»

Cortesia de wikipedia e jdact

Festas bacanais. Argumento 
«(…) Fazem concílio os bêbados de porte,

opõe-se aos Bagulhentos Pedro ingente;

favorece-os o Catigela forte,

no Lamarosa tem seu lava-dente.

De inveja Lieo lhes busca a morte,

descendo a Monte-mor contra esta gente,

que vê em rio Mourinho a acção traidora,

e a Peramanca chega venceora.


XI

Ouvi, que não vereis com vãs façanhas

fantásticas, fingidas, mentirosas,

louvar os vossos, como nas estranhas

musas, de engrandecer-se desejosas:

bebedices dos vossos são tamanhas,

que excedem as sonhadas fabulosas,

que excedem ao primeiro vinhateiro,

e a Baco inda que fora verdadeiro.


XII

Por estes vos darei um Claudio fero,

que fez a Peramanca tal serviço,

um fulano Coutinho, que de mero

b borracha para ele só cobiço.

Pois pelos doze Pares dar-vos quero

uns doze que sobre um pobre chouriço

entornaram tão rijo que de cama

um monte lhes serviu de esterco e lama.


XIII

E se a troco de Nun'alvres e Barbança

ou do Luna quereis igual memória,

vede primeiro a Pedro, cuja lança

no beber escurece qualquer glória;

e aquele que do enxame a segurança

no copo só quis ter, por ter vitória;

aquele Diogo, invicto cavaleiro,

que em quatro não é quarto, mas primeiro.


XIV

Nem deixarão meus versos esquecidos

aqueles que na sede gastadora

se fizeram no copo tão subidos,

de Lieo a bandeira vencedora:

um Daniel fortíssimo e os temidos

lacaios, por quem sei que sempre chora

da Chamusca e Louredo o vinho forte,

e outros a quem Tétis causa a morte.


XV

Em quanto a estes canto, e a vós não posso,

bom Fernando, que não me atrevo a tanto,

essa mão alargai ao vinho vosso,

dareis matéria a nunca ouvido canto.


os que em vê-la somente tem espanto,

que em pagodes, merendas e jantares

empinar querem só de Baco os mares.


XVI

Em vós os olhos tem o Mouro frio,

frio, que usar de vós lhe não é dado;

pelo contrário o bárbaro gentio

com desejo de ver-vos 'stá squentado;

Peramanca o vermelho senhorio

vos tem s'enviuvais aparelhado;

que pois em dar seus bens sois brando e tenro,

deseja de comprar-vos para genro».

[…]



In Décio Carneiro, Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões, Quatro Estudantes de Évora, 1589, 1880, autoria anónima, Projecto Livro Livre, livro 660, 2015, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes.

Cortesia de IbaMendes/JDACT

domingo, 26 de março de 2017

Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões. Quatro Estudantes de Évora. 1589. Décio Carneiro. «Vós só tendes o ramo florescente da árvore de Cibele mais amada, que nenhuma nascida em Benavente ou pelo rio abaixo até Almada»

Cortesia de wikipedia e jdact

Festas bacanais. Argumento
«(…) Fazem concílio os bêbados de porte,
opõe-se aos Bagulhentos Pedro ingente;

favorece-os o Catigela forte,

no Lamarosa tem seu lava-dente.

De inveja Lieo lhes busca a morte,

descendo a Monte-mor contra esta gente,

que vê em rio Mourinho a acção traidora,

e a Peramanca chega venceora.



I

Borrachas, borrachões assinalados,

que de Alcochete junto a Vila Franca,

por mares nunca dantes navegados

passaram inda além de Peramanca:

em pagodes, e ceias esforçados,

mais do que se permite a gente branca,

em Évora cidade se alojaram,

onde pipas e quartos despejaram:



II

também as bebedices mui famosas

daqueles que andaram esgotando

o império de Baco, e as saborosas

águas do bom Louredo devastando;

e os que por bebedices valerosas

se vão das leis do reino libertando;

cantando espalharei por toda a parte,

se a tanto me ajudar Baco, e não Marte.



III

Cessem do Novelão, do gran Barbança

as grandes bebedices que fizeram;

cale-se do Rangel e do Carrança

a multidão dos vinhos que beberam,

que eu canto d'outra gente e doutra lança,

a quem frascos de vinho obedeceram:

cesse tudo o que a musa antiga canta,

que outro beber mais alto se alevanta.



