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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Jazz no 31. Dianne Reeves. «Com nove palavras ocas escrevi meu testamento, palavras que nove bocas ditaram a rir ao vento… São amor, sonho doçura, beijo, carinho e prazer, esp’rança, riso, ternura e mais que não sei dizer»

jdact


JDACT

Poesia no 31. Maria Manuel Cid. Chamusca. «Tens a massa dos meus credos em tuas mãos, comprimida, deixa correr p’los teus dedos, mais um pedaço de vida!... Uma hora, só mais uma, feita de riso ou de dor… E que nela se resuma, toda uma vida de amor!»

jdact e claudiamargarida

Eu quisera lavar o pensamento
«Sou feita de temor e ansiedade
em tudo vejo aquilo que não presta
uma saudade atrás doutra saudade,
porque a saudade é tudo o que me resta.

E quando me convenço que estou morta,
ela me faz viver mais outro dia,
corre no sangue ainda gota a gota
para tornar maior esta agonia...

Como a água do mar leva as areias
eu quisera lavar o pensamento,
escorrer de mim o sangue destas veias
e vazia partir atrás do vento...


Em vez de chorar eu canto
«Esta voz amargurada,
nascida dentro de mim,
embora não seja nada,
é tristeza repassada
duma amargura ruim...

Mata o desprezo qu’a vida
nos faz sentir por alguém,
torna a saudade esquecida,
dando à alma já perdida,
a crença que lhe faz bem...

E quando a alma pergunta
se o meu cantar é condão,
eu digo qu’a gente canta
porque nos saem p’la garganta
as mágoas do coração...

Por isso é triste o meu fado,
por isso lhe quero tanto...
E porque sou desgraçado,
ao sentir-me amargurado,
em vez de chorar... eu canto...

Poemas de Maria Manuel Cid, Chamusca, in ‘Poemas

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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Poesia. A Vida Breve. «Súbdito inútil de astros dominantes, passageiros como eu, vivo uma vida que não quero nem amo, minha porque sou ela, no ergástulo de ser quem sou, contudo, de em mim pensar me livro, olhando no alto os astros que dominam submissos de os ver brilhar»

jdact

Porque Nascemos
Nesta terra se criaram
desde tempos que lá vão,
os forcados que lidaram
em grupos com tradição.

Para quê viver maltes
quem nasceu no mesmo lar?
E pensaram desta vez
que era aqui o seu lugar…

Na Chamusca começou
o seu grupo de forcados,
com os filhos que gerou
e os que foram adoptados…

Muitos são saudade agora
 - pois a vida é como é -
mas de novo a toda a hora
mais lhe dão orgulho e fé.

Meninos de sua Mãe
todos juntos, não dif'rentes,
sabe a Chamusca que tem
no seu grupo de valentes…


Triste Despedida
É triste para mim a despedida,
enorme toda a dor desta saudade,
chegar como cheguei ao fim da vida
e não poder voltar à mocidade...

Se tivesse outra vida p'ra viver,
se Deus me desse a voz que já perdi,
voltava firmemente a percorrer
o trilho que na vida percorri...

Não fiz nunca do fado profissão,
cantava p'ra dizer o que sentia,
cantava por amor e devoção...
Só podia cantar quando sofria.

Agora já velhinho e cansado,
a meus filhos deixei a minha lida,
em suas mãos entrego este meu fado
que foi toda a razão da minha vida...

E tenho esta certeza que me dá
a nobre condição do meu viver:
Alfredo Marceneiro viverá...
Enquanto o velho fado não morrer.

Poemas de Maria Manuel Cid, in ‘Poemas

JDACT

sábado, 19 de janeiro de 2013

Poesia. Chamusca. Maria Manuel Cid. «Talvez que eu parta chorando da terra que me criou, ou então de quando em quando minh'alma volte cantando na voz de quem me cantou...»



jdact

A Sombra dos Teus Desejos
Ai que bom, que bom seria,
ter morrido nesse dia
e não ter de recordar!
Vieste dizer-me adeus
sem pôr teus olhos nos meus...
Partiste p'ra não voltar...

Vive meu corpo sozinho,
dobrado sobre o caminho,
onde meu sonho morreu;
dei-te o amor mais profundo,
tudo o que tinha no mundo...
Fiquei mais perto do céu...

