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quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Aníbal Belo (1945-2001). Carta de Marvão. «… aliviava-se, com prazer, a falar de teatro, de tipografias, dos presencistas, e muito especialmente de Francisco Bugalho, e de José Régio…»

jdact

NOTA:: Mário Rainho faleceu no dia 2 de Janeiro de 2025, com 97 anos

«Daquele aconchego agasalhante, dado a peregrino de longe que vinha pedir pousada, tomei boa nota para a vida, evocando, da memória, os versos de ouro de Pitágoras, quando impõem o dever de honrar os pais e de agradecer a hospitalidade do estalajadeiro. Agora, em triunvirato, o Garcia, eu e o Mário Rainho continuamos a nova rota traçada por via de destinos e de circunstâncias, enleados de redes de sentimentos e de olhares, que o andar dos passos mostraram ser comuns.

O Mário Rainho aproveitou para me levar às Casas Amarelas, que mais não eram do que a sede do poder judicial, onde também estava instalada a Conservatória Registral, que ele próprio personalizava. De notável espírito de observação, era ali, por dentro daquelas janelas de guilhotina, o seu terreiro profissional, onde a sua vocação se professava, à lente, a analisar os documentos e cartas públicas do notário de Marvão, que, todas as semanas, desapiedadamente, lhe deixava, aos montes, fruto da sua exaração semanal, com letra miudinha, o que o obrigava a levantar, obliquamente, os óculos, para enxergar as certezas daquelas verdades declaradas.

Haveria eu de lembrar por muitos anos a sua assinatura, com uma grande cauda sobreposta e alongada, quase elíptica, a abranger o seu nome todo, que, com o andar dos anos, de elisão em elisão, se ia sintetizando, desnudando-se dos arredondamentos originários. No intervalo dos seus tiques registrais, aliviava-se, com prazer, a falar de teatro, de tipografias, dos presencistas, e muito especialmente de Francisco Bugalho e do irmão e de José Régio e das suas Histórias de Mulheres, entretendo-se na discussão da lenda de misoginias, que acerca dele se cultivavam. Os dias futuros haviam de me mostrar a sua enorme e talentosa capacidade de interpretar papéis, de difícil tradução, na arte de representar.

Era ininterrupta a sua constância, no apelo aos elementos da sua equipa de teatro, que dirigia, exigindo-lhes presenças, que só a luta contra o cómodo da televisão vencia, deixando-as, livres, para o ensaio ou para a declamação. A militância por todos os valores da sua terra faziam dele um centro de atenções, que testemunhava a circum-navegação de todos os acontecimentos colectivos na Vila. O Mário Rainho não era qualquer pessoa subalterna a valores do espírito, sempre rente ao saber, sempre ao pé do sortilégio da beleza incandeante, que o motivara a ser quem é, formatado pelas circunstâncias da vida, marcada que foi, logo na infância, pelas letras que apreendera a colocar na tipografia, umas ao lado das outras, o que lhe propiciou o amanhecente gosto pela leitura. Era um caso típico de autodidaxia, no qual conseguiu forjar uma personalidade de vigores e robustecimentos, donde emergem virtudes e valências, que sobrepairam à vulgar mediania, onde, latentes, as mediocracias medram.

O Mário Rainho, agradecido ao acaso por aquele tão fortuito encontro, contente de mim, ao lado dele e do Garcia, ao seu lado, ia ilustrando a Vila dos seus varões ilustres, do passado e do presente, quando me sugeriu, por ali estarmos perto, dar uma saltada à Câmara da vila, onde o Presidente Carolino teria, com certeza, prazer em conhecer-me, e com quem eu gostaria de falar. Que sim, que era boa ideia, e lá fomos os três, ao mesmo tempo, ao mesmo lado, como que a gradar as ruas e os acontecimentos que se tinham rebolado sobre elas.

Seguimos pelas Carreiras de Cima e fomos lá à frente, onde parámos, para entrar, subindo, uma grande escadaria, que se atingia, depois de ultrapassado um precioso portão de ferro forjado, como que a dizer do subido e superior ar daquela casa municipal, domicílio das respostas às solicitações dos cidadãos da vila e do seu termo. O Presidente apareceu, o Mário Rainho disse quem eu era, e com saudações contagiantes nos cumprimentámos, com delicadezas mútuas, que o tempo haveria de decretar duradoiras». In Aníbal Belo, Carta de Marvão, Edições Universidade Fernando Pessoa, 2001, ISBN-972-8184-66-2.

Cortesia da U.F. Pessoa/JDACT

Castelo de Vide, Mário Rainho, Aníbal Belo, Marvão, JDACT, 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Aníbal Belo (1945-2001). Carta de Marvão. «E a mim, narrador do futuro, testemunha credenciada de consensos, aprouve-me a função de assistir àquele acontecido encontro, forrado, para aquém, da espessura dos dias».


NOTA:: Mário Rainho faleceu no dia 2 de Janeiro de 2025, com 97 anos

«Engenheiro civil, caiu-lhe, no trabalho da vida, a tarefa de ir dirigir a construção do caminho-de-ferro do ramal de Cáceres. E, nessa qualidade, tinha que retalhar os tapadões, as tapadas, as hortas e os currais, que a estrada de ferro tinha naturalmente de dividir, cabendo-lhe o odioso de ferir, com golpes de espada, as heranças avoengas ou as deixas testamentárias de muitas gerações e os códigos de honra, que o estatuto de posse foi criando no deambular dos séculos. De fina sensibilidade, o engenheiro de tudo ia tomando conta e nota, inventariando emoções e retratos de personagens, com que criou a comédia de costumes imortalizadora.

O Mário Rainho alongava-se em biografias e hagiografias, em dados contornos, enquanto eu, de espírito cada vez mais giratório, me espairecia na lonjura dos acontecimentos, para trás e para a frente dos carris do tempo, ora evocando´Camilo Castelo Branco, que dizia que até os pardais se assustavam com aquele touro negro de ferro, a galgar as travessas, ora colocando o engenheiro Horta, na dianteira, a corrigir erros e cálculos do fidalgo João na estação de Caminho de Ferro da Beirã».

No dissêncio dos dias, consegui pô-los a conversar acerca de cálculos, topografias e texturas de construção, conseguindo, com inegável sucesso, que o tempo se encurtasse para ser mais legível a história e mais fácil a construção dos amanhãs. Bom conhecedor do cadastro de Marvão, o Horta agradeceu a João da Câmara os seus ensinamentos, este louvou-lhe as simpatias e as referências da memória.