IV

E vós, bacanais ninfas, pois criado

em mim tendes a sede tão ardente,

se sempre em largo copo espraiado

festejei vosso vinho alegremente,

dai-me agora um bom papo despejado

para beber à perda co'esta gente,

porque de vossas águas Baco ordene

um rio para bêbados perene.



V

Dai-me uma vasilha mui cheirosa,

seja de bom licor, não saiba a arruda,

de Peramanca seja que é gostosa,

o peito esforça, a cor ao gesto muda;

dai-me igual nome às taças da famosa

gente vossa que Baco tanto ajuda;

que se espalhe, e se cante no universo,

se tanta bebedice cabe em verso.



VI

E vós, Fernan Gonçalves, segurança

das festas de Lieo em esta idade,

podeis atravessar com confiança

quantas adegas há nesta cidade:

vós, mano, nosso amor, nossa esperança,

a quem só prometemos lealdade,

pois Baco a nós vos deu por cousa grande,

seja a medida assim de quem a mande.



VII


da árvore de Cibele mais amada,

que nenhuma nascida em Benavente

ou pelo rio abaixo até Almada.

Vede-o nas toalhas, que presente

vos mostra a bebedice já passada,

nas quais vivas lembranças vos deixou

o que de vinho mais se carregou.



VIII

Vós, alto taverneiro, cujo império

o bêbado em se erguendo vê primeiro,

ou beba neste nosso hemisfério,

ou beba lá nesse outro derradeiro:

e nem por isso sente vitupério

o fidalgo, o estudante, o cavaleiro,

antes o Turco, o Mouro, e o Gentio

lhes pesa não beber do vosso rio:



IX

inclinai por um pouco a majestade,

que no azamboado rosto vos contemplo,

quando fordes c'os mais desta cidade

ofertar-vos a Baco no seu templo:

os olhos da real bebecidade

ponde no borrachão, vereis exemplo

de amor de vossos vinhos saborosos

por bêbados louvados espantosos.



X

Então vereis se sois bem conhecido

de todos os amigos de Falerno;

que não é pouco ser obedecido

no estio, primavera, outono, inverno:

ouvi, vereis o nome engrandecido

daqueles de quem sois senhor superno;

e julgareis qual é mais excelente

se ser do mundo rei, se de tal gente».

[…]



In Décio Carneiro, Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões, Quatro Estudantes de Évora, 1589, 1880, autoria anónima, Projecto Livro Livre, livro 660, 2015, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes.

Cortesia de IbaMendes/JDACT

sábado, 25 de março de 2017

Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões. Quatro Estudantes de Évora. 1589. Décio Carneiro. «Depois, como se divulgou, cada um a quis emendar como entendia, donde vem andarem hoje as cópias com tanta diversidade de leituras»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) As únicas notícias biográficas que dele sabemos, são as apontadas por Toscano na sua notícia. O quarto dos teólogos, e ao que parece o mais teólogo de todos, foi o pobre Luiz Mendes Vasconcelos, cujo ronceiro estro só lhe pôde inspirar um único verso. Não se confunda este obscuro indivíduo com o autor do Sítio de Lisboa e da Arte militar, suposto fossem contemporâneos. Um dedicou-se à Igreja, o outro às armas. Esta paródia chegou a alcançar certa celebridade, ainda que até agora nunca fosse impressa. Eis-aqui o que dela diz Faria Souza, falando de outra de um soneto de Garcilasso, atribuída a Camões: lo que mi poeta hizo conquel soneto de Garcilasso, pasándose de tanta gravedad a tanta picardia, hizo otro ingenio Português con el canto 1º de su Lusiada, intitulándole Borrachera; porque celebra en él à algunos aficionados del vino; y las mas de las otavas son bueltas à este propósito con gran felicidad. E depois de dar como amostra os quatros primeiros versos da 1ª oitava, prossegue: el canto 2º continuó (y no con menos felicidad) António Magallanes Menezes, señor de la Ponte da Barca, que este ano de 1645, aqui en Madrid, me referió algunas estânsias. Yo, quando en mi mocedad atendia à esto, bolvi tambien algunas, de que se me acuerdan los primeros quatro versos de la 90 del canto 5º, que son:

Da boca de facundo capitão, &c.
Y mi rebuelta dice deste modo:
da boca do fecundo borrachão
pendendo estavam todos bem bebidos,
quando deu fim a grande inundação
dos altos copos grandes e subidos!
In Coment. às Rim. Tom. 1º.