Meus olhos choraram tanto,
ficaram secos de pranto,
tristes, pesados e baços...
Sinto o sabor dos teus beijos,
a sombra dos teus desejos,
mais o calor dos teus braços...

Tu levaste a minha vida
e ficaria perdida
se a tens deixado comigo;
porque a matéria não pensa,
qu’importa a tua presença?!...
Minh’alma vive contigo…


Talvez que eu parta chorando
Da terra que me criou,
Ou então de quando em quando
Minh'alma volte cantando
Na voz de quem me cantou...


Vou Pegar Esta Corrida
Acompanha-me Senhor
com piedade e amor,
dai-me pois a tua mão,
vou pegar esta corrida
guarda Senhor minha vida
Quinta-Feira d'Ascensão...

Sou destemido, sou forte,
e mesmo que não m'importe
na cara dum toiro morrer,
tenho mãe que chora ausente
tenho pai que por mim sente
o coração a bater...

Assim rezo aos pés da cruz,
e dela me vem a luz
a coragem que me obriga
esta minha alma pequena
a pisar terra d'arena
em quinta-feira d'espiga...
Poemas de Maria Manuel Cid, in ‘Poemas

Poemas, Obra Completa de Maria Manuel Cid, Autoria de Maria Manuel Cid, MG Editores, Edição de Maio de 1999, ISBN 972-8471-19-X. 

JDACT

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Hoje, só Poesia. Maria Manuel Cid. «Se o meu cantar é condão, eu digo qu’a gente canta porque nos saem p'la garganta as mágoas do coração...»


jdact

Em vez de chorar eu canto
Esta voz amargurada,
Nascida dentro de mim,
Embora não seja nada,
É tristeza repassada
Duma amargura ruim...

Mata o desprezo qu’a vida
Nos faz sentir por alguém,
Torna a saudade esquecida,
Dando à alma já perdida,
A crença que lhe faz bem....

E quando a alma pergunta
Se o meu cantar é condão,
Eu digo qu’a gente canta
Porque nos saem p'la garganta
As mágoas do coração...

Por isso é triste o meu fado,
Por isso lhe quero tanto...
E porque sou desgraçado,
Ao sentir-me amargurado,
Em vez de chorar... eu canto...

Cegueira
Se tenho guardado a vida
Que tanta vez me ofertaste,
Não estava agora perdida
A minha, que não guardaste...

Fui louca por te não crer,
Fui louca por desprezar-te,
Mais louca por não saber
Qu'o meu destino era amar-te...

E tanto corri às cegas
Que fui ter à tua porta,
Agora és tu que me negas,
O amor que me conforta...

A tua terna afeição
Foi tanta vez desprezada
que desfiz teu coração...
Não podes dar-me mais nada.

Olho o tempo mais além...
E da vida, o que me resta?...
Deitei fora todo o bem,
Só guardei o que não presta...
Poemas de Maria Manuel Cid, in «Poesia»

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sábado, 11 de junho de 2011

Maria Manuel Cid: A Poetisa da Chamusca. A Querida «Mimela» de voz terna e afável. Quando morrer rosas brancas para mim ninguém as corte, se não as tive na vida, para que as quero na morte?

Cortesia de antonioteles

Para ti, guitarra 
Meus versos, pobres versos sem talento,
não têm arte, nem valor, nem garra;
brotaram de repente, no momento
rm que ouvi chorar uma guitarra!

Saem da alma, água cristalina,
duma corrente que caminha à toa,
que rompe a dura face da colina
e fica prisioneira da lagoa...

São versos simples, como simples sou,
sem outro encanto que não seja amar,
singelas frases em que tudo dou...
Ficando triste por tão pouco dar.

Por ti, me fiz assim, como poeta...
E podes crer que me senti feliz;
se guardo no peito uma dor discreta,
para ti, guitarra, os meus versos fiz...
Maria Manuel Cid, in «Poemas»



Talvez que eu parta chorando
Da terra que me criou,
Ou então de quando em quando
Minh'alma volte cantando
Na voz de quem me cantou...