E a mim, narrador do futuro, testemunha credenciada de consensos, aprouve-me a função de assistir àquele acontecido encontro, forrado, para aquém, da espessura dos dias. O meu ajudante, com a fraqueza das forças a afadigarem as suas energias, foi-me levando para o jardim do Parque, todo recheado de árvores frondosas, de cujos galhos os passarinhos faziam coreto, para aí entoarem seus trinados de alegria. Era um jardim cuidado e frequentado por gente, que dele fazia uso vivo. Pessoas sentadas nos bancos, com ar despreocupado e livre, conversavam amenamente com figurantes que passavam, e a quem davam dedos grandes de conversa, para terapia da monotonia ou da solidão da mesma mesmice dos dias.

E, enquanto ele me continuava a falar das rivalidades com Marvão, eu, a boiar em mim, ia estendendo o olhar gostoso para aquela natureza, ali trabalhada e ordenada, quando, ao subir a ladeira, nas suas calmas, me apontou para a estalagem, que se esquinava no encontro de duas ruas. Era a Casa Parque, de construção de meados do século, denotando qualidade bastante para compensar os meus depauperados aposentos, já com descrição acima». In Aníbal Belo, Carta de Marvão, Edições Universidade Fernando Pessoa, 2001, ISBN-972-8184-66-2.

Cortesia da U.F. Pessoa/JDACT

 Castelo de Vide, Mário Rainho, JDACT, O Saber,

Carta de Marvão. Aníbal Belo (1945-2001) «… esquina volvida, aparece o Mário Rainho, director de um grupo de teatro, um homem com quem havia de privar alguns anos, com um notável espírito de observação, supremamente evidenciado pelo anexim de observa, com que os homens da terra o marcaram»

jdact

NOTA:: Mário Rainho faleceu no dia 2 de Janeiro de 2025, com 97 anos

«O filósofo veio à janela, olhou, de dentro para fora, e de cima para baixo, e, ao ver o frade branco, insultou-o, com muitos ralhos, com imprecações intermináveis, com maldições eternas .E, em altos berros e espadaladas várias, aparece ali naquela cena, saído de trás do reposteiro do tempo, esparvoado, o franciscano inglês Roger Bacon, a tomar partido pelo dono da casa, a quem tutorava naquele trabalho de ópticas, por sua conta desde o século XII, que não era mais que negócio de óculos e lentes de contacto...

E palavra puxa palavra, doutrina puxa doutrina, frade não deve a frade, vamos à bulha e todos ao monte, e o dominicano com o seu manto branco, muito mais sujo da refrega que o hábito castanho do franciscano. Spinoza, o judeu filósofo, agradecido, ia virar as costas para continuar a lapidar, quando, de repente e ofegante, chega o Richard Zimler do novo mundo, para fazer a acta do ali acontecido, trazendo como testemunha cientificadora o Alexandre Quintanilha, talvez para escrever agora sobre o último cabalista de Castelo de Vide, ensinando ao filósofo qual o melhor trajecto para a sinagoga portuguesa de Amesterdão.

João III, o Piedoso, apiedou-se de si e, sentado no banco da Fonte, que era o suporte de cântaros e bilhas de água ou o poiso das apeias das azémolas, com a cara escondida entre as mãos, para não ver o que deixou para o futuro, soluçava com gritos de permeio, que se ouviam a séculos de distância.

O Garcia, impressionado com aquele espectáculo dramático, deitou-me o olhar com tons complacentes, a sustentar desculpas por aquela ocorrência, rogando-me, por instantes, compreensão, e foi-me afastando daquele território, daquela cena, que mais parecia teatro vicentino do que momento azíago de declamação ocasional de papéis, previamente estudados, nas intertelas do devir dos acontecimentos.

Falava-me ele de teatro, falava eu de tragédia, de fingimentos na arte de representar na vida e das máscaras gregas de Epidauro, quando, esquina volvida, aparece o Mário Rainho, director de um grupo de teatro, um homem com quem havia de privar alguns anos, com um notável espírito de observação, supremamente evidenciado pelo anexim de observa, com que os homens da terra o marcaram.

Era uma pessoa recheada de singularidades, de alto e belo espírito, que também se embevecia de belezas. De entretém, de oportunidade, ao ver-me ser solidário nesses afazeres da alma, com delicadeza nos conduziu para uma outra rua e, postando-se em frente a uma casa, de altos e baixos, disse-me que ali tinha vivido o grande dramaturgo João da Câmara, autor da comédia OS VELHOS, cuja génese tinha, como terreiro, a freguesia de Santo António das Areias e cuja acção se essenciava na reacção da população daquele povo à chegado do comboio». In Aníbal Belo, Carta de Marvão, Edições Universidade Fernando Pessoa, 2001, ISBN-972-8184-66-2.

Cortesia da U.F. Pessoa/JDACT

 Castelo de Vide, Mário Rainho, Aníbal Belo, JDACT, 

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Igreja da Misericórdia de Olivença. Maria do Rosário Cordeiro Carvalho. «Se a cena central do lado do Evangelho ainda pode ser relacionada com a temática superior, constituindo os camponeses uma alusão aqueles a quem se dirigia o profeta Habacuc…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Doutora Rosário Cordeiro Carvalho

Os painéis do sub-coro e nave

«(…) Os rodapés dos dois painéis da nave obedecem à mesma estrutura. As mísulas dividem-nos em três painéis, os dois das extremidades com a figuração de um pelicano a amamentar as suas crias, numa composição assente sobre um mascarão e flanqueada por dois anjos, encostados à base que é uma grinalda de flores e frutos, sobre volutas e acantos. O do centro do lado do Evangelho exibe uma paisagem, um casario, com torre ameada, duas figuras a trabalhar no campo, e outras junto a um rio. Do lado da Epístola, figura um jardim, com edifícios ao fundo, uma fonte à direita e duas figuras nobres à esquerda, a passear.

Se a cena central do lado do Evangelho ainda pode ser relacionada com a temática superior, constituindo os camponeses uma alusão aqueles a quem se dirigia o profeta Habacuc antes de ser desviado para a cova dos leões, do lado oposto essa ligação torna-se muito mais difícil, apesar da representação em causa ser uma fonte, mas monumental e de aparato. Este género de representações da natureza bucólica referem-se à vida civilizada, à acção do Homem de fé, sendo entendidas como um contraponto à vida selvagem daqueles que não cumprem os preceitos religiosos. Neste caso, surgem enquanto símbolos das próprias obras de misericórdia que podem ser entendidas como instrumentos de acção que, através da ajuda ao próximo, transformam o mundo num lugar melhor. Quanto ao pelicano, ele é entendido como símbolo de Cristo e da misericórdia, pois alimenta os seus filhos com o próprio sangue.

