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terça-feira, 3 de agosto de 2021

Os Mais Recentes Achados Epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa. Amílcar Guerra. «Por um lado os textos epigráficos encontram-se quase sempre completos, aspecto que contrasta fortemente com a maioria das inscrições romanas de aparecimento mais recente…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) As circunstâncias particulares que envolveram a fase inicial da investigação levaram a que um outro monumento só fosse noticiado mais tarde. Trata-se de uma epígrafe depositada no Instituto Clássico da Universidade de Lisboa, divulgada apenas cerca de um quarto de século após o seu aparecimento. Por fim, como resultado do tratamento laboratorial de uma cinerária de chumbo depositada na mesma entidade museológica foi identificado um grafito, gravado na tampa desse recipiente. As escavações mais recentes revelaram um panorama idêntico e trouxeram à luz novos achados epigráficos cuja publicação se aguarda para breve. Todo este conjunto constitui sem dúvida o mais representativo núcleo de epígrafes de Olisipo encontradas numa mesma área, apresentando para além disso duas assinaláveis vantagens. Por um lado os textos epigráficos encontram-se quase sempre completos, aspecto que contrasta fortemente com a maioria das inscrições romanas de aparecimento mais recente, quase sempre reduzidas a pequenos fragmentos. Para além disso, foi possível determinar, por vezes com bastante precisão, o seu contexto arqueológico, o que significa que, em certos casos, contamos com dados concretos sobre a natureza dos monumentos em que as lápides se inseriam. Esta conjugação de elementos confere uma particular relevância a todo o conjunto, aspecto que sublinha igualmente a necessidade de se tornarem públicos todos os elementos relativos aos trabalhos, alguns dos quais, como se viu, aguardam publicação há mais de meio século. No que concerne estritamente ao domínio da epigrafia, parece que o caso específico da Praça da Figueira poderá proporcionar elementos substanciais para compreender todo o conjunto funerário, de modo a estabelecer o enquadramento das inscrições. Será possível, em suma, traçar as componentes essenciais do ambiente e da paisagem em que se inserem os monumentos, aspecto a que Giancarlo Susini conferiu uma especial dignidade e que constitui uma forma mais completa e mais complexa de estudar as manifestações que nos ocupam. Esta preocupação, que recentemente Luís Fernandes renovou a propósito da documentação epigráfica do teatro romano de Lisboa, tem neste caso uma idêntica justificação. Também na encosta da Sé, em geral, e no teatro romano e zona envolvente, em particular, se realizaram importantes pesquisas arqueológicas que levaram à identificação pontual de alguns achados epigráficos. De uma maneira geral, estas novas descobertas foram sendo esporadicamente assinaladas ao longo de um período muito dilatado, razão pela qual assume um especial interesse o estudo de todo o conjunto. A publicação ocasional e o estudo isolado, características que têm marcado a maioria destes achados, tornam mais clara esta carência, desde há muito sentida. Os restos materiais do teatro romano foram objecto de uma primeira intervenção em fase recente, iniciada com uma sondagem no edifício da R. de S. Mamede ao Caldas, n.os 2 e 4B, dirigida por Fernando Almeida, e continuada nos anos seguintes com uma campanha da responsabilidade de Irisalva Moita. Embora de dimensão muito mais reduzida que a da Praça da Figueira, a documentação epigráfica aí recolhida tem um especial significado, em particular a que respeita a este mesmo edifício público cuja importância na vida da cidade se manifesta precisamente em alguns documentos relevantes para compreender a vida pública ou, simplesmente, concernentes ao próprio edifício em si. Neste último caso se encontra a inscrição em caracteres gregos em que se regista o nome Μελπο[με´νη] por baixo de um relevo já fragmentado, descoberto na sequência destas intervenções. Mas estes trabalhos vieram igualmente contribuir igualmente para a redescoberta de alguns elementos da inscrição gravada no púlpito do edifício, já bem conhecida da investigação, em especial graças à documentação produzida por Francisco Xavier Fabri e à publicação de Luís António Azevedo (1815). O reaparecimento parcial deste importante documento (Moita, 1970) relançou a discussão em torno do seu texto, a respeito da qual se suscitou alguma literatura, sem que tal se tenha traduzido em modificações substanciais na interpretação tradicional, consagrada pela obra de Hübner. Mais recentemente, porém, Stylow (2001) propôs uma alteração que afecta o sentido geral do texto, preferindo atribuir uma natureza temporal à titulatura do imperador, que se iniciaria, segundo esta interpretação, com a forma Nerone. Esta sugestão parece aceitável no contexto da epigrafia monumental, mas debate-se com o óbice de não ser suportada por uma transcrição antiga e de pressupor que os editores deste documento epigráfico se equivocaram, malgrado este monumento apresentar, tendo em conta algumas partes subsistentes, uma extraordinária clareza. Talvez por esse facto Luís Fernandes (2005) tenha retomado a proposta tradicional, optando, no entanto, por não reconstituir o texto muito lacunar do segundo vão, precisamente o que coloca mais problemas. No âmbito destes trabalhos se identificaram igualmente algumas inscrições não relacionáveis com este edifício público, mas que correspondem a lápides funerárias, de proveniência muito distinta, mas reaproveitadas ao longo do tempo nas construções dessa área. Embora o seu estado frágil confere uma particular relevância a todo o conjunto, aspecto que sublinha igualmente a necessidade de se tornarem públicos todos os elementos relativos aos trabalhos, alguns dos quais, como se viu, aguardam publicação há mais de meio século. No que concerne estritamente ao domínio da epigrafia, parece que o caso específico da Praça da Figueira poderá proporcionar elementos substanciais para compreender todo o conjunto funerário, de modo a estabelecer o enquadramento das inscrições. Será possível, em suma, traçar as componentes essenciais do ambiente e da paisagem em que se inserem os monumentos, aspecto a que Giancarlo Susini (1982) conferiu uma especial dignidade e que constitui uma forma mais completa e mais complexa de estudar as manifestações que nos ocupam». In Amílcar Guerra, Os Mais Recentes Achados Epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa, Revista Portuguesa de Arqueologia, Volume 9, Número 2, 2006.