Festas bacanais: Conversão do primeiro canto dos lusíadas do grande Luiz de Camões, vertidos do humano em o de-vinho por uns caprichosos autores: S. O. Dr. Manoel Vale, Bartolomeu Varela, Luiz Mendes Vasconcelos, e o licenciado Manoel Luiz, no ano de 1589.

Notícia
Esta obra da conversão do primeiro canto do poema de Luiz de Camões se fez no ano de 1589, para a qual concorreram quatro pessoas, a saber: o Dr. Manoel Vale, deputado da Santa Inquisição (maldita), que compôs o livro dos Ensalmos em latim, que agora imprimiu: outro foi Bartolomeu Varela, natural de Viana, junto a Évora, o qual faleceu, que era irmão de Diogo Pereira, que foi este ano às Cortes, que el-rei Filipe II fez em Lisboa, por Procurador desta cidade de Évora. Foi Bartolomeu Varela clérigo e grandíssimo poeta. O terceiro foi Luiz Mendes Vasconcelos, criado do arcebispo Teotónio; o qual posto que não era poeta, se achou ao fazer da obra; e só fez um verso, que é o último da oitava 17; porque estando eles suspensos no cuidado de completarem a dita oitava e parados no verso que diz:

Porque este é o que aguenta a velha idade, acudiu o dito Luiz Mendes, concluindo:

Desterrando a água-pé desta cidade.

O quarto e principal autor foi o licenciado Manoel Luiz, Bacharel; e este ano de 1619 vive com o Priorado de Terena. Este foi o promovedor desta obra, e a fez quase toda, ou o melhor dela. Quando a fizeram eram então todos teólogos; e às tardes, acabado o estudo, saíam pela porta de Machede, e assentados num ferrageal, iam traduzindo para a bebedice as tais oitavas de Camões, fingindo uma embarcação de Lisboa para Évora, como Camões a de Portugal para a Índia Oriental; e compuserem a tal obra dentro de dois meses, no cabo dos quais saíram com ela: sendo que já os estudantes suspeitavam de alguma aplicação (posto que não soubessem de certo o que era) pelos verem ir todas as tardes para fora dos muros, e comunicarem os seus papéis, sem darem conta disso a ninguém.
Finalmente, saída a obra, foi muito festejada e estimada de todos; e lendo-a o padre Ferrer, castelhano (varão doutíssimo da Companhia, do qual o Dr. Manoel Vale traz uma carta no seu livro) e falando-se nela, costumava dizer, que era a melhor obra que nunca saíra nem ele vira, se não fosse tão suja. Depois, como se divulgou, cada um a quis emendar como entendia, donde vem andarem hoje as cópias com tanta diversidade de leituras. Porém eu, esta que aqui vai, a trasladei do próprio original e letra de Bartolomeu Varela, que está em poder do Chantre da Sé desta cidade, Manoel Severim Faria, que a houve do dito Varela, e lhe fiz algumas cotas para inteligência da obra. Isto me parece basta para se saber o como esta obra se fez. E eu Francisco Soares Toscano o fiz aos 10 de Janeiro de 1619». In Décio Carneiro, Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões, Quatro Estudantes de Évora, 1589, 1880, autoria anónima, Projecto Livro Livre, livro 660, 2015, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes.

Cortesia de IbaMendes/JDACT

Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões. Quatro Estudantes de Évora. 1589. Décio Carneiro. «Dois meses durava aquela sessão extraordinária; e já tão continuados passeios davam que falar aos estudantes…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«As honras da paródia só às obras do génio costumam conceder-se. A divina Ilíada foi parodiada num poema herói-cómico tão antigo, que geralmente se atribui ao próprio Homero; ainda que Suidas lhe dá por autor a Pigres, irmão da Rainha Artemisa. Nesse poema, intitulado a Batrachomiomachia, a terrível luta dos Gregos e Troianos é reproduzida no maravilhoso combate dos ratos e das rãs. Esta coroa burlesca ainda faltava ao rival de Homero, quando o poeta Scarron primeiro marido da famigerada Marquesa de Maintenon, se lembrou de cantar:

… cet home pieux,
Qui vint chargé de tous se Dieux
Et de Monsieur son père Anchise,
Beau vieilard à la barbe grise, etc.

