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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O Manuscrito do Imperador. Valeria Montaldi. «Observe, meu senhor, disse, estendendo a mão para aflorar dois símbolos, tanto Plutão quanto Júpiter não fazem senão confirmar o vaticínio: rivalidade, perigo e talvez... Hesitou»

Cortesia de wikipedia e jdact

… destas cidades restará o vento que as atravessa… In Bertolt Brecht

Parma. 1248
«(…) Os Apuanos erguiam-se imponentes diante dele. Os cimos estavam cobertos por nuvens espessas, cinzentas como chumbo: impelidas por um vento gélido, iam se deslocando para leste. Do oeste, outra frente de nuvens, ainda baixa no horizonte, avançava lentamente para a costa. Voltou-se para o mar: à distância, a água parada dos paludes se misturava com a ressaca. No porto quase deserto, um único navio estava fundeado, e quatro barcos de pescadores ondulavam junto à margem. Uma rajada de vento o acometeu, levantando um redemoinho de poeira que o cegou. Frederico esfregou os olhos irritados e entrou de volta na tenda.

Marca Trevigiana. Março de 1249. Castelo de Solagna
Os reflexos da tocha dançavam nas paredes da sala, atenuando-se pouco a pouco na leve luminosidade dos primeiros clarões da alvorada. Sobre o piso de carvalho, estendia-se uma grande folha de papel de cânhamo na qual estava traçado um círculo dividido em 12 gomos: ligados por linhas intricadas como os fios de uma teia de aranha mal-sucedida, os signos zodiacais tinham sido desenhados na borda externa da circunferência. Paulo Bagdá observava-os em silêncio. As mãos morenas, afuseladas como as de um alaudista, afundavam-se no regaço, entre as dobras da veste. Os pés, calçados com preciosas babuchas de seda, despontavam sob as pernas cruzadas. Agachado diante dele, Ezzelino o fitava, impaciente. E então, impacientou-se, levantando-se de chofre, ainda falta muito para termos um vaticínio? O sarraceno ergueu os olhos. Meus lábios ainda não estão prontos para pronunciar o oráculo que está se formando na minha mente, senhor, respondeu, severo.
Intimidado a contragosto, Ezzelino o encarou e se acocorou de novo no chão. Com um suspiro, o astrólogo voltou a examinar a disposição dos planetas. Bem, começou, está vendo aqui a posição de Saturno e de Neptuno? Ambos lhe são hostis e pressagiam incerteza e acções que poderiam ser chamadas de irreflectidas. Por outro lado, Marte e Urano pareceriam propícios, desde que seja exercida a virtude da prudência. Oh, bem sei que, continuou, levantando a mão para parar a réplica irritada que estava prestes a sair dos lábios do seu patrão, depois que a sua decisão está tomada, o senhor não gosta de protelar, mas neste caso é necessário reflectir mais sobre o que fazer. Embora eu ignore o objecto da busca para a qual solicitou o meu parecer, posso dizer que os trânsitos que estão à sua frente falam claro. Até agora, uma indubitável competência lhe permitiu superar facilmente as adversidades, sua habilidade em alcançar os objectivos que estabeleceu está fora de discussão, o domínio sobre as situações mais arriscadas lhe pertence por instinto, mas de agora em diante o senhor deve prestar mais atenção.
Aqui, lê-se que está tomado por uma ilusão e que desejos incontrolados poderiam guiar as suas acções. Observe, meu senhor, disse, estendendo a mão para aflorar dois símbolos, tanto Plutão quanto Júpiter não fazem senão confirmar o vaticínio: rivalidade, perigo e talvez... Hesitou. Talvez ruína. Incrédulo, Ezzelino fitou o astrólogo. O sarraceno sustentou o olhar dele em silêncio. Depois recolheu a folha e enrolou-a. Pode ir, agora, disse Ezzelino, com voz incolor. Se eu ainda precisar de você, mandarei chamá-lo. Paulo Bagdá levantou-se, inclinou a cabeça numa saudação deferente e saiu. Ezzelino deu alguns passos inquietos pela sala. Chegou à janela, subiu o degrau escavado na chanfradura e olhou para fora. Logo abaixo dos muros do castelo fluía o Brenta: sombreadas pelas árvores, as duas margens estavam cobertas de seixos, e a corrente do rio, já cheia, reluzia aos raios oblíquos do sol ainda baixo no horizonte». In Valeria Montaldi, O Manuscrito do Imperador, 2008, Grupo Editorial Record, 2011, ISBN 978-850-108-703-4.

Cortesia de GERecord/JDACT

sábado, 21 de setembro de 2019

O Manuscrito do Imperador. Valeria Montaldi. «Estava seguro de ter feito a coisa certa: a fidelidade de Ezzelino era indiscutível, assim como a sua aversão ao papa. Um arrepio percorreu a espinha do imperador: aquele idiota arrogante!»

Cortesia de wikipedia e jdact

… destas cidades restarão o vento que as atravessa… In Bertolt Brecht

Parma. 1248
«(…) Depois de mandar matar o armeiro, Ezzelino começou a procurar o negociante. Os seus espiões haviam referido que, com toda a probabilidade, o homem se refugiara em Milão, onde mantinha comércio junto com um parente. Num primeiro momento, Frederico pensou em enviar um dos seus sicários para capturá-lo, mas depois mudou de ideia: aquela cidade, desde sempre inexpugnável, já lhe criara problemas demais. Seria melhor não divulgar a notícia da descoberta, e o vicário imperial era a pessoa mais adequada para manter a necessária discrição sobre toda a coisa. Além disso, para um homem que se rodeava de músicos e poetas e que gostava de conservar volumes raros e preciosos na sua biblioteca, seria uma honra executar aquela tarefa delicada em favor do imperador. Este ainda recordava a requintada feitura do afresco que Ezzelino mandara pintar no palácio de Bassano. Ao vê-lo, não conseguira evitar perguntar-se como era possível que na alma de um tirano tão feroz se alojasse tão grande sensibilidade para as artes liberais. Espantara-se naquele momento, mas agora aquela familiaridade com pintores e miniaturistas lhe seria útil: uma vez que tivesse nas mãos o tratado, Ezzelino seguramente encontraria alguém capaz de verificar se se tratava do original. De facto, pelo que Frederico sabia, nos nove meses passados após o furto os pergaminhos podiam ter sido copiados.
Estava seguro de ter feito a coisa certa: a fidelidade de Ezzelino era indiscutível, assim como a sua aversão ao papa. Um arrepio percorreu a espinha do imperador: aquele idiota arrogante! Se viesse a saber do manuscrito, Inocêncio IV lhe lançaria uma nova excomunhão: podia apostar que aquelas linhas usadas para ilustrar a vida das aves de rapina o irritariam profundamente. Como poderia o pontífice, que como todos os seus predecessores atribuía qualquer acidente natural à vontade divina, compreender a importância da observação científica? O que sabia dos precedentes tratados redigidos por estudiosos árabes sobre aquela matéria fascinante? Como podia imaginar a alegria do falcoeiro ao criar o pintainho até vê-lo tornar-se um falcão majestoso, capaz de voar milhas e depois voltar ao punho do seu dono com a presa ainda intacta no bico? Não, Inocêncio jamais compreenderia.
Havia anos, mandava fechar as escolas que ele, Frederico, tinha aberto, fazia perseguir por heresia médicos, astrólogos, homens de letras, repetia que era a Igreja quem tinha o primado sobre a ciência, como se esta última fosse uma sórdida forja geradora de demónios! Mas por que, meu Deus, aqueles malditos padres eram tão intolerantes com quem pretendesse usar a razão para explicar os fenómenos naturais? Por acaso era a vontade divina que os fazia comer, beber, arrotar, urinar, defecar? Levantou-se num salto. Sou eu o único rei!, gritou para a tenda vazia. Fui eu a ser consagrado com ceptro, anel e coroa, sou eu o ungido do Senhor, e não aquele maldito! Foi Deus quem me concedeu o privilégio do comando e eu o exercerei até ao meu último suspiro, com fé e razão! Pressionou com força as mãos sobre a escrivaninha: a raiva o fazia tremer. Respirou profundamente, até que o tremor cessou. Em seguida, em longos passos, saiu para a esplanada onde estava montado o acampamento». In Valeria Montaldi, O Manuscrito do Imperador, 2008, Grupo Editorial Record, 2011, ISBN 978-850-108-703-4.