Cortesia de RPArqueologia/JDACT

JDACT, Cultura e Conhecimento, Amílcar Guerra, Lisboa, Casa de Estudo,

Os Mais Recentes Achados Epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa. Amílcar Guerra. «Por um lado os textos epigráficos encontram-se quase sempre completos, aspecto que contrasta fortemente com a maioria das inscrições romanas de aparecimento mais recente…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) As circunstâncias particulares que envolveram a fase inicial da investigação levaram a que um outro monumento só fosse noticiado mais tarde. Trata-se de uma epígrafe depositada no Instituto Clássico da Universidade de Lisboa, divulgada apenas cerca de um quarto de século após o seu aparecimento. Por fim, como resultado do tratamento laboratorial de uma cinerária de chumbo depositada na mesma entidade museológica foi identificado um grafito, gravado na tampa desse recipiente. As escavações mais recentes revelaram um panorama idêntico e trouxeram à luz novos achados epigráficos cuja publicação se aguarda para breve. Todo este conjunto constitui sem dúvida o mais representativo núcleo de epígrafes de Olisipo encontradas numa mesma área, apresentando para além disso duas assinaláveis vantagens. Por um lado os textos epigráficos encontram-se quase sempre completos, aspecto que contrasta fortemente com a maioria das inscrições romanas de aparecimento mais recente, quase sempre reduzidas a pequenos fragmentos. Para além disso, foi possível determinar, por vezes com bastante precisão, o seu contexto arqueológico, o que significa que, em certos casos, contamos com dados concretos sobre a natureza dos monumentos em que as lápides se inseriam. Esta conjugação de elementos confere uma particular relevância a todo o conjunto, aspecto que sublinha igualmente a necessidade de se tornarem públicos todos os elementos relativos aos trabalhos, alguns dos quais, como se viu, aguardam publicação há mais de meio século. No que concerne estritamente ao domínio da epigrafia, parece que o caso específico da Praça da Figueira poderá proporcionar elementos substanciais para compreender todo o conjunto funerário, de modo a estabelecer o enquadramento das inscrições. Será possível, em suma, traçar as componentes essenciais do ambiente e da paisagem em que se inserem os monumentos, aspecto a que Giancarlo Susini conferiu uma especial dignidade e que constitui uma forma mais completa e mais complexa de estudar as manifestações que nos ocupam. Esta preocupação, que recentemente Luís Fernandes renovou a propósito da documentação epigráfica do teatro romano de Lisboa, tem neste caso uma idêntica justificação. Também na encosta da Sé, em geral, e no teatro romano e zona envolvente, em particular, se realizaram importantes pesquisas arqueológicas que levaram à identificação pontual de alguns achados epigráficos. De uma maneira geral, estas novas descobertas foram sendo esporadicamente assinaladas ao longo de um período muito dilatado, razão pela qual assume um especial interesse o estudo de todo o conjunto. A publicação ocasional e o estudo isolado, características que têm marcado a maioria destes achados, tornam mais clara esta carência, desde há muito sentida. Os restos materiais do teatro romano foram objecto de uma primeira intervenção em fase recente, iniciada com