Regressando ao sub-coro, cobrir os nus inspira-se no Génesis, quando Adão e Eva, Cobrir os nus depois do pecado original ficam nus e Deus lhes ofereceu túnicas de peles. A cartela indica esta mesma passagem, ainda que com a referência errada, pois trata-se do versículo 21: FECIT QVO QVE DOMINVS DEVS ADAE ET UXORIAJVS TVNICAS PE LLICEAS ET INDVIT EOS Gen. Cap. 3º O Senhor Deus fez a Adão e à sua mulher túnicas de peles e vestiuos. Numa vasta paisagem, com árvores diversas (até uma muito alta palmeira), arbustos, vales e montanhas ao fundo, e curiosamente, um leão, dois elefantes e dois bois (?),surgem Adão e Eva, cobertos por folhas de figueira, a levantar-se do seu esconderijo atrás de um arbusto. De entre uma nuvem, Deus Pai estende as vestes, que não são de pele de animais, e é Adão quem se estica para as alcançar. Apesar da preocupação com a nudez, é notório um dos seios de Eva. Deus é representado como um homem de barbas, com um raio de luz a envolve-lo, e Adão e Eva são dois estranhos personagens, principalmente Adão, com as costelas demasiado vincadas a sugerir uma magreza absoluta. O pintor parece ter respeitado o texto bíblico, caracterizando o paraíso como a savana, com leões e elefantes. Só as túnicas não parecem ser de peles de animais sacrificados». In Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Igreja da Misericórdia de Olivença, Caso de Estudo, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia

JDACT, Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Caso de Estudo, Castelo de Vide, Património, Conhecimento, Olivença, 

domingo, 25 de setembro de 2022

Igreja da Misericórdia de Olivença. Maria do Rosário Cordeiro Carvalho. «Duas crianças e um cão fazem a ligação entre este grupo e o que está junto à água. Atrás, uma figura feminina ajoelhada e uma série de homens e mulheres»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Doutora Rosário Cordeiro Carvalho

 Os painéis do sub-coro e nave

«(…) Em seu redor, e nas mais variadas posições, encontram-se oito leões, o que respeita o número par habitual, mas é mais do que o normal. Ossos, esqueletos e caveiras pretendem acentuar a voracidade dos animais. Do céu, surge um anjo que transporta o profeta pelos cabelos, enquanto este faz tensão de dar a Daniel uma cabaça fechada e segura no outro braço um cesto. Atrás deste primeiro plano, há mais paisagens, que enquadram o púlpito, observando-se pessoas em movimento. Parecem ser os trabalhadores que ceifavam no campo. Do outro lado do púlpito, o painel continua com uma paisagem e árvores que dominam toda a área. É possível que o púlpito já existisse neste mesmo local pois, apesar de interromper a composição, a cena de Daniel está concentrada numa parte do pano murário, o que se justifica pela presença deste elemento arquitectónico.

Para além da obra de misericórdia que representa, este episódio de Daniel pode ser entendido como um testemunho de protecção divina, como uma prefiguração de Cristo que sai do sepulcro ou da Imaculada Conceição de Maria, pois Habacucu entrou sem quebrar os selos. Do lado oposto, Moisés faz brotar água da rocha, numa imagem que é entendida como dar de beber aos que têm sede. A cartela alude ao exacto momento em que Moisés realizou o milagre: EGRESSAE SUNTI AQUAE LARGI SSIMAE ITA VT POPULUS BIBE RET ET IUMENTA Numer. Cap. X, Moisés levantou a mão e bateu com a sua vara duas vezes no rochedo. Jorrou, então, tanta água que a assembleia e seus rebanhos puderam beber.

Uma vez mais, as referências bíblicas foram mal copiadas, pelo que o capítulo é o 20º e não o 10º.

Ao duvidar de Deus, por não ter o que beber, o povo revoltou-se contra Moisés, que se reuniu com Aarão para tentar resolver a questão. Foi quando surgiu o Senhor que os mandou reunir a assembleia e deu a vara a Moisés com a qual ele fez brotar a água. Num nível superior ao plano onde se encontram dois grupos de ovelhas, a composição é dominada pelo rochedo que toma a forma de um arco. Sob este, dois homens encostados a uma pedra observam outros dois a recolher a água numa bilha. É do lado esquerdo que se concentram as figuras, com Moisés em primeiro plano, com a varinha que faz brotar água do rochedo. Duas crianças e um cão fazem a ligação entre este grupo e o que está junto à água. Atrás, uma figura feminina ajoelhada e uma série de homens e mulheres». In Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Igreja da Misericórdia de Olivença, Caso de Estudo, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia

JDACT, Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Caso de Estudo, Castelo de Vide, Património, Conhecimento, Olivença, 

sábado, 24 de setembro de 2022

Igreja da Misericórdia de Olivença. Maria do Rosário Cordeiro Carvalho. «Se esta zona foi pintada com pinceladas mais ténues, para dar a ilusão de perspectiva, a cena em primeiro plano ganha maior destaque pelo enquadramento do pórtico, que enquadra a figura de Jesus»

Cortesia de wikipedia e jdact

 Com a devida vénia à Doutora Rosário Cordeiro Carvalho

 Os painéis do sub-coro e nave

«(…) À esquerda encontra-se um grupo de figuras, onde se inclui o paralítico, sentado, que olha para Jesus, cuja mão se eleva num gesto de benção, encontrando-se um homem atrás a observar a cena e um outro à frente, em contraponto. O homem parece estar deitado na sua cama, ou seja, a enxerga de que fala São João. Atrás ergue-se uma espécie de pórtico, formado por duas pilastras a que se adoçam duas esculturas, suportando as primeiras o entablamento, onde assentam as urnas laterais e os querubins que se apoiam no brasão central, sem representação de armas e com uma curiosa cabeça de pato a rematá-lo. É um dos cinco pórticos referidos no Evangelho, onde o paralítico jaze há já trinta e oito anos. Na paisagem fundeira, distingue-se uma piscina, e três figuras junto dela, tal como um anjo. Se esta zona foi pintada com pinceladas mais ténues, para dar a ilusão de perspectiva, a cena em primeiro plano ganha maior destaque pelo enquadramento do pórtico, que enquadra a figura de Jesus.