Cortesia de GERecord/JDACT

O Manuscrito do Imperador. Valeria Montaldi. «... portanto, esta é a minha ordem. Exijo que seja cumprida com a máxima urgência. Se, para recuperar o manuscrito…»

Cortesia de wikipedia e jdact

… destas cidades restarão o vento que as atravessa… In Bertolt Brecht

Parma. 1248
«(…) Um só castiçal de dois bocais estava pousado no centro da mesa. À luz das velas, os dourados arabescos pintados sobre o pergaminho brilhavam: Guidotto dal Canale aflorou-os com as pontas dos dedos e aquele contacto áspero lhe proporcionou um arrepio ao longo do dorso. Levantou-se, fechou o livro, prendendo as páginas com as tiras de linho que pendiam da costura, e, com grande cautela, recolocou-o na sacola de couro. Enquanto se aproximava do cofre onde o esconderia, começou a reflectir sobre a viagem que o esperava. Partiria para Milão, onde o seu primo Ghiberto tinha os conhecimentos certos para aconselhá-lo quanto à venda daqueles pergaminhos. Não havendo saído nunca da cidade, certamente o ajudaria a escolher a pessoa mais adequada a quem oferecer a compra, ao passo que ele, bloqueado havia mais de um ano ali em Parma por aquele maldito cerco, corria o risco de cometer erros de avaliação. O facto de ter estado por tanto tempo ausente da praça de Milão iria impedi-lo de sopesar com a devida prudência os efeitos produzidos na sua clientela habitual pelas recentes mudanças ocorridas na gestão da comuna. Ele sabia que muitos aristocratas, expulsos da cidade, haviam-se refugiado nas suas propriedades rurais e que outros, acusados de tomar o partido do imperador, tinham sido até mortos.
Dizia-se também que algumas famílias, desde sempre gibelinas, por puro cálculo político tinham preferido aderir à facção oposta. O que ele sabia quanto a quem tinha trocado de bandeira? E se, incautamente, propusesse o manuscrito de Frederico justamente a nobres guelfos? Com toda a probabilidade, em poucas horas penderia de uma forca erguida sobre uma carroça em praça pública... Não, devia pedir a orientação de Ghiberto, não havia dúvida. Depois o recompensaria lautamente pelos serviços, dando-lhe um quinto da soma recebida do comprador. O dinheiro pago ao armeiro não era nada diante do que ele esperava obter com a venda do manuscrito. Embora aquele campónio ignorante, mais do que satisfeito com o saquinho de moedas que havia recebido, tivesse prometido manter silêncio sobre a história do furto, parecia-lhe melhor apressar a partida. A excitação que percorria a cidade após o saque do acampamento não garantiria nenhuma discrição. Os cidadãos, que haviam conseguido roubar até a coroa imperial e a tinham levado à catedral como um troféu, não faziam outra coisa além de beber e farrear nas estalagens. E se depois de uma carraspana o armeiro saísse contando haver roubado o livro do imperador e tê-lo entregado justamente a ele? Estava perdendo tempo, não era hora de ruminar pensamentos. Às pressas, repôs a sacola de couro no cofre, fechou-o e guardou a chave na escarcela que trazia pendurada no cinto. Partiria ao alvorecer do dia seguinte.

Novembro de 1248. Acampamento Imperial
... portanto, esta é a minha ordem. Exijo que seja cumprida com a máxima urgência. Se, para recuperar o manuscrito, for necessária a violência, não hesite em usá-la, mas saiba desde já que tudo o que fizer deverá permanecer secreto. Certamente não preciso sugerir-lhe os métodos com os quais deve levar a termo esta operação. Como sempre, o senhor tem minha confiança incondicional. O favor que me prestará, devolvendo-me a posse do tratado, será recompensado adequadamente, em dinheiro e benefícios.
Frederico releu a carta e, depois de acrescentar-lhe a sua assinatura e o sinete imperial, confiou-a ao secretário, que aguardava do lado oposto da tenda. Este despacho tem de partir imediatamente, ordenou. Ezzelino deve recebê-lo dentro de uma semana. O homem assentiu e desapareceu lá fora. Frederico voltou à escrivaninha e sentou-se. Apesar da beberagem preparada pelo médico da corte, a dor nos rins ainda o atormentava. Esticou as pernas, tentando dar alívio aos músculos da coluna. Entrelaçou os dedos e começou a reflectir. Fora uma sorte que Ezzelino tivesse participado com ele da reconquista de Parma, porque os seus métodos expeditos haviam desatado a língua de muitas pessoas. Uma delas apontou o armeiro como o autor do furto do manuscrito: o homem foi posto imediatamente sob tortura. Aquele idiota, que ainda esperava salvar a vida, contou tudo, sem ocultar sequer o nome do negociante de arte a quem o entregara, um certo Guidotto dal Canale». In Valeria Montaldi, O Manuscrito do Imperador, 2008, Grupo Editorial Record, 2011, ISBN 978-850-108-703-4.

Cortesia de GERecord/JDACT

sábado, 10 de agosto de 2019

O Senhor do Falcão. Valeria Montaldi. «As mãos tremiam-lhe. Depois dos encontros com Lanfranco, e se bem que já tivessem passado quase vinte anos e o seu rosto de rapariguinha assumisse agora as feições da mulher madura…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Milão. 1243
«(…) Ele, por seu lado, deveria, pelo contrário, continuar a manter respeitosas relações de colaboração com os inquisidores, para não incorrer na ira do arcebispo, de cuja benévola protecção até San Simpliciano teria tido necessidade. Um vento imprevisto, soprando entre as arcadas que conduziam ao Broletto, trouxe ao nariz de Matthew um cheiro intenso: provinha da Porta Oriental, onde estava em plena actividade o mercado do peixe. Sorrindo para consigo com a ideia de que aquele fedor chegava, de vez em quando, até às próprias sagradas naves da vizinha Basílica Maggiore, o frade prosseguiu para a sua meta. Saído do Broletto, encaminhou-se por entre as ruelas que iriam conduzi-lo ao Mosteiro de Santa Maria al Lentasio.
Bella vestiu-se à pressa. O cheiro adocicado do homem que há pouco estivera com ela na cama ainda impregnava o ar: nem a estreita porta que se abria ao fundo do quarto e que dava para o quintal que ficava nas traseiras conseguia suavizar o calor sufocante daquele primeiro aceno do Verão. Depois de ter ajeitado a cama, a rapariga sentou-se no banco e virou, sobre a mesa, o pequeno porta-moedas. Limpando a testa suada, contou o dinheiro, atentamente, empilhando as moedas umas sobre as outras; quando se certificou de ter calculado com precisão o que ganhara naquele dia, arrumou as moedas num saquinho de couro, apertando com força os cordões que o fechavam. Depois, lançando um olhar furtivo para a porta, para se assegurar de que ninguém a via, escondeu-o numa fenda da parede, bem tapada pela cabeceira da armação de madeira onde se apoiava o enxergão.
As mãos tremiam-lhe. Depois dos encontros com Lanfranco, e se bem que já tivessem passado quase vinte anos e o seu rosto de rapariguinha assumisse agora as feições da mulher madura, marcada, ainda por cima, pelo sofrimento, o medo de que ele a reconhecesse assaltava-a sempre. Aquela profissão, que exercia por necessidade, havia-lhe transformado a alma, além do corpo. Bella sabia ter-se tornado, mesmo fisicamente, uma outra pessoa: e, no entanto, de todas as vezes, os olhos duros daquele homem observavam-na, estudavam-na como que à procura da resposta para uma dúvida que tivesse podido provocar uma suspeita ou, Santo Deus, uma certeza. Sempre se perguntara por que tortuosa razão do destino Lanfranco a teria eleito, logo a ela, entre tantas prostitutas da cidade, para a habitual suavização dos seus vigorosos apetites que, apesar da sua idade já não muito jovem, ainda nutria. Mesmo que as suas visitas não se sujeitassem a uma cadência fixa, já tinham passado mais de quatro anos desde a primeira vez que, tendo-a encontrado nas proximidades do Broletto à espera de clientes, o homem a abordara. Fixando-a com curiosidade crescente, perguntara-lhe o nome. Bella, respondera-lhe. Bela e mais?, insistira ele num tom inquisitório.
Bella e basta, senhor, replicara com dureza, enquanto os seus olhos desafiavam os do seu interlocutor. Ele não lhe perguntara mais nada e acompanhara-a até à sua casinha, entalada, entre muitas outras, ali mesmo a seguir às muralhas, passada a Porta Romana. De repente, não o reconhecera. Também o seu rosto mostrava as marcas dos anos: as faces estavam mais cheias, o que lhe conferia uma expressão tranquila, desmentida, todavia, pelos frequentes lampejos de crueldade no olhar. Fora exactamente um desses olhares, lançados no acto do pagamento de uma das suas prestações, que lhe fizera finalmente compreender o que lhe recordava aquele homem. E com as lembranças viera também o medo, transformado em terror quando, por ocasião de um dos encontros, acabara por dizer o nome da sua família. Desde então vivera com uma inquietação crescente, com uma angústia constante de que, mais tarde ou mais cedo, também ele se iria lembrar: todavia, não fora possível evitar a companhia, que, pelo contrário, se tinha convertido num opressivo hábito. Lanfranco Calgario fora o assassino de Caterina, a sua patroa. Dezassete anos antes, Bella não passava de uma novíssima criada da casa Gisalbertini, em Calepio. Quando, dois anos depois da morte da mãe, Caterina se encantara pelo jovem e interessante sobrinho-neto do arcebispo de Milão, que era frequentador assíduo do palácio da família, ela já servia como sua criada particular. Tinha seguido com apreensão o desenrolar daquela história, temendo possíveis futuras consequências, que, de facto, se tinham verificado. O pai de Caterina, prostrado com o desaparecimento da mulher, adoecera e, ao cabo de seis meses, morrera. A jovem encontrava-se sozinha: o irmão Gerardo partira um ano antes para Lomellina, no séquito de uma expedição contra os habitantes de Pavia e nunca mais voltara». In Valeria Montaldi, O senhor do Falcão, 2003, Casa das Letras/Editorial Notícias, 2005, ISBN 978-972-461-618-6.