uma sondagem no edifício da R. de S. Mamede ao Caldas, n.os 2 e 4B, dirigida por Fernando Almeida, e continuada nos anos seguintes com uma campanha da responsabilidade de Irisalva Moita. Embora de dimensão muito mais reduzida que a da Praça da Figueira, a documentação epigráfica aí recolhida tem um especial significado, em particular a que respeita a este mesmo edifício público cuja importância na vida da cidade se manifesta precisamente em alguns documentos relevantes para compreender a vida pública ou, simplesmente, concernentes ao próprio edifício em si. Neste último caso se encontra a inscrição em caracteres gregos em que se regista o nome Μελπο[με´νη] por baixo de um relevo já fragmentado, descoberto na sequência destas intervenções. Mas estes trabalhos vieram igualmente contribuir igualmente para a redescoberta de alguns elementos da inscrição gravada no púlpito do edifício, já bem conhecida da investigação, em especial graças à documentação produzida por Francisco Xavier Fabri e à publicação de Luís António Azevedo (1815). O reaparecimento parcial deste importante documento (Moita, 1970) relançou a discussão em torno do seu texto, a respeito da qual se suscitou alguma literatura, sem que tal se tenha traduzido em modificações substanciais na interpretação tradicional, consagrada pela obra de Hübner. Mais recentemente, porém, Stylow (2001) propôs uma alteração que afecta o sentido geral do texto, preferindo atribuir uma natureza temporal à titulatura do imperador, que se iniciaria, segundo esta interpretação, com a forma Nerone. Esta sugestão parece aceitável no contexto da epigrafia monumental, mas debate-se com o óbice de não ser suportada por uma transcrição antiga e de pressupor que os editores deste documento epigráfico se equivocaram, malgrado este monumento apresentar, tendo em conta algumas partes subsistentes, uma extraordinária clareza. Talvez por esse facto Luís Fernandes (2005) tenha retomado a proposta tradicional, optando, no entanto, por não reconstituir o texto muito lacunar do segundo vão, precisamente o que coloca mais problemas. No âmbito destes trabalhos se identificaram igualmente algumas inscrições não relacionáveis com este edifício público, mas que correspondem a lápides funerárias, de proveniência muito distinta, mas reaproveitadas ao longo do tempo nas construções dessa área. Embora o seu estado frágil confere uma particular relevância a todo o conjunto, aspecto que sublinha igualmente a necessidade de se tornarem públicos todos os elementos relativos aos trabalhos, alguns dos quais, como se viu, aguardam publicação há mais de meio século. No que concerne estritamente ao domínio da epigrafia, parece que o caso específico da Praça da Figueira poderá proporcionar elementos substanciais para compreender todo o conjunto funerário, de modo a estabelecer o enquadramento das inscrições. Será possível, em suma, traçar as componentes essenciais do ambiente e da paisagem em que se inserem os monumentos, aspecto a que Giancarlo Susini (1982) conferiu uma especial dignidade e que constitui uma forma mais completa e mais complexa de estudar as manifestações que nos ocupam». In Amílcar Guerra, Os Mais Recentes Achados Epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa, Revista Portuguesa de Arqueologia, Volume 9, Número 2, 2006.