Na nave, o painel de grandes dimensões ilustra Daniel na cova dos leões, e é uma alusão a dar de comer aos famintos. A cartela assim o corrobora, ainda que o algarismo final do versículo não esteja pintado: FER PRANDIUM QUOD HA BES, INBABILONEM DANIELI QI EST IN LACU LEONU Daniel Cap. 14 v: Porém, um anjo do Senhor disse-lhe: Levas esta refeição à Babilónia, a Daniel que se encontra na cova dos leões. Tal como no painel anterior, o pintor parece obedecer rigorosamente ao relato bíblico. Ao recusar-se a venerar outro Deus que não o Senhor (Bel que Daniel destruiu, e um dragão que Daniel matou sem armas), Daniel acabou por ir parar à cova dos leões, para ser devorado por estes. Mas Deus enviou-lhe o profeta Habacuc, da Judeia, com a refeição destinada aos ceifeiros que trabalhavam no campo. Transportado por um anjo, alimentou Daniel que escapou incólume aos sete leões, ganhando assim o respeito do Rei, que uma semana depois esperava encontra-lo morto. Num cenário natural, mas com grutas construídas e cavernas, em arcos de volta perfeita, Daniel, enleado nas suas vestes e numa posição estranha, com a perna muito cruzada sobre a outra, estende as mãos para cima, para aceitar a comida do profeta». In Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Igreja da Misericórdia de Olivença, Caso de Estudo, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia

JDACT, Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Caso de Estudo, Castelo de Vide, Património, Conhecimento, Olivença,

domingo, 15 de maio de 2022

Igreja da Misericórdia de Olivença. Maria do Rosário Cordeiro Carvalho. «Os painéis revestem a totalidade dos panos murários, envoltos por cercaduras rectilíneas decoradas por enrolamentos de acantos…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Doutora Rosário Cordeiro Carvalho

 Os azulejos com representações de obras de misericórdia

«(…) A igreja da Misericórdia de Olivença exibe um conjunto de representações azulejares de obras de misericórdia corporais, com evidentes diferenças de tratamento entre os painéis do sub-coro / nave e da capela-mor. Estas diferenças manifestam-se, também, ao nível iconográfico, pois há temas que se repetem nos dois espaços, indiciando a possibilidade de se estar perante programas distintos, concebidos de forma independente. No sub-coro e nave foram seleccionadas apenas quatro obras, curar os enfermos, dar de comer aos famintos, cobrir os nus e dar de beber aos que têm sede. Na capela-mor, surgem seis obras, com maior ênfase para curar os enfermos, cobrir os nus, dar de comer aos famintos e enterrar os mortos.

Em cartelas inferiores figura dar de beber aos que têm sede e dar pousada aos peregrinos e pobres. A questão dos presos e cativos ficou excluída deste programa.

Os painéis do sub-coro e nave

Os painéis revestem a totalidade dos panos murários, envoltos por cercaduras rectilíneas decoradas por enrolamentos de acantos. Na zona inferior dos painéis do sub-coro, as mísulas nas extremidades, enquadram as cartelas ladeadas por anjos, com a referência bíblica à cena representada. Na nave, as mesmas mísulas definem zonas intermédias onde figuram pelicanos, sendo a tarja inferior da cercadura interrompida por dois anjos e uma cartela com a citação bíblica, em latim. Assim, não há uma identificação directa da obra de misericórdia que figura em cada um dos painéis, mas a alusão à passagem bíblica que a inspirou contribui para tornar mais evidente o sentido da representação. Note-se a preferência clara pelas referências ao Antigo Testamento.

A disposição na igreja deste conjunto de obras parece não obedecer a critérios conhecidos, facto agravado pela inexistência de qualquer indicação sobre o seu número ou enunciado. Em todo o caso, e tomando a preposição dos textos que inspiraram outros programas do género, observa-se que a primeira obra seria a da nave do lado do Evangelho, evoluindo no sentido dos ponteiros do relógio para terminar no sub-coro, do mesmo lado. Por outro lado, existem enunciados em que a primeira obra é curar os enfermos, seguindo a mesma ordem de Olivença, também no sentido dos ponteiros do relógio, começando no sub-coro do lado do Evangelho mas saltando os cativos para dar lugar aos nus. O único texto inventariado que respeita uma leitura circular, com início no sub-coro do lado do Evangelho e término do lado oposto, é a obra de Jerónimo Ripalda, Doctrina Christiana com una exposición breve, escrita em 1591. Enfim, como se verá no final deste texto, a opção que parece ganhar mais força e consistência é a que privilegia a complementaridade entre ambos os panos murários do sub-coro e da nave, mas também do coro alto.

A primeira representação do sub-coro refere-se a curar os enfermos, e tem como mote a cura do paralítico na piscina de Betzatá. A cartela transcreve a passagem do Evangelho de São João, indicando tratar-se do versículo 7 do capítulo 5, embora, na verdade, a citação corresponda ao versículo 6: VIS SANUS FIERE Joan. Cap. 5º v 727 / Jesus, ao vê-lo prostrado e sabendo que já levava muito tempo assim, disse-lhe: Queres ficar são? O painel consegue uma síntese de grande interesse da versão de São João, ilustrando boa parte dos pormenores relatados, que diferem dos textos dos restantes três evangelistas.

A piscina de Betzatá ou Betesdá (Casa da Misericórdia) era um local frequentado por enfermos e aleijados que aí permaneciam na esperança de um milagre: um anjo deveria, de tanto em tanto tempo, agitar a água e o que submergisse primeiro ficaria curado. Estava longe de ser uma tarefa fácil para quem tinha dificuldade de locomoção, sendo sempre ultrapassados pelos mais ágeis, razão pela qual Jesus interveio a favor de um paralítico. A piscina pode estar associada, simultaneamente, ao Baptismo e à ideia de purificação pela água, do nascer de novo, neste caso para uma vida sem problemas físicos mas também espirituais: Não peques mais, para que não te suceda coisa pior (Jo 5, 14). Este episódio marca, ainda, o início da perseguição dos Judeus a Jesus, pois Este curou o paralítico a um sábado, o que era contra a lei». In Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Igreja da Misericórdia de Olivença, Caso de Estudo, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia

JDACT, Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Caso de Estudo, Castelo de Vide, Património, Conhecimento,

sábado, 14 de maio de 2022

Igreja da Misericórdia de Olivença. Maria do Rosário Cordeiro Carvalho. «Infelizmente, os Livros de Receitas e Despesas referentes aos anos de 1716 a 1725 desapareceram, razão pela qual é mais difícil documentar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Doutora Rosário Cordeiro Carvalho