Cortesia de CdasLetras/Editorial Notícias/JDACT

O Manuscrito do Imperador. Valeria Montaldi. «De repente, um coro raivoso de rugidos encheu o ar. O armeiro voltou-se. Alguém havia ateado fogo à palha que recobria o terreno do cercado de animais…»

Cortesia de wikipedia e jdact

… destas cidades restará o vento que as atravessa… In Bertolt Brecht

Parma. 1248
«(…) Levantou-se e prosseguiu com mais cuidado, observando atentamente aquela fartura de equipamentos de guerra. As espadas do exército imperial, forjadas na Alemanha, eram famosas como as mais resistentes da Europa, e uma daquelas armas lhe seria vantajosa: se a revendesse na sua oficina, poderia obter um lucro notável. Avançou mais. Estendido numa saliência do terreno jazia o cadáver decapitado de um homem. O elmo, do qual se projetavam ossos e cartilagens sanguinolentas, havia rolado até um pouco adiante. O armeiro se aproximou e, com gestos experientes, desatou as tiras de couro do fecho. O elmo se abriu e a cabeça cortada deslizou para fora, caindo no chão com um baque surdo. Sem dar importância a isso, o armeiro avaliou a consistência do capacete, girou-o entre as mãos e examinou-o por todos os lados. Era de feitura caprichada e apresentava apenas uma pequena mossa: à excepção de uma longa estria de sangue que lhe percorria a base, toda a superfície do metal brilhava como prata polida. Segurando-o em baixo do braço dobrado, voltou para perto do cadáver. Do cinto que apertava a cota de malhas de ferro pendia a bainha vazia, e a mão do morto ainda segurava a espada. O armeiro a extraiu à força daqueles dedos enrijecidos e levantou-a: era pesada, e a lâmina, coberta de sangue seco, terminava em ponta arredondada. Observando-a melhor, ele notou que, em relevo sobre a empunhadura, corria um friso com motivos de folhas, em cujo interior estava gravado hoffnung: embora não fizesse ideia sobre o que podia significar aquela palavra, bem sabia que muitas vezes os cavaleiros a serviço do imperador mandavam gravar nas suas armas as insígnias da própria linhagem. Se o corpo daquele combatente tivesse pertencido a um aristocrata, como ele supunha, em algum lugar devia se encontrar também um escudo igualmente precioso.
Apertando ao peito o elmo e a espada, o armeiro voltou-se e recuou alguns passos: ali, a poucos pés de distância, abandonado sobre o terreno ensanguentado e semicoberto pelas placas de ferro da armadura de outro soldado abatido, encontrou-o. Inclinou-se para examiná-lo: uma cruz de bronze trabalhada em repuxado ocupava toda a parte central, enquanto nas bordas estava cinzelada a ouro a mesma palavra que ornava o punho da espada recém-roubada. Já certo de ter encontrado o seu butim, meteu a mão livre sob o escudo, agarrou as correias e, usando a espada como alavanca, começou a puxá-lo para si. A armadura que revestia o morto era pesada e o armeiro, embora tivesse músculos robustecidos por anos de trabalho, só conseguiu extrair o clípeo na quinta tentativa. Levantou-o e, pendurando-o às costas, caminhou rumo à saída do acampamento. Estava satisfeito. A venda daquelas três peças, depois de limpas e devidamente polidas, iria proporcionar-lhe uma bela soma, a qual, acrescida ao prémio prometido por quem o encarregara do furto, poderia garantir-lhe um pequeno capital, justamente aquele de que necessitava para retomar sua actividade, que aqueles longos meses de assédio haviam arruinado.
Tinha quase chegado à porta sul do acampamento quando a sua atenção foi atraída por uma aglomeração de pessoas, da qual provinham gritos e gargalhadas espalhafatosas. Aproximou-se.
No centro do grupo que o circundava, um homem estava encolhido sobre um rudimentar assento de palha. As mangas de tecido azul do seu manto estavam arregaçadas até aos ombros e revelavam um precioso forro de peliça. Os braços nus, abandonados ao longo dos flancos, pendiam inertes sobre o terreno e gotejavam sangue. As mãos, amputadas à altura dos pulsos, jaziam aos seus pés. O rosto do homem estava cinzento e os olhos aterrorizados corriam de um a outro dos seus algozes: a mandíbula, despencada como a de um cadáver, escancarava-lhe a boca numa careta obtusa. E agora, Taddeo? Sem mãos, como fará para escrever ainda os documentos do seu patrão? As palavras zombeteiras saídas da boca do popular que as pronunciara foram seguidas por outras risadas e por uma chuva de cusparadas. O prisioneiro se prostrou e desmaiou. Oh, gente, será que já morreu, hem?!, perguntou, preocupada, uma voz feminina. Claro que não, não vê que está respirando?, respondeu alguém ao lado dela. Mas é melhor que o levemos logo para a cidade: todos devem vê-lo, antes que estique as canelas!
Depois de embrulhá-lo no próprio manto, colocaram-no sobre uma carroça: uma mulher recolheu do solo as mãos amputadas e jogou-as sobre o corpo. Depois, enquanto o homem mais robusto do grupo empurrava o veículo, todos juntos se encaminharam para a saída do campo. O armeiro os seguiu. Um esgar satisfeito lhe estirava os lábios. Quando, na véspera, haviam tomado a decisão de tentar o assalto ao acampamento que Frederico chamara pomposamente de Vitória, ninguém em Parma poderia esperar tão grande sucesso: dezenas de soldados mortos, grande número de prisioneiros e até a captura de Taddeo Sessa, um dos mais influentes conselheiros do imperador. E para ele, além disso, aquele butim inesperado, que finalmente o enriqueceria... De repente, um coro raivoso de rugidos encheu o ar. O armeiro voltou-se. Alguém havia ateado fogo à palha que recobria o terreno do cercado de animais e as chamas começavam a subir, tão altas que podiam ser vistas até de longe. Considerando que nem mesmo aquelas feras inúteis se salvariam, ele apressou o passo rumo ao fosso que separava a área do campo e os muros da cidade». In Valeria Montaldi, O Manuscrito do Imperador, 2008, Grupo Editorial Record, 2011, ISBN 978-850-108-703-4.