Cortesia de RPArqueologia/JDACT

JDACT, Cultura e Conhecimento, Amílcar Guerra, Lisboa, Casa de Estudo,

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Os Mais Recentes Achados Epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa. Amílcar Guerra. «As mais antigas acções aí realizadas, foram empreendidas por Irisalva Moita na sequência do aparecimento de importantes vestígios arqueológicos afectados por essa obra…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Por circunstâncias que não cabe no âmbito deste trabalho enunciar, mas normalmente relacionadas com o desenvolvimento de projectos urbanísticos e em consequência de um novo enquadramento legal de obras públicas em centros históricos, desenrolaram-se na cidade, em especial nas duas últimas décadas, muitas intervenções arqueológicas. Um número significativo decorreu na área que corresponderia ao espaço da antiga Olisipo, genericamente centrada em torno do morro do Castelo, mas abarcando igualmente algumas zonas baixas, nomeadamente o cordão que circunda esta elevação desde a actual Praça do Martim Moniz até à zona ribeirinha do Tejo por altura do Chafariz do Rei, passando pela Baixa Pombalina. Esta intensa actividade arqueológica acabou por produzir resultados substanciais, infelizmente nem sempre tornados públicos com a desejável celeridade e com o necessário rigor. As consequências desta multiplicação das intervenções fizeram-se sentir inevitavelmente no domínio das inscrições romanas da cidade ao proporcionarem um conjunto de elementos que pode considerar-se muito relevante para a compreensão da história de Olisipo, quer pelo seu número, quer pela importância. No período que decorre da publicação do último repertório de inscrições romanas da cidade, que abarca os últimos sessenta anos, o panorama foi já substancialmente acrescentado, em especial devido a algumas intervenções em áreas muito distintas. Em primeiro lugar, pela sua importância e notoriedade, figuram os trabalhos realizados na Praça da Figueira e imediações: nos anos ‘60, em consequência da abertura da linha de metropolitano no espaço onde actualmente se encontra a estação do Rossio e, mais recentemente, nos anos ‘90, como resultado de uma intervenção arqueológica que precedeu a construção de um parque de estacionamento subterrâneo. As mais antigas acções aí realizadas, foram empreendidas por Irisalva Moita na sequência do aparecimento de importantes vestígios arqueológicos afectados por essa obra, o que levou a primeira visita ao local em 7 de Fevereiro de 1961 e ao acompanhamento dos trabalhos, repletos de atribuladas vicissitudes, sem que fosse possível suster o avanço da destruição, a não ser por um curto período. As suas reiteradas diligências acabaram, finalmente, por conduzir à entrada no processo da Junta Nacional de Educação, que assumiu a responsabilidade pelos trabalhos mais de um ano depois daquela data e empreendeu escavações no local. Esta intervenção sistemática, dirigida por Fernando Bandeira Ferreira permitiu identificar uma necrópole romana relativamente bem preservada, mas já profundamente afectada, na qual se encontraram algumas lápides funerárias, que constituem actualmente uma boa parte do espólio epigráfico da colecção do Museu da Cidade, em Lisboa. Apesar das condições em que decorreram estas acções, registou-se ao mesmo tempo um número significativo de sepulturas, bem como o seu amplo recheio, por vezes recolhido já fora do contexto. Na apresentação dos primeiros resultados destes trabalhos e do seu espólio mais significativo deu-se conta do aparecimento de lápides em diferentes publicações, como consequência da atribulada história que envolve os achados. Como resultado das responsabilidades assumidas na direcção da pesquisa, Fernando Bandeira Ferreira publicou, em colaboração com Justino Mendes Almeida, quatro monumentos, três dos quais com contexto arqueológico conhecido. Outras quatro epígrafes foram recolhidas por Irisalva Moita, que delas deu notícia na pormenorizada na descrição das suas diligências e no repertório dos achados que a acompanha, duas das quais já anteriormente assinaladas». In Amílcar Guerra, Os Mais Recentes Achados Epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa, Revista Portuguesa de Arqueologia, Volume 9, Número 2, 2006.