A encomenda e a autoria dos azulejos

«(…) Infelizmente, os Livros de Receitas e Despesas referentes aos anos de 1716 a 1725 desapareceram, razão pela qual é mais difícil documentar quer a campanha retabular quer a azulejar. De qualquer forma, antes de analisar a questão da autoria e da atribuição de alguns dos painéis cerâmicos, importa definir, na medida do possível, as encomendas e as remessas de azulejos que foram chegando a Olivença. Na verdade, há notícia de que, em 1716, a Misericórdia recebeu azulejos para a decoração da capela, mas a falta de documentação não permite perceber se estes foram sendo enviados, terminando a encomenda em 1723, ou se são independentes da campanha assinada por Manuel Santos. De acordo com Miguel Angel Vallecillo Teodoro, esta remessa, que decorreu entre 1716 e 1718, corresponde aos azulejos da capela-mor, remetendo os de Manuel Santos para uma encomenda datada de 1722 e concluída em 1723, mandada executar pelo procurador da Misericórdia, o letrado Manuel Luís Soares. Por esclarecer fica também a possibilidade dos azulejos da primeira campanha terem sido guardados e aplicados apenas em 1723, já que António Roiz pagou a seis homens, que demoraram mês e meio para assentar os azulejos, o valor de 24.879 reis. A inexistência de documentação para este período não permite avançar com mais hipóteses. É precisamente sobre estes painéis da capela-mor que recaem as maiores dificuldades de atribuição e datação, uma vez que a assinatura de Manuel Santos e a data de 1723 não deixa grande margem para dúvidas sobre os azulejos da nave. Os primeiros a escrever sobre o conjunto cerâmico da Misericórdia de Olivença, Matos Sequeira e Rocha Júnior, atribuíram os painéis da capela-mor a Gabriel del Barco. Ao contrário destes e dos investigadores posteriores, Santos Simões não refere qualquer diferença de tratamento entre os dois espaços, apenas isolando o coro alto, que data de cerca de 1735, atribuindo a trabalho anónimo das oficinas do Mocambo. Já no inventário dos Açores e da Madeira, a propósito da Igreja do Livramento, atribui os azulejos da capela-mor de Olivença a P.M.P. Esta é a data que José Meco aponta para a capela-mor, concordando com Rosa Maria del Rincón, e atribuindo as cartelas a Policarpo Oliveira Bernardes. Por sua vez, Joaquim Torrinha defende a autoria do Mestre P.M.P. para a capela-mor e cartelas, enquanto atribui a de Manuel Santos o coro alto, concordando nesta última hipótese com Rosa Maria del Rincón e com Miguel Angel Vallecillo Teodoro». In Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Igreja da Misericórdia de Olivença, Caso de Estudo, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia

JDACT, Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Caso de Estudo, Castelo de Vide, Património, Conhecimento,

Igreja da Misericórdia de Olivença. Maria do Rosário Cordeiro Carvalho. «O frontispício beneficiou, então, do portal de mármore e do óculo que ainda hoje se observa, bem como da sineira, no mesmo eixo e sobre a cornija…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Doutora Rosário Cordeiro Carvalho

As grandes campanhas do século XVIII«

«(…) No final do século XVII, a confraria beneficiava de uma situação financeira muito confortável que lhe permitiu iniciar uma série de melhoramentos e actualizações estéticas na igreja. Muito embora este já não exista, há notícia de que em 1689 foi encomendada nova tribuna e trono para o altar-mor, ao entalhador de Vila Viçosa, Bartholomeu Días, cujo montante, de acordo com os pagamentos efectuados, importou em 67.400 reais. Dois anos depois, em 1691, procedeu-se ao seu douramento, executado por Agostinho Mendes, de Elvas. Seguiu-se aquela que pode ser considerada a primeira grande encomenda, onde se percebe a intenção e o desejo de actualização do espaço da igreja. Nela se incluem os azulejos, assinados por Manuel Santos em 1723; o novo retábulo-mor, também de 1723 e, muito possivelmente, os retábulos colaterais. As divergências entre os investigadores quanto  às autorias e datações quer dos azulejos quer da talha, não invalida o facto deste programa ter sido executado sensivelmente na mesma data e constituir o primeiro e mais significativo esforço da confraria no sentido de criar um espaço unificado e apelativo, com uma mensagem directa e precisa, capaz de chegar a todos os que frequentavam a igreja, fossem eles irmãos ou beneficiados das actividades da confraria. A campanha azulejar, à qual se regressará em pormenor, foi responsável pelo revestimento total dos panos murários do sub-coro, nave, capela-mor e coro alto do templo, marcando uma presença muito forte neste interior. Quanto ao retábulo-mor, atribuído por Ayres Carvalho a Claude Laprade, nunca chegou a ser dourada devido aos elevados custos que isso implicava, acabando por ser pintado, em 1777, por Eugenio Mendes e Ignacio José Mendes, de Elvas, por 88 515 reis.

Estudos mais recentes inscrevem este trabalho no contexto e no esquema compositivo dos retábulos contemporâneos das restantes igrejas de Olivença, atribuídos ao entalhador lisboeta Manuel Francisco, caracterizando-se pela profundidade e gradação das colunas, que convergem para a tribuna do sacrário, exibindo, de forma genérica, símbolos eucarísticos e temática mariana. Note-se o facto da sua cornija ter continuidade na própria cornija da igreja, facto que revela o cuidado e a união entre os diversos elementos, decorativos e estruturais.

Os retábulos das capelas laterais são dedicados ao Pentecostes, do lado do Evangelho e à Misericórdia, do lado da Epístola, cujas imagens são representadas num painel central em baixo relevo. O primeiro foi pintado, apenas, em 1777 a expensas do capelão Bernardo Doreguo, e o segundo nunca chegou a ser nem dourado nem pintado. Cerca de uma década mais tarde, a Mesa decidiu intervir ao nível da arquitectura do edifício, contratando, para tal, os mestres de Olivença António Lopes, Manuel Laurenço y Joseph Lopes que, a partir de 1732, intervieram ao nível da fachada e das abóbadas do templo. O frontispício beneficiou, então, do portal de mármore e do óculo que ainda hoje se observa, bem como da sineira, no mesmo eixo e sobre a cornija de remate do alçado. Não é possível determinar com exactidão se os trabalhos foram mais abrangentes, mas o facto das paredes do templo já se encontrarem revestidas por azulejos indicia intervenções pontuais, uma vez que fazia pouco sentido mexer ou intervir sobre uma obra recente, correndo o risco de a destruir parcialmente». In Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Igreja da Misericórdia de Olivença, Caso de Estudo, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia

JDACT, Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Caso de Estudo, Castelo de Vide, Património, Conhecimento, 

Igreja da Misericórdia de Olivença. Maria do Rosário Cordeiro Carvalho. «As campanhas de obras na nova sede iniciaram-se, muito possivelmente, em 1548. O plano de trabalhos encomendado a Ayres Quintall…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Doutora Rosário Cordeiro Carvalho

Da fundação da Misericórdia de Olivença à construção da actual igreja

«A data apontada para a fundação da Misericórdia de Olivença é a de 20 de Novembro de 1501, na sequência da carta enviada por dom Manuel I aos municípios a fim de recomendar e encorajar a criação de confrarias à imagem da que havia sido constituída em Lisboa. De acordo com esta memória, existente no arquivo da confraria, esteve presente o escudeiro Álvaro Guarda, enquanto enviado do monarca. A primeira referência a esta Misericórdia na Chancelaria régia, relativa a um privilégio, remonta a 30 de Março de 1515. Desde então, os reis concederam uma atenção particular à confraria, concedendo-lhes vários privilégios e contribuindo para as diversas obras promovidas. Nos primeiros anos da sua existência, a Misericórdia de Olivença conheceu diversas sedes, até se instalar naquela que passou a ser a sua própria igreja, à época extramuros da muralha de dom Dinis. A primeira foi a Casa Consistorial, situada na Praça de Santa Maria do Castelo, erguendo-se, pouco depois, uma capela na igreja de Santa Maria do Castelo, onde os irmãos passaram a reunir-se. A confraria foi ganhando um peso e uma importância progressiva, que encontraram na doação dos bens do padre Fernão Afonso, em 1511, o seu primeiro grande impulso. Na verdade, até aí a Misericórdia vivia de esmolas dos particulares, mas esta doação veio iniciar um processo de dádivas, responsável pela criação de um património considerável.