Cortesia de GERecord/JDACT

quarta-feira, 10 de julho de 2019

O Manuscrito do Imperador. Valeria Montaldi. «De vez em quando, aqui e ali subia um grito de exultação e alguém partia correndo, apertando ao peito um vaso, uma garnacha de petigris, um alforje cheio»

Cortesia de wikipedia e jdact

… destas cidades restará o vento que as atravessa… In Bertolt Brecht

Parma. 1248
«A mulher estava caída de costas. A veste, repuxada até ao seio, deixava descoberto o ventre; as tiras da camisola, rasgada no meio, pendiam dos lados das coxas abertas. O armeiro atou de novo os calções na cintura e encarou-a. Os olhos aterrorizados que o fitaram provocaram-lhe nova comichão na virilha, mas só por um instante. Ele puxou o punhal do gibão, agarrou a mulher pelos cabelos e lhe cortou a garganta. Por um momento longuíssimo, um gorgolejo horrível encheu a saleta de estudos, e depois veio o silêncio. A cabeça da jovem sarracena tombou para trás e do talho no pescoço o sangue começou a jorrar em golfadas sobre o pavimento. O homem limpou a lâmina na veste da mulher e deu uma risadinha de escárnio: logo ele, um humilde armeiro de Parma, matara a pu… do imperador! Assim que toda aquela história acabasse, começaria a se vangloriar na estalagem, explicando como se servira dela antes de degolá-la. Até enriqueceria a narrativa com todos os detalhes truculentos que conseguisse inventar, e seus comparsas de bebedeira ficariam embasbacados. Recobrou-se dessa fantasia. Tinha de executar a tarefa que lhe fora atribuída e devia fazer isso de imediato, já perdera tempo demais.
Travou a porta atrás de si e observou atentamente o local: uma escrivaninha de cavaletes e um assento de viagem estavam encostados à parede. Um pouco adiante, semioculto por uma cortina de couro lavrado que pendia da trave do forro, havia um cofre de prata maciça. Experimentou a tampa: estava trancada. Soltou uma imprecação. Onde diabos estaria a chave? Estava ali, em algum lugar, ou Frederico a levara consigo ao deixar o acampamento? A escrivaninha era desprovida de gaveta e sobre o tampo havia apenas um tinteiro, uma pena de ganso e um pergaminho raspado várias vezes. De chave, nem sombra. Devia procurá-la. Olhou ao redor. Logo atrás de uma baixa divisória de madeira entalhada com motivos espiraliformes, entrevia-se um leito. Contornado o biombo, ele agarrou o colchão de plumas e manteve-o levantado com o braço esquerdo, enquanto, com a mão direita, vasculhava o estrado de madeira subjacente. Depois de apalpar quase todas as tábuas, os seus dedos perceberam, ao longo de uma fissura, uma trouxinha de pano. Pegou-a e abriu-a: no meio do tecido apareceu a chave.
Exultante, virou-se e a inseriu na fechadura. O cofre abriu. No fundo, jazia uma sacola de couro. Nada mais. Tirou-a, desatou rapidamente os cordões e fez deslizar para fora o que ela continha. Quando a sua mente compreendeu o significado daquilo que os seus olhos fitavam, brotou-lhe da garganta um grito de júbilo. Ali estavam os pergaminhos! Excitado, ajoelhou-se e apoiou-os sobre o pavimento, começando a percorrer apressadamente as folhas. No primeiro, a letra inicial do texto era decorada com uma figura humana envolta em vermelho. Um friso, azul como a esfera na qual estava pintada a imagem e pontilhado por arabescos dourados, corria ao lado das duas colunas de texto e emoldurava toda a página: as dez folhas que se seguiam eram cobertas de linhas redigidas com tinta preta. O armeiro não sabia ler, mas podia apostar que aquele era de facto o tratado escrito por Frederico. Os pergaminhos mantidos sob chave e a imagem miniaturada convenceram-no de que havia finalmente encontrado o tesouro que lhe haviam pedido para roubar.
Repôs o livro na sacola, fechou-a e atou os cordões ao seu cinto. Do pavimento onde o jogara, recolheu o manto e o envolveu em torno do corpo. Em seguida, após lançar uma última olhadela distraída ao cadáver da sarracena, aproximou-se da soleira da saleta e encostou o ouvido à porta: do corredor não provinha nenhum ruído. Abriu-a e, em passos amortecidos, enveredou pela escada de madeira. No vestíbulo não havia ninguém. Deslizando silencioso pela penumbra, alcançou o portal e saiu, cauteloso. A fumaça do incêndio lhe cortou a respiração. Das ruínas dos alojamentos militares que até à véspera haviam abrigado o exército do imperador ainda se erguiam delgadas línguas de fogo que aos poucos iam se apagando. Abafados pela distância, mas claramente distinguíveis, do fundo do campo chegavam até ali os barridos (som dos elefantes) e rugidos dos animais exóticos aprisionados no cercado. Surdos àqueles sons terrificantes, grupos de homens e mulheres circulavam pelo acampamento.
Agitados, saltavam os cadáveres dos guardas imperiais e, com gestos febris, remexiam os destroços. De vez em quando, aqui e ali subia um grito de exultação e alguém partia correndo, apertando ao peito um vaso, uma garnacha de petigris, um alforje cheio. Esfregando os olhos lacrimejantes pela fumaça, o armeiro examinou o campo. Estava coberto de cadáveres. Moveu-se às pressas, serpenteando por aquele amontoado de corpos. O seu pé bateu num joelho ainda coberto pela perneira. Com um estalido, o membro se desprendeu de chofre, revelando a enorme poça de sangue que se espalhava pelo terreno. O armeiro escorregou sobre aquela massa viscosa e caiu de bruços, indo parar em cima do morto: pela viseira aberta do elmo, dois olhos cegos o fitavam, ainda arregalados numa expressão de terror». In Valeria Montaldi, O Manuscrito do Imperador, 2008, Grupo Editorial Record, 2011, ISBN 978-850-108-703-4.

Cortesia de GERecord/JDACT

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

O Senhor do Falcão. Valeria Montaldi. «Aparentemente despreocupada com os entediantes discursos dos arautos, a multidão prosseguia nos seus afazeres: debaixo do enorme pórtico que constituía o rés-do-chão do palácio comunal»