Poemas, Obra Completa de Maria Manuel Cid, Autoria de Maria Manuel Cid, MG Editores, Edição de Maio de 1999, ISBN 972-8471-19-X. Obra adquirida em 1 de Junho de 2000.

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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Maria Manuel Cid: A Poetisa da Chamusca. A Querida «Mimela» de voz terna e afável. Quando morrer rosas brancas para mim ninguém as corte, se não as tive na vida, para que as quero na morte?

Cortesia de antonioteles

Eu quisera lavar o pensamento
Sou feita de temor, e ansiedade
Em tudo vejo aquilo que não presta
Uma saudade atrás doutra saudade,
Porque a saudade é tudo o que me resta.

E quando me convenço que estou morta,
Ela me faz viver mais outro dia,
Corre no sangue ainda gota a gota
Para tornar maior esta agonia...

Como a água do mar leva as areias
Eu quisera lavar o pensamento,
Escorrer de mim o sangue destas veias
E vazia partir atrás do vento...
Maria Manuel Cid

Talvez que eu parta chorando
Da terra que me criou,
Ou então de quando em quando
Minh'alma volte cantando
Na voz de quem me cantou...

Em vez de chorar eu canto
Esta voz amargurada,
Nascida dentro de mim,
Embora não seja nada,
É tristeza repassada
Duma amargura ruim...

Mata o desprezo qu’a vida
Nos faz sentir por alguém,
Torna a saudade esquecida,
Dando à alma já perdida,
A crença que lhe faz bem...

E quando a alma pergunta
Se o meu cantar é condão,
Eu digo qu’a gente canta
Porque nos saem p'la garganta
As mágoas do coração...

Por isso é triste o meu fado,
Por isso lhe quero tanto...
E porque sou desgraçado,
Ao sentir-me amargurado,
Em vez de chorar... eu canto...
Maria Manuel Cid

Cortesia de mariamanuelcid

Cortesia de Poemas, Obra Completa de Maria Manuel Cid, Autoria de Maria Manuel Cid, MG Editores, Edição de Maio de 1999, ISBN 972-8471-19-X.

Obra adquirida em 1 de Junho de 2000.

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terça-feira, 28 de setembro de 2010

Maria Manuel Cid: A Poetisa da Chamusca. A Querida «Mimela» de voz terna e afável. Quando morrer rosas brancas para mim ninguém as corte, se não as tive na vida, para que as quero na morte?

Cortesia de antonioteles

O melhor de todos nós

O teu calção d'oiro antigo
No teu corpito, forcado,
Lembra a seara do trigo
Antes do pão ser cortado...

A jaqueta de ramagem
Onde sonhando antevejo
Toda a cor, toda a imagem
Dos campos do Ribatejo...

Por ser poeta vos tenho
Como pendão duma raça,
Por isso vos acompanho
Quando toureiam na praça...

Sois de mim o que não posso
Ser por mim sem vós o ser,
Sois a vida que remoço
Na vida que vais viver...

A coragem que se atreve
A sustentar a raiz,
A força que pode e deve
Renovar o meu País...

Sois heróis sem fazer guerra,
Sois antes e sois após,
Sois enfim da nossa terra
O melhor de todos nós...

 
Maria Manuel Cid
 
Talvez que eu parta chorando
( ... )
Na voz de quem me cantou...
 
Cortesia de Poemas, Obra Completa de Maria Manuel Cid, Autoria de Maria Manuel Cid, MG Editores, Edição de Maio de 1999, ISBN 972-8471-19-X. Obra adquirida em 1 de Junho de 2000.

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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Maria Manuel Cid: A Poetisa da Chamusca. A Querida «Mimela» de voz terna e afável. Quando morrer rosas brancas para mim ninguém as corte, se não as tive na vida, para que as quero na morte?

Cortesia de antonioribeirotelles

As velas do Altar não deram Luz
No branco imaculado d'açucenas
Eu vejo o negro manto que me envolve
E para mim os sonhos são apenas
Enganos que a certeza não resolve.

Até no próprio bem eu alcancei
A forma de fazer o que não espero
E parto a descobrir o que não sei,
Ficando a conhecer o que não quero.

Tentei, então, rezar porque supus
Sentir o meu sentir o que perdeu;
As velas do altar não deram luz
E a porta do sacrário emudeceu.