Todavia, a ameaça de ruína da igreja do Castelo, a inexistência de uma outra que pudesse receber a instituição e o aliciante de unir várias confrarias, com a Misericórdia a absorver as mais reduzidas, conduziu a que, em 1520, o monarca tenha ordenado a sua transferência para a ermida do Espírito Santo. Este templo, de construção anterior ao século XVI, acolhia, para além da confraria do Espírito Santo, a de Nossa Senhora do Sábado. As campanhas de obras na nova sede iniciaram-se, muito possivelmente, em 1548. O plano de trabalhos encomendado a Ayres Quintall previa, ao que tudo indica, a reedificação e engrandecimento da igreja e a construção de um hospital anexo. Estas intervenções, que se prolongaram por todo o século XVI, contaram com o apoio dos diversos monarcas, através de privilégios e concessão de rendas.

De nave única com abóbada de canhão, a igreja dispõe de coro alto apoiado sobre arcada sustentada por colunas de mármore com capitéis jónicos, e capela-mor elevada em relação ao pavimento da nave, da qual se separa através de arco triunfal de volta perfeita.

Após esta primeira grande campanha, a Misericórdia de Olivença voltou a ser objecto de remodelações entre o final do século XVII e a primeira metade do século XVIII: de âmbito mais decorativo que estrutural, esta intervenção alterou por completo a percepção do espaço, transformando-o, através de um programa uno, numa obra de arte total, onde todos os elementos convergem no mesmo sentido iconográfico e sensorial». In Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Igreja da Misericórdia de Olivença, Caso de Estudo, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia

JDACT, Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Caso de Estudo, Castelo de Vide, Património, Conhecimento,

domingo, 26 de dezembro de 2021

As Igrejas de Castelo de Vide. Ruy Ventura. «Dar valor a uma igreja, ainda que pequena e humilde, mas histórica, é respeitar um passado que nos mantém de pé, pois faz parte das nossas raízes. Não há futuro sem passado»

Cortesia de ArquivodoNorteAlentejano e jdact

Com a devida vénia a Ruy Ventura e ao jornal Alto Alentejo

As Igrejas de Castelo de Vide fazem falta

«(…) É certo que em Castelo de Vide e no seu concelho nunca existiram igrejas dedicadas a São Martinho ou à Senhora da Saúde (como alguém escreveu), mas o valor memorial e patrimonial de igrejas e capelas como as que existem no concelho alentejano é algo que não pode ser desperdiçado seja por quem for. Desde uma igreja de Santiago (que investigadores internacionais já identificaram como uma antiga mesquita) à do Salvador do Mundo (anterior à nacionalidade e ligada ao cristianismo moçárabe), passando pelo Senhor do Bonfim (com um admirável conjunto de pinturas murais), ao Bom Jesus e à Senhora do Carmo (com retábulos que urge estudar, restaurar e divulgar, no âmbito da comunidade de artistas que existiu em Castelo de Vide nos séculos XVII e XVIII), a Santo Amaro (uma admirável igreja barroca!), às medievais São Roque e Santo Amador e a muitas outras, há um imenso conjunto de oportunidades a explorar, no âmbito de uma religiosidade aberta, de um turismo religioso e cultural e de uma estratégia inteligente de desenvolvimento local. É um erro pensar que as igrejas só merecem estar de pé enquanto lá se celebrar missa todos os domingos. Não foram construídas para isso. A maior parte delas, desde o dia da sua inauguração, só teve eucaristia uma vez por ano (ou no dia da sua festa ou no dia do sufrágio de quem lá estava enterrado, em geral os seus fundadores). A sua manutenção era assegurada por um ermitão, que aí vivia de graça e em troca de habitação gratuita tinha de assegurar a abertura de portas aos fiéis. Hoje em dia serão usadas de outro modo, com fins distintos. Não serão todavia menos dignos.

Dar valor a uma igreja, ainda que pequena e humilde, mas histórica, é respeitar um passado que nos mantém de pé, pois faz parte das nossas raízes. Não há futuro sem passado. É muito urgente dar valor a este e a outros patrimónios, sobretudo num tempo em que motivações espúrias querem purificar a nossa memória, derrubando e vandalizando estátuas e pessoas, levando-nos para a barbárie. Acredito que os negócios sejam sedutores, que a pressa de resolver situações seja má conselheira, que a imaginação nem sempre seja abundante, que pressões várias, nem sempre legítimas, façam esquecer o dever maior. Não é por acaso que o Direito Canónico afirma só ser válida a alienação de ex-votos oferecidos à Igreja, ou de coisas preciosas em razão da arte ou da história com licença expressa da Santa Sé, permitindo todavia que, além do culto, da piedade e da religião, o bispo diocesano permita nas igrejas outros actos ou usos, que não sejam contrários à santidade do lugar. Mesmo que as circunstâncias tenham levado à perda da bênção do local, é sempre possível dar-lhes um uso digno que respeite a sua integridade memorial, arquitectónica e artística. Há exemplos vários disso mesmo no Alentejo e no país, alguns bem perto. Não é preciso reinventar a roda…

Um dos primeiros actos de São Francisco depois da sua conversão foi promover nos arredores de Assis a reparação da igreja de São Damião, que ameaçava ruína e estava abandonada. Para isso, vendeu tudo o que tinha e, segundo contam as suas biografias medievais, chegou a andar pela sua terra a pedir pedras para a reconstrução, prometendo recompensas divinas. Nem todos podemos chegar ao exemplo maior dos santos, mas, como me disse um dia, era eu adolescente, o saudoso cónego Justo, membro do cabido da Sé de Portalegre, se nem todos conseguimos ser santos, todos temos a obrigação de ser nobres e honrados. Haja nobreza de carácter, honra e humildade e a situação das igrejas de Castelo de Vide será resolvida a pouco e pouco pelos castelo-videnses, pelas suas autoridades civis e por quem dirige a sua paróquia. Não me passa pela cabeça que venham a ter uma atitude menos digna. O Paráclito os espicaçará». Ruy Ventura, As Igrejas de Castelo de Vide Fazem Falta, artigo publicado no jornal AltoAlentejo, 17/06/2020, Arquivo do Norte Alentejan.