Cortesia de wikipedia e jdact

Milão. 1243
«(…) Enquanto ia ruminando estes pensamentos, Matthew transpôs a Porta Cumana, que conduzia ao Broletto Novo: aqui, sobrepondo-se à algazarra da multidão, erguiam-se, fortíssimas, as vozes de dois arautos da comuna que, empoleirados num banquinho montado em frente do palácio, apregoavam, à vez, as habituais interdições que a população deveria respeitar. ... e além disto ordena-se que nenhum homem jogue ou empreste dinheiro para jogos de azar, sob pena de ter de pagar sessenta soldos de multa. Também se impõe a proibição de jogar qualquer jogo, mesmo que considerado lícito, de noite, nas estradas, nas tabernas ou em outro qualquer lugar, sendo permitido jogar apenas durante as horas do dia. No que respeita aos delitos, foi estabelecido que, independentemente do sexo a que pertencer, qualquer pessoa maior de doze anos que cometa um furto de um objecto de valor superior a seis denários pagará uma multa de vinte soldos. Alguém que prenda o ladrão e não o entregue ao arcipreste ou ao seu enviado será multado em sessenta soldos...
Aparentemente despreocupada com os entediantes discursos dos arautos, a multidão prosseguia nos seus afazeres: debaixo do enorme pórtico que constituía o rés-do-chão do palácio comunal, mercadores ricamente vestidos faziam contratos entre si, misturados com tabeliões e meirinhos provenientes dos cárceres vizinhos da Malastalla. Ajaezados com as insígnias da podestà, seis cavalos esperavam, presos aos pilares de sustentação dos arcos do pórtico, sinal de que, naquele preciso momento, estava a decorrer uma reunião de notáveis na sala superior. Os olhos de Matthew detiveram-se no relevo de pedra que uns vinte anos antes fora colocado na fachada do palácio dedicado ao regedor que dera início à construção do Broletto. O homem era representado a cavalo, numa severa atitude guerreira: a inscrição, em baixo, identificava-o como Oldrado Tresseno, sublinhando a sua importância como perseguidor de hereges. Catharos, ut debuit, uxit, citava a epígrafe: apesar da tepidez da jornada estival, o frade arrepiou-se ao ler aquelas palavras, que, mais uma vez, o faziam recuar no tempo. Até aqui, como, aliás, nas terras de França, no vale Augusta, onde quer que fosse, enfim, se falava de heresias, de homens e mulheres torturados e mortos por se terem afastado da fé de Roma.
O abade de San Simpliciano, embora não conhecendo o verdadeiro motivo que levara o frade a Itália desde a longínqua Inglaterra, recomendara-lhe cautela com os contactos pessoais que iria fazer na cidade: nestes tempos, havia-lhe dito, não era preciso muito para se ser acusado de heresia. Até os próprios membros da ordem dos humilhados haviam sofrido a censura por parte do papa, com consequentes imposições de uma nova regra canónica, dado que os seus hábitos de vida comunitária cheiravam a heresia: e, no entanto, acrescentara Arnolfo, tratava-se de confrades digníssimos que se dedicavam às mais duras tarefas agrícolas e à produção de lã, na qual eram mestres. Matthew ficara estupefacto com as palavras piedosas do abade, sabendo bem que, frequentemente, as várias ordens religiosas estavam em desacordo entre si. Arnolfo, como é evidente, apesar das suas importantes ligações com os mais variados membros do poder milanês, era um homem justo, capaz de distinguir a boa da má-fé, atento sobretudo à saúde espiritual das almas que lhe haviam sido confiadas. Nutria uma certa desconfiança relativamente aos frades menores, que, encarregados pelo arcebispo Leone da Perego de perseguir a heresia, procuravam com cruel determinação e denunciavam todo aquele que, em Milão, fosse suspeito de discordar da regra da Igreja de Roma. Com o desenvolvimento deste ingrato trabalho inquisitório colaboravam também os dominicanos: o abade havia recomendado a Matthew que se mantivesse longe dos membros destas duas ordens durante o desenrolar das pesquisas, para evitar o risco de se ver envolvido, contra a sua vontade, em manobras obscuras e perigosas». In Valeria Montaldi, O senhor do Falcão, 2003, Casa das Letras/Editorial Notícias, 2005, ISBN 978-972-461-618-6.

Cortesia de CdasLetras/Editorial Notícias/JDACT

O Senhor do Falcão. Valeria Montaldi. «A prostituta sorria, girando entre os lábios semiabertos a ponta da língua: os seios, quase completamente descobertos, emergiam, redondos e firmes, do enorme decote do vestido»

Cortesia de wikipedia e jdact

Milão. 1243
«(…) Quanto ao facto de poder ser confundido com um espião, o abade tranquilizara-o: não sendo o facto a investigar um caso político, mas tratando-se essencialmente de um episódio privado, ninguém iria poder suspeitar do que quer que fosse. Enquanto ia ruminando com amargura quão duro era o voto de obediência e como isso marcara pesadamente os últimos anos da sua vida, Matthew viu-se quase derrubado por um rapazinho que corria como louco na sua direcção. Seguia-o, gritando impropérios bem expressivos, uma mulher enfurecida. A bolsa do dinheiro, desgraçado..., roubou-me a bolsa com o dinheiro! Agarrem-no, por Deus, agarrem esse filho da pu…! Os gritos da mulher confundiam-se com a algazarra de fundo. O frade virou-se para ver do rapaz, mas já não o viu, desaparecido, provavelmente por uma das ruelas que atravessam a cidade. Apesar de o seu furto não o justificar, Matthew sorriu para consigo, contente pelo facto de o ladrãozinho não ter sido apanhado. A expressão que vira estampada no rosto da mulher não prometia nada de bom e, no lugar do ladrãozinho, ele próprio teria fugido a sete pés.
Debaixo das arcadas que ladeavam a rua a todo o comprimento adensavam-se as oficinas e as bancas: peras, maçãs, hortaliças, frangos, queijos de vários tamanhos, garrafas de vinho, peças de lã, objectos de barro, facas, sacos de areia, lenha, e tudo aquilo que podia ser útil no dia-a-dia se expunha em bancadas, à atenção dos compradores, que entupiam o caminho. Enquanto a multidão se adensava na direcção do Broletto Novo, para onde também se dirigia, observou que o aspecto das pessoas que ia encontrando era diverso: misturados com os populares, os carregadores, os comerciantes e os servos, outras personalidades ricamente vestidas movimentavam-se entre eles. Despreocupados com o pó que os seus factos apanhariam ao roçar o chão, passeavam em pequenos grupos e falavam ininterruptamente entre si, se bem que a algazarra circundante não permitisse compreender qual era o assunto das conversas. O frade, que, apertado entre a multidão, caminhava ao lado de dois homens, ouviu um pequeno fragmento da sua conversa: pelas palavras que apanhara a custo, pareceu-lhe compreender que se tratava de um nobre e de um eclesiástico. Os seus fatos não eram diferentes: sobre a saia, de tecido fino, a túnica de um pano leve era cingida à cintura com um cinto de couro incrustado com motivos de prata em relevo. Ambos usavam meias com sola e cobriam as costas com um manto de seda.
Só uma pequena cruz de prata suspensa do pescoço e quase invisível entre as inúmeras pregas das vestes identificava um deles como sendo um homem da Igreja. Enquanto o frade se questionava por que razão muitos padres de Milão teriam preferido ao hábito talar as vestes dos laicos, os dois homens encontraram uma senhora que vinha em sentido contrário. Elegantíssima e orgulhosa, vestia um fato comprido de seda bordada, cujas mangas, debruadas a todo o comprimento com uma fila de botõezinhos de prata, eram de tal forma estreitas que não lhe permitiam qualquer movimento dos braços: um lindíssimo toucado de linho branco envolvia-lhe delicadamente a cabeça, deixando fugir, aqui e ali, maliciosos caracóis louros. Uma criada muito jovem seguia-a de perto, levantando-lhe a cauda do vestido para não arrastar pelo chão. Os dois homens pararam à sua frente e, depois de terem feito uma vénia, começaram a falar de modo cerimonioso. Matthew, curioso, teria parado de bom grado para os ouvir, mas foi empurrado inexoravelmente pela multidão que avançava. Ao ver aquela imensidão de gente que percorria as ruas, qualquer um pensaria que, naquela manhã, todos os Milaneses se dirigiam para o centro da cidade. Evitando por um triz mergulhar no tanque de peixes vivos que um comerciante expusera fora da sua banca, o frade chegou finalmente próximo do Broletto.
Queres companhia, irmãozinho? Olha que sou boa e para os homens da Igreja faço um preço especial... Matthew sentiu qualquer coisa que lhe roçava pelas costas ao mesmo tempo que ouviu aquela voz rouca e sensual: virando-se bruscamente, viu-se em frente de um rosto pesadamente pintado, contornado por uma espessa cabeleira avermelhada. A prostituta sorria, girando entre os lábios semiabertos a ponta da língua: os seios, quase completamente descobertos, emergiam, redondos e firmes, do enorme decote do vestido. O frade corou e abanou a cabeça num gesto negativo: a mulher, que não mostrava ter mais de vinte anos, deslizou delicadamente a mão pela sotaina numa evidente carícia lasciva e depois, sempre a sorrir, dirigiu-se a outro possível cliente. Não era a primeira vez que Matthew recebia este tipo de propostas: Milão pululava de prostitutas que exibiam os seus dotes em qualquer esquina.
O abade tinha-lhe contado que o seu número aumentara consideravelmente desde que a guerra com o imperador começara. As mulheres, depois de sofrerem a incursão dos exércitos nos seus campos, tinham vindo para a cidade e engrossado o número de meretrizes que nela residiam; além disso, a imensidão de soldados, que alternavam continuamente fora e dentro de Milão, favorecera o crescimento daquele triste comércio. Como lhe acontecia após um encontro deste tipo, Matthew experimentava uma profunda ansiedade: o seu pensamento voara até Marthine, que vira pela última vez em Rochester, havia quase dois anos, em condições de miséria semelhantes. Teria fugido, teria conseguido libertar-se daquela vida indigna? Vítima inocente de uma situação absurda, a mulher fora obrigada a deixar à sua aldeia na sequência de uma infame acusação de bruxaria e refugiara-se numa cidade onde ninguém a conhecia. Aí, não tendo outro meio de sustento, vira-se constrangida a prostituir-se para não morrer de fome. Aquela mesma acusação havia causado a morte de uma outra inocente, Mary, que Matthew, na sua simplicidade, não pudera salvar. Embora tivesse já passado muito tempo, o frade não conseguia libertar-se da sua sensação de culpa, que, longe de enfraquecer, se mostrava cada vez maior e mais dilacerante». In Valeria Montaldi, O senhor do Falcão, 2003, Casa das Letras/Editorial Notícias, 2005, ISBN 978-972-461-618-6.