Cortesia de RPArqueologia/JDACT

 DACT, Cultura e Conhecimento, Amílcar Guerra, Lisboa, Casa de Estudo, 

Os Mais Recentes Achados Epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa. Amílcar Guerra. «O núcleo evidencia grande diversidade, tanto no estado de conservação dos textos como no que respeita ao seu contributo para a história do municipium Olisiponense»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Dá-se a conhecer uma dezena de monumentos epigráficos em língua latina, identificados no decurso de diversos trabalhos arqueológicos levados a cabo no interior do Castelo de S. Jorge, em especial na zona da chamada Praça Nova. O núcleo evidencia grande diversidade, tanto no estado de conservação dos textos como no que respeita ao seu contributo para a história do municipium Olisiponense. A heterogeneidade manifesta-se igualmente no que concerne à cronologia das inscrições, abarcando uma ampla diacronia que vai desde o período alto-imperial até à Alta Idade Média. A esta última fase pertencem alguns exemplares que se integram no que se designa como epigrafia paleocristã, os quais constituem um interessante contributo para a análise das transformações ocorridas neste período pouco conhecido da história da cidade». In Resumo

«O conjunto epigráfico de Olisipo e do seu território constitui um dos mais numerosos da Península Ibérica e a análise da sua distribuição tem posto em evidência a elevada concentração de inscrições nesta área (Mócsy, 1985). Este facto excepcional decorre, em primeiro lugar, da circunstância d’a cidade se ter afirmado como uma importante área agrícola e, ao mesmo tempo, como a principal plataforma comercial da Lusitânia. Estas circunstâncias reflectem-se, inevitavelmente, no poder económico dos seus habitantes, bem como no desenvolvimento urbano e na demografia da cidade. Mas a importância deste repertório resulta igualmente do facto de a comunidade cívica ter adquirido, desde cedo, o estatuto privilegiado de municipium civium Romanorum, aspecto que está na base de uma intensa vida pública (Mantas, 1994), espelhada em diversas manifestações epigráficas. Contudo, o especial relevo que este amplo repositório de inscrições assume deve-se, em boa parte, à excepcional riqueza do território do municipium e dos seus importantes núcleos de inscrições, entre os quais sobressai o da região de Sintra, o qual, só por si, apresenta mais inscrições que a própria urbs. Mas, para além deste, há que ter em conta os achados do restante espaço rural, com especial relevo para a área que actualmente corresponde aos concelhos de Torres Vedras e Cascais. Merece ainda uma referência especial a região de Mafra, onde se tem vindo recentemente a registar também um número considerável de novas epígrafes, que aproxima esta área, tradicionalmente mais pobre neste aspecto, das zonas contíguas. Não devemos, por fim esquecer, que o território de Olisipo beneficia de um outro factor que deve ter contribuído de forma substancial para esta excepcional dimensão do repertório epigráfico, a saber, a existência de matéria-prima abundante e de muito boa qualidade, a qual serviu de suporte a uma grande parte dos monumentos erigidos na região. Foi em especial utilizado um calcário local, conhecido habitualmente como lioz, por vezes designado como pedra lioz ou mesmo mármore lioz, o qual parece ter sido explorado em diversos lugares da Península de Lisboa, em particular na área de Pero Pinheiro, onde ainda hoje se mantém essa actividade extractiva de considerável significado económico tanto na antiguidade como agora. Na sua globalidade, o repertório de todo o território olisiponense rivaliza com o mais amplo da província, aquele que corresponde à colónia Emeritensis, a sua capital. Por outro lado, contrasta com o de Scallabis, particularmente pobre em número e em qualidade, apesar de a cidade corresponder à sede da circunscrição jurídica romana da qual depende Olisipo. O exemplo escalabitano demonstra, com clareza, nem sempre existir uma relação directa entre a importância administrativa de lugar e a quantidade e qualidade dos vestígios epigráficos que subsistiram. Trata-se, no entanto, de um caso que configura mais uma situação de excepção que uma regra, para o qual falta ainda encontrar uma explicação satisfatória. O panorama oferecido pela realidade olisiponense, no qual a riqueza das manifestações epi[1]gráfica se sobrepõe à importância política e económica do aglomerado, é de facto, a norma. Nesta cidade se constata igualmente que o já vasto conjunto epigráfico se tem vindo a enriquecer nos últimos tempos a um ritmo considerável, com achados que vão sublinhando a vivacidade do centro urbano ao longo do tempo e a prosperidade dos seus habitantes». In Amílcar Guerra, Os Mais Recentes Achados Epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa, Revista Portuguesa de Arqueologia, Volume 9, Número 2, 2006.

Cortesia de RPArqueologia/JDACT

JDACT, Cultura e Conhecimento, Amílcar Guerra, Lisboa, Casa de Estudo,