Cortesia de JALentejo/RuyVentura/JDACT

JDACT, Património, Ruy Ventura, Cultura e Conhecimento, Castelo de Vide,

As Igrejas de Castelo de Vide. Ruy Ventura. «Desde que lhe retiraram as imagens aí veneradas, não mais foi reparada, limpa ou valorizada. Mas não é uma ruína. Não será muito difícil repará-la e dar-lhe nova vida…»

Cortesia de ArquivodoNorteAlentejano e jdact

Com a devida vénia a Ruy Ventura e ao jornal Alto Alentejo

As Igrejas de Castelo de Vide fazem falta

«Castelo de Vide é uma terra afortunada. Ao contrário de outras localidades, que ainda hoje lamentam os desvarios e vandalismos do passado, causadores da destruição de tantos edifícios valiosos, a terra de Salgueiro Maia detém no perímetro do seu concelho um património invejável seja sob que ponto de vista for. É, ainda, uma vila venturosa pelas gentes que nela habitam. Sem os castelo-videnses, teríamos no mesmo lugar do Alto Alentejo uma qualquer feia povoação, sem identidade e sem brilho, abastardada por uma sucessão de atentados urbanísticos e patrimoniais promovidos pelos seus habitantes e autorizados pelos serviços camarários. Felizmente, temos o contrário disso tudo, e essa realidade eleva a urbe aos olhos dos portugueses e dos estrangeiros. Entre as pessoas que dão vida a Castelo de Vide, há cidadãos de corpo inteiro que, ao longo do tempo, têm assumido a defesa do seu património. Se no passado não conseguiram evitar a demolição de uma parte das suas muralhas (e, nelas, da célebre Porta da Aramenha, proveniente da cidade romana de Ammaia), bem como de alguns edifícios religiosos, como a importante igreja do Espírito Santo ou a matriz antiga de Póvoa e Meadas, pode dizer-se que há uma linhagem de gente que não tem deixado destruir peças importantes da sua identidade artística e arquitectónica (popular ou erudita). Uns chegaram à investigação, à escrita e à publicação (César Videira, João António Gordo, Raposo Repenicado, Diamantino Sanches Trindade, Maria Guadalupe Alexandre, Diogo Salema Cordeiro, Jorge Rosa, Rosário Salema Carvalho, etc.); outros, mantendo-se mais ou menos na sombra, trabalharam de outro modo pela salvaguarda, valorização e divulgação do património da comunidade, que é parte integrante, diga-se, do património nacional. Nos últimos anos, merece especial relevo a actividade da associação denominada Grupo de Amigos de Castelo de Vide, que tem aliado a defesa dos interesses locais à edição de livros e à impressão do jornal Notícias de Castelo de Vide, também disponível na internet sob a forma de blogue.

Se alguém pensa, por isto, que Castelo de Vide precisa de mim para liderar a defesa do seu património, decerto tem uma visão desfocada da realidade do concelho. Como investigador, é certo que assinei artigos na Invenire, Revista de Bens Culturais da Igreja (editada pela Conferência Episcopal Portuguesa) em que estudei obras de arte e tradições da vila onde nasceu Garcia de Orta; destaquei a localidade no meu livro Santo António na Região de Portalegre; publiquei artigos sobre as ruínas da ermida de São Paulo e sobre a igreja de Santa Maria da Devesa (com algumas novidades históricas); divulguei uma parte dos textos tradicionais do concelho em vários cadernos editados com a literatura oral da Serra de São Mamede; dei destaque à literatura castelo-vidense na volumosa antologia Poetas e Escritores da Serra de São Mamede; e, sobretudo, investiguei a toponímia, a heráldica, a história e o património do concelho no livro A Vide e o seu Castelo, obra hoje esgotada, a precisar de reedição revista e muito aumentada. Tal trabalho, que tenciono continuar (nomeadamente no doutoramento em História da Arte que me ocupará nos próximos quatro anos), não me transforma no entanto num elemento imprescindível na luta pela defesa do património concelhio, embora não lhe vire a cara, ao não esquecer que uma parte dos meus antepassados nasceu nesse município. Agradeço a honra que me foi concedida em duas publicações vindas a lume no jornal Alto Alentejo, nas quais surjo como líder de um grupo de pessoas de Castelo de Vide, mas não a mereço. Se manifestei o meu repúdio público pelas intenções do pároco viti-castrense e de mais algumas pessoas em vender a abandonada igreja de São Miguel (situada na Serra que já teve o nome do Comandante das Milícias Celestes e principal defensor da Igreja e do povo de Israel), limitei-me a fazer eco de uma notícia criada e difundida pelo Grupo de Amigos de Castelo de Vide no jornal que publica. Partilhei a notícia no facebook e comentei-a, dando o meu apoio aos castelo-videnses, estupefactos perante um incompreensível e pouco claro ataque ao seu património medieval. É certo que difundi a notícia e pus os meus fracos préstimos à disposição dos defensores do património local, mas nada fiz que outros não tivessem feito. O seu a seu dono…

Há quem defenda publicamente que as igrejas de Castelo de Vide não fazem falta. Permito-me discordar. Fazem tanta falta quanto as muralhas de várias épocas que envolvem a vila, quanto o castelo que lhe deu nome, quanto as antas e outros vestígios arqueológicos que povoam o município, quanto o pelourinho que se ergue em frente aos Paços do Concelho, quanto muitas tradições seculares que dão identidade à urbe. Diria mesmo que, dado o seu estatuto, fazem até mais falta. Com o que digo, não estou a estabelecer uma hierarquia, mas apenas a dizer que uma estratégia pastoral imaginativa, dialogante e aberta já lhes teria dado utilidade comunitária além do seu valor patrimonial, pois se não há cultura sem culto, também não há culto sem cultura.

A igreja de São Miguel não está arruinada, como tem sido dito. Está apenas abandonada porque a abandonaram há várias dezenas de anos, entregando-a à sua sorte e às forças da natureza. Aconteceu o mesmo a outras ermidas castelo-videnses, o que se lamenta. Desde que lhe retiraram as imagens aí veneradas, não mais foi reparada, limpa ou valorizada. Mas não é uma ruína. Não será muito difícil repará-la e dar-lhe nova vida, associando-a talvez à ermida de Nossa Senhora da Penha, sua vizinha, que não tem espaço para lá se celebrar a eucaristia, nem no dia da festa, ou instalando aí um agrupamento de escuteiros ou… (os castelo-videnses saberão, e parece que a edilidade já está a dar bons passos no sentido de não se apagar esse património). Essa igreja, já existente no século XV, era local de encontro dos cristãos-novos na centúria de quinhentos, tendo assim um valor memorial inalienável. Com potencial arqueológico importante, ninguém nos garante que por debaixo da sua cal não haja surpresas. Não deve ser vista, todavia, como algo que se possa separar da sua envolvente, tanto próxima, onde avulta um entorno prodigioso do ponto de vista natural e paisagístico, quanto alargada. Pergunto: não seria possível criar uma rota do sagrado que envolvesse todos estes edifícios ainda de pé e mesmo aqueles de que já só sobram ruínas? Ou será melhor defender o que defendiam alguns cidadãos de Guimarães no século XIX, ao quererem demolir o castelo da cidade porque o progresso seria levantar ali um bairro operário?» Ruy Ventura, As Igrejas de Castelo de Vide Fazem Falta, artigo publicado no jornal AltoAlentejo, 17/06/2020, Arquivo do Norte Alentejano.