Cortesia de CdasLetras/Editorial Notícias/JDACT

O senhor do Falcão. Valeria Montaldi. «Em todos os mosteiros onde se acolhera ao longo da sua viagem, desde o vale Augusta até à planície, a desconfiança face à sua pessoa manifestara-se de uma forma mais ou menos explícita…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Milão. 1243
«(…) Embora já tivesse atravessado por várias vezes aquela entrada, Matthew  não parava de se surpreender com o contínuo vaivém de gente, carros, cavalos, mulas, envolvidos, todos eles, numa actividade incessante e frenética. A vozearia dos carregadores misturava-se à dos comerciantes assomados às portas das lojas, ao latido dos cães presos, às gargalhadas estridentes dos criados carregados de cestos cheios de comida. De cada vez que entrava na cidade, o frade não parava de pensar quão mais tranquila era a vida em San Simpliciano, o mosteiro onde vivia há já um tempo. O edifício situava-se do lado de fora das muralhas mas relativamente próximo delas e muito perto da Porta Comacina, mas tanto lá como aqui, os dias eram marcados pelo trabalho: os monges e os seus rendeiros ocupavam-se do funcionamento dos moinhos, do tratamento dos animais, da tosquia da lã, das sementeiras e dos enxertos, das pontes que tinham de construir sobre os canais, das estradas que deveriam cobrir com saibro. E, no entanto, apesar do fervor laborioso das pessoas, o ar, os cheiros, os rumores eram os mesmos dos do campo; fora exactamente esta atmosfera de paz e tranquilidade, semelhante, nos ritmos, àquela em que Matthew vivera durante tantos anos, no seu primeiro mosteiro de St. Albans na longínqua Inglaterra, que o haviam convencido a ficar em Milão. Em todos os mosteiros onde se acolhera ao longo da sua viagem, desde o vale Augusta até à planície, a desconfiança face à sua pessoa manifestara-se de uma forma mais ou menos explícita, seguramente facilitada também pelo clima de suspeição que, nesses últimos anos, envolvia qualquer estrangeiro. Muitas haviam sido as batalhas entre o imperador Frederico e os senhores daquelas terras férteis e ricas, para os habitantes e até mesmo os próprios religiosos poderem confiar em qualquer pessoa que falasse um outro idioma: qualquer forasteiro, incluindo um frade, podia ser um espião enviado pelo legado pontifício ou pelo próprio imperador para desvendar planos, tramas e traições.
Matthew, que pensava que o seu já longo tempo de vida lhe permitia desembaraçar-se de estratégias e acontecimentos provocados por outros, ficara estupefacto ao constatar as difíceis condições das gentes que povoavam as terras que fora encontrando pelo caminho. Quão mais limitadas e simples não haviam sido as escaramuças entre os senhores feudais do vale Augusta comparadas com esta infinita e tormentosa guerra de planura que opunha o imperador, a Igreja de Roma e os governos das cidades! Frei Stephen, camerlengo junto do Hospital Scotorum, próximo de Vercelli, onde Matthew estivera durante o Inverno precedente, passara longas horas a explicar-lhe as razões daquele conflito, mas, apesar do seu esforço, nem tudo se lhe mostrara claro. O que levara o papa a excomungar o imperador, o que levara algumas cidades a apoiá-lo enquanto outras o contestavam, que papel poderia ter a vontade de Deus em todas estas disputas geradoras de carnificinas inúteis? E, no entanto, Federico, pelo que lhe haviam contado, mostrara-se um soberano liberal, amante das letras e das artes e promotor de éditos magnânimos: como era, então, possível que o próprio pontífice estivesse contra ele? O abade de San Simpliciano, Arnolfo Sala, por conta de quem, neste momento, estava a chegar a esta cidade, tentara explicar-lhe a situação particular de Milão: esta gente, dissera-lhe, sente-se livre e quer viver sem senhores. A Comuna nascera para isto, muitos anos antes, e a partir de então os Milaneses não iriam tolerar o jugo de um novo imperador: já lhes bastara a experiência tão penosa da submissão a um outro Federico, que, quase um século antes, tinha arrasado a cidade, impondo o seu poder pela força. A própria Igreja, acrescentara Arnolfo, tivera e continuava a ter a sua quota-parte de responsabilidade nestas disputas: o papa não tinha menos aspirações quanto ao poderio de toda a Itália do que aquelas que o imperador nutria, enquanto a Igreja metropolita de Milão, pelo seu lado, procurava livrar-se de compromissos, com o objectivo preciso de salvaguardar a sua própria autonomia. Como era óbvio, numa situação de conflito permanente como esta, quem mais sofria sempre eram os mais miseráveis. Frei Matthew tinha visto camponeses privados das suas próprias terras serem enviados para combater contra este ou aquele inimigo, aldeias inteiras incendiadas, mulheres e crianças mortas barbaramente, frades e padres em fuga rumo a outros mosteiros. E logo agora, num momento tão delicado, o abade de San Simpliciano o havia encarregado, a ele, humilde frade inglês, do cumprimento de uma missão tão secreta e complexa: Justificara-se afirmando que, exactamente por ser forasteiro e, portanto, completamente insuspeito de pertencer a esta ou àquela facção, iria poder indagar, mais discretamente do que qualquer outro, sobre o caso que tanto o preocupava». In Valeria Montaldi, O senhor do Falcão, 2003, Casa das Letras/Editorial Notícias, 2005, ISBN 978-972-461-618-6.

Cortesia de CdasLetras/Editorial Notícias/JDACT

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O Senhor do Falcão. Valeria Montaldi. «A água do fosso reflectia o desenho das muralhas, trémulo pelo efeito da corrente. Relativamente perto da ponte que conduzia à cidade através da Porta Comacina, as poderosas rodas de um moinho de cereal»

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Milão. 1226
«(…) O secretário, submerso por aquela tempestade de palavras, deixara-se cair sobre o banco. Os seus olhos, cada vez mais alarmados, seguiam os gestos das mãos com os quais a abadessa acompanhava o seu discurso. Veja, irmão Algiso, o facto de as nossas bocas cantarem as laudes do Senhor não impede os nossos ouvidos de ouvirem o que acontece fora daqui; a cidade precisa de nós para milhares de incumbências e, inevitavelmente, a estas paredes chegam todas as notícias e mexericos ligados à necessidade das gentes, tanto as de baixa como as de alta linhagem. Como podia o irmão pensar que eu ignorava a relação entre Caterina Gisalbertini e o sobrinho do arcebispo, Lanfranco Calgario, se a minha própria família de origem ainda é aparentada com um ramo da sua? Não pode sequer imaginar o horror que senti quando segurei entre as mãos aquele medalhão: por um momento, tudo se apresentou claro aos meus olhos... Passei horas na minha cela a rezar ao Senhor para que me iluminasse sobre o que deveria fazer e provavelmente Ele terá ouvido as minhas preces, porque decidi que não iria calar-me. Por isto quis que informasse o arcebispo. Dependerá da sua decisão fazer com que o escândalo expluda ou não. Se vencer o silêncio, então será a sua consciência a carregar com tudo isto, não a minha. A abadessa calou-se. As mãos juntas sobre o peito tremiam ligeiramente, a pele rosada do rosto testemunhava uma tensão tenazmente controlada: os olhos pungentes, todavia, não largavam nem por um instante, sequer, o rosto do secretário, que, dobrado sobre si mesmo, a ouvia em silêncio. Depois de ter dado um longo suspiro de alívio, a velha freira ergueu-se e dirigiu-se para a porta. O irmão Algiso, incapaz de encontrar as palavras adequadas à resposta, seguiu-a: enquanto fazia menção de se despedir, a freira travou-o interpondo o seu velho corpo ressequido entre ele e a porta. Fico a aguardar notícias do arcebispo e com muita urgência. Para solicitar a sua atenção, refira-lhe também isto. Caterina Gisalbertini tinha no corpo os traços evidentes de um parto ocorrido há poucos dias... Os olhos do secretário dilataram-se, a sua boca abriu-se à procura do ar que lhe faltara. Com um sorriso tenso, a freira abriu a porta, convidando-o a sair. Vá em paz, irmão Algiso, e leve depressa o meu recado... Depois de o pesado batente se ter fechado nas suas costas, a abadessa deixou-se tombar sobre o banco, abandonando os braços.