E torno à vastidão desconhecida
D'alguém que já não crê, que já não sabe;
Minha alma fica assim como despida
Da graça de pedir o que lhe cabe...
Maria Manuel Cid, «In Poemas»

Recordações
Tenho um Cristo de madeira
Num oratório de pau-santo
E na minha cabeceira
Nossa Senhora do Pranto.

Numa jarra conservei
Um raminho encantador
Que tu me deste e guardei
Aos Pés de Nosso Senhor.

E na Parede caiada
A guitarra de Lisboa,
Uma estampa de caçada
E dois quadros de Malhoa.

Na mesma moldura guardo,
Ao lado de minha Mãe,
A letra deste meu fado
E o teu retrato também.

E no coração que abraça
A tristeza que Deus quis,
Por atavismo da raça,
Os males do meu País...
Maria Manuel Cid, «In Poemas» 
 
  Talvez que eu parta chorando
Da terra que me criou,
Ou então de quando em quando
Minh'alma volte cantando
Na voz de quem me cantou...

Cortesia de Poemas, Obra Completa de Maria Manuel Cid, Autoria de Maria Manuel Cid, MG Editores, Edição de Maio de 1999, ISBN 972-8471-19-X.
Obra adquirida em 1 de Junho de 2000.
JDACT

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Maria Manuel Cid: A Poetisa da Chamusca. A Querida «Mimela» de voz terna e afável. Quando morrer rosas brancas para mim ninguém as corte, se não as tive na vida, para que as quero na morte?

Cortesia de AntónioRibeiroTeles

A última faena
Toca o sentido nas almas
O cornetim das corridas,
E no silêncio das palmas
Há muitas rosas caídas...

Foi Manuel, o toureiro,
Na festa da despedida,
Que num gesto derradeiro
Corta a coleta da vida...

Sopra do monte, ao bravio,
Uma rajada d'amor,
As duas margens do rio
Comungam na mesma dor.

E na terra mais toureira
Onde o toureiro se tornou,
A faena derradeira
Foi aos ombros que acabou...

Talvez o céu se desculpe
Num quadro de "Rafael":
A Virgem de Guadalupe
Chorando... por Manuel...
Maria Manuel Cid, in Poemas, ao toureiro Manuel dos Santos

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sábado, 17 de julho de 2010

Maria Manuel Cid: A Poetisa da Chamusca. A Querida «Mimela» de voz terna e afável. Quando morrer rosas brancas para mim ninguém as corte, se não as tive na vida, para que as quero na morte?

Chamusca
Cortesia de antonioribeirotelles

Voar a dois
Amar é ser criança a vida inteira
Amar é ser assim como um cristal,
É ver abrir em flor uma roseira,
E ver a vida à luz de um ideal.

Sentir o coração batendo certo
Com outro coração ir a compasso,
Seguir na escuridão destino aberto,
Poder voar a dois no mesmo espaço.

Juntar partes iguais da mesma vida,
Dois corpos, num só corpo confundir,
Fechar com beijos loucos uma ferida,
As portas da coragem reabrir...

Deixar passar o vento no telhado
Sem nunca abandonar o mesmo ninho,
Sentir que se vai seguro e amparado,
Chegar ao fim sem desviar caminho...

A minha rosa
Minha rosa, meu raminho,
Minha boneca de corda,
Meu canto, meu passarinho
Saltitando à minha roda.

Mas que beleza trigueira,
Mas que veludo na face,
Mas que menina brejeira...
Um beijo pede-se e dá-se.

Nesse dia afortunado
Que te achei e te colhi,
O teu fato era bordado
E com ele me vesti.

Eras botão e agora
Cada vez és mais formosa...
E comigo, a toda a hora,
Trago no peito uma rosa.

Talvez que eu parta chorando
Da terra que me criou,
Ou então de quando em quando
Minh'alma volte cantando
Na voz de quem me cantou...

Cortesia de Poemas, Obra Completa de Maria Manuel Cid, Autoria de Maria Manuel Cid, MG Editores, Edição de Maio de 1999, ISBN 972-8471-19-X.
Obra adquirida em 1 de Junho de 2000.
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