Cortesia de JALentejo/RuyVentura/JDACT

JDACT, Património, Ruy Ventura, Cultura e Conhecimento, Castelo de Vide,

terça-feira, 16 de março de 2021

Manuel Joaquim Amador Coelho (1945-2021). Maria Teixeira «… no ano lectivo de 1990/91, inicia a sua actividade universitária, como Assistente , tendo sido provido em 1993 a Professor Auxiliar Convidado, de Relações Internacionais…»

Singela homenagem a um grande amigo

Cortesia de D.R. e NCV

Com a devida vénia ao Notícias de Castelo de Vide

Memórias de um percurso profissional e de vida

«Manuel Joaquim Amador Coelho, natural de Castelo de Vide, estudou Ciências Sociais e Políticas no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, obteve o grau de Bacharel em História (3 anos) e de Licenciado em História Contemporânea (5 anos) pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa.

Auditor de Defesa Nacional, com o respectivo curso para Altos Funcionários do Instituto de Defesa Nacional (CDN 97/98), tendo ainda o Curso de Doutoramento em Relações Internacionais da Universidade Lusíada de Lisboa. Foi oficial do quadro de complemento da Força Aérea Portuguesa, tendo feito comissão de serviço em Moçambique. Foi Secretário-Geral do Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa (1976/1979). Foi Alto Funcionário e Quadro Dirigente dos Serviços de Cooperação do Ministério dos Negócios Estrangeiros, tendo ingressado na carreira técnico-superior em 1980.

Nos anos de 1980, 1981 e 1982 foi Adjunto do Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros no VI, VII e VIII Governos Constitucionais, tendo assessorado em matéria de assuntos africanos o próprio gabinete do ministro. Nos vinte anos seguintes, ao serviço do MNE participou em Comissões Mistas com todos os países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, Brasil e Timor, participou em numerosas reuniões bilaterais com países em desenvolvimento e integrou com regularidade delegações nacionais múltiplas em diversas reuniões no âmbito das Nações Unidas (em especial nas sessões da Primavera e do Outono), União Europeia, Banco Mundial, Organização da Cooperação para o Desenvolvimento Económico, Comunidade de Países de Língua Portuguesa e Cimeiras Ibero-Americanas.

Participou no Seminário sobre Relações entre Portugal e os Países de Língua Oficial Portuguesa, realizado na Fundação Gulbenkian pelo Instituto de Ciências Sociais, em 1985, tendo proferido a comunicação A Cooperação Económica do EstadoFoi conferencista aquando da deslocação da delegação portuguesa a Viena de Áustria para o XI Congresso do Centro Europeu da Empresa Pública, 1987, tendo proferido intervenção subordinada ao tema Portugal – CEE - África LusófonaFoi conferencista no Instituto de Altos Estudos da Força Aérea, onde apresentou a comunicação Panorâmica da Cooperação Portuguesa, 1988. A partir dos anos noventa passa a assumir a chefia dos serviços multilaterais da Cooperação com especial incidência nas áreas que relevam à C.P.L.P. e Cimeiras Ibero-Americanas.

Simultaneamente às funções desempenhadas no Ministério dos Negócios Estrangeiros, no ano lectivo de 1990/91, inicia a sua actividade universitária, como Assistente , tendo sido provido em 1993 a Professor Auxiliar Convidado, de Relações Internacionais e de Estudos do Desenvolvimento da Universidade Moderna de Lisboa, ministrando a cadeira de Cooperação Internacional e o Seminário do 4.º ano sobre Portugal na Geopolítica do Desenvolvimento, ao 3.º e 4.º ano da licenciatura em Gestão do Desenvolvimento e Cooperação Internacional, tendo mais tarde passado a leccionar as cadeiras de História Económica e Social e História Contemporânea respectivamente das licenciaturas de  Gestão e Estudos Europeus e Internacionais.

Entre 1992/93 e 2001/02 exerce também funções como coordenador e orientador de Estágios Curriculares de Licenciatura e, na qualidade de docente do Departamento de Ciências Sociais e Políticas, integra a partir de 1998 o Conselho Pedagógico da Universidade, tendo sido seu Vice-Presidente até 2008. Foi Presidente do Centro Internacional Cooperação para o Desenvolvimento (ONGD). Foi Sócio Efectivo da Sociedade de Geografia de Lisboa, tendo integrado a sua Comissão de Relações Internacionais.

Foi agraciado com a Cruz de Mérito da Ordem pró Mérito Melitensi, da Ordem Soberana e Militar de Malta. Recebeu ainda dois louvores do Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros pelas funções desempenhadas durante o VII e VIII Governos Constitucionais. Ao longo da sua vida profissional publicou vários ensaios e artigos no jornal África, na revista Democracia e Liberdade, na revista África Lusófona, no semanário Tempo, nas publicações da Fundação Calouste Gulbenkian e do Instituto de Defesa Nacional» In Maria Teixeira

Cortesia de Maria Teixeira/NCdeVide/D.R.

Maria Teixeira, Alexandre Cordeiro, Castelo de Vide, Manuel Joaquim Amador Coelho, Cultura e Conhecimento, JDACT,

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Poesia Obsessão. Francisco Bugalho. «Sobre um lago, onde em sossego as águas olham o céu, roça a asa de um morcego... E ao longe o cantar morreu»


Cortesia de wikipedia e jdact

Obsessão
«Dentro de mim canta, intenso,
Um cantar que não é meu:
Cantar que ficou suspenso,
Cantar que já se perdeu.

Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido:
Cantar que passa perdido,
Que não é meu estando em mim.

Depois, sonâmbulo, sonho:
Um sonho lento, tristonho,
De nuvens a esfiapar...
E, novamente, no sonho
Passa de novo o cantar...

Sobre um lago, onde em sossego
As águas olham o céu,
Roça a asa de um morcego...
E ao longe o cantar morreu.

Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido...
E este cenário partido
Volta a voltar, repetido,
E o cantar recanta em mim».
Francisco Bugalho, in Margens

In Citador/Wikipedia