Milão. 1243
A água do fosso reflectia o desenho das muralhas, trémulo pelo efeito da corrente. Relativamente perto da ponte que conduzia à cidade através da Porta Comacina, as poderosas rodas de um moinho de cereal afundavam os seus mecanismos num canal defluente: o pórtico da grande construção de dois andares apinhava-se de gente que entrava e saía, carregando grandes e volumosos sacos às costas. Alguns patos corriam, batendo as asas, entre os carros parados ao longo da margem, perturbando a serena espera dos cavalos e das mulas.
Ao mesmo tempo que observava, estupefacto, o verde brilhante da erva, mesmo da que cobria a terra à sombra das muralhas, o irmão Matthew ia caminhando ao longo da ponte. Ao chegar a meio da suave encosta, parou para avaliar a dimensão do fosso. Não teria menos de trinta braços de largura e parecia mais fundo ainda. A corrente vigorosa e límpida transportava, aqui e ali, cardumes que nadavam quase à tona de água. Então, irmão, ides mexer-vos daí ou não? Não vedes que o carro não passa se continuardes aí a contar os peixes? Matthew virou-se de repente, mesmo a tempo de evitar o casco escoiceante de um velho cavalo pelado que puxava um pequeno carro carregado de madeira; o homem que o conduzia, de rosto corado, fixava-o, ameaçador. O frade balbuciou umas desculpas e percorreu à pressa os poucos pés que o separavam do largo que se abria em frente da porta. Fechados até meio por grades pesadas e seguras, os arcos da entrada apoiavam-se em duas altas torres de pedra que interrompiam, maciças, a cintura amuralhada. Uma dezena de guardas formava dois grupos de ambos os lados da porta: embora os seus olhos perscrutassem, atentos, a passagem de homens e de mercadorias, os seus rostos pareciam relaxados e as vozes calmas. Assim que transpôs a entrada, o irmão Matthew virou-se para observar a imensidão de andaimes de madeira que se erguia do lado de dentro das torres, formando caminhos sobrepostos; aqui, prontos a defender a cidade em caso de assalto, mais soldados patrulhavam». In Valeria Montaldi, O Senhor do Falcão, 2003, tradução de Maria Irene Carvalho, Editorial Notícias, Editora Casa das Letras, 2005, ISBN 978-972-461-618-6.

Cortesia de EditorialNotícias/ECdasLetras/JDACT

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O Senhor do Falcão. Valeria Montaldi. «Os olhos da madre abadessa fixavam os olhos brilhantes do padre; o rosto rugoso assumiu uma expressão atenta, com a boca severa apenas entreaberta»

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Milão. 1226
«(…) Deus me acuda... Deus me acuda... Virgem Santíssima... Incapaz de articular outras palavras, a voz rouca esgotou-se-lhe num sussurro. O homem fixou ainda por um tempo o cadáver, sem conseguir, sequer, mover um único músculo. Depois, com um repentino sobressalto, de todos os tendões do seu corpo e como que atacado por um enxame de abelhas, ergueu-se e desatou a correr ao longo da margem, na direcção do ancoradouro dos barcos. Está um cadáver dentro de água! Corram, corram todos, está um morto na água! A voz regressara e saía-lhe agora com toda a força da garganta. Por um instante, o ruído quotidiano que acompanhava a vida naquele ancoradouro parou. Muitas cabeças voltaram-se na direcção daquele homem que gritava e corria: os carroceiros pararam os cavalos, os serviçais interromperam a conversa, os arrais permaneceram com os fardos das mercadorias no ar. Já sem ar, o descarregador arrastou-se pela margem, perto dos marcos de atracação que se afundavam maciços na água: enquanto tentava respirar de novo, apoiando-se ao bordo de uma barcaça encalhada, dois arrais aproximaram-se dele pedindo-lhe explicações. Sem responder, o homem limitou-se a apontar a água com o dedo: o corpo estava agora quase junto da margem, grotesco fantoche acinzentado e agora bem visível. O horror estampou-se de forma evidente no rosto dos dois interlocutores: com a boca escancarada, permaneceram imóveis fixando o cadáver que aflorava da água, boiando, à superfície, sustido pela dança macabra da corrente.
Venham, venham cá, Santo Deus, venham ver!... As vozes grosseiras dos arrais sobrepunham-se, enquanto os seus braços gesticulavam descompostos: em poucos instantes o dique esvaziou-se e a margem encheu-se de gente, que tremia de sórdida curiosidade. A pouco e pouco, o bruaá excitado foi-se calando até se esgotar completamente num silêncio atónico, quando a última onda, graciosa, depositou sobre a margem o corpo inchado e semi-nu de uma mulher. Agora imóvel, estendido sobre os seixos e ensopado de água suja, só os longos cabelos negros ondeavam, preguiçosos, na ressaca ligeira: uma camisa esfarrapada, da qual apenas restara uma manga inteira, e um par de calças de linho ensopadas de lama eram a única roupa que cobria o cadáver. O homem alto aproximou-se, parando, no entanto, quase de seguida, devido ao repugnante cheiro a morte. No rosto tumefacto, os olhos escancarados saltavam das órbitas, da boca aberta pendia a língua inchada, coberta de limo preto. Os peixes e os caranguejos tinham feito o seu trabalho: as mãos, os pés e os braços estavam, aqui e ali, roídos.
A polícia, é preciso chamar a polícia, e depois o padre... A voz do descarregador elevou-se, decidida, acima do murmúrio circunstante das pessoas fascinadas com aquele espectáculo horrendo: um dos arrais, depois de se ter persignado, virou-se e, apressadamente, saiu do dique direito à poterna, onde tinha avistado o corpo da guarda. Então, é este o medalhão de que me falou, madre? O secretário particular do arcebispo rodava entre os dedos um precioso berloque de prata: ao centro do medalhão via-se, finamente esboçado, o recorte de uma pequena torre em cuja base, circundada de uma voluta de folhas, estava gravado um G muito trabalhado, coberto de esmalte azul, delicadamente incrustado. Os olhos da madre abadessa fixavam os olhos brilhantes do padre; o rosto rugoso assumiu uma expressão atenta, com a boca severa apenas entreaberta. Se não fosse este o medalhão, não o teria mandado chamar, irmão Algiso, sussurrou a velha freira. Uma vez que ambos sabemos de que se trata, parece-me desnecessário estar para aqui a falar... Já avisou o arcebispo? O secretário anuiu e, envolvendo cuidadosamente o medalhão num pedacinho de linho, fê-lo desaparecer por debaixo da sotaina. O arcebispo já foi informado, madre: quando esta bugiganga estiver nas suas veneráveis mãos, terá o cuidado de a fazer chegar à sua legítima proprietária...
É um pouco difícil, não acha? A voz da abadessa tornara-se cortante e deixava escapar uma indignação que só com muito esforço controlava. Considerando que aquela rapariga já foi sepultada, penso que o brasão da família já não vai ser necessário! O frade empalideceu e, levantando-se rapidamente do banco, abriu a boca para contra-atacar, mas a madre abadessa antecipou-se. Basta, irmão Algiso! Não esteja para aí a dizer mentiras em cima de mentiras: já tenho bastantes anos para saber distinguir a verdade das maquinações com as quais se tenta modificá-la, e adaptada às circunstâncias. É verdade, teria sido melhor para todos se a corrente de Vettabbia tivesse arrancado também este medalhão do corpo daquela desgraçada, mas, uma vez que as coisas se passaram assim, era meu dever participar-lhe... Dominando a voz irada que baixou de tom, num sussurro, a freira continuou, fixando, decidida, o olhar do frade. O problema, e o irmão sabe-o muito bem, é que temos quase a certeza de que aquela mulher foi assassinada. Oh, não me interrompa..., acrescentou irritada, travando com um gesto da mão a resposta que estava prestes a sair da boca do seu interlocutor, deixai-me dizer a verdade! Nada do que vos estou a contar sairá destas paredes, mas, pelo menos aqui, procuremos fazer justiça àquela pobre rapariga, que em vida teve bem pouca... Claro que não ia chamar-se um médico para ver aquele golpe profundo que circundava o pescoço do cadáver: quando foi trazido aqui para o nosso mosteiro, a irmã que limpou e preparou o corpo para a sepultura mandou-me chamar à pressa, no meio de uma grande agitação. O sulco do pescoço era de tal forma profundo que o fio do medalhão se enterrara na carne, o que certamente impedira que o assassino o tivesse arrancado. Não, irmão Algiso, acrescenta secamente, prevenindo a pergunta que estava a ser preparada, não, nunca irá saber, nem o senhor nem o arcebispo, o nome da irmã que fez aquela ingrata tarefa. Não tenciono pôr em risco a vida das minhas protegidas, aqui no mosteiro! Oh, claro, se se tivesse tratado de uma mulher do povo, o facto não teria interessado a ninguém! Mas aquela incisão, aquelas iniciais... Quem não conhece a família Gisalbertini di Calepio? Quem não sabe da sua ligação estreita com a família do sobrinho do arcebispo?» In Valeria Montaldi, O Senhor do Falcão, 2003, tradução de Maria Irene Carvalho, Editorial Notícias, Editora Casa das Letras, 2005, ISBN 978-972-461-618-6.