A grande obra do único homem de génio que talvez tenha produzido a nossa terra, não podia isentar-se deste fado inerente às grandes celebridades. Eram apenas passados dezoito anos depois da publicação dos Lusíadas ainda a reputação de Camões não estava consagrada pelos séculos, quando alguns homens engenhosos compreenderam que aquela obra imortal era uma daquelas a que a paródia era devida. O resultado de seus trabalhos não é de certo para comparar com nenhuma das espirituosas produções que ficam mencionadas; mas ainda assim não é esta inteiramente destituída de merecimento. Francisco Soares Toscano, bem conhecido dos literatos pelo seu Paralelo de Príncipes, escreveu uma interessante notícia sobre esta obra, em que nos conta o curioso modo por que ela foi composta. Quatro estudantes da Universidade de Évora costumavam sair a passear, às tardes, aos arrabaldes da cidade, levando consigo os Lusíadas. Chegados a um verde ferrageal, sentavam-se a uma fresca sombra, e se abria a sessão parodiadora. Assim como a engelhada e disforme máscara de uma velha megera cobre o rosto radiante de formosura de uma elegante Coquete, para mais fazer realçar seus encantos, quando deixe cair aquele hediondo disfarce; assim o imortal poema devia ser desfigurado por aqueles travessos estudantes. Os Gamas, Castros e Albuquerques tinham de ceder o seu lugar aos Catigelas, Lunas e Barbanças, barões sem dúvida tão assinalados nos combates de Baco como ess’outros nos de Marte.
Dois meses durava aquela sessão extraordinária; e já tão continuados passeios davam que falar aos estudantes e também dariam que entender à Santa Inquisição (maldita) de Évora, se aquela sociedade secreta não fosse composta, como de facto o era, de quatro teólogos, e tão ortodoxos, que um deles veio a ser inquisidor geral. Mas por fim apareceu a misteriosa obra dos quatro patuscos, como hoje lhe chamaria um académico, e não sei se já então lhe chamavam. A este modo de composição de sociedade e às muitas emendas que depois sofreu dos curiosos, como adverte Toscano, se deve talvez a confusão do enredo deste poema. Parece que os seus colaboradores tinham principalmente em vista inverter ao de-vinho cada verso que entrava em discussão, sem atender à coerência do todo. É provável que se propusessem a celebrar os mais famosos bebedores Évorenses, aos quais aludissem, e talvez nomeassem por seus próprios nomes ou apelidos. Toscano, que os devia conhecer, assim o indica quando diz que tinha feito várias cotas a esta paródia para melhor se entender. Com efeito na est. XXX se faz menção de um Pero Vaz, que provavelmente é o mesmo cristão-novo, bêbado perdido, autor do epigrama latino de que fala a notícia. Infelizmente para a história da Borracheologia Lusitana, cotas e epigrama tudo se perdeu.
Os colaboradores desta inocente profanação literária não são inteiramente desconhecidos. Manoel do Vale de Moura, natural de Arraiolos no Alentejo, doutorou-se em Teologia na Universidade de Évora, e chegou a ser arcebispo desta diocese e inquisidor geral. Contava vinte e cinco anos quando concorria para esta composição, e chegou a uma avançada idade. Além da obra De Encantationibus et Ensalmis, de que fala Toscano, e outras de não menor utilidade, Barboza o faz autor de uma Ilustração à primeira Ode de Camões. De certo não fez pouco Sua Reverendíssima se conseguiu lançar alguma luz sobre aquele confuso ou estropiado poema. Nem Bartolomeu Varela, nem o licenciado Manoel Luiz, tiveram a honra de encher as colunas da Biblioteca Lusitana; mas João Batista Castro de ambos faz menção no seu Mapa de Portugal. Não é contudo a Varela, como ele pensa, que cabem os louvores que lhe dá por esta composição burlesca. Manoel Luiz Freire, que assim lhe chama um padre Francisco Cruz, citado por Castro, se deve ter como o principal e mais chistoso colaborador desta obra». In Décio Carneiro, Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões, Quatro Estudantes de Évora, 1589, 1880, autoria anónima, Projecto Livro Livre, livro 660, 2015, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes.

Cortesia de IbaMendes/JDACT