Cortesia de EditorialNotícias/ECdasLetras/JDACT

quarta-feira, 30 de março de 2016

O Senhor do Falcão. Valeria Montaldi. «O que se passa, miúdo? O que tem o teu cão? A voz era de alguém que se aproximara por detrás dele. O miúdo virou-se erguendo os olhos para o homem alto que se lhe dirigira»

jdact e wikipedia

Milão. 1226
«Está aberta a caça aos hereges e os inquisidores povoam as ruas da cidade. O cadáver de uma jovem mulher aparece a boiar nas águas do canal do Vettabbia, com o corpo dando sinais de parto recente. Só que da criança nem rasto. Passados 17 anos, alguém vai interrogar-se sobre o que realmente terá acontecido naquela noite. Arnolfo Sala, abade do mosteiro de San Simpliciano, atormentado por um sonho recorrente e com suspeitas antigas que só ele conhece, encarrega o frade Matthew de investigar o caso. Pelas ruas de uma Milão abalada pela perseguição aos hereges e pela luta contra o imperador Frederico II, o frade inicia a sua investigação. Por lugares ainda hoje reconhecíveis, como o Broletto, centro político e comercial da cidade, o bosque de Quadronno ou o Hospital do Brolo, Matthew entrecruza as histórias de Isaac, médico judeu, e da sua bela filha Raquel. Mas só o encontro com Guglielma, uma vidente e mística malquista aos olhos da igreja milanesa, assinalará indelevelmente a consciência do frade, indicando-lhe o caminho a seguir para concretizar a sua missão e resolver o mistério. A água turva do canal formava remoinhos escuros que, aos poucos, se alargavam em ondas lentas e preguiçosas; entre os seixos da margem, as ervas, miseráveis, absorviam, a custo, as franjas daquela espuma oleosa. As bolas esbranquiçadas brilhavam um instante apenas antes de explodir, depositando-se, em seguida, sobre as últimas babas de água. Segurando entre os dentes um pauzinho de madeira, um cão de pêlo ruivo corria ao longo dos diques, seguido por um miúdo que o chamava aos berros. O animal virava-se de vez em quando, como que para avaliar a distância que o separava do seu pequeno dono, retomando, seguidamente, a corrida. Depois de, cauteloso, ter evitado as rodas de uma carroça carregada de mercadorias, o animal parece ter-se acalmado e, tendo largado o pauzinho, começou a descer, com todo o cuidado, na direcção do canal, atento para não escorregar por entre os seixos viscosos. Com a língua de fora, sedento, estava prestes a tocar a água quando, de repente, o pêlo se lhe eriçou e a cauda lhe pendeu. Ficara imóvel como uma escultura de pedra, com o focinho esticado; só as narinas vibravam, farejando freneticamente a superfície da corrente. De seguida, porém, um latido fortíssimo fez-se ouvir provindo daquela goela. O miúdo, que já estava quase a apanhá-lo, parou repentinamente, assustado. O animal latiu de novo, mas o som transformou-se desta vez e quase subitamente num ganido doloroso.
O que se passa, miúdo? O que tem o teu cão? A voz era de alguém que se aproximara por detrás dele. O miúdo virou-se erguendo os olhos para o homem alto que se lhe dirigira; a boca delicada e os olhos claros sorriam benévolos naquele rosto escurecido pelo sol e as mãos calejadas seguravam um saco vazio, engordurado e rôto. O rapazinho não respondeu, atento, de novo, aos ganidos do cão, que, a passos cautelosos, continuava a descer em direcção à água. Quieto, Martino! Pára! O animal obedeceu, sem, todavia, desistir do seu lamento sonoro. Aterrado com a possibilidade de o cão ser levado pela corrente, o miúdo correu então para o dique, aos tropeções, por entre os seixos. A um palmo do cão, deu um último salto e segurou-o de repente pelo rabo, deixando-se depois cair de joelhos sobre os seixos. O homem alto, que o seguira, parou mesmo atrás dele. Martino, pára, pára já! Pode saber-se o que te deu? Nunca te vi nessa loucura... As palavras de reprovação do miúdo soavam assustadas: o animal tremia, mantendo, todavia, as patas da frente firmemente plantadas na água. As narinas dilatadas farejavam, convulsas, o pelo mantinha-se totalmente eriçado, escondendo quase completamente a forma das orelhas. O homem alto aproximou-se: depois de ter pousado uma mão protectora nas costas do miúdo, observou atentamente o canal, percorrendo a superfície com os olhos. A sua já longa familiaridade com aquela enseada do Vettabbia havia-lhe ensinado que a corrente preguiçosa e suja transportava, por vezes, as coisas mais horríveis: o seu trabalho de descarregador de barcos habituara-o a encontrar na margem todo o género de lixo, desde excrementos ali depositados há pouco a carcaças de animais mortos. Era exactamente este último e penoso tipo de lixo que temia, considerando o comportamento do cão ao aproximar-se da água. Mas preparava-se já para levar o miúdo de volta, ajudando-o a arrastar-se atrás do seu teimoso companheiro de brincadeira quando os seus olhos se fixaram num ponto do canal relativamente perto do local onde os barcos atracavam. À superfície, mesmo à tona da água, boiava qualquer coisa estranha: parecia uma massa esbranquiçada, comprida como um grande peixe mas não tão compacta. Aparecia e desaparecia com os lentos movimentos da corrente, arrastando-se atrás de uma espécie de emaranhado de algas escuras. O homem atentou melhor semicerrando os olhos para se proteger do reflexo do Sol: quando a mensagem inequívoca que as pupilas lhe enviaram lhe chegou à mente, um vómito incontido saiu-lhe da garganta. Apoiando as mãos nos joelhos, suspirou profundamente e virou-se: o miúdo fixava-o, estupefacto com a sua súbita palidez. Vai-te embora, vai, pequeno, volta para casa... Já! Espavorido mais pela tremura da voz do que pelo tom imperativo do homem, o miúdo afastou-se, agarrando o cão pelo cachaço e virando-se para trás a cada passada. Só quando o viu já em segurança no dique e depois a caminhar pela estrada fora, o homem ousou voltar a olhar para o canal. O cadáver aproximava-se da margem, lentamente. A forma do corpo ia-se delineando aos poucos: ora aparecia uma perna a flutuar, ora um pé, enquanto o que julgara ser um intrincado de algas se alargava, acariciado pela corrente, num longo velo de cabelos negros». In Valeria Montaldi, O Senhor do Falcão, 2003, tradução de Maria Irene Carvalho, Editorial Notícias, Editora Casa das Letras, 2005, ISBN 978-972-461-618